Vida Cristã - Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil - OFM

30º Domingo do Tempo Comum

30º Domingo do Tempo Comum

Digestão e conversão na busca do amor a si mesmo

 

Frei Gustavo Medella

No Evangelho deste 30º Domingo do Tempo Comum, mais uma vez recebe destaque o tema do Amor a Deus, ao próximo e a si mesmo. É o núcleo de prática cristã que Jesus apresenta a partir do próprio testemunho do amor incondicional que o Senhor nutre pela humanidade. São três versículos (Lc 22,37-39) que servem como base da vida e da atuação de todo aquele que se decide pelo seguimento de Cristo. Nesta breve reflexão, gostaria de propor um olhar mais atento sobre a última parte da prescrição apresentada: “… como a ti mesmo”. O que significa propriamente este “amor a si mesmo”?

O amor próprio não pode ser confundido com autopiedade ou autocomplacência, muito menos com a postura egoísta de quem se torna viciado em olhar apenas para o próprio umbigo, defendendo com unhas e dentes os próprios interesses e conveniências. Também não se confunde com uma vaidade alienada daquele que vive se autoincensando e que gasta uma energia imensa para sempre se apresentar como alguém bem-sucedido e sem defeitos. Todas estas manifestações poderiam ser enquadradas como uma espécie de caricatura do chamado amor próprio.

Na perspectiva cristã, portanto, o amor a si mesmo se aproxima de uma postura marcada por duas atitudes complementares: a autoaceitação e o espírito de conversão. A primeira consiste numa atitude grata e positiva diante da própria existência quando, pela fé, a pessoa se descobre amada por Deus do jeito que é, com suas qualidades, dificuldades, alegrias, angústias, tristezas, possíveis condicionamentos, acolhendo com humildade todos os passos da própria história. Mais do que fantasmas a serem expulsos e exorcizados, a autoaceitação faz a pessoa enxergar os próprios defeitos e fragilidades como realidades a serem digeridas e trabalhadas internamente.

E aqui, neste momento, adquire protagonismo a segunda atitude, a conversão. É hora de aproveitar positivamente os nutrientes advindos do “processo digestivo” da autoaceitação. A pergunta de base, neste processo, pode ser: “De que forma minhas características de personalidade, a história que vivi, as dores e alegrias que passei podem me tornar uma pessoa melhor?”. Desta forma, unindo autoaceitação e conversão, o discípulo de Cristo vai crescendo no amor a si mesmo e passa a perceber neste trabalho consigo mesmo elemento fundamental de seu engajamento missionário no testemunho do amor a Deus e ao próximo.


FREI GUSTAVO MEDELLA, OFM, é o atual Vigário Provincial e Secretário para a Evangelização da Província Franciscana da Imaculada Conceição. Fez a profissão solene na Ordem dos Frades Menores em 2010 e foi ordenado presbítero em 2 de julho de 2011.


Imagem ilustrativa de Frei Fábio Melo Vasconcelos