Vida Cristã - Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil - OFM

Julho 2011

JULHO 2011

Oração e empenho de transformação na dimensão política

 

Em todo ser humano há uma sede que nunca é saciada. Um desejo de felicidade, de plenitude que é maior do que suas possibilidades. Pensamos na sede de Deus.

I. LEITURA ESPIRITUAL

Três ou quatro pensamentos a respeito da oração

 

1. Luciano Manicardi, monge da comunidade de Bose, na Itália, publicou na Rivista del Clero Italiano, uma reflexão sobre oração e responsabilidade política (Un cuore capace di ascolto. Preghiera e impegno politico, n. 5 e 6 de 2005). O autor afirma que o cristianismo tem fortes possibilidades de inculturar-se como arte de viver, desenvolvendo a dimensão bíblica sapiencial. Está convencido de que a oração poderá e deverá alimentar a dimensão política. Seguimos de perto as linhas do denso e prático texto publicado em dois números sucessivos da mencionada revista do clero italiano.


2. 
Não me digam que já se falou tudo sobre a oração. Corremos sempre o risco de dissertar sobre o tema e não sermos possuídos por ele. É necessário coragem para rezar, para entrar e perseverar naquilo que os padres do deserto descreviam como o empreendimento mais difícil do empenho cristão. Da mesma forma também é necessário coragem para falar da oração porque ela consiste na experiência de um relacionamento com uma Presença invisível. Quando se faz um discurso sobre a oração é preciso pudor. Lévinas escreveu: “Como evocar a oração que diz respeito à mais íntima intimidade de cada um, sem indiscrição, sem ofender o pudor?” Difícil falar da oração mesmo quando se procura vivê-la no cotidiano. Optamos pela busca de Deus e fracassar na oração é realizar muito parcialmente o projeto que quisemos empreender. Não rezamos para isso ou para aquilo. Rezamos porque somos cristãos. Convido a todos a lerem atentamente o texto de 1Reis 3, 5-14. Conhecida essa prece do rei que pede ao Senhor sabedoria para governar o povo. Neste texto transparece a relação da oração com a dimensão política.

3. A expressão central da oração de Salomão é : um coração dócil. O hebraico fala de um coração que escuta, um coração capaz de escuta. Salomão, sucessor do trono de Davi, pede como fundamento de sua ação de governo a capacidade de escutar. Não se trata somente da capacidade auditiva, que tem como órgãos os ouvidos, mas de uma qualidade profunda de toda a pessoa: o coração é que escuta. O coração é o centro da vida psicológica e moral do homem, da vida interior, da inteligência, da memória, da vontade e do desejo. É o termo que indica o núcleo pessoal profundo do homem e se aproximaria do que chamamos de consciência. Para a Bíblia a oração é antes de tudo escuta. O orante é aquele que diz: “Fala, Senhor, que o teu servo escuta” (1Samuel 3,10) e não como fazemos nós: “Ouve, Senhor, o que o teu servo fala”. O relato da Transfiguração nos convida a escutar o Filho. “Este é o meu Filho amado. Escutai-o”. Jesus é a Palavra definitiva dirigida aos homens. A oração transforma o nosso ser. É a escuta que cria o servo, o homem capaz de colocar-se a serviço de Deus e de uma coletividade. Não é só capaz de prestar serviços, mas de ser servo. Escutar significa sempre acolher, cavar em si espaço para o outro, não somente às suas frases, mas à pessoa do outro. Uma cultura da hospitalidade e da acolhida passa necessariamente pela escuta. A tradição bíblica nos oferece como excelente forma de oração a escuta.

4. As Escrituras são um sacramento que contém e conserva a Palavra de Deus. Somente através de uma certa familiaridade com a Palavra da Escritura vislumbraremos o semblante e a presença de Deus e de Cristo também nos irmãos e nos acontecimentos. Lembramos Jerônimo: “A ignorância das Escrituras é ignorância de Cristo”. A oração modela a interioridade do homem educando-o para a escuta. A oração não diviniza o homem, mas torna-o humano. Em nossos dias temos necessidade, na Igreja e na sociedade, não de “silhuetas espirituais”, nem de meros executores de tarefas, de funcionários frios, mas de pessoas humanas, homens e mulheres humanos, humanizantes, capazes de levarem uma vida interior, revestida de autoridade que nasce da profundidade de cada um. A qualidade humana é requisito essencial a ser cultivado, guardado e enriquecido. “A oração exige, pois, uma série de movimentos que se tornaram urgentes na sociedade moderna de massa em que vivemos, com o risco da colonização da vida interior, do eclipse do espaço interior. Hoje, mais do que nunca, a oração é um problema político”.

5. A oração exige silêncio. O silêncio difícil e incômodo porque nos perscruta, nos coloca face a face com nós mesmos, com os demônios que moram em nós, com as tentações que nos seduzem, com presenças e imagens que atravessam o nosso coração. Silêncio essencial para a comunicação porque é espaço para o outro, abertura para o outro, disponibilidade para Deus que fala. Silêncio, graças ao qual a palavra que pronunciaremos será revestida de autoridade, terá peso, não será gasta e cansativa, banal, insignificante, vazia, ou pior ainda, mistificadora, enganadora, mentirosa e pronta a manipular. É no silêncio no seio do qual amadurece a responsabilidade da palavra, reponsabilidade essa que precisam assumir os políticos. Hans-Georg Gadamer: “O ato de falar é extremamente responsável. A palavra pronunciada não pode ser recolhida de volta. A palavra proferida pertence ao que a escuta”.

6. A oração necessita de solidão. Solidão para revelar a realidade da presença d’Aquele que não vemos, mas que dá sentido e substância a todos os nossos relacionamentos. Solidão para exercitarmo-nos no discernimento da presença que habita o mais íntimo de nós mesmos, mas também para purificar os relacionamentos nos quais estamos cotidianamente imersos e submersos, para descartar o risco da vulgaridade e mesmo da barbárie. A solidão pode dar à nossa vida espessura humana e verdade. Precisamente porque o silêncio é raro (a modernidade afirma a vitória do rumor e da velocidade e nós perdemos o silêncio e o tempo) desta forma a solidão é temível e somente aqueles que degustaram seu sabor, sabem amá-la. Somente quem sabe habitare secum, como diziam os monges medievais, saberá também habitar com os outros, poderá mudar alguma coisa em si mesmo e mudar alguma coisa fora de si. Pascal escrevia: “A desdita maior dos homens tem sua origem numa única coisa: do fato de não saber permanecer em descanso no seu quarto”.

7. A oração abarca também o pensar. O termo hebraico que designa a oração é tefillah, que significa “julgamento, juízo” , “pensamento em ação”. Rezar é também pensar a própria vida e os próprios relacionamentos diante de Deus para viver na obediência o que nos é dito pela palavra de Deus. Os salmos, a melhor escola de oração, nos ensinam a refletir sobre a vida e a pensar nossa história diante de Deus, a relacionar-se com ele nas diversas situações da existência e a agir tendo em vista seu querer.

8. A oração exige atenção. Atenção é uma atitude de concentração, de “tensão interior para…”, é dedicação íntima ao empenho para o qual se tende… Nada tem de intimismo ou passividade, mas cuidado em dar um fundamento espiritual ao agir. Se a oração é, antes de tudo escuta, pela Bíblia é também obediência, é práxis, é estar em ato. Não tem sentido contrapor oração e ação. A pergunta que se deve fazer é esta: Que ação vamos colocar? Somente uma ação nascida de uma expectativa interior, da atenção, tem fundamento espiritual e foge da improvisação, da casualidade, da superficialidade. A atenção, segundo os Padres gregos, se torna oração. “A atenção que busca a oração encontrará a oração: a oração, na verdade, vem depois da atenção e a ela se aplica” (Evágrio Pôntico). Simone Weil, mais próxima de nós no tempo falou da oração em termos de atenção: “A atenção, em seu mais elevado grau, é a mesma coisa que a oração. Supõe a fé e o amor. A atenção absolutamente pura é oração”. Ela acrescenta ainda um aspecto menos positivo: “A oração é a atenção interior graças à qual nossa verdade profunda se revela, dolorosamente, a nós. É também um movimento graças ao qual despertamos para a presença do Senhor”.

9. A oração exige vigilância. A vigilância é atitude de lucidez interior, a respeito de si, dos outros e do mundo, responsabilidade para com os outros, para com a cidade e a qualidade de convivência nela. Quem tem responsabilidade política é chamado a ser vigilante, não sonolento, não atordoado, mas desperto. O vigilante é o combatente, aquele que vive a oração como um luta contra tudo que o leva à distração, o seduz, o enfeitiça, dissipa. Thomas Merton, monge que muito refletiu sobre a oração e as responsabilidades no campo politico, assim fala sobre o despertar do próprio eu profundo: “Antes de começar a pensar em contemplação deves recompor os fragmentos de tua existência distraída de tal modo que quando dizes “eu”, seja realmente uma pessoa real a sustentar o pronome que pronunciaste. Reflete, algumas vezes, a respeito do fato inquietador que a maior parte das exteriorizações de tuas opiniões, gostos, ações, desejos, esperanças e temores são reflexões a respeito de alguém que na realidade não está presente. Quando dizes eu penso, muitas vezes não és tu que pensas, mas os outros, é a autoridade anônima da coletividade que fala através de tua máscara. Quando dizes “quero” nada mais fazes do que um gesto automático de aceitação, fazendo aquilo que te é imposto. Em outras palavras, buscas fazer aquilo a que te induzem fazer.

10. O caminho que percorremos nos mostra a humanidade da oração. Estou convencido de que hoje a fé deva ser compreendida como um caminho de sentido de viver e esteja sendo chamada a guardar os valores humanos que correm o risco de se perderem. A fé deve trabalhar no sentido de reconstruir a gramática dos relacionamentos interpessoais, sociais, políticos. O cristianismo precisa inculturar-se hoje como arte de viver, desenvolvendo a dimensão bíblica sapiencial. Se a capacidade de escuta é fonte de sabedoria o é não somente no sentido de que a sabedoria é arte política de governar, mas antes de tudo porque é arte de governar a si mesmo, de dirigir a própria vida, de ter em mãos o timão da nave da própria vida (Pr 1,15). A sabedoria é arte de viver e atenção que se presta ao humano. Assim, o pedido de Salomão que suplica um coração que escute, deseja antes de tudo a transformação de si mesmo e esta mudança já começa na oração. Salomão quer se tornar mais humano. Tal busca com humildade já faz parte da prece atendida. Simone Weil vai na mesma linha: “Não é pelo modo como um homem fala de Deus, mas da maneira como fala das coisas terrestres que se pode melhor discernir se sua alma andou morando no fogo do amor de Deus”. Esta unidade entre humano e espiritual precisa, mais do que nunca, ser procurada em nossos dias porque somente o que é humanamente autêntico também o é espiritualmente. Os cristãos que confessam a encarnação não podem ignorar este dado. Cristo, de fato, veio nos “ensinar a viver neste mundo” (Tt 2,12).

11. Luciano Manicardi afirma literalmente: “Quero sublinhar a capacidade humanizante da oração e seu enxertar-se no tronco humano de vida interior. Não se trata de uma operação que venha a esvaziar a oração como diálogo com um Tu transcendente para encerrá-la no moderno subjetivismo que elimina exatamente o “Tu” (passagem da confessio à meditatio), mas de colocar ordem no caos de nossa humanidade. A oração é sempre uma atividade criadora, ordenadora. Trata-se de percorrer o antiquíssimo caminho do conhecimento de si que, para os cristãos, não pode se dissociar do conhecimento de Deus “Noverim me, noverim Te”: “Conhecendo-me a mim, conhecerei a ti “Deum et animam scire cupio” . “ Quero ardentemente conhecer a Deus e a minha alma” ( Textos dos Solilóquios de Santo Agostinho). Não se trata de limitar a oração ao pensar, mas de levar em consideração o fato de que o pensar entra numa oração que seja relacionamento do homem todo com o seu Senhor e tem como pano de fundo aquilo que Platão considerava constitutivo de uma vida autenticamente humana: “Não leva vida humana quem não se questiona a si mesmo (Apologia de Sócrates I,28). Agostinho, na mesma linha, fala do discernimento da presença de Deus em mim mesmo: intimior intimo meo.

(continua)

II. PÁGINAS FRANCISCANAS

O perfume que vem de Assis

 

Certa vez, um autor escreveu que alguém já nasce franciscano. Não creio que seja assim. As pessoas vão se tornando franciscanas ao longo do tempo. Não é quando entramos para a fraternidade, nem mesmo quando fazemos a profissão que atingimos o ideal. Temos a vida toda para aspirar o perfume que vem de Assis. Há incontáveis pessoas que sem nunca terem ingressado num dos ramos da Ordem transpiram o perfume que deixou na terra o Pobrezinho de Assis.

Os cristãos franciscanos são pessoas caracterizadas por uma amplitude e largueza de coração. Não são mesquinhos. Não usam medidores para dizer que vão até aqui e não até ali. Essa generosidade se manifesta numa grande compreensão pela fragilidade humana, num voto de confiança no outro, na capacidade de perdoar aquilo que objetivamente está errado, mas que nasce da fragilidade. Os franciscanos se sentem tão cumulados de bens e graças pelo Altíssimo e Bom Senhor que olham o mundo com compreensão generosa.

O franciscano não envelhece. Está sempre se surpreendendo com as visitas e iniciativas de Deus. Hoje o Senhor se manifesta no filho que nasce, no irmão que chega, no médico dedicado, no vizinho que entra trazendo um pacote de peras junto com seu largo sorriso. O franciscano está sempre em estado de maravilhamento diante de tudo. Por isso nunca envelhece.

Os cristãos que se deixam guiar por São Francisco são pessoas capazes de amor precisamente porque têm um coração generoso. Amam a Deus, amam as pessoas, amam a natureza. Escondem-se no mistério de Deus na oração, são corteses para com os que encontram e sabem preservar a pureza da água, admirar o irmão sol e proteger o verde. São generosos no amor.

Os franciscanos gostam de cantar, mesmo aqueles que não são muito afinados. Francisco foi um cantor de Deus e um dançarino diante do Altíssimo. O franciscano gosta de cantar e mesmo a mais vozes. Os conselhos e ministros de nossas fraternidades devem sempre cuidar do canto. Não apenas do canto solo, mas do canto que brota do peito alegre de todos os irmãos. Uma fraternidade franciscana sabe cantar, até mesmo a chegada da Irmã Morte.

Os cristãos franciscanos, com sua simplicidade de espirito, procuram ser pessoas profundamente retas e leais. Têm a preocupação de abolir tudo o que é supérfluo. Não acumulam. Não ficam preocupados em logo adquirir os últimos avanços da técnica para seu uso pessoal. Vestem-se com bela singeleza e têm a preocupação de ser e de não apenas aparecer. Acreditam na Providência e assim não mostram rosto sombrio. Corajosamente lançam o seu olhar para o amanhã. Deus que esteve com eles todo o tempo no passado, não lhes faltará no futuro. Lembram-se de Francisco de Assis que, diante do bispo de Assis, despojou-se dos bens paternos e voltou-se para o amanhã dizendo: “Pai nosso que estais nos céus…”

Não se nasce franciscano. Na medida em que vamos convivendo com os irmãos e irmãs verdadeiramente livres de posses e apegos, amantes e arautos da paz e do bem, vamos aprendendo, mesmo timidamente, a ser cristãos à maneira de Francisco. Assim aspiramos um perfume que vem de Assis.

III. ORAÇÕES

Ânsia de comunhão

 

Mês após mês, queremos oferecer aos nossos estimados
leitores eletrônicos preces, orações para o dia-a-dia da vida.

 

ÂNSIA DE COMUNHÃO

Senhor,
Tu não és um corpo de doutrinas,
não és um código de leis,
não dependes de ideias novas e passageiras
inventadas pelos homens para Te descrever.
Não sei como designar-te.
Tu és um Tu, um Alguém, Tu és pura gratuidade e
infinita compaixão.
Tu és ânsia de comunhão, desejo de comunicação,
Tu buscas comunhão e união.
Tu te tornas extremamente insinuante
em determinados momentos de minha historia
e meus olhos não podem deixar de buscar teu olhar
no meio da noite da vida.
Tu me levas a fazer experiências profundas,
algumas cheias de alegria
e outras carregadas de interrogações.
Provocas dentro de mim inaudita alegria
quando solicitas não apenas partes de meu ser,
mas a inteireza do meu existir.
Quando me oferto todo a Ti, exulto em meu interior.
Muitas vezes a vida foi me colocando interrogações
e questionamentos de toda espécie,
quando o peso da carne e da terra fizeram
com que eu perdesse o sentido e a direção
de teu coração, nestes momentos Tu te insinuaste
em minha história e colocaste em meu interior
a esperança de continuar a caminhada com gosto das coisas que viriam.
Na mesa da toalha branca colocas o pão e o vinho
e me dás experimentar força e união.
Tu me dás a força do pão e os irmãos para a união.
Quando chegas convidando-me para te seguir
provocas reações em meu interior:
queres que eu mate meu eu louco,
arrancas de mim alegria de libertação de mim mesmo.
Quero consagrar-te inteiramente a Ti:
meu tempo, minha vida, meus sonhos, meus projetos,
minhas dores e minhas alegrias se voltam para Ti.
Não quero conviver contigo como se fosses um Deus distante,
longínquo, frio, um Deus de leis, de castigos e de formalismos.
Quero viver em comunhão amorosa contigo.
Dá-me Senhor, experimentar uma profunda alegria
Em ser teu e caminhar rumo à terra da profunda e definitiva união.
Sim, tu me chamas para a eterna comunhão contigo e com os que Te amam na luz e na plenitude.

A NOSSA SENHORA DO MURO

A oração que transcrevemos foi publicada na revista da Terra Santa, maio-junho de 2011.

Santa Mãe de Deus e
Mãe da Igreja,
nós te invocamos também como mãe
dos cristãos que sofrem

Suplicamos a ti que faças cair este muro,
o muro dos nossos corações e todos os muros
do ódio, da violência, do temor e da indiferença
entre os homens e os povos.

Tu que, com o teu fiat, foste vitoriosa
sobre a antiga serpente,
acolhe-nos em teu manto,
protege-nos de todo o mal
e abre em nossas vidas
a porta da Esperança.

Faze com que em nós e em todo o mundo
floresça o amor que emana da cruz
e da ressurreição de teu Filho e Salvador nosso que vive e reina pelos séculos. Amém

QUE VENHAM AS LUZES DO ESPÍRITO

A Igreja vive sempre impulsionada pela eterna novidade do Espírito. Ele não deixa a comunidade adormecer. Ele é a força dos fracos e a eterna novidade de Deus. O Espírito esta apontando os caminhos do amanhã.

Senhor,
derrama teu Espírito
sobre jovens e velhos.
Derrama teu Espírito
sobre homem e mulher.
Derrama teu Espírito
na altura e na largura.

Derrama teu Fogo
a leste e a oeste.
Derrama teu Fogo
no coração dos homens,
derrama teu fogo
na boca dos homens,
nos olhos dos homens
nas mãos dos homens.
Acende teu Fogo.

Envia teu Sopro
aos que creem,
aos que duvidam,
aos que amam,
aos que vivem sozinhos.

Envia teu Fogo
na direção da palavra dos homens,
do silêncio dos homens.
Envia teu fogo na direção da fala dos homens.
Que falem e cantem no Espírito.

Envia teu Sopro
aos guardiães do bem,
a todos os que constroem o amanhã,
aos que acreditam na beleza
aos que preservam a vida.

Envia teu Espírito,
Envia teu Sopro às casas dos homens.
Envia teu Espírito às cidades dos homens,
ao mundo dos homens.
Envia o teu Espírito a todos os homens de boa vontade.

Aqui e agora, envia-nos teu espírito.
Envia teu Espírito!

Revista Prier , n. 122, p. 3-4

IV. E A FAMÍLIA, COMO VAI

Educação, tarefa sempre desafiadora para a família

 

1. Os pais têm plena consciência de que são os primeiros e fundamentais educadores de seus filhos. A escola, por sua vez, além de ser local de instrução (e de instrução de qualidade), precisa ser um espaço de humanização das pessoas. Fica claro que casais unidos, profundamente amorosos e equilibrados são os melhores educadores. A escola, sem sombra de dúvidas, precisa trabalhar com os pais, acolher os pais, dialogar com os pais, ajudar essas famílias esfaceladas.

2. Educa-se a partir do que somos. Uma família vazia e oca nada tem a dizer aos filhos. Romano Guardini afirma: “O educador deve ter bem claro que a máxima eficiência de sua tarefa não vem do modo como fala, mas antes do que é e do que faz. Assim se cria um clima. A criança que não reflete, ou reflete pouco, é receptiva a esta atmosfera. O primeiro fator da educação é aquilo que o educador é, o segundo é aquilo que ele faz e somente em terceiro lugar aquilo que ele diz”.

3. Os pais e os professores não podem renunciar ao cômputo da educação. Os pais têm autoridade. Colocaram filhos no mundo que são destinados a serem cidadãos e não trastes, que busquem a Deus e não se entreguem a uma vida banal de seres diminuídos. O Cardeal de Gênova, num texto sobre a educação, assim se exprime: “Não podemos negar: a cultura contemporânea parece não ter nada a dizer a jovens e adultos que queiram educar e educar-se, porque não acredita no valor do homem: a liberdade é identificada com capricho individual; a felicidade, com o sucesso, o prazer e o dinheiro. A razão – capacidade de conhecer a verdade das coisas e dos valores – não inspira confiança. O sentido do limite e das regras parece insulto à dignidade. O indivíduo é o centro de si mesmo. A vida é apresentada como o mito da eterna juventude, feita de triunfos e satisfações onde tudo é fácil e considerado direito, onde esforço e sacrifício são banidos, onde o que conta é aparecer, ser visto e ser admirado. É a consagração do nada: nada de sentido, nada de valor, nada de relacionamentos verdadeiros e construtivos”.

4. No processo educativo há perguntas que precisam ir sendo respondidas. Isto não somente até a juventude, mas ao longo de toda a vida. Fala-se hoje de uma formação permanente, para que não haja uma definitiva deformação. Algumas dessas perguntas: Quem sou eu? De onde venho? Para onde vou? A quem pertenço? Para que existem meus braços, minha boca, minha vida? Qual o sentido desse existir que vai desde o momento em que fui concebido no seio da mãe até o momento em que a irmã morte nos visita? Como me posicionar diante desses outros, dessas outras que circulam à minha volta? Por que esse desejo de atingir as estrelas quando tudo em mim é fragilidade? Quem sou eu, esse caniço tão frágil, mas esse caniço pensante, no dizer de Blaise Pascal?

5. O pano de fundo de toda forma de educação é a família. No bojo de uma família se fazem presentes os valores que podem plasmar pessoas de garra e de valor. Bento XVI numa de suas instruções às famílias assim se exprime: “Quando uma criança nasce, através do relacionamento de seus pais, começa a fazer parte de uma tradição familiar, que tem raízes muito antigas. Com o dom da vida se recebe um patrimônio de experiência. Os pais têm o direito e dever de transmitir um tal patrimônio a seus filhos: educá-los no descobrimento de sua identidade, introduzi-los na vida social, na prática responsável de sua liberdade moral e de sua capacidade de amar, através da experiência de serem amados, e sobretudo no encontro com Deus. Os filhos crescem e amadurecem humanamente na medida em que acolhem com confiança esse patrimônio e essa educação que vão gradativamente assimilando”.

6. Educar é abrir-se à vida, é encontrar o mistério da vida e dialogar com a fala da vida. Acolher a vida significa dar-lhe lugar em mim para ela de tal sorte que minha existência não seja um peso, mas ocasião de colocar ações profundamente gratificantes e que tornem mais bela a face da terra. Não “toleramos” o viver, mas daremos o testemunho de uma alegria de viver, mesmo no coração de todos os desafios. “A luz só se acende com a luz, a vida coma vida, a liberdade com a liberdade. Se eu, por primeiro, não sou um homem luminoso, livre e vivaz interiormente não transmitirei claridade a nada e a ninguém” (Dom Ângelo Bagnasco, Cardeal de Gênova).

7. Os bispos italianos num denso e longo documento sobre o tema da educação, grande prioridade da Conferência Italiana, afirmam: “A educação está profundamente vinculada ao relacionamento entre as gerações, antes de tudo no interior da família, portanto, em termo de relacionamentos sociais. Muitas das dificuldades experimentadas hoje no âmbito da educação se devem ao fato de que as diversas gerações vivem muitas vezes em mundo separados e estranhos. O diálogo requer uma significativa presença de uns na vida dos outros e requer disponibilidade de tempo. Ao empobrecimento e à fragmentação dos relacionamentos dever-se-á acrescentar o modo como se opera a transmissão entre as gerações. Não poucas vezes os filhos se acham diante de uma figura adulta desmotivada e nem sempre digna de crédito, adultos sem capacidade de testemunhar as razões de sua vida que possam fazer surgir nos educandos o desejo de amor e de dedicação”.

8. O objetivo central da educação pode assim ser resumido: agir de sorte que os jovens sejam psicologicamente equilibrados, social e culturalmente inseridos, eticamente responsáveis, com capacidade de construir seu futuro, donos de suas vidas e atores e não meros espectadores das coisas que acontecem sem que eles tenham domínio sobre elas. A verdadeira educação não pode excluir a proposta da busca de Deus na vida das novas gerações.

Nota: Continuaremos a abordar este tema no próximo número desta revista eletrônica.

V. PASTORAL

Por que a fé se arrefece?

 

1. Todos aqueles que trabalhamos no campo da evangelização, pastoral e da catequese temos plena consciência de que será preciso, em todo o tempo e lugar, alimentar a fé que deve animar a vida toda de uma pessoa. Não é possível que cristãos atravessem o tempo da existência, desçam vales e escalem montanhas com rudimentos precários, emocionais e infantis de fé. A criação de comunidades vivas, o incentivo pela constituição de grupos de oração e de reflexão ajudam as pessoas a se situarem sempre de maneira nova diante do mistério da fé no Deus grande e belo que nos ama e que nos deu a ventura de conhecermos a altura, largura e profundidade de seu amor manifestada na pessoa de Jesus, vivo e ressuscitado, presente no meio de nós.

2. Muitos de nossos contemporâneos, não poucos católicos, de missa dominical ou sem ela, dizem que estão perdendo a fé. Mesmo não o declarando, suas posturas nos dizem que a fé para eles é uma superestrutura exterior que não parte da verdade de seu ser e não ilumina o seu caminhar. Há os que vivem um estado intermediário perigoso entre um cristianismo tradicional e a falta de fé. Deus aparece praticamente ausente da vida daqueles que ainda colocam gestos (sacramento do batismo para os filhos, missa de sétimo dia etc). Observamos, de fato, um debilitamento da fé. Declarando-se católicos mostram-se indiferentes no tocante às coisas da fé e da Igreja, duvidam e vacilam. Por que esse declive da fé? A leitura de uma Carta Pastoral dos Bispos Espanhóis do País Basco de 1997, A serviço de uma fé mais viva nos sugere algumas explicações do fenômeno. A terapia será fazer o contrário do que é visto como razões do enfraquecimento da fé.

3. Muitas pessoas se instalam numa maneira de viver que abafa toda inquietude religiosa latente no coração humano. Sua vida agitada, suas preocupações principais, seus interesses, sua obsessão pelo desfrutar imediato de tudo, a maneira de consumir bens, notícias, sensações, sempre sensações e emoções, não permitem nem o surgimento nem o crescimento da fé. Uma vida superficial impede o homem de atingir com um pouco de profundidade o centro de seu ser. A pessoa se interessa apenas pelas coisas imediatas, quer viver da melhor forma possível. Pouco a pouco, a fé dessa pessoa se dilui. Fica sem capacidade de ouvir outros rumores a não ser o de seus pequenos interesses. Em sua vida não há mais lugar para Deus. Ou talvez sobre apenas lugar para uma religião rebaixada ao nível do pragmático, do útil. A religião se transforma em alguma coisa para o bem-estar do individuo. Nessas vidas não há lugar para Deus.

4. Frequentemente, a fé desaparece simplesmente pelo fato de não ter sido cultivada. Depois de uma primeira comunhão, nem sempre bem preparada e da crisma também recebida sem densidade não se ouve falar das coisas de Deus, a não ser por ocasião de alguma homilia ouvida. Não lançamos mão daquilo que pode alimentar e reavivar a fé. Preocupamo-nos com tudo, menos em cuidar do importante: a comunicação e o estar com o Senhor, a busca humilde de seu perdão, a paz de consciência, o alimentar da esperança. As pessoas dizem: “Não tenho tempo para essas coisas”. “A religião não me diz nada”. “Tenho minha fé à minha maneira”. Elas continuam “cristãs”. Deus continua no fundo de suas consciências. Sua fé cristã, no entanto, corre o risco de se extinguir. Na realidade, a religião vivida na infância foi se tornando acanhada e pequena. Não se desenvolveu à medida em que a pessoa foi crescendo. A vivência da fé “infantil” hoje não tem significado algum na vida de adultos. Muitos desses católicos que hoje integram as igrejas pentecostais, na realidade, nunca cultivaram sua fé católica e foram “atraídos” por outras sirenas.

5. A fé torna-se fraca, outras vezes, por falta de interioridade. Muitos consideram a vida interior como alguma coisa supérflua e inútil. Organizam sua vida a partir do exterior. Quase tudo o que fazem tem como finalidade alimentar sua personalidade mais externa e superficial. A vida do espírito é rotulada de evasão. Desprovida de interioridade a fé se extingue. Exteriormente temos projetos, ocupações e expectativas, mas o homem interior se debilita. Para que a fé seja fonte de luz e de vida, o ser humano precisa adentrar no seu próprio mistério, chegar ao coração de sua vida, precisamente ali onde ele é ele mesmo total e unicamente diante de Deus. Quando a pessoa perde contato com o “nível transcendente” de seu ser, a experiência religiosa se apaga, mesmo que continue praticando uma “religião externa”. De fato são muitos os cristãos que desconhecem o desejo do Absoluto e a experiência de uma comunhão pessoal com ele. Buscam certas seguranças religiosas em crenças e práticas que estão a seu alcance, sem nunca penetrar numa relação viva com a realidade misteriosa de Deus.

6. Quase sempre preferimos o que é fácil. Não nos animamos a passar pela porta estreita. Temos medo de levar nossa vida a sério e assumi-la com responsabilidade total. É mais cômodo ir “empurrando” a historia sem defrontar-se com o sentido último de nosso viver. Temos medo da religião porque temos medo de nos colocarmos diante da vida em toda a sua profundidade. Receamos tudo aquilo que, eventualmente, possa pôr em perigo nosso comodismo e nosso bem-estar, revelar o vazio de nossas existências e colocar-nos diante de exigências morais concretas que pediriam de nós decisão e conversão. O homem prefere não arriscar totalmente a vida em Deus, como o jovem rico do evangelho que tinha muitos bens. De fato, a pessoa que não tem a coragem de se perguntar de onde veio e para onde vai, quem é e o que vai fazer de sua vida acaba por distanciar-se de Deus. Pode, então, optar por dois caminhos: abandona a religião e não quer mais saber disso em sua vida ou então elabora uma religião tranquilizante, praticando aqui e ali, mas escamoteando as exigências fundamentais do Deus de Jesus Cristo.

Eis aí, prezados leitores, umas certas razões do debilitamento da fé em muitas pessoas.