Vida Cristã - Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil - OFM

A oração do Pai Nosso

23/10/2020

Considerações de um frade em busca do essencial na vida

Frei José Ariovaldo da Silva, OFM

1. Tenho algumas coisas guardadas aqui no fundo do meu coração, que gostaria de partilhar com você neste espaço. Falo do que sinto e venho cultivando em minhas meditações, tanto na calma do silêncio, quanto no barulho da ação. Partilho com você uma reflexão sobre a oração do Pai nosso, cujo texto é usado na nossa liturgia católica e que, por sinal, é o mesmo do relato evangélico de Mateus 11,6b-13.

2. Esta oração foi ensinada pelo nosso Mestre de vida, o Senhor Jesus e, inclusive, por ele recomenda para ser recitada (rezada) sempre pelos seus discípulos e discípulas: “É assim que vocês haverão de rezar: Pai nosso…” (6,9). “Senhor, ensina-nos a rezar como João [Batista] ensinou a seus discípulos”, foi o pedido de um dos discípulos de Jesus. E o Mestre respondeu: “Quando vocês rezarem, digam: Pai…” (Lucas 11,1-2). Esta recomendação de Jesus deve ter alguma razão de ser. Qual seria?

3. No meu entender, o Pai nosso sintetiza toda a mensagem da Boa Nova (Evangelho) de Jesus. Sintetiza o que de fato Jesus mesmo sentia. Por isso, para mim, é uma oração maravilhosamente rica de conteúdo evangelizador e altamente estimulante da nossa fé. Tanto que, na tradição cristã, seu texto sempre foi solenemente entregue aos iniciantes à fé, ou seja, aos catecúmenos.

4. A oração começa com esta invocação: “Pai nosso que estais nos céus”. Em outras palavras, Jesus ensina a dirigir-se a Deus como Pai. E Pai nosso, isto é, de todos nós! Pai tem a ver com parente. Logo, se Deus é Pai, obviamente que, então, é também parente: Pai! Sim, Pai!, o parente mais próximo!!!… Poderíamos, pois, até dizer: Temos o DNA de Deus, que, inclusive, tem um nome: Amor (1João 4,8.16)! Jesus sentiu isso dentro dele, profundamente; e, a partir desta experiência de vida, ele resgatou para nós a consciência de que somos criados à imagem e semelhança Deus (cf. Gênesis 1,27): Somos filhos e filhas de Deus. Jesus, o Filho de Deus, nos resgata exatamente isso! Não é maravilhoso?! Filho de peixe, peixinho é. Filhos de Deus, divinos são! Jesus veio nos mostrar a dimensão divina do ser humano, que havíamos esquecido e abafado.

E dizemos a este Pai – que cuida de todos nós! –, dizemos que “está nos céus”. Como assim, nos céus? Que espaço é este? Seu espaço é o do perfeito amor, da harmonia total, da paz absoluta, da vida plena, possível em todos os espaços. Céus é este espaço, ou clima, que cabe também dentro da gente, entre nós, como também em toda a terra, em todo o universo. Depende da gente, permiti-lo, abrir-se a ele.

5. E então manifestamos um primeiro desejo nosso, que é também um pedido: “santificado seja o vosso nome”. Em outras palavras, expressamos a este Pai o desejo de sinceramente permitirmos que este seu nome (Pai) seja de fato sinônimo de santo, ou seja, de puro, simples, desapegado, amoroso, sem complicação, sem corrupção, sem falsidade, sem maldade, sem mentira, verdadeiro e alegre como o mundo das crianças e muito mais!… Ora, se este Pai é assim, neste nome dá pra confiar plenamente, sem medo. N’Ele podemos confiar! Que de fato seja reconhecido e vivido como tal por todos nós: “santificado seja o vosso nome”!

6. E vem o seguinte pedido: “venha a nós o vosso reino”. Que reino? O reino deste Pai que é pura bondade, “o bem, todo o bem, o verdadeiro e sumo bem” (São Francisco). O reino d’Ele é isso mesmo, como já disse: todo espaço ou clima de puro amor, harmonia, paz, aconchego, luz, solidariedade, verdade, compreensão, compaixão, saúde, vida, alegria etc. Reino de Deus é este espaço totalmente livre, isto é, completamente limpo de complicações, corrupção, opressão, mentiras e medos em todas as relações! É o que, no fundo, pedimos na oração do Pai nosso: Que tenhamos a corajosa confiança de ativamente permitir que este Reino, este espaço ou clima de vida plena, plantado em nós, desabroche e cresça em nós e entre nós: “venha a nós o vosso Reino”.

7. E mais outro pedido se acrescenta: “seja feita a vossa vontade”. Ora, se o Pai e o Reino d’Ele são tudo isso que acabamos de ver, então a vontade d’Ele pode ser feita, seguida e praticada, com toda confiança e sem medo. Amar: é a sumidade do seu querer, de sua vontade, pois Deus mesmo “é Amor” (cf. 1João 4,7-21). Assim, que seja feita esta vontade d’Ele – e não os “nossos” caprichos egoístas! –, em todo lugar, tanto na terra como no céu, pois, na frágil vontade “nossa” nem sempre dá pra confiar! A vontade de Deus, sim, é com certeza a mais certa e segura! O próprio Filho de Deus, nosso Mestre Jesus, no-lo garantiu, ele que disse de si: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida” (João 14,6).

8. E então vem outro pedido deveras interessante: “o pão nosso de cada dia nos dai hoje”. Pão tem a ver com o alimento necessário para a nossa sobrevivência. De fato, quando esta vontade do Pai de todos nós é feita e, consequentemente, seu Reino de fato acontece em nós e entre nós, também cada dia será um “hoje” farto do alimento necessário para a vida de todos e todas. O pão é sinal do seu Reino acontecendo. Então, que assim seja hoje e sempre! É o que no fundo manifestamos ao rezar o Pai nosso. E assim sendo, criamos em nós um sentimento profundo de gratidão, pois reconhecemos que todo alimento sobre nossas mesas é sempre dádiva do Pai que está em nós como filhos e filhas seus. Mesmo sendo fruto do trabalho humano, no fundo, é sempre dádiva do Pai que nos agraciou com o trabalho para saborear o pão a cada dia.

9. Em seguida vem outro pedido que, a meu ver, tem tudo a ver com o Reino antes invocado para que venha. Que Reino? Reino de reconciliação e de paz: “perdoai-nos as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido”. A palavra “perdoar” vem do latim “perdonare”. Esta palavra latina é formada pelo prefixo intensivo “per” (completamente) e o verbo “donare” (dar, doar, entregar). Perdoar (per-doar), portanto, tem a ver com dar, doar, entregar completamente, o que implica em desapegar-se, desfazer-se completamente, não guardar, não reter absolutamente nada de uma ofensa perpetrada contra a gente. Deus é assim! Ele não retém nada para si de qualquer ofensa. Aliás, nem o atinge! Ele simplesmente a entrega, como que a devolve inteiramente a quem de direito, a saber, ao ego do ofensor. Portanto, quando dizemos “perdoai-nos as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido”, no fundo fazemos exatamente este pedido, a saber: Que nos permitamos ser desse jeito, como Deus mesmo é, a saber, não segurando nada para a gente de qualquer ofensa perpetrada. “Senhor, quantas vezes devo perdoar, se meu irmão [ou seja: qualquer ser humano] pecar contra mim? Até sete vezes [ou seja: tudo]?”, perguntou Pedro ao Mestre Jesus que, de imediato respondeu: “Não te digo até sete vezes, mas até setenta vezes sete [ou seja: absolutamente tudo]”! (Mateus 18,21-22). Este é aquele Reino pedido no Pai nosso que aconteça em nós e entre nós! Foi o que se deu com Jesus quando, do alto da cruz, orou: “Pai, perdoai-lhes porque não sabem o que fazem” (Lucas 23,34). Ou seja, com esta oração Jesus entende e reconhece que, no fundo, não são os homens, que o torturam e matam, é o ego deles que, aprisionando-lhes a alma, transformou seus corpos em cruéis assassinos de um inocente. Jesus, desapegado de tudo, simplesmente entrega a esse ego a ofensa feita. Resultado: Viu-se em paz até com o cruel inimigo e rezou por ele; e, enfim, nas mãos do Pai entregou o seu espírito, expirou (cf. v. 45). Com isso, ali mesmo, muitos o reconheceram de imediato como sendo de fato um homem justo (v. 47), como sendo o próprio Filho de Deus (Mateus 27,54; Marcos 15,39)! Conclusão: Reino de Deus, de reconciliação e paz em nós e entre nós, acontece na medida em que, como Deus, “per-doarmos” toda ofensa cometida contra nós e, assim perdoando, nos reconhecemos igualmente como filhos e filhas de Deus, ou seja, parecidos com Deus, divinos. Que seja, então, assim também em nós e entre nós! É o que pedimos na oração do Pai nosso.

10. Enfim, fechamos a oração com um último e decisivo pedido, a saber: “e não nos deixeis cair em tentação, mas livrai-nos do mal”. Cair em tentação… Que tentação? A tentação de cair no abismo da dúvida, isto é, de duvidar desse Pai e desse seu Reino. O perigo existe: o perigo de um ego vaidoso e orgulhoso, construído por nós em nosso corpo – pessoal e coletivo –, que, com suas “verdades”, pode tomar o comando de “nossas vontades” e nossas mentes e, assim, “abafar” nossa Alma, nossa Essência, o Pai que está em nós, o Filho que nós somos, o Reino dos Céus que já está em nós. Depende de nós, permitir ou não que essa dúvida nos domine, depende de nosso estado de consciência, de nossa mente alerta, de nosso estado de vigilância. “Vigiai e rezai para não cairdes em tentação”, alertou o Mestre aos discípulos, num momento dramático e decisivo, altamente tentador, no Getsêmani (Mateus 26,41). Deus não nos quer caídos na tentação da dúvida, jamais. Mas podemos livremente permitir-nos nela cair. Como? Atendendo antes aos ruídos egoístas da nossa mente, que nos puxam e aprisionam em suas malhas insanas, do que ao convite da Sabedoria divina de nossa alma que nos chama para a vida em liberdade. “Mas livrai-nos do mal”, dizemos em seguida. De que mal? Do perigoso mal de duvidar do Pai de todos nós e do seu Reino de amor, privilegiando as “nossas verdades” e seus reinos tão ilusórios e passageiros e, consequentemente, deixando de praticar aquilo que Deus mesmo é – como vimos acima –, o que gera terríveis consequências, pessoais, comunitárias e socioambientais, a saber: mágoas, ressentimentos, ódios, rancores, brigas, agressões de todo tipo, guerra, sangue derramado, abuso e jogo interesseiro de poder, ganância, prepotência, autoritarismo, corrupção, exploração, escravidão e exclusão dos outros (sobretudo dos pobres), preconceitos de todo tipo, desprezo, agressão ao meio ambiente, sofrimento, tristeza, medos, lágrimas, morte, e por aí vai… Mas, além disso, há um mal ainda maior, mais perigoso, e que Deus não deseja para ninguém, a saber: a perda da esperança, o desespero. Quem se desconecta do Reino dos Céus e se abandona exclusivamente ao reino das trevas e da morte, corre o sério perigo de num dado momento, quando se sentir totalmente impotente, chegar ao ponto de, enfim, derrotado, desesperado por não mais ter Se encontrado, então dizer para si: Não vale a pena mais viver?…

11. Indo para a conclusão desta reflexão, releio com especial satisfação o pedido que – em ressonância à oração do Pai nosso rezado pela assembleia toda ao iniciar o rito de comunhão da liturgia eucarística da missa –, o sacerdote faz sozinho e em voz alta em nome de todos: “Livrai-nos de todos os males, ó Pai, e dai-nos hoje a vossa paz. Ajudados pela vossa misericórdia, sejamos sempre livres do pecado e protegidos de todos os perigos, enquanto, vivendo a esperança, aguardamos a vinda do Cristo Salvador”. Significativa oração, à qual a assembleia toda responde: “[Pois] vosso é o reino, o poder e a glória para sempre!”. Significativa ressonância litúrgica ao Pai nosso, rezado precisamente num contexto ritual de busca de comunhão plena com o Pai santo, sua vontade e seu reino em todos os seres humanos e na Natureza de onde nos vem o pão, comunhão não só ritual mas acima de tudo vital!

12. Entendemos, pois, a razão por que Jesus recomendou recitar sempre a oração do Pai nosso que, para o nosso bem, fez questão de nos ensinar. “A ‘morte’ do ego egocêntrico e autossuficiente e o surgimento de um eu novo e liberado que vive e age no Espírito” (Thomas Merton): É isso que a oração do Pai nosso, rezada conscientemente, nos presenteia! Pois ela nos leva a conectar e manter conectadas as nossas mentes e o coração com o que deveras é Essencial para viver bem, com paz, serenidade, equilíbrio, sabedoria e coragem, pessoal e comunitariamente, também quando fizerem todo mal contra nós. Em outras palavras, rezando assim, como que vamos carregando nossas baterias interiores precisamente a partir da Fonte maior, o Reino dos céus que está em nós, não nos faltando então, jamais, o doce pão do amor a trazer a paz, a fartura para todas as mesas, a vida em abundância para todos.

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