Vida Cristã - Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil - OFM

Junho 2011

I. LEITURA ESPIRITUAL

Dos que desejam ser sacerdotes do Altíssimo

 

E se a trombeta emitir um som confuso quem se preparará para a guerra? (1Cor 14,8).

Quase diria que a Província da Imaculada Conceição está vivendo, em 2011, seu Ano Sacerdotal. Quantas ordenações presbiterais de frades menores! Deus seja louvado! Depois de terem feito sua profissão solene e de se abeirarem do término dos estudos de teologia, esses frades pediram ao Definitório Provincial que lhes fosse concedida a graça da recepção da ordenação presbiteral. Querem, assim, colocar-se à disposição da Igreja para serem colaboradores mais diretos da obra da evangelização e santificação do povo de Deus. Desejam que sua voz, seu corpo, seus pés sua vida sejam postos à disposição do Cristo Ressuscitado que atua na Igreja e no mundo. Acreditam eles que pelo exercício do ministério presbiteral estão respondendo a uma vocação e serão dispensadores dos mistérios divinos confiados à Igreja.

 

1. Desejamos agora refletir sobre alguns aspectos do ministério presbiteral. Tivemos todos ocasião de rever muitos ângulos desse serviço ao longo do Ano Sacerdotal vivido pela Igreja através de cursos, de encontros e de publicações. Os que vão ser ordenados, os que já somos presbíteros temos que nos perguntar qual é a chama que arde em nós para viver, na Igreja e na Ordem, a graça do Sacramento da Ordem. Perguntamo-nos, da mesma forma, se atualmente observamos em nossas fraternidades um zelo pastoral intenso que possa servir de estímulo para esses tantos jovens que estão sendo ordenados ao longo de 2011 que, como já foi dito, parece ser nosso ano sacerdotal. Os frades que vivem tantas alegrias em sua ordenação, emoções tão profundas, deverão ser acolhidos com carinho nas Fraternidades e poder vislumbrar nelas um acendrado zelo pela causa do Senhor, para que possa durar a alegria do dia da ordenação.

2. O tema das vocações e da missão do sacerdote em nossos dias é complexo. O que é ser padre hoje? Ser padre da liturgia, ser padre no social? O que a Igreja espera de nós, frades menores, quando nos confere o Sacramento da Ordem? Como ser padre em paróquias que vão se esvaziando, num mundo de fim de cristandade, mundo da internet, da indiferença, do pluralismo, do diálogo com as religiões? Corremos o risco de querer responder a tantas perguntas e não vivermos nosso sacerdócio.

3. Francisco de Assis fala daqueles que desejam ser sacerdotes do Altíssimo: “Rogo a todos os meus irmãos sacerdotes – os que são, os que serão e os que desejam ser sacerdotes do Altíssimo – que, todas as vezes que quiserem celebrar a missa, puros e de maneira pura ofereçam com reverência o verdadeiro sacrifício do santíssimo Corpo e Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo com santa e pura intenção, não em vista de alguma coisa terrena, nem por temor ou amor a qualquer pessoa como que agradando aos homens. Mas toda a vossa vontade – à medida que a graça vos ajudar – esteja dirigida a Deus, desejando assim agradar unicamente ao mesmo Senhor Altíssimo…” (Carta a toda a Ordem, 14-15). Francisco fala dessa transparente retidão dos sacerdotes diante do mistério da Eucaristia, do desejo de agradar ao Altíssimo, sendo sacerdotes do Altíssimo, com mente pura, coração puro. O padre é o homem da Eucaristia.

4. O padre é aquele que ama os seus, que se gasta pelos que lhes foram confiados, que arde de zelo para que ninguém venha a se perder, que faz com que aqueles que estão no redil possam crescer espiritualmente e atingir os píncaros da santidade. O padre não é homem da mesmice, da rotina, da burocracia, do mero administrativo e organizacional. Insisto. Não se pode fazer do padre um pobre e mero administrador. O fogo de seu coração morre se não encontrar um objeto de amor mais forte. Ele acompanhará religiosamente pessoas e grupos. Faz-se tudo para todos. Sofre com os que sofrem. Alegra-se com que os que se alegram. Homem da caridade, do acompanhamento das pessoas, homem da oração, homem que torna sacramentalmente presente Jesus. Nunca, no entanto, um “funcionário” do sagrado, um “distribuidor de sacramentos” a pessoas que não foram ou não estão sendo evangelizadas. Capitulo delicadíssimo esse da sacramentalização. Homem da unidade, da contemplação, do lava-pés. Homem que está em constante estado de discernimento para ver se a pastoral constrói o homem novo e o Reino. O padre não se contenta com ritos vazios e palavras ocas. Tudo nele é ardor, verdade, zelo.

5. Sabemos perfeitamente que a identidade do sacerdote está sendo revista. Os padres de hoje não podem ter o mesmo perfil dos missionários de Santa Catarina nos anos 30 ou daqueles que viveram na Baixada Fluminense nos anos 50. Pode, no entanto, haver um grande perigo nesta incessante busca de identidade. Nada se faz. Espera-se que o novo perfil seja totalmente desenhado. Não é possível eternizar essa busca, embora saibamos que tudo esteja em movimento. Fica extremamente difícil organizar uma pastoral vocacional sacerdotal, diocesana ou religiosa, com tantos questionamentos. O serviço sacerdotal na Igreja não se baseia numa pragmática repartição de trabalhos entre leigos, diáconos e presbíteros. O Cardeal Danneels, arcebispo emérito de Bruxelas, afirma que um certo perfil sereno do padre é que pode provocar o surgimento de novas vocações: “Os jovens não podem ser convidados a realizar o que quer que seja na Igreja, quando as razões de tal ‘fazer’ se apoiam em motivações secundárias e pouco claras. Deveremos, pois, ser claros quando falamos do sacerdote e de suas atribuições. Estas comportam: anunciar a palavra com a garantia apostólica, tornar presente a salvação de Cristo por meio dos sacramentos, presidir a comunidade com a autoridade do pastor e o amor do próprio Jesus, ajudar os homens a encontrarem um sentido em suas vidas, serem olhos e ouvidos do próprio Deus diante da fragilidade e da dor do mundo, dedicar-se a estes feridos e curá-los. Uma tal clareza é indispensável porque “se a trombeta emitir um som confuso, quem se preparará para a guerra?”” (1Cor 14,8). Da mesma forma, para que surjam novas vocações, torna-se indispensável ter diante dos olhos um perfil claro do sacerdócio”(Danneels, in Rivista di Ascetica e Mistica, jan/mar 2010, p. 105-106). Não teremos santos sacerdotes se o som da trombeta for confuso!!!

6. Podemos dizer que o padre é um mistério. Totalmente homem, inteiramente cidadão da terra e companheiro de caminhada de todos os humanos, ele se torna dispensador dos mistérios divinos. O céu e a terra se encontram nesse sacerdos vir impossibilis. Melchior Cano, teólogo espanhol, um dos artífices do Concílio de Trento, havia forjado esta expressão porque no sacerdote os extremos se encontram: ricos e pobres, pessoas sadias e doentes, grandes e pequenos e assim por diante. Pela graça da ordenação, no seu ser mais profundo, o padre é configurado ao Cristo-sacerdote que lhe imprime um caráter indelével e o torna sacerdos in aeternum. Repetimos, a figura do padre não é facultativa para a existência da Igreja.

7. Somente os olhos da fé podem compreender a realidade profunda do sacerdócio católico. O padre é um homem de Deus, apesar e com suas limitações e seu pecado. As pessoas de fé simples vislumbram esta verdade. Conhecemos a visão de fé de Francisco de Assis a respeito dos sacerdotes: “O Senhor me deu e me dá tanta fé nos sacerdotes que vivem segundo a forma da santa Igreja romana – por causa da ordem deles – que, se me perseguirem, quero recorrer a eles. E se eu tivesse tanta sabedoria, quanta teve Salomão, e encontrasse sacerdotes pobrezinhos deste mundo, não quero pregar nas paróquias em que eles moram, passando por cima da vontade deles. A eles, e a todos os outros quero temer, amar e honrar como a meus senhores. E não quero considerar neles o pecado, porque vejo neles o Filho de Deus, e eles são meus senhores. E ajo desta maneira, porque nada vejo corporalmente neste mundo do mesmo altíssimo Filho de Deus, a não ser o seu santíssimo corpo e o seu santíssimo sangue que só eles ministram aos outros” (Testamento 6-10). Estamos no espaço da fé.

8. Permitam-me mais uma citação de Danneels. O arcebispo, em mensagem de Natal a seus diocesanos, escrevendo a respeito da rarefação das vocações sacerdotais, afirmava: “O desaparecimento progressivo do padre faz surgir um problema todo particular. A rarefação dos padres pode finalmente levar a uma compreensão falsa da verdadeira natureza da Igreja, sua natureza sacramental. A partir do dado da ausência de ministros consagrados, pode aumentar, entre os fiéis, a convicção de que o padre não é absolutamente necessário. Pode-se dar alguma coisa como um apagão da natureza e da necessidade do ministério consagrado, um escorregar das vocações sacerdotais e leigas para uma zona com pouca nitidez, em que a ordenação e seu caráter sacramental não tenham quase significado. Neste momento, o ministério sacerdotal é considerado apenas em seu aspecto funcional e não como um estado de vida consagrado; então, o saber-fazer e a competência tornam-se critérios mais importantes, ou quem sabe os únicos, para um celebrante. Celebra aquele que tem talento, seja ele ordenado ou não. Uma tal evolução sociológica na concepção do ministério sacerdotal pode levar à difusão de uma doutrina errônea a respeito da Igreja: é a natureza sacramental da Igreja que está em jogo”.

9. Recolhamos, agora, alguns esclarecimentos da Exortação Apostólica de João Paulo II, Pastores dabo vobis: “Os presbíteros são, na Igreja e para a Igreja, uma representação sacramental de Jesus Cristo, Cabeça e Pastor, proclamam sua Palavra com autoridade, repetem os seus gestos de perdão e oferta de salvação, nomeadamente com o Batismo, Penitência e Eucaristia, exercitam amável solicitude até o dom total de si mesmos pelo rebanho que reúnem na unidade e conduzem ao Pai por meio de Cristo no Espírito Santo. Numa palavra, os presbíteros existem e agem para o anúncio do Evangelho ao mundo e para a edificação da Igreja em nome da pessoa de Cristo Cabeça e Pastor (n. 15).

10. Homem da Palavra, homem da catequese, homem da Escritura… É importante que saiba dar as razões de sua fé, de maneira simples, direta e despojada. Não é preciso ser professor de exegese, nem tribuno. Deve, com palavra simples e disposto a desaparecer atrás da palavra, dar lugar à ação do Espirito Santo. Ele precisa, antes dos outros, vivenciar o texto bíblico que proclama e explica. Todos devem compreendê-lo, tantos os letrados quanto os simples, as crianças como os adultos, os doentes como os sadios. Espera-se que os sacerdotes se preparem bem para o ministério da Palavra.

11. O padre é amigo de Cristo. Tem certeza de que foi chamado para essa intimidade. Por isso, será fundamental a sua vida de oração. Há a oração pessoal, há a recitação alegre e frutuosa da Liturgia das Horas. Para alimentar a intimidade entre o padre e o Cristo será fundamental a meditação, o retiro que seja retiro, o gosto pela adoração. A grande oração do padre é a celebração da Eucaristia. As sacristias precisam ser espaços de silêncio, de recolhimento, de preparação de todos para a celebração dos santos mistérios. Não podemos mais tolerar superficialidade na celebração dos mistérios da fé.

12. Alguns elementos práticos e que podem ajudar a colocar fogo e ardor no coração dos sacerdotes, de modo especial em nossos frades e de modo particular ainda em nossos jovens frades:

o padre tem um grande amor pelas pessoas, sem discriminação, há esse amor pelos pobres de bens e pelos pobres de sentido de viver; amor todo especial merecem as famílias;

o padre tem que ser alguém que irradie alegria e esperança, não qualquer alegria barulhenta e baderneira, mas uma paz alegre do fundo do coração;

o padre precisa ser uma pessoa que saiba acolher e que tenha sempre em mente a necessidade de ir ao encontro das pessoas;

o padre é aquele que leva os outros a fazerem uma profunda experiência de Deus na caridade para com os miseráveis, em tardes de oração e retiros; quando leva os outros a fazer tais experiências ele mesmo as fez anteriormente;

o padre é pastor que acompanha as pessoas e os grupos, faz-se presente, interessa-se pelo bem mais profundo das pessoas;

o padre há de ser o homem do diálogo e da missão, estabelecendo com todos os homens relacionamentos de fraternidade, de serviço e de busca da justiça (cf. Pastores dabo vobis, 18);

o padre franciscano lutará para que o “amor seja amado”, criará um ambiente de simplicidade e singeleza onde exerce seu ministério, trabalhará com seus confrades, inventará meios e modos de se viver a fraternidade, não de deixará envolver por uma pastoral burocrática e sacramentalista.

13. No dia 19 de março deste ano, solenidade de São José, encontrava-me eu em território jesuíta, na casa de retiros e encontros de Itaici. Participava de uma reunião da Escola de Pais do Brasil, movimento leigo, aberto a todas as religiões. Na programação não estava prevista a celebração da missa. Lá por dentro de mim senti-me meio incomodado. Não iria poder celebrar a missa na solenidade do querido São José, esposo da Virgem, patrono da vida consagrada e padroeiro dos operários. Andei pelos corredores à procura de um exemplar da “Liturgia Diária” para poder preparar uns comentários litúrgicos. Empurrei uma porta e deparei com a capela interna da comunidade permanente de Itaici. Ia começar uma missa. Estava paramentado para celebrar um padre espanhol, cujo nome me escapa. Na capela, três irmãos leigos, com semblante alegre e vestidos com simplicidade franciscana. Um deles era mecânico e motorista. O padre celebrante teve a delicadeza de dizer para mim uma palavra a respeito de cada um. Que alegria vivi naquele momento! O padre espanhol fez algumas considerações sobre a figura de José. Confesso que não me lembro o teor de suas palavras. Deve ter falado da estranheza de José ao saber que Maria estava grávida. O que ficou em minha cabeça foi a delicadeza e alegria com a qual ele foi celebrando sem rubricismos e ritualismos, mas com verdade e simplicidade. Ouvi os textos das Escrituras, juntei-me à apresentação das ofertas, pronunciei as palavras da consagração com o padre espanhol como se fosse a primeira, como a primeira missa que celebrei a 16 de dezembro de 1964 na Capela do Colégio Santa Catarina, na Montecaseros, em Petrópolis, tendo, naquela ocasião, como presbítero assistente a Frei Carmelo Surian. O rosto do padre espanhol tinha as marcas dos anos, mas naquele momento tinha qualquer coisa de divino, de celeste, de angelical, sobretudo de jovem. O verdadeiro padre nunca envelhece. Comunguei, fechei os olhos e digo, sem medo de errar, que esta fora uma das mais belas celebrações de minha vida. O padre espanhol celebrou com gestos verdadeiros, sem pose e com encantadora simplicidade.

14. Naquele momento lembrei-me de um texto de João Paulo II, escrito em sua Carta Encíclica Ecclesia de Eucharistia (17 de abril de 2003). Ele fazia um retrospecto dos locais onde havia celebrado a missa: “Quando penso na Eucaristia e olho para minha vida de sacerdote, de bispo, de sucessor de Pedro, espontaneamente ponho a me recordar de tantos momentos e lugares onde tive a dita de celebrá-la. Recordo a igreja paroquial de Niegowi, onde desempenhei o meu primeiro encargo pastoral, a colegiada de São Floriano em Cracóvia, a catedral de Wavel, a basílica de São Pedro e tantas basílicas e igrejas de Roma e do mundo inteiro. Pude celebrar a missa em capelas situadas em caminhos de montanha, nas margens dos lagos, à beira mar: celebrei-a em altares construídos nos estádios, nas praças das cidades… Este cenário tão variado de minhas celebrações eucarísticas faz-me experimentar intensamente o seu caráter universal e, por assim dizer, cósmico…” (n.8).

II. PÁGINAS FRANCISCANAS

Francisco de Assis, o perdão de Deus

 

Página Franciscana deste mês nos é apresentada pelo grande Chesterton, autor de uma das mais originais biografias de São Francisco. A função da vida de Francisco foi a de dizer aos homens que começassem outra vez.

Francisco de Assis, como já foi dito tantas vezes, era poeta, isto é, uma pessoa capaz de exprimir sua própria personalidade. Ora, homens como esses em geral se caracterizam pelo fato de suas próprias limitações os tornarem ainda mais grandiosos. Eles são o que são, não somente por causa do que possuem como, em certa medida, por causa do que não possuem. Mas os limites que formam os contornos de tal retrato pessoal não podem ser usados como limites para a humanidade inteira. São Francisco é um exemplo bem intenso dessa qualidade de homem genial: nele, mesmo o que é negativo é positivo, por ser parte de seu caráter. Um excelente exemplo do que digo pode ser encontrado em sua atitude com relação à aprendizagem e aos estudos. Ele ignorou e, em certa medida, desestimulou os livros e a aprendizagem por meio de livros, e, de seu ponto de vista e do de sua obra no mundo, tinha toda razão. Toda a essência da sua mensagem era ser simples o suficiente para ser entendido pelo idiota da cidade. Toda a essência de seu ponto de vista estava no fato de olhar com novos olhos um mundo novo, um mundo que podia ter sido criado esta manhã. Fora as grandes coisas primordiais, a Criação e a história do Éden, o primeiro Natal e a primeira Páscoa, o mundo não tinha história. Mas será que se deseja ou é desejável que toda a Igreja Católica não tenha história?

Pode ser que a principal sugestão deste livro seja que São Francisco caminhou pelo mundo como o Perdão de Deus. Quero dizer que seu aparecimento marcou o momento em que os homens podiam se reconciliar não só com Deus, mas também com a natureza e, o que é mais difícil, consigo mesmo. Porque marcou o momento em que todo o paganismo apodrecido, que envenenara o mundo antigo, foi finalmente expulso do sistema social. Ele abriu as portas da Idade das Trevas como se fossem as de uma prisão do purgatório, na qual os homens se purificavam como eremitas no deserto ou como heróis nas guerras bárbaras. Na realidade, toda sua função foi dizer aos homens que começassem outra vez e, nesse sentido, dizer que se esquecessem. Se eles tinham que virar uma página e começar uma nova com as primeiras grandes letras do alfabeto, desenhadas de modo simples e brilhantemente coloridas à maneira medieval, era parte desta satisfação infantil particular que eles colassem à página antiga, que era toda sombria e sangrenta, trazendo coisas terríveis. (…)

A vinda de Francisco foi como o nascimento de uma criança numa casa escura que tivesse acabado com a sua maldição; uma criança que cresce sem ter consciência da tragédia e que a vence por sua inocência. Nele, é preciso não só inocência como desconhecimento. É da essência da história que ele se jogue na grama verde sem ver que ela esconde um cadáver ou que suba numa macieira sem saber que é a forca de um suicida. Foi esta anistia e reconciliação que o frescor do espírito franciscano trouxe ao mundo. Nem por isso se deve impor este desconhecimento a todo o mundo. E creio que esse espírito teria tentado fazer isso. Alguns franciscanos considerariam correto que a poesia franciscana expulsasse a prosa beneditina. Para a criança simbólica, isso era bem racional. Era bastante certo que, para uma criança assim, o mundo fosse um grande quarto das crianças com paredes pintadas de branco em que se pudesse fazer seus próprios desenhos com giz à maneira das crianças, com contornos grosseiros e cores alegres; o começo de toda a nossa arte. Era bem correto que, para ele, esse quarto das crianças parecesse a mansão mais magnífica que a imaginação humana pode conceber. Mas na Igreja de Deus há muitas mansões”.

São Francisco de Assis
A Espiritualidade da Paz
G.K.Cherterton
Ediouro, 2003, p. 168-170

III. ORAÇÕES

O mestre Jesus de Nazaré

 

Mês após mês, queremos oferecer aos nossos estimados
leitores eletrônicos preces, orações para o dia-a-dia da vida.

 

O MESTRE JESUS DE NAZARÉ

Senhor Jesus,
gosto de te chamar de Mestre.
Tu mesmo disseste que és nosso único Mestre!
Mestre, quero ser teu discípulo,
não sozinho, mas com outros, com muitos outros.
Gosto de te ver quando te retiras e buscas o semblante
do Pai no mistério da montanha.
Tu me levas ao mistério do Pai
com tua oração silenciosa e discreta.
Gosto de ver quando elevas os olhos para dar graças ao Pai
que revela seus segredos aos pobres e pequeninos
e os esconde dos grandes e portentosos.
Contemplo teu semblante sereno na
Montanha das bem-aventuranças e no Lago de Genesaré.
Enternece-me ver a compaixão de teu olhar
diante das multidões que não tinham pão
e estavam como ovelhas sem pastor.
Tu és o Mestre da fala e do silêncio.
Tu te calaste tantas vezes.
Nada falaste diante de Pilatos,
diante daqueles que te condenavam
mentirosa, hipócrita, ardilosamente.
Tu não levantaste a voz quando rajadas de
escarro chegavam à tua face divino-humana.
Tu te calaste diante do Pai calado
na hora das horas.
Tu te fizeste silêncio eloquente em tua paixão de amor.
Tu tens o direito de me chamar.
Tu és bom, profundamente bom
quando me chamas para ser teu discípulo.
Ecoa ainda dentro de mim as palavras que um dia
Pronunciaste: Vem e segue-me.
Cheio de confusão
e ao mesmo tempo profundamente alegre,
quero deixar bagagens e orgulho,
vaidades e valises e colocar os meus pés nos teus pés,
meus passos titubeantes em teus passos decididos.
Tu és o Mestre vivo e o Mestre da vida.
Acolhe neste momento o coração partido e dolorido
deste teu indigno discípulo.

QUANDO ALGUÉM SE RECASA…

Senhor,
coloco-me diante de ti com um coração simples e confiante.
Tu me conheces e perscrutas o meu interior.
Conheces minha história, minha caminhada e tudo aquilo que foi tecendo meu casamento, muitas vezes uma terra de dor, de dor lancinante, de profundo sofrimento e indescritível solidão.
Tu bem sabes a perturbação que houve em meu interior no momento de tomar a decisão da separação: pensei muito nas crianças, no meu cônjuge, pensei no que havíamos construído juntos.
Não era possível continuar aquilo que parecia nos aviltar a todos.
Pensei muito em tudo aquilo que poderíamos ter edificado juntos e que nunca foi feito. Pensei que deveria sobreviver como ser humano.
Meu mundo foi desmoronando e a fonte das minhas lágrimas foi secando.
Depois de muito pensar e refletir optamos pela separação.
Depois de muito, muito pensar tomei a decisão de me casar novamente nos meus trinta e oito anos.
Não preciso te dizer, Senhor, quanto custou tomar esta decisão.
Desnecessário dizer quanto me assusta não poder participar da Mesa do teu amado Filho.
Mas a solidão, a imensa solidão, uma dor doída de fracasso e surgimento dessa pessoa diferente… Tu bem sabes…
A mesa da toalha branca com o corpo do teu Filho Amado… está sempre diante de meus olhos.
Dela me acercarei com carinho e receberei a Eucaristia espiritualmente…
Quero profundamente ser cristã, discípula de Cristo.
Casando-me novamente quero trabalhar pelo Evangelho,
desejo ajudar meus filhos a serem teus discípulos.
Senhor, suspiro caminhar na senda da santidade.
Sim, quero chegar a este ideal para poder contemplar teu rosto por toda a eternidade.
Essa minha família, família meio diferente, será cristã.
Rezaremos juntos, acolheremos a Palavra da Vida, respiraremos o ar do Evangelho.
Preciso de tua força, de tua luz, de tua misericórdia, de tua ternura.
Gostaria que meu novo companheiro fosse também pai para os filhos que eu coloquei no mundo, que fosse amigo deles e meu companheiro nobre e digno.
Espero ter aprendido as lições que a vida me ensinou no primeiro casamento.

Conto com tua força, Senhor Deus de amor

PELAS VOCAÇÕES FRANCISCANAS SECULARES

Altíssimo, onipotente e bom Senhor!
Nós vos bendizemos, vos exaltamos e vos glorificamos.
Acolhei neste instante o louvor e as súplicas que brotam do fundo de nosso coração, transbordando de júbilo por todos os vossos dons.

Francisco e Clara, vossos diletos servos, se sentiram atraídos pelo tesouro do Evangelho e pela beleza despojada de Cristo Jesus, vosso dileto Filho.
Eles se apaixonaram pelo Menino das Palhas e pelo Supliciado do Gólgota.
Compreenderam que o Amor feito carne, dom, cruz, ressurreição precisava ser amado.
Vós, Altíssimo Bem, os chamastes para serem discípulos de Jesus e trabalhadores do mundo novo que teu Filho chamava de Reino.

Fazei com que muitos jovens e muitas jovens,
homens e mulheres,
casados e solteiros
venham a se sentir atraídos pela vocação do seguimento de Cristo à maneira de Francisco como leigos no mundo, perfilhando a via da penitência na Ordem Franciscana Secular.
Que muitos possam encontrar-se com o Evangelho da simplicidade, da fraternidade, da paz, da cortesia, o serviço e do despojamento.
Que em nossas famílias, nas comunidades paroquiais ecoe o chamado para que muitos busquem a perfeição da caridade
através do caminho franciscano no meio das tarefas do mundo.
Que muitos desejem viver
cantando as belezas do Cristo pobre e humilde,
possam sentir-se fascinados pela fraternidade num mundo
marcado pelo individualismo,
que acreditem que valha a pena consagrar seu presente
e seu futuro ao Evangelho do mundo novo.
Senhor, nós vos louvamos pelo sol, pela lua, pela água e pelo vento
e por todos os que se tornaram arautos da paz e do bem.
Dai-nos, Senhor, santas vocações!
Dai-nos leigos revestidos de ardor de Francisco
e da limpidez da Clara. Amém.

IV. E A FAMÍLIA, COMO VAI

O casamento está sempre em construção

 

1. Construir o casamento é tarefa que dura a vida toda. O casal está sempre em estado de construção. O bem querer de um homem e de uma mulher é dinâmico. Não se faz num piscar de olhos. Não se conclui da noite para o dia. O casal é uma obra de arte. Ao longo do longo tempo da vida ele e ela vão gerando viço e vigor que permitem o crescimento e levam ao píncaro de uma vida conjugal bem-sucedida.

2. Há o tempo das manifestações mais expansivas e o tempo do amor sereno, certo, sólido, firme com expressões de atenção delicada e ternura suave sem grandes arroubos. Talvez, o melhor casamento seja aquele em que os cônjuges vivam numa atmosfera de companheirismo à luz do feminino e do masculino.

3. O casal conversa, confabula, fala de todas as coisas despretensiosa e descontraidamente, sem reservas, sem falsos pudores. Há sempre essa serena preocupação de auscultar os desejos e anselos mais profundos do outro, desse estranho que me entregou sua vida de forma total e irrestrita. O diálogo se faz com palavras ou silêncios, de maneira prevista e, às mais da vezes, em momentos não programados.

4. Na vida conjugal há um estar com: buscar juntos, projetar juntos, carregar juntos os fardos, viver com… sem criar um mundinho pobre e pequeno de um casalzinho meio ou muito medíocre. Um se sente solidário do outro na construção do que se chama conjugalidade.

5. Um casal maduro não se fecha nas estreitezas de sua vida a dois e familiar. Abre-se aos outros, não apenas para encontros quaisquer, mas porque precisa da qualidade de vida do amor dos outros para melhorar a qualidade de vida de seu amor. Será que os casais sabem, efetivamente, conviver com outros casais não apenas para encontros sociais, muitas vezes vazios?

6. Xavier Lacroix, especialista em temas matrimoniais, assim se exprime: “Há toda uma arte de encontrar a boa distância no seio do casal: desejo, afeição, emoção… Sim, há toda uma arte de encontrar essa boa distância entre a fusão e o paralelismo: renovar a conversação, saber externar suas aspirações e suas tristezas, inventar criativamente a vida com a família dele e a família dela, fazer lugar para os amigos, praticar hospitalidade, gostar da casa, criar um modo de vida original do casal, integrar tudo a uma dimensão espiritual… e no fim de vinte ou quarenta anos a obra está mal e mal começada”.

7. Pablo Neruda afirma: “Eu te amo para começar a te amar…”. O tempo do amor não é o tempo da repetição monótona, mas da retomada, do recomeçar…

8. Um casal cresce no labor da construção da conjugalidade, do ser casal. Cresce também como casal cristão. Desde os primeiros anos de vida a dois e familiar, ele e ela vivem sob o olhar do Senhor, sob o bafejo do Espírito. Não constituem um casal qualquer. Unem-se diante do Senhor e se dão o sacramento do matrimônio que os acompanhará até o momento em que a morte os separará. Colocam-se diante do Senhor como colaboradores da obra da criação e como primeiros evangelizadores dos filhos que colocam no mundo como expressão de seu grande amor.

9. Casais que exprimem viço, que são companheiros, que confabulam até o fim, que colocam a mão um na mão do outro são obras de arte.

V. PASTORAL

Catequese com pessoas adultas

 

Observações quase insuficientes

A pessoa amadurece constantemente no conhecimento, amor e seguimento de Jesus Mestre, se aprofunda no mistério de sua pessoa, de seu exemplo e de sua doutrina. Para esse passo são de fundamental importância a catequese permanente e a vida sacramental, que fortalecem a conversão inicial e permitem que os discípulos missionários possam perseverar na vida cristã e na missão em meio ao mundo que os desafia (Doc. de Aparecida n. 278).

1. Um dos assuntos mais delicados no campo da pastoral catequética é, sem dúvida, a questão de uma formação cristã sistemática dos adultos, em especial dos jovens e dos casados com pouco tempo. Uma coisa é uma palestra ocasional e outra o labor de acompanhar o crescimento cristão das pessoas. Os pastores que se sentem fascinados por Cristo e querem ser instrumentos de sua ação não podem descansar. Haverão de buscar meios e modos de formar os cristãos. Limitar-nos-emos, nesta comunicação, a umas poucas observações que a experiência sugere, observações completamente insuficientes.

2. Antes de mais nada deve-se afirmar que uma paróquia (ou a diocese) precisa criar espaços e condições para que adultos venham a ter ocasião de uma permanente formação da fé. Não bastam slogansde paróquias renovadas e animadas, não basta apenas melhorar as condições exteriores (prédios adequados, aparelhagem audiovisual). Regularmente, aberto a todos, deverá existir um “curso” em que são discutidos, estudados e aprofundados os grandes temas de nossa fé: profundo e existencial conhecimento de Cristo Jesus vivo e ressuscitado, compreensão adequada do que vem a ser a fé cristã e a conversão evangélica, o mistério teológico das comunidades, o discipulado, a reta compreensão dos sacramentos e as características de um cristão adulto e atuante no mundo em nossos dias. Com isto deve-se ter em mente a formação de um laicato adulto e não apenas visto como “colaborador” dos “padres”. Não esquecer que há uma categoria de adultos particularmente importante: os que abandonaram a prática da fé, que tiveram uma formação cristã insuficiente e que, por diversos motivos, voltam ao seio da comunidade. Esse assunto é de fundamental urgência.

3. Há adultos que não praticam regularmente. São batizados mas não experimentam senso de pertença a uma comunidade, participam mais ou menos esporadicamente de algumas missas, sem comprometimento e consciência daquilo que estão fazendo. Esta categoria de pessoas é quase inatingível. Por vezes, quando perdem um ente querido, nos momentos cruciais da vida (nascimento de um filho, perda de um parente ainda jovem, doença que tenha vindo para ficar), as cordas de sua vida se tornam mais sensíveis ao mundo de Deus. Será preciso que cristãos se façam presentes nestas vidas dando claramente as razões de sua fé. Há um trabalho de porta em porta a ser inventado com discernimento. Os agentes de pastoral saberão rever seriamente os assim ditos cursos de batismo, de preparação para o casamento no sentido de fazer com que eles sejam momentos de evangelização de adultos meio perdidos no tempo e no espaço do universo cristão. A dilatação do tempo desses encontros é fundamental. Não faz pastoral e evangelização sem respeitar as lentidões do tempo de cada um e do tempo de Deus. A pastoral saberá acolhê-los com cortesia quando procuram os sacramentos. Os mais atuantes agentes de pastoral, a começar pelos padres darão um belo testemunho do ser cristão, servindo-se dos momentos em que doentes chamam a Igreja ou quando a família pede que o corpo de seus entes queridos sejam encomendados. A grande questão é como fazer com que eles saiam do indiferentismo.

4. Há católicos que frequentam regularmente a missa dominical, pedem o batismo para seus filhos, encaminham-nos para a primeira eucaristia, mas não têm compromisso com o Evangelho e a Igreja. Melhorar a comunicação na liturgia da missa dominical, já que muitas vezes sua presença na comunidade se limita a tanto. Há, ao longo do ano litúrgico, possibilidade de se fazer uma catequese de adultos desde o advento até a parusia. Um sacerdote zeloso e uma equipe de liturgia não dada apenas a efeitos exterior poderão ser excelentes instrumentos da ação de Deus. Insisto: instrumentos de um agir de Deus. Esse tipo de católicos seriam os melhores participantes de um curso de formação à noite ou em fins de semana. As grandes preocupações desse “curso” poderiam ser: nossa cultura de morte, os “supermercados religiosos”, educação dos filhos, fidelidade e construção do casamento, como despertar a sede de Deus, tema do consumismo versus partilha, transformação da sociedade, políticas inumanas, a delicada questão do “gênero”. Precisamos formar cristãos católicos adultos. Como motivar os adultos a participarem desses encontros feitos com esmero, respeitando os horários?

5. Há também aqueles adultos que já estão engajados. Tais pessoas deverão ser convidadas a buscar uma eminente santidade de vida e uma ação corajosa e lúcida no mundo, sem pietismo e devocionalismo. Muitos desses pertencem a movimentos de espiritualidade cristã, também conjugal. Para estes é fundamental a realização de retiros, de revisões sérias de seu trabalho pastoral e evangelizador segundo o método do ver, julgar e agir. Esses leigos precisarão ter consciência de que precisam ser multiplicadores.

6. Terminamos estas reflexões com algumas considerações de Casiano Floristán, conhecido pastoralista espanhol: “A essência da catequese, sobretudo a de adultos, não reside em fórmulas ou ensinamentos, mas na iluminação cristã da existência em suas dimensões mais profundas. Não esqueçamos que o ser humano é o centro da revelação. A primeira coisa que ele precisa compreender é o significado de sua existência, seja de alegria ou de sofrimento. Não se trata de proclamar um evangelho abstrato, mas iluminar a realidade atual com a luz e a força do evangelho. Nenhum campo importante da existência humana pode ser excluído, mesmo que não possamos achar na Escritura receitas concretas para cada aspecto vital. Por isso há a necessidade de traduzir e de atualizar hoje e aqui a mensagem cristã. É oportuno partir da experiência para que, apoiando-se nela, seja possível ouvir hoje a Boa Nova. Esse pressuposto deve tornar possível o diálogo na fé, uma vez que somente a fé pode ouvir a voz de Deus. Trata-se de se criar um clima dialogante: falar com os outros e não aos outros, ouvir juntos a voz dos fatos e dos feitos da palavra de Deus, caminhar juntos e viver em comum para serem todos crentes na Igreja do Senhor”.