Vida Cristã - Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil - OFM

Nascimento de Maria nos Evangelhos Apócrifos e o nascimento de Jesus na genealogia de Mt 1,1-16.18-23

08/09/2022

     Imagem ilustrativa: Catholic Pictures (cathopic.com)

Frei Jacir de Freitas Faria [1]

O texto sobre o qual vamos refletir hoje é Mt 1,1-16.18-23. Trata-se da genealogia e nascimento de Jesus. A genealogia apresenta a origem de uma pessoa, de onde ele veio, quais são seus parentes. Genealogia que, no plural hebraico, é Tôledôt, pode ser traduzida por descendente ou ‘a história de’, entendido também como descendência. O livro de Gênesis é uma tentativa de explicar as origens de Israel a partir da criação do céu e da terra e de seus pais e mães na fé, os patriarcas e matriarcas.  Genealogia é uma rede de fios que associam as descendências às pessoas importantes. Foi esse o caso de Abraão, que está na origem do povo judeu, no Primeiro Testamento, e de Jesus, no Segundo Testamento. Nas genealogias, Abraão é o ponto de partida para unificar judeus e cristãos, parentes e povos, próximos e distantes, em várias ramificações genealógicas.

Mateus, por ser o mais judeu dos evangelistas, não podia deixar de apresentar para a sua comunidade a origem judaica de Jesus, o Messias que eles esperavam, a partir da genealogia. O que nos chama a atenção é o fato de algumas mulheres aparecerem: Raab, Rute, Bersabeia e Maria, da qual nasceu Jesus. Maria desconcerta a lógica masculina da genealogia judaica. O texto também relata o nascimento de Jesus por obra do Espírito Santo. Gostaria, no entanto, de apresentar a tradição apócrifa sobre o nascimento de Maria, visto que essa passagem de Mt 1,1-16.18-23 é lida na festa do nascimento, da natividade de Maria.

A Igreja dos três primeiros séculos do cristianismo não estava preocupada com o papel de Maria na devoção e na teologia.[2] O foco estava na devoção aos mártires, aos santos que, segundo a fé, estavam junto de Deus na glória eterna. Esses recebiam a honra do culto. Maria, por não ser mártir, não recebia essa honraria e não era venerada de maneira formal.[3]

A festa do Nascimento de Maria tem sua origem em Jerusalém, onde se encontra a casa que, segundo a tradição, é o lugar do seu nascimento. O papa Sérgio I (687-701), no século VII, impôs a festa da Natividade de Maria para o Império Romano do Ocidente e a associou à Dormição, ou à morte de Maria, que passou a ser a festa da Assunção. Assim, a festa da Dormição, no lado ocidental do império romano, passou a ter ligação com o “dia do nascimento de Maria”, isto é, dia de sua morte. Fato que uniu a festa ao culto dos mártires.[4]

A literatura apócrifa sobre Maria, aquela que não foi considerada inspirada pela Igreja, foi a responsável para fortalecer o culto a Maria. Mais de uma dezena de apócrifos marianos contam a sua história.[5] Protoevangelho de Tiago é o mais antigo escrito sobre Maria. Os capítulos um ao vinte e um são do século segundo, bem como outros capítulos, tendo sua redação final no século IV. Sua influência foi grande nos apócrifos posteriores, bem como nos dogmas e devoções marianos. Protoevangelho de Tiago foi atribuído a Tiago Menor, o irmão de Jesus por ser, segundo a tradição, o filho do primeiro casamento de José. Tiago foi bispo em Jerusalém. Seu autor, no entanto, seria um helenista conservador do Egito que se propõe a escrever um tratado biográfico sobre o nascimento da Mãe Santíssima de Deus e sempre Virgem Maria. Ele utilizou muitos elementos do evangelho de infância de Mateus e de Lucas para falar de Maria e sua relação com Jesus.

Para a tradição do Protoevangelho de Tiago, Joaquim, esposo de Ana e pai de Maria, era justo e rico. Ele foi ao templo fazer a sua oferta, a qual foi rejeitada pelo sacerdote Rúben, que lhe diz: ‘Não toca a ti oferecer primeiramente as tuas ofertas, porque não tiveste descendência em Israel’. Joaquim foi para o deserto e jejuou quarenta dias, esperando ser recompensado como fora Abraão. Ana chorava e lamentava, dizendo a Deus que ela não podia ser comparada com a natureza, animais, terra e aves, pois esses são fecundos e ela, não. Um anjo de Deus lhe apareceu e lhe prometeu fecundidade que seria conhecida em toda a terra. Um anjo também apareceu a Joaquim e lhe pediu para voltar, pois Ana havia concebido. Ana deu à luz uma menina e lhe pôs o nome de Maria, dizendo: ‘Neste dia, foi magnificada minha alma’. Quando Maria completou um ano, Joaquim fez uma festa e chamou os sacerdotes e sumos sacerdotes que a abençoaram. Ana fez um santuário para Maria no seu quarto. A historiografia continua contando seu tempo de consagração no Templo, casamento com José e nascimento de Jesus.

Outro apócrifo, Livro da Natividade de Maria (séc. IV e V), afirma que Maria nasceu em Nazaré, era nazarena por parte de pai e belemita por parte de mãe. Sua família era de descendência da realeza de Davi.

A catequese popular apócrifa sobre o nascimento e genealogia de Jesus colocou Maria numa posição de destaque na fé cristã e na história de Israel. A Igreja, ao longo dos séculos, aceitou esses textos marianos, fazendo uso deles para o seu interesse de poder na história. No entanto, o poder de Maria na tradição popular é outro, o de nos ligar genealogicamente com a nossa origem sagrada enquanto humanos.


[1]Doutor em Teologia Bíblica pela FAJE (BH). Mestre em Ciências Bíblicas (Exegese) pelo Pontifício Instituto Bíblico de Roma. Professor de Exegese Bíblica. É membro da Associação Brasileira de Pesquisa Bíblica (ABIB). Sacerdote Franciscano. Autor de dez livros e coautor de quinze. Youtube: Frei Jacir Bíblia e Apocrifos. https://www.youtube.com/channel/UCwbSE97jnR6jQwHRigX1KlQ

[2] Para um estudo da história da devoção mariana, confira: VILLER, M. La spiritualité des premiers siècles chrètiens. Paris: Beauchesne, 1930; MALDONADO, L. Genesis del catolicismo popular. Madrid: Cristiandad, 2000.

[3] JOHNSON, Elizabeth A. Nossa verdadeira irmã: teologia de Maria na comunhão dos santos. São Paulo: Loyola, 2006, p. 153.

[4] LLABRÉS, P. O culto a Santa Maria, Mãe de Deus. In: BOROBIO, Dionísio (Org.). A celebração na Igreja: ritmos e tempos da celebração. São Paulo: Loyola, 2000, p. 203.

[5] Para um estudo desses apócrifos, veja o nosso livro: O Medo do Inferno e a arte de bem morrer: da devoção apócrifa à Dormição de Maria às irmandades de Nossa Senhora da Boa Morte. Petrópolis: Vozes, 2019.

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