Vida Cristã - Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil - OFM

O cristianismo e o sentido da vida

04/05/2021

                                                                                                          Imagem ilustrativa (fonte: Catholic Pictures)

Ademir Guedes Azevedo, cp

O vazio existencial bate à nossa porta neste tempo de pandemia e nos deixa atônitos com as suas variantes: depressão, pânico, ansiedade e tantos outros desconfortos. Mas tudo isso foi o resultado do complexo mundo ocidental que nós mesmos geramos, sobretudo desde que começou a ganhar corpo a assim chamada modernidade. Precisamos identificar as raízes desta crise humana e propor caminhos alternativos para superarmos e atravessarmos esse momento obscuro da história.

Uma das conquistas da modernidade foi o princípio da subjetividade. O sujeito está no centro de tudo. Fora dele não há nenhuma verdade objetiva. Tudo depende do modo de como ele apreende o objeto. Essa nova maneira de conhecer vai de contra o princípio platônico de universalidade, unidade, homogeneidade, enfim aquele eidos (a coisa em si) exterior, ou seja, que estabelece o critério exato de verdade, cai completamente por terra. Resta apenas o sujeito pensante que insiste em apreender a verdade a partir de modos diversos, seja codificando a natureza através de fórmulas matemáticas, seja criando os assim chamados paradigmas que podem ser derrubados por outros à medida que se vai descobrindo critérios de validade aceitos por determinada comunidade científica. É como se tudo dependesse de um acordo de certos grupos. Por isso, a verdade é algo convencional, não mais norma geral.

Pois bem, o problema está na absolutização da subjetividade, visto que tal opção leva ao relativismo. E justo aqui o sujeito começa a sentir-se angustiado porque vê-se afundando num terreno movediço. Não tem mais critérios sólidos para estabelecer um projeto de vida a longo prazo, pois tudo é líquido e efêmero, depende da onda do momento. Assim, o sujeito ora é arrastado por uma ideologia ora por outra e, dificilmente, consegue ancorar-se em valores que lhe deem um sentido autêntico e profundo de vida.

Há, contudo, um caminho alternativo para não nos sufocarmos pelo niilismo que nos rouba os valores essenciais de uma vida com sentido. Por isso, creio que o cristianismo ainda pode ser útil para o homem de hoje, pois nele encontramos uma proposta de sentido a partir de Jesus de Nazaré. Essa proposta não é nem conservadora nem progressista, mas radical.

A proposta radical de Jesus leva em conta a subjetividade, mas não em sua versão extrema, onde Deus vem tirado do horizonte de vida. Trata-se de uma subjetividade teônoma. Parte-se de uma convocação a uma verdade não platônica, mas relacional (“vinde e vede”), na qual cada pessoa é provocada a ser ela mesma a partir de um desabrochar de dons que são postos a serviço de uma causa maior: os mais frágeis. A subjetividade moderna é individualista, pois o sujeito enxerga unicamente a si mesmo e as suas próprias necessidades, por isso aqueles que economicamente podem mais massacram os que nada ou pouco têm. Já a subjetividade que Jesus insiste, põe no centro não as necessidades particulares do sujeito, mas a partilha que considera a totalidade da vida. O Papa Paulo VI resumia isso no seguinte princípio: “O homem todo e todo homem”, isto é, o ser humano como um todo, não exclusivamente a dimensão consumista que devora vidas ao preço de um sistema econômico que prega a ideia equivocada de progresso.

O cristianismo como um projeto de sentido considera ainda um ser e um fazer específicos. A dimensão do ser reside no valor do tempo. Enquanto a nossa sociedade ocidental gasta o tempo para ocupar espaços, devorando os bens da natureza, esquecendo-se do princípio do cuidado, o cristianismo apela a algo maior que consiste em viver o tempo como ocasião de experiência que nutre relações com uma transcendentalidade e com rostos concretos. Além do mais, o tempo para nossa cultura hodierna é investido para gerar sujeitos de desempenho que, de tanto se imporem exigências, acabam por infartar psiquicamente. Mas o tempo no cristianismo é cuidar do outro e este deve ser seu único fazer. O apelo do tempo reside naquilo recordado pelo filósofo Byung-Chul Han: “Há, porém, também um outro tempo, a saber, o tempo do outro, um tempo que eu dou ao outro. O tempo do outro como dádiva não se deixa acelerar. Ele também se furta ao trabalho e ao desempenho, que sempre exige o meu tempo. […] Apenas o tempo do outro liberta o eu narcisista da depressão e da exaustão.” (HAN, Favor fechar os olhos, p. 41-42).

A proposta de sentido do cristianismo, portanto, consiste num olhar profundo sobre nós mesmos para curarmos nossa subjetividade dos exageros e colocá-la naquele movimento em direção ao cuidado do outro. Não vivemos para nós mesmos, nossa vida alcança seu ápice quando descobrimos a dádiva do outro!


Pe. Ademir Guedes Azevedocp, é missionário passionista e mestre em Teologia Fundamental na Pontifícia Universidade Gregoriana. Atualmente reside em Camaragibe – PE, no Seminário para a etapa do Postulantado dos Passionistas.

Download Best WordPress Themes Free Download
Download WordPress Themes Free
Free Download WordPress Themes
Download WordPress Themes Free
free online course
download coolpad firmware
Download Best WordPress Themes Free Download
udemy course download free

Conteúdo Relacionado