Vida Cristã - Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil - OFM

Julho 2013

JULHO 2013

Estávamos preparando este número de  Tirando do Baú nos dias em que o Papa Francisco nos visitava, mas precisamente no dia em que esteve em Aparecida. Somos profundamente reconhecidos pela graça desta visita que nos foi preparada pela Providência.  Na missa de Aparecida, o Papa nos pedia, entre outras coisas,  que acolhêssemos as  “surpresas” de Deus.

Frei Almir Ribeiro Guimarães
freialmir@gmail.com

I. LEITURA ESPIRITUAL

Acolher as surpresas de Deus

 

 

1. Em Aparecida, durante a celebração da Eucaristia, no dia 24 de julho,  o Papa Francisco se propôs a  refletir sobre algumas posturas existenciais e cristãs que lhes pareciam fundamentais. Entre elas pediu aos fiéis que se deixassem surpreender por Deus: “Quem é homem e mulher de esperança –  a grande esperança que a fé nos dá –  sabe que, mesmo em meio às dificuldades, Deus atua e nos surpreende. A história deste Santuário (de Aparecida) serve de exemplo: três pescadores, depois de um dia sem conseguir apanhar peixes, nas águas do Rio Paraíba, encontram algo inesperado: uma imagem de  Nossa Senhora da Conceição. Quem poderia imaginar que o lugar de uma pesca infrutífera, tornar-se-ia o lugar onde todos os brasileiros podem se sentir filhos de uma mesma Mãe? Deus sempre surpreende como o vinho novo que ouvimos no Evangelho. Deus sempre reserva o melhor. Mas pede que nos deixemos surpreender pelo seu amor, que acolhamos as suas surpresas.  Confiemos em Deus! Longe dele, o vinho da alegria, o vinho da esperança se esgota. Se nos aproximarmos dele, se permanecermos com ele, aquilo que parece água fria, aquilo que é dificuldade, aquilo que é pecado, se transforma em vinho novo de amizade com ele”. No meio de todas as crises, Deus não deixa de surpreender.

2. Somos homens e mulheres de fé.  Recentemente, ainda o mesmo Papa Francisco publicou sua primeira Encíclica sobre o tema luminoso da fé. A fé não é evidência. Ela é luz no meio das  brumas e das dificuldades. Não é possível  que nos “habituemos” ao Senhor no sentido de não termos mais nada a descobrir nele e dele. Por vezes, tem-se a impressão que “sabemos” coisas a respeito da fé e do Senhor e as colocamos em compartimentos estanques dentro de nós e em termos doutrinais. Damos a impressão de aprisionar o Senhor em nossas categorias, desejos e medos. E o Senhor não se cansa de nos surpreender. Há essas vidas simples de pessoas que, desde a sua infância, foram familiares do Senhor e em constante estado de crescimento, abertas  às surpresas de Deus. Há santos que  passeiam pelas alamedas da vida como se estivessem vendo o Invisível.  Vivem sob a luz da fé.

3. Sabemos que o mundo precisa descobrir caminhos novos e inventar trilhas diferentes. Michaël  Foessel, filósofo, num livro publicado em 2012 (Après la fin du monde, critique de la raison apocalyptique, Seuil, Paris)  tenta tomar distância de um catastrofismo. Discursos catastróficos e profecias apocalípticas mostram que nossas sociedades ocidentais deram o que tinham a dar. Parece terem perdido o sentido de tudo e não conseguiram fazer novos projetos,  mais projetos, depois do  desabamento das ideologias  (comunismo,  nazismo e capitalismo).  O individuo que não tem capacidade de se projetar para o futuro não tem mais mundo, não tem mais horizonte.  Sente-se oprimido por um sentimento de impotência que o paralisa. Experimenta necessidade de um mundo de possíveis para poder viver,  para que sua liberdade  possa se desenvolver”  (cf.  Editorial da revista  Études, dez. de 2012).  Há um fim de mundo, de um mundo, de um certo mundo.

4. Éloi Leclerc, franciscano de inteligência perspicaz e senso poético aguçado,  escreveu um pequeno livro, verdadeira joia,   sobre o exílio da Babilônia: O Povo de Deus no meio da noite, Ed.  Braga,  1979).  Neste opúsculo examina a crise de fé dos judeus no  tempo do Exílio quando tudo estava perdido e, ao mesmo tempo,  descreve a esperança do retorno e a certeza que Deus os surpreenderia. O Povo de Deus inventou e criou o novo. Escreve ele sobre  a crise da fé (imaginemos que escreveu estas linhas  em 1979!): “A fé conhece hoje crise muito grave. Homens e mulheres, que empenharam a sua vida nas certezas da fé, sentem que à sua volta, no próprio meio religioso, estas verdades essenciais e vitais se tornaram flutuantes. É como se cada um fosse deixado a si mesmo para definir a própria fé. Também não admira que muitos crentes estejam secretamente desorientados. Sentem vertigens perante um desvio que ninguém sabe onde os levará. É mais fácil defender-se duma perseguição declarada do que das forças surdas e  interiores de desagregação” (Prefácio).

5. Leclerc examina possíveis posturas diante da crise: otimismo superficial, desespero ou pânico. Descarta estas e anuncia a terceira, que é a de acolher o mistério da noite da fé: “Consiste, não em suportar esta noite, mas em esforçar-se por compreendê-la e ultrapassá-la à luz da Palavra de Deus. Trata-se de acolher, não como catástrofe, mas como mistério, pleno de apelos e significados, pertencente aos desígnios de Deus.  Para isso, temos a palavra dos profetas e é-nos solicitado prestar atenção como uma lâmpada que brilha na noite, até que desponte o dia e a estrela da manhã nasça em nossos corações”  (Idem).

6. Abrir-se a novos possíveis,  a “possíveis” que nos chegam das visitas de Deus que vêm nos surpreender!  Na palavra do Papa, Deus nos surpreende. Nossa desesperança, na fé, se torna em vinho novo de amizade com ele. Será preciso ficar atento a cada momento a ser vivido, ao imprevisto de um encontro como instante  favorável a abrir novos possíveis.  Um Papa nos visita. Um Papa nos surpreende. Fala com simplicidade. Beija crianças. Deixa a janela do carro aberta. Quer o novo. Prima pela simplicidade. Quebra protocolos. Emociona-se. Sobe em avião com uma pasta antiga onde guarda suas coisas. Sorri com toda espontaneidade. Anima-nos com suas falas simples.  Antes de terminar sua visita já deixou  “saudades”. Fala em português. Conversa com o povo. Pede orações. Não precisamos duvidar: Deus não deixa de nos surpreender.  Estamos vivendo tempos novos.

II. JANELA ABERTA

A fé, uma luz a redescobrir

 

Uma luz para nossas trevas 

 

No dia 29 de junho, o Papa Francisco publicou sua primeira  encíclica  Lumen Fidei. Certamente, ela é o coroamento do Ano da Fé promulgado por  Bento XVI.  Nossa  Janela Aberta se abre para uns tópicos do início do documento em que se fala da fé como luz.  Na verdade, o Papa Francisco afirma ter recebido de Bento XVI  um esboço desta carta encíclica: “Estou-lhe profundamente grato e, na fraternidade de Cristo, assumo o seu precioso trabalho, limitando-me a acrescentar ao texto qualquer nova contribuição (n.7). Transcrevemos aqui algumas considerações sobre a luz da fé que precisa ser redescoberta. 

 

 

Quem acredita, vê; vê com uma luz que ilumina todo o percurso da estrada, porque nos vem do Cristo ressuscitado, estrela da manhã que não tem ocaso (n.1).

E, contudo, podemos ouvir a objeção que se levanta de muitos de nossos contemporâneos, quando se lhes fala desta luz da fé. Nos tempos modernos, pensou-se que a tal luz poderia ser suficiente para as gerações antigas, mas não servia para os novos tempos, para o homem tornado adulto, orgulhoso da sua razão, desejoso de explorar de forma nova o futuro.  Nessa perspectiva, a fé aparecia como uma luz ilusória, que impedia o homem de cultivar a ousadia do saber.  O jovem Nietzsche  convida a irmã  Elisabeth a arriscar, percorrendo vias novas (…) na incerteza de “proceder de forma  autônoma”. E acrescentava: “Neste ponto separam-se os caminhos da humanidade: se queres alcançar a paz da alma e a felicidade, contenta-te com a fé; mas, se queres ser uma discípula da verdade, então investiga” (Brief an  Elisabeth  Nietzsche – 11 de junho de 1865). O crer opor-se-ia ao indagar. Partindo daqui, Nietzsche desenvolverá a sua crítica ao cristianismo por ter diminuído o alcance da existência humana, espoliando a vida de novidade e aventura.  Nesse caso, a fé seria uma espécie de ilusão de luz que impede o nosso caminho de homens livres rumo ao amanhã (n. 2).

Por esse caminho, a fé acabou por ser associada com a escuridão. E, a fim de conviver com a luz da razão, pensou-se na possibilidade de a conservar, de lhe encontrar um espaço: o espaço para a fé abria-se onde a razão  não podia iluminar, onde o homem já não podia ter certezas. Deste modo, a fé foi entendida com um salto no vazio, que fazemos por falta de luz e impelidos  por um sentimento cego ou como uma luz subjetiva, talvez capaz de aquecer o coração e consolar pessoalmente, mas impossível de ser proposta aos outros como  luz objetiva e comum para iluminar o caminho. Entretanto, pouco a pouco,  foi-se vendo que a luz da razão autônoma não consegue iluminar suficientemente o futuro;  este, no fim de contas, permanece  na sua obscuridade e deixa o homem no temor do desconhecido. E, assim, o homem renunciou à busca de uma luz grande, de uma verdade grande, para se contentar com pequenas luzes que iluminam por breves instantes, mas incapazes de desvendar a estrada. Quando falta luz, tudo se torna confuso: é impossível distinguir o bem do mal, diferenciar a estrada que conduz à meta daquela que nos faz girar repetidamente em círculo, sem direção (n.3).

Por isso, urge recuperar o caráter de luz que é próprio da fé, pois quando a sua chama se apaga, todas as outras luzes  acabam também por perder o seu vigor. De fato, a luz da fé possui um caráter singular, sendo capaz de iluminar toda a existência  do homem. Ora, para que uma luz seja tão poderosa  não pode dimanar de nós mesmos; tem de vir de uma fonte mais originária, deve provir, em última análise, de Deus. A fé nasce do encontro com o Deus vivo, que nos chama e revela o seu amor: um amor que nos precede e sobre o qual podemos  nos apoiar para construir solidamente a vida. Transformados por este amor, recebemos olhos novos e experimentamos que há nele uma grande promessa de plenitude e se nos abre a visão do futuro. A fé,  que recebemos de Deus como do sobrenatural, aparece-nos como luz para a estrada orientando os nossos passos no tempo. Por um lado, provém do passado: é a luz de uma memória basilar – a da vida de Jesus -, onde o seu amor se manifestou plenamente fiável, capaz de vencer a morte. Mas, por outro lado e, ao mesmo tempo, dado que Cristo ressuscitou e nos atrai para além da morte, a fé é luz que vem do futuro, que descerra diante de nós horizontes grandes e nos leva a ultrapassar o nosso “eu” isolado, abrindo-o à plenitude da comunhão. Deste modo, compreendemos que a fé não mora na escuridão, mas é uma luz para nossas trevas. Dante, na  Divina Comedia, depois de ter confessado diante de São Pedro a sua fé, descreve-a como uma “centelha/ que se expande depois em viva chama/ e, como estrela no céu em mim cintila”. É precisamente desta  fé que quero falar, desejando que cresça a fim de iluminar o presente até se tornar estrela que mostra os horizontes do nosso caminho, num tempo em que o homem vive particularmente carecido de luz (n. 4).

III. FAMÍLIA

Família, espaço de intimidade

 

O primeiro âmbito da cidade dos homens iluminado pela fé é a família; penso, antes de mais nada, na união estável do homem e da mulher  no matrimônio  ( Papa Francisco, in Lumen Fidei, 52).

 

Costuma-se dizer que a família é espaço de intimidade e de ternura. Certamente é também lugar de vivência profunda da fé, nesse mesmo clima de delicadeza. Em família se acolhe o dom da fé.

Nem sempre  podemos dizer que, em família, se respira clima com ar de bondade carinhosa. No mundo inteiro, de modo particular nas grandes aglomerações humanas, há estresse e violência que penetram o espaço das famílias. Desnecessário provar esta afirmação. Fazemos a experiência do cansaço e de um estado de inquietação interior que preocupa e que leva a todos a um estado de  não identidade com sua realidade mais profunda. Há o estresse no trabalho, no trânsito, da vida que, em casa,  se traduz em violência, reações abruptas e rudes, falta de efetivo e carinhoso interesse de uns pelos outros. A vida é agitação que impede o cultivo da intimidade. Há sempre barulho, muito barulho, barulho fora de nós e em nosso interior.  Há assaltos, palavras violentas, palavras indecorosas, gestos violentos, aviões que destroem as torres nova-iorquinas, gente assassinada, assaltada, aviltada, atropelada… gente assassinando, assaltando, aviltando, atropelando. Há ruídos dos sons dos carros, dos aparelhos sonoros, tudo impedindo a intimidade. Nos bailes e baladas, os sons e as cores ensurdecem e  ofuscam e onde fica a terra da intimidade? Nem sobra mesmo lugar para uma demorada e prazerosa intimidade com o Senhor, que deseja empurrar a porta de nosso coração e entrar em nossa interioridade.

Há violências em família, resquício de um tempo de machismo em que o homem imperava tolamente, não conseguindo resultado algum a não ser o da pouca afeição e experimentando a médio prazo a sensação de ter fracassado como esposo e pai. Há casamentos que aconteceram sem liberdade. Há filhos ainda que são violentamente espancados no seio da família, que deveria ser templo da ternura. Há filhos que são esquecidos mesmo convivendo com pai e mãe. Muitas famílias não vivem a ternura da intimidade.

Há essas casas acanhadas, esses barracos de zinco ou quase de papelão onde as pessoas mal e mal se toleram e não fogem porque não sabem onde cair mortas. Essa insatisfação se traduz em agressões físicas ou morais.

Necessário se faz aprender a gramática da intimidade e da ternura. Tudo começa muito simplesmente: saber prestar atenção no outro, nos outros, mormente naqueles que estão mais perto de nós.

Cultivar a intimidade é criar uma biografia a mais vozes. Será necessário conhecer o outro, conviver com o outro, escutar o outro, falar ao outro, sonhar juntos, cantar juntos, chorar juntos, observar a beleza do filho que cresça e as rugas fundas no rosto do pai que envelhece antes da hora.

Viver a intimidade é  viver a hospitalidade. O cotidiano cinzento, as dificuldades de toda sorte não podem impedir que as pessoas venham a perder o encantamento de umas para com as outras.  Há uma novidade a ser  descoberta a cada instante e em cada história. Não podemos catalogar seres humanos com etiquetas definitivas.

Tudo precisa começar no coração. As raízes da pessoa estão precisamente nesse íntimo mais íntimo que é o coração, essa interioridade das interioridades que necessita de silêncio, de cultivo e de serenidade.

O que alimenta nossa vida  é sabermos presenteados com a presença dos outros e cumulados de suas carinhosas atenções.  Precisamos sentir que pertencemos uns aos outros, que não existimos soltos no tempo e no espaço. A forma mais elementar de amor é o mútuo cuidado. O amor será sempre uma intensificação do relacionamento pessoal, um cada vez nos sentirmos amigos uns dos outros.

Não é tão fácil entrar na intimidade de alguém. A intimidade é universo complexo. No dizer de um autor é um castelo que tem muitos cômodos, nem todos de fácil acesso. O entrar na intimidade de alguém demanda muito cuidado. O outro precisa permitir nossa entrada e os que entram  não se buscam a si mesmos, mas querem viver com, conviver. Ninguém gosta de ter sua privacidade invadida. Abrimos o coração a quem nos conquista. Não aceitamos que alguém empurre a porta de nossa intimidade para nos subjugar.

Família, espaço de intimidade e de ternura, mas não fechamento, não de intimismo doentio. Precisamos de famílias abertas e nada de um “familismo” burguês.  Há a  intimidade dos esposos, do carinho que os envolve, das conversas que trocam e da entrega dos corpos e dos corações.  Há a intimidade dessas conversas de pai com filho, esses passeios de mãos dadas ou de mãos no ombro do outro. Há essa festa do encontro num parque, no canto de uma sala ou no lusco-fusco de uma capela. Há essa refeição partilhada, alegre, expressão de festa no interior do coração. Há esse aniversário do vô e da vó com mãe-benta, bolo de nozes e chocolate. Há vidas que se confiam a vidas. E no meio dessa delicadeza e ternura aparece o Deus da ternura,  esse Jesus que se revela aos pequenos, que arranca de nós, na intimidade do lar,  atos de entrega e de fé.  Esse Deus que bate à porta e pede hospedagem.

IV. PASTORAL

“Os filhos são a menina dos nossos olhos”

 

No discurso do Papa  Francisco, na cerimônia de boas vindas que aconteceu no Palácio Guanabara, no Rio, pouco depois de sua chegada,  referiu-se ele aos filhos como a “menina dos olhos dos pais”.  Não há dúvida: os filhos são dom precioso confiado aos pais. Em nossa Igreja será preciso organizar um sistemático atendimento aos jovens no sentido de que possam crescer  humana e cristãmente. A família, a escola, a paróquia têm a missão de cuidar das novas gerações.

 

 

1. Transcrevemos as palavras do Papa  Francisco: “Os pais usam dizer por aqui: ‘os filhos são a menina dos nossos olhos’. Que bela expressão da sabedoria brasileira que aplica aos jovens a imagem da pupila dos olhos, janela pela qual entra a luz regalando-nos o milagre da visão!  O que vai ser de nós se não tomarmos conta dos nossos olhos?  Como haveremos de seguir em frente?”.

2. O Papa nos convida a cuidar da menina dos olhos que são os  filhos, as crianças, os adolescentes e,  principalmente, os jovens. Esse cuidado naturalmente começa em casa, na intimidade do lar, onde pais e filhos e a família mais dilatada  (dos avós, tios, primos) envidam todos os esforços para que as novas gerações possam abrir caminhos novos e situar-se diante do desafio das transformações. Limitamos aqui a elencar algumas reflexões dispersas sobre o tema da educação e da formação das novas gerações para retomarmos, no final, algumas orientações que o Papa Francisco deixou em seu discurso de abertura da visita ao Brasil.

3. Educação é mais do que instrução. Os conceitos de educação e de instrução se interpenetram porque não acontece um ato educativo que não seja também ensino. Nem todo ato de instrução, no entanto, é educativo.  A instrução visa fatos intelectuais.  A educação  convoca toda a personalidade do sujeito, implicando sua liberdade de resposta.  A educação consiste nesse  fazer vir à tona as riquezas do indivíduo o que faz do educando protagonista e artífice de seu crescimento. Significa amadurecimento das próprias forças e das capacidades pessoais.  A instrução, por sua vez,  comporta a acumulação de dados, notícias e experiências que foram acontecendo ao longo do tempo e que constituem o saber objetivo.

4. Educação  é mais do que formação. Não se trata de colocar as pessoas numa forma (formação-forma). Nem toda formação é educação  pelo simples fato de ser formação. Esta será educação na medida em que a pessoa faz atuar sua liberdade. Não se colocam pessoas em formas.

5. Os bispos italianos: “A educação, construída essencialmente sobre o relacionamento educador e educando, tem seus riscos e  pode experimentar crises e malogro: requer a coragem da perseverança. Educador e educando são chamados a se colocar em relacionamento a corrigir e a deixar-se corrigir, a modificar e a rever as próprias escolhas, a vencer a tentação de dominar o outro. O processo educativo é eficaz  quando duas pessoas se encontram e se “comprometem” profundamente, quando se instaura um relacionamento e se alimenta um clima de gratuidade  para além da lógica da funcionalidade, fugindo-se de todo autoritarismo que sufoca  a liberdade e  da permissividade que torna o relacionamento insignificante” (Doc. CEI  Educare alla vita buona del Vangelo, n. 28).

6. Ainda no mesmo documento: “Queremos dedicar uma atenção toda especial aos jovens. Muitos deles  experimentam um mal-estar diante de uma vida privada de valores e de ideais. Tudo se torna provisório e revogável, o que provoca sofrimento interior, solidão, fechamento narcisista, nivelamento com os grupos, medo do futuro o que pode levar a um  uso equivocado da liberdade. Devido a tudo isso  há em muitos jovens uma sede de significado, de verdade e de amor.  Deste desejo,  nem sempre expresso de maneira clara,   pode-se fazer deslanchar o processo educativo. De múltiplas maneiras e no tempo devido eles podem descobrir que somente Deus sacia profundamente uma tal sede” (31).

7. Voltamos ao discurso do Papa Francisco  no momento de sua chegada ao Brasil falando dos jovens como pupila dos olhos dos pais:  “ A juventude é a janela pela qual o futuro entra  no mundo. É a janela e por isso nos impõe grandes desafios.  A nossa geração se mostrará à altura da promessa contida em cada jovem quando souber abrir-lhe espaço. Isso significa: tutelar as condições materiais e  espirituais para seu pleno desenvolvimento; oferecer-lhe fundamentos sólidos  sobre os quais construir a vida; garantir-lhe segurança e educação para que torne aquilo que pode ser; transmitir-lhe valores duradouros pelos quais a vida merece ser vivida; assegurar-lhe um horizonte transcendente que  responda à sede de  felicidade autêntica, suscitando nele a criatividade para o bem; entregar-lhe a herança de um mundo que corresponda  à medida da vida humana; despertar-lhe as melhores potencialidades para que seja sujeito do próprio amanhã e corresponsável pelo destino de todos. Com tais medidas providenciamos hoje  futuro que entra pela janelas dos jovens”.

8. Milhares de jovens de todos os cantos da terra circularam  pelo Rio de Janeiro por ocasião da Jornada dos Jovens.  Eles nos passaram esperança e força. Sentimo-nos todos, de modo especial, os mais idosos, que o mundo não está perdido.  Há uma força jovem emergindo. Parece fundamental que se instaurem  milhares e milhares de comunidades de jovens, de rapazes e moças que se reúnam regularmente, que  frequentem os salmos, que sejam ouvintes da Palavra, que  testemunhem alegria pelo canto e pela música, que inventem um mundo novo a partir de sua familiaridade com Cristo Jesus, que sejam espaços de reflexão (ver-jugar-agir).  Nossas comunidades cristãs se renovam com  a força desses incontáveis jovens que perambulavam pela praia de  Copacabana, que cantavam no Largo da Carioca e que queriam dizer ao Papa que ele pode contar com eles. É tempo e hora de se instaurar uma pastoral da juventude. Afinal de contas, a juventude é a janela pela qual o futuro entra no mundo.

V. NOSSO GÊNERO DE VIDA

A respeito da vida de oração

 

Cf. CCGG  art. 19-31

 

Nós, franciscanos, estamos sempre revendo  nossa vida de oração.  As CCGG nos oferecem orientações bem práticas nesse campo. Somos filhos e discípulos de um homem que não rezava apenas, mas que se transformara na própria oração. “Muitas vezes, com os lábios imóveis, ruminava interiormente e, arrastando para o interior as realidades exteriores, elevava o espírito às superiores. Assim, totalmente transformado não só em orante, mas em oração, dirigia toda atenção e todo afeto a uma única coisas que pedia ao Senhor” (2Cel 95). Nosso intuito é chamar atenção para orientações práticas em vista de não perdemos o espírito da devoção ao qual tudo dever servir e não fazemos em vão nossa corrida.

 

Nós, franciscanos, estamos sempre revendo  nossa vida de oração.  As CCGG nos oferecem orientações bem práticas nesse campo. Somos filhos e discípulos de um homem que não rezava apenas, mas que se transformara na própria oração. “Muitas vezes, com os lábios imóveis, ruminava interiormente e, arrastando para o interior as realidades exteriores, elevava o espírito às superiores. Assim, totalmente transformado não só em orante, mas em oração, dirigia toda atenção e todo afeto a uma única coisas que pedia ao Senhor” (2Cel 95). Nosso intuito é chamar atenção para orientações práticas em vista de não perdemos o espírito da devoção ao qual tudo dever servir e não fazemos em vão nossa corrida.

A oração de  São Francisco, como diálogo de amor  entre o homem e Deus, não tem regras metodológicas próprias e estritas. Seu desenvolvimento se verifica, de um lado, pela ação do Espírito que age com divina liberalidade e não admite qualquer tipo de catalogação. De outro lado depende da criatividade  do asceta e do místico que não se repete. O amor, no entanto, tem suas exigências para poder exprimir-se. Assim há algumas condições que possibilitam o bom exercício da oração para que esta possa tornar-se contemplação.

Exigência bíblica do deserto – Deus está em todas as partes e pode ser encontrado em todos os lugares.  A Sagrada Escritura, no entanto, nos diz que um lugar privilegiado do encontro com Deus é o deserto. Para falar aos homens de tu para tu, para revelar-se a eles e fazer-lhes confidências como para ser ouvido, Deus chama-os para a solidão. Francisco compreendeu bem isto. Quando queria fazer uma experiência profunda de Deus, mergulhar com todo o seu ser na oração, procurava um lugar retirado  onde pudesse unir-se a Deus,  não somente com o espírito, mas com todo o seu  ser.  Vemo-lo procurando os bosques, as florestas e os lugares solitários. Dialogava com seu senhor: respondia ao juiz suplicava ao Pai e conversava com o Amigo, relacionava-se com o Esposo ( cf. 2Cel 95).

Exigência do recolhimento interior – Se  Francisco não podia se afastar  para o deserto de uma florestas ou de uma gruta  –  Celano observa – o santo fazia um templo em seu peito. Chamado a restaurar a Igreja pela pregação itinerante, caminhando de aldeia em aldeia, não podia gozar do silêncio exterior, mas não deixava de experimentar o silêncio interior. Deste último não abria mão.

Vários tipos de oração  –  No diálogo com Deus haverão de intervir  todos os componentes da pessoa humana, ou seja,  corpo, sentimentos internos,  espírito.  A oração se realiza por meio de três modalidades clássicas:  vocal, mental discursiva ou mediação, mental intuitiva ou contemplação. Celano atesta que tudo isso se verificou na vida de Francisco. Orando nas florestas  enchia os bosques de gemidos, a terra de lágrimas e batia no peito, dialogava em alta voz com seu Senhor… Muitas vezes, sem mover os lábios, meditava por longo tempo em seu interior  e concentrando-se interiormente  elevava seu espírito ao céus ( cf.  2Cel 95).

Nossas  CCGG  fazem recomendações bem práticas  nos artigos supracitados e em seus respectivos parágrafos.  Importante  uma leitura do texto integral. Que todos leiam o texto original. As Constituições nos levam procurar uma oração profunda e criativa:

● Rezamos  sempre porque o Senhor quer adoradores de todo o coração e em todo o tempo.  A  oração é disposição permanente de que quem quer ser do  Altíssimo  (19).

● Nossa oração será preferencialmente de ação de graças.  Restituímos ao Senhor todos os bens que ele nos deu e continua a dar (20).

● Fomentaremos amor diligente pelo grande mistério do Corpo e do Sangue do Senhor (21,1).

● Que celebrem a Eucaristia diariamente, se possível.  Que ela seja centro e fonte de comunhão fraterna (21,2).

● Somos convidados a ter em casa um oratório onde se conserve a Eucaristia (21,3).

● Façam celebrações da Palavra em fraternidade e com o povo (  22,2).

● Pela Liturgia das Horas,  que os irmãos  santifiquem o curso do dia e da noite (23,1).

● Normalmente, a Liturgia das Horas será feita em comum (23,2).

● Embora a celebração comum da Liturgia das Horas não se prenda a um lugar,  de preferência que seja feita na igreja ou num oratório, porque ali também o povo pode ser convidado a dela participar (23,3).

● Em particular ou em comum os irmãos se dediquem à oração mental. Cabe aos Estatutos determinar o tempo e  as demais circunstâncias das celebrações da Eucaristia e da Liturgia das Horas (24 e 25).

● Tenham o cuidado de fomentar devoção aos mistérios da vida de Cristo e de sua Mãe (26).

● Os exercícios de piedade tenham sólidos  fundamentos bíblicos (26,2).

● “Os irmãos procurem rezar com o povo, assumindo a realidade de sua vida e participando com simplicidade de sua esperança e de sua  fé. (27,2).

● “Conscientes de que todas as coisas temporais devem servir ao espírito da santa oração e devoção, os  irmãos cuidem que a excessiva atividade  não venha a prejudicar este espírito” (28,1).

“Para conservar no seu coração o bem que o Senhor lhes mostra, os irmãos utilizem os meios de comunicação com a necessária discrição” (28,2).

● Incentivar-se-á a dimensão contemplativa de nossa vocação buscando novas formas para expressa-la tanto comunitária quanto individualmente (29).

● Que todos façam o retiro mensal e anual.  Procurem expedientes que visem   fazer crescer o espirito de oração (30, 1-2).

● Que os irmãos possam passar um tempo em eremitérios e  que ali se possam seguir a Regra para os eremitérios  composta por São Francisco com as necessárias adaptações.