Vida Cristã - Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil - OFM

Janeiro 2021

Diário de uma mulher da Samaria

João 4, 1-30

Como a corça suspira pelas águas correntes, assim minha alma suspira por ti, ó Deus. Minha alma tem sede do Deus vivo: quando virei a contemplar o rosto de Deus?
Sl 42, 2-3

Quando cheguei ao poço, ele já estava lá. Era um dia de muito calor. Lá encontrei esse judeu, sentado à beira do poço de Jacó. Parecia cansado da viagem. Devia ser por volta do meio-dia. Fui para tirar água do poço e nem podia imaginar o que ia acontecer.

O homem resolveu dirigir-me a palavra. Queria que eu lhe desse de beber. Não se poderia esperar outra reação de minha parte. Fui categórica: “Como, sendo judeu, tu me pedes de beber, a mim que sou samaritana?” E ele começou a me envolver numa conversa… O que dizia me fez ficar pensativa, perplexa e mesmo confusa. Afirmava que eu deveria pedir a Deus ou a ele uma água, uma água viva… Água do poço ou água de outra fonte? Ele que nem balde tinha para tirar água como queria me dar uma água tão especial. Dizia ter uma água que matava de fato a sede. Quem sabe queria dizer uma sede por dentro.

Essa história de água viva não me saiu da cabeça. Falava de uma água que provinha de Deus. “Todo aquele que bebe desta água terá sede de novo. Mas quem beber da água que eu lhe der, nunca mais terá sede. E a água que eu lhe der se tornará nele uma fonte de água para a vida eterna”. Nunca haverei de me esquecer destas palavras. Eu poderia ter uma fonte de água dentro de mim, diferente e no meu interior? Não entendi o que ele estava dizendo. Arrisquei: “Senhor, dá-me desta água para que eu não tenha mais sede nem tenha que vir para tirá-la”. Percebi que eu não estava dizendo coisa com coisa. Falava por falar. De que água estava ele a falar e de que sede?

Depois, curiosamente, me dei conta que ele me conhecia por dentro. Pediu que eu fosse chamar meu marido… sabia que eu já tivera cinco e esse, com quem vivia, não era meu marido. Ele me pareceu um profeta. Já me esquecera do calor do meio dia e queria continuar a ouvi-lo. Ele falava da adoração do Deus vivo e que os verdadeiros adoradores não precisam de montes, mas o adoram em espírito e verdade. Lembrei-me as promessas feitas para o tempo do Messias: “Sei que o Messias deve chegar, que se chama Cristo e que vai ensinar todas as coisas…”. Então, pasmem, ele me disse: “O Messias sou eu que estou falando contigo”. Como poderia eu compreender tudo aquilo. Minha cabeça deu mil voltas…

Nesse momento chegaram os que andavam com ele e não deu para continuar a conversa. Não conseguira assimilar tudo aquilo que ele me dissera. Deixei o cântaro lá. Não era importante, naquele momento, carregar água. Comecei a buscar e com uma vontade louca continuar a ouvir esse homem. Ele me fascinou. Fui correndo para a cidade dizendo que havia encontrado um homem que lera minha vida e que afirmava ser o Messias. Uma sede diferente dentro de mim. Havia encontrado o Messias.

Anexos:

• Conclusão do trecho de João:
Muitos samaritanos daquela cidade creram nele por causa da mulher que dava testemunho: “Ele me disse tudo o que fiz Por isso os samaritanos vieram até ele, pedindo-lhe que permanecesse com eles. E ele ficou ali dois dias. Bem mais numerosos são os que creram por causa da palavra dele e diziam à mulher: “Já não é por causa dos teus dizeres que cremos. Nós próprios o ouvimos , e sabemos que esse é verdadeiramente o salvador do mundo (Jo 4,39-42).

• Sede e desejo
O desejo humano é sede diversa da sede dos animais: é o desejo de ser amado, olhado, cuidado, desejado e reconhecido. Ser humano é sentir que a existência depende desse reconhecimento, mais do que de outra coisa qualquer e que por isso está pronto a arriscar tudo, até a própria vida. Enquanto desejamos objetos quaisquer que eles sejam, enquanto nos deixamos mover no encalce de coisas, carreiras, títulos, honorificências, o nosso desejo não é ainda um desejar verdadeiro. O puro desejo principia quando se formula, sem mais, como nua abertura ao outro” (José Tolentino Mendonça, “Elogio da Sede”, Paulinas, p.48).

Perfil do Catequista

1. Um dos ministérios que constroem a Igreja é certamente o serviço realizado pelos catequistas. Corremos sempre o risco de pensar que catequistas sejam apenas aqueles e aquelas que se ocupam de crianças e adolescentes, quase que exclusivamente tendo em vista a preparação para a recepção dos sacramentos da eucaristia e da crisma. O horizonte do ministério da catequese é bem mais amplo e atingirá, sobretudo, o mundo dos adultos. A opção prioritária em catequese em nossos tempos é a complexa catequese dos adultos. Onde e como está última efetivamente se realiza? Muitos adultos, isto é ao menos aqueles que frequentam a missa, nada mais têm a não ser a “catequese” da homilia durante toda a vida.

2. Os catequistas, homens e mulheres, são indispensáveis para o vigor da fé. Pareceu-me bom começar esta reflexão com algumas linhas de Lucio Soravito, sacerdote italiano, responsável pela formação de catequistas em diferentes níveis: “A formação dos catequistas atingirá realmente sua finalidade se for nutrida por uma sólida espiritualidade eclesial, incentivada por um grupo que se reúna regularmente no seio da comunidade paroquial. Para poderem prestar um serviço à promoção humana hoje e para realizar uma ação evangelizadora eficaz, os catequistas crescerão como “pessoas abertas”, em diálogo com o homem de nosso tempo, capazes de promover o diálogo, a comunhão, a participação, abertos ao mundo que os cerca uma atitude de escuta, de solidariedade e de serviço”.

3. O catequista é, antes de tudo, uma discípulo de Jesus. Espera-se que tenha o cuidado de conviver com o Mestre já que sua missão é torná-lo conhecido e amado. Será ouvinte da Palavra sempre prestando atenção no Senhor presente na comunidade, nos sacramentos, insinuando-se nos sinais dos tempos. “O catequista é aquele que acredita no extraordinário interesse de Deus por cada homem e, fazendo-se próximo desse último, no amor e nos respeito, ajuda-o a acolher a presença divina e a escancarar-lhe a porta de seu interior” (Lucio Sorovito).

4. Há os que comparam o catequista a João Batista, amigo do esposo, e precursor do Senhor. Deus teria escolhido o catequista para que preparasse os caminhos para que sua graça pudesse atuar nas pessoas. O catequista faz a experiência de Deus em sua vida e quer esta presença seja conhecida para que as pessoas não tenham uma vida frustrada. São pessoas que desejam um grande bem às pessoas.

5. O catequista exerce o seu ministério com outros servidores: é colaborador do bispo em sua missão de educar a fé, dos presbíteros que organizam a catequese em suas comunidades e das famílias que são os primeiros evangelizadores dos filhos (quanta problemática quanto à catequese das famílias??).

6. Forçosamente o catequista será alguém inserido na comunidade. Não é um “professor” de catecismo que vem e alhures. Crianças, adolescentes e adultos precisam vê-lo compromissado com a comunidade e presente com ar de contentamento. Para ele a presença de Cristo ressuscitado se faz, de modo particular, nas alegrias, dores e preocupações das pessoas que se reúnem em torno de Cristo. Por isso, a presença do catequistas em muitas iniciativas da comunidade é por demais importante.

7. O catequista é companheiro de viajem das pessoas que lhe foram confiadas. Ajuda-as a ler os acontecimentos da vida à luz da fé e da Palavra, ou à luz da Palavra que leva à fé. Por isso, ele mesmo e os que acompanhas “viciam-se” numa audição ruminada da Palavra. Mas cuidado, de uma Palavra que é uma Pessoa. Não um livro. Os Evangelhos constituem uma luminosidade para os que acompanham e os que são acompanhados. Será fundamental criar relacionamentos personalizados com os catequizandos.

8. O catequista preocupa-se em fazer com que os que acompanham sejam atentos em descobrir sua verdade pessoal. Eles precisam ter um projeto de vida. Penso aqui de modo especial na complexa formação cristã dos adolescentes e jovens. Muitos que foram formados numa catequese de “verdades” frias e congeladas criaram uma casca ao novo que pode lhes advir com uma catequese a partir do Evangelho de Jesus e seu modo de ser O catequista leva os catequizandos a fazer uma viagem em sua vida anterior e descobrir traços das visitas do Senhor e imaginar com construirá seu projeto de existir. A fé não é uma luminosidade?

Oração do peregrino da montanha

Senhor  Jesus,

que vieste  de junto do Pai

para armar tua tenda entre nós,

tu que nasceste  por ocasião de uma viagem

e conheceste todas as estradas:

o caminho do exílio,  as trilhas das peregrinações,

as caminhadas  para encontrar as pessoas:

arranca-me de meu egoísmo e de meu conforto,

faze de mim  um peregrino.

 

Senhor Jesus,

tu que escolheste, tantas vezes

o caminho da montanha

para encontrar o silêncio

e para reencontrar o Pai,

para instruir teus apóstolos

e proclamar as bem-aventuranças

e, no derradeiro  momento,  a colina do Gólgota

para oferecer teu sacrifício,

enviar teus apóstolos

e retornar ao  Pai:

atraí  o meu coração  para as coisas do alto:

faze de  mim um peregrino  da montanha.

 

Tenho sempre a tentação de viver tranquilo

e tu me pedes incessantemente

de arriscar minha vida

como  Abraão,

num ato de fé.

Tenho a tentação de me instalar

e me pedes para caminhar na esperança,

para os altos píncaros,  na gloria do  Pai.

 

Senhor tu me criaste  por amor e para o amor,

permite que eu caminhe na tua  direção

com minha vida e meus irmãos,

com  toda a criação na audácia e na adoração.

 Hyacinthe  Volluz

Nesta edição

 Neste ano de 2021,  queremos  oferecer aos leitores,  mês após mês, reflexões e meditações, subsídios de pastoral  e temas de nosso ser cristão  que  anda a pedir a descoberta de caminhos novos.   Essa a finalidade desses  Cadernos de  Formação. Há uma preocupação de formar o ser cristão a partir do interior e oferecer pistas de seu agir  pastoral, ou seja,  estamos diante do binômio contemplação e ação.  Seres com um fogo  interior que precisam aquecer e iluminar essa terra dos homens.  Este é  o primeiro dos Cadernos de  Formação.  Que possam ser  úteis.

 Frei  Almir Ribeiro Guimarães, OFM

freialmir@gmail.com