Vida Cristã - Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil - OFM

Santa Mãe de Deus, Maria

Solenidade Santa Mãe de Deus, Maria

A importância de vacinar o coração

 

Frei Gustavo Medella

“Quanto a Maria, guardava todos estes fatos e meditava sobre eles no coração” (Lc 16,19). Talvez se fôssemos fazer uma “radiografia” de nosso coração neste ano que passou, certamente iríamos encontrar muitos fatos gravados, que foram, e continuam sendo, para nós motivo de meditação. As mudanças repentinas impostas pela pandemia foram capazes de despertar em cada pessoa um verdadeiro turbilhão de sentimentos surgidos a partir do imperativo de ter de lidar, da noite para o dia, com perdas, medos, incertezas, renúncias e transformações profundas.

Iniciar um novo ano é, sem dúvida, momento de recobrar a força e renovar a esperança. No entanto, a alteração no calendário não representa ainda uma mudança significativa no cenário que estávamos vivendo até então. A pandemia continua em vigor e o vírus permanece ativo. Não é hora de nos iludirmos ou de ignorarmos a gravidade do momento.

Celebrar, ao mesmo dia, a Solenidade da Mãe de Deus, o Dia Mundial da Paz e o Dia da Fraternidade Universal deve nos impulsionar a sermos cada vez mais unidos, ainda que distanciados pelas exigências pandêmicas. Esperamos no recurso da vacina uma verdadeira injeção de vida nova em nossa caminhada. Oxalá esta injeção não seja só física e biológica, mas também chegue ao nosso coração, tornando-o um pouco mais semelhante ao Coração de Jesus e ao de sua Mãe.


FREI GUSTAVO MEDELLA, OFM, é o atual Vigário Provincial e Secretário para a Evangelização da Província Franciscana da Imaculada Conceição. Fez a profissão solene na Ordem dos Frades Menores em 2010 e foi ordenado presbítero em 2 de julho de 2011.


Imagem ilustrativa de Frei Fábio Melo Vasconcelos

Leituras bíblicas para esta solenidade

Primeira Leitura: Números 6,22-27
22O Senhor falou a Moisés, dizendo: 23“Fala a Aarão e a seus filhos: Ao abençoar os filhos de Israel, dizei-lhes: 24‘O Senhor te abençoe e te guarde! 25O Senhor faça brilhar sobre ti a sua face e se compadeça de ti! 26O Senhor volte para ti o seu rosto e te dê a paz!’ 27Assim invocarão o meu nome sobre os filhos de Israel, e eu os abençoarei”.


Sl 66(67)
Que Deus nos dê a sua graça e sua bênção.
Que Deus nos dê a sua graça e sua bênção, / e sua face resplandeça sobre nós! / Que na terra se conheça o seu caminho / e a sua salvação por entre os povos. – R.
Exulte de alegria a terra inteira, / pois julgais o universo com justiça; / os povos governais com retidão / e guiais, em toda a terra, as nações. – R.
Que as nações vos glorifiquem, ó Senhor, / que todas as nações vos glorifiquem! / Que o Senhor e nosso Deus nos abençoe, / e o respeitem os confins de toda a terra! – R.


Segunda Leitura: Gálatas 4,4-7
4quando se completou o tempo previsto, Deus enviou o seu Filho, nascido de uma mulher, nascido sujeito à Lei, 5a fim de resgatar os que eram sujeitos à Lei e para que todos recebêssemos a filiação adotiva. 6E porque sois filhos, Deus enviou aos nossos corações o Espírito do seu Filho, que clama: Abá – ó Pai! 7Assim, já não és escravo, mas filho; e se és filho, és também herdeiro: tudo isso por graça de Deus.


Deram-lhe o nome de Jesus

Evangelho: Lc 2, 16-21
16 Foram então, às pressas, e encontraram Maria e José, e o recém-nascido deitado na manjedoura. 17 Tendo-o visto, contaram o que o anjo lhes anunciara sobre o menino. 18 E todos os que ouviam os pastores, ficaram

maravilhados com aquilo que contavam. 19 Maria, porém, conservava todos esses fatos, e meditava sobre eles em seu coração. 20 Os pastores voltaram, glorificando e louvando a Deus por tudo o que haviam visto e ouvido, conforme o anjo lhes tinha anunciado.

O Messias é pobre -* 21 Quando se completaram os oito dias para a circuncisão do menino, deram-lhe o nome de Jesus, como fora chamado pelo anjo, antes de ser concebido.

* 8-20: Os primeiros a receber a Boa Notícia (Evangelho) são os pobres e marginalizados, aqui representados pelos pastores. Com efeito, na sociedade da época, os pastores eram desprezados, porque não tinham possibilidade de cumprir todas as exigências da Lei. É para eles que nasceu o Salvador, o Messias e o Senhor. E são os primeiros a anunciar a sua chegada. Jesus é o Salvador, porque traz a libertação definitiva. É o Messias, porque traz o Espírito de Deus, que convoca os homens para uma relação de justiça e amor fraterno (cf. Is 11,1-9). É o Senhor, porque vence todos os obstáculos, conduzindo os homens dentro de uma história nova.

Bíblia Sagrada – Edição Pastoral

Reflexões do exegeta Frei Ludovico Garmus

Solenidade da Santa Mãe de Deus, Maria

 Oração: “Ó Deus, que pela virgindade fecunda de Maria destes à humanidade a salvação eterna, dai-nos contar sempre com a sua intercessão, pois ela nos trouxe o autor da vida”. 

  1. Primeira leitura: Nm 6,22-27

Invocarão o meu nome sobre os filhos de Israel,

e eu os abençoarei.

A bênção sacerdotal encerrava as grandes celebrações litúrgicas no templo de Jerusalém, entre elas a do Ano Novo. Mais tarde concluía também as reuniões semanais nas sinagogas. A bênção sacerdotal de Aarão contém três pedidos: Que o Senhor assegure aos filhos de Israel sua proteção, que o seu rosto compassivo brilhe sobre eles e lhes conceda a paz. Quem faz o pedido em nome de Deus é o sacerdote e quem concede a bênção é o próprio Deus. A bênção de Aarão atualiza a fórmula da aliança: “Eu serei o seu Deus e vós sereis o meu povo”. Na virada do ano desejamo-nos a felicidade e a paz. O novo ano será mais feliz se procurarmos viver na presença do olhar amoroso de Deus, que nos trata a todos como filhos e filhas. Se também nós procurarmos olhar com esse olhar divino os nossos irmãos mais carentes e desprotegidos, Deus nos concederá a felicidade e a paz tão desejadas.

Salmo responsorial: Sl 66

Que Deus nos dê a sua graça e sua bênção,

e sua face resplandeça sobre nós!

  1. Segunda leitura: Gl 4,4-7

Deus enviou o seu Filho, nascido de uma mulher.

Dois pensamentos dominam o texto: “Deus enviou seu Filho” e “Deus enviou o Espírito de seu filho”. A vinda do Filho ao mundo marca a plenitude dos tempos (v. 4-5). Judeus e pagãos convertidos participam desta plenitude pelo dom do Espírito. “Nascido de mulher”, isto é, de mãe humana, exprime sua precariedade e insuficiência da condição humana. O Filho de Deus se submete a esta condição, incluída a sujeição à Lei, submete-se à lei do pecado e da morte, pela cruz. Mas ressuscitando, nos dá a dignidade de filhos de Deus e herdeiros dos bens divinos. O Filho de Deus se fez homem para que nos tornássemos filhos e filhas de Deus.

Aclamação ao Evangelho

De muitos modos, Deus outrora nos falou pelos profetas;

nestes tempos derradeiros, nos falou pelo seu Filho.

  1. Evangelho: Lc 2,16-21

Encontraram Maria e José e o recém-nascido.

E, oito dias depois, deram-lhe o nome de Jesus.

No evangelho, em poucos versículos Lucas descreve uma cena alegre e agitada. É uma boa notícia (Evangelho) que se espalha velozmente por toda a redondeza da gruta de Belém: “Nasceu-vos hoje, na cidade de Davi, um Salvador, que é Cristo Senhor”. Naquela mesma noite, os pastores decidiram: “Vamos até Belém, para ver o acontecimento que o Senhor nos deu a conhecer” (v. 15). E “os pastores foram às pressas a Belém”. Como pista, os anjos deram um sinal aos pastores: “encontrareis um menino envolto em panos e deitado numa manjedoura”. Quando chegam, encontram “Maria e José, e o recém-nascido deitado na manjedoura”. O menino faz parte de uma família e a manjedoura torna o menino bem familiar e próximo dos pastores, pobres e desprezados. Constatada a verdade, os pastores contaram o que ouviram dos anjos a respeito do menino e todos os que ouviram ficaram maravilhados. Os pastores voltaram para os seus afazeres, glorificando e louvando a Deus.

O Filho de Deus faz parte da família humana e no oitavo dia, pela circuncisão, é introduzido no povo de Israel e recebe o nome de Jesus, “Deus (o Senhor) salva”. O conteúdo deste nome é tratado no cântico de Zacarias (Lc 1,68-79), onde se explica em que sentido Jesus é o Salvador de seu povo e de toda a humanidade.

Para Maria, esses acontecimentos eram motivo de meditação e reflexão. A exemplo de Maria, que meditava sobre os acontecimentos relacionados com seu filho, somos convidados a fazer o mesmo sobre nossa vida: conservando, transmitindo e vivendo o mistério de nossa fé em Cristo. A grande notícia que o Filho de Deus se fez homem merece ser anunciada com alegria nos tempos de escuridão em que vivemos.


FREI LUDOVICO GARMUS, OFMé professor de Exegese Bíblica do Instituto Teológico Franciscano de Petrópolis (RJ). Fez mestrado em Sagrada Escritura, em Roma, e doutorado em Teologia Bíblica pelo Studium Biblicum Franciscanum de Jerusalém, do Pontifício Ateneu Antoniano. É diretor industrial da Editora Vozes e editor da Revista “Estudos Bíblicos”, editada pela Vozes. Entre seus trabalhos está a coordenação geral e tradução da Bíblia Sagrada da Vozes.

O Senhor te dê sua Paz!

Frei Clarêncio Neotti

“E te dê a paz!” A paz, na visão bíblica, é a plenitude de todos os dons do Senhor. Jesus, nascido de Maria Virgem, é a plenitude de todos os dons. Por isso mesmo é chamado de ‘nossa paz’ (Ef 2,14). O tema da paz, proclamado e celebrado junto com a maternidade de Maria, toma um sentido bem maior do que contratos humanos ou ausência de guerra. Os anjos que cantaram o nascimento de Jesus e o anunciaram aos pastores proclamaram ao mesmo tempo a paz: “Paz na terra aos homens amados por Deus” (Lc 2,14). Esse ‘amados por Deus’ toma um sentido novo, porque, ao amar agora a criatura humana, Deus ama seu próprio filho, que assumiu em tudo a condição dos homens. E a seu filho Deus ama com a plenitude do amor mais perfeito. Desse amor, multiplicado entre as criaturas, deve nascer a paz. “Acolhido no mais íntimo do coração, esse amor reconcilia cada um com Deus e consigo mesmo, renova as relações entre os homens e gera sede de fraternidade” – escreveu o Papa São João Paulo, na Mensagem de Paz para abertura do ano dois mil.

Paz, amor, encarnação, redenção vão juntos. Na Mensagem de Paz para o ano 2000, João Paulo II chama a Igreja de “Sacramento da paz”, ou seja, sinal e instrumento de paz no mundo e para o mundo. E acrescenta esta frase programática: “Para a Igreja, trabalhar pela paz é cumprir sua missão evangelizadora”. Ora, a missão essencial da Igreja é testemunhar o Senhor Jesus. Quando a paz é sinônimo de Jesus Cristo, a Igreja só pode ser proclamadora do Evangelho da Paz (Ef 6,15), com todo seu empenho humano, com toda sua autoridade divina.

Hoje celebramos a Mãe de Deus, que é a Rainha da Paz. Mãe da paz, porque é mãe daquele que “pacificou todas as coisas: as da terra e as do céu” (Cl 1,20). Mãe da mesma paz proclamada por Jesus (Lc 24,36; Jo 20,16-21). Da mesma paz que Jesus deu aos Apóstolos na Última Ceia: “Deixo-vos a minha paz, dou-vos a minha paz” (Jo 14,27).


FREI CLARÊNCIO NEOTTI, OFMentrou na Ordem Franciscana no dia 23 de dezembro de 1954. Durante 20 anos, trabalhou na Editora Vozes, em Petrópolis. É membro fundador da União dos Editores Franciscanos e vigário paroquial no Santuário do Divino Espírito Santo (ES). Escritor e jornalista, é autor de vários livros e este comentário é do livro “Ministério da Palavra – Comentários aos Evangelhos dominicais e Festivos”, da Editora Santuário.

Tudo começa de novo

A Mãe de Deus haverá de nos acompanhar

 

Frei Almir Guimarães

Imagina o momento em que a jovem mãe dava à luz seu Filho; a face do universo abrindo-se num sorriso e o mundo jubiloso aplaudindo o Senhor. Imagina o céu sem uma nuvem, revestindo-se de beleza e as estrelas a dizer: “Aqui estamos”, brilhando com alegria em sua honra. Imagina a noite espalhando luz nas trevas, oferecendo esplendor em lugar de escuridão. Naquela noite houve luz antes da aurora e uma luz tão esplendorosa que ofuscava a claridade do sol.
Santo Amadeu de Lausanne (1110-1159)

Ano novo. Solenidade da Mãe de Deus. Começamos nossa reflexão com essas palavras belíssimas de louvor a Maria e à sua maternidade. As estrelas do céu brilham em sua honra. O universo se abre num sorriso. Festa da Mãe de Deus e começo de 2021. O ano que termina foi doloroso para todos: apreensões, dúvidas, mortes, sofrimento, perdas em todos os sentidos. Mal o havíamos começado, tivemos que nos recolher. Vamos em frente. Quem sabe, lá por dentro, saímos mais fortes, mais lúcidos, mais solidários. Tomara que assim tenha sido.

Quem nos abre as cortinas desse novo ano é Maria, a Mãe de Deus. Dizemos com toda tranquilidade que Maria de Nazaré é Mãe de Deus. Aquele que ela gerou, alimentou, vestiu, acompanhou, que lhe deu alegrias e preocupações, aquele homem que morria no alto da cruz era sua carne, bebera o leite de seu peito, era seu filho, carne de sua carne e mistério vindo do Alto. Ela foi , de verdade, Mãe de Deus.

No centro de tudo Maria, José e o Menino. Os pastores lá estavam avisados pelo Alto que um menino havia nascido. José nada diz. É o silencioso contemplativo. Maria também não fala. Escuta presta atenção. Observa atentamente esses homens simples e pobres. Guarda estas coisas no fundo do coração. Esse será o seu jeito de viver. Quieta, sem alardes, sem exterioridades. Maria, a Mãe do Menino, a Mãe de Deus humanado é discreta. É habitante do silêncio.

Colocamos o Ano Novo sob diante do Senhor. Pedimos que recaiam sobre nós e a humanidade as bençãos do Livro dos Números:

O Senhor te abençoe e te guarde.
O Senhor faça brilhar sobre ti a sua face e se compadeça de ti.
O Senhor volte para ti o seu rosto e te dê a paz.

O que será que desejamos ou podemos colocar atrás do desejo de “feliz ano novo”? Difícil exprimir em poucas palavras que sejam realistas o que desejamos para os outros e almejam que os outros desejem por nós:

Que todos tenhamos gosto e muito gosto de viver. De amar a vida, de contemplar a vida, de promover vida. Que nós e as pessoas à nossa volta que possamos degustar o pulsar do coração, sem desânimo, sem pandemia ou com pandemia. Lutando pela vida. Cantando um hino à vida. Apesar de todos os pesares…

Que tiremos de nosso horizonte toda desatenção para com os outros. Que lutemos para fazer lugar em nós para esses outros. Não somente para dar uma cesta básica ou comprar-lhes um remédio na farmácia, mas para sentir que ele é meu irmão e ela minha irmã. Que não vivo sem eles. Que só posso ser eu com o tu do outro.

Que não nos habituemos demais com as coisas essenciais. Ou seja, o Senhor belo que precisa ser buscado, auscultado, procurado nas linhas de um salmo ou no rosto franzido de dor de um semblante, no saltar de uma criança no parque correndo atrás de um passarinho. no silêncio do quarto ou no Pai nosso que rezamos juntos.

Que tenhamos força de continuar seres lúcidos, verdadeiros e não nos falte a força para tano.

Oração a Maria

Santa Maria, mulher ferial,
tu, que na casa de Nazaré,
entre panelas e talheres, entre lágrimas e orações,
entre panos de lã e rolos de Escritura,
experimentaste, em toda a tua feminilidade,
alegrias sem malícia, amarguras sem desesperos,
partidas sem regresso,
volta a caminhar conosco,
ó criatura extraordinária, enamorada de normalidade,
que, antes de seres coroada rainha do Céu,
engoliste o pó da nossa pobre terra,
ajudai-nos a salvar o quotidiano.
Tonino Bello


Ação de graças

E, de repente, Senhor, se a gente pensasse em agradecer!
Começo de um tempo novo! Vinte e um anos do novo século!
Obrigado por tudo o que vivo e que considero como a mim devido, ou seja, simplesmente esse direito de viver e viver de verdade.

Precisamos bater na tecla: há o direito ao pão, ao trabalho, à casa, à privacidade, ao respeito e à preservação da boa honra.

Obrigado pelo dom da vida que vem de Ti.
Obrigado, Senhor, pela luz que clareia o mundo:
que revela a cor das árvores, mostra o caminho aos viandantes
e é imagem da tua claridade
Que nunca venhamos a deixar nossos irmãos
caminharem às cegas, vivendo nas sombras da morte.

Obrigado pelo ar que respiramos e que nos conserva na vida.
Que Tu não permitas que nossas poluições semeiem a morte.
Obrigado pela água que bebemos
e faze com que possamos também matar a sede de Ti.
Que nossos irmãos não morram de sede.

Obrigado pela Mãe Terra, como a chamava Francisco de Assis.
Que ela seja respeitada e preservada para poder
continuar nutrindo as futuras gerações.

Obrigado pelas riquezas humanas e espirituais que nos foram transmitidas pelos nossos antepassados.

De mãos estendidas suba até teu coração nosso canto de louvor.

Inspirado em prece de Michel Wagner


FREI ALMIR GUIMARÃES, OFMingressou na Ordem Franciscana em 1958. Estudou catequese e pastoral no Institut Catholique de Paris, a partir de 1966, período em que fez licenciatura em Teologia. Em 1974, voltou a Paris para se doutorar em Teologia. Tem diversas obras sobre espiritualidade, sobretudo na área da Pastoral familiar. É o editor da Revista “Grande Sinal”.

Maria, modelo da Igreja

José Antonio Pagola

No começo de seu evangelho, Lucas nos apresenta Maria acolhendo com alegria o Filho de Deus em seu seio. Como enfatizou o Concílio Vaticano II, Maria é modelo para a Igreja. Dela podemos aprender a ser mais fiéis a Jesus e ao seu Evangelho. Quais podem ser as características de uma Igreja mais mariana em nossos dias?

Uma Igreja que fomenta a “ternura maternal” para com todos os seus filhos e filhas, promovendo o calor humano em suas relações. Uma Igreja de braços abertos, que não rejeita nem condena, mas acolhe e encontra um lugar adequado para cada um.

Uma Igreja que, como Maria, proclama com alegria a grandeza de Deus e sua misericórdia também para com as gerações atuais e futuras. Uma Igreja que se transforma em sinal de esperança por sua capacidade de transmitir vida.

Uma Igreja que sabe dizer “sim” a Deus sem saber muito bem para onde a levará sua obediência. Uma Igreja que não tem respostas para tudo, mas que busca com confiança a verdade e o amor, aberta ao diálogo com os que não se fecham ao bem.

Uma Igreja humilde como Maria, sempre à escuta de seu Senhor. Uma Igreja mais preocupada em comunicar o Evangelho de Jesus do que em ter tudo bem definido.

Uma Igreja do Magnificat, que não se compraz nos soberbos, nos poderosos e nos ricos deste mundo, mas que procura pão e dignidade para os pobres e famintos da Terra, sabendo que Deus está do seu lado.

Uma Igreja atenta ao sofrimento de todo ser humano, que sabe, como Maria, esquecer-se de si mesma e “andar depressa” para estar perto de quem precisa de ajuda. Uma Igreja preocupada com a felicidade dos que “não têm vinho” para celebrar a vida. Uma Igreja que anuncia a hora da mulher e promove com prazer sua dignidade, responsabilidade e criatividade feminina.

Uma Igreja contemplativa que sabe “guardar e meditar em seu coração” o mistério de Deus encarnado em Jesus, para transmiti-lo como experiência viva. Uma Igreja que crê, ora, sofre e espera a salvação de Deus anunciando com humildade a vitória final do amor.


JOSÉ ANTONIO PAGOLA cursou Teologia e Ciências Bíblicas na Pontifícia Universidade Gregoriana, no Pontifício Instituto Bíblico de Roma e na Escola Bíblica e Arqueológica Francesa de Jerusalém. É autor de diversas obras de teologia, pastoral e cristologia. Atualmente é diretor do Instituto de Teologia e Pastoral de São Sebastião. Este comentário é do livro “O Caminho Aberto por Jesus”, da Editora Vozes.

Jesus de Maria, bênção do povo

Pe. Johan Konings

Que sentido tem para você a celebração do Ano Novo? Mais uma festinha? Ou até uma farra? Um costume social? Uma ocasião para demonstrar seu carinho para com os amigos, trocar votos de paz e felicidade, injetar um pouco de otimismo em si mesmo e nos outros?

Para os cristãos, o novo ano litúrgico já começou, há um mês, no 1º domingo do Advento. Celebrar o Ano Novo no 1º de janeiro não é próprio da Igreja; mas os cristãos participam desta celebração como cidadãos da sociedade civil. Participam da celebração do Ano Novo civil com uma festa de Maria, Mãe do Deus Salvador, Jesus Cristo. Querem felicitar de modo especial a Mãe da família dos cristãos – pois, ao visitarmos hoje a casa de nossos amigos, não cumprimentamos primeiro a dona da casa?

Por que a Igreja marca este dia com uma festa de Maria, Mãe de Deus? É um voto de paz e bênção para a sociedade, para o mundo! Pois o filho de Maria é uma bênção para toda a humanidade e o será também neste novo ano civil, que hoje inicia.

A 1ª leitura de hoje nos faz ouvir a bênção de Deus transmitida pelos sacerdotes do templo de Jerusalém. Maria nos transmite uma bênção maior, da parte de Deus: o seu filho, Jesus. Os nossos votos de paz e bênção, neste dia, devem ser a extensão desta bênção que é Jesus, e que Maria fez chegar até nós. Em Jesus é que desejamos paz e bênção aos nossos amigos.

Então, nossos votos serão profundamente cristãos, e não apenas fórmula social ou até desejo egoísta, mera bajulação de “amigos importantes”… Desejaremos aos nossos amigos aquilo que veio até nós em Cristo: o amor de Deus na doação da vida para os irmãos. Esta é a verdadeira paz, que convém desejar neste Dia Mundial da Paz. Somente onde reinam os sentimentos de Jesus – o esquecimento de si para o bem dos irmãos, como pessoas e como sociedade – pode existir a paz que vem de Deus. É este o espírito de Jesus, no qual chamamos a Deus de Pai e aos outros, de irmãos.


PE. JOHAN KONINGS nasceu na Bélgica em 1941, onde se tornou Doutor em Teologia pela Universidade Católica de Lovaina, ligado ao Colégio para a América Latina (Fidei Donum). Veio ao Brasil, como sacerdote diocesano, em 1972. Em 1985 entrou na Companhia de Jesus (Jesuítas) e, desde 1986, atua como professor de exegese bíblica na FAJE, Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia, em Belo Horizonte. Este comentário é do livro “Liturgia Dominical, Editora Vozes.

Reflexão em vídeo de Frei Gustavo Medella