Vida Cristã - Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil - OFM

Agosto 2011

I. LEITURA ESPIRITUAL

Três ou quatro pensamentos a respeito da oração

 

Oração e empenho de transformação na dimensão política (II)

 

Continuamos a refletir sobre o tema da oração. Ela não é uma atividade ociosa e intimista, privada da vontade de ação. Da oração deriva o engajamento transformador do mundo. A oração não pode ser alienação. Temos sempre diante dos olhos o texto de Luciano Manicardi, da comunidade ecumênica de Bose, no norte da Itália (Un cuore capace di ascolto, Preghiera e impegno politico, Rivista del Clero Italiano, n. 5 e 6 de 2005). O autor faz um comentário sobre a passagem de 1Reis 3, 5-14, onde Salomão pede a Deus sabedoria para governar o povo. Esta deveria ser a prece de todo agente de pastoral e todos os “políticos”, ou seja, dos que cuidam da polis. Para melhor compreensão deste texto, convém ler antes a perícope do Primeiro Livro dos Reis acima mencionada.

 

12. Durante a vida toda estamos aprendendo a arte de rezar. Aquele que de verdade se encontra com o Senhor, transforma o mundo. A prece de Salomão é uma súplica para ter a sabedoria de governar e de dar aos seus governados condições dignas de vida. Vejamos agora alguns aspectos da oração e de sua ligação com os outros e o mundo. Salomão tem consciência de suas limitações. O pedido de sabedoria a Deus é ouvido e o Senhor lhe dá um coração sábio e inteligente. O coração que escuta é capaz de discernimento no julgar (1Reis 3, 11). O governante é chamado a ser, antes de tudo, uma pessoa que está disposta a escutar. O que escuta tem condições de julgar e discernir o bem do mal, de administrar a justiça. O rei reconhece ser um jovem que não sabe comandar. A sabedoria é dada quando do reconhecimento dos próprios limites. Moisés, o grande legislador e organizador do povo, mostrou a Deus a desproporção entre suas forças e a responsabilidade da missão que lhe estava sendo outorgada. Deus então sugere que organize o colégio dos anciãos que lhe sirva de apoio, dividindo com seus membros o Espírito que havia recebido do Senhor. Importante esta consciência a respeito das próprias possibilidades para não cair na tentação da delegação a outros, da demissão, do refugiar-se no privado e no abandono do empreendimento. Há uma humildade, um reconhecimento da fraqueza que é força e não derrocada. É um abrir-se ao dom do Espírito, dom que é meta de toda oração de súplica (cf. Lc 11, 13): o Pai dará o Espírito aos que lho pedirem, dará coisas boas. Pode-se dizer que as pessoas que têm responsabilidades pesadas experimentam consolação profunda com a oração. Esta confirma o orante no serviço assumido: a pessoa se apresenta ao Senhor, obediente à sua Palavra. Hoje, mais do que nunca, sacerdotes, pais de família, precisam bradar aos céus para que Deus lhes dê sabedoria.

13. A oração (ou a fé) não é usada para conseguir sucessos pessoais. Salomão não pede uma vida longa, riqueza, vingança aos adversários. Nesses casos lançar-se-ia mão da oração para finalidades pouco nobres. Trata-se do desejo de governar bem um povo que é de Deus. O governante não pode se assenhorar do povo e desse governo tirar lucros pessoais. O povo é de Deus. Salomão pede a capacidade de discernir entre o bem o mal. Este binômio supera o senso ético, por mais importante que este seja, sobretudo nos governos de nossos dias. Abarca tudo o que é importante do ponto de vista de um homem de estado. A este cabe buscar o bem do povo, de modo especial dos mais fracos: a viúva, o órfão e o estrangeiro. “Trata-se da tríade dos “sem-dignidade” em favor dos quais a legislação veterotestamentária foi elaborando uma verdadeira rede de atendimento reconhecendo nos mais fracos o “sacramento” da presença de Deus e o memorial vivo da fragilidade vivida por Israel em outros tempos. Não molestarás os estrangeiros porque vós mesmos fostes estrangeiros no país do Egito”.

14. A oração, a escuta do Senhor na oração, pode colocar o homem diante de suas responsabilidades frente o outro e, de modo especial, os mais fracos. A oração pode despertar a compaixão, essa capacidade de conhecer e assumir o sofrimento do outro, do mais fraco, do último. G. Capograssi: “A piedade é desejo de piedade. Quem pode ter piedade de todos os homens? Necessário um coração infinito para poder ter piedade de todos. Nesse momento nasce a oração. A oração é um trêmulo desejo, esse trêmulo, quase não formulado pedido, que Deus tenha piedade dos homens, desta humanidade sem piedade”. A compaixão, na Bíblia, implica na responsabilidade de ações a serem colocadas em favor dos que sofrem. Nada tem de descompromisso ou sentimentalismo. É a atitude própria do juiz, também de Deus como juiz. É uma virtude do governante que, como Salomão, deve governar o povo com justiça. Para a Bíblia, justiça é sofrimento face a uma injustiça cometida, é sofrer com o oprimido e com a vítima, sofrimento diante do malogro do homem. O sofrimento com o que sofre, com o pobre, o frágil, aquele que não tem voz torna-se critério de ação, transforma-se em responsabilidade. Edgar Morin afirma: “Age de tal forma que os efeitos de tua ação sejam compatíveis com a sustentação de uma vida autenticamente humana na face da terra”. Não podemos nos esquecer, nós, orantes, que o Deus ao qual nos dirigimos é o Deus revelado pelo Crucificado que, na cruz, exprime sua proximidade aos que sofrem. A partir da oração nasce o princípio de uma cultura de paz, de reconhecimento dos sofredores, dos excluídos. Um autor afirma: fazer que o sofrimento seja eloquente é condição da verdade.

15. Na oração aparece um outro aspecto relacionado com o político e o mundo. Trata-se da intercessão. Salomão pede a Deus graça para cuidar dos seus. A oração mais frequente na Bíblia, como no Novo Testamento, é a de súplica. Esta se coloca no interior de uma confissão de fé: no louvor, no reconhecimento da alteridade de Deus, nesse contexto cabe a oração de pedido, de intercessão. Não é mesquinha e deve purificar-se através do tempo. A oração de súplica é eminentemente contemplativa: coloco Deus entre minha pessoa e os outros (e o mundo). Abro-me à liberdade de Deus e espero ser ouvido sem apropriar-me dele e de sua vontade. Fazendo a súplica coloco diante de Deus uma necessidade em forma de desejo. Na Bíblia, são os dirigentes do povo que, de modo particular exercem o ministério da intercessão. Rezar pelos outros não é querer transformar Deus num tapa-buracos, esperando que resolva magicamente o que não temos condições de resolver. A oração não é magia. É o acontecimento menos técnico que se possa conceber. Rezar pelos outros significa lembrar-se desses outros diante do Senhor e recebê-los de volta da parte de Deus agora iluminados pela sua vontade e sua palavra, significa purificar nosso olhar sobre esses outros. Inter-cedere: interpor-se entre duas partes. Indica um compromissamento ativo. A intercessão manifesta claramente a unidade profunda entre responsabilidade, compromisso histórico, justiça, solidariedade de um lado e oração do outro. Tem como consequência mais radical o dom da vida, o perder a vida pelos que se guia e se serve. O Cristo crucificado que abre os braços na cruz é imagem da intercessão universal: naquele momento coincidiam intercessão e dom da vida.

16. “A paixão política tem também o sentido de sofrimento e dom de si, do gastar-se, dando tempo e energias. A tradição dos cristãos empenhados na política conhece exemplos de uma tal dedicação radical, desse consumir a vida pelos outros. Homens transformados em intercessões vivas. A intercessão se insere no caminho de assunção das responsabilidades dos outros e também de quem virá depois de nós. Responsabilidade que precisa ser prioridade no plano educativo, no espaço de formação para a vida, tarefa cultural essencial numa sociedade como esta nossa sociedade ocidental que perdeu o senso da iniciação (para a puberdade, casamento, sexualidade, mas também no tocante à vida associativa, a vida dos grupos sustentada por normas e regras). A educação segundo Hanna Arendt é sinal que mostra se amamos bastante o mundo a tal ponto de salvá-lo da ruína que seria inevitável sem a renovação dos jovens e dos novos que chegam.

17. Nosso autor examina ainda as relações entre a dimensão política e a Eucaristia. Traduzimos literalmente suas reflexões: “Existe ainda um assunto que eu gostaria de iluminar com a oração. Trata-se do relacionamento tão essencial para o político, com a polis, com a cidade, com a comunidade civil. Aqui, o ensinamento vem da eucaristia, ápice e fonte da oração, da liturgia e da vida cristã. O que plasma a unidade da comunidade cristã é o dom do Pai, o Filho dado para a vida do mundo que, através do Espírito Santo, atinge os crentes e os une no Corpo de Cristo na história: o corpo eclesial. Este dom preventivo e não contracambiado é que forma a comunidade (Rm 13,8). A comunidade cristã é o espaço onde se paga a dívida do amor recíproco em suas relações internas. Esse amor mútuo constitui a Igreja como comunidade daqueles que, reunidos pelo dom de Deus, por sua vez se tornam doadores: a communitas é o lugar em que a regra é o múnus. O múnus é o dom do fazer, dom que é também tarefa, ônus. É um dom que me despoja para abrir-me ao outro, à relação com ele. A comunidade, aquela que é autêntica, não é o resultado da soma das forças e das riquezas dos seus membros, mas da partilha da pobreza e da fragilidade de cada um, é soldada não pelo que se tem demais, mas pelo que se possui de menos. A comunidade cristã impõe a si relações evangélicas que aparecem nesta descrição forte do Cardeal Martini: comunidade alternativa, comunidade que, numa sociedade caracterizada por relacionamentos frágeis, conflitantes do tipo consumístico, exprima a possibilidade de relacionamentos gratuitos, fortes, duradouros, cimentados na mútua aceitação e no recíproco perdão. Creio que estas observações podem dizer alguma coisa também para a comunidade civil, sempre chamada a fazer espaço para os mais fracos (o portador de deficiência, o doente mental, os sem casa, os migrantes etc), a ter isto sempre presente porque numa vida associativa sempre será feito o esforço no sentido de que os mais desmunidos, os sem meios, tenham a possibilidade de uma vida digna. Neste contexto se situa a competência básica e imprescindível de todo cristão também no campo social e político: sabe ver um filho de Deus, uma criatura à imagem e semelhança de Deus em todos os seres humanos, de modo especial no mais miserável e desgraçado. A partir da eucaristia, que manifesta mais do que nunca o princípio lex orandi – lex credendi, o político, como todos os crentes, aprenderá o sentido próprio da práxis, com engajamento, da ética, enxertando-o no mistério sacramental. Tratar-se-á de agir sob o signo da ação de graças (eucaristia) que privilegia o dom e faz do crente um ser grato. Uma existência aberta para o serviço. O relacionamento entre comunidade cristã e sociedade está bem claro no relato da Última Ceia segundo Lucas: “Houve também uma discussão entre eles; qual seria o maior? Jesus lhes disse: “Os reis das nações as dominam e os que as tiranizam são chamados benfeitores. Quanto a vós não devereis ser assim; pelo contrário, o maior dentre vós torne-se como o mais jovem, e o que governa como aquele que serve. Pois, qual é o maior: o que está à mesa, ou aquele que serve? Não é aquele que está à mesa? Eu, porém, estou no meio de vós como aquele que serve!” (Lc 22, 24-27)”. Os que se assentam à mesa da eucaristia não agem como os grandes da terra mas se tornam servidores da sociedade civil.

Conclusão

Para a Bíblia, a sabedoria também é conhecimento, inteligência, profundidade cultural, competência. Estas qualidades são particularmente necessárias para a política em nossos dias. Precisamos de espessura cultural, profundidade de conhecimento, reflexão, inteligência, amplitude de horizontes e alentado fôlego. Capacidade de pensar e meditar para preparar o amanhã. Salomão é o protótipo do sábio segundo a Bíblia. Sua sabedoria foi absolutizada e não mais cultivada como um dom de Deus e, assim, ele veio a praticar o mal aos olhos de Deus. Permanece, no entanto, “o coração sábio” do salmo 90,12, equivalente sálmico do “coração que escuta” (1Reis) que se pede na oração e que dela jorra. Quem se entrega a Deus na oração e se alimenta de Deus na humildade de seu coração, ganha graças para si e é capaz de fazer um mundo mais conforme o coração de Deus. A oração é, de fato, uma questão política.

II. PÁGINAS FRANCISCANAS

Francisco e Clara, irmão e irmã

 

Nossa Página Franciscana deste mês de agosto tem a ver com Francisco e Clara. Os dois não podem ser pensados separadamente. Estas duas trajetórias sem se confundirem, se complementam harmonicamente. Hoje se fala até de um carisma francisclariano, palavra rejeitada pelo dicionário do computador. Christian Bobin num texto cheio de poesia e de verdade nos fala do irmão e da irmã. Francisco e Clara dois seres extraordinários que se encontram no tempo e para além do tempo.

…Em sua imitação inocente, quase obsessiva, das Escrituras, Francisco de Assis não podia evitar esse encontro com uma mulher amorosa, sua irmã, seu “dúplice”.

Que dizer a respeito desse encontro, senão que os dois se completam como duas pilastras de um templo, que todos os matizes do amor passam de um para o outro, assim como todas as cores do sonho.

A respeito dela nada mais que evocar seu nome; ele diz o que ela é, aquilo que tem a dar: clara, clareira, clarividência, esclarecimento, luminosidade… Todas estas palavras estão em seu nome, todas essas luzes dela proveem… mocinha de dezesseis anos que seus pais desejam que se case, mocinha parecida com moças do cancioneiro francês, pássaro rebelde ao canto que se lhe ensina, pardal que prefere ficar pulando através dos caminhos molhados do que proteger-se sobre as folhagens de um árvore, por mais nobre que esta pudesse ser.

O que tu queres fazer quando tu ficares grande?
 Muitas vezes fazemos esta pergunta a crianças que mal e mal se dão conta do momento presente e no momento presente a presença maravilhosa do todo. Com quem queres te casar mais tarde? Esta pergunta é feita a alguém cuja beleza inquieta. Deseja-se persuadi-la de terminar o tempo leve da mocidade por meio do casamento… Mas aquele que ela (Clara) deseja desposar não está presente e não estará nunca. Não está ali nem em lugar algum. Ele é o mais elevado e o menos elevado… ele está longe e perto… ele está e ele não está.

Como nas letras das músicas de antigamente, a jovem foge da casa dos pais à noite, passa por uma porta secreta, obstruída por muitos pedaços de lenha, vai tirando toco por toco com suas mãos, desliza caminha abaixo na noite de estrelas para junto daquele que arquitetara o “sequestro”, o rei do coração, o príncipe da fuga, Francisco de Assis. Eles amam na mesma qualidade de amor, são feitos para se compreenderem, embriagados do mesmo vinho.

Ela muda sua veste resplendente por uma veste como aquelas que usavam as empregadas da época. E ei-los os dois juntos e separados, ele prendendo na armadilha de sua voz os pássaros do céu, os animais dos campos e os homens das cidades, ela recolhendo nas redes de Deus moças cada vez mais numerosas, cada vez mais bonitas.

Dois caçadores furtivos. Dois andarilhos percorrendo as invisíveis propriedades de Deus.

Separados como antigamente eram separados os meninos das meninas nos pátios das escolas primárias: ela na fila das meninas, ele no lado dos meninos. Separados nas aparências e lugares, estavam unidos para sempre pelo diálogo das almas, nesse êxtase de terem encontrado o interlocutor privilegiado, aquele ou aquela que ouve até nossos silêncios, mesmo o que não seriamos capazes de dizer no silêncio, a irmã e o irmão sem os quais o tempo passado na terra não teria sido mais do que um tempo – nada mais.

A legenda costuma dizer aquilo que é verdade, não como as coisas acontecem na frieza de provas, mas como os fatos se dão no sangue das almas. E a legenda diz que no dia em que Francisco visitava Clara e as irmãs no seu convento, as pessoas podiam perceber um incêndio à distância. O povo de Assis veio correndo apagar o fogo. As pessoas, no entanto, não viram chama alguma, nada de fogo, somente Francisco de Assis e Clara em torno de frugalíssima refeição e uma grande luminosidade entre os dois, uma claridade que não diminuía.

Ele morreu antes dela, fato, aliás o que não tem a menor importância. O amor quando irrompe, desde os seus primeiros frêmitos, abolidos os velhos decretos do tempo, suprimidas as distinções entre o antes e o depois, mantém somente o eterno hoje dos vivos, o hoje amoroso do amor.

Christian Bobin
Le Très-Bas
(Gallimard, p. 101-104)

III. ORAÇÕES

Louvores ao Deus altíssimo pelas maravilhas operadas na Irmã Clara

 

Mês após mês, queremos oferecer aos nossos estimados
leitores eletrônicos preces, orações para o dia-a-dia da vida.

 

LOUVORES AO DEUS ALTÍSSIMO PELAS MARAVILHAS OPERADAS NA IRMÂ CLARA

Senhor Altíssimo,
nós te louvamos pelo sol, pelas estrelas, pela água que desce das montanhas,
pela brisa ligeira, pela suavidade e pelo bramir das ondas do mar.
Pelas areias brancas, pelas flores viçosas e multicoloridas,
pelos pássaros que rodopiam,
rodopiam pelos ares, nós te louvamos.
Nós te louvamos pelas mãos que nos são estendidas,
pelas palavras de carinho que nos são dirigidas,
pelas mãos que nos seguram,
por aqueles que nos ajudam a carregar os fardos da vida.
Nós te damos graças pelo filho de Maria, teu Filho Jesus
que nasceu pobre e morreu mais pobre ainda,
mas que vive e nos dá alegria.

Nos te damos graça e te bendizemos
por nossa irmã Clara,
límpida como as águas das fontes,
clara como a luz do sol,
transparente como os véus das noivas
doidamente enamoradas.
Nós te louvamos pelas horas que ela passou diante da cruz,
da cruz bela de São Damião
cruz do Cristo meigo e suave,
de olhar negro e profundo como as águas do mar.

Nós te damos graças pelos corporais e sanguíneos,
pelos bordados e casulas que o amor de Clara
preparou para as igrejinhas abandonadas.
Nós te damos graças pelos gestos fraternos de Clara:
cuidando das doentes, cobrindo as irmãs nos dias de inverno.

Nós te louvamos pela singeleza do refeitório de São Damião,
pelas horas difíceis com a chegada dos sarracenos,
pela têmpera de irmã Clara em suportar o peso da doença
durante tantos anos.

Tu és maravilhoso por teres operado maravilhas em Clara,
irmã de Francisco e mãe de tantas mulheres alegres, simples, leves e felizes.

ORAÇÃO DAS MÃOS VAZIAS

Senhor,
aqui estou novamente em tua presença.
Hoje eu te trago minhas mãos vazias.
Parece ironia, parece desfeita, mas este é um precioso
presente que te quero ofertar.
Senhor, eu pensei muitas vezes nas coisas
que a vida me deixou fazer
Houve dias em que eu me deitava
com a certeza de ter feito coisas úteis e
de ter transformado o mundo.
Houve dias em que pensei ter sido bom e até mesmo caridoso.

Hoje, Senhor, à luz do meio dia da vida as coisas se apresentam diferentemente.
Vezes há em que tenho a impressão de que a vaidade, o amor próprio, o orgulho invadiram minha vida e estragaram as obras de minha história.
Tenho hoje as mãos vazias!
Tudo o que pude fazer parece ridículo e sem valor.
Minhas mãos estão vazias e são essas mãos vazias
que te ofereço.
Estas mãos vazias porque eu nada posso.

Lembro-me hoje de uma palavra do evangelho,
do evangelho de teu Filho que diz
devemo-nos considerar servos inúteis
depois de realizar tudo aquilo que devíamos ter feito.
Esta convicção invade minha vida.
Tenho certeza da inutilidade das coisas que faço
e que posso fazer.
Minhas mãos vazias, meu coração todo inteiro
e minha vida te pertencem.

MARIA DE TODOS OS CAMINHOS

Maria,
tu foste a primeira mulher,
nascida de um homem e de uma mulher
que percorreste o caminho
que leva ao Reino;
tu conheces todos os atalhos
do longo caminho que vai
da hesitação à assunção,
passando por Belém e Nazaré,
por Jerusalém e o Calvário,
pelo Cenáculo e pela Igreja;
tu machucaste os pés
com todas as pedras
jogadas diante dos passos de uma mãe,
até a pedra fechada
de uma noitinha de sexta-feira,
até a pedra rolada na manhã de Páscoa;
tu que acompanhaste no silêncio de teu amor
os passos apressados de teu Filho
impaciente que ele estava de revelar a boa nova;
Maria, nós te pedimos.

Maria dos caminhos e das estradas,
sê a companheira incansável
de nossas peregrinações.
Presta atenção aos nossos cansaços
de viver.
Sê a chama doce
de nossas noites sem esperança.
Sê a estrela fiel
que orienta nossos passos.
Maria das nascentes e das fontes,
desaltera nossos corações
secos de tanta solidão,
faze com que nosso corpo se distenda
tão tenso por tantas inquietações,
lava nossos rostos
enrugados pelos sofrimentos
e nossas mãos escurecidas
por trabalhos realizados sem alegria.

Maria dos santuários,
sê a companheira de nossas festas.
Dá maior brilho ao nosso sorrir
e mais claridade aos nossos olhar.
Faze com que nossos olhares
se voltem para teu Filho
que não cessa de vir até nós,
nos rostos de nossos irmãos,
os pequenos, os pobres,
aqueles que o Pai cumula de bens.
Ensina-nos a receber o Espirito
que será a força de nossas constantes partidas.

Maria,
nós te pedimos:
reza conosco.

Revista Prier, n. 113, p. 25

ORAÇÃO UNIVERSAL

Oração universal da autoria de São Clemente, quarto bispo de Roma (90-101).

Nós te pedimos, ó Mestre,
sê nosso socorro e nosso apoio.
Sê a libertação dos oprimidos,
tem piedade dos humildes,
ergue os que caíram,
vem em socorro dos miseráveis.
Cura os doentes,
traze de volta aqueles de teu povo que se perderam,
sacia de pão os famintos,
liberta os que estão nas prisões,
soergue os fracos,
consola os desanimados.
Que todos reconheçam que és único Deus,
que Jesus Cristo é teu Filho,
que somos teu povo, a ovelhas de teu rebanho.

IV. E A FAMÍLIA, COMO VAI

Educação, tarefa sempre desafiadora para a família (II)

 

Continuação e conclusão
do número precedente

 

1. Pais e educadores não terão medo de transmitir. Eles estão diante de histórias que precisam ser feitas. Há riquezas escondidas no coração dos filhos e educandos, talentos e possibilidades que necessitam vir à tona, tudo isso em benefício de um mundo novo que estamos gestando. Pais e educadores, depois de terem percorrido muitos caminhos em suas vidas, superados obstáculos, depois de terem seus rostos queimados pelo sol do caminho e marcados pelas intempéries da vida têm o direito de educar. Ele são autoridade. Os filhos sozinhos, sem a referência dos pais e das instituições educativas se verão perdidos. Refiro-me a instituições educativas e não a estabelecimentos que querem apenas ganhar dinheiro e dar um formação apenas profissional. Os pais não terão medo de transmitir o patrimônio familiar, humano e religioso, a seus filhos.

2. Os pais desejam que seus filhos sejam protagonistas de suas historias e não copiadores de modismos. Passado é o tempo em que os jovens seguiam papéis predeterminados, em que entravam na cena da história quase determinativamente. Hoje, não é mais assim. Os fllhos, no entanto, precisam ser eles mesmos, necessitam de um pequeno buquê de convicções, serão capazes de escrever sua própria biografia. Serão educados em ambientes em que possam refletir. Não podem ser ingênuos de seguir a onda. Pais e educadores criarão mediações que permitam aos jovens escolher e escolher bem e com critério. Nunca, como em nossos tempos, foi tão necessária a reflexão. Nossa época é marcada por um derramamento da pessoa nas coisas, nas atividades, no que parece dar lucro e prazer. Desde o tempo da infância, depois como adolescentes e jovens, os filhos serão participantes ativos na construção de sua biografia. Pessoas livres, responsáveis, comprometidas com a realidade, nunca escravos de uma sociedade que os proíba de pensar, que pense em seu lugar.

3. Queremos que nossos filhos sejam pessoas capazes de constituir famílias sólidas. A família é importantíssima na vida de todas as pessoas. Desejamos que nossos filhos sejam capazes de voar com as próprias asas e, se vocacionados para o casamento, escolham bem seu companheiro e sua companheira. A realização afetiva dos seres humanos é de capital importância. Muitos de nossos jovens permanecem tempo demais na casa paterna com todas as seguranças e não ousam lançar-se na aventura de um casamento onde vão correr todos os riscos da aventura do amor. Queremos que nossos filhos saibam escolher, tenham condições de construir um projeto conjugal e familiar. Não é bom que o homem esteja só. Homem e mulher se completam e se complementam.

4. Queremos que nosso filhos sejam pessoas que pautem sua existência a partir de valores. Os valores se encontram na raiz da identidade da pessoa. Pais e educadores querem deixar para seus filhos um mundo povoado de valores que possam enobrecer o ser humano e deixar marcas na história. Os pais não querem que seus filhos sejam meros “aproveitadores” do mundo. Fala-se em valores novos. Recriar valores não é reinventá-los, nem destruir o antigo, mas segundo a palavra de um autor, construir a vida com ladrilhos velhos completando a obra com ladrilhos novos. Há valores fundamentais que estruturam a pessoa: liberdade, solidariedade, justiça, lisura. Os valores são mais facilmente captados ali onde há coerência entre o pensar e o fazer, entre o fazer e o comunicar. Eles chegam, normalmente por via relacional, ou seja, por meio dos outros. Todos os grandes líderes da história foram sempre pessoas de coerência e assim ser tornaram “educadores”. Para que seja possível a “transmissão” de valores será fundamental um projeto familiar. Toda a família transmite valores, ou seja, o sentido que ela tem de vida. Transmitimos coisas vivas. Os filhos percebem imediatamente aquilo que é artificial. Normal que aqui e ali os filhos manifestem divergência. Quando existe um projeto familiar, um “ar de família”, as coisas funcionam. A mulher traz seu patrimônio familiar, o marido aporta aquilo que viveu em sua casa. Os dois conversam, confabulam, convivem e vão criando um novo projeto, resultado da “fusão” de seus projetos familiares de origem. Esses projetos serão marcados por valores e os filhos vão se “encaixando” por ai: pessoas hospitaleiras, gente que promove os outros, fidelidade conjugal e familiar, lugar onde o dinheiro não tem a última palavra, famílias alegres com gente que gosta de cantar. Os pais lançam sementes. O edificio da vida dos filhos vai sendo construído sobre o terreno sólido de um casal maduro e unido por um amor que se exprime no dar a vida pelos outros.

5. Os filhos serão educados num grande respeito pela pessoa humana. Eis aí um valor primordial, acima de todos os credos e de todas as conjecturas. Pessoa humana acima das ideologias, da simpatia ou da antipatia, para além de uma apreciação subjetiva ou objetiva. Será preciso largar tudo, deixar tudo para dar atenção ao outro. Parar, escutar “perder tempo” para acolher. Especial atenção merecerão os mais pobres, os desprezados, os que vivem na solidão, os que não alcançaram sucesso, os marcados por certos estigmas, os que estão sendo julgados ou estão para serem julgados.

NB. Não esgotamos o tema. Oportunamente nesta revista que tira do baú coisas novas e velhas e tenta reinventar a vida voltaremos ao assunto.

V. PASTORAL

Como reavivar a fé em Deus?

 

O pressentimento de Deus e a revelação do Filho

Há muitos adultos cristãos que devido à falta de aprofundamento catequético e pelo fato de não viverem em comunidades vivas tiveram sua fé arrefecida. Será fundamental tentar ouvir os passos do Senhor que chega perto de cada ser humano para recomeçar a viver da fé. Tomamos aqui algumas sugestões da Carta Pastoral dos Bispos de Pamplona e Tudela, Bilbao. San Sebastián e Vitória (Espanha, 1997) Refletimos sobre um pressentimento de Deus e começamos a empurrar a porta da revelação do Filho. Estamos no campo da catequese para aqueles que sentem sede de Deus.

1. Deus habita o coração do ser humano. De maneira silenciosa, mas real. Ele está em cada ser humano. No entanto, são tantos os preconceitos e obstáculos de ordem cultural, religiosa e pessoal que para muitos é difícil crer nele. É possível reavivar a fé e refazer a experiência cristã de Deus nas circunstâncias atuais que parecem tão adversas? O clima social e o estilo de vida condicionam tanto que muitas pessoas experimentam uma sensação de vazio, de não sentido da vida e até mesmo um grande mal-estar de fundo. Uma tal experiência não se converte num apelo para começar a busca de Deus? Há pessoas que em certas situações existenciais e carregando questionamentos fogem de Deus. Esquecem a religião e tentam buscar bem-estar em outros lugares. Como encontrar a Deus e alimentar a convivência com ele? Num primeiro momento vejamos o que se chama de pressentimento de Deus.

2. O primeiro caminho para encontrar Deus somos nós mesmos e nossa experiência de vida. O homem não é somente um problema a ser decifrado cientificamente. É um mistério para o qual busca uma resposta. Sempre em busca de segurança, e sempre sentindo-se desamparado. Nascido para viver e destinado a morrer. Capaz das maiores grandezas, mas também das maiores misérias e de tanta mediocridade. Buscando a verdade e errando constantemente. Suspirando pela liberdade, e com medo de empregá-la. Capaz de dominar o mundo, e não conseguindo ser dono de si mesmo. Feito para amar e apequenado pelo egoísmo. Será que simplesmente com esses dilaceramentos os homens não estariam apontando para Deus e anelando por sua salvação? Deus não seria o único capaz de iluminar nossa verdade última?

3. O homem é também uma tarefa. Um ser em busca de libertação, que não consegue orientar sua história para aquilo que pode torná-lo mais humano. Nossos contemporâneos parecem atribuir a si mesmo o protagonismo total e exclusivo da construção de sua historia e da obtenção da salvação. Não estariam com isso atribuindo-se um poder excessivo, que vai além de suas possibilidades e pode ainda levá-los a uma maior alienação? Pode o ser humano com suas próprias forças conseguir a liberdade que busca? Não deveria abrir-se a uma Liberdade maior e acolhê-la como um dom? O evangelho fala de morrer a si mesmo…

4. O homem clama por um destino absoluto. Suspira por uma plenitude que ele sempre perde como a água que desliza por seus dedos. Não se poderia dizer que a história humana está pedindo para desembocar numa Plenitude infinita? Será que temos que aceitar como o mais humano e normal uma existência que não seja o fluir do nada para o nada? Não seria nossa existência um fluir de Deus para Deus?

5. Suprimindo a Deus o homem permanece uma pergunta sem resposta, um projeto impossível, um esboço inacabado que desvanece no nada. Para além de todos os caminhos, no fundo de todos os anelos, no interior de nossos interrogações mais profundas não estaria Deus como único possível Salvador do homem?

6. Também a experiência da realidade que nos cerca é caminho para Deus. Na atualidade vivemos dentro de um mundo feito por nós mesmos, mundo da tecnologia e da máquina. Por isso, custa-nos ligar a Deus. Quando nos aproximamos da grande natureza, a vida universal, a origem da criação, da ordem, da beleza, do desejo infinito de vida e de felicidade que nos anima percebemos que na origem de tudo há um mistério do Ser, de Vida, de Beleza e de Amor, que é a origem de tudo, que sustenta tudo o que existe. Não nos resta outra coisa a não ser tentar entrar em comunicação com ele. Sentimos assim um pressentimento de Deus.

7. Jesus Cristo é o caminho que nos leva ao Pai. Para os cristãos, o caminho decisivo que nos leva a Deus é Jesus Cristo. Nele se revela esse Deus pressentido na consciência do ser humano. Estamos convencidos de que para muitos que hoje vivem sua fé de forma tão frágil ou vacilante, ou então os que abandonaram a prática religiosa, conhecer melhor a Jesus Cristo, ouvir sem preconceitos sua mensagem, deixar-se tomar por seu espírito, sintonizar com seu estilo de vida, pode ser o caminho mais seguro para encontrar-se com Deus. Ninguém vai ao Pai, senão por ele ( cf Jo 14,6).

8. Em Jesus Cristo encontramos antes de tudo um acontecimento capaz de interpelar o mais profundo de nossa existência: o Filho amado de Deus partilhando nossa condição humana até à morte. “Nisto se manifestou o amor de Deus por nós: Deus enviou seu Filho ao mundo para que vivamos por meio dele” (1Jo 4,9). Em Jesus Cristo encontramos o caminho que nos permite abeirar-nos do Mistério de Deus. Ninguém viu o Pai a não ser o Filho. A pessoa de Jesus, seus gestos, sua atuação, sua mensagem, seu viver, sua morte e sua ressurreição nos colocam diante da presença misteriosa do Deus vivo, encarnado e nele manifestado. “Quem me vê, vê o Pai” (Jo 14,9).

9. Jesus nos ensina como viver em profundidade esta existência frágil e efêmera a partir de Deus e para Deus, como filhos de um Pai que não procura outra coisa senão nossa felicidade e nossa salvação. Ele nos oferece a verdade de Deus, comunica-nos sua vida e nos mostra o caminho pelo qual se chega a ele. Para chegar plenamente a Deus será preciso seguir Jesus, viver sua experiência, imitar sua vida, deixar-nos animar por seu Espírito. Somente quem vive como Jesus acolhe o Deus da vida. Somente quem viver como ele se abre ao Deus de amor. Só quem vive a fraternidade e se acerca dos abandonados, obedece ao Pai dos pobres. Os que distanciam da Igreja porque encontram erros e distorções na vida de alguns de seus membros, os que deixaram a prática religiosa porque estão completamente desmotivados, não deveriam deixar Jesus Cristo. Quando se perdem outros pontos de referência, não se pode perder contacto com ele. “Bem-aventurado aquele não escandalizar por causa de mim”. (Mt 11,6).