Vida Cristã - Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil - OFM

3º Domingo da Páscoa

Terceiro Domingo da Páscoa

Entre o medo e a euforia, Jesus propõe o equilíbrio

 

Frei Gustavo Medella

No Evangelho deste 3º Domingo do Tempo Pascal (Lc 24,35-48), os discípulos experimentam um misto de emoções a partir do encontro com o Ressuscitado. Do medo de um fantasma, passam à euforia da percepção de que de fato o Mestre estava ali diante deles, vivo, presente, próximo. Jesus, no entanto, apresenta-se como aquele capaz de equilibrar todos estes sentimentos, a fim de que a Igreja, comunidade dos discípulos, possa levar adiante a sua missão.

Não há razões para o medo, é verdade, pois no Filho o Pai havia apresentado uma resposta vitoriosa e definitiva da vida sobre a morte. Dificuldades continuariam a existir, mas a fé, a esperança e o amor do Ressuscitado seriam a grande fonte de coragem para que a comunidade pudesse seguir em frente.

Por outro lado, o Senhor também ensina que a vitória da Ressurreição não deve inspirar um caminho de pura euforia que pode levar a um afastamento da realidade. Por este motivo, apresenta no próprio corpo as feridas que sofreu no suplício da cruz, especialmente nas mãos e nos pés. Pede ainda algo para se alimentar, manifestando que permanece como tarefa e desafio para seus seguidores ajudar a humanidade a vencer as “grandes fomes”, materiais e existenciais, que continuam a se abater sobre o povo. A Igreja, inspirada por Cristo, deve ser, portanto, portadora de vida e salvação.


FREI GUSTAVO MEDELLA, OFM, é o atual Vigário Provincial e Secretário para a Evangelização da Província Franciscana da Imaculada Conceição. Fez a profissão solene na Ordem dos Frades Menores em 2010 e foi ordenado presbítero em 2 de julho de 2011.


Imagem ilustrativa de Frei Fábio Melo Vasconcelos

Leituras bíblicas para este domingo

Primeira Leitura: At 3,13-15.17-19

Naqueles dias, Pedro se dirigiu ao povo, dizendo: 13“O Deus de Abraão, de Isaac, de Jacó, o Deus de nossos antepassados glorificou o seu servo Jesus. Vós o entregastes e o rejeitastes diante de Pilatos, que estava decidido a soltá-lo. 14Vós rejeitastes o Santo e o Justo, e pedistes a libertação para um assassino. 15Vós matastes o autor da vida, mas Deus o ressuscitou dos mortos, e disso nós somos testemunhas.

17E agora, meus irmãos, eu sei que vós agistes por ignorância, assim como vossos chefes. 18Deus, porém, cumpriu desse modo o que havia anunciado pela boca de todos os profetas: que o seu Cristo haveria de sofrer. 19Arrependei-vos, portanto, e convertei-vos, para que vossos pecados sejam perdoados”.

– Palavra do Senhor.


Responsório: Sl 4

— Sobre nós fazei brilhar o esplendor de vossa face!

— Sobre nós fazei brilhar o esplendor de vossa face!

— Quando eu chamo, respondei-me, ó meu Deus, minha justiça!/ Vós, que soubestes aliviar-me nos momentos de aflição,/ atendei-me por piedade e escutai minha oração!

— Compreendei que nosso Deus faz maravilhas por seu servo,/ e que o Senhor me ouvirá quando lhe faço a minha prece!

— Muitos há que se perguntam: “Quem nos dá felicidade?”/ Sobre nós fazei brilhar o esplendor de vossa face!

— Eu tranquilo vou deitar-me e na paz logo adormeço,/ pois só vós, ó Senhor Deus, dais segurança à minha vida!


Segunda Leitura: 1Jo 2,1-5a

1Meus filhinhos, escrevo isto para que não pequeis. No entanto, se alguém pecar, temos junto do Pai um Defensor: Jesus Cristo, o Justo. 2Ele é a vítima de expiação pelos nossos pecados, e não só pelos nossos, mas também pelos pecados do mundo inteiro.

3Para saber que o conhecemos, vejamos se guardamos os seus mandamentos. 4Quem diz: “Eu conheço a Deus”, mas não guarda os seus mandamentos, é mentiroso, e a verdade não está nele. 5aNaquele, porém, que guarda a sua palavra, o amor de Deus é plenamente realizado.

– Palavra do Senhor.


“Por que o coração de vocês está cheio de dúvidas?”
Evangelho: Lc 24,35-48

Então os dois contaram o que tinha acontecido no caminho, e como tinham reconhecido Jesus quando ele partiu o pão.

A realidade da ressurreição -* 36 Ainda estavam falando, quando Jesus apareceu no meio deles, e disse: «A paz esteja com vocês.» 37 Espantados e cheios de medo, pensavam estar vendo um espírito. 38 Então Jesus disse: «Por que vocês estão perturbados, e por que o coração de vocês está cheio de dúvidas? 39 Vejam minhas mãos e meus pés: sou eu mesmo. Toquem-me e vejam: um espírito não tem carne e ossos, como vocês podem ver que eu tenho.» 40 E dizendo isso, Jesus mostrou as mãos e os pés. 41 E como eles ainda não estivessem acreditando, por causa da alegria e porque estavam espantados, Jesus disse: «Vocês têm aqui alguma coisa para comer?» 42 Eles ofereceram a Jesus um pedaço de peixe grelhado. 43 Jesus pegou o peixe, e o comeu diante deles.

A missão cristã -* 44 Jesus disse: «São estas as palavras que eu lhes falei, quando ainda estava com vocês: é preciso que se cumpra tudo o que está escrito a meu respeito na Lei de Moisés, nos Profetas e nos Salmos.» 45 Então Jesus abriu a mente deles para entenderem as Escrituras. 46 E continuou: «Assim está escrito: ‘O Messias sofrerá e ressuscitará dos mortos no terceiro dia, 47 e no seu nome serão anunciados a conversão e o perdão dos pecados a todas as nações, começando por Jerusalém’. 48 E vocês são testemunhas disso.

* 36-43: A ressurreição não é fruto da imaginação dos discípulos, nem se reduz a fenômeno puramente espiritual. A ressurreição é fato que atinge o próprio corpo; daí a identidade do ressuscitado com o Jesus terrestre. Qualquer ação humana que traz mais vida para os corpos oprimidos, doentes, torturados, famintos e sedentos, não é apenas obra de misericórdia, mas é sinal concreto do fato central da fé cristã: a ressurreição do próprio Senhor Jesus.

* 44-53: A missão cristã nasce da leitura das Escrituras, onde se percebe o testemunho de Jesus (vida-morte-ressurreição) como seu centro e significado. Essa missão continua no anúncio de Jesus a todos os povos, e provoca a transformação da história a partir da atividade de Jesus voltada para os pobres e oprimidos. A conversão e o perdão supõem percorrer o caminho de Jesus na própria vida e nos caminhos da história. A missão é iluminada pelo Espírito do Pai e de Jesus (a «força que vem do alto»).

Bíblia Sagrada – Edição Pastoral

Reflexão do exegeta Frei Ludovico Garmus

3º Domingo da Páscoa

 Oração: “Ó Deus, que vosso povo sempre exulte pela sua renovação espiritual, para que, tendo recuperado agora com alegria a condição de filhos de Deus, espere com confiança o dia da ressurreição”.

  1. Primeira leitura: At 3,13-15.17-19

Vós matastes o autor da vida,

mas Deus o ressuscitou dos mortos.

Depois que Pedro e João curaram o paralítico, este os acompanhava por toda parte; isso atraiu muita gente para ver o maravilhoso acontecimento (At 3,1-10). Então Pedro tomou a palavra para explicar o acontecido. Não foram eles que o curaram, e sim, Jesus. Este Jesus, que o povo e as autoridades haviam rejeitado diante de Pilatos. Preferiram que lhes soltasse Barrabás, um assassino, e condenasse à morte Jesus, o “Santo e Justo”, o próprio “Autor” ou princípio “da vida”, por meio do qual Deus concede a Israel a conversão e o perdão dos pecados (cf. 5,31). Escolheram um assassino, que tira a vida, e rejeitaram a Jesus, aquele que dá a vida. – Os vários títulos dados a Jesus fazem parte da pregação dos primeiros cristãos. – O mais importante, porém, é o anúncio da ressurreição de Jesus, rejeitado “por ignorância” pelo seu povo. Pedro explica que, assim, Deus quis cumprir o sofrimento do Messias, anunciado pelos profetas. Ao dizer que Jesus foi rejeitado pelo seu povo “por ignorância”, Pedro se coloca no mesmo nível dos que ele acusa. Talvez, se lembrasse que ele próprio no tribunal judaico havia negado conhecer Jesus; no entanto, arrependeu-se e foi perdoado. Experimentou a misericórdia divina e, por isso, exorta os ouvintes: “Arrependei-vos e convertei-vos, para que vossos pecados sejam perdoados”.

No domingo passado (Jo 20,19-31) Jesus perdoou os discípulos que o traíram, negaram e abandonaram; deu-lhes também o Espírito Santo para perdoarem os pecados. Hoje, Pedro coloca-se como pecador perdoado, que anuncia aos seus ouvintes a boa-nova do perdão e da reconciliação.

Salmo responsorial: Sl 4

Sobre nós fazei brilhar o esplendor de vossa face!

  1. Segunda leitura: 1Jo 2,1-5a

Ele é a vítima de expiação pelos nossos pecados,

e também pelos pecados do mundo inteiro.

Com palavras paternais, o autor da Carta exorta os cristãos do final do I século a não pecarem. Sabe que as pessoas podem tornar-se infiéis à primeira conversão, quando abraçaram a fé cristã e receberam o perdão dos pecados. Lembra, contudo, que, se alguém pecar, pode confiar em Jesus Cristo, o intermediário junto ao Pai, e ser novamente perdoado. Mas quem conhece/experimenta a misericórdia do perdão de Deus é convidado a observar os seus mandamentos, de modo especial o mandamento do amor, a fim de que nele se realize o seu amor divino.

Aclamação ao Evangelho

       Senhor Jesus, revelai-nos o sentido da Escritura,

            fazei o nosso coração arder, quando nos falardes.

  1. Evangelho: Lc 24,35-48

Aleluia, Aleluia, Aleluia.

Assim está escrito: o Messias sofrerá

e ressuscitará dos mortos ao terceiro dia.

Lucas fala de três manifestações de Jesus ressuscitado: Na primeira algumas mulheres, que seguiram Jesus desde a Galileia (Lc 23,55-56; 24,1-7), visitam o túmulo e o encontram-no vazio. E dois anjos explicam o que aconteceu: “Ele não está aqui, mas ressuscitou como havia prometido”. Elas não vêem a Jesus. Mesmo assim, comunicam a notícia aos apóstolos, mas eles não acreditam (24,1-12). Depois, Jesus se manifesta a dois discípulos no caminho de Emaús. Quando estes voltam a Jerusalém e comunicam o acontecimento aos onze e aos discípulos reunidos, estes também confirmam o fato: “O Senhor ressuscitou de verdade e apareceu a Simão” (24,13-35). Por fim, no evangelho de hoje (v. 36-48), enquanto os apóstolos ouviam o relato dos discípulos de Emaús, Jesus aparece e os saúda: “A paz esteja convosco!” Mas eles se assustam, pensando ver um fantasma. Para tirar-lhes as dúvidas e confirmar que ressuscitou “de verdade”, Jesus mostra-lhes as mãos e os pés chagados. Como, apesar da alegria e surpresa, alguns ainda duvidassem, Jesus pede-lhes algo para comer e come diante deles (cf. At 10,41). Para crer na ressurreição, não basta um túmulo vazio. Agora eles têm provas que confirmam a identidade do Cristo ressuscitado com Jesus de Nazaré, que conviveu com seus discípulos na vida pública e morreu na cruz. Além dessas provas, o próprio Jesus recorda o que havia dito sobre sua morte e ressurreição e abre-lhes a inteligência para compreenderem o que as Escrituras dele falavam. Por fim, aponta-lhes a futura missão: Como testemunhas qualificadas, deverão anunciar em seu nome a conversão e o perdão dos pecados a todas as nações, começando por Jerusalém (cf. At 1,8).

A fé na ressurreição de Cristo nos convoca a uma vida nova de cristãos reconciliados com Deus e com os irmãos, capacitados a dar testemunho de sua fé por palavras e obras.


FREI LUDOVICO GARMUS, OFMé professor de Exegese Bíblica do Instituto Teológico Franciscano de Petrópolis (RJ). Fez mestrado em Sagrada Escritura, em Roma, e doutorado em Teologia Bíblica pelo Studium Biblicum Franciscanum de Jerusalém, do Pontifício Ateneu Antoniano. É diretor industrial da Editora Vozes e editor da Revista “Estudos Bíblicos”, editada pela Vozes. Entre seus trabalhos está a coordenação geral e tradução da Bíblia Sagrada da Vozes.

Ressurreição, conversão e comportamento humano

Frei Clarêncio Neotti

Aos Apóstolos não foi fácil aceitar a Ressurreição, ainda que Jesus a tivesse predito (Mt 17,9.22; 27,63; Mc 9,30; 10,34; Lc 18,33). Deixaram-se convencer pelas provas e pela graça (“Jesus lhes abriu os olhos da inteligência”, lemos em Lc 24,45) e, ao partirem para a pregação, apresentaram-se sempre como ‘testemunhas da Ressurreição’ (At 2,32). Ao pregarem a Ressurreição, os Apóstolos a uniam ao perdão dos pecados e à conversão. Os profetas prometiam o perdão em nome de Javé, porque só Deus podia perdoar pecados (Mc 2,7). Agora, o perdão é dado em nome de Jesus de Nazaré ressuscitado. No nome de Jesus está a salvação (At 4,12). Os Apóstolos, na sua pregação, vão acentuar que Jesus morreu e ressuscitou para a remissão dos pecados (At 5,31). Jesus mesmo dissera na Última Ceia que seu sangue seria derramado para o perdão dos pecados (Mt 26,28). Em outras palavras: para a santificação de quem crer nele e na sua missão salvadora.

Os Evangelistas acrescentam que o perdão é para todos. Não há povo, não há classe social privilegiada. Entre os quatro Evangelistas, Lucas é quem mais acentua a universalidade da graça de Deus. A condição imposta é para todos a mesma: crer no nome do Senhor Jesus e converter o coração. À fé devem seguir e acompanhar as obras boas, fruto de um coração voltado para Deus. Por isso a fé tem tudo a ver com o comportamento e a justiça social. Já o Apóstolo Tiago observou isso, quando escreveu: “De que aproveitará a alguém dizer que tem fé, se não tiver obras? Poderá a fé salvá-lo? Se o irmão ou a irmã estiverem nus e carentes do alimento cotidiano, e alguém de vós lhes disser: ide em paz, aquecei-vos e fartai-vos, mas não lhes der com que satisfazer à necessidade do corpo, que adiantaria? A fé sozinha, se não tiver obras, será morta” (Tg 2,14-17).


FREI CLARÊNCIO NEOTTI, OFMentrou na Ordem Franciscana no dia 23 de dezembro de 1954. Durante 20 anos, trabalhou na Editora Vozes, em Petrópolis. É membro fundador da União dos Editores Franciscanos e vigário paroquial no Santuário do Divino Espírito Santo (ES). Escritor e jornalista, é autor de vários livros e este comentário é do livro “Ministério da Palavra – Comentários aos Evangelhos dominicais e Festivos”, da Editora Santuário.

O Senhor vive e está no meio de nós

Frei Almir Guimarães

♦ Durante algum tempo somos convidados a aprofundar nossa fé no Ressuscitado. A Igreja vive nele e dele e constantemente celebra sua presença em nosso meio. Sem uma adesão ao Ressuscitado e ao seu Espírito, nossa fé não tem consistência. Somos discípulos do Senhor ressuscitado. Os evangelistas nos dizem que após sua ressureição houve manifestações suas. Muito conhecido o episódio dos discípulos de Emaús. Cleófas e seu companheiro davam as costas a Jerusalém decepcionados com a morte de Jesus. Um peregrino desconhecido passou a acompanhar seus passos rumo ao vilarejo de Emaús. Era Jesus e eles não o reconheceram. O personagem lhes falava de tudo aquilo que o Messias devia sofrer segundo as Escrituras, antes de sua glorificação. A evocação das Escrituras começou a lhes aquecer o coração. Os três entraram na estalagem e os olhos dos discípulos se abriram na fração do pão feita pelo peregrino. Era o Senhor. Lucas, no evangelho há pouco proclamado, lembra que “os dois discípulos contaram o que tinha acontecido no caminho e como tinham reconhecido Jesus ao partir do pão”. A palavra “reconhecer” é fundamental. O Ressuscitado circula em nosso meio atrás de sinais.

♦ Quando estavam falando eis que uma nova aparição acontece. Jesus insiste em colocá-los numa atmosfera de paz: “A paz esteja convosco!” Uma sensação de medo toma conta dos apóstolos. Era ele… Jesus reclama de dúvidas em seus corações. Sinais do corpo de ontem estão nele. Por que ter dúvidas no coração? Este sinal deve levar à fé. O Cristo abriu-lhes a inteligência. Uma claridade invade a mente dos discípulos. Novamente é questão de tocar. Não se trata de um fantasma.

♦ Nesta nova aparição é sempre e ainda questão de tocar as feridas. Jesus podia pedir que tocassem outra parte do corpo. Mas por que quis especificar aquela parte ainda com as marcas das feridas dos pregos? Por que insiste que estas partes devem ser olhadas e tocadas? As feridas em seu corpo, sem dúvida, nos dizem que o Jesus da Páscoa é o mesmo da Sexta-feira santa. As feridas no corpo do Ressuscitado apontam para a realidade da dor e do mal ainda presentes neste mundo. A ressurreição aconteceu mas deve continuar ainda. Foi iniciada com Jesus, cabeça do corpo que é a Igreja e a humanidade inteira, há muitas partes deste corpo único que ainda têm feridas abertas: são os pobres, os doentes, os encarcerados, os torturados, os condenados à morte, os países em guerra, os atingidos pelas desgraças e pela violência.

♦ Estas feridas estão nas pessoas que vivem à nossa volta. Elas estão a pedir que sejam olhadas e tocadas. “Sou eu!”. Os pobres, os fracos não são fantasmas a temer ou deles fugir. São o corpo ferido do Senhor que espera ser tocado para ressurgir. É o pedido, o grito que hoje milhões de desesperados dirigem ao mundo dos sadios e dos ricos: olhem e toquem-nos. Eles são esquecidos e menos ainda tocados: milhões de crianças, viúvas, órfãos que continuam a pedir ajuda. Olhar e tocar são as palavras da ressurreição. Estão jogados à beira da vida. A vitória sobre nossa incredulidade começa com o afetuoso encontro com o corpo ainda ferido de Jesus.

♦ Jesus abriu-lhes a inteligência lembrando das Escrituras. Necessário que os discípulos ouvissem novamente o Evangelho que pudesse lhes tocar o coração. Não basta escutar uma vez ou algumas vezes as Escrituras. O fiel precisa descobrir a alegria de frequentar cada dia as Sagradas Escrituras. Quando se abre uma página de Bíblia é o próprio Deus que nos fala. Os Santos Padres gostavam de dizer que a Escritura é uma carta de amor de Deus aos homens. Como não ler e reler uma tal Carta? Jesus com os dois discípulos de Emaús nada mais fez do que explicar-lhes as Escritura e os dois sentiam o coração aquecido. Cada domingo Jesus volta de novo a nos falar. A partir da Páscoa existe uma escuta que não termina mais. Esta palavra proclamada e pregada é a seiva da vida de todo discípulo e da comunidade Sem ela estaremos sem alimento, sem pão. A carestia seria tremenda não somente para os discípulos como também para o mundo inteiro. Cada domingo, pois, o Senhor nos encontra, abre nossa inteligência para a escuta e aquece nossos corações. Por isso Jesus diz aos discípulos de todos os tempo: “Vós sereis minhas testemunhas”.

Texto para reflexão

Testemunhas da fé no Ressuscitado
A testemunha comunica sua própria experiência. Ela não crê “teoricamente” coisas sobre Jesus; ela crê porque o sente cheio de vida. Não só afirma que a salvação do ser humano está em Cristo; ela própria se sente sustentada, fortalecida e salva por ele. Em Jesus vive algo que é decisivo em sua vida, algo inconfundível que ela não encontra em nenhum outro lugar.

Sua união não é um Ilusão: é algo real que está transformando pouco a pouco sua maneira de ser. Não é uma teoria vaga e etérea: é uma experiência concreta que motiva e impulsiona sua vida. Algo preciso, concreto e vital.

A testemunha comunica o que ela vive. Fala do que lhe aconteceu no caminho. Diz o que viu quando seus olhos se abriram. Oferece sua experiência, não sua sabedoria. Irradia e transmite vida, não doutrina. Não ensina teologia, “faz discípulos” de Jesus.

O mundo de hoje não precisa de mais palavras, teorias e discursos. Precisa mais de vida, esperança, sentido e amor. São necessárias testemunhas, mais que defensores da fé. Crentes que nos possam viver de outra maneira, porque eles próprios estão aprendendo a viver de Jesus.

José Antonio Pagola, “O caminho aberto por Jesus – Lucas”, Vozes , p. 367-368


FREI ALMIR GUIMARÃES, OFMingressou na Ordem Franciscana em 1958. Estudou catequese e pastoral no Institut Catholique de Paris, a partir de 1966, período em que fez licenciatura em Teologia. Em 1974, voltou a Paris para se doutorar em Teologia. Tem diversas obras sobre espiritualidade, sobretudo na área da Pastoral familiar. É o editor da Revista “Grande Sinal”.

Lembrar-se mais de Jesus

José Antonio Pagola

O relato dos discípulos de Emaús nos descreve a experiência vivida por dois seguidores de Jesus enquanto caminham de Jerusalém para a pequena aldeia de Emaús, a cerca de doze quilômetros de distância da capital. O narrador o faz com tal maestria que nos ajuda a reavivar também hoje nossa fé em Cristo ressuscitado.

Dois discípulos de Jesus se afastam de Jerusalém, abandonando o grupo de seguidores que fora se formando em torno dele. Morto Jesus, o grupo vai se desfazendo. Sem Ele não tem sentido continuar reunidos. O sonho se desvaneceu. Ao morrer Jesus, morre também a esperança que Ele havia despertado em seu coração. Não está acontecendo algo disto em nossas comunidades? Não estamos deixando morrer a fé em Jesus?

No entanto, estes discípulos continuam falando de Jesus. Não conseguem esquecê-lo. Comentam o que aconteceu. Procuram descobrir algum sentido para o que viveram junto com Ele. “Enquanto conversam, Jesus se aproxima e se põe a caminhar com eles”. É o primeiro gesto do Ressuscitado. Os discípulos não são capazes de reconhecê-lo, mas Jesus já está presente, caminhando com eles. Não caminha Jesus hoje veladamente junto a tantos crentes que abandonam a Igreja, mas continuam a recordá-lo.

A intenção do narrador é clara: Jesus se aproxima quando os discípulos o recordam e falam dele. Torna-se presente ali onde se comenta seu Evangelho, onde há interesse por sua mensagem, onde se conversa sobre seu estilo de vida e seu projeto. Não está Jesus tão ausente entre nós porque falamos pouco dele?

Jesus está interessado em conversar com eles: “Que conversa é essa que tendes enquanto caminhais?” Ele não se impõe revelando-lhes sua identidade. Pede-lhes que continuem contando sua experiência. Conversando com Jesus, eles irão descobrindo sua cegueira. Seus olhos se abrirão quando, guiados por sua palavra, fizerem um percurso interior. É assim. Se na Igreja falarmos mais de Jesus e conversarmos mais com Ele, nossa fé reviverá.

Os discípulos lhe falam de suas expectativas e decepções; Jesus os ajuda a aprofundar-se na identidade do Messias crucificado. O coração dos discípulos começa a arder: sentem necessidade de que aquele “desconhecido” fique com eles. Ao celebrar a ceia eucarística, seus olhos se abrem e eles o reconhecem: Jesus está com eles, alimentando sua fé!

Nós cristãos precisamos lembrar-nos mais de Jesus: citar suas palavras, comentar seu estilo de vida, aprofundar-nos em seu projeto. Precisamos abrir mais os olhos de nossa fé e descobri-lo cheio de vida em nossas eucaristias. Jesus não está ausente. Ele caminha conosco.


JOSÉ ANTONIO PAGOLA cursou Teologia e Ciências Bíblicas na Pontifícia Universidade Gregoriana, no Pontifício Instituto Bíblico de Roma e na Escola Bíblica e Arqueológica Francesa de Jerusalém. É autor de diversas obras de teologia, pastoral e cristologia. Atualmente é diretor do Instituto de Teologia e Pastoral de São Sebastião. Este comentário é do livro “O Caminho Aberto por Jesus”, da Editora Vozes.

Era preciso que o Cristo padecesse?

Pe. Johan Konings

O sofrimento de Jesus é entendido de muitas maneiras, nem sempre aceitável. Há quem diga que Jesus teve de pagar nossos pecados com seu sangue. Mesmo se é verdade que o sofrimento de Jesus nos resgatou, não é porque Deus exigiu que ele pagasse com seu sangue a nossa dívida. Seria injusto e cruel. Os homens é que “castigaram” Jesus, mas Deus o reabilitou. “Aquele que conduz à vida, vós o matastes, mas Deus o ressuscitou dentre os mortos” (1ª leitura). Era preciso que o Cristo padecesse (evangelho), não porque Deus o desejava, mas porque as pessoas o rejeitaram e o fizeram morrer. Mas Deus quis mostrar publicamente que Jesus, assumindo a morte infligida ao justo, teve razão. É isso que significa a ressurreição. O próprio Ressuscitado cita os discípulos os textos da Escritura que falam nesse sentido (Lc 24,44).

Muitas vezes, a gente só descobre o sentido profundo das coisas depois que aconteceram. Assim também foi preciso primeiro o Cristo morrer e ressuscitar, para que os discípulos descobrissem que nele se realizou o modo de agir de Deus, do qual falam as Escrituras. Muitas vezes o Antigo Testamento fala do justo perseguido ou rejeitado (p. ex., Sl 22, Sl 69; Sb 2), do Servo Sofredor (Is 52, 13-53,12). Esses textos nos ensinam que aquele que quer praticar a justiça segundo a vontade de Deus há de enfrentar perseguição e morte. Ora, esses textos encontraram em Jesus uma realização inesperada e incomparável: aquele que Deus chama seu Filho morre por estar comprometido com o amor e a justiça de Deus. Em frente dessa morte, a ressurreição é a homenagem de Deus a seu Filho. O que foi rebaixado pelos injustos, é reerguido por Deus e mostrado glorioso aos que nele acreditaram. A ressurreição é a prova de que Deus dá razão a Jesus e de que seu amor é mais forte que a morte.

Se Deus dá razão a Jesus, se Deus endossa a prática de vida que Jesus nos ensinou por seu exemplo, já não podemos hesitar em alinhar nossa vida com a sua. Jesus “ressuscitou por nós”, isto é, para nos mostrar que o certo é viver e morrer como ele. Quem, morrendo ou vivendo, dá a vida pelos irmãos, não é um ingênuo; Deus lhe dá razão.

Que significa então: “Ele é a vítima de expiação pelos nossos pecados”(2ª leitura)? À luz do que dissemos acima, esta expressão não significa que Jesus é um sacrifício oferecido para pagar a dívida em nosso lugar, mas que aquilo que os antigos queriam realizar pelas vítimas de expiação – reconciliar-se com Deus – foi realizado de modo muito superior pela vida de justiça que Jesus viveu até à morte por amor. E, na medida em que o seguirmos nessa prática de vida, guardando seu manda mento, o amor de Deus se torna verdade em nós (1 Jo 2,3-5).


PE. JOHAN KONINGS nasceu na Bélgica em 1941, onde se tornou Doutor em Teologia pela Universidade Católica de Lovaina, ligado ao Colégio para a América Latina (Fidei Donum). Veio ao Brasil, como sacerdote diocesano, em 1972. Em 1985 entrou na Companhia de Jesus (Jesuítas) e, desde 1986, atua como professor de exegese bíblica na FAJE, Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia, em Belo Horizonte. Este comentário é do livro “Liturgia Dominical, Editora Vozes.

Reflexão em vídeo de Frei Gustavo Medella