Vida Cristã - Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil - OFM

4º Domingo da Quaresma

Quarto Domingo da Quaresma

Os sentimentos do exílio

 

Frei Gustavo Medella

“Que se prenda a minha língua ao céu da boca, se de ti, Jerusalém, eu me esquecer!” (Sl 136).

O canto do exilado é um canto de saudade e de tristeza. É um lamento cheio de recordação, mas também marcado pela esperança de um possível retorno após um processo de aprendizagem realizado a duras penas. Ao modo do Filho Pródigo, espera-se que o exilado volte diferente de quando saiu, para melhor, é claro: mais humilde, mais centrado, mais consciente e com maior capacidade de valorizar o que possui, o lugar onde vive, as pessoas com quem se relaciona.

A pandemia também está sendo uma espécie de exílio. No entanto, em vez de aprender e mudar, muitos de nós estamos preferindo negar, teimar, encarar. O resultado é visível, mas nem o aumento exponencial do número de mortes e as perdas próximas têm sido suficientes para nos direcionar, enquanto sociedade, para um caminho de uma necessária mudança.

Quaresma é tempo propício para a conversão. Sempre temos algo que pode ser mudado para melhor. Que o exílio do novo coronavírus, tão longe ainda de terminar, seja ocasião de nos tornarmos pessoas melhores, se não por nossa disposição, pela graça de Deus, Pai misericordioso que nunca desiste de seus filhos e filhas.


FREI GUSTAVO MEDELLA, OFM, é o atual Vigário Provincial e Secretário para a Evangelização da Província Franciscana da Imaculada Conceição. Fez a profissão solene na Ordem dos Frades Menores em 2010 e foi ordenado presbítero em 2 de julho de 2011.


Imagem ilustrativa de Frei Fábio Melo Vasconcelos

Textos bíblicos para este domingo

Primeira Leitura: 2 Crônicas 36,14-16.19-23

Naqueles dias, 14todos os chefes dos sacerdotes e o povo multiplicaram suas infidelidades, imitando as práticas abomináveis das nações pagãs, e profanaram o templo que o Senhor tinha santificado em Jerusalém. 15Ora, o Senhor Deus de seus pais dirigia-lhes frequentemente a palavra por meio de seus mensageiros, admoestando-os com solicitude todos os dias, porque tinha compaixão do seu povo e da sua própria casa. 16Mas eles zombavam dos enviados de Deus, desprezavam as suas palavras, até que o furor do Senhor se levantou contra o seu povo e não houve mais remédio. 19Os inimigos incendiaram a casa de Deus e deitaram abaixo os muros de Jerusalém, atearam fogo a todas as construções fortificadas e destruíram tudo o que havia de precioso. 20Nabucodonosor levou cativos para a Babilônia todos os que escaparam à espada, e eles tornaram-se escravos do rei e de seus filhos, até que o império passou para o rei dos persas. 21Assim se cumpriu a palavra do Senhor pronunciada pela boca de Jeremias: “Até que a terra tenha desfrutado de seus sábados, ela repousará durante todos os dias da desolação, até que se completem setenta anos”. 22No primeiro ano do reinado de Ciro, rei da Pérsia, para que se cumprisse a palavra do Senhor pronunciada pela boca de Jeremias, o Senhor moveu o espírito de Ciro, rei da Pérsia, que mandou publicar em todo o seu reino, de viva voz e por escrito, a seguinte proclamação: 23“Assim fala Ciro, rei da Pérsia: o Senhor, Deus do céu, deu-me todos os reinos da terra e encarregou-me de lhe construir um templo em Jerusalém, que está no país de Judá. Quem dentre vós todos pertence ao seu povo? Que o Senhor, seu Deus, esteja com ele, e que se ponha a caminho”.

Palavra do Senhor.


Sl136(137)
Que se prenda a minha língua ao céu da boca / se de ti, Jerusalém, eu me esquecer!
Junto aos rios da Babilônia † nos sentávamos chorando, / com saudades de Sião. / Nos salgueiros por ali / penduramos nossas harpas. – R.
Pois foi lá que os opressores / nos pediram nossos cânticos; / nossos guardas exigiam / alegria na tristeza: / “Cantai hoje para nós / algum canto de Sião!” – R.
Como havemos de cantar † os cantares do Senhor / numa terra estrangeira? / Se de ti, Jerusalém, † algum dia eu me esquecer, / que resseque a minha mão! – R.
Que se cole a minha língua † e se prenda ao céu da boca / se de ti não me lembrar! / Se não for Jerusalém / minha grande alegria! – R.


Segunda Leitura: Efésios 2,4-10
Irmãos, 4Deus é rico em misericórdia. Por causa do grande amor com que nos amou, 5quando estávamos mortos por causa das nossas faltas, ele nos deu a vida com Cristo. É por graça que vós sois salvos! 6Deus nos ressuscitou com Cristo e nos fez sentar nos céus em virtude de nossa união com Jesus Cristo. 7Assim, pela bondade, que nos demonstrou em Jesus Cristo, Deus quis mostrar, através dos séculos futuros, a incomparável riqueza da sua graça. 8Com efeito, é pela graça que sois salvos, mediante a fé. E isso não vem de vós; é dom de Deus! 9Não vem das obras, para que ninguém se orgulhe. 10Pois é ele quem nos fez; nós fomos criados em Jesus Cristo para as obras boas, que Deus preparou de antemão para que nós as praticássemos.

Palavra do Senhor.


Jesus provoca decisão
Evangelho: Jo 3,14-21

14 Assim como Moisés levantou a serpente no deserto, do mesmo modo é preciso que o Filho do Homem seja levantado. 15 Assim, todo aquele que nele acreditar, nele terá a vida eterna.» * 16 «Pois Deus amou de tal forma o mundo, que entregou o seu Filho único, para que todo o que nele acredita não morra, mas tenha a vida eterna. 17 De fato, Deus enviou o seu Filho ao mundo, não para condenar o mundo, e sim para que o mundo seja salvo por meio dele. 18 Quem acredita nele, não está condenado; quem não acredita, já está condenado, porque não acreditou no nome do Filho único de Deus.

19 O julgamento é este: a luz veio ao mundo, mas os homens preferiram as trevas à luz, porque suas ações eram más. 20 Quem pratica o mal, tem ódio da luz, e não se aproxima da luz, para que suas ações não sejam desmascaradas. 21 Mas, quem age conforme à verdade, se aproxima da luz, para que suas ações sejam vistas, porque são feitas como Deus quer.»

Notas:

* 9-15: A grande novidade que Deus tem para os homens está em Jesus, que vai revelar na cruz a vida nova. Aí ele demonstra o maior ato de amor: a doação de sua própria vida em favor dos homens.

* 16-21: Deus não quer que os homens se percam, nem sente prazer em condená-los. Ele manifesta todo o seu amor através de Jesus, para salvar e dar a vida a todos. Mas a presença de Jesus é incômoda, pois coloca o mundo dos homens em julgamento, provocando divisão e conflito, e exigindo decisão. De um lado, os que acreditam em Jesus e vivem o amor, continuando a palavra e a ação dele em favor da vida. De outro lado, os que não acreditam nele e não vivem o amor, mas permanecem fechados em seus próprios interesses e egoísmo, que geram opressão e exploração; por isso estes sempre escondem suas verdadeiras intenções: não se aproximam da luz.

Bíblia Sagrada – Edição Pastoral

Reflexão do exegeta Frei Ludovico Garmus

4º Domingo da Quaresma

 Oração: “Ó Deus, que por vosso Filho realizais de modo admirável a reconciliação do gênero humano, concedei ao povo cristão correr ao encontro das festas que se aproximam, cheio de fervor e exultando de fé”.

  1. Primeira leitura: 2Cr 36,14-16.19-23

A ira e a misericórdia do Senhor se manifestam

pelo exílio e a libertação do povo.

A leitura de hoje faz uma reflexão teológica sobre a história do povo de Deus. A infidelidade das autoridades e do povo provocaram a ira divina, causando a destruição de Jerusalém e o exílio. O povo de Israel não deu atenção às advertências dos profetas e foi infiel à aliança com seu Deus. Segundo o Deuteronômio, a observância das leis da aliança traz o bem-estar e a proteção divina. A infidelidade, porém, provoca a desgraça (cf. Dt 28), como de fato ocorreu. Mas Deus quis que no final triunfasse sua misericórdia: Terminado o domínio dos babilônios, que destruíram a Cidade Santa e levaram as lideranças para o exílio, seguiu-se o regime dos persas. O rei Ciro permitiu o retorno dos exilados à Judá e a reconstrução de seu templo. A Bíblia Hebraica termina com a seguinte mensagem de salvação: “Assim fala Ciro, rei da Pérsia: O Senhor, Deus do céu, deu-me todos os reinos da terra, e encarregou-me de lhe construir um templo em Jerusalém, que está no país de Judá. Quem dentre vós todos pertence ao seu povo? Que o Senhor, seu Deus, esteja com ele, e que se ponha a caminho” (36,23).

Salmo responsorial: Sl 136

Que se prenda a minha língua ao céu da boca,

se de ti, Jerusalém, eu me esquecer.

  1. Segunda leitura: Ef 2,4-10

Uma vez mortos para os pecados, pela graça fostes salvos.

No texto que ouvimos Paulo insiste na gratuidade da salvação em Cristo. Nele, Deus nos amou apesar de sermos pecadores. Unidos a Cristo pela fé, Deus nos dá também a vida com Cristo. Como Cristo ressuscitou, pela nossa união com Ele já participamos de certa forma de sua ressurreição. Paulo reafirma que somos salvos pela fé, como dom da graça divina e não pelas obras que praticamos. A salvação é fruto da misericórdia divina, manifestada em Cristo. Por outro lado, Paulo afirma que Deus nos criou em Cristo para praticarmos o bem, para as obras boas que devemos fazer. Como o dono da vinha esperava colher os frutos de sua figueira, Deus espera que produzamos frutos de amor e solidariedade com o próximo. Como cristãos, seguindo o exemplo de Cristo que veio para servir, podemos diminuir a violência e a desigualdade social em nosso país, praticando o bem.

Aclamação ao Evangelho

Louvor e honra a vós, Senhor Jesus.

Tanto Deus amou o mundo, que lhe deu seu Filho único;

Todo aquele que crer nele, há de ter a vida eterna.

  1. Evangelho: Jo 3,14-21

Deus enviou o seu Filho ao mundo

Para que o mundo seja salvo por ele.

No diálogo com o fariseu Nicodemos Jesus recorda um fato ocorrido com Israel, na caminhada pelo deserto. Houve uma praga de serpentes venenosas que picavam os que se revoltaram contra Moisés e contra Deus, de modo que muitos morreram. Moisés suplicou e Deus mandou que fizesse uma serpente de bronze e a colocasse no alto de um poste. E todo aquele que olhasse para a serpente seria salvo da morte. Do mesmo modo, diz Jesus, era necessário que Ele fosse levantado (exaltado) na cruz para que todo aquele que nele crer ganhe a vida eterna.

Para João, o tema da morte de Jesus na Cruz e a consequente exaltação na glória pela sua ressurreição constituem o fundamento de nossa fé. Essa necessidade de ser ”levantado” está ligada ao amor de Deus, que “entrega” o seu Filho Unigênito para a salvação dos homens. Para ser salvo é preciso crer no Filho de Deus, aproximar-se da Luz que veio a este mundo (cf. Jo 1,1-13). Deus não quer condenar a ninguém, mas salvar a todos. A pessoa que não crê em Cristo, odeia a Luz e pratica o mal, é que se condena. Quem crê, aproxima-se de Cristo e pratica as boas obras. No entanto, não são nossas boas obras que nos salvam, e sim a fé em Cristo. As boas obras que praticamos são “realizadas em Deus” e manifestam seu amor neste mundo.


FREI LUDOVICO GARMUS, OFMé professor de Exegese Bíblica do Instituto Teológico Franciscano de Petrópolis (RJ). Fez mestrado em Sagrada Escritura, em Roma, e doutorado em Teologia Bíblica pelo Studium Biblicum Franciscanum de Jerusalém, do Pontifício Ateneu Antoniano. É diretor industrial da Editora Vozes e editor da Revista “Estudos Bíblicos”, editada pela Vozes. Entre seus trabalhos está a coordenação geral e tradução da Bíblia Sagrada da Vozes.

O mundo que Deus ama com amor infinito

Frei Clarêncio Neotti

Nicodemos (apesar de judeu, tem um nome grego, que significa ‘aquele que vence com o povo’) era fariseu, magistrado e membro do Sinédrio. Foi dos poucos da classe alta a reconhecer que na pessoa de Jesus havia alguma coisa a mais que profeta. Mas se manteve sempre com discrição, tanto que foi procurar Jesus de noite, isto é, às escondidas. Terá ocasião de defender Jesus (Jo 7,50-52) e estará presente e ativo no sepultamento de Jesus (Jo 19,39).

“Deus amou o mundo”: no Evangelho de João, a palavra ‘mundo’ toma, sobretudo, dois sentidos, e é preciso ver, cada vez, qual o sentido empregado. Às vezes, os dois estão presentes. ‘Mundo’ pode significar as criaturas em geral, o universo criado. Pode significar também a parte da humanidade invadida pelo mal, que não quer receber a doutrina salvadora de Jesus, que se opõe ao Reino de Deus, especialmente nos grandes momentos da paixão, morte e ressurreição. Nesse último sentido, deve-se entender as frases de Jesus na Última Ceia: “Se fôsseis do mundo, o mundo vos amaria” (Jo 15,18); “Coragem! Eu venci o mundo!” (Jo 16,33); “Dei-lhes a tua palavra, e o mundo os odiou” (Jo 17,14).

No primeiro sentido, deve-se entender a afirmação de hoje: “Deus amou o mundo” (v. 16). Misturando os dois sentidos, tem a frase um pouco mais adiante: “Deus enviou o Filho ao mundo, não para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por ele” (v. 17). Aqui, tanto é o conjunto das criaturas, a humanidade inteira, quanto os pecadores, as ovelhas desgarradas, os corações transviados, os Zaqueus, os Dimas, as Madalenas, os Judas. A condição para todos é a mesma: crer no nome do Filho único de Deus.


FREI CLARÊNCIO NEOTTI, OFMentrou na Ordem Franciscana no dia 23 de dezembro de 1954. Durante 20 anos, trabalhou na Editora Vozes, em Petrópolis. É membro fundador da União dos Editores Franciscanos e vigário paroquial no Santuário do Divino Espírito Santo (ES). Escritor e jornalista, é autor de vários livros e este comentário é do livro “Ministério da Palavra – Comentários aos Evangelhos dominicais e Festivos”, da Editora Santuário.

O Filho do Homem será levantado

Frei Almir Guimarães

Quem age conforme a verdade, aproxima-se da luz para que se manifeste que suas ações que são realizadas em Deus
João 3,21

♦ A vida continua. Continuamos nossa caminhada quaresmal. A liturgia da Igreja interrompe por um momento a austeridade deste tempo e convida-nos à alegria. Atenua até a cor dos paramentos, passando do roxo para o rosáceo. Com isso quer apontar para a alegria da Páscoa que se aproxima. Não podemos nos deter num dolorismo. Não se trata de um convite a uma alegria de eufórica e superficial. Necessitamos do anúncio de uma verdadeira alegria. A razão da alegria é, pois, a vitória do bem contra o mal, da vida sobre a morte. Ele, aquele que morreu na tarde de sexta-feira das dores, vive e está em nosso meio. Esta a razão mais densa e profunda de nossa alegria. “Deu amou tanto o mundo que deu o seu Filho unigênito para que não morra quem nele crê…” A estupenda alegria da fé no Ressuscitado. Ele nos arranca do fracasso de viver. O motivo de nossa alegria é ressurreição do Senhor e a certeza de que somos amados. Jesus, morrendo na cruz, está a perguntar: “Adão onde estás? Homem, onde tu estás? Venho ter contigo.

♦ Não poucas vezes pensamos que a alegria nos vem de um certo bem estar, de poder aproveitar a vida, comprar a tal maquininha, de usar um certo depilador ou de uma nova fórmula para melhorar a performance sexual masculina ou ainda de fazer uma viagem e ver as muralhas da China. Somos invadidos pela propaganda na intimidade de nosso quarto. Ela não para. Interrompe até mesmo um concerto de música clássica. O homem e a mulher consumistas são constrangidos a uma corrida para realizar e satisfazer qualquer desejo, envolvidos numa espiral irrefreável de amor por si próprio que é sempre raiz de violência. Contentam-se com uma sucessão de pequenas felicidades. Esquecem que a única felicidade e dar a vida.

⇒ O evangelho deste domingo é uma conversa de Jesus com Nicodemos, aquele que anteriormente havia procurado Jesus à noite para saber como ingressar no mundo novo do Reino. Jesus fala para ele e para nós:

⇒ O texto lembra um episódio que havia acontecido no passado. Moisés levantara uma serpente de bronze no deserto para curar os que haviam sido mordidos por serpentes. Agora o Filho do Homem será elevado para que quem nele crer tenha a vida, o que acontece na sexta-feira das dores, em toda crueldade e luminosidade. Os soldados haverão de elevar a cruz com o corpo de Jesus nela já imobilizado por pregos. Elevação, sair do chão, de toda banalidade, estar mais perto das Alturas celestes. Mostrar dor e júbilo. Lá do alto, enquanto possível, no meio de dores, ele contempla ainda uma vez o mundo.

⇒ Este domingo nos aponta a direção de uma outra colina em que o mais belo de todos os filhos dos homens fez a oferenda da vida. A cruz levantada no Gólgota é resposta às serpentes de hoje e de sempre, ao desnorteamento e à confusão, ao ódio entre irmãs e irmãos. A cruz plantada no Gólgota é fonte de vida, fonte generosa, gratuita, abundante.

⇒ O sentido da vida (nossa salvação) não podemos nos proporcionar a nós mesmos. A salvação é dada pelo Alto. A presença do mal é persistente. Mal que praticamos e que rompe a ordem do Amor de Deus, desrespeita o divino que há em cada irmão e irmã. Mal tão fundo e tão intenso que não temos condições de extirpar com meia dúzia de bons propósitos. Essa impotência diante do mal pode nos induzir a um pessimismo. O mal nasce da obscuridade profunda do príncipe do mal e de suas obras de morte.

⇒ Aos homens não é pedida a obra da auto-liberação do mal. O que se lhes pede e erguer os olhos para um pouco mais alto, de não permanecerem nas trevas do egocentrismo e acolher uma luz que Deus enviou ao mundo, de não fechar-se ao amor e compreender que o verdadeiro amor de Deus e desce na terra. “A luz veio à terra mas os homens preferiram as trevas”.

Concluindo

Também o apóstolo Paulo, na carta aos efésios, nos lembra a irrupção deste amor: “Deus é rico em misericórdia. Por causa do grande amor com que nos amou quando estávamos mortos por causa de nossas faltas, ele nos deu a vida em Cristo. É por graça que sois salvos! Deus nos ressuscitou com Cristo e nos fez assentar no céus”(2,4). Como não alegrar-nos com estas palavras? A liturgia deste domingo, repleta da alegria do amor de Deus, continua a guiar-nos ao acontecimento da salvação, o mistério pascal da morte e ressurreição do Senhor.


Para reflexão

Ele morre de amar

Jesus morre.
Enquanto houver um sofrimento na terra
e que houver um semblante cavado pela dor,
enquanto houver em algum lugar uma criança que morre e uma mãe enlouquecida dizendo que não pode ser verdade,
enquanto oprimidos, famintos e vidas tortas,
enquanto uma prostitua é presa à noite,
enquanto houver um homem humilhado,
enquanto houver o grito de um homem sendo torturado,
enquanto a morte estiver enfiada como um animal nas dobras do tempo Jesus não cessa de morrer: ele morre de amar.

Jacques Leclerc


FREI ALMIR GUIMARÃES, OFMingressou na Ordem Franciscana em 1958. Estudou catequese e pastoral no Institut Catholique de Paris, a partir de 1966, período em que fez licenciatura em Teologia. Em 1974, voltou a Paris para se doutorar em Teologia. Tem diversas obras sobre espiritualidade, sobretudo na área da Pastoral familiar. É o editor da Revista “Grande Sinal”.

Deus é de todos

José Antonio Pagola

Poucas frases terão sido tão citadas como esta que o Evangelho de João coloca nos lábios de Jesus. Os autores veem nela um resumo do essencial da fé, tal como era vivida entre os poucos cristãos nos começos do século II: “Deus amou tanto o mundo que entregou seu Filho único”.

Deus ama o mundo inteiro, não só aquelas comunidades cristãs às quais chegou a mensagem de Jesus. Deus ama todo gênero humano, não só a Igreja. Deus não é propriedade dos cristãos. Não deve ser monopolizado por nenhuma religião. Não cabe em nenhuma catedral, mesquita ou sinagoga.

Deus habita em todo ser humano acompanhando cada pessoa em suas alegrias e desgraças. Não deixa ninguém abandonado, pois tem seus caminhos para encontrar-se com cada qual, sem que tenha que seguir necessariamente os caminhos que nós lhe indicamos. Jesus o via cada manhã “fazendo surgir o Sol sobre bons e maus”.

Deus não sabe nem quer, nem pode fazer outra coisa senão amar, pois, no mais íntimo de seu ser, Ele é amor. Por isso diz o Evangelho que Ele enviou seu Filho único, não para “condenar o mundo”, mas para que “o mundo se salve por meio dele”. Deus ama o corpo tanto como a alma, e o sexo tanto como a inteligência. O que Ele deseja unicamente é ver já, desde agora e para sempre, a humanidade inteira desfrutando de sua criação.

Este Deus sofre na carne dos famintos e humilhados da Terra; está nos oprimidos defendendo sua dignidade e nos que lutam contra a opressão dando ânimo a seu esforço. Está sempre em nós para “buscar e salvar” o que nós deturpamos e deixamos se perder.

Deus é assim. Nosso maior erro seria esquecê-lo, Mais ainda, fechar-nos em nossos preconceitos, condenações e mediocridade religiosa, impedindo as pessoas de cultivar esta fé primeira e essencial. Para que servem os discursos dos teólogos, dos moralistas, dos pregadores e dos catequistas, se não despertam o louvor ao Criador, se não fazem crescer no mundo a amizade e o amor, se não tornam a vida mais bela e luminosa, lembrando que o mundo está envolto nos quatro lados pelo amor de Deus?


JOSÉ ANTONIO PAGOLA cursou Teologia e Ciências Bíblicas na Pontifícia Universidade Gregoriana, no Pontifício Instituto Bíblico de Roma e na Escola Bíblica e Arqueológica Francesa de Jerusalém. É autor de diversas obras de teologia, pastoral e cristologia. Atualmente é diretor do Instituto de Teologia e Pastoral de São Sebastião. Este comentário é do livro “O Caminho Aberto por Jesus”, da Editora Vozes.

Nossa vida restaurada em Cristo

Pe. Johan Konings

A liturgia de hoje fala de crime e castigo e, sobretudo, de restauração, pois Deus não quer a morte do pecador, e sim, que ele mude de caminho e viva (cf. Ez 18,23.32). A 1ª leitura mostra como os israelitas se afastaram de Deus. Quando, porém, foram exilados de sua terra e levados à Babilônia, entenderam que sua desgraça era um sinal de seu afastamento. Voltaram seu coração para Deus, que os fez voltar à sua terra. Essa história prefigura a volta de todos os seres humanos para Deus, reconduzidos pelo amor que Cristo manifestou.

Os que estávamos mortos pelo pecado, mas acreditamos em Cristo, fomos salvos pela graça recebida na fé: “Pela graça fostes salvos” (2ª leitura). Nossos erros mostram que, por nós mesmos, não somos capazes de trilhar o caminho certo. A única maneira de “voltar” é deixar-nos atrair pela oferta de amizade de Deus. Não nos salvamos pelas nossas obras (no sentido de esforços para “merecer”), mas Deus nos salva para as boas obras que ele preparou para que nós entrássemos nelas: a caridade, a solidariedade… (Ef 2,10). Não são as nossas obras que nos salvam: quem nos salva é Deus. Mas o que fazemos – a nossa prática de vida fraterna e solidária – encarna nossa salvação.

O evangelho expressa ideias semelhantes. É o fim do diálogo de Jesus com Nicodemos, o fariseu. O trecho que lemos hoje inicia com uma lembrança do Êxodo. Deus tinha castigado a rebeldia do povo com a praga das serpentes. Para os livrar da praga, Moisés levantou numa haste, à vista dos israelitas, uma serpente de bronze. Os que levantaram com fé os olhos para este sinal ficaram curados. Assim devemos levantar com fé os olhos para o Cristo elevado na cruz e receber dele a salvação, pois Deus o deu ao mundo para que testemunhasse seu amor até o fim. “Tanto Deus amou o mundo….”(Jo, 3,14-16). A liturgia da Quaresma insiste: o pecado não é irreparável. Para os que crêem, existe volta, conversão, perdão e salvação. Jesus não veio para condenar, mas para salvar. Ele é a luz que penetra nossas trevas. Mas há quem fuja da luz, para não admitir que está agindo de maneira errada. Nesse caso, não há remédio (Jô 3,19-21). Assim como a gente gosta de expor-se ao benfazejo sol da manhã, devemos expor-nos à luz de Cristo. Sua prática deve iluminar nossa vida, para que “pratiquemos a verdade”. Todos somos salvos ou devemos ser salvos pelo amor de Deus que Cristo nos manifesta. Ninguém fabrica sua própria salvação. O auto-suficiente permanece nas trevas, ainda que sua suficiência pareça virtude, como era o caso dos fariseus, aos quais se dirige a advertência do evangelho. Por outro lado, se nos deixarmos iluminar por Cristo, sejamos também uma luz para nossos irmãos. O evangelizado seja também evangelizador.


PE. JOHAN KONINGS nasceu na Bélgica em 1941, onde se tornou Doutor em Teologia pela Universidade Católica de Lovaina, ligado ao Colégio para a América Latina (Fidei Donum). Veio ao Brasil, como sacerdote diocesano, em 1972. Em 1985 entrou na Companhia de Jesus (Jesuítas) e, desde 1986, atua como professor de exegese bíblica na FAJE, Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia, em Belo Horizonte. Este comentário é do livro “Liturgia Dominical, Editora Vozes.

Reflexão em vídeo de Frei Gustavo Medella