Vida Cristã - Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil - OFM

Julho 2017

JULHO 2017

É sempre com alegria interior que apresento a todos os leitores do site da Província da Imaculada dos Frades Menores esta Revista Eletrônica. Que seus textos possam tocar os que os lerem, dar-lhes informações, sugerir caminhos, fornecer estímulo na grande empresa de viver e de viver dando cada um sua colaboração para a instauração de um mundo segundo os sonhos de Jesus.

Frei Almir Ribeiro Guimarães, OFM
freialmir@gmail.com 

I. PARA COMEÇO DE CONVERSA

Viver, simplesmente viver, mas viver de verdade

 

 

Quantas pessoas rolando pela vida e pelo espaço! Vivendo sem viver. E como é belo surpreender o mistério de vida borbulhando no sorriso da criança no berço e no rosto marcado pelos anos do ancião cheio de rugas. O que importa mesmo é viver.

Com esta página tenho o propósito de fazer uma breve reflexão sobre a vida, o viver, o viver de verdade. Tive a tentação de colocar como subtítulo: Sonhando de olhos abertos. Terminada a leitura do que escrevi a impressão que ficou é que realmente estas linhas foram escritas por alguém que sonha, que não cessa de sonhar, de sonhar com os olhos abertos. A realidade é quase o contrário do que foi escrito. Mas vamos lá. Não é proibido sonhar.

Viver é fundamental. As estruturas, as superestruturas institucionais, o organizacional, de quando em vez e muitas vezes, tentam sufocar a vida e esterilizar nossa ânsia de vida e de vida em plenitude. As organizações das empresas matam a vida, a instituição do casamento ou da família nem sempre estão em consonância com a vida. As burocracias e as rotinas esterilizam o viço.

II. LEITURA ESPIRITUAL

O valor do escondido

 

 

Vivemos a era das exibições. Tudo se mostra na telinha do celular. Tudo se diz. Muitas vantagens se contam. O Evangelho, no entanto, nos fala do valor do escondido. Tocante tudo que aconteceu a Dietrich Bonhoeffer.

Os que lutamos pacientemente para ir dando um perfil evangélico à nossa vida, mais cedo ou mais tarde, acabamos convencidos do valor de se reveste o que não é ostensivo nem insinuante, daquilo que nasce do mais profundo e que tem marcas das coisas verdadeiras. Muito antes que a hostilidade nazista o obrigasse a aprofundar sua fé e viesse a submetê-lo à provação do total despojamento até o martírio o jovem pastor Dietrich Bonhoeffer fazia sua estreia como pastoralista atendendo à comunidade alemã de Barcelona, na Espanha. Era o ano de 1928. Em seu país já havia dado provas de um vigoroso pensamento teológico. Agora, na Catalunha, iria se transformar num pregador empenhado em fazer com que os sons do Evangelho chegassem ao interior de uma comunidade fria e pragmática de pequenos comerciantes alemães. As homilias de Bonhoeffer que chegaram até nós repetem, a maneira de aforismos, algo que será o ponto central de seu pensamento: “ O cristianismo prega o valor infinito daquilo que aparentemente não tem valor, e a infinita falta de valor do que aparenta ser muito valioso”. Esse filho da alta aristocracia alemã havia começado a busca de um cristianismo verdadeiro, de um caminho de transformação pessoal que durará até a noite em que será executada sua condenação à morte.

Alguns anos depois Bonhoeffer se verá obrigado a abandonar a própria Igreja, envolvida em estreitos relacionamentos com o regime de Hitler. Começara para esse cristão um longo tempo de conversão. Funda um seminário clandestino no extremo norte da Alemanha. Seminaristas que eram seus alunos puderam dizer: “Dava a sensação de ser um homem que acreditava no que pensava e realizava aquilo em que acreditava”. Era precisamente isto que se podia esperar: um cristão ia descobrindo o verdadeiro valor das coisas, que tem a coragem de viver como valioso aquilo que não parece sê-lo e que se entrega sem condições à vocação cristã e que exibe uma modalidade de honestidade pessoal.

Em 1936, “o homem que escrevia cartas”, assim se dirigiu a seu cunhado Rüdiger Schleicher: “Ou sou quem determina onde quero encontrar a Deus, ou permito que seja ele a me indicar onde quer se encontrar comigo. Se cabe a mim decidir o lugar do encontro, encontrarei um deus à minha medida, que de algum modo me agrada, que pertence à minha essência. De outro lado, se for Deus que decide onde quer ser encontrado, tal lugar, em princípio, não corresponderá à minha essência e não me agradaria. Tal lugar será a cruz de Jesus. Buscar a Deus onde quer ser buscado e como quer ser procurado significa enfrentar com valentia a própria interioridade, com a complexidade de seus desejos em oposição, desmontar fantasias enganosas a respeito de nós mesmos e de nossos objetivos de vida”.

A figura de Dietrich Bonhoeffer, mártir cristão do século XX, serve muito bem para nos introduzir nas exigências do Evangelho: “Quando orardes, não sejais como os hipócritas, que gostam de rezar de pé nas sinagogas e nas esquinas das praças para serem vistos pelos homens. Quando deres esmola que não saiba tua mão esquerda o que faz a direita. Quando jejuares, perfuma tua cabeça…” (cf. Mt 6, 2ss).

Trata-se de caminhar para um cristianismo mais autêntico. Lutar contra a cultura que premia a exibição. Mergulhar no “escondido” de modo que ele ensope teu interior, porque é no oculto que será possível o encontro com o Deus verdadeiro.

Cf. El valor de lo escondido, Luis López-Yarto Elizalde, SJ in Sal Terrae, fev. 2015.

III. REFLEXÃO

Educar-se para o silêncio

 

 

Nesta página seleta, Antonieta Augruso, em poucas linhas, reflete sobre a qualidade de silêncio de que andamos precisando.

Alguns dizem que quando
a palavra é dita, ela morre.
Digo o contrário: é nesse momento
que ela começa a viver.

Emily Dickinson

O diálogo é expectativa, silêncio, escuta das palavras do outro: quem vive o desejo de dialogar precisa aprender a amar o silêncio. Não pode o homem fazer economia do falar e do calar. A Palavra de Deus necessita de silêncio, se ouve no silêncio. Alguém definiu o século passado como o século do rumor. “Nosso tempo não favorece o recolhimento. Necessário hoje educar o Povo de Deus para o valor do silêncio” (Verbum Domini, 66).

Silêncio! Mas que silêncio? Não basta calar. O não falar pode ser simplesmente um silêncio de raiva, de conflitos que não foram expressos, de marginalização, de recusa que, geralmente estão na origem de inimizades e de dores. O silêncio é uma realidade ambígua e, de per si, neutra. Não há somente silêncios que levam à vida, mas também aqueles que são mortíferos e mortais. Elie Wiesel, que em campos de concentração pôde conhecer os mais desumanos aspectos do silêncio, escreveu: “Eu não sabia que se podia morrer de silêncio, como se morre de dor, de cansaço, de fome, de inanição, de doença ou de amor”.

As palavras também não são todas iguais, produzem efeitos diversos. Podem ser bálsamo, mas também veneno. Necessário saber escolhê-las, pronunciá-las com profundidade e ternura. “São muitos os casos em que calar é expressão de sabedoria. O homem sábio tem consciência de que em certos momentos precisa ficar em silêncio ou, ao menos, que em certos contextos determinadas palavras não podem ou não devem ser ditas. Esta atitude sapiencial pode até se revestir de um valor religioso quando o orante pede a Deus de torná-lo senhor de sua linguagem: ‘Senhor, põe uma guarda à minha boca, fica de vigia à porta de meus lábios’ (Sl 141,3).

A exortação pós-sinodal Verbum Domini frisa claramente a centralidade de um silêncio vivo, vigilante, dócil para que produza uma verdadeira acolhida da Palavra de Deus: “A Palavra pode ser pronunciada ou ouvida somente no silêncio, exterior e interior” (VD 66).

Mesmo quando reina silêncio exterior nem sempre se dá o silêncio interior que é porta aberta para a compaixão e ausência de julgamento.  Para os primeiros monges, era também isto: tentar não julgar, tarefa exigente e demorada.

“O abas José, responde à pergunta de um confrade: “Como posso tornar-me monge?” Respondeu: “Se desejas encontrar paz neste mundo e no outro repete: “Quem sou eu? Sem nunca a ninguém julgar”. Tal poder dura a vida inteira”.

Antonietta Augruso
“Fa’ silenzio e escolta, Israele” (Dt 27,9), In Consecrazone e Servizio 4, 2011, p. 7-8.

IV. PADRES DA IGREJA

Conselhos de um sacerdote idoso

 

 

De uma página com conselhos por parte de um sacerdote de idade aos padres mais jovens pinçamos alguns tópicos. O texto foi escrito Padre Jegussel, professor de uma universidade romana a pedido de seus alunos. O padre salesiano Alfonso Abordela passou sempre a trazê-lo consigo.

Seja a celebração da Eucaristia o sol de cada uma de tuas jornadas. Esforça-te por compreendê-la, degustá-la, vivê-la. Preside cada celebração como se fosse a primeira, a única, a última de tua vida.

Recorda que a celebração eucarística melhor presidida é aquela que é melhor preparada. Não sejas daqueles que de conversas mundanas passam a presidir a celebração do santo sacrifício sem preparar-se por meio da oração, sem meditar, sem ao menos fazer um pequeno parêntesis de recolhimento.

Liberta a celebração da rotina e do automatismo. O veneno que mata a Celebração da Eucaristia é a rotina. A repetição traz a rotina. Por isso, não proclama sempre a mesma Oração Eucarística. Necessário que alternes as Preces eucarísticas de acordo com a orientação espiritual e pastoral de cada uma dessas que o Missal oferece. Assim, por exemplo, a primeira pertence à grande tradição da Igreja romana, pronunciada por muitos santos e apóstolos durante mais de dez séculos. A terceira é muito venerada devido à sua antiguidade e a quarta é belo resumo da História da Salvação.

Que cada palavra que pronuncias seja um verdadeiro “anúncio” e cada rito que realizas seja autêntico “sinal sagrado”. Transforma tua celebração numa verdadeira vivência. Toda a comunidade cristã experimentará com alegria a presença do Senhor na Celebração Eucarística se a presidires com devoção e com fé, pronunciando com cuidado cada palavra e executando com carinho cada gesto “com quem fala a Alguém ali presente e a Quem amas e respeita imensamente”.

Evita toda “correria”, especialmente ao pronunciar a Oração Eucarística. Recorda-te das palavras do Cardeal Mercier: “Dedica uns minutos mais à tua missa”. Acontece que as palavras das Orações Eucarísticas, especialmente as da segunda, já as sabes de cor e desta forma corres o perigo de pronunciá-las muito apressadamente e a comunidade se dá conta de teu modo descuidado de presidir. Não tenhas receio de ser muito cuidadoso em pronunciar bem e com sentido todas as frases, evidentemente sem exageros teatrais, mas com digna solenidade. A comunidade há de lhe ser grata.

Que nunca improvises tua celebração. Que nunca aconteça de chegares ao altar sem saber quais as leituras do dia nem que festa estás a celebrar. Seria um desrespeito inqualificável à ação mais importante da Igreja e de tua vida.

Nunca a causa de Deus, que é a salvação de todo o gênero humano, está de tal forma em tuas mãos como quando fazes a homilia. Sabes muito bem que a homilia pode ser a única instrução e formação na fé que receba tua comunidade. Precisas estar convencido de que dificilmente o Povo de Deus recebe a Palavra fora da missa. A respeito deste ministério tão grande serás interpelado pelo Senhor no dia de teu encontro definitivo com ele. Não te esqueças de certas palavras da Bíblia: “Pediram pão e não houve quem lhes desse”. Por isso pensa em tua responsabilidade para que se cumpra em ti a promessa divina: “Os que ensinaram a santidade a muitos brilharão como estrelas por toda a eternidade” (Daniel 12).

“Vive o que celebras e celebra o que praticas”. Estas palavras que te recordam o dia memorável de tua ordenação constituem um convite para oferecer-te diariamente como “hóstia viva e agradável a Deus” (Rm 12,1).  Lembra-te sempre ao terminar a celebração, que tua missa deve continuar durante toda a jornada. Para isso, segue o conselho do Papa Pio XII: “Nunca deixar um dia sequer de fazer uma visita ao Santíssimo Sacramento, o que será, por outra parte, um bom exemplo para tua comunidade”. Um sacerdote que preside santamente e visita com frequência o Santíssimo comete menos falhas que outros.

V. ESPIRITUALIDADE FRANCISCANA

Até onde sou responsável pelo outro?

 

As Ordens e Congregações religiosas dispõem de verdadeiros tesouros que são os documentos de encontros e de capítulos, textos formativos e orientações emanadas pelos responsáveis. Vamos tirar do baú da Ordem dos Frades Menores um documento do ano 2004: Todos vós sois irmãos (Subsídios para a formação permanente sobre o capítulo 3° das Constituições Gerais. Escolhemos umas poucas reflexões a respeito da responsabilidade de uns para com os outros.

Uma das questões cruciais propostas pelo livro do Gênesis é a da responsabilidade em relação aos outros. Depois de matar Abel, Caim tem de haver-se com Deus. Para se defender de seu sentido de culpa e de mentira, responde a Deus com uma pergunta: “Sou eu, por acaso, o guarda do meu irmão?” (Gn 4,9). Desculpando-se quer livrar-se de sua responsabilidade por seu irmão.

Mais cedo ou mais tarde a vida fraterna coloca-nos diante da mesma pergunta: “Sou eu, por acaso, o guarda do meu irmão?”

Os lugares em que se verifica o impacto são tão vastos quanto as atividades diárias, os momentos decisivos, as celebrações e os dramas, as entradas e saídas, etc. Cada acontecimento pode ajudar um Frade a se tornar Frade Menor responsável por si ou por seus irmãos. Mesmo que os irmãos nos tenham sido dados como uma graça ou como uma prova, ou até mesmo como lugar de evangelização, palpita sempre dentro de nós o reflexo de Caim. Temos à nossa disposição todo o necessário para nutrir ou para superar o individualismo, para fechar-nos em nós mesmos ou para tornar-nos solidários com os outros. Entrar em comunhão com o outro inclui a conversão de nosso egoísmo fundamental.

Francisco de Assis tinha viva consciência dos perigos inerentes ao voltar-se para a própria vontade. É o que atestam muitas de suas Admoestações (Adm 2,3,4, 8 e 18). A experiência fraterna é o primeiro lugar para contradizer o orgulho original e o vagar fora da obediência. As Fontes nos ensinam que a caridade precede à obediência e ao vínculo com a comunidade. Até onde se há de ser responsável pelo próprio irmão? Até à caridade para com o outro e à desapropriação de si mesmo.

Contudo, na caridade existe também a reciprocidade e o encarregar-nos unsdos outros. Esta é outra face da minha “responsabilidade”. Os outros, por sua vez, se encarregam de mim. Meus irmãos são responsáveis por mim. É o que claramente diz o final da fórmula de profissão: “Para que…, com a ajuda de meus irmãos, eu possa chegar à perfeição da caridade, no serviço de Deus, da Igreja e dos homens”. “Com a ajuda de meus irmãos!” significa:  com sua contribuição, com sua parte, necessária para a consecução de min há identidade franciscana.

Todos vós sois irmãos
Ordem dos Frades Menores
Roma 2004, p. 156-157