Vida Cristã - Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil - OFM

Fevereiro 2017

FEVEREIRO 2017

Com muita alegria colocamos neste site da Imaculada a edição de nossa Revista Eletrônica que tira do baú coisas novas e velhas. É a edição de fevereiro que já nos aponta para o tempo da Quaresma. Boa leitura.

Frei Almir Ribeiro Guimarães, OFM
freialmir@gmail.com

I. PARA COMEÇO DE CONVERSA

Praça Padre Bento

 

Convido a todos, de modo especial, os franciscanos
da Província da Imaculada, a contemplarem alguns
ângulos da 
Praça Padre Bento, no bairro paulistano do Pari.

 

 

A praça em questão fica na cidade São Paulo, no bairro do Pari, na região do Brás, ilha cercada de comércio por todos os lados. Nós, franciscanos da Imaculada, conhecemos bem o monumental templo ali erguido, semelhante a uma basílica romana, o convento, a paróquia, tudo situado na praça Padre Bento. Sabemos que Santo Antônio do Pari foi uma das mais importantes casas desta Província, foco de evangelização, centro de difusão da Bíblia, espaço de mentalização do apreço para com a Terra Santa onde nasceu o Salvador, espaço pioneiro da pastoral operária.  Quantos frades luminosos deram o melhor que tinham e marcaram gerações e gerações. Para começo de conversa desejo apenas  fazer uma “fotografia” de paisagens que andei  contemplando em certo domingo de janeiro deste ano.

Estava hospedado num quarto do convento com amplas janelas dando para a praça.  Era no primeiro andar. Na praça estava a estátua do Padre Bento, sentado, como que a observar tudo o que ali se passava. De quando em vez, pombos descansavam em sua cabeça… Era um domingo, bem cedo. Talvez 7h30 da manhã.  As lojas estavam fechadas e, em dia de domingo, o movimento era reduzidíssimo. Diante de mim, o Bar  Santo Antônio,  na esquina da praça com a Barão de Ladário. Um homem de bermuda azul e camiseta vermelha cavada, fumando, movimentava-se de um lado para o outro, diante do bar, sentando-se e levantando-se, em cadeiras dispostas na calçada.   Quem era? De onde vinha?  Um porteiro, um morador de algum daqueles minúsculos quartos, sem ninguém, sem família? Estava ali num domingo de manhã.  Havia também um homem de certa idade que me parecia um libanês… sentado, sem fumar, nem tomando café… com o olhar perdido, esperando a vida passar.  Levantava-se, ia até o balcão do bar, conversava com o balconista. Aquele bar, as mesas na calçada, tudo aquilo era um reino que  ele possuía sem falar, apenas com sua presença solenemente majestática.

Quantos prédios novos! Altos, envidraçados, bem feitos e mal feitos. As casas foram desaparecendo. Lojas, centros comerciais, manequins completos ou pela metade, expostos nas vitrines, com vestidos de belo colorido e camisetas  luminosas.  Quase todas as mercadorias fabricadas na China. Bem perto do bar, uma vitrine no segundo andar com manequins dourados e prateados contemplando a praça e olhando o homem da bermuda azul e o libanês solenemente majestático.

E os pombos, às dezenas e centenas, comendo ração que senhoras idosas teimam em lhes dar. Muitos pombos que, com seus voos, pareciam aviões aterrissando.  Muitos deles doentes e transmitindo peste.

Homens, relativamente jovens, vinham de uma rua e de outra. Entravam no bar, tomavam café, compravam pão, partiam… Permaneciam sempre o homem de bermuda azul e da camiseta vermelha e o libanês  com sua postura solene.  Verdade que um ou outro homem sentava-se por ali, sempre com celular, conversava com o homem da bermuda azul, depois iam embora. Todos faziam um monólogo.  Falavam por falar.  Nada tinham a se dizer. As conversas giravam em torno da prisão do Eike Batista e da “lava-jato” e  das iniciativas do  novo prefeito da cidade.

Abandonei meu ponto de observação e fui celebrar a missa das 9h.  Metade da igreja tomada.  Gente simples.  Boa participação. Falei sobre o evangelho das bem-aventuranças. De repente, logo depois da homilia,  houve um corte de eletricidade. A operadora deve ter desligado para reparos na região. Gritei o que pude gritar para que todos pudessem participar comigo da oração eucarística.  Poucas crianças, alguns paulistas, muitos nordestinos e meia dúzia de bolivianos.  O que será da Paróquia do Pari nos próximos anos? Uma ilha cercada de lojas por todos os lados. Como o Evangelho poderá penetrar por ali?

Voltei para meu posto de observação pelas 10h. Uma unidade móvel da polícia havia se instalado no meio da praça. Questão segurança. As pessoas começavam a chegar. Crianças andavam de um lado para o outro. Um chinesinho ou coreano corria atrás de um menino árabe, numa bela confraternização. Mulheres encontravam mulheres. A “pombarada” sobrevoava. Pessoas saíam da igreja, outras iam fazer compras no grande supermercado, moradores de rua se aqueciam, ainda  deitados por terra,   enrolados em cobertores. O homem da bermuda azul continuava fumando seus cigarros, gesticulando, conversando com dois outros…  Conversando? Não sei. Os dois estavam com  os olhos fixos na telinha dos celulares. Não creio que os homens com os celulares estivessem prestando atenção na fala do homem da bermuda azul. Catequistas muçulmanos com seus trajes longos e seus gorros andavam pela praça conversando com haitianos, paulistas e paulistanos sobre as coisas de Alá e do Corão.

O dia passou, a noite chegou.  Depois veio a madrugada. Pelas 2 horas da “matina” um roncar suave ou violento de carros, de imensos ônibus, de vans e  kombis de todos os lugares.  Ninguém consegue dormir. Esses veículos  trazem fregueses para as lojas, as incontáveis lojas. Chegam para  comprar na ferinha da madrugada. Não havia lugar algum para estacionamento de carro pelas 5 horas. Tudo tomado. E começavam a circular os ônibus rumo às estações do metrô do Brás, Belém,  terminal  Princesa Isabel, Liberdade. Uma festa, uma movimentação geral, vida pululando, muita vida. Que espaço, em tudo, ocupam a Igreja e os cristãos?

Chega a manhã. Um gari com máscara, varre, cata papéis sobre o gramado. Faz tudo cuidadosamente, meticulosamente.  Os caminhões de lixo recolhem montes de sacos e caixas de papelão desfeitas. Um carro-pipa é levado à praça e um funcionário da limpeza espalha jatos de água  para lavar tudo… e a praça fica bonita, e a vida  canta, as pessoas conversam, encontram-se.  Mesmo esses trapos ambulantes, homens e mulheres, descarnados, sujos conversam, confabulam. Não sei de onde chegam.  Vivem perto da praça. Poucos, na verdade,  habitam a redondeza  do Pari.

Dentro de nossa casa, um pátio interno cheio de flores bonitas e  dezenas e dezenas de pássaros. Rolinhas, descem e planam buscando ração que os frades lhes oferecem cada manhã. Há um pássaro preto meio  sem educação que não deixa as  rolinhas em paz.  Espanta a todas. Quer tudo para si.

Que será de nossa casa do Pari? Frades desejosos de acertar vivem se questionando. Precisam descobrir caminhos.  Devo dizer que de minha janela no primeiro andar vi um espetáculo mais  vibrante do que certos filmes e  espetáculos teatrais.  Vi a dança da vida e tive vontade de viver.

Quem sabe, quanto vocês tiverem um tempinho, deem uma passada  por ali.  Trata-se da vibrante Praça Padre Bento!

II. LEITURA ESPIRITUAL

Que sentido damos ao sofrimento?

 

Neste tempo da Quaresma convém refletir sobre nossos limites e nossas fragilidades. Afinal de contas que sentido andamos dando aos sofrimentos que nos ocorrem?

 

 

Normal que nos sintamos preocupados, quase desesperados quando tomamos consciência de determinadas limitações que nos advêm. Pensamos numa enfermidade, no rompimento de um casamento,  na morte de pessoas muito próximas.  Tudo isso leva-nos a sentir quão grande é nossa fragilidade. Há pessoas que, nestas condições, sentem-se inúteis, tomadas de angústia sobretudo quando pensam no futuro, de modo muito  especial os que são tomados por graves enfermidades. Em tais ocasiões discursos incitando-nos à resignação, à “aceitação da vontade de Deus” ou a respeito do valor redentor do sofrimento não nos atingem. Por vezes é preciso percorrer um caminho extenuante antes de vislumbrar qualquer sentido para os sofrimentos que chegam, alguns que permanecem para sempre.

O que dá sentido ao sofrimento não é o fato de sofrer, mas a dificuldade de continuar amando a partir de uma situação de sofrimento. O que dá sentido ao sofrimento, como aquilo que dá sentido à vida, é permanecer em relação com os outros, continuar tentando se  interessar por eles evitando o fechamento do coração.    Tocamos, nesse aspecto, o mistério de cada pessoa. Não existe receita mágica válida para todos.

Deus não se regozija com o sofrimento dos mortais.  Podemos dizer que ele lhes dá alívio. Normalmente, ele o faz através das pessoas que cercam aquele que é presa de um sofrimento. Ele dá uma força para que sejamos capazes de esperar e dar um sentido ao que vivemos.  Isso não acontece magicamente. Tudo vai depender  das etapas da vida que atravessamos, de nossa patologia e do nosso caminhar espiritual.  Necessário paciência e respeito na lenta elaboração de um sentido. As mais das vezes não encontramos as palavras mais adequadas para exprimir o que nos aflige e para consolar os que sofrem. Há medos difíceis de serem verbalizados. A experiência diz que muitas vezes nos encontramos sozinhos com nosso sofrimento, mesmo com o empenho generoso daqueles que nos cercam.  Há momentos em que somos capazes de “suportar”, sem desesperar, nada mais: ou seja, conviver com o sofrimento. Em todo esse caminho descobrimos que existe em nós reservas de vitalidade, de vida que até então não havíamos suspeitado.

Há doentes que confessam que encontram sentido em seu sofrimento na medida em que os oferecem pelos outros.  Contemplando Cristo na cruz, oferecem-se por eles para que possam ter vida. Fazem assim sem deixar de pedir o próprio restabelecimento. Como entender esta expressão: “Oferecer os próprios sofrimentos”?  Muitas vezes, é bem verdade, nada se tem a oferecer senão a própria impotência, como Jó na Bíblia. Em outros momentos oferecer os sofrimentos poderá significar balbucios de confiança ou um frágil desejo de amar.  Em todo caso nunca será questão de alcançar graça por meio de sofrimentos. A graça não se merece.  Não se trata de resgate a pagar nem de sofrimento a ser buscado. Não é essa a oferenda que agrada ao Senhor.

Podemos começar tentando aceitar a situação que se passou a viver e evitar manifestações e sentimentos de revolta, deixando também sentimentos de culpabilidade.  Não centrar tudo unicamente em nossa fragilidade, quando se é submergido pela dor. Não nos fecharmos em nós mesmos. Um passo adiante:  um abertura de coração, muitas vezes tímida, poderá  fazer com  que abandonemos a obsessão  pela cura a todo preço. Claro que tal vai depender do grau de sofrimento que se vive e da desumanização que se experimenta.

A saída do isolamento só é possível para um paciente  na medida em que ele é auxiliado por pessoas que o visitam e conversam delicadamente com ele.

Há, é claro, a oração, o estar com Cristo, haurir do coração de Deus coragem e capacidade de amar. Pelo fato de Jesus nos ter salvo, não   quer dizer que o fez pela quantidade de sofrimento.  Semelhantemente os que sofrem de enfermidade aceitam de alguma forma serem vítimas em solidariedade com a humanidade pecadora e sofredora. No meio de dores e sofrimento nem sempre é fácil rezar.

Há pessoas que optam por um comportamento de intercessão inspirado nos comportamentos de Maria. Ela, exemplo para nós,  esteve ao pé da cruz.

Alguém pode dizer: “Ofereço meu sofrimento pelo mundo”. Não se deve esquecer que é a qualidade de amor que torna nossa oferenda agradável a Deus e não o sofrimento em si mesmo. Podemos assim, com nosso consentimento, entrar no mistério da comunhão dos santos, quer dizer, esta solidariedade na luta contra o mal com as forças do amor,  num mistério de transfiguração do mundo. Podemos descobrir, para surpresa nossa,  que nossa maneira de viver pode ser fecunda para os outros na medida em que conservamos a fé, a abertura do coração e a acolhida do sofrimento dos outros. Poder continuar a  comunicar e dar amor aos outros  é a graça a ser suplicada. Tal dom redunda em graças para os outros. Pessoas sadias se solidarizam com doentes e vivem a dor do que sofre. Sabemos que não é fácil continuar interessando-se pelos outros quando nos sentimos fragilizados.

Nesse contexto cabe lembrar uma experiência feita por muitos.  Encontramos pessoas que, pela qualidade de escuta, acolhimento e maneira de olhar, adivinhamos que tenham enfrentado sérios sofrimentos.  Tais pessoas, passada a tormenta, não são mais capazes de julgar. Descobrem que sua real fecundidade não provém em primeiro lugar de suas competências, diplomas ou dons visíveis, mas às suas feridas, na medida em que elas foram aceitas e por vezes curadas.  O sofrimento faz com que compreendam a sua vida e a dos outros.  A qualidade de escuta, compaixão, ternura paciência que experimentam torna-se  fonte de vida para os outros.

Amar até o ponto de “rasgar-se”, num rasgão que não é mais uma ferida purulenta. Assim, aos poucos podemos ir entrando numa transfiguração de amor, em renovação da aliança, que é muito mais do que um amor de contabilidade, “dou se deres”, rumo  a um amor gratuito. Esse pode ser também caminho de renovação da aliança com o  Bem Amado. Nesse momento, os valores mudança. Aquilo que, no passado, nos parecia tão valioso transforma-se em coisa efêmera.

Tudo que acaba de ser escrito não é evidente, nem previsível.  Ninguém sabe como vai assumir a fragilidade e a diminuição de suas capacidades. Há muitos itinerários e experiências. Cada um deve percorrer seu caminho, como ele pode. Muitas pessoas não conseguem sucesso.  Permanecem na revolta e no desespero. Precisam nesse momento de um respeitoso silêncio e de acolhimento e não de vãs palavras.

Esta reflexão inspirou-se fortemente em
Bernard Ugeux
Traverser nos fragilités
Les Éditions de l’Atelier
Paris  2006, p. 39-42

III. MEDITAÇÃO BÍBLICA

Quanta gente naquele sicômoro

 

Meditação bíblica ou reflexão?  Um belo bordado literário com o episódio de Zaqueu (Lc 19, 1-10)!  Será que  já andamos subindo em sicômoros para ver Jesus passar?

 

 

O homem está para vir,
o homem vem mesmo,
está a caminho.
Há quatro dias não se fala de outra coisa:
ele vai passar por aí.
Ele cura, dá de comer, faz  viver,
conhece as pessoas a partir do coração.
Há muita gente nas ruas  para vê-lo passar,
ouvir o que ele tem a dizer;
as lojas vão baixando as portas
e as equipes de segurança da cidade estão perdidas,
não sabem o que fazer.

Zaqueu fecha os livros de contas,
vai  caminhando ao longo do casario
e sobe num sicômoro.

Sua intenção é sentar-se no primeiro galho:
ele poderá ver o homem
sem ser visto por ele e pelos outros.

O primeiro galho, no entanto, já está ocupado.
Está lá o mendigo, que vive sentado
o dia inteiro diante da casa de Zaqueu.

Zaqueu não tem outra alternativa,
senão subir um pouco mais alto.
Ora, no segundo galho se instalara
um coletor de impostos.
“Desculpa, Zaqueu, estou me escondendo.
O pessoal todo conhece minhas ideias
a respeito desse homem”.

Zaqueu continua buscando um lugar para sentar.
Naquele galho está aquela mulher que tem razões de sobra
para se esconder.
Pasmem, um pouco  adiante, um soldado romano.
Ah!  Se seu chefe ficasse sabendo!!!
Aquele outro cheira peixe, é pescador
Lá ainda um fariseu.

Neste outro galho, vejam só,  está a mulher de Zaqueu.
“O que tu estás fazendo aqui. Eu não te disse  para ficar em casa?”

Zaqueu continua subindo, subindo…
tem gente  demais neste sicômoro.
Ele precisa subir mais e mais.
Uf!!!  Finalmente ele vai poder  sentar e ver o  homem.

Mal instalado ele ouve um chamado:
“Zaqueu, Zaqueu  desce
que eu hoje quero estar em tua casa!”

Zaqueu desce para acolher o homem,
desce com sua mulher
e o fariseu
e aquele que cheira a peixe,
e o soldado romano
e a tal da mulher
e o coletor de impostos
e o mendigo e todos os outros
todos os que escondiam no sicômoro.

Diga-me uma coisa, você também estava lá? 

Marie-France Beirnaert
Revista  Évangile Aujourd’hui,  n. 210, p. 18-19

IV. PARA VIVER A QUARESMA

O tema da conversão

 

A partir dos primeiros dias de março, no seio da Igreja, vamos retomar  nossa caminhada quaresmal. Tempo de reforma da vida. Tempo de alimentar a vida do homem novo. Tempo de transformação do coração.  Simplesmente tempo de trabalhar nossa conversão ao Evangelho.

 

1. A palavra conversão evoca frescor, verdor e entusiasmo por um novo nascimento. Estas conotações verificam-se em qualquer idade em que venha acontecer seu começo ou se recomeço. A conversão é quase sempre descrita como experiência que plenifica, como encantadora descoberta na qual tudo parece correr de fonte. Ela pode provocar inebriamento,  euforia e, de outro lado,  serenidade, consolo, descanso que sucede a uma crise.  Através de sensações e sentimentos vividos, a experiência de conversão corresponde à busca de um caminho espiritual novo. Segundo o Novo Testamento, a palavra grega metanoia caracteriza uma mudança de rota, uma reviravolta interior que leva alguém a questionar todas as suas dimensões existenciais e todas as suas atividades. Com isso, a pessoa muda sua orientação fundamental de vida dispondo-se  ao seguimento de Cristo.

2. Somos cristãos. Fomos batizados no tempo da primeiríssima infância. Para a maioria de nós, tudo se deu num tempo em que de nada tínhamos consciência. Crescemos. Demos passos na vida e no seguimento do Senhor. A Quaresma vem nos lembrar que precisamos  alimentar e renovar nossos propósitos de conversão, de  profunda transformação da vida. Nada de mesmices e rotinas.  Nada de quaresma marcada apenas pela eventual privação do peixe na comida. Nada de piedade adocicada, sentimentalmente lamentoso, diante do Cristo na cruz.

3. Quaresma, tempo de fortalecer o homem novo. O velho homem, disto temos experiência, teima em renascer das cinzas. Sabemos que o  Senhor nos cerca, nos rodeia  e, no entanto, continuamos a viver como se ele não existisse, como se seu amor por nós não contasse, não tivesse a mínima importância.  Somos chamados a nos tornar santos como santo é o Pai celeste. Aceitamos, no entanto, a mediocridade, a fachada, a injustiça, e egoísmo e essas pulsões-forças que destroem a harmonia de nosso interior se tornam um caos insuportável à vida do mundo, com todos os desatinos. Quaresma, tempo de conversão. Um dia, esperamos firmemente, o amor de Deus nos invadirá totalmente. Até lá será preciso caminhar sem descanso na direção do Senhor.

4. A conversão é uma resposta pessoal ao amor de Deus. Ninguém se converte no lugar de ninguém. A cada um de examinar na vida aquilo que não está em consonância com o amor de Deus e dos irmãos. Particularmente, no tempo da Quaresma, somos convidados  a orientar o nosso coração para o Senhor. Urgente é feito esse convite no tempo da quaresma. A Igreja, nesse tempo de conversão,  insiste em nos dizer que ser cristão é  morrer com Cristo e com ele ressuscitar.

5. A primeira palavra do Evangelho resume a pregação de João Batista e a de Jesus: “Convertei-vos e crede no Evangelho”. O homem consciente de seu pecado pode se tornar outro e dar uma nova direção à sua vida.  Jesus oferece o primeiro lugar ao pecador que ele deseja cobrir de bens. Os pecadores, pensando bem, são os únicos que podem ser enriquecidos, porque não são os que gozam de boa saúde  que precisam de médico, mas os doentes.

6. Comentando esta passagem dos evangelhos, Lutero escrevia: “Somente é procurada a ovelha que estava perdida, somente é libertado o que estava preso, somente o enfermo  é fortalecido, é exaltado o que é humilhado,  cheio o que estava vazio, construído o que antes não estava”.

7. A pessoa converte-se ao longo do tempo da vida. Há pessoas que sabem datar o momento de sua transformação interior. Alguma coisa nova começou a surgir. A conversão modifica as operações conscientes. Dirige o olhar, invade a imaginação, enriquece a compreensão, orienta os julgamentos e  reforça as decisões.  O que entra num processo de conversão é criatura nova.

8. Cabe, neste contexto, evocar palavras de Francisco de Assis no seu Testamento. Fala da conversão como um processo de abandonar  o espírito mundano e das coisas debaixo.  Na verdade, foi depois do encontro com a dor e a miséria do leproso que começou o processo de conversão do Pobrezinho de Assis, homem de ontem e de sempre: “Foi assim  que o Senhor concedeu a mim, Frei Francisco,  começar a fazer penitência; como eu estivesse em pecados, parecia-me sobremaneira amargo ver leprosos. E o próprio Senhor me conduziu  entre eles e fiz misericórdia com eles. E afastando-me deles, aquilo que me parecia amargo se me converteu em doçura da alma e do corpo; e depois demorei só um pouco e deixei o mundo”.

QUARESMA, TEMPO DE REVER A ROTA DA VIDA E RENOVAR A FÉ NO CRISTO VIVO E RESSUSCITADO.

V. TEMA DA BÍBLIA

O desejo do homem na Bíblia

 

Frei Frédéric  Manns, OFM, durante longos anos, foi professor da  Sagrada Escritura  em instituições  dos frades menores em Jerusalém. Temos diante dos olhos um texto deste frade sobre o tema do desejo do homem nas Escrituras publicado em antiga revista dos frades menores de Paris.  Nestas páginas apresentamos o essencial de sua reflexão.

 

 

Sabemos que o tema do desejo ganha atualidade. De um lado há pessoas que rolam pelo espaço e pelo tempo quase que inertes e apagadas, sem garra e sem ânimo.  De outro lado há a loucura de desejos   que destroem a harmonia interior e, outros, que levam os homens à união mística com o Senhor. Os místicos foram seres de desejo.

“A inquietação que um homem experimenta em seu interior  devido à ausência de alguma coisa que proporcionasse prazer se estivesse presente, isto exatamente é o que chamamos de desejo”, afirma Leibniz no seu  Nouveaux essais  sur l’entendement  humain.

Conhecemos o primeiro mandamento bíblico: “Escuta, Israel. (Shema Israel). O Senhor nosso Deus é único. Amarás o Senhor teu Deus de todo o coração (lebabeka), com toda tua alma e com todas as tuas forças”. Amar a Deus de todo o coração, é amar a Deus com as duas tendências do seu coração,  porque em hebraico  a palavra  “coração”  contém duas vezes a letra bet,  a segunda do alfabeto.  O coração humano tem essa dupla tendência: uma que o leva a fazer o bem e a outra  que o orienta para o mal.  Cheio de desejos bons e maus, o coração do homem é um mistério. Toda a educação de Israel feita pelos profetas e os sábios  consistirá em orientar a tendência que habita o coração do homem para  Deus.  As dez palavras dada a Moisés por Deus não têm outro objetivo.

O que sai do coração

Desejo, anseio, vontade, demanda, fome e sede, instintos, preferência, amor: tudo isso habita o coração humano.  A razão de todos os desejos do homem é sua indigência essencial e a necessidade  fundamental de possuir a vida em plenitude.  O relato bíblico da criação  reconhece o fato:  “Não é bom que o homem esteja só. Vou fazer-lhe uma ajuda semelhante a ele”. O desejo do outro  faz com que o homem saia de si e busque  uma “ajuda”.  Por que Eva foi criada do lado de Adão?  A tradição judaica afirma que  Eva não foi criada a partir de um osso dos pés de Adão, porque  ela não é sua escrava;  não foi formada  de um osso da cabeça de Adão porque não deve exercer domínio sobre ele. Foi  “inventada” a partir do lado, ou seja, de lugar perto do coração. Eva estará perto do coração de Adão a propiciar-lhe  a felicidade que ele busca de todo o coração.

Homem e mulher

A diferença sexual  do homem e da mulher  para o autor sacerdotal  que compôs o  primeiro relato da criação em Gênesis 1 está ligada à fecundidade na transmissão da vida.  Para o autor javista que compôs o segundo relato da criação o que fundamenta a diferença sexual é a necessidade do homem viver em sociedade. Os livros sapienciais repetirão que a sexualidade com o desejo da mulher que ele comporta é querida por Deus. “Alegra-te com a mulher de tua juventude” ( Pr 5,18). E “encontrar uma mulher, é encontrar a felicidade, é ter conseguido um favor de Deus” (Pr  18,22).

Adão e Eva estavam nus, mas foram criados segundo a tradição judaica com uma veste de luz;  eram transparentes um ao outro. Depois do pecado esta vestimenta se transformou em pele, em sensualidade difusa. Trata-se de um jogo de palavras hebraico: or ( a luz)  se transforma em or  (a pele).  Uma realidade psicológica profunda é traduzida com esse jogo de palavras. O desejo do homem torna-se mais forte depois do pecado, por ter se espalhado por todo o seu ser e ter se tornado mais obscuro. A sexualidade com o desejo do outro que ela exprime é ambígua.  Perdeu sua transparência.

Do eros ao ágape

O Cântico dos Cânticos, composto de poemas de amor semelhantes a composições egípcias, afirma que o desejo amoroso do homem pela mulher  constitui uma revelação de Deus. O coração do homem não encontrará paz enquanto não  se abrir ao amor total.  O eros precisa fazer caminhada até o amor-ágape, amor-dom.

A Bíblia, no entanto, afirma que nos mais profundo do desejo humano acha-se a busca da beleza. As mães de Israel, Sara, Rebeca, Raquel eram belas, insiste a Bíblia. É a beleza que, por primeiro, faz deslanchar o instinto sexual. A Bíblia também afirma que essas mães eram estéreis, apesar de sua beleza. Em atenção ao pedido de seus maridos elas lhes deram uma posteridade.  A tradição rabínica comentará:  a beleza das mães era, antes de tudo, uma beleza espiritual que serviria de graça espiritual para seus descendentes.

A pluralidade do desejo  humano

O desejo pode se transformar para o homem numa perigosa tentação: o cadinho para a prata e o crisol para o ouro (cf  Pr 17,3).  Eva deixou-se seduzir pela árvore proibida.  Por ter cedido ao desejo a partir de então a mulher será vítima de seu desejo que a lançava para seu marido e será submetida à lei do homem  (Gn 3, 16).  A mulher perfeita é louvada no livro dos Provérbios (Pr 10,31): ela faz a felicidade de seu marido. Mais elogiada deve ser a mulher sábia, do que a  bela. “A expectativa do justo nada mais é do que alegria” (Pr 10,27).  Em outras palavras, o desejo purificado pela lei é que traz felicidade.

O homem tem outros desejos. Tem necessidade de amigos, porque  precisa ser reconhecido por seus pares que lhe devolvem sua imagem. O livro dos Provérbios bem o reconhece. A amizade é celebrada em inúmeros textos; “Há amigos que levam à ruína e outros  que são mais queridos do que um irmão” (Pr 18,24). O relacionamento com um irmão pode ser caracterizado pela violência como bem atesta o episódio de Caim e Abel. “O  pecado  chegou à tua porta, de desejo é de  chegar perto dele”. Caim convida seu irmão a ir pelos campos. Lá ele o matará.  A resposta à violência será dada no Cântico dos Cânticos que retoma o temário de Caim e Abel. “Sou do meu bem-amado. Seu desejo se volta para mim. Vem, meu bem amado, saiamos para os campos. É somente o amor que consegue resolver os problemas dos relacionamentos humanos.

O coração do homem é igualmente possuído pelo desejo de juntar dinheiro e bens. “Quem recolhe no verão é um homem prudente” (Pr  10, 14). Os tesouros mal adquiridos de nada valem. O sábio haverá de entesourar a ciência  antes  que bens materiais (Pr  10, 14).  O homem tem ainda outras necessidades: “Não te prives de um dia alegre, nem percas parte alguma de um desejo legítimo”  afirma  Ben Sira ( Eclo 14,14).

Como  a corça

O desejo mais profundo que se inscreve no coração do homem, criado à imagem de Deus, é a sede de Deus: “Como a corça suspira  pelas correntes de água, assim minha alma suspira por ti, ó meu  Deus”(Sl 42,2). “Minha alma espera pelo Senhor mais do que os sentinelas pela aurora”  (Sl 130,6).  “Como os olhos da serva na mão de sua senhora, assim nossos olhos estão no Senhor nosso Deus até que de nós tenha compaixão” (Sl 123,3).  A Escritura confirma a presença de Deus no coração do homem e seu valor positivo.  A dimensão religiosa do homem faz parte de seu ser mais profundo:  longe de ser fonte de alienação, ela dispõe o homem para a verdadeira alegria.  E, no entanto,  mesmo esse desejo religioso pode se apresentar pervertido.

A simbolização do desejo

Israel conheceu, ao longo de sua história,  tecida em parte fora da  terra prometida,  baals e astartes   ( divindades masculinas e femininas)  e piedosas imagens que simbolizavam a união do céu com a terra.  Chegou até a fundir um bezerro de ouro, símbolo da força viril, força adorada no Egito.  Foi tentado por prostituições sagradas que foram introduzidas  no templo. A luta contra as religiões estrangeiras terminou com a vitória do javismo. Mesmo depois de se ter purificado de tais costumes pagãos   Israel conservou este liame entre   o sexo e o sagrado.  Não se tratará mais  de imitar a sexualidade divinizada, mas de realizar uma função que suscitou a palavra de Deus na participação na força criadora.  Consequência dessa nova sacralização revela-se no emprego da simbólica sexual para exprimir o relacionamento de Israel com seu Deus. A aliança entre Deus e seu povo será comparada aos laços de amor  que unem o homem à mulher: “Eu te desposarei para sempre”  (Os 2,21).

A perversão do desejo

O pecado é como um desejo selvagem que é preciso manter à distância.  A concupiscência é o desencadear do desejo. A Bíblia, que é uma história do homem,  está repleta de desejos que levam o pecador de roldão.  No deserto, Israel,  sofrendo fome e sede, em vez de se alimentar com a palavra de Deus, não faz outra coisa senão lamentar a falta da carne que comia no Egito e a se revoltar contra Moisés que havia levado o povo ao deserto. Os culpados das rebeliões morreram vítimas da luxúria.

Cedendo a seu desejo sexual,  Davi se “apossa” de Betsabé, mulher  de um seus generais, fazendo com que pecado se sobreponha a pecado.  Salomão, multiplicando o número de suas mulheres, afastou-se de Javé.  Por ter, a conselho de Jesabel, cedido a seu desejo e despojado Nabot de sua vinha, Acab  condenou à morte sua dinastia.

Os dois anciãos que desejavam Suzana até o ponto de perderem o juízo  (Dn 3,8),  pagaram o pecado com sua própria vida.  Muitos outros exemplos poderiam ser acrescentados esta lista.

A  Lei dada por Deus no Sinai, querendo atingir o coração, fonte do pecado, proíbe o  desejo culpado. “Não cobiçarás a casa do próximo, nem a mulher do próximo” (Ex 20,17). Shema Israel.  Escuta e obedece  Israel à  Lei do Sinai.  Na obediência à Lei que todo desejo do homem é  purificado e fecundado.  Dai decorre a felicidade do homem.

Frédéric Manns, OFM
Le désir de l’homme dans la Bible
Évangile Aujourd’hui, n. 210, p. 22-26