Vida Cristã - Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil - OFM

Junho 2017

JUNHO 2017

Diante dos olhos de vocês, fiéis amigos que apreciam as coisas novas e velhas tiradas do baú, a edição de junho de 2017.  Os assuntos são variados, uns mais densos e outros mais leves. Espero que estas linhas feitas com esmero e carinho sirvam de estímulo e de alento para todos. Já lá se foi metade do ano de 2017.  Viva Santo Antônio, São João e São Pedro!

Frei Almir Ribeiro Guimarães, OFM
freialmir@gmail.com

I. PARA COMEÇO DE CONVERSA

Tudo começa no tempo do namoro…

 

Junho, mês de Santo Antônio, mês do dia dos namorados.

 

Santo Antônio de Pádua é, pois, o padroeiro dos enamorados. Antigamente, as moças faziam pedidos e acompanhavam trezenas ao santo tido como casamenteiro. Será que hoje ainda o fazem? Uma música junina sempre tocada nas festas de  junho já dizia: “Eu pedi numa oração ao divino São João/ que me desse matrimônio, /São João disse que não,  São João disse que não,/ isso é lá Santo Antônio”. Assim, no céu,  Santo Antônio está sentado no guichê da entrada solicitações de casamento…

Casamento é realidade muito séria. Namoro e enlace matrimonial são dados que mexem com vidas, histórias, mistérios ambulantes. Um homem e uma mulher. Já  nas primeira páginas da Bíblia se fala desses dois seres diferentes e feitos um para o outro. O escritor sagrado descreve  belamente criação da mulher, tirada de uma costela de Adão, do lado de Adão, perto do coração de Adão.  A página do Gênesis fala da alegria do primeiro homem que vê na mulher carne de sua carne e os dois passam a caminhar juntos pelas alamedas do paraíso. Assim o casamento e a família estão nos planos primeiros  do Altíssimo.  O rei da criação,  Adão, passa a fazer a aventura da vida com uma companheira tirada de seu lado, de seu coração.

Namoro é tempo de discernimento, de escolha. Não se trata apenas de ceder a uma paixão loucamente sensual. O outro, a outra não podem ser cobaias de uma “aventurinha” de seres caprichosos. Será preciso escolher bem. Escutar sua história, sentir sua vida, ver como ele ou ela tratam seus pais, que valores ele ou ela abraçam.   Que catástrofe quando duas superficialidades  se juntam para o que der e vier. Será preciso conversar, discernir, refletir, pedir orientação.  Temo que muitos rapazes e moças estejam se unindo sem convicção, sem decisão, sem lenço e sem documento e, mesmo casando-se no religioso, não consigam experimentar necessidade de um amor que não seja  emoção fugaz, descartável a  curto e médio prazo.

O casal é importante em si mesmo. Ele e ela, filhos de Deus, casal humano, sonho do Pai, passam a viver um amor tão forte que anunciam simplesmente por sua vida a bondade de Deus. Um amor delicado, previdente, generoso, marcado pela dedicação, pelo perdão. Um amor que cresce, mesmo com os desvios e loucuras do coração. O casal é obra de arte.  Que espetáculo  belo ver um casal de  50 ou 60  anos de vida conjugal, talvez com o corpo já alquebrado, mas com o coração viçoso, alegre. Os dois num canto da sala, com as mãos descarnadas, as pernas doloridas, mas vitoriosos na arte do amor.

O casamento que Santo Antônio pode propiciar é  momento de fundação da família.  Os filhos que nascerem dessa união precisam ter pai e mãe de valor.  Não seres frágeis, depressivos, sem eira nem beira, egoístas, inconstantes.  Colocar um filho no mundo é decisão muito importante. Na medida em que as crianças nascem de um casal bonito, carinhoso, fiel a Deus o mundo pode mudar.  Tudo começa no tempo do namoro, namoro de verdade, não “namoridos”.

Que  Santo Antônio interceda junto ao Senhor pelos jovens que querem se unir em matrimônio e também por tantas casamentos que precisam de  novo vigor.

II. LEITURA ESPIRITUAL

Em nosso número de maio do corrente ano de 2017  nossa leitura espiritual começou  a abordar o tema do silêncio e da escuta.  Damos prosseguimento  à reflexão  sempre nos apoiando  em texto publicado pela revista italiana  Consagrazione e  Servizio  4/ 2011, de Antonietta Augruso  (“Fa’ silenzio e escolta, Israele”Dt 27,9).  Concluímos agora a reflexão então iniciada. A autora  procura  fundamentar suas ideias na Exortação Apostólica pós-sinodal  de  Bento XVI Verbum Domini.

 

Silêncio e escuta (II)

 

 

Há muitas dimensões do silêncio, todas elas fundamentais e imprescindíveis para a maturação humana e espiritual da pessoa. O ser humano, para visitar sua casa interior, deve evitar toda espécie de fuga da realidade. “O silêncio ontológico nos conduz aos fundamentos de nosso ser” ( Dall’Osto). Na cotidianidade  há um horror vacui muito difundido, um tipo de medo do silêncio e do “vácuo”  que se exorciza com palavras, barulho e mesmo um estado em que a pessoa fica ensurdecida.  Os Padres falavam de um  statio  como fecunda preparação  para o diálogo com o Outro  que hoje praticamente foi abolida até mesmo em ambientes de vida consagrada.  Deveria ser permitido sonhar com um estilo de vida em que falar e calar tivessem a mesma importância, um estilo que valorizasse o olhar e os gestos. Trata-se do silêncio mistagógico que  Bento XVI recordava em  Verbum Domini 66: “A grande tradição patrística ensina-nos que os mistério de Cristo estão ligados ao silêncio e só nele é que a Palavra pode encontrar morada em nós, como aconteceu em Maria, mulher indivisivelmente da Palavra e do  silêncio”.

A eficácia e fecundidade da Palavra muitas vezes dependem do silêncio, até mesmo nas situações humanas mais corriqueiras. Nem sempre esclarecer tudo e de imediato é positivo. Muitas vezes o não se conseguir fazer silêncio produz fraturas incuráveis. “Renunciar à própria palavra para acolher a palavra do outro  pode ser manifestação de atenção para com esse outro, respeitoso reconhecimento por sua pessoa e condição necessária para a audição de sua palavra.  Neste caso o silêncio é sinal de deferência e delicado gesto de receptividade” (J. Baez).

Os Padres sinodais (Sínodo sobre a Palavra de Deus na vida e na missão da Igreja) lembraram: “Redescobrir a centralidade da Palavra de Deus na vida da Igreja significa  redescobrir o sentido do recolhimento e da tranquilidade interior” ( Verbum Domini 66).  Não se pensa aqui no silêncio daquele que se omite na tomada de posição diante dos fatos da história, que seria túmulo da alma, um silêncio criminoso. Uma tranquilidade autêntica requer empenho e não passividade, transparência e desejo de tomar distância de todas as formas de poder  para dar espaço à Palavra  que normalmente é grito profético, lamento e  denúncia das injustiças.  Jacques Attaliafirma:  “O mundo não se olha, se ouve, não se lê, se escuta”.  Este é caminho da humanização.  Há um silêncio desejado e necessário para que a semente da Palavra possa deitar raízes em nós.

Reflitamos ainda uma vez sobre o binômio silêncio e palavra.  Se o diálogo se aprende, significa que, como qualquer arte,  há diversidade de dimensões:  a paciência, a pausa, os gestos que mudam a realidade e o mundo interior.  Jesus viveu na prática esta dinâmica. Faz-se silêncio até ser Palavra emitida na cruz:  “O Verbo emudece, torna-se silêncio de morte, porque se disse até calar, nada retendo que nos devia comunicar (…).  No mistério refulgente da ressurreição, este silêncio da Palavra manifesta-se com seu significado autêntico e definitivo  ( Dei Verbum 12).

De modo paradoxal a plenitude do significação se consegue apenas com a experiência do silêncio.  No silêncio a vida se abre à esperança e se tem a convicção de que a injustiça não dirá a última palavra.  “Fica em silêncio diante do Senhor e espera nele!”  (Sl  37,7). No silêncio se acolhe os percursos do Mistério.  O silêncio está unido ao amor quando não desejo ser peso e dominar. A mística hebraica fala de  Simsun, quer dizer o afastamento ou silêncio de Deus  com respeito à criação  para que esta possa desenvolver livremente o mundo e exprimir-se. No silêncio exprime-se uma liberdade criativa.

Maria, no curso da vida cotidiana de Nazaré, guardava no silêncio de seu coração o sentido dos acontecimentos (Lc 2, 19.51), procurando compreender de maneira a mais cabal possível  até que ponto a Palavra se fazia carne no concreto. A casa de Maria é a Palavra. Nela ela mora.  A mãe de Jesus é eloquente paradigma para quem procura o equilíbrio entre silêncio e palavra, para quem busca acompanhar a maturação da história que foge aos nossos mecanismos de controle.

Para que a palavra da verdade se diferencie do ruído, como parece sugerir o  relato de Elias à porta da caverna,  é forçoso alimentar esta palavra com o devido silêncio, sem o que é impossível mensurar seu valor.  Não é possível viver apenas na zoada do tumulto.  Será preciso ter gosto pelo eremitério, cavar uma gruta de silêncio e contemplação em nosso dia de tanta correria, superficialidade, ilusão e mentira.  Com a chega da Palavra no silêncio será possível inventar o novo e dar sentido à trama de nossa existência no mundo.

III. REFLEXÃO

Regras simples para o exercício da hospitalidade

 

 

Mundo de violência, de barbáries, de indiferença. Mundo cruel.  Nunca foi tão urgente,  como em nossos tempos, instaurar uma terra de  fraternização, de hospitalidade, de empenho de se multiplicar  encontros que venham desembaraçar tensões. Há dissensões entre os povos, há refugiados de guerra,  há crianças sem família e sem o calor do amor dos pais, há essas indiferenças em que crianças e adultos se sentem estrangeiros em sua própria casa.  Sim, há os que não querem voltar para casa, sentem-se aí estrangeiros. Tantas diferenças. Diferença de formação,  diferença de religiões, diferença de concepções da vida, do casamento, do  dinheiro. Tudo isso clama por uma cultura de “baixar as armas”, da conversa, do diálogo e da benevolência.

Desde que nascemos fomos e somos hóspedes. Fomos e somos pessoas acolhidas. Antes de nascer, no seio da mãe, normalmente,  éramos pessoas esperadas, avisamos, de alguma forma, que precisávamos hospedagem no mundo.  Havia um berço, um canto para dormir, camisola de pagão, talco, banheirinha… Fomos hóspedes do carinho da avó, da atenção do pediatra, da professora na sala de aulas, do coração dos amigos. Precisamos dos outros. Precisamos de vidas e corações onde possamos tem um domicílio.

E a vida foi passando e passamos a viver no regime da hospitalidade.  Hospitalidade a ser dada.  Hospitalidade a ser recebida.

Para cultivar a hospitalidade há regras ou diretrizes muito simples  (ou muito difíceis e complexas):

Importante escutar o que o outro tem a dizer, o que diz de si mesmo. Escutar o outro sem preconceito.  Não existe acolhida e hospitalidade se  quero que o outro entre  em meu modo de pensar, meus esquemas, em minhas preferências.  Preciso calar-me interiormente para que a voz do outro, o grito rouco de sua garganta venha até fundo de mim mesmo.  “Escutar nunca é uma atitude passiva; é eminentemente ativa; é um dom como diz a expressão alugar o ouvido; a escuta comporta atenção e vontade que se concretizam numa presença que acolhe e que, por isso e como tal, exige energia e grande força de vontade. Escutar, com efeito, é  fazer calar a própria pessoa para dar peso, confiança à palavra do outro. Nunca se ouve o outro em vão. Necessário permitir que ele nos  fale. Escutar é acolher o outro como hóspede  no interior de nós mesmos, recebê-lo,  compreendê-lo, fazer-lhe lugar em nós”  (Enzo Bianchi).

Evitar todo julgamento. Uma autêntica escuta supõe que se deixe de lado toda sorte de preconceitos diante do desconhecido.  Há essas resistências devido à raça, à cor, ao fato de pertencer a tal ou tal nacionalidade, ser avançado ou retrógado, tradicionalista ou progressista. Evitar-se-á julgamentos a partir de comportamentos pregressos.  Não é o que os outros dizem, nem mesmo a história que contam. Importante escutar o que hoje , aqui e agora o outro tem a dizer. Ele deve dizer o que é, desvelando o que ele pode e quer desvelar, guardando para si o que ele acha prematuro dizer.  Escutar  é mais do “alugar o ouvido”, mas escutar com o coração.

Empatia e simpatia. Quando se procura evitar o julgamento, evitar também de alimentar preconceitos  predispondo-nos a ouvir o outro com simpatia. O estrangeiro, o pobre, o desconhecido que são os hóspedes nem sempre mostram sua face mais bela. Sua chegada nem sempre chega a nos seduzir, não engendra imediatamente sentimentos de simpatia. Em sua alteridade, os hóspedes são diferentes e, por vezes, capazes de nos contradizer e chocar. Ter uma atitude de simpatia significa adotar  uma “observação participativa”  que aceita não compreender o outro, mas procura partilhar seus sentimentos. A verdade do outro tem a mesma legitimidade que minha verdade. Isso, porém, não quer dizer que todas as verdades se valham.

A simpatia implica a empatia, que não é impulso do coração  nos orientando para o outro, mas a capacidade de colocarmo-nos no lugar do outro, de compreendê-lo a partir do interior.  A base é a humanidade comum de quem recebe e de quem é recebido. Empatia em todas as circunstâncias, humanidade partilhada na experiência de alegria e de dor, de saúde e de doença, de vida e de morte: isso nos torna uns semelhantes aos outros e deveria criar em nós a possiblidade de  empatia.  Empatia quer dizer essa percepção que a existência, por sua própria natureza, não é isolada e isolamento. Existe na comunicação e na consciência da existência dos outros.  Sou eu mesmo com os outros. O egocentrismo, a indiferença, o cinismo, o rancor são excluídos e vencidos pela empatia. É dado um lugar para o outro passando-se da xenofobia à xenofilia, do medo do estrangeiro para o amor para com ele.  “Vista sob este ângulo, a hospitalidade é frágil: é um gesto que  aponta para a igualdade,  proteção,  comunhão  dos bens  porque nela o direito de propriedade  individual é sacrificado em vista de uma comunidade em que   espaço e  alimento são partilhados” (Enzo Bianchi).

À guisa de conclusão:

 

Dois  momentos de hospitalidade no  Antigo e no Novo Testamento:

Abraão, o antepassado: Abraão é o precursor dos crentes. Parte  num determinado dia, deixando sua terra natal,  confiando numa palavra que Deus lhe dirige, prometendo-lhe uma terra e uma descendência. A promessa custa a realizar-se, porque Sara é estéril, até o dia em que  no momento, mais quente da jornada, Abraão acolhe três estrangeiros que passam perto de sua tenda. Ele os faz parar e entrar em sua tenda. Os misteriosos personagens perguntam por Sara, sua mulher. Há uma promessa: no ano seguinte, a esta mesma época, ela terá um filho.  E Deus cumpriu a promessa. Os estrangeiros eram três, mas Abraão lhes fala no singular. Acolhendo-os, acolhe o Único. A tradição subsequente nunca deixou de afirmar: “Não vos esqueçais da hospitalidade, pela qual alguns sem saber, hospedaram anjos”  (Hebreus  13,2, cf.  Gênesis 18).

Zaqueu, uma inaudita felicidade: De baixa estatura, mas conhecido de todos, personagem mal visto por ser coletor de impostos  para o ocupante romano. Zaqueu, motivado por uma curiosidade que tinha há muito tempo, sobe a uma árvore para ver Jesus passar.  Ver, sem ser visto, talvez tenha sido sua intenção.  Mas Jesus lhe dirige o olhar: “Zaqueu, desce depressa, pois hoje devo ficar em tua casa”. Zaqueu acolhe esse pedido com indisfarçada alegria. Os circunstantes criticam: “Ele foi hospedar-se da casa de um pecdador”.  Zaqueu ingressa na transparência de Deus. Sua vida se torna leve. Seu olhar é de total claridade.  Está aberta uma brecha: ele vai dar metade de seus bens aos pobres. Uma hospedagem completamente bem-sucedida…

NB.:
Texto de referência: Enzo Bianchi, J’étais étranger  et vous m’avez accueilli,  Lessius, Bruxelles  2008.

IV. PADRES DA IGREJA

Instruções de São Doroteu abade (sec. VI)

 

Uma página “existencialista” ou “realista”?

 

 

Por que, por vezes, certas palavras desagradáveis nos perturbam enormemente e outra vezes nem nos atingem. Vale a pena acompanhar as reflexões do abade Doroteu.  Uma pequena reflexão existencialista?

 

Indaguemos, irmãos, por que acontece tantas vezes  que, ao escutar alguém uma palavra desagradável, vai-se sem qualquer aborrecimento, como se não a houvesse ouvido;  enquanto que, em outras ocasiões, mal a ouve, logo se perturba e se aflige? Donde está esta diferença? Terá um motivo só ou vários? Noto haver muitas razões e causas, mas uma é a principal que gera as outras, como alguém já disse. Isto provém, por vezes, da própria situação em que se encontra a pessoa. Se está em oração e contemplação, sem dificuldade suporta o irmão injurioso e continua tranquilo. Outras vezes, pelo grande afeto que sente por um irmão, tudo tolera com toda paciência pela amizade que lhe tem. De outras também, por desprezo, quando faz pouco caso e desdenha quem tenta perturbá-lo, nem se digna olhar para ele como ao mais desprezível de todos, nem dar-lhe palavra em resposta, nem mesmo referir a outrem suas injúrias e maledicências.

Não se perturbar ou afligir-se, como disse, vem de quem se despreza e não se faz caso do que dizem. Ao contrário, aborrecer-se e incomodar-se com as palavras do irmão resulta de não se encontrar em boas condições ou de odiar esse irmão.  Existem muitas outras razões para este fato, ditas de diversos modos.  Mas a causa de toda perturbação, se bem  a procurarmos, está em que ninguém se acusa a si mesmo.

Daí provém todo aborrecimento e aflição. Daí não termos por vezes nenhum sossego. Nem é de admirar por que, como aprendemos de homens santos, não nos foi dado outro caminho para a tranquilidade.  Que assim é, nos o vimos em muitos. Negligentes e amantes da vida cômoda, esperamos e acreditamos andar pelo caminho reto, apesar de impacientíssimos em tudo, sem nunca querermos acusar a nós mesmos.

É isto o que acontece. Por mais virtudes que alguém possua, ainda mesmo inúmeras e infinitas, se abandonar este caminho, jamais terá sossego, mas sempre estará perturbado  ou perturbará a outros e perderá todo o trabalho.

Liturgia das Horas  III, p. 263-264

V. ESPIRITUALIDADE FRANCISCANA

Vivenciando a Fraternidade Franciscana

 

Certamente um dos mais profundos  textos formativos preparados  pelo Secretariado Geral para a  Formação e os Estudos da OFM  é  um subsídio para a formação  permanente dos frades  sobre o  Capítulo 3º  das Constituições Gerias.  Ele leva o sugestivo  titulo de  “Todos vós sois irmãos”.  Frei  Giacomo Bini, saudoso Ministro Geral da época, apresentou o documento com a data de  16 de janeiro de 2002. O texto é simples, profundo, direto.  Transcrevemos, nesta Revista Eletrônica, uma breve página que aborda a tarefa da fraternidade, um texto com características antológicas  (p. 55).

 

 

A Fraternidade franciscana, em sua pequenez e minoridade, é também uma grande tarefa, porque nossa vocação pretende atingir metas que vão além do controlável. Homens como os outros, mas chamados a ser  irmãos; frágeis e fracos como os outros, mas chamados a viver  partindo da promessa do “Onipotente”, enraizados nesta terra, mas chamados à utopia do Reino, que é história e meta-história; enraizados numa Fraternidade concreta, e todavia abertos à  grande Fraternidade  constituída por todos os irmãos do mundo inteiro, vivendo uma história simples, e ao mesmo tempo abertos  à história da salvação  que Deus quer realizar; limitados como os outros pobres, mas completados pela presença de tantos irmãos  que tornam possível a  Fraternidade; prestando serviços por vezes insignificantes  e sendo ao mesmo tempo luz e força do Evangelho  para quantos contemplam esta comunhão de irmãos; desprovidos e despojados de força, mas com intenção de ser  fermento de Fraternidade  no mundo para os menos favorecidos; enviados ao mundo como irmãos, mansos e pacíficos  diante das adversidades e  forças contrárias, mas com o objetivo de ser anúncio da paz messiânica que o Senhor Jesus nos trouxe.

E além disso esta profissão se amplia, porque ser irmão não é questão de aprendizado ideológico-intelectual, mas questão de coração, de um coração capaz de ter os mesmo sentimentos  de Cristo Jesus  (cf. Fl 2,5), de um coração de amar e de dar a vida pelos irmãos. E todos sabemos por experiência que esta aprendizagem é algo que nunca acaba, pois quando pensarmos ter alcançado a  meta, numa linguagem paulina,  surpreendemo-nos com a experiência do “velho homem”, um homem  com o “espírito da carne”, como Francisco muitas vezes repete, egoísta, violento, “maior”, selecionador, juiz do irmão… e, por isso, é preciso recomeçar.

Todos vós sois irmãos
Ordem dos Frades Menores
Cúria generalícia
Roma 2004, p. 55