Vida Cristã - Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil - OFM

Maio 2017

I. PARA COMEÇO DE CONVERSA

Ele vive! Ele está no meio de nós!

 

A página de abertura de nossa Revista Eletrônica, edição de maio, é oferecida aos leitores no Tempo Pascal. Durante todo este mês, nos dias de semana e aos domingos, somos convidados a compreender melhor a ressurreição do Senhor.

Alguns dos livros mais importantes publicados recentemente no universo cristão foram escritos por Tomás Halik, da Tchecoslováquia. Entre eles está Paciência com Deus – Oportunidade para um encontro (Paulinas, 2015). Neste Tempo Pascal, convém refletir sobre algumas considerações do autor nesta publicação sobre o tema da ressurreição do Senhor. É o teor deste nosso começo de conversa.

Sempre necessário e oportuno refletir sobre a ressurreição de tudo tem a ver com nossa vida. Não acreditamos na reanimação de um cadáver. Cremos que o Pai arrancou Jesus da morte, que Ele vive e está no meio de nós.

“Ter fé na Ressurreição significa aceitar “essa força que se manifestou na debilidade”, a força do sacrifício de Cristo, o seu amor sacrifical como uma realidade viva. Não acreditar na Ressurreição de Cristo é viver como se a cruz fosse o fim último, como se a vida de Cristo e seu sacrifício fossem um fiasco total, uma derrota absurda e sem sentido, algo que não pode inspirar ninguém. Viver assim significaria “esvaziar a cruz de Cristo de sentido”, não aceitar a graça oferecida, “não acreditar na Ressurreição”, e fecharmo-nos à salvação. Significaria “permanecer no sepulcro” e agora, na vida presente, não entrar na novidade e na plenitude da vida que Cristo abriu com sua vitória sobre a morte -, e provavelmente perder a esperança de que nada me poderá excluir dessa nova vida (eterna) a não ser o meu pecado, a não ser minha livre recusa” (p. 157).

Somos a assembleia, o grupo, a Igreja do Ressuscitado. Não constituímos uma administração de coisas piedosas e religiosas, confortantes e “analgésicas”. Somos a comunidade do Ressuscitado. Temos a certeza de que um dinamismo de vida toma conta de nós. Nossa vida está escondida em Cristo Jesus. No lusco-fusco da fé, vivemos na força do Ressuscitado.  Nossa vida, como diz Paulo, está escondida em Cristo Jesus.

Uma força que se manifestou na debilidade da humanidade de Jesus e que continua a se visibilizar naqueles que, imersos na morte e ressurreição do Senhor, continuam sua Presença. Estes também o fazem em sua debilidade. A fé dos que aderem ao Crucificado-Ressuscitado é motor de esperança para todos que têm certeza que o sepulcro está vazio.

A ressurreição de Jesus só é visível aos olhos da fé:

“A vitória de Cristo sobre a morte é, verdadeiramente, um acontecimento de um cariz especial e não “apenas um acontecimento”. Aquilo que o distingue de outros fatos históricos é o fato de ser visível apenas os olhos da fé – e porque no aqui e agora, a própria fé só vê todas as coisas de Deus de modo parcial e como num espelho, deve ser sustentada nas trevas de nossa vida pela paciência e pela perseverança da esperança (p. 158).

A ressurreição de Cristo não é um capítulo acabado, mas um “texto” que ainda continua sendo escrito:

“Nenhuma experiência, razão ou sentidos humanos poderiam fazer rolar sozinhos a pedra que oculta os mistério da Ressurreição; só a fé sustentada pela esperança e pelo amor, pode ouvir a mensagem da Ressurreição. Esse acontecimento está oculto, permanece invisível. No hino Exultet, cantamos que só a noite conheceu a hora em que ele teve lugar, mas no meio da história, ele, o Ressuscitado deve estar presente mediante o testemunho daqueles que dão a conhecer que Cristo não é um acontecimento acabado”  ( p. 158).

Ele continua no meio de nós…

Concluamos “para começo de conversa” com um texto biblista-pastoralista:  “Pelo fato de Jesus ter ressuscitado no primeiro dia da semana (Mc 16,2) os cristãos vão celebrar seu memorial no primeiro dia de cada semana (Jo 20, 19.26; At 20,7; Ap 1,10) . A Boa Nova anunciada às nações é bem esta: a participação de todo homem na ressurreição do Filho, no Espírito. “Se Cristo não ressuscitou é vã nossa fé, não se cansa de repetir Paulo, em cada uma de suas cartas. O Cristo ressuscitado que Paulo encontrou na estrada de Damasco não é visível a todos. Sua vinda se faz esperar e sua manifestação é objeto de fé e esperança. É o tempo da paciência, da vigilância esperando a vinda do Senhor e a expansão da ressurreição a todo criatura” (Rm 8, 18-25). Cada domingo a comunidade celebra o Senhor. Ela antecipa na Eucaristia a refeição dos novos céus e da nova terra, quando Cristo ressuscitará toda a humanidade, seu corpo” (François Tricard, Les dossiers de la Bible, n. 27, março de 1989, p.25).

II. LEITURA ESPIRITUAL

Silêncio e escuta (I)

 

Guarda silêncio, Israel,
e escuta (Dt 27,9)

 

 

Vamos fazer algumas reflexões sobre o tema do silêncio como espaço de humanização. Não se trata de um silêncio-mutismo, mas em espaço de escuta e de resposta aos outros e ao Outro. Começamos neste número e continuaremos nos seguintes.

Desnecessário dizer que vivemos um tempo de desarrumação da pessoa. Há ruídos externos e tumulto interior. As pessoas desaprenderam a arte de escutar, mas escutar para que alguma coisa atinja seu íntimo mais íntimo. Pensamos aqui no encontro do homem consigo, com os outros e com uma Presença que não pode ser percebida no tumulto das coisas.

A palavra é uma das formas fundamentais da vida humana. Outra forma é o silêncio, que é também um grande mistério. As duas realidades constituem uma só. Falar significativamente só pode aquele que sabe calar. De outra forma o que acontece uma tagarelice vazia. Calar significativamente pode somente aquele que sabe falar. De outra forma é mudo. Nestes dois mistérios, no calar e no falar, vive o homem. A essência do homem se faz nos dois mistérios (Romano Guardini).

A palavra tem força. Eu te quero bem. Saia de minha frente. Nunca mais ponha os pés aqui. Fala, tua fala, me dá vida… Uma vez pronunciada, a palavra permanece: “Alguns afirmam que uma vez dita, a palavra morre. Digo o contrário. A palavra começa a existir quando é pronunciada” (Emily Dickson). Uma vez acolhida, a palavra deixa rastro.

Fomos jogados na existência, na aventura da vida. Estamos envolvidos por todas as partes com preocupações, envolvidos num cortejo de pequenas coisas. Há eventos portadores de um amanhã e outros que obstruem nossa estrada rumo ao sol. Há esse dia imediato, desgastante, de coisas pequenas, de redução de nossa estatura humana, de fatos e situações que nos desumanizam. Há esse comprar, vender, chorar, amar, odiar, olhar, simplesmente viver. Há esse dilaceramento de nosso ser de querer o bem e fazer o mal, mas, há essa rotina que não nos deixa pensar. Há vozes que me dizem: “Conhece-te a ti mesmo”. Há pessoas que andam dizendo, ou tentando dizer: “Coragem, vai adiante”. Ou: “Preciso de teu olhar e de tua atenção”. Há a palavra da Escritura: “Oxalá ouvísseis hoje a voz e não endureçais o vosso coração”.

As reflexões deste parágrafo não falam do silêncio/barulho como tal, mas descrevem a situação de pessoas que vivem dopadas pelo ruído interno e externo. Somos convidados a entrar em nós para poder ver, julgar e agir. Sem um afastamento do tumulto e da busca de uma qualidade de silêncio. Assim, vivemos o tempo do consumo e da gastança. Os mais sofisticados aparelhos se tornam obsoletos da noite para o dia. Há um convite para comprar o novo, adquirir o que pode dar status. Há pessoas que experimentam vergonha de ir ao casamento com o vestido que tinham usado numa festa do ano anterior. Preocupam-se demais com aquilo que os outros possam pensar. Pessoas que vivem em função da opinião dos outros. Há alguns que têm demais. Gastam comendo, bebendo, comprando aquilo que não é importante, juntando, acumulando. Acumulando aplausos pelas suas proezas em todos os campos. Há pessoas que se enamoram loucamente pouco tempo e descartam as paixões de ontem para experimentar outras. Assim vão de descarte em descarte… Falta às pessoas um silêncio essencial.

Mas que silêncio é necessário para ouvir as palavras e a Palavra?  Há silêncio e silêncio. Não basta calar. Pode existir um silêncio de raiva, de conflitos que não são expressos, silêncio de marginalização. Tais silêncios criam inimizades e provocam sofrimento. Na verdade não há apenas silêncios fautores de vida, mas há os que são mortais e mortíferos. Elie Wiesel que nos campos de concentração pode experimentar os aspectos mais desumanos do silêncio afirmou: “Não sabia que se podia morrer de silêncio como se morre de dor, de cansaço de fome de doença ou de amor”.

Também as palavras não são todas iguais. Produzem efeitos diversos. Há as que são como um bálsamo, outras como um veneno. É preciso escolhê-las bem. Mais ainda, pronuncia-las com profundidade e ternura. “São muitos os casos em que calar é sinal de sabedoria. O homem sábio tem consciência de que em certos momentos deve permanecer em silêncio e que em determinadas situações algumas palavras não podem ou não devem ser ditas. Os salmos não falam do homem que pede ao Senhor a custódia dos lábios “Senhor põe um guarda á minha boca, fica de vigia à porta de meus lábios”(Sl 141, 3).

A exortação pós-sinodal Verbum Domini sublinha claramente a centralidade do silêncio vivo, vigilante, dócil para um verdadeiro acolhimento da Palavra de Deus. Vale a pena meditar neste tópico: “De fato, a palavra pode ser pronunciada e ouvida apenas no silêncio, exterior e interior. O nosso tempo não favorece o recolhimento e, às vezes, fica-se com a impressão de ter medo de se separar por um só momento dos instrumentos de comunicação de massa. Por isso, hoje é necessário educar o Povo de Deus para o valor do silêncio. Redescobrir a centralidade da Palavra de Deus na Igreja significa também redescobrir o sentido do recolhimento e da tranquilidade interior. A grande tradição patrística ensina-nos que os mistérios de Cristo estão ligados ao silêncio…” (Bento XVI, Verbum Domini, n.66).

Não se chega à verdade por um acúmulo de noções, de palavras, mas por meio da capacidade de discernir a realidade. Nos escritos de um Padre da Igreja lemos: “Se amas a verdade, sê amante do silêncio. Este fará com que resplandeças em Deus como o sol, e te afastará das ilusões e da ignorância” (Isaque de Nínive).

NB.: Esta reflexão inspirou-se fortemente em “Fa’silenzio e escolta Israele”, Antonietta Augruso, in Consecrazione e Servizio 4, 2011, p. 7-13.

(Continua no próximo número)

III. REFLEXÃO

O superior religioso e o acompanhamento dos religiosos

 

Sabino Chialà, monge da comunidade de Bose, na Itália, nascido em 1968, escreveu um longo artigo sobre o serviço da autoridade na vida religiosa (Il servizio dell’autorità nella vita religiosa, Consecrazione e Servizio 4/ 2015, p. 31-68) Nossa revista eletrônica se inspira em suas reflexões limitando-nos ao aspecto do acompanhamento individual daqueles que são confiados a um superior.

O coordenador de uma comunidade tem a missão de orientá-la tomada no seu todo. Deve também exercer sua autoridade, caracterizada pelo serviço, no tocante a cada irmão ou irmã em sua individualidade e nas particularidades de seu caminho de fé. Animar a comunidade como um todo e as pessoas com sua singularidade. O superior é pastor que cuida carinhosa e pessoalmente de cada um.

Esse acompanhamento se torna um tanto problemático porque os religiosos são trocados de residência. Há os que afirmam que depois da profissão definitiva, cada religioso deve seguir seu caminho sozinho ou tomar a decisão de ter ou não um diretor espiritual. Uma coisa é a recepção regular do sacramento da reconciliação e outra a direção espiritual. O superior local não é diretor espiritual, mas irmão que vela pelo crescimento, que conhece os dramas pessoais e manifesta vivo interesse pelo crescimento individual dos irmãos.  Não há dúvida que cada caso, cada religioso com sua individualidade precisará ser atendido.

As dificuldades hodiernas para o exercício desta tarefa não podem fazer com que ela deixe de existir. O superior local é guarda dos irmãos, embora se deva afirmar que cada um cuide de nutrir sua vocação. O papel do superior seria da correção fraterna? Por onde passa esse serviço? Quais as mediações? Certo é que não podemos ser indiferentes ao que vive esse determinado irmão. O superior não tem o direito de tolher liberdades e ser indiscreto em sua ação.

Sabemos que há uma diferença entre os superiores e superioras de comunidades fechadas, de clausura e aqueles que “governam” grupos de vida ativa. De acordo com Sabino Chialà, segundo uma tradição ininterrupta, quem preside a comunidade haverá de exercer um papel de paternidade-maternidade espiritual que faz parte integrante do serviço da autoridade. Um ministério certamente não isento de riscos, mas necessário. Sublinhemos ministério de paternidade-maternidade.

Um primeiro risco é que a autoridade se arrogue um lugar que não lhe compete:  na comunidade ninguém é maior, como ensinou Jesus, mas alguém que não pode se eximir de exercer uma missão de paternidade-maternidade espiritual.

Nesse contexto vale lembrar as palavras do Senhor: “Vós, não vos deixeis de chamar de mestre, porque um só é vosso mestre, e todos vós sois irmãos. A ninguém chameis de pai na terra, porque um só é vosso Pai, aquele que está nos céus. Nem vos façais chamar de  guias, porque um só é vosso guia” (Mt 23, 8-10). Os monges continuam a usar a terminologia de pais e mães espirituais, embora muitos testemunhos revelam uma compreensão da missão como acabamos de ver em Mateus. Na Vida de Pacômio, um de seus discípulos diz ter ouvido do santo: “Assim como um morto não diz aos outros mortos: “Eu sou vosso chefe”, assim eu nunca tive presunção de ser pai dos irmãos. Deus é o único Pai (cf.Mt 23,9).

Os documentos da Ordem dos Frades Menores, a partir da própria Regra, insistem de que todos os frades são irmãos. Francisco é avesso a toda forma de domínio de uns sobre os outros. “Nenhum irmão exerça qualquer poder ou domínio, mormente entre si. Pois como diz o Senhor no Evangelho: Os príncipes das nações as dominam, e os que são maiores exercem poder sobre elas; não será assim entre os irmãos, e quem quiser tornar-se o maior entre eles seja o ministro e servo deles; e quem é o maior entre eles faça-se como o menor” (Regra não bulada V).  Nesta família acentua-se a fraternidade e o superior é ministro e servo encarregado de lavar os pés dos irmãos.

Os escritos do Poverello e as biografias mais antigas mostram um Francisco próximo de cada um com sua individualidade: vai comer uva em tempo de jejum com um frade problemático,  convida Antônio para ensinar teologia na Ordem,  mas pede que não perca espírito da oração, etc.

O exercício da autoridade, nessa dimensão do cuidado individual dos irmãos e das irmãs exprime-se pelo cuidado pessoal pelos irmãos e pelas irmãs. Quem preside uma comunidade envidará esforços por manter um delicado equilíbrio sem descambar para um paternalismo como também sem se omitir no acompanhar o crescimento de cada irmão e cada irmã, tocando a música em dois teclados: paternidade-maternidade/ fraternidade e sororidade.

Governar uma comunidade religiosa significa vigiar e favorecer a estrutura profunda do viver em comum. Trata-se em primeiro lugar de uma atenção espiritual e só depois vem o aspecto organizativo. Quem exerce a função de superior não perder de vista as pessoas. As obras são menos importantes que as pessoas.

IV. TEXTO PARA REFLEXÃO

Ser solitário e viver o amor

 

 

Um dos livros mais citados e apreciados de Rainer Maria Rilke leva o título de Carta a um jovem poeta (L&PM Pocket, n. 530). Aqui propomos apenas alguns parágrafos que falam do ser solitário e de viver o amor.

Meu caro senhor Kappus,

Não se deixe enganar em sua solidão só porque há algo no senhor que deseja sair dela. Justamente esse desejo o ajudará, caso o senhor o utilize com calma e ponderação, como um instrumento para entender sua solidão por um território mais vasto. As pessoas (com auxílio de convenções) resolveram tudo da maneira mais fácil e pelo lado mais fácil da facilidade; contudo é evidente que precisamos nos aferrar ao que é difícil; tudo o que se vive se aferra ao difícil, tudo natureza cresce e se defende a seu modo e se constitui em algo próprio a partir de si, procurando existir a qualquer preço e contra toda resistência. Sabemos muito pouco, mas que temos que nos aferrar ao difícil é uma certeza que não nos abandonará. É bom ser solitário, pois a solidão é difícil; o fato de uma coisa ser difícil tem de ser mais um motivo para fazê-la.

Amar também é bom: pois o amor é difícil. Ter amor, de uma pessoa por outra, talvez seja a coisa mais difícil que nos foi dada, a mais extrema, a derradeira prova e provação, o trabalho para o qual qualquer outro trabalho é apenas uma preparação. Por isso as pessoas jovens, iniciantes em tudo ainda não podem amar: precisam aprender o amor.

Com todo o seu ser, com todas as forças reunidas em seu coração solitário, receoso e acelerado, os jovens precisam aprender a amar. Mas o tempo do aprendizado é sempre um longo período de exclusão, de modo que o amor é por muito tempo, ao longo da vida, solidão, isolamento intenso e profundo para quem ama. A princípio o amor não é nada do que se chama ser absorvido, entregar-se e se unir com uma outra pessoa (Pois o que seria uma união do que não é esclarecido, do inacabado, do desordenado?)

O amor constitui uma oportunidade sublime para o indivíduo amadurecer, tornar-se algo, tornar-se um mundo, tornar-se um mundo para si mesmo por causa de uma outra pessoa; é uma grande exigência para o indivíduo, uma exigência irrestrita, algo que o destaca e o convoca para longe. Apenas neste sentido, como tarefa de trabalhar em si mesmos (“escutar e bater dia e noite”), as pessoas jovens deveriam fazer uso do amor que lhes é dado.

A absorção e a entrega e todo tipo de comunhão não são para eles (que ainda precisam economizar e acumular por muito tempo); a comunhão é o passo final, talvez uma meta para a qual a vida humana quase não seja o bastante.

V. COMEMORAÇÃO

Mãe, simplesmente mãe

 

 

Maio, mês consagrado a Maria e maio, mês das mães.

Mãe, palavra mágica. Uma mulher que vai rasgando história no tempo que passa. Uma mulher. Um vulcão de desejos. Uma buscadora de comunhão. Um ventre, um útero, um ninho de vida, colaboradora direta na obra da criação. Coloca no mundo seres feitos à imagem e semelhança de Deus. Tem a alegre responsabilidade de mostrar aos filhos de sua vida o rosto belo do Senhor e fazer com que, ao crescerem, seus filhos tenham asas fortes para a aventura imprevisível da existência.

Uma mocinha que namora, que faz faculdade de história, que é caixa de um supermercado… mulher companheira de um homem… “não é bom que o homem esteja só”.

Antes de ser mãe essa vontade de ser companheira de um homem, de comungar com a vida de alguém que seria companheiro no sol, na chuva. Companheiros que, de mãos, numa promessa de fidelidade, aceitam fundar uma comunidade de vida e de amor que é a família, numa construção que nunca termina, numa fidelidade nova a cada dia. Um homem e uma mulher cujo amor se prolonga e  cujos frutos são os filhos.

Um dia vem a notícia. Ela está grávida. Uma nova vida se instala no mais íntimo dessa criatura chamada mulher. Vai ser mãe. Um nadinha se esconde dentro dela. Menino, menina? A mãe dá sangue, proteínas, vigor para que, durante nove meses, esse serzinho esteja pronto para sair do ninho ou da caverna de seu útero e berrar, anunciando que quer um lugar ao sol e que requer, de imediato, muitas atenções. Essa menina que está fazendo faculdade de história ou que é caixa de um supermercado é mãe. Sabe, depois que a mulher é mãe costuma ficar mais bonita… Agora aquele pingo de gente precisa ser apresentado ao pai, ao marido, a esse companheiro, afinal de contas, ele também tem tudo a ver…

Ser mãe não é fatalidade, mas vocação. Só tem o direito de ser mãe aquela que se sente chamada para tanto. A mulher não pode querer um filho como se quer um objeto, uma coisa. A mulher sonha com o filho, procura concebê-lo no melhor momento de seu casamento. Os filhos chegam não para preencher um vazio, mas como dom do mistério da vida. As crianças precisarão muito de sua vida, de sua disponibilidade, energia e garra.

Ser mãe é acreditar que o amanhã terá estrelas e que os homens poderão se entender…

Conversando com meu menino

Menino, meu menino de poucos dias,
menino tão sonhado e acalentado,
menino aí diante de meus olhos,
Eu quero agora te entregar inteirinho e todinho
a Nosso Senhor Jesus Cristo.

Que vida levarás? Que caminhos percorrerás?
Que sonhos alimentarás?
Que encontros terás ao longo da estrada de tua vida?
Tens o rosto rosado, cheio de vida,
mexes esses teus olhos negros como o negro mar?
Que mãos haverás de estreitar?
Que paisagens haverás de descortinar?

Menino, meu menino de poucos dias,
teria vontade de abrir caminhos novos para os teus pés,
empurrar portas pelas quais tu pudesses passar.
Mas não. Tu mesmo haverás de encontrar teus caminhos,
tu mesmo haverás de empurrar portas,
tu caminharás com teus pés.
Se quiseres posso te ajudar.
Mas quero que tu mesmo faças teu caminho.

Deus queira, menino, que a violência se afaste de ti,
que ninguém te fira com as armas do ódio,
que os outros não te usem e tu não uses ninguém,
sempre sendo respeitado, amado, valorizado.

Eu te suplico, menino, meu menino de poucos dias,
que tu sejas irmão de muitos irmãos,
que dês a mão aos que titubeiam e vacilam,
que sejas como um anjo de bondade na terra dos homens.

Menino, meu menino de poucos dias,
que Deus nosso Senhor te cumule de todos os bens.
Amém.