Vida Cristã - Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil - OFM

6º Domingo da Páscoa

Sexto Domingo da Páscoa

Onde permanecer?

 

Frei Gustavo Medella

“Permanecei no meu amor” (Jo 15,9b). Somos todos seres em movimento, viajantes do tempo e do espaço, sempre em busca, em caminho, em evolução. No entanto, todos temos necessidade de um lugar de referência, de um porto seguro onde podemos recobrar as forças e as energias, onde nos sentimos acolhidos e amados. Nossos destinos, metas e direções são importantes, mas tão importantes quanto eles é o nosso lugar de permanência.

Somos errantes e falíveis, nem sempre lúcidos e tantas vezes iludidos. Seguimos por caminhos inseguros e perigosos, mas sempre temos para onde voltar: “Permanecei no meu amor”. Eleger com firmeza a permanência em Deus significa cultivar a humildade do filho pródigo que, mesmo quando acabrunhando pelo fracasso das próprias aventuras, sabe que pode retornar para o amor do Pai.

O mais triste ocorre quando escolhemos mal nosso lugar de permanência e apostamos em falsas seguranças: em nós mesmos, quando incorremos na vaidade; nos bens e no dinheiro, quando cedemos às investidas da ganância e da avareza; em nosso prazer imediato e superficial ou quando traçamos nossos planos a partir da ira e do ódio, nutrindo em nós um destrutivo espírito de vingança.

“Permanecei no meu amor”. Aqui é sempre o melhor lugar, onde temos a chance progredir em nossa vocação mais sublime: a de filhos e filhas amados de Deus. É neste lugar de permanência que encontraremos, mesmo com todas as dificuldades e tropeços, a alegria completa que o Senhor nos promete: “Eu vos disse isso para que minha alegria estivesse em vós, e a vossa alegria seja completa” (Cf. Jo 15,11).


FREI GUSTAVO MEDELLA, OFM, é o atual Vigário Provincial e Secretário para a Evangelização da Província Franciscana da Imaculada Conceição. Fez a profissão solene na Ordem dos Frades Menores em 2010 e foi ordenado presbítero em 2 de julho de 2011.


Imagem ilustrativa de Frei Fábio Melo Vasconcelos

Leituras bíblicas deste domingo

Primeira Leitura: At 10,25-26.34-35.44-48

25Quando Pedro estava para entrar em casa, Cornélio saiu-lhe ao encontro, caiu a seus pés e se prostrou. 26Mas Pedro levantou-o, dizendo: “Levanta-te. Eu também sou apenas um homem”.

34Então Pedro tomou a palavra e disse: “De fato, estou compreendendo que Deus não faz distinção entre as pessoas. 35Pelo contrário, ele aceita quem o teme e pratica a justiça, qualquer que seja a nação a que pertença”.

44Pedro estava ainda falando, quando o Espírito Santo desceu sobre todos os que ouviam a palavra.

45Os fiéis de origem judaica, que tinham vindo com Pedro, ficaram admirados de que o dom do Espírito Santo fosse derramado também sobre os pagãos. 46Pois eles os ouviam falar e louvar a grandeza de Deus em línguas estranhas. Então Pedro falou: 47“Podemos, por acaso, negar a água do batismo a estas pessoas que receberam, como nós, o Espírito Santo?”

48E mandou que fossem batizados em nome de Jesus Cristo. Eles pediram, então, que Pedro ficasse alguns dias com eles.

– Palavra do Senhor.


Responsório: Sl 97

— O Senhor fez conhecer a salvação/ e revelou sua justiça às nações.

— O Senhor fez conhecer a salvação/ e revelou sua justiça às nações.

— Cantai ao Senhor Deus um canto novo,/ porque ele fez prodígios!/ Sua mão e seu braço forte e santo/ alcançaram-lhe a vitória.

— O Senhor fez conhecer a salvação,/ e às nações, sua justiça;/ recordou o seu amor sempre fiel/ pela casa de Israel.

— Os confins do universo contemplaram/ a salvação do nosso Deus./ Aclamai o Senhor Deus, ó terra inteira,/ alegrai-vos e exultai!


Segunda Leitura: 1Jo 4,7-10

Caríssimos: 7Amemo-nos uns aos outros, porque o amor vem de Deus e todo aquele que ama nasceu de Deus e conhece Deus. 8Quem não ama, não chegou a conhecer a Deus, pois Deus é amor.

9Foi assim que o amor de Deus se manifestou entre nós: Deus enviou o seu Filho único ao mundo, para que tenhamos vida por meio dele.

10Nisto consiste o amor: não fomos nós que amamos a Deus, mas foi ele que nos amou e enviou o seu Filho como vítima de reparação pelos nossos pecados.

– Palavra do Senhor.


O fruto do discípulo é o amor
Evangelho: Jo 15,9-17

Assim como meu Pai me amou, eu também amei vocês: permaneçam no meu amor. 10 Se vocês obedecem aos meus mandamentos, permanecerão no meu amor, assim como eu obedeci aos mandamentos do meu Pai e permaneço no seu amor. 11 Eu disse isso a vocês para que minha alegria esteja em vocês, e a alegria de vocês seja completa.

12 O meu mandamento é este: amem-se uns aos outros, assim como eu amei vocês. 13 Não existe amor maior do que dar a vida pelos amigos. 14 Vocês são meus amigos, se fizerem o que eu estou mandando. 15 Eu já não chamo vocês de empregados, pois o empregado não sabe o que seu patrão faz; eu chamo vocês de amigos, porque eu comuniquei a vocês tudo o que ouvi de meu Pai. 16 Não foram vocês que me escolheram, mas fui eu que escolhi vocês. Eu os destinei para ir e dar fruto, e para que o fruto de vocês permaneça. O Pai dará a vocês qualquer coisa que vocês pedirem em meu nome. 17 O que eu mando é isto: amem-se uns aos outros.»

* 7-17: * O fruto que a comunidade é chamada a produzir é o amor. Ora, Jesus não quer uma adesão de servos que obedeçam a um senhor, mas uma adesão livre, de amigos. E a amizade é dom: Jesus é o amigo que dá a vida pelos amigos. A missão da comunidade não nasce da obediência a uma lei, mas do dom livre que participa com alegria da tarefa comum, que é testemunhar o amor de Deus que quer dar vida.

Bíblia Sagrada – Edição Pastoral

Reflexão do exegeta Frei Ludovico Garmus

6º Domingo da Páscoa 

Oração: “Deus todo-poderoso, dai-nos celebrar com fervor estes dias de júbilo em honra do Cristo Ressuscitado, para que nossa vida corresponda sempre aos mistérios que celebramos”.

  1. Primeira leitura: At 10,25-26.34-35.44-48

O dom do Espírito Santo

também foi derramado sobre os pagãos.

Nos Atos dos Apóstolos, Lucas descreve como o Evangelho foi anunciado depois de Pentecostes, primeiro aos judeus (At 2). Depois, o diácono Estêvão começa a pregar o evangelho aos judeus de língua grega e é apedrejado na presença de Paulo (At 6–7). Em seguida, o diácono Filipe prega aos samaritanos, separados do judaísmo oficial, e ao camareiro etíope, um pagão simpatizante do judaísmo (At 8). Domingo passado, Lucas nos falava de Paulo, que antes havia apoiado o apedrejamento de S. Estêvão, mas tornou-se um convertido à fé cristã. Depois que Barnabé o apresentou aos apóstolos, Paulo começou a pregar em Jerusalém aos judeus de língua grega (At 9).

Na leitura de hoje, porém, Lucas quer mostrar que a iniciativa de Paulo, ao pregar o evangelho aos judeus de língua grega e aos pagãos, teve o apoio dos apóstolos e do próprio Pedro, chefe dos apóstolos. Levado pelo Espírito Santo, Pedro começou a pregar a fé em Cristo Ressuscitado aos pagãos. Quando é acolhido pelo comandante romano, Cornélio, Pedro conta-lhe a visão que teve em Jope. Cornélio, por sua vez, explica que o havia chamado para conhecer melhor a Jesus Cristo. Pedro, então, reconhece que “Deus não faz distinção de pessoas”, mas acolhe qualquer pessoa de qualquer nação, que teme a Deus e pratica a justiça. Enquanto Pedro falava, o Espírito Santo desceu sobre todos os ouvintes, assim como havia acontecido no Cenáculo no dia de Pentecostes. Ao ver o fenômeno, os judeu-cristãos que o acompanhavam ficaram perplexos e Pedro mandou que a família toda fosse batizada em nome de Jesus Cristo. Não havia como não serem batizados, pois o próprio Espírito Santo já havia sido derramado sobre eles. O espanto dos acompanhantes foi motivo de crítica em Jerusalém à iniciativa de Pedro, e ele teve que se explicar aos judeu-cristãos de Jerusalém (cf. At 10–11). Lucas dá amplo espaço a esta narrativa, pela importância que o evento teve ao abrir uma nova fase para a difusão do cristianismo entre os pagãos. Com essa nova abertura ao mundo grego, aos poucos vai se concretizando o plano traçado por Jesus Ressuscitado, antes de sua Ascensão ao céu: “Sereis minhas testemunhas em Jerusalém, em toda a Judeia e Samaria, até os confins da terra” (At 1,8). A missão de pregar aos pagãos foi confiada depois pela Igreja ao apóstolo Paulo (cf. At 13,1-3).

Uma Igreja em saída é a novidade que o Espírito Santo nos propõe pelo Papa Francisco.

Salmo responsorial: Sal 97

O Senhor fez conhecer a salvação

e revelou sua justiça às nações.

  1. Segunda leitura: 1Jo 4,7-10

Deus é amor.

A primeira Carta de João, desde o início, é perpassada pelo tema do amor. Também o trecho que acabamos de ouvir é marcado pelo mesmo tema. Em apenas quatro versículos, as palavras “amar” ou “amor” aparecem dez vezes. O próprio Apóstolo João dirige-se aos irmãos de fé com palavras carinhosas, como “filhinhos”, “caríssimos” – isto é, muito amados. A comunhão de amor entre os cristãos expressa a comunhão de amor entre o Pai e seu Filho Jesus Cristo. Somente quando vivemos o amor fraterno entre nós, podemos dizer que conhecemos a Deus e dele nascemos. Assim nos tornamos seus filhos, “pois Deus é amor”. Não fomos nós que tomamos a iniciativa deste diálogo de amor. Foi Deus, a fonte do Amor, quem nos amou por primeiro, “enviando seu Filho único ao mundo para que tenhamos vida por meio dele”. Para receber esta vida o Filho único de Deus entregou sua própria vida por nós, morrendo “pelos nossos pecados”.

Aclamação ao Evangelho

Quem me ama realmente guardará minha palavra,

e meu Pai o amará, e a ele nós viremos.

  1. Evangelho: Jo 15,9-17

Ninguém tem maior amor

do que aquele que dá a vida pelos amigos.

O evangelho que ouvimos é uma explicitação da alegoria da videira e seus ramos, meditada no domingo passado. Antes Jesus dizia: “Permanecei em mim e eu permanecerei em vós”; somente assim poderemos produzir os frutos que Deus de nós espera. Hoje, nos é explicado o que significa este “permanecer” em Cristo e produzir fruto. É a nossa ligação contínua a Cristo e ao Pai pelo amor: “Como meu Pai me amou, assim também eu vos amei. Permanecei no meu amor”. O amor recebido do Pai por meio de Jesus Cristo e simbolizado pela relação agricultor-videira-ramos, não é uma conquista nossa, mas uma livre escolha e dom de Deus, que nos amou primeiro: “Não fostes vós que me escolhestes, mas fui eu que vos escolhi… para que produzais fruto e o vosso fruto permaneça”. Jesus está se despedindo dos discípulos, após a última ceia; por isso podemos pedir o que quisermos e nos será concedido. Jesus, porém, nos deixa o mandamento do amor: “Amai-vos uns aos outros, como eu vos amei”. Esta é a condição para que nossa oração seja atenda.


FREI LUDOVICO GARMUS, OFMé professor de Exegese Bíblica do Instituto Teológico Franciscano de Petrópolis (RJ). Fez mestrado em Sagrada Escritura, em Roma, e doutorado em Teologia Bíblica pelo Studium Biblicum Franciscanum de Jerusalém, do Pontifício Ateneu Antoniano. É diretor industrial da Editora Vozes e editor da Revista “Estudos Bíblicos”, editada pela Vozes. Entre seus trabalhos está a coordenação geral e tradução da Bíblia Sagrada da Vozes.

Egoísmo e amor não convivem

Frei Clarêncio Neotti

O verbo ‘amar’ condiciona todo o evangelho de hoje. A palavra ‘amor’ está no centro do Cristianismo e é o eixo sobre o qual giram todas as virtudes e doutrinas do Novo Testamento. O Reino dos Céus, que Jesus veio implantar, é sinônimo de Reino do Amor. Todas as virtudes lhe servem de alimento e nenhuma subsiste sem ele. Quando São João define Deus como amor (Jo 4,8), está pensando em alguém que enche todos os seres com sua plenitude, sem nada desejar deles, senão uma resposta de amor. Cristo é a concretização tanto do amor do Pai quanto do mais perfeito amor das criaturas. Pedro pôde dizer de Jesus: “Ele passou, fazendo o bem” (At 10,38).

Talvez a palavra ‘amor’ seja das mais pronunciadas em todas as línguas. Penso, no entanto, que a humanidade anda muito carente de amor. Quase diria que há um vazio crescente de amor. Os laços que expressavam amor estão se tornando cada dia mais frágeis e se rompem com facilidade. E não se criam outros. Isso porque temos dado grande espaço aos egoísmos. Egoísmo pessoal e egoísmo de pequenos grupos. Ora, egoísmo e amor não convivem. À medida que nos preocupamos em defender e aumentar nossa propriedade (e isso quase sempre se faz às custas de outros), tornamo-nos mais solitários. O grande problema de hoje é a mudança de uma letra: passar de solitário para solidário, porque a solidariedade provoca e gera amor. Por isso São Paulo disse que Cristo foi solidário com os homens (FI 2,7). Esse solidarismo só se explica pelo amor. É no evangelho de hoje que ele insiste: “Amai-vos uns aos outros como eu vos tenho amado” (v. 12). E não deixa por menos: ele nos amou com o mesmo amor com que o Pai do Céu o amou. O modelo de amor proposto por Jesus é, portanto, o modelo do amor trinitário. A vida terrena de Jesus, as razões de seu nascimento e de sua morte expressam esse amor, e de uma forma compreensível e acessível às criaturas humanas.


FREI CLARÊNCIO NEOTTI, OFMentrou na Ordem Franciscana no dia 23 de dezembro de 1954. Durante 20 anos, trabalhou na Editora Vozes, em Petrópolis. É membro fundador da União dos Editores Franciscanos e vigário paroquial no Santuário do Divino Espírito Santo (ES). Escritor e jornalista, é autor de vários livros e este comentário é do livro “Ministério da Palavra – Comentários aos Evangelhos dominicais e Festivos”, da Editora Santuário.

O insondável mistério do amor

Frei Almir Guimarães

Caminhamos a passos largos e rápidos para o término do tempo pascal. Tempo marcado por aleluias e expressões de júbilo. Sempre a presença calorosa do Ressuscitado. Aquele que deu a vida e a retomou e nos fez dela participantes. Na sucessão dos domingos fomos nos abeirando da Presença do Ressuscitado. Estivemos diante do Pastor que prepara uma mesa para nós diante do inimigo e tomamos consciência de sua seiva, da seiva do tronco que é ele e que nos atinge. Hoje estamos diante do tema do amor, mas não de qualquer amor, mas de seu amor.

“Vivemos numa sociedade onde se foi imponto a “cultura do intercâmbio”. As pessoas intercambiam entre si objetos, serviços e empréstimos. Até sentimos, afeto e amizades. Erich Fromm chegou a dizer que o amor é uma fenômeno marginal na sociedade contemporânea. A pessoa capaz de amar é uma exceção” (Pagola, João, p. 183).

“Quem não ama não chegou a conhecer a Deus, porque Deus é amor”. “Este é o meu mandamento: amai-vos uns aos outros como eu vos amei. Ninguém tem maior amor do que dar a vida pelos seus amigos”

I.
♦ Amor é palavra nobre e belíssima, mas desgastada, usada, abusada, mal empregada, profanada. Amor é saída de si, e deixar de ser o centro, é interessar-se pelo outro para que ele seja, para que o melhor dele venha a tona, para que não sofra, para que tome as melhores decisões no sentido de ser e de ser em plenitude. Deus é amor porque sai de si e vai ao encontro. Nunca nos esquecemos. Ele nos amou por primeiro.

♦ Há muitas modalidades de amor, de bem querer, mas sempre é dom, é gesto gratuito, é manifestação de atenção desinteressada pelo outro.

♦ Há o amor dos esposos que se escolhem, que vivem juntos, que juntos rasgam a história, que vão aprendendo nutrir-se pelas mútuas atenções em todos os momentos.

♦ Há o amor dos irmãos “fratria” que visa ajudar aquele que veio do mesmo útero ser um gigante em termos humanos. O amor tem o doce nome de irmão…irmã.

♦ Há o amor bons modos, cortesia, preocupação pelo bem estar do outro nas coisas mais simples e singelas da vida: ajudar o outro numa tarefa, oferecer-lhe o lugar, evitar olhá-lo com desinteresse.

♦ Há o amor solidariedade através do engajamento nas grandes causas, na reivindicação dos direitos dos sem vez e sem voz, amor por pessoas próximas, vizinhas que precisam de um banho, de uma atenção, de uma presença, de uma sopa quente.

II.
♥ Amar de verdade é amar como Jesus amou. Não se trata apenas de amar o outro como se ama a si mesmo. Amar é dar a vida, dia a dia pelo outro, a começar pelo que está mais perto. Não se trata de um amor qualquer, mas de um dar altruísta, sem visar retorno, gratuito, como o do samaritano e do Pai do pródigo.. Dar a vida por uma causa, em vista da qual a pessoa se dedica com suas entranhas. Nesse sentido, projeta-se diante de nossos olhos a figura de Teresa de Calcutá.

♥ Jesus amou-nos revelando o amor do Pai. Veio do Pai, de uma fornalha de amor, a Trindade, numa eterna doação dos três. Veio para ser imagem do Pai, recolhendo os jogados à beira do caminho, levantando os pecadores, olhando nos olhos de Zaqueu, abrindo as portas do salão da eternidade para o ladrão arrependido.

♥ “Jesus sabe estar perto dos desvalidos. Nem precisam pedir-lhe e ele faz o que pode para curar suas doenças, libertar suas consciências ou transmitir sua confiança em Deus. Mas não pode resolver todos os problemas daquela gente. Então resolve fazer gestos de bondade: abraça as crianças da rua; não quer que ninguém se sinta órfão; abençoa os enfermos; não quer que sintam esquecidos por Deus; acaricia a pele dos leprosos; não quer que sintam excluídos. Assim são os gestos de quem ama como Jesus” (Pagola, João p.225).

♥ Esse amor é derramado em nossos corações de tal sorte não conseguimos mais excluir pessoas, discriminar, mas acreditar que fomos lançamos num movimento de vida que é dar a vida pelos outros. Os cristãos não existem para outra coisa: amar o Senhor escutando as batidas de seu coração e não descansar enquanto pessoas morrem de frio sem amor.

♥ Um detalhe cativante: Jesus não nos chama de servos, mas de amigos. Ah esses amigos que se conhecem, que confiam as coisas do coração, que se encontram. E ele adverte: “Não fostes vós que me escolheste, mas eu que vos escolhi para irdes para que produzais frutos”

Textos para reflexão

“O amor só é preservado enquanto é doado. Uma felicidade que procuramos só, por nós mesmos e para nós mesmos não é felicidade. Uma felicidade que diminui quando repartirmos como outros não é felicidade e não é amor. O amor aumenta quando amor damos” (Thomas Merton).

◊ “Jesus manda que também nós nos disponhamos a nada preferir ao amor dos irmãos, nem a glória, nem as riquezas, e a não hesitarmos, quando nos for pedido, enfrentar a morte para salvar o próximo. Foi isso que fizeram os santos discípulos de nosso Salvador e aqueles que lhes seguiram os passos, antepondo a salvação dos outros à sua própria vida; não fugiram a nenhum sacrifício e não recusara sofrer os mais graves males para salvar as almas em perigo de se perderem” (Cirilo de Alexandria).

◊ “Se a Igreja “está se diluindo” no meio da sociedade contemporânea não é só pela crise profunda das instituições religiosas. No caso do cristianismo é também porque muitas vezes não é fácil ver em nossas comunidades discípulos e discípulas de Jesus que se distingam por sua capacidade de amar como ele amava. Falta-nos o distintivo cristão” (Pagola, João, p. 183).

Amam de verdade
os que desde a infância aprenderam a lição da partilha;
os que estão preocupados em servir e não serem servidos;
os que buscam a Deus não por interesse mas gratuitamente e sempre com esta pergunta nos lábios: “O que queres de mim e de minha vida?”
os que evitam dar preocupações desnecessárias aos outros;
os que procuram fingir que não ouviram uma ofensa e tentam “armar” seu coração para o perdão;
os que vivem unidos na diferença;
os que nunca denigrem seus semelhantes;
os que têm certeza que consertarão os caminhos dos humanos na medida em que lhes devotar um verdadeiro bem querer.


Oração

Senhor, se eu tivesse entranhas de misericórdia
sairia de minha casa para encontrar-me com
os necessitados;
de minha apatia para ajudar os que sofrem;
de minha ignorância para conhecer os ignorados;
de meus caprichos para socorrer os famintos;
de minha atitude crítica para compreender os que falham;
de minha suficiência para estar com os incapazes;
de minhas pressas para dar meu tempo aos abandonados;
de minha preguiça para ajudar os cansados de gritar;
de minha burguesia para compartilhar com os pobres (F. Ulibarri).


FREI ALMIR GUIMARÃES, OFMingressou na Ordem Franciscana em 1958. Estudou catequese e pastoral no Institut Catholique de Paris, a partir de 1966, período em que fez licenciatura em Teologia. Em 1974, voltou a Paris para se doutorar em Teologia. Tem diversas obras sobre espiritualidade, sobretudo na área da Pastoral familiar. É o editor da Revista “Grande Sinal”.

Ao modo de Jesus

osé Antonio Pagola

Jesus está se despedindo de seus discípulos. Ele os amou apaixonadamente, com o mesmo amor que o Pai o amou. Agora tem que deixá-los. Conhece o egoísmo deles. Não sabem amar-se mutuamente. Jesus os vê discutindo entre si para obter os primeiros postos. O que será deles?

As palavras de Jesus adquirem um tom solene. Hão de ficar bem gravadas em todos: “Este é o meu mandamento: que vos ameis uns aos outros como eu vos amei”. Jesus não quer que seu modo de amar desapareça entre os seus. Se um dia o esquecerem, ninguém poderá reconhecê-los como discípulos seus.

De Jesus permaneceu uma lembrança inapagável. As primeiras gerações assim resumiam sua vida: “Passou por toda parte fazendo o bem”. Era bom encontrar-se com Ele, pois buscava sempre o bem das pessoas, ajudava a viver. Sua vida foi uma Boa Notícia. Nele se podia descobrir a boa proximidade de Deus.

Jesus tem um modo de amar inconfundível. É muito sensível ao sofrimento das pessoas. Não pode passar ao largo de quem está sofrendo. Um dia, ao entrar na pequena aldeia de Naim, encontrou-se com um enterro: uma viúva em pranto estava levando seu filho único à sepultura. Do íntimo de Jesus brota seu amor por aquela desconhecida: “Mulher, não chores”. Quem ama como Jesus vive aliviando o sofrimento e secando lágrimas.

Os evangelhos lembram em diversas ocasiões como Jesus captava com seu olhar o sofrimento das pessoas. Olhava-as e se comovia: via-as sofrendo ou abatidas, como ovelhas sem pastor. Rapidamente se punha a curar as pessoas mais enfermas ou a alimentá-las com suas palavras. Quem ama como Jesus, aprende a olhar os rostos das pessoas com compaixão.

É admirável a disponibilidade de Jesus para fazer o bem. Ele não pensa em si mesmo. Está sempre atento a qualquer chamado, disposto a fazer o que pode. A um mendigo cego que lhe pede compaixão enquanto vai passando, Ele o acolhe com estas palavras: “O que queres que faça por ti?” Com esta atitude anda pela vida quem ama como Jesus.

Jesus sabe estar junto dos mais desvalidos. Nem precisam pedir-lhe e Ele faz o que pode para curar suas doenças, libertar suas consciências ou transmitir sua confiança em Deus. Mas não pode resolver todos os problemas daquela gente.

Então se dedica a fazer gestos de bondade: abraça as crianças da rua: não quer que ninguém se sinta órfão; abençoa os enfermos: não quer que se sintam esquecidos por Deus; acaricia a pele dos leprosos: não quer que se vejam excluídos. Assim são os gestos de quem ama como Jesus.


JOSÉ ANTONIO PAGOLA cursou Teologia e Ciências Bíblicas na Pontifícia Universidade Gregoriana, no Pontifício Instituto Bíblico de Roma e na Escola Bíblica e Arqueológica Francesa de Jerusalém. É autor de diversas obras de teologia, pastoral e cristologia. Atualmente é diretor do Instituto de Teologia e Pastoral de São Sebastião. Este comentário é do livro “O Caminho Aberto por Jesus”, da Editora Vozes.

Deus é amor

Pe. Johan Konings

Neste domingo, a liturgia proclama, na 2ª leitura, a palavra do apóstolo João: “Deus é amor”. E o evangelho – continuação de domingo passado – apresenta Deus como a fonte do amor que animou Jesus a dar sua vida por nós, ensinando-nos a amar-nos mutuamente com amor radical.

”Deus é amor” não é uma definição filosófica. É a expressão da mais profunda experiência de Jesus. A experiência de Deus que Jesus teve foi uma experiência de amor. Essa experiência, ele a fez transbordar – sobretudo pelo dom da própria vida – sobre os discípulos, que a proclamaram para a comunidade. “Como meu Pai me ama, assim também eu vos amo. Permanecei no meu amor. […] Este é meu mandamento: amai-vos uns aos outros, assim como eu vos amei” (Jo 15,9.12). Amar é participar do mistério de Deus que se manifesta em Jesus. Amar, recebendo e dando amor. Pois o amor é dom que recebemos do Pai, no Filho, e missão que consiste em partilha-lo com os irmãos. Nisso está nossa alegria (15,11).

Aprofundemos mais esse dom gratuito do amor de Deus por nós. “Ninguém tem amor maior que aquele que dá a vida pelos seus amigos” (15,13). Amigos, não no sentido de parceiros (com interesses comuns, comparsas de máfia…), mas no sentido de amados – amados por serem filhos de Deus. O amor que se tem mostra-se no dom da própria vida. Isso se verifica em Jesus. Nele, “Deus nos amou primeiro”(1Jo 4,10). Não tínhamos nada a lhe oferecer, mas seu amor nos tornou amáveis.

O amor de Cristo por nós existe na comunhão total: Jesus nos revelou o que ele mesmo ouviu do Pai (Jo 15,15): na amizade de Cristo reinam plena clareza e transparência. Nada de manipulação ou de submissão. Assim, quando Jesus nos envia para produzirmos fruto (15,17), isso não é uma carga que ele nos impõe, mas participação na missão que o Pai lhe confiou. Para isso, ele nos escolheu. Em Jesus, o amor de Deus nos escolheu.

Ora, amor é comunhão. Não vem de um lado só. Assim, como o amor de Deus veio até nós em um irmão, Jesus, assim ele frutifica nos irmãos e irmãs que amamos. Deus, fonte inesgotável de amor, não precisa de compensação pessoal por seu amor. Ele se alegra com os frutos que nosso amor produz quando comunicamos o amor em torno de nós (15,8).

Que Deus seja protagonista da criação do universo e da humanidade por amor é questionado hoje. Não é o universo um caos que se organiza através de violentas explosões? Não é a vida animal e humana uma luta de sobrevivência na competição? Este modo de ver está por trás da ideologia neoliberal. Nós respondemos: o amor não é dado, pacificamente, desde o primeiro dia da criação. Ele é a última palavra de Deus, e tem a forma de Jesus, que conheceu o conflito, mas venceu o ódio, sendo fiel até à morte, consequência do amor que ele mostrou e deixou como legado aos seus discípulos.


PE. JOHAN KONINGS nasceu na Bélgica em 1941, onde se tornou Doutor em Teologia pela Universidade Católica de Lovaina, ligado ao Colégio para a América Latina (Fidei Donum). Veio ao Brasil, como sacerdote diocesano, em 1972. Em 1985 entrou na Companhia de Jesus (Jesuítas) e, desde 1986, atua como professor de exegese bíblica na FAJE, Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia, em Belo Horizonte. Este comentário é do livro “Liturgia Dominical, Editora Vozes.

Reflexão em vídeo de Frei Gustavo Medella