Vida Cristã - Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil - OFM

32º Domingo do Tempo Comum

32º Domingo do Tempo Comum

O desafio de manter o coração abastecido

 

Frei Gustavo Medella

O Projeto da Encarnação se define como um feliz e fundamental encontro entre Deus e o ser humano. A divina generosidade criativa se coloca à disposição e, respeitando a liberdade de cada pessoa, espera com paciência, ao mesmo tempo que “sai à procura dos que a merecem, cheia de bondade” (Sb 6,16). Segundo o texto bíblico (Sb 6,12-16), a Sabedoria (outro nome de Deus) sempre se antecipa, deixando-se encontrar por aqueles que a procuram e doando-se sem reservas àqueles que a desejam.

Da parte do ser humano, espera-se a abertura do coração para receber este imenso presente de amor e proximidade, afinal “quem ficar acordado por causa dela [a Sabedoria], em breve há de viver despreocupado” (Sb 6,15). É a paz interior de quem passa a se sentir participante ativo do encontro feliz que Deus preparou para a plena participação de seus filhos e filhas.

Ficar atento para não perder esta oportunidade única de conferir um sentido pleno à existência é o grande convite que Jesus apresenta no Evangelho, ao contar a Parábola das dez virgens. Manter a reserva de óleo abastecida é abrir o coração para a ação do Espírito Santo de Deus. É deixar que a força transformadora do Senhor ocupe cada fresta de nossos sonhos, projetos e expectativas.

Devemos reconhecer que esta não é tarefa das mais fáceis. Afinal, com frequência teimamos em tomar o espaço de nosso reservatório existencial com preocupações mesquinhas, motivadas pelo medo, pelo egoísmo e por outros condicionamentos que carregamos em nossa finitude. O fechamento da porta, ao qual a parábola se refere, não significa um gesto de indiferença da parte de Deus, mas deseja revelar que, ao respeitar a liberdade humana, o Senhor permite que cada um assuma as consequências de sua reiterada opção de fechar a vida e o coração às graças que Ele incansavelmente oferece.

Por isso, não deixemos nos dominar pelo medo, pois temos a nosso favor um Deus paciente e generoso, sempre capaz de nos perdoar e de nos oferecer uma chance de recomeço. De nossa parte, é suficiente que mantenhamos acesa a chama do amor que, nos tropeços e percalços da vida, sempre é capaz de nos iluminar no caminho da salvação.


FREI GUSTAVO MEDELLA, OFM, é o atual Vigário Provincial e Secretário para a Evangelização da Província Franciscana da Imaculada Conceição. Fez a profissão solene na Ordem dos Frades Menores em 2010 e foi ordenado presbítero em 2 de julho de 2011.


Imagem ilustrativa (Fonte: Canva)

Leituras bíblicas para este domingo

Primeira Leitura: Sb 6,12-16

12A Sabedoria é resplandecente e sempre viçosa. Ela é facilmente contemplada por aqueles que a amam e é encontrada por aqueles que a procuram. 13Ela até se antecipa, dando-se a conhecer aos que a desejam. 14Quem por ela madruga não se cansará, pois a encontrará sentada à sua porta. 15Meditar sobre ela é a perfeição da prudência; e quem ficar acordado por causa dela, em breve há de viver despreocupado.

16Pois ela mesma sai à procura dos que a merecem, cheia de bondade, aparece-lhes nas estradas e vai ao seu encontro em todos os seus projetos.


Salmo Responsorial: Sl 62

— A minh’alma tem sede de vós e vos deseja, ó Senhor!

— Sois vós, ó Senhor, o meu Deus!/ Desde a aurora ansioso vos busco! A minh’alma tem sede de vós,/ minha carne também vos deseja,/ como terra sedenta e sem água!

— Venho, assim, contemplar-vos no templo,/ para ver vossa glória e poder./ Vosso amor vale mais do que a vida:/ e por isso meus lábios vos louvam.

— Quero, pois, vos louvar pela vida,/ e elevar para vós minhas mãos!/ A minh’alma será saciada,/ como em grande banquete de festa;/ cantará a alegria em meus lábios.

— Penso em vós no meu leito, de noite,/ nas vigílias suspiro por vós!/ Para mim fostes sempre um socorro;/ de vossas asas à sombra eu exulto!


Segunda Leitura: 1Ts 4,13-18

13Irmãos: não queremos deixar-vos na incerteza a respeito dos mortos, para que não fiqueis tristes como os outros, que não têm esperança. 14Se Jesus morreu e ressuscitou — e esta é nossa fé — de modo semelhante Deus trará de volta, com Cristo, os que através dele entraram no sono da morte. 15Isto vos declaramos, segundo a palavra do Senhor: nós que formos deixados com vida para a vinda do Senhor, não levaremos vantagem em relação aos que morreram.

16Pois o Senhor mesmo, quando for dada a ordem, à voz do arcanjo e ao som da trombeta, descerá do céu, e os que morreram em Cristo ressuscitarão primeiro. 17Em seguida, nós, que formos deixados com vida, seremos arrebatados com eles nas nuvens, para o encontro com o Senhor, nos ares. E assim estaremos sempre com o Senhor. 18Exortai-vos, pois, uns aos outros, com essas palavras.


Estejam preparados

Evangelho: Mt 25, 1-13

* 1 “Naquele dia, o Reino do Céu será como dez virgens que pegaram suas lâmpadas de óleo, e saíram ao encontro do noivo. 2 Cinco delas não tinham juízo, e as outras cinco eram prudentes. 3 Aquelas sem juízo pegaram suas lâmpadas, mas não levaram óleo consigo. 4 As prudentes, porém, levaram vasilhas com óleo, junto com as lâmpadas. 5 O noivo estava demorando, e todas elas acabaram cochilando e dormiram. 6 No meio da noite, ouviu-se um grito: ‘O noivo está chegando. Saiam ao seu encontro’. 7 Então as dez virgens se levantaram, e prepararam as lâmpadas. 8 Aquelas que eram sem juízo disseram às prudentes: ‘Dêem um pouco de óleo para nós, porque nossas lâmpadas estão se apagando’. 9 As prudentes responderam: ‘De modo nenhum, porque o óleo pode faltar para nós e para vocês. É melhor vocês irem aos vendedores e comprar’. 10 Enquanto elas foram comprar óleo, o noivo chegou, e as que estavam preparadas entraram com ele para a festa de casamento. E a porta se fechou. 11 Por fim, chegaram também as outras virgens, e disseram: ‘Senhor, Senhor, abre a porta para nós’. 12 Ele, porém, respondeu: ‘Eu garanto a vocês que não as conheço’. 13 Portanto, fiquem vigiando, pois vocês não sabem qual será o dia, nem a hora.»

* 25,1-13: Nesta parábola, o noivo é Jesus, que virá no fim da história. As virgens representam as comunidades cristãs, que devem sempre estar preparadas para o encontro com o Senhor, mediante a prática da justiça (o óleo).

Bíblia Sagrada – Edição Pastoral

Reflexões do exegeta Frei Ludovico Garmus

32º Domingo do Tempo Comum

 Oração: “Deus de poder e misericórdia, afastai de nós todo obstáculo para que, inteiramente disponíveis, nos dediquemos ao vosso serviço”.

  1. Primeira leitura Sb 6,12-16

A sabedoria é encontrada por aqueles que a procuram.

Sabedoria é o último livro do Antigo Testamento, escrito no Egito, entre os anos 30 a.C. e 40 d.C. Nos capítulos 6 a 9 o autor personifica a sabedoria, fala dela como se fosse uma pessoa viva e atuante na história de Israel e dos povos. O texto de hoje se dirige aos “reis e juízes dos confins da terra” (Sb 6,1). Na realidade, dirige-se a todas as pessoas que procuram ser sábias e justas. A sabedoria pode ser facilmente contemplada por todos. Ela não é inacessível. Basta amá-la e procurá-la. Ela mesma se antecipa, dando-se a conhecer “por aqueles que a procuram”. Cheia de amor, a sabedoria sai à procura de quem nela pensa e medita. Quem a busca desde a madrugada, vai encontrá-la já sentada à sua porta. É uma atração, uma procura mútua, como a da amada pelo amado, no livro do Cântico dos Cânticos. A sabedoria é o próprio Deus que procura o ser humano e a ele se revela. É o Deus misericordioso que espera ser procurado: “Buscai o Senhor, enquanto se deixa encontrar, invocai-o enquanto está perto” (Is 55,6). E Tiago nos exorta: “Aproximai-vos de Deus e ele se aproximará de vós” (Tg 4,8a; veja o Evangelho). E Paulo identifica a sabedoria com Cristo, “sabedoria de Deus”.

Salmo responsorial: Sl 62

A minha alma tem sede de vós, e vos deseja, ó Senhor.

  1. Segunda leitura: 1Ts 4,13-18

Deus trará de volta, com Cristo,

os que através dele entraram no sono da morte.

O apóstolo Paulo e a comunidade dos cristãos de Tessalônica consideravam a segunda vinda do Senhor muito próxima e a esperavam com fervor. O evento escatológico da manifestação do Senhor, no fim dos tempos (parusia), poderia acontecer enquanto eles estivessem ainda vivos (1Ts 1,10). Por ocasião da morte de algum membro da comunidade pode ter surgido então a pergunta: o que haveria de acontecer no dia da manifestação do Senhor com os cristãos que já falecidos? Para alguns a alegria da esperança da vinda do Senhor era perturbada pela tristeza: os parentes falecidos haveriam de permanecer na morada dos mortos, enquanto eles mesmos haveriam de ressuscitar? Na resposta, Paulo quer reavivar a fé e a esperança na ressurreição, abaladas por esta dúvida. Primeiro Paulo reafirma a fé na ressurreição dos mortos: Se Cristo morreu e ressuscitou, Deus fará ressuscitar com Cristo também os que morreram em Cristo. Mas os que forem deixados em vida para a vinda do Senhor não levarão vantagem em relação aos que morreram. Pois quando o Senhor vier, primeiro ressuscitarão os que morreram em Cristo. Depois, os ainda vivos serão arrebatados, para estarem todos juntos com Cristo ressuscitado. Por fim, Paulo convida a todos os cristãos a se consolarem uns aos outros com essas palavras que lhes escreveu.

Com as palavras de Paulo podemos confortar e animar-nos uns aos outros, feridos pela dor da separação de tantas pessoas queridas, vítimas de epidemias, da violência ou de enfermidades.

Aclamação ao Evangelho

            É preciso vigiar e ficar de prontidão;

            em que dia o Senhor há de vir, não sabeis não.

  1. Evangelho: Mt 25,1-13

O noivo está chagando. Ide ao seu encontro.

Os três últimos domingos do Ano litúrgico ocupam-se com o destino final do ser humano e do universo. A primeira leitura tem em comum com o Evangelho o tema do encontro: encontro com a sabedoria (Sb 6,12-16), isto é, o encontro com Cristo, o Esposo escatológico (Mt 25,6). A parábola das dez virgens nos fala deste encontro escatológico com Cristo Jesus. A mensagem da parábola baseia-se na imagem de uma festa de casamento. Era costume naqueles tempos de o noivo, acompanhado por seus amigos (cf. Jo 3,26-29), dirigir-se até a casa da noiva para buscá-la e introduzi-la como esposa na sua casa. Por sua vez, a noiva, acompanhada pelas suas amigas, aguardava a vinda do noivo para acompanhá-lo, em cortejo com suas amigas, até a nova moradia. As amigas da noiva eram dez “virgens”, isto é, moças solteiras. Todas deviam estar preparadas para receber o noivo e acompanhar a noiva, quando ele viesse. Cansadas de esperar, todas acabaram cochilando. De repente alguém grita: “O noivo está chegando! Ide ao encontro do noivo!” Todas estavam preparadas, mas nem todas estavam prevenidas. Cinco delas eram imprudentes e não trouxeram uma reserva de óleo consigo. As que trouxeram óleo não puderam dividir, porque poderia faltar óleo e todas ficariam no escuro. E recomendaram que as jovens imprudentes que fossem comprar óleo. As jovens prudentes entraram com os noivos e a sala foi fechada. Quando chegaram as jovens imprudentes e bateram na porta pedindo para entrar na sala, o noivo diz: “Não vos conheço”.

O que nos diz a parábola? O importante é o encontro do noivo (Cristo) com a noiva (Israel e os cristãos). O óleo fez a diferença entre as jovens desprevenidas que não trouxeram uma reserva de óleo consigo, e as prevenidas que tinham a sua reserva. Quando o Evangelho de Mateus foi escrito, parte do povo de Israel não acolheu Jesus Cristo, como o Messias esperado e foram excluídos da festa de casamento. Por outro lado, havia cristãos que deixaram de “vigiar” e não estavam preparados para a segunda vinda do Senhor. Daí a conclusão da parábola: “Portanto, ficai vigiando, pois não sabeis qual será o dia, nem a hora”. – Estejamos preparados, “vigiando” com a lâmpada acessa da fé e o óleo das boas obras em nossas mãos, para receber a Jesus Cristo quando Ele vier.


FREI LUDOVICO GARMUS, OFMé professor de Exegese Bíblica do Instituto Teológico Franciscano de Petrópolis (RJ). Fez mestrado em Sagrada Escritura, em Roma, e doutorado em Teologia Bíblica pelo Studium Biblicum Franciscanum de Jerusalém, do Pontifício Ateneu Antoniano. É diretor industrial da Editora Vozes e editor da Revista “Estudos Bíblicos”, editada pela Vozes. Entre seus trabalhos está a coordenação geral e tradução da Bíblia Sagrada da Vozes.

Não se apague a lâmpada da fé

Frei Clarêncio Neotti

O Evangelho nos traz a parábola das dez virgens ou das dez moças. Era costume, na noite de núpcias, o noivo ir buscar a noiva na casa dela e levá-la para a festa nupcial na casa dele. No trajeto eram acompanhados por damas de honra, que levavam archotes para iluminar a estrada pedregosa. Esses archotes eram varas com uma lâmpada a óleo na ponta. Na parábola aconteceu que o noivo atrasou. Com o atraso, o óleo das lâmpadas se consumiu, e cinco das damas de honra ficaram sem luz e não prestaram o serviço prometido aos noivos. Por isso o noivo não as deixou entrar na sala da festa.

Jesus toma a história e a transforma em uma reflexão sobre a entrada ou exclusão do paraíso. A Bíblia costuma comparar o paraíso a uma festa de casamento. Nesse caso, o noivo é o próprio Cristo. As damas de honra são as criaturas humanas. A vida terrena é um caminho difícil, facilitado pela lâmpada da fé, que nos deixa ver os empecilhos. Na Escritura a fidelidade entre a criatura humana e Deus é simbolizada pelas núpcias. Jesus mesmo faz várias vezes essa comparação (Mt 22,1-14).

Jesus compara o Reino dos Céus a uma semente (Mt 13,31), a uma rede de pesca (Mt 13,47), a um dia de trabalho (Mt 20,1), a um tesouro escondido (Mt 13,44), a um banquete (Mt 22,2). Hoje o compara a uma sala de bodas. Todos são convidados. Todos esperam a festa. Todos colaboram na preparação da festa. O ‘bilhete’ de entrada é a fidelidade da espera, a execução do trabalho prometido. Na vivência do Reino, neste mundo, misturam-se a espera vigilante da plenitude do Reino e a fidelidade aos compromissos assumidos.


FREI CLARÊNCIO NEOTTI, OFMentrou na Ordem Franciscana no dia 23 de dezembro de 1954. Durante 20 anos, trabalhou na Editora Vozes, em Petrópolis. É membro fundador da União dos Editores Franciscanos e vigário paroquial no Santuário do Divino Espírito Santo (ES). Escritor e jornalista, é autor de vários livros e este comentário é do livro “Ministério da Palavra – Comentários aos Evangelhos dominicais e Festivos”, da Editora Santuário.

Como o noivo demorou a chegar

Frei Almir Guimarães

Como toda gente, tenho um horror total às esperas nos correios ou nos consultórios e não suporto as filas burocráticas a que nos submetem. Contudo, não cesso de esperar o inesperado.

Edgar Morin

Aos poucos vamos chegando ao fim do ano litúrgico de 2020. Boa parte das celebrações deste ano, quando possível, foram participadas virtualmente, sem o calor da proximidade. Dentro em breve entramos nas plagas do advento. No próximo ano litúrgico seremos acompanhados pela Boa Nova segundo Marcos.

A primeira leitura deste domingo pede que apreciemos e busquemos a sabedoria. O evangelho proclamado nos fala das mocinhas espertas e das outras negligentes e despreocupadas demais. Não tinham o coração iluminado quando o noivo chegou.  Umas foram vigilantes e outras se cansaram de esperar e na hora da festa não tinham mais óleo. Não dava tempo para buscar o que faltava. Faltou-lhe a sabedoria dos vigilantes. Não tiveram acesso à sala de festas. Fracassaram em seu viver? Não tiveram o cuidado de se preparar para as visitas do Senhor que, por vezes, demoram ou acontecem sem hora marcada.

“Essencial para obter a sabedoria é desejá-la: o desejo da sabedoria leva-nos a procura-la e a sabedoria por si vai ao encontro de quem a procura. A sabedoria é luminosa e resplandecente, e brilha sobre quem a deseja e a procura: é a própria procura da sabedoria que faz o sábio. O crente cristão não necessita apenas da fé, mas também da sabedoria. Sabedoria é predispor tudo para o encontro com o Senhor” (Manicardi).

Há a possibilidade de se viver uma fé insípida, tonta, que negligencia o encontro com o Senhor e desperdiça o tempo da vida. Há sábios e tontos.

Como teremos com óleo nas lamparinas? Agir, atuar, ser eficaz nas coisas do Evangelho. Participar de um movimento de humanização da terra.  Criação e alimentação dos vínculos pessoais e comunitários com o Ressuscitado. Projeto de seguimento do Senhor. Iluminar amores e desamores com a luz da fé. Viver a ventura do Amor no lusco fusco da fé. Coragem de caminhar na noite escura da aridez, dos enigmas e das provações. Não se cansar de esperar. Não se deixar sedar com as máquinas modernas e outros entorpecentes que levam ao sono.

Não somos apenas convidados para um banquete de amor e de festa. Somos esposos e esposas do Senhor. Não nutrimos com Deus belo e grande apenas relacionamentos frios e secos. O encontro com o Senhor significa uma aventura de entrega e de amor irrestritos. No fundo está a questão da qualidade do desejo. Sem que o desejo seja alimentado nossa intimidade com o Senhor fica prejudicada. Reduz-se a umas práticas religiosas “salpicadas de água benta”. No dia a dia da vida a espera deverá ser ardorosa e não marcada pelo tédio ou cansaço.

Ardor, desejo… tal não quer dizer vivência “sentimental” da fé, mas numa persistência de viver buscando o Amado também nos momentos de secura ou de aridez espiritual. O que busca esperando ou buscando espera nunca está satisfeito. No domínio de nossa intimidade com o Senhor no regime da fé há um já e um ainda não na esperança do que vem. Na serenidade de nossa vida de fé já estamos na sala de núpcias.


Como manter as lâmpadas acesas?

Visitando o Senhor em nosso interior. Não o deixando abandonado dentro de nós mesmos já que nosso interior é sua casa.

Sempre de novo questionando-nos a nós mesmos: “Senhor o que queres de mim?

Não pensar que já estamos no topo de nossa vida espiritual… tudo apenas começou.

Ter antenas ligadas para as visitas surpresas do Senhor: uma grande alegria, um sofrimento quase insuportável

Recolher os caídos à beira do caminho porque ali pode estar chegando o noivo à nossa intimidade.

Verificar se temos consciência delicada ou nosso coração ficou empedrado.


Oração

Senhor, somos, covardes lerdos…

No entanto, queremos caminhar.

Queremos começar de novo.

Tu irás à frente de nós.

Teu espírito vive em nós e nos guia.

Tu continuas a nos falar e perdoar.

Ensina-nos a trabalhar pelo Reino do Pai.

Dá-nos a graça de seguir-te fielmente. Amém.

(Inspirado em Karl Rahner)


FREI ALMIR GUIMARÃES, OFMingressou na Ordem Franciscana em 1958. Estudou catequese e pastoral no Institut Catholique de Paris, a partir de 1966, período em que fez licenciatura em Teologia. Em 1974, voltou a Paris para se doutorar em Teologia. Tem diversas obras sobre espiritualidade, sobretudo na área da Pastoral familiar. É o editor da Revista “Grande Sinal”.

Esperar Jesus com as lâmpadas acesas

José Antonio Pagola

Entre os primeiros cristãos havia, sem dúvida, discípulos “bons” e discípulos “maus”. Mas, ao escrever seu Evangelho, Mateus se preocupa sobretudo em lembrar que, dentro da comunidade cristã, há discípulos “sensatos” que estão atuando de maneira responsável, e discípulos “tolos” que agem de maneira frívola e descuidada. O que isto quer dizer?

Mateus lembra duas parábolas de Jesus. A primeira é bem clara. Há pessoas que “ouvem as palavras de Jesus” e “as põem em prática”. Tomam a sério o Evangelho e o traduzem em vida. São como o “homem prudente” que constrói sua casa sobre rocha. É o setor mais responsável: os que vão construindo sua vida e a vida da Igreja sobre a verdade de Jesus.

Mas há também aqueles que ouvem as palavras de Jesus e “não as põem em prática”. Estes são tão “tolos” como o homem que “edifica sua casa sobre areia”. Sua vida é um disparate. Se fosse só por eles, o cristianismo seria pura fachada, sem fundamento real em Jesus.

Esta parábola nos ajuda a captar a mensagem fundamental de outro relato no qual um grupo de jovens, cheias de alegria, sai para esperar o noivo, a fim de acompanhá-lo na festa de seu casamento. Desde o começo nos é avisado que umas são “prudentes” e outras “tolas”.

As “prudentes” levam consigo óleo para manter acesas as suas lâmpadas; as “tolas” não pensam em nada disto. O noivo tarda a chegar, mas chega pela meia-noite. As “prudentes” saem com suas lâmpadas a iluminar o caminho, acompanham o noivo e “entram com ele” na festa. As “tolas”, por sua vez, não sabem como resolver seu problema: “suas lâmpadas se apagam”. Assim não podem acompanhar o noivo. Quando chegam é tarde. A porta já esta fechada.

A mensagem é clara e urgente. É uma insensatez continuar escutando o Evangelho sem fazer um esforço maior para convertê-lo em vida: é construir um cristianismo sobre areia. E é um ato néscio ou tolo confessar Jesus Cristo com uma vida apagada, vazia de seu espírito e sua verdade: é esperar Jesus com as “lâmpadas apagadas”. Jesus pode tardar, mas nós não podemos adiar mais a nossa conversão.


JOSÉ ANTONIO PAGOLA cursou Teologia e Ciências Bíblicas na Pontifícia Universidade Gregoriana, no Pontifício Instituto Bíblico de Roma e na Escola Bíblica e Arqueológica Francesa de Jerusalém. É autor de diversas obras de teologia, pastoral e cristologia. Atualmente é diretor do Instituto de Teologia e Pastoral de São Sebastião. Este comentário é do livro “O Caminho Aberto por Jesus”, da Editora Vozes.

A “Parusia”

 Pe. Johan Konings

O fim do ano litúrgico é marcado pelo pensamento do Fim – fim e finalidade da vida e do mundo. Isso coincide com o fim da pregação de Jesus conforme os evangelhos de Mateus, Marcos e Lucas: em todos os três, os últimos diálogos da vida pública de Jesus giram em torno do Fim e do Juízo.

A 1ª leitura nos ensina o que é “vigilância religiosa”: quem levanta cedo encontra a sabedoria de Deus sentada à sua porta… E, no evangelho, Jesus narra a parábola das jovens companheiras da noiva, na noite do casamento: as previdentes levaram óleo para esperarem o cortejo nupcial com as lâmpadas acesas, mas as negligentes se atrapalharam e ficaram sem óleo e sem festa! Quem se prepara para o acontecimento revela a atenção de seu coração; quem vive distraído mostra o contrário. A vigilância atenta é uma forma do amor, amor que nos toma dispostos a encontrar o Cristo em qualquer momento, mesmo se ele demora. A atitude certa diante do Fim esperado é o amor, não o medo.

“Como o noivo demorasse”, diz o evangelho (Mt 25,5). A teologia falou muito na demora da “Parusia”, termo que significava a festiva visita do Rei e, daí, a vinda gloriosa de Jesus. Os primeiros cristãos esperavam a volta de Cristo para breve. Assim, por exemplo, os tessalonicenses (2ª leitura) esperavam a Parusia para já, mas estavam preocupados com o destino dos fiéis que já morreram. Ficariam excluídos? Paulo lhes assegura: os que já faleceram ressuscitarão primeiro, para entrar na glória de Cristo, e depois seguirão os ainda vivos, entre os quais, ele mesmo (v. 17)! O bonito deste texto é o anseio para estar sempre com Cristo, todos unidos.

E nós, hoje, como ficarmos de prontidão, se depois de vinte séculos de espera ele ainda não veio? Geralmente imagina-se a vinda de Cristo exclusivamente como sua volta no fim dos tempos, para julgar o mundo e a história. Mas Jesus vem também em nossa vida, já. Por exemplo, no pobre que nos interpela (como veremos no 34° domingo). Aos pobres, pelos quais Cristo vem a nós, devemos dedicar a mesma atenção “vigilante” que dedicaríamos a Cristo, se ele voltasse hoje.

Mantenhamos, pois, nossas lâmpadas acesas, alimentemos nossa “espiritualidade”, o espírito alerta para o encontro com Cristo. Vivamos cada momento do dia como um possível encontro com Cristo. Façamos de manhã nossa “agenda” com vistas ao encontro com Cristo em nossos irmãos. Quem vamos encontrar? Com que espírito?


PE. JOHAN KONINGS nasceu na Bélgica em 1941, onde se tornou Doutor em Teologia pela Universidade Católica de Lovaina, ligado ao Colégio para a América Latina (Fidei Donum). Veio ao Brasil, como sacerdote diocesano, em 1972. Em 1985 entrou na Companhia de Jesus (Jesuítas) e, desde 1986, atua como professor de exegese bíblica na FAJE, Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia, em Belo Horizonte. Este comentário é do livro “Liturgia Dominical, Editora Vozes.

Reflexão em vídeo de Frei Gustavo Medella