Vida Cristã - Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil - OFM

Domingo de Ramos

Domingo de Ramos e da Paixão do Senhor

Por que não antes?

 

Frei Gustavo Medella

“Então Jesus deu um forte grito e expirou. Quando o oficial do exército, que estava bem em frente dele, viu como Jesus havia expirado, disse: ‘Na verdade, este homem era Filho de Deus!’” (Mc 15,37.39).

Domingo de Ramos da Paixão do Senhor. O trecho do Evangelho de Marcos proposto na celebração narra o processo de condenação e execução de Jesus. Desta vez, chamou-me a atenção os dois versículos que estão ao final do relato e que foram destacados na abertura desta reflexão.

Pus-me a imaginar no grande privilégio daquele oficial do exército, frente a frente com Jesus quando o Filho de Deus entrega definitivamente o seu Espírito ao Pai. Que pensamentos e sentimentos não teriam tomado a mente e o coração daquele homem que, numa fração de segundos, passa de algoz a discípulo?

Também me detive sobre a expressão “expirou”. O gesto de Jesus teria sido, para aquele militar, um Pentecostes antecipado, no qual o Espírito lhe abriu os sentidos para acolher a bondade e o amor propostos pelo Filho do Homem? Sábia e consistente a máxima que diz: “O Espírito sopra onde quer”.

Também me perguntei: “Por que não antes?” Por que foi preciso uma verdadeira avalanche de injustiça, humilhação e violência para que aquele homem pudesse reconhecer uma verdade que Jesus vinha apresentando com tanta mansidão e coerência? O óbvio nem sempre é fácil de ser assimilado.

Não pude ainda deixar de recordar a contradição presente nesta data celebrativa. Por que tamanho extremismo? Dos “vivas e hosanas”, enfeitados com ramos a e tapetes na entrada de Jesus em Jerusalém, passa-se facilmente à dureza do grito de “crucifica-o”, potencializado por agressões físicas e morais, pelas bofetadas, cusparadas, zombarias, pelos espinhos penetrantes da coroa e pelas feridas dilacerantes causadas pelos pregos. A superficialidade da aclamação facilmente deu lugar a uma profunda crueldade que vinha sendo gestada no coração dos poderosos da religião e da política. Eles não suportaram a ação gratuita e transformadora da graça divina manifesta em Jesus.

Procurei também olhar para mim, para minha vida de fé… Será que não tenho deixado passar em minha vida o dom da graça de estar frente a frente com Jesus? Não posso estar sendo indiferente ou negligente com o Senhor que sofre e padece diante de meus olhos? Tenho medo do perigo de me dar conta disso tudo quando for tarde demais.

Pelo que percebo, esta Semana Santa será, para mim, tempo de mais perguntas do que respostas. Peço a Deus a graça de viver estes questionamentos com intensidade e que a meditação destes mistérios  seja capaz de me tornar uma pessoa melhor, mais generosa, mais sensível, mais comprometida com a proposta apresentada por nosso Senhor com a doação generosa da própria vida.


FREI GUSTAVO MEDELLA, OFM, é o atual Vigário Provincial e Secretário para a Evangelização da Província Franciscana da Imaculada Conceição. Fez a profissão solene na Ordem dos Frades Menores em 2010 e foi ordenado presbítero em 2 de julho de 2011..


Imagem ilustrativa de Frei Fábio Melo Vasconcelos

Leituras bíblicas para este domingo

Primeira Leitura: Isaías 50,4-7

4O Senhor Deus deu-me língua adestrada, para que eu saiba dizer palavras de conforto à pessoa abatida; ele me desperta cada manhã e me excita o ouvido, para prestar atenção como um discípulo. 5O Senhor abriu-me os ouvidos; não lhe resisti nem voltei atrás. 6Ofereci as costas para me baterem e as faces para me arrancarem a barba; não desviei o rosto de bofetões e cusparadas. 7Mas o Senhor Deus é meu auxiliador, por isso não me deixei abater o ânimo, conservei o rosto impassível como pedra, porque sei que não sairei humilhado.
Palavra do Senhor.


Sl 21(22)

Meu Deus, meu Deus, por que me abandonastes?
Riem de mim todos aqueles que me veem, / torcem os lábios e sacodem a cabeça: / “Ao Senhor se confiou, ele o liberte / e agora o salve, se é verdade que ele o ama!” – R.
Cães numerosos me rodeiam furiosos, / e por um bando de malvados fui cercado. / Transpassaram minhas mãos e os meus pés, / e eu posso contar todos os meus ossos. – R.
Eles repartem entre si as minhas vestes / e sorteiam entre si a minha túnica. / Vós, porém, ó meu Senhor, não fiqueis longe, / ó minha força, vinde logo em meu socorro! – R.
Anunciarei o vosso nome a meus irmãos / e no meio da assembleia hei de louvar-vos! / Vós que temeis ao Senhor Deus, dai-lhe louvores, † glorificai-o, descendentes de Jacó, / e respeitai-o, toda a raça de Israel! – R.


Segunda Leitura: Filipenses 2,6-11

6Jesus Cristo, existindo em condição divina, não fez do ser igual a Deus uma usurpação, 7mas ele esvaziou-se a si mesmo, assumindo a condição de escravo e tornando-se igual aos homens. Encontrado com aspecto humano, 8humilhou-se a si mesmo, fazendo-se obediente até a morte, e morte de cruz. 9Por isso, Deus o exaltou acima de tudo e lhe deu o nome que está acima de todo nome. 10Assim, ao nome de Jesus, todo joelho se dobre no céu, na terra e abaixo da terra 11e toda língua proclame: “Jesus Cristo é o Senhor”, para a glória de Deus Pai.
Palavra do Senhor.


Evangelhos: Mc 11, 1-10 (procissão) Mc 14,1-15,47 (paixão)
* 1 Jesus e seus discípulos se aproximaram de Jerusalém, diante de Betfagé e de Betânia, perto do monte das Oliveiras. Então Jesus enviou dois discípulos, 2 dizendo: «Vão até o povoado que está na frente de vocês, e logo que vocês entrarem aí, vão encontrar amarrado um jumentinho que nunca foi montado; desamarrem o animal e tragam aqui. 3 Se alguém lhes falar: ‘Por que estão fazendo isso?’, digam: ‘O Senhor precisa dele, mas logo o devolverá.» 4 Então eles foram e encontraram um jumentinho amarrado, do lado de fora, na rua, junto de uma porta, e o desamarraram. 5 Algumas pessoas que aí estavam disseram: «O que vocês estão fazendo, desamarrando o jumentinho?» 6 Os discípulos responderam como Jesus havia dito, e então permitiram que fizessem isso. 7 Então levaram o jumentinho a Jesus, colocaram os próprios mantos sobre ele, e Jesus montou. 8 E muitas pessoas estenderam seus mantos pelo caminho; outros puseram ramos que haviam apanhado nos campos. 9 Os que iam na frente e os que seguiam gritavam: «Hosana! Bendito aquele que vem em nome do Senhor! 10 Bendito seja o Reino que vem, o reino de nosso pai Davi! Hosana no mais alto do céu!»

O Messias vai ser morto
1 Faltavam dois dias para a Páscoa e para a festa dos Ázimos. Os sumos sacerdotes e os mestres da Lei procuravam um meio de prender Jesus à traição, para matá-lo.

2 Eles diziam: ‘Não durante a festa, para que não haja um tumulto no meio do povo.’ Derramou perfume em meu corpo, preparando-o para a sepultura.

3 Jesus estava em Betânia, na casa de Simão, o leproso. Quando estava à mesa, veio uma mulher com um vaso de alabastro cheio de perfume de nardo puro, muito caro. Ela quebrou o vaso e derramou o perfume na cabeça de Jesus.

4 Alguns que estavam ali ficaram indignados e comentavam: ‘Por que este desperdício de perfume?

5Ele poderia ser vendido por mais de trezentas moedas de prata, que seriam dadas aos pobres.’ E criticavam fortemente a mulher.

6 Mas Jesus lhes disse: ‘Deixai-a em paz! Por que aborrecê-la? Ela praticou uma boa ação para comigo.

7 Pobres sempre tereis convosco e quando quiserdes podeis fazer-lhes o bem. Quanto a mim não me tereis para sempre.

8 Ela fez o que podia: derramou perfume em meu corpo, preparando-o para a sepultura.

9 Em verdade vos digo, em qualquer parte que o Evangelho for pregado, em todo o mundo, será contado o que ela fez, como lembrança do seu gesto.’ Prometeram a Judas Iscariotes dar-lhe dinheiro.

10 Judas Iscariotes, um dos doze, foi ter com os sumos sacerdotes para entregar-lhes Jesus.

11 Eles ficaram muito contentes quando ouviram isso, e prometeram dar-lhe dinheiro. Então, Judas começou a procurar uma boa oportunidade para entregar Jesus. Onde está a sala em que vou comer a Páscoa com os meus discípulos?

12 No primeiro dia dos ázimos, quando se imolava o cordeiro pascal, os discípulos disseram a Jesus: ‘Onde queres que façamos os preparativos para comeres a Páscoa?’

13 Jesus enviou então dois dos seus discípulos e lhes disse: ‘Ide à cidade. Um homem carregando um jarro de água virá ao vosso encontro. Segui-o

14 e dizei ao dono da casa em que ele entrar: ‘O Mestre manda dizer: onde está a sala em que vou comer a Páscoa com os meus discípulos?’

15 Então ele vos mostrará, no andar de cima, uma grande sala, arrumada com almofadas. Ali fareis os preparativos para nós!’

16 Os discípulos saíram e foram à cidade. Encontraram tudo como Jesus havia dito, e prepararam a Páscoa. Um de vós, que come comigo, vai me trair.’

17 Ao cair da tarde, Jesus foi com os doze.

18 Enquanto estavam à mesa comendo, Jesus disse: ‘Em verdade vos digo, um de vós, que come comigo, vai me trair.’

19 Os discípulos começaram a ficar tristes e perguntaram a Jesus, um após outro: ‘Acaso serei eu?’

20 Jesus lhes disse: ‘É um dos doze, que se serve comigo do mesmo prato.

21 O Filho do Homem segue seu caminho, conforme está escrito sobre ele. Ai, porém, daquele que trair o Filho do Homem! Melhor seria que nunca tivesse nascido!’ Isto é o meu corpo. Isto é o meu sangue, o sangue da aliança.

22 Enquanto comiam, Jesus tomou o pão e, tendo pronunciado a bênção, partiu-o e entregou-lhes, dizendo: ‘Tomai, isto é o meu corpo.’

23 Em seguida, tomou o cálice, deu graças, entregou-lhes e todos beberam dele.

24 Jesus lhes disse: ‘Isto é o meu sangue, o sangue da aliança, que é derramado em favor de muitos.

25 Em verdade vos digo, não beberei mais do fruto da videira, até o dia em que beberei o vinho novo no Reino de Deus.’

Antes que o galo cante duas vezes, três vezes tu me negarás.

26 Depois de terem cantado o hino, foram para o monte das Oliveiras.

27 Então Jesus disse aos discípulos: ‘Todos vós ficareis desorientados, pois está escrito: ‘Ferirei o pastor e as ovelhas se dispersarão.’

28 Mas, depois de ressuscitar, eu vos precederei na Galiléia.’

29 Pedro, porém, lhe disse: ‘Mesmo que todos fiquem desorientados, eu não ficarei.’

30 Respondeu-lhe Jesus: ‘Em verdade te digo, ainda hoje, esta noite, antes que o galo cante duas vezes, três vezes tu me negarás.’

31 Mas Pedro repetiu com veemência: ‘Ainda que tenha de morrer contigo, eu não te negarei.’ E todos diziam o mesmo. Começou a sentir pavor e angústia.

32 Chegados a um lugar chamado Getsêmani, disse Jesus aos discípulos: ‘Sentai-vos aqui, enquanto eu vou rezar!’

33 Levou consigo Pedro, Tiago e João, e começou a sentir pavor e angústia.

34 Então Jesus lhes disse: ‘Minha alma está triste até a morte. Ficai aqui e vigiai.’

35 Jesus foi um pouco mais adiante e, prostrando-se por terra, rezava que, se fosse possível, aquela hora se afastasse dele.

36 Dizia: ‘Abbá! Pai! Tudo te é possível: Afasta de mim este cálice! Contudo, nóo seja feito o que eu quero, mas sim o que tu queres!’

37 Voltando, encontrou os discípulos dormindo. Então disse a Pedro: ‘Simão, tu estás dormindo? Não pudeste vigiar nem uma hora?

38 Vigiai e orai, para não cairdes em tentaçóo! Pois o espírito está pronto, mas a carne é fraca.’

39 Jesus afastou-se de novo e rezou, repetindo as mesmas palavras.

40 Voltou outra vez e os encontrou dormindo, porque seus olhos estavam pesados de sono e eles não sabiam o que responder.

41 Ao voltar pela terceira vez, Jesus lhes disse: ‘Agora podeis dormir e descansar. Basta! Chegou a hora! Eis que o Filho do Homem é entregue nas mãos dos pecadores.

42 Levantai-vos! Vamos! Aquele que vai me trair já está chegando.’ Prendei-o e levai-o com segurança!’

43 E logo, enquanto Jesus ainda falava, chegou Judas, um dos doze, com uma multidão armada de espadas e paus. Vinham da parte dos sumos sacerdotes, dos mestres da Lei e dos anciãos do povo.

44 O traidor tinha combinado com eles um sinal, dizendo: ‘É aquele a quem eu beijar. Prendei-o e levai-o com segurança!’

45 Judas logo se aproximou de Jesus, dizendo: ‘Mestre!’, e o beijou.

46 Então lançaram as mãos sobre ele e o prenderam.

47 Mas um dos presentes puxou a espada e feriu o empregado do sumo sacerdote, cortando-lhe a orelha.

48 Jesus tomou a palavra e disse: ‘Vós saístes com espadas e paus para me prender, como se eu fosse um assaltante.

49 Todos os dias eu estava convosco, no Templo, ensinando, e não me prendestes. Mas isto acontece para que se cumpram as Escrituras.’

50 Então todos o abandonaram e fugiram.

51 Um jovem, vestido apenas com um lençol, estava seguindo a Jesus, e eles o prenderam.

52 Mas o jovem largou o lençol e fugiu nu. Tu és o Messias, o Filho de Deus Bendito?

53 Então levaram Jesus ao Sumo Sacerdote, e todos os sumos sacerdotes, os anciãos e os mestres da Lei se reuniram.

54 Pedro seguiu Jesus de longe, até o interior do pátio do Sumo Sacerdote. Sentado com os guardas, aquecia-se junto ao fogo.

55 Ora, os sumos sacerdotes e todo o Sinédrio procuravam um testemunho contra Jesus, para condená-lo à morte, mas não encontravam.

56 Muitos testemunhavam falsamente contra ele, mas seus testemunhos não concordavam.

57 Alguns se levantaram e testemunharam falsamente contra ele, dizendo:

58 ‘Nós o ouvimos dizer: ‘Vou destruir este templo feito pelas mãos dos homens, e em três dias construirei um outro, que não será feito por mãos humanas!`’

59 Mas nem assim o testemunho deles concordava.

60 Então, o Sumo Sacerdote levantou-se no meio deles e interrogou a Jesus: ‘Nada tens a responder ao que estes testemunham contra ti?’

61 Jesus continuou calado, e nada respondeu. O Sumo Sacerdote interrogou-o de novo: ‘Tu és o Messias, o Filho de Deus Bendito?’

62 Jesus respondeu: ‘Eu sou. E vereis o Filho do Homem sentado à direita do Todo-Poderoso, vindo com as nuvens do céu.’

63 O Sumo Sacerdote rasgou suas vestes e disse: ‘Que necessidade temos ainda de testemunhas?

64 Vós ouvistes a blasfêmia! O que vos parece?’ Então todos o julgaram réu de morte.

65 Alguns começaram a cuspir em Jesus. Cobrindo-lhe o rosto, o esbofeteavam e diziam: ‘Profetiza!’ Os guardas também davam-lhe bofetadas. Nem conheço esse homem de quem estais falando.

66 Pedro estava em baixo, no pátio. Veio uma criada do Sumo Sacerdote,

67 e, quando viu Pedro que se aquecia, olhou bem para ele e disse: ‘Tu também estavas com Jesus, o Nazareno!’

68 Mas Pedro negou, dizendo: ‘Não sei e nem compreendo o que estás dizendo!’ E foi para fora, para a entrada do pátio. E o galo cantou.

69 A criada viu Pedro, e de novo começou a dizer aos que estavam perto: ‘Este é um deles.’

70 Mas Pedro negou outra vez. Pouco depois, os que estavam junto diziam novamente a Pedro: ‘É claro que tu és um deles, pois és da Galiléia.’

71 Aí Pedro começou a maldizer e a jurar, dizendo: ‘Nem conheço esse homem de quem estais falando.’

72 E nesse instante um galo cantou pela segunda vez. Lembrou-se Pedro da palavra que Jesus lhe havia dito: ‘Antes que um galo cante duas vezes, três vezes tu me negarás.’ Caindo em si, ele começou a chorar. Vós quereis que eu solte o rei dos judeus?

15,1 Logo pela manhã, os sumos sacerdotes, com os anciãos, os mestres da Lei e todo o Sinédrio, reuniram-se e tomaram uma decisão. Levaram Jesus amarrado e o entregaram a Pilatos.

2 E Pilatos o interrogou: ‘Tu és o rei dos judeus?’ Jesus respondeu: ‘Tu o dizes.’

3 E os sumos sacerdotes faziam muitas acusações contra Jesus.

4 Pilatos o interrogou novamente: ‘Nada tens a responder? Vê de quanta coisa te acusam!’

5 Mas Jesus não respondeu mais nada, de modo que Pilatos ficou admirado.

6 Por ocasião da Páscoa, Pilatos soltava o prisioneiro que eles pedissem.

7 Havia então um preso, chamado Barrabás, entre os bandidos, que, numa revolta, tinha cometido um assassinato.

8 multidão subiu a Pilatos e começou a pedir que ele fizesse como era costume.

9 Pilatos perguntou: ‘Vós quereis que eu solte o rei dos judeus?’

10 Ele bem sabia que os sumos sacerdotes haviam entregado Jesus por inveja.

11 Porém, os sumos sacerdotes instigaram a multidão para que Pilatos lhes soltasse Barrabás.

12 Pilatos perguntou de novo: ‘Que quereis então que eu faça com o rei dos Judeus?’

13 Mas eles tornaram a gritar: ‘Crucifica-o!’

14 Pilatos perguntou: ‘Mas, que mal ele fez?’ Eles, porém, gritaram com mais força: ‘Crucifica-o!’

15 Pilatos, querendo satisfazer a multidão, soltou Barrabás, mandou flagelar Jesus e o entregou para ser crucificado. Teceram uma coroa de espinhos e a puseram em sua cabeça.

16 Então os soldados o levaram para dentro do palácio, isto é, o pretório, e convocaram toda a tropa.

17 Vestiram Jesus com um manto vermelho, teceram uma coroa de espinhos e a puseram em sua cabeça.

18 E começaram a saudá-lo: ‘Salve, rei dos judeus!’

19 Batiam-lhe na cabeça com uma vara. Cuspiam nele e, dobrando os joelhos, prostravam-se diante dele.

20 Depois de zombarem de Jesus, tiraram-lhe o manto vermelho, vestiram-no de novo com suas próprias roupas e o levaram para fora, a fim de crucificá-lo. Levaram Jesus para o lugar chamado Gólgota.

21 Os soldados obrigaram um certo Simão de Cirene, pai de Alexandre e de Rufo, que voltava do campo, a carregar a cruz.

22 Levaram Jesus para o lugar chamado Gólgota, que quer dizer ‘Calvário’. Ele foi contado entre os malfeitores.

23 Deram-lhe vinho misturado com mirra, mas ele nóo o tomou.

24 Então o crucificaram e repartiram as suas roupas, tirando a sorte, para ver que parte caberia a cada um.

25 Eram nove horas da manhã quando o crucificaram.

26 E ali estava uma inscrição com o motivo de sua condenação: ‘O Rei dos Judeus’.

27 Com Jesus foram crucificados dois ladrões, um à direita e outro à esquerda.

28 Porque eu vos digo: É preciso que se cumpra em mim a Palavra da Escritura: ‘Ele foi contado entre os malfeitores.’A outros salvou, a si mesmo não pode salvar!

29 Os que por ali passavam o insultavam, balançando a cabeça e dizendo: ‘Ah! Tu que destróis o Templo e o reconstróis em três dias,

30 salva-te a ti mesmo, descendo da cruz!’

31 Do mesmo modo, os sumos sacerdotes, com os mestres da Lei, zombavam entre si, dizendo: ‘A outros salvou, a si mesmo não pode salvar!

32 O Messias, o rei de Israel…que desça agora da cruz, para que vejamos e acreditemos!’ Os que foram crucificados com ele também o insultavam. Jesus deu um forte grito e expirou.

33 Quando chegou o meio-dia, houve escuridão sobre toda a terra, até as três horas da tarde.

34 Pelas três da tarde, Jesus gritou com voz forte: ‘Eli, Eli, lamá sabactâni?’, que quer dizer: ‘Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?’

35 Alguns dos que estavam ali perto, ouvindo-o, disseram: ‘Vejam, ele está chamando Elias!’

36 Alguém correu e embebeu uma esponja em vinagre, colocou-a na ponta de uma vara e lhe deu de beber, dizendo: ‘Deixai! Vamos ver se Elias vem tirá-lo da cruz.’

37 Então Jesus deu um forte grito e expirou. Aqui todos se ajoelham e faz-se uma pausa.

38 Neste momento a cortina do santuário rasgou-se de alto a baixo, em duas partes.

39 Quando o oficial do exército, que estava bem em frente dele, viu como Jesus havia expirado, disse: ‘Na verdade, este homem era Filho de Deus!’

40 Estavam ali também algumas mulheres, que olhavam de longe; entre elas, Maria Madalena, Maria, mãe de Tiago Menor e de Joset, e Salomé.

41 Elas haviam acompanhado e servido a Jesus quando ele estava na Galiléia. Também muitas outras que tinham ido com Jesus a Jerusalém, estavam ali. José rolou uma pedra à entrada do sepulcro.

42 Era o dia da preparação, isto é, a véspera do sábado, e já caíra a tarde.

43 Então, José de Arimatéia, membro respeitável do Conselho, que também esperava o Reino de Deus, cheio de coragem, veio a Pilatos e pediu o corpo de Jesus.

44 Pilatos ficou admirado, quando soube que Jesus estava morto. Chamou o oficial do exército e perguntou se Jesus tinha morrido há muito tempo.

45 Informado pelo oficial, Pilatos entregou o corpo a José.

46 José comprou um lençol de linho, desceu o corpo da cruz e o envolveu no lençol. Depois colocou-o num túmulo, escavado na rocha, e rolou uma pedra à entrada do sepulcro.

47 Maria Madalena, e Maria, mãe de José, observavam onde Jesus foi colocado.

* 12-21: A celebração da Páscoa marcava a noite em que o povo de Deus foi libertado da escravidão do Egito. Jesus vai ser morto como o novo cordeiro pascal: sua vida e morte são o início de novo modo de vida, no qual não haverá mais escravidão do dinheiro e do poder.

* 22-25: A ceia pascal de Jesus com os discípulos recorda a multiplicação dos pães. Ela substitui as cerimônias do Templo e torna-se o centro vital da comunidade formada pelos que seguem a Jesus. O gesto e as palavras de Jesus não são apenas afirmação de sua presença sacramental no pão e no vinho. Manifestam também o sentido profundo de sua vida e morte, isto é: Jesus viveu e morreu como dom gratuito, como entrega de si mesmo aos outros, opondo-se a uma sociedade em que as pessoas vivem para si mesmas e para seus próprios interesses. Na ausência de Jesus, os discípulos são convidados a fazer o mesmo («tomem»): partilhar o pão com os pobres e viver para os outros.

Bíblia Pastoral

Reflexão do exegeta Frei Ludovico Garmus

Domingo de Ramos, ano B

 Oração: “Deus eterno e todo-poderoso, para dar aos homens um exemplo de humildade, quisestes que o nosso Salvador se fizesse homem e morresse na cruz. Concedei-nos aprender o ensinamento da sua paixão e ressuscitar com ele em sua glória”.

 Primeira leitura: Is 50,4-7

Não desviei meu rosto das bofetadas e cusparadas.

Sei que não serei humilhado.

O texto de hoje traz as palavras do 3º Cântico do Servo Sofredor. É uma figura profética que está entre os judeus exilados na Babilônia. O profeta está convencido de ter recebido uma missão da parte de Deus para levar uma mensagem de conforto aos exilados abatidos. O Servo apresenta-se como um discípulo, atento todas as manhãs para receber a mensagem divina a ser transmitida. Mas, para cumprir esta missão deve enfrentar o desprezo e o sofrimento. Cheio de confiança no auxílio divino, porém, não se deixa abater. – A exemplo do Servo Sofredor, embora ameaçado de morte pelos adversários, Jesus entra resolutamente em Jerusalém para cumprir sua missão até o fim.

Salmo responsorial: Sl 21 (22)

Meu Deus, meu Deus, por que me abandonastes?

  1. Segunda leitura: Fl 2,6-11

Humilhou-se a si mesmo; por isso,

Deus o exaltou acima de tudo.

Jesus, Filho de Deus, podia ter escolhido o caminho do poder – sugerido pelo diabo (Mt 4,8-10) e disputado pelos discípulos (Mc 9,33-35) –, mas esvaziou-se e assumiu a condição de servo. Apresentando-se como quem é “manso e humilde de coração” (Mt 11,29), colocou-se a serviço de todos: “Eu estou no meio de vós como quem serve” (Lc 22,27). Identificou-se não com a classe dominante, mas com a maioria das pessoas, sujeitas à dominação, exploradas, desprezadas, marginalizadas; tornou-se solidário com todos os “crucificados” da história humana. Como o Servo do Cântico de Isaías, foi obediente até a morte de cruz. Por isso o Pai o ressuscitou dos mortos. Paulo está preocupado com o espírito de competição dentro da comunidade. Por isso recomenda: “Tende os mesmos sentimentos de Cristo Jesus”. O caminho de Cristo, humilde e solidário com todos, tornou-se o caminho do cristão.

Aclamação ao Evangelho:

Glória e louvor a vós, ó Cristo!

Jesus Cristo se tornou obediente,

obediente até a morte numa cruz.

Pelo que o Senhor Deus o exaltou,

e deu-lhe um nome muito acima de outro nome.

  1. Anúncio do Evangelho: Mc 15,1-39 

A narrativa da paixão mais longa inclui o cap. 14. Ali os sumos sacerdotes e os mestres da Lei tramavam a morte de Jesus (v. 1-2). Jesus participa de um ceia de despedida na casa de Simão o leproso (v. 3-9). Durante a ceia uma mulher unge a cabeça de Jesus com um perfume muito caro. Alguns que estavam à mesa criticam a mulher pelo desperdício. Jesus, porém, diz: “Ela fez o que podia: derramou perfume em meu corpo, preparando-o para a sepultura”. Judas acerta com os sumos sacerdotes a traição (v. 10-11). Segue a preparação da ceia, na qual é denunciado o traidor e è instituída a Eucaristia (v. 12-25). Resumindo, pode-se dizer que a narrativa da Paixão segundo Marcos é marcada pela entrega traiçoeira (R. Ruijs). Judas entrega Jesus ao Sinédrio; o Sinédrio entrega Jesus a Pilatos e este o entrega aos soldados, que o entregam à morte. Na agonia do Horto das Oliveiras Jesus clama ao Pai: “Afasta de mim este cálice, mas não seja o que eu quero, senão o que tu queres” (14,36). Antes, durante a Ceia, Jesus já se entregou nos sinais do pão e do vinho, na doação livre de sua vida, de seu corpo e de seu sangue, pela nossa salvação.

Na leitura mais breve de hoje, depois de ter sido condenado pelo Sinédrio, sob a acusação de querer destruir o Templo e de se fazer Messias, Filho de Deus, Jesus é apresentando a Pilatos para o julgamento. Agora, a acusação é de caráter político, como se vê na pergunta de Pilatos: “Tu és o rei dos judeus?” Pilatos sabia que os sumos sacerdotes entregaram Jesus por inveja, mas depois de interrogá-lo considera Jesus inocente. Propõe, então, libertar um prisioneiro, como era seu costume por ocasião da Páscoa. Apresentou dois prisioneiros, para que o povo escolhesse quem devia ser libertado e quem devia morrer: Barrabás (um assassino) ou Jesus, que era chamado de Messias. Instigado pelos sumos sacerdotes, o povo escolhe Barrabás e rejeita o próprio Messias, o Servo do Senhor. Apesar de reconhecer que Jesus era inocente, Pilatos manda, então, açoitar Jesus, para entregá-lo à morte. Traído por Judas, negado por Pedro e abandonado pelos discípulos, na cruz, Jesus clama ao Pai: “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?” Jesus em agonia, manifesta profunda confiança (2ª leitura) no Pai, pois seu clamor é a primeira frase de um salmo de lamentação e confiança que estava rezando (Sl 21). Vendo Jesus expirar, o oficial do exército romano (pagão) faz a confissão de fé cristã: “Na verdade, este homem era o Filho de Deus”!


FREI LUDOVICO GARMUS, OFMé professor de Exegese Bíblica do Instituto Teológico Franciscano de Petrópolis (RJ). Fez mestrado em Sagrada Escritura, em Roma, e doutorado em Teologia Bíblica pelo Studium Biblicum Franciscanum de Jerusalém, do Pontifício Ateneu Antoniano. É diretor industrial da Editora Vozes e editor da Revista “Estudos Bíblicos”, editada pela Vozes. Entre seus trabalhos está a coordenação geral e tradução da Bíblia Sagrada da Vozes.

Jesus Cristo, Filho de Deus

Frei Clarêncio Neotti

A história da paixão segundo Marcos é, provavelmente, o mais antigo texto sobre o assunto. Para Marcos, Jesus está plenamente consciente do seu destino de morte. “O Filho do Homem segue o seu caminho” (Mc 14,21). Mas não se detém em pormenores. Tem pressa no desfecho final, em que está a frase principal, posta na boca de um soldado pagão: “Verdadeiramente, este homem era o Filho de Deus” (Mc 15,39). Marcos repete, na hora da morte de Jesus, a mesma afirmação com que abrira o seu Evangelho: “Jesus Cristo, Filho de Deus” (Mc 1,1).

Na frase do centurião está todo o dogma cristão: Jesus é homem e Deus. Como homem sofre no corpo e no espírito (Mc 14,33). Como Deus nos salva. As duas naturezas não se separam no agir, a ponto de devermos dizer que o Cristo-Deus-Homem padeceu a morte na cruz; e o Cristo-Homem-Deus nos salvou.

Marcos põe a afirmação da divindade na boca de Jesus, diante da autoridade religiosa máxima dos judeus: “Eu sou o Cristo”. E Jesus acrescenta: “Ver-me-eis assentado à direita do poder de Deus, vindo sobre as nuvens do céu” (Mc 14,62).

‘Assentar-se à direita’ e ‘vir sobre as nuvens’ são expressões bíblicas que afirmam que Jesus tem poderes divinos, permanece como Deus presente e ativo no mundo e é o juiz de todas as criaturas. Não fosse isso verdade, seria uma grande blasfêmia. O Sumo Sacerdote tomou a afirmação de Jesus como blasfêmia. A lei mandava matar todos os charlatães, que se dissessem revestidos de poderes divinos. Compreende-se que, não crendo em Jesus, todo o Sinédrio o tenha condenado como impostor.


FREI CLARÊNCIO NEOTTI, OFMentrou na Ordem Franciscana no dia 23 de dezembro de 1954. Durante 20 anos, trabalhou na Editora Vozes, em Petrópolis. É membro fundador da União dos Editores Franciscanos e vigário paroquial no Santuário do Divino Espírito Santo (ES). Escritor e jornalista, é autor de vários livros e este comentário é do livro “Ministério da Palavra – Comentários aos Evangelhos dominicais e Festivos”, da Editora Santuário.

Um rei sentado num burrico

Frei Almir Guimarães

O Senhor vem, mas não rodeado de pompa, como se fosse conquistar a glória. Ele não discutirá, nem gritará, diz a Escritura, e ninguém ouvirá a sua voz. Pelo contrário, será manso e humilde e se apresentará com vestes pobres e aparência modesta.
Santo André de Creta

♦ Esgotou-se tempo de preparação para vivermos convenientemente esta semana que é santa. Chegamos ao termo das meditações a respeito da caminhada de Jesus. A semana santa não é simplesmente um momento importante do ano litúrgico, mas a fonte de todas as celebrações do ano. Tudo brota do Mistério Pascal, da morte, ressureição do Senhor. Nesses dias somos convidados a deixar que a Palavra penetre mais e mais em nós. Vamos acompanhar de coração os últimos passos do Senhor e tentar haurir força nova para nossa vidas.

♦ “A celebração da Semana Santa culmina com a eucaristia da madrugada de domingo, a que precedia o batismo dos catecúmenos, tanto jovens como adultos. O centro é Cristo com sua paixão que abarca toda a existência humana, uma vez que ele está presente em todas as vítimas da dor e do sofrimento, simbolizados pelo cordeiro pascal. A Páscoa não é um mero rito, liturgia ou celebração. Toda vida é páscoa, passagem trânsito” (Casiano Floristán).

♦ A Procissão dos Ramos evoca a entrada triunfal de Jesus em Jerusalém, aquela que mata os profetas. Vale a pena refletir nas palavras que introduzem a bênção dos ramos, antes da procissão de entrada no templo: “Celebrando com fé e piedade dessa entrada, sigamos os passos de nosso Salvador, para que associados pela graça à sua cruz, participemos também de sua ressurreição e sua vida”.

♦ Jesus entra em Jerusalém montado num burrico. O gesto marca a simplicidade e pobreza do Messias. O animal não é dele. Pede-o emprestado e afirma que será devolvido depois. O burrico é a cavalgadura pobre e humilde mencionada Zacarias (9,9). “Exulta muito, filha de Sião!Grita de alegria, filha de Jerusalém. Eis que o teu rei vem a ti ele e justo e vitorioso, humilde montado sobre um jumento, sobre um jumentinho, filho da jumenta!”. Jesus deixa que ressoe o Hosana da Alturas. Se as pessoas não o farão as pedras haveriam de fazer!

♦ Jesus quis entrar em Jerusalém como nunca fizera anteriormente. Até aquele momento todas as vezes que voltava a Jerusalém nunca tivera muito êxito em sua pregação. “Jerusalém, Jerusalém… quantas vezes eu quis reunir os teus filhos como uma galinha reúne os seus pintinhos debaixo de suas asas, mas não quisestes”(Mt 23,37). Nesse momento entra na cidade santa e no templo pela ultima vez e deseja revelar com clareza sua missão de verdadeiro e novo pastor de Israel, mesmo pesando sobre ele ameaças de morte por parte da autoridade do povo.

♦ O cortejo que acompanha Jesus mostra características reais expressas nos mantos estendidos, nos ramos levantados e nas palavras de ovação. As multidões têm uma visão triunfalista daquela entrada. Jesus, por sua vez, sente-se a pedra que os pedreiros rejeitaram. Não compartilha a visão triunfalista dos que acompanham. Para a celebração dos ramos, os ministros usam paramentos rubros. Lembram o fogo e o martírio Há alegria, vida e movimentação no ar. Nosso sentimento é o de seguir Jesus de perto.

♦ As leituras Domingo de Ramos colocam os fiéis diante do sofrimento do Messias. Justapostos aparecem a afirmação da glória e do sofrimento de Jesus tanto neste domingo como nos dias da semana santa. Os liturgistas falam que e a própria linguagem do mistério. A procissão e como um sinal sacramental da Páscoa que é andança, caminhada, êxodo. Entra-se no templo com palmas ou ramos, como na sexta-feira se entrará com a cruz e na vigília do sábado com o círio pascal. Tal procissão fala da coragem da partida, da espera de uma terra e de humanidade nova.

♦ Há pergunta que aflora ao longo de todo o evangelho segundo Marcos: Quem é Jesus? O próprio Jesus respondendo ao sumo sacerdote que lhe perguntava se ele era o Cristo, o Filho do Bendito, declara: “Eu o sou!” (14,62). Aos pés da cruz, não se poderia esperar que fosse um pagão a reconhecer que aquele que agonizava era o Filho de Deus: “Na verdade, este homem era o Filho de Deus” (Mc 15,32).


Texto para reflexão

Disponíveis para Deus

Na encarnação, Jesus fez sua a pobreza radical do homem perante Deus (cf. Filipenses 2, 8-9). Coerente com esta escolha, apoiou-se na palavra do Pai que, nas Escrituras e nos acontecimentos lhe índica o caminho para cumprir sua missão; não se subtraiu à condição de homem pecador, ao sofrimento que provém do egoísmo, nem aos limites da natureza humana, entre os quais, antes de tudo, a morte. Um homem como todos; um pobre em poder de todos; assim o mostra o sucinto e objetivo relato dos evangelistas. Vemo-lo como uma vítima da intolerância e da injustiça, um amotinador ou, quando muito, um sacrificado pelos seus por um falaz cálculo político. Mas isso não bastaria para fazer dele um salvador. O que resgata sua morte, o que transfigura -para ele e para nós – é o imenso peso de amor com que faz dom da vida, para libertar-nos da violência e do ódio, do fanatismo e do medo, do orgulho e da autossuficiência, para tornarmos – como ele – disponíveis a Deus e aos outros, capazes de amar e perdoar, de ter confiança e de reconstruir, de crer no homem ultrapassando as deficiências e as deformações.
Missal Dominical da Paulus, p.250


FREI ALMIR GUIMARÃES, OFMingressou na Ordem Franciscana em 1958. Estudou catequese e pastoral no Institut Catholique de Paris, a partir de 1966, período em que fez licenciatura em Teologia. Em 1974, voltou a Paris para se doutorar em Teologia. Tem diversas obras sobre espiritualidade, sobretudo na área da Pastoral familiar. É o editor da Revista “Grande Sinal”.

Domingo de Ramos à luz dos passos de Jesus e na procissão de nossa vida (Mc 14,1 a 15,47)

Frei Jacir de Freitas Faria, OFM[1]

Hoje, Domingo de Ramos! Dia de esperança, apesar das dores que a vida nos reserva. O texto sobre o qual vamos refletir é Mc 14,1 a 15,47. Trata-se de um longo relato de fatos, já conhecidos por nós, os quais antecederam a morte de Jesus na cruz. Quero apresentá-los à luz dos passos de Jesus, na procissão de nossa vida e no espírito de mais uma Semana Santa que se inicia.

Começo com a entrada de Jesus em Jerusalém! Tudo foi muito triunfal. Um jumentinho levando um homem com características de rei. Um povo que gritava: “Hosana ao Filho de Davi!” e jogava ramos de palmeiras para ele passar. Era a trajetória de glória para Jesus. Na missa, quando cantamos “o Senhor é Santo”, fazemos memória desse momento. Jesus é descendente do rei Davi. Maravilha! Ele é o nosso libertador, o Messias, pensava o povo. A palmeira era o símbolo da Lei, da Torá. Jesus está em conformidade com os ensinamentos dos nossos mestres da Lei, pensava o povo. Por isso, a Torá-Palmeira recebe a Torá-Jesus. Tudo ia tão bem! Parecia que Jesus teria um final feliz.

Assim é a nossa história, nesse mundo globalizado, tecnológico, jamais imaginado por um medieval. Parecíamos invencíveis, até o dia da chegada do coronavírus e seus aliados da morte prematura. A vida é assim, cheia de encontros bons e ruins. O segredo é como lidamos com eles. Ninguém pode rejeitar o sofrimento, ele chega sem pedir licença.

Jesus, até o momento final de sua vida na cruz, teve vários encontros. Ele encontrou-se com uma mulher que derramou perfume caro no seu corpo; com um traidor que se passava por apóstolo e um apóstolo que o traiu antes do canto do galo; com um Simão Cirineu que o ajudou a carregar a pesada cruz; com os seus apóstolos para celebrar uma ceia festiva; com a dor pressentida de morte, no Getsêmani; com o poderoso Pilatos que o interroga e o envia para ser crucificado; com o povo que, diferentemente do dia da entrada em Jerusalém, pede a sua condenação; com a cruz da morte; e, por fim, com a sua mãe, sua tia Maria, sua amada Madalena, sua amiga Salomé e o seu amigo José de Arimateia que lhe oferece, com o seu dinheiro, um enterro digno de rei.

Nós também, durante a nossa vida, na caminhada de esperança e paixão, nos encontramos no Getsêmani de nossas dores de morte, e também com pessoas que nos oferecem flores de afeto, de ternura, de carinho, assim como as da mulher de Betânia. Quem nunca teve um Cirineu que o ajudou a carregar a cruz? Quem também nunca sofreu a dor de traição de um amigo, de um familiar, de um político? Todos eles são os Judas de nossa história. O melhor é que nunca esqueceremos os encontros, os momentos em que nos reunimos para celebrar a ceia da vida! E é isso o que nos ajuda a amenizar a dor que nos espera na primeira esquina ou, até mesmo, no próprio banquete. São tantos os Pilatos, os que dizem que não têm nada com isso, pois iremos morrer mesmo. São genocidas, ávidos para ditar o rumo de nossa história. Cuidado! Fique atento. Fique em casa.

Uma certeza eu carrego comigo, que “nesta longa estrada da vida”, música eternizada na voz de Milionário e Zé Rico, “vou correndo e não posso parar”. O meu desejo é o de ser campeão, mas há momentos em que o tempo cerca a minha, a nossa estrada, a vista escure e o fim da vida, da estrada, chega. Parece que não há mais nada para fazer.

Assim aconteceu com Jesus, uma cruz o esperava em Jerusalém! Marcos tinha clareza disso, quando escreveu seu evangelho. Nesse encontro final de Jesus com a cruz, três certezas posso lhe oferecer: 1) As pessoas que o amou em vida estavam ali, aos pés da sua cruz de morte planejada; 2) Um centurião romano proclama que Ele, Jesus, verdadeiramente, era o filho de Deus (Mc 15,39); 3) Na dor da morte, o Deus humanado grita: “Meu Deus, meu Pai, para que me abandonastes?”.

A última cena é terrível. Tudo parece terminado. Não há mais nada para fazer que seguir o caminho de volta para Jerusalém, retomar a procissão da vida e esperar a minha morte. Ledo engano! É aí que renasce a esperança. Em pouco tempo, três dias, Jesus ressuscitaria para devolver a esperança, apesar de tudo e de todos. Deus, o Pai, não o abandonou. Ele está conosco. Ele se permitiu viver a dor humana para nos ensinar que, apesar da dureza da vida, perder a esperança, jamais! Jesus entendeu que no final de sua trajetória na terra, Ele seria acolhido pelo Pai. Uma nova história começaria para Ele e para nós. Que maior mistério de fé e esperança do que isso? Fim! Recomeço!

Sobre o sentido da paixão, morte e o ‘para quê’ de Jesus na cruz, falarei no nosso próximo encontro, na Sexta-feira da Paixão. Ah! Não deixe de dar a sua contribuição para os projetos de vida e de esperança, conforme nos pede a Campanha da Fraternidade desse ano.   Paz e bem a todos e todas!


[1] Doutor em Teologia Bíblica pela FAJE-BH. Mestre em Ciências Bíblicas (Exegese) pelo Pontifício Instituto Bíblico de Roma. Professor de exegese bíblica. Membro da Associação Brasileira de Pesquisa Bíblica (ABIB). Sacerdote Franciscano. Autor de dez livros e coautor de quatorze.  Inscreva-se no canal no YouTube: Frei Jacir Bíblia e Apócrifos ou https://www.youtube.com/c/FreiJacirdeFreitasFariaB%C3%ADbliaAp%C3%B3crifos

O gesto supremo

José Antonio Pagola

Jesus contou com a possibilidade de um final violento. Ele não era um ingênuo. Sabia a que se expunha se continuasse insistindo no projeto do reino de Deus. É impossível buscar com tanta radicalidade uma vida digna para os “pobres” e os “pecadores” sem provocar a reação daqueles aos quais não interessa mudança alguma.

Certamente, Jesus não é um suicida. Ele não busca a crucificação. Nunca quis o sofrimento nem para os outros nem para si mesmo. Durante toda a sua vida se dedicara a combatê-lo onde o encontrava: na enfermidade, nas injustiças, no pecado ou no desespero. Por isso, não corre agora atrás da morte, mas também não se acovarda.

Continuará acolhendo pecadores e excluídos, mesmo que sua atuação cause irritação no templo. Se terminam condenando-o, morrerá também ele como um delinquente e excluído, mas sua morte confirmará o que foi sua vida inteira: confiança total num Deus que não exclui ninguém de seu perdão.

Jesus continuará anunciando o amor de Deus aos últimos, identificando-se com os mais pobres e desprezados do império, por mais que esta atitude cause inquietação nos ambientes próximos ao governador romano. Se um dia o executam no suplício da cruz, reservado para escravos, morrerá também ele como um desprezível escravo, mas sua morte selará para sempre sua fidelidade ao Deus defensor das vítimas.

Cheio do amor de Deus, Jesus continuará oferecendo “salvação” aos que sofrem o mal e a enfermidade: dará “acolhida” aos que são excluídos pela sociedade e pela religião; dará o “perdão” gratuito de Deus a pecadores e pessoas perdidas, incapazes de voltar à sua amizade. Esta atitude salvadora, que inspira sua vida inteira, inspirará também sua morte.

Por isso, a cruz tanto nos atrai a nós, cristãos. Beijamos o rosto do Crucificado, levantamos os olhos para ele, escutamos suas últimas palavras … , porque em sua crucificação vemos o serviço último de Jesus ao projeto do Pai e o gesto supremo de Deus entregando seu Filho por amor à humanidade inteira.

Para os seguidores de Jesus, celebrar a paixão e morte do Senhor é agradecimento emocionado, adoração prazerosa do amor “incrível” de Deus e chamado a viver como Jesus, solidarizando-nos com os crucificados.


JOSÉ ANTONIO PAGOLA cursou Teologia e Ciências Bíblicas na Pontifícia Universidade Gregoriana, no Pontifício Instituto Bíblico de Roma e na Escola Bíblica e Arqueológica Francesa de Jerusalém. É autor de diversas obras de teologia, pastoral e cristologia. Atualmente é diretor do Instituto de Teologia e Pastoral de São Sebastião. Este comentário é do livro “O Caminho Aberto por Jesus”, da Editora Vozes.

Messias, Filho do Homem, Filho de Deus

Pe. Johan Konings

A primeira parte do evangelho de Marcos apresenta de maneira velada a obra messiânica de Jesus. Falou-se até de um “segredo messiânico”. Jesus traz o Reino de Deus presente, mas não de modo manifesto; apenas o deixa entrever em sinais de sua autoridade (1, 21; 2,10 etc). Inclusive, os demônios que ele expulsa o reconhecem antes dos próprios discípulos! As parábolas (Mc 4) falam da presença escondida do Reino. Os gestos de Jesus apontam para o Reino (a partilha do pão), mas os discípulos não o entendem (8, 14-21). A abertura dos olhos do cego de Betsaida anuncia uma mudança (8, 22-26). Os discípulos reconhecem Jesus como Messias, mas em categorias humanas, sem entender seu caminho de Servo Sofredor (8, 27-30.31-33). Nos caps. 8 a 10, mediante os anúncios da Paixão e os ensinamentos sobre o seguimento e o serviço, surge uma espécie de compreensão, simbolizada pela abertura dos olhos do cego de Jericó (10, 46-52). Mas Jerusalém continua na ambiguidade. Jesus entra na cidade sentado num burrinho, como o Messias humilde descrito no profeta Zacarias, mas o povo o aclama; como Filho de Davi. Ora, Davi era guerreiro. Será que o povo entendeu que tipo de Messias Jesus realiza? Jesus é mais que um filho de Davi. É o filho querido de Deus (1, 11; 9,7; 15,39) que, em obediência ao incansável amor do Pai, dá sua vida e realiza plenamente a figura do “Servo” descrita em Isaías 53.

A narração da Paixão fornece uma chave para abrir esse segredo. O sumo sacerdote pergunta a Jesus se ele é o Messias, o Filho de Deus. Jesus responde “Sou, sim, e vereis o Filho do Homem sentado à direita do Todo-Poderoso e vindo com as nuvens do céu” (Mc 14, 61). O mundo pergunta se ele é o Filho de Deus e ele responde que é o Filho do Homem… Este Filho do Homem é uma figura que vem da profecia de Daniel (7, 13-14). É o enviado celestial que esmaga as quatro feras que disputam o domínio sobre o mundo. Simboliza o Reino de Deus. O Reino de Deus, que vence os reinos “ferozes” deste mundo, tem rosto humano. Para nós, tem o rosto de Jesus.

Assim, na Paixão de Jesus, Filho do Homem e Filho de Deus significam a mesma coisa. Jesus é o Filho querido de Deus, que une sua vontade à do Pai, para, pelo dom da própria vida, vencer as feras que dominam este mundo e quebrar sua força definitivamente. Ao ser condenado pelo sumo sacerdote de seu povo, ele se proclama portador de uma autoridade: a do Filho do Homem. Quando ele morre na cruz, por causa da justiça e do amor, o representante do mundo universal, o militar romano, exclama: “Este era de fato Filho de Deus”. Ambos os títulos significam o respaldo que Deus dá a Jesus, e que se verificará na gloriosa ressurreição dentre os mortos. Jesus é vencedor pela morte por amor em obediência filial (Filho de Deus), mas também pelo julgamento que derrota o poder deste mundo (Filho do Homem).


PE. JOHAN KONINGS nasceu na Bélgica em 1941, onde se tornou Doutor em Teologia pela Universidade Católica de Lovaina, ligado ao Colégio para a América Latina (Fidei Donum). Veio ao Brasil, como sacerdote diocesano, em 1972. Em 1985 entrou na Companhia de Jesus (Jesuítas) e, desde 1986, atua como professor de exegese bíblica na FAJE, Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia, em Belo Horizonte. Este comentário é do livro “Liturgia Dominical, Editora Vozes.

Reflexão em vídeo de Frei Gustavo Medella