Vida Cristã - Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil - OFM

2º Domingo do Tempo Comum

2º Domingo do Tempo Comum

Discernir sem pressa e com firmeza

 

Frei Gustavo Medella

Qual é o seu lugar no mundo? Você consegue vislumbrar o sentido da sua existência? As perguntas que a Filosofia gera podem provocar inquietação e desconforto e, com frequência, induzir a pessoa a respostas apressadas ou superficiais. No entanto, tais respostas não são dadas de bate-pronto, mas construídas no decorrer da vida, afirmadas e confirmadas no dia a dia, em cada atitude, em cada escolha e em cada ação.

As leituras deste 2º Domingo do Tempo Comum vêm apresentar algumas características deste discernimento vital, tarefa que acompanha o ser humano em todos os momentos da vida. Na Primeira Leitura (1Sm 3,3b-10.19), o jovem Samuel, desde cedo se preparando para o serviço ao Senhor, escuta a voz de Deus a lhe chamar enquanto dormia. Ao ouvir seu próprio nome, o primeiro impulso foi o de se dirigir ao sacerdote Eli, seu orientador. Mais experimentado na vida, Eli ajuda Samuel a entender o significado daquela voz que por quatro vezes distintas se dirige ao jovem. Na primeira e na segunda vez, Eli apenas nega que tenha chamado por Samuel. Na terceira, entende que era algo maior, um chamado do alto, e orienta seu discípulo para que, repetindo-se o episódio, ele se coloque em prontidão diante de Deus: “Fala que teu servo escuta!”. Da parte de ambos, não houve pressa em tentar entender o convite, mas um discernimento paciente e atento dos sinais que, certamente, acompanhariam Samuel em cada passo de sua fecunda caminhada.

No Evangelho (Jo 1,35-42), quando João Batista se refere a Jesus como o “Cordeiro de Deus”, seu testemunho é fidedigno porque abalizado por um percurso consistente de busca da Verdade e da Salvação. Esta autenticidade impressiona e toca o coração dos discípulos que decidem pelo seguimento do “Cordeiro”. João soube encontrar seu lugar na vida e na história. Não desejou reter para si os dons que deveriam estar a serviço de um projeto maior. Esta corrente de disponibilidade e prontidão foi se expandindo, conforme se pode perceber na adesão de André ao chamado e no convite que ele estende a seu irmão, Simão, tornando-se ambos Apóstolos de Cristo.

Para o discípulo, a resposta das grandes questões existenciais não deve ser tarefa que cause medo ou paralisia. Ao contrário, pode e deve ser o motor de uma busca sincera de um seguimento que vai se construindo dia após dia.


FREI GUSTAVO MEDELLA, OFM, é o atual Vigário Provincial e Secretário para a Evangelização da Província Franciscana da Imaculada Conceição. Fez a profissão solene na Ordem dos Frades Menores em 2010 e foi ordenado presbítero em 2 de julho de 2011.


Imagem ilustrativa de Frei Fábio Melo Vasconcelos

Leituras bíblicas deste domingo

Primeira Leitura: 1Sm 3,3b-10.19

Naqueles dias, 3bSamuel estava dormindo no templo do Senhor, onde se encontrava a arca de Deus. 4Então o Senhor chamou: “Samuel, Samuel!” Ele respondeu: “Estou aqui”. 5E correu para junto de Eli e disse: “Tu me chamaste, aqui estou”. Eli respondeu: “Eu não te chamei. Volta a dormir!” E ele foi deitar-se. 6O Senhor chamou de novo: “Samuel, Samuel!” E Samuel levantou-se, foi ter com Eli e disse: “Tu me chamaste, aqui estou”. Ele respondeu: “Não te chamei, meu filho. Volta a dormir!”

7Samuel ainda não conhecia o Senhor, pois, até então, a palavra do Senhor não se lhe tinha manifestado. 😯 Senhor chamou pela terceira vez: “Samuel, Samuel!” Ele levantou-se, foi para junto de Eli e disse: “Tu me chamaste, aqui estou”. Eli compreendeu que era o Senhor que estava chamando o menino. 9Então disse a Samuel: “Volta a deitar-te e, se alguém te chamar, responderás: ‘Senhor, fala, que teu servo escuta!’” E Samuel voltou ao seu lugar para dormir. 10O Senhor veio, pôs-se junto dele e chamou-o como das outras vezes: “Samuel, Samuel!” E ele respondeu: “Fala, que teu servo escuta”. 19Samuel crescia, e o Senhor estava com ele. E não deixava cair por terra nenhuma de suas palavras.


Salmo Responsorial (Sl 39)

— Eu disse: “Eis que venho, Senhor!”/ Com prazer faço a vossa vontade.

— Eu disse: “Eis que venho, Senhor!”/ Com prazer faço a vossa vontade.

— Esperando, esperei no Senhor,/ e, inclinando-se, ouviu meu clamor./ Canto novo ele pôs em meus lábios,/ um poema em louvor ao Senhor.

— Sacrifício e oblação não quisestes,/ mas abristes, Senhor, meus ouvidos;/ não pedistes ofertas nem vítimas,/ holocaustos por nossos pecados.

— E então eu vos disse: “Eis que venho!”/ Sobre mim está escrito no livro:/ “Com prazer faço a vossa vontade,/ guardo em meu coração vossa lei!”

— Boas-novas de vossa justiça/ anunciarei numa grande assembleia;/ vós sabeis: não fechei os meus lábios!


Segunda Leitura: 1Cor 6,13c-15a.17-20

Irmãos: 13cO corpo não é para a imoralidade, mas para o Senhor, e o Senhor é para o corpo; 14e Deus, que ressuscitou o Senhor, nos ressuscitará também a nós, pelo seu poder.

15aPorventura ignorais que vossos corpos são membros de Cristo?

17Quem adere ao Senhor torna-se com ele um só espírito. 18Fugi da imoralidade. Em geral, qualquer pecado que uma pessoa venha a cometer fica fora do seu corpo. Mas o fornicador peca contra seu próprio corpo. 19Ou ignorais que o vosso corpo é santuário do Espírito Santo, que mora em vós e que vos é dado por Deus? E, portanto, ignorais também que vós não pertenceis a vós mesmos? 20De fato, fostes comprados, e por preço muito alto. Então, glorificai a Deus com o vosso corpo.


As testemunhas apontam o Salvador
Evangelho: Jo 1,35-42

* 35 No dia seguinte, João aí estava de novo, com dois discípulos. 36 Vendo Jesus que ia passando, apontou: «Eis aí o Cordeiro de Deus.» 37 Ouvindo essas palavras, os dois discípulos seguiram a Jesus. 38 Jesus virou-se para trás, e vendo que o seguiam, perguntou: «O que é que vocês estão procurando?» Eles disseram: «Rabi (que quer dizer Mestre), onde moras?» 39 Jesus respondeu: «Venham, e vocês verão.» Então eles foram e viram onde Jesus morava. E começaram a viver com ele naquele mesmo dia. Eram mais ou menos quatro horas da tarde.

40 André, irmão de Simão Pedro, era um dos dois que ouviram as palavras de João e seguiram a Jesus. 41 Ele encontrou primeiro o seu próprio irmão Simão, e lhe disse: «Nós encontramos o Messias (que quer dizer Cristo).» 42 Então André apresentou Simão a Jesus. Jesus olhou bem para Simão e disse: «Você é Simão, o filho de João. Você vai se chamar Cefas (que quer dizer Pedra).»

* 35-51: João descreve os sete dias da nova criação. No primeiro dia, João Batista afirma: «No meio de vocês existe alguém que vocês não conhecem.» Nos dias seguintes vemos como João Batista, João, André, Simão, Filipe e Natanael descobrem a Jesus. É sempre uma testemunha que aponta Jesus para outra. O último dia será o casamento em Caná, onde Jesus manifestará a sua glória. «O que vocês estão procurando?» São estas as primeiras palavras de Jesus neste evangelho. Essa pergunta, ele a faz a todos os homens. Nós queremos saber quem é Jesus, e ele nos pergunta sobre o que buscamos na vida.

Os homens que encontraram Jesus começaram a conviver com ele. E no decorrer do tempo vão descobrindo que ele é o Mestre, o Messias, o Filho de Deus. O mesmo acontece conosco: enquanto caminhamos com Cristo, vamos progredindo no conhecimento a respeito dele. João Batista era apenas testemunha de Jesus, a quem tudo se deve dirigir. João sabia disso; por isso convida seus próprios discípulos para que se dirijam a Jesus. E os dois primeiros vão buscar outros. É desse mesmo modo que nós encontramos a Jesus: porque outra pessoa nos falou dele ou nos comprometeu numa tarefa apostólica. Jesus sempre reconhece aqueles que o Pai coloca em seu caminho. Ele reconhece Natanael debaixo da figueira e também Simão, escolhido para ser a primeira Pedra da Igreja. Vereis o céu aberto: No sonho de Jacó, os anjos subiam e desciam por uma escada que ligava a terra ao céu (leia Gn 28,10-22). Doravante é Jesus, o Filho do Homem, a nova ligação entre Deus e os homens.

Bíblia Sagrada – Edição Pastoral

Reflexões do exegeta Frei Ludovico Garmus

2º Domingo do Tempo Comum

Oração: “Deus eterno e todo-poderoso, que governais o céu e a terra, escutai com bondade as preces do vosso povo e dai ao nosso tempo a vossa paz”.

  1. Primeira leitura: 1Sm 3,3b-10.19

Fala, Senhor, que teu servo escuta.

Após a festa do Batismo do Senhor retomamos os domingos do Tempo Comum. A leitura de hoje fala da vocação/missão do profeta Samuel (Evangelho). Seus pais, Elcana e Ana, eram estéreis. Por ocasião de uma visita ao santuário de Javé em Silo, Ana prostra-se diante do Senhor, suplica entre lágrimas e faz uma promessa: Se me deres um filho homem “eu o entregarei ao Senhor por toda a vida”. Deus atendeu sua súplica, e Ana deu à luz a Samuel. Depois de desmamado, Samuel foi entregue aos cuidados do sacerdote Eli, para servir ao Senhor como um futuro sacerdote (1Sm 1,1-28). A primeira leitura de hoje nos fala da vocação de Samuel para ser profeta. Samuel morava com o sacerdote Eli como uma espécie de aprendiz ou “coroinha” do sacerdote. Numa das noites, enquanto dormia perto da arca da aliança, lugar onde Deus se encontrava com seu povo (cf. Ex 29,42-43), Samuel é despertado três vezes por uma voz misteriosa: “Samuel, Samuel”! A cada chamado, o menino ia até o sacerdote Eli, e dizia: “Tu me chamaste, aqui estou”! Mas Samuel não o tinha chamado e mandava Samuel dormir. Na terceira vez, entendendo que era o Senhor que chamava o menino, Eli disse: “Volta a deitar-te e, se alguém te chamar, responderás: Fala, Senhor, que teu servo escuta”! Foi o que Samuel fez. O texto conclui: “Samuel crescia, e o Senhor estava com ele. E não deixava cair por terra nenhuma de suas palavras”. Na resposta de Samuel ele mesmo se define: é um servo que escuta a Deus e escuta os sofrimentos e angústias do povo de Israel. Por isso, “não deixava cair por terra nenhuma de suas palavras”.

Deus tem um plano a respeito de cada um de nós. Descobrir a própria vocação é descobrir o plano divino a nosso respeito. Por isso, precisamos estar sempre atentos à voz de Deus; fazer silêncio a fim de poder ouvi-lo falar.

Salmo responsorial: Sl 39

          Eu disse: “Eis que venho, Senhor”!

            Com prazer faço a vossa vontade.

  1. Segunda leitura: 1Cor 6,13c-15a.17-20

Vossos corpos são membros de Cristo.

Corinto era uma cidade grega localizada no istmo de Corinto, a noroeste do Peloponeso. Sua fundação remonta ao séc. VII a.C. Foi destruída em 146 a.C. pelos romanos e reconstruída também por eles em 44 a.C. Dispunha de dois portos, um no lado oriental voltado para Atenas, no Mar Egeu; outro do lado ocidental, no Mar Adriático, voltado para a Itália. Era uma cidade cosmopolita, famosa pela prática da prostituição, no templo de Afrodite. Os diferentes povos ali presentes possuíam seus santuários e os judeus tinham uma sinagoga. Paulo fundou a comunidade de Corinto e conhecia as tentações a que eram submetidos os pagãos recém convertidos a Cristo. Na exortação que hoje lemos o apóstolo está preocupado em afastar os cristãos da prostituição. Fala a respeito de dois corpos: a Igreja/comunidade que forma um só corpo em Cristo, e o corpo de cada fiel, membro do corpo de Cristo. A palavra corpo ocorre sete vezes nesta exortação. Resumindo: 1. O corpo do cristão é membro do corpo de Cristo e quem se une com uma prostituta ofende o seu corpo e o de Cristo; 2. O corpo é para a ressurreição; 3. O corpo é santuário do Espírito Santo; 4. Recebemos de Deus nosso corpo e com ele devemos glorificá-lo. Em outras palavras, o ser humano é mais do que simplesmente um corpo que tem alma. É morada do Espírito Santo, destinado a glorificar a Deus nesta vida e a participar da glória de Cristo pela ressurreição. Por isso Paulo diz: “Fostes comprados, e por preço muito alto (a morte de Cristo). Então glorificai a Deus com o vosso corpo”.

Aclamação ao Evangelho

        Encontramos o Messias, Jesus Cristo, de graça e verdade ele é pleno;

             de sua imensa riqueza, graças sem fim recebemos.

  1. Evangelho: Jo 1,35-42

Foram ver onde Jesus morava

e permaneceram com ele.

A primeira leitura fala da vocação de Samuel para ser profeta. A segunda leitura trata da vocação do cristão a ser morada do Espírito Santo. O Evangelho fala da vocação dos primeiros discípulos de Jesus, na perspectiva do evangelista João. João Batista dizia: Eu não sou o messias; sou apenas a voz que clama no deserto “endireitai o caminho do Senhor”. João tinha discípulos que o seguiam, porque pensavam que ele era o Messias esperado. No outro dia, depois de ter batizado Jesus, João estava com dois de seus discípulos. Vendo Jesus passar, João lhes disse: “Eis o cordeiro de Deus”. E os dois seguiram a Jesus. Jesus percebeu que o seguiam e lhes perguntou: “O que estais procurando?” Eles responderam: “Mestre, onde moras?” E Jesus respondeu: “Vinde ver”. E os dois discípulos ficaram com Jesus aquele fim de tarde. André era um dos discípulos e logo foi contar a seu irmão Simão Pedro e o apresentou a Jesus. Eis o processo de uma vocação: procurar o messias; ver a Jesus, ouvir o anúncio de João, ouvir a pergunta de quem está sendo procurado, aceitar seu convite e permanecer com Jesus para conhecê-lo melhor. Depois de conhecer a pessoa que se procura, convidar outros a conhecê-la como fez André. Era assim que os cristãos agiam uns 60 anos depois da morte e ressurreição de Jesus.


FREI LUDOVICO GARMUS, OFMé professor de Exegese Bíblica do Instituto Teológico Franciscano de Petrópolis (RJ). Fez mestrado em Sagrada Escritura, em Roma, e doutorado em Teologia Bíblica pelo Studium Biblicum Franciscanum de Jerusalém, do Pontifício Ateneu Antoniano. É diretor industrial da Editora Vozes e editor da Revista “Estudos Bíblicos”, editada pela Vozes. Entre seus trabalhos está a coordenação geral e tradução da Bíblia Sagrada da Vozes.

De João Batista a Jesus Cristo

Frei Clarêncio Neotti

João Batista prepara os caminhos de Jesus. Hoje temos um exemplo. Manda dois de seus discípulos em busca de Jesus, porque era o Cordeiro de Deus, “sobre o qual vira descer o Espírito do céu e permanecer sobre ele” (Jo 1,32). Esta expressão “cordeiro de Deus” cabe bem em Jesus. É a maneira figurada para chamá-lo de Salvador. Lembra o cordeiro pascal, sacrificado como símbolo da libertação concedida por Deus (Êx 12,3-13). Lembra o servo de Javé, aquele que cumpre a vontade de Deus sem fazer resistência, carregando sobre si as dores do povo e é traspassado em expiação dos pecados (ls 53,3-8).

João Batista é coerente com a missão de precursor. Não há concorrência entre ele e Jesus. Pode ter havido algum ciúme entre os seguidores de João e os que iam escutar Jesus e mesmo fazer-se batizar por ele (Jo 3,22-30). Mas João vivia cheio de alegria ao ver a atuação de Jesus (Jo 3,29). João tinha consciência de que preparava caminhos para o Cristo. Por isso, os discípulos dele deverão tornar-se discípulos de Jesus, que tem o poder de “batizar no Espírito Santo por ser o Filho de Deus” (Jo 1,33-34). O Evangelista, propositadamente, faz os primeiros discípulos de Jesus serem seguidores de João Batista. Completam-se os tempos. O Messias chegou (v. 41). E somente ele pode ser o verdadeiro mestre (v. 38), porque tem palavras de vida eterna (Jo 6,39).


FREI CLARÊNCIO NEOTTI, OFMentrou na Ordem Franciscana no dia 23 de dezembro de 1954. Durante 20 anos, trabalhou na Editora Vozes, em Petrópolis. É membro fundador da União dos Editores Franciscanos e vigário paroquial no Santuário do Divino Espírito Santo (ES). Escritor e jornalista, é autor de vários livros e este comentário é do livro “Ministério da Palavra – Comentários aos Evangelhos dominicais e Festivos”, da Editora Santuário.

"O que estais procurando?"

Frei Almir Guimarães

Todos os cristãos, em qualquer lugar e situação em que se encontrem, estão convidados a renovar hoje mesmo o seu encontro pessoal com Jesus Cristo ou, pelo menos, tomar a decisão de se deixar encontrar por ele, de procura-lo dia a dia sem cessar.
Papa Francisco, “A alegria do Evangelho”, n.3

♦ Mais uma vez estamos sendo interpelados pela Palavra. Do Antigo Testamento nos chega a famosa página em que Samuel ouve com os ouvidos do coração o Senhor a lhe falar. Primeiramente, ele pensa ter sido o sacerdote Heli que o interpelava. O chamamento era insistente. Era o Mistério que é Deus o interpelando. Ressoam sempre aos nossos ouvidos a resposta daquele viria ser profeta: “Fala, Senhor, que teu servo escuta!” E tudo vai acrescentado com esse “Eis-me aqui” tão parecido com a resposta de Maria ao mensageiro celeste: “Eis aqui a serva do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra”. Chamamento. Vocação. Apelo que mexe com o interior. Um convite a um modo de viver.

♦ Hoje ouvimos um trecho do evangelista João. João Batista está com seus discípulo e vê Jesus passar. O Batista aponta Jesus como o Cordeiro que tira o pecado do mundo. Jesus percebe que há pessoas que o seguem. “O que estais procurando? Eles respondem: “Onde tu moras?” E Jesus: “Vinde e vede”. Novamente o tema do chamamento ou de uma atração que precisa ser esclarecida. Samuel e os apóstolos são chamados a ver e escutar.

♦ Cada um de nós é um mistério ambulante. Quando tentamos buscar o sentido desses braços e dessas pernas, dessa cabeça e desse coração, desse ser homem e ser mulher, de todas as facetas daquilo que chamamos vida. Estamos tentando responder a um chamamento precisamente a uma vocação. A rosa nasce aos poucos, abre as pétalas, acolhe uma gota de chuva ou brilhante do orvalho, desabrocha e morre. Nós sabemos que vivemos. Ser gente, ser homem, ser mulher, trazer à tona o que há de melhor em nós. Gostar das pessoas, viver com as pessoas, ser para as pessoas com diferentes gradações de dom. Sentimos que não fomos feitos para ser escravos de caprichos, de ilusões, de mentiras, mas seres livres não submetidos àquilo que diminui. Trabalhar na cozinha ou diante de um computador, cultivar a terra ou fazer máscaras para proteger da pandemia, ser capaz de fazer com capricho dentário ou passear no parque empurrando o carrinho de uma pessoa com necessidades especiais. Vocação de ser para…

♦ Lá dentre de nós ouvimos certos apelos e gritos, quando somos sinceros. Depois de termos mais ou menos satisfeitos nossos desejos mesmos lícitos e justos, quem sabe, brote dentro de nós uma sede que não conseguimos saciar. Esse Mistério nos ronda. Se não tivermos deixado nosso interior endurecer demais quem sabe possamos ter saudade do Mistério…

♦ Lá estavam eles. Pescadores no meio da labuta, um tanto curisosos curiosos com interesses novos no coração não muito claros, já escutando o Batista. Jesus passa. Eles o seguem, de alguma forma sugeridos pelo Batista. “O que vocês procuram?, diz Jesus. A tua casa, o teu domicílio, palavras que encham de sentido a nossa vida, buscamos alguma coisa que não sabemos com clareza o que vem a ser.

♦ “Vinde e vede!” “Convivam comigo e vocês vão descobrir”. Muitos de nós dizemos com sinceridade que somos e queremos ser discípulos do Senhor com toda verdade. Necessitamos andar atrás do Mestre, abrir o olhos e ouvidos. Jesus começa a escolher seus futuros enviados. Eles precisavam observar o Mestre.

O que procuramos?

⇒ Não queremos apenas viver por viver. Não é nosso objetivo apenas pertencer a uma igreja. Queremos, de alguma forma, sermos parecidos com Cristo. Nosso semblante tem que ter as luzes do Senhor. Ele tem que poder falar pelo nosso rosto.
Queremos viver uma intimidade com o Pai como Jesus vivia. Temos saudade do silencio onde nossa nudez se coloca diante do Pai, como Jesus fazia tantas vezes. Mistério de intimidade.

⇒ Queremos ser profundamente bons sem discursos, mas numa postura como a de Jesus. Gostaríamos de ser instrumentos de amor. Quem vive à nossa volta poderá dizer: “Eis uma pessoa boa, boa de fato”.

⇒ Queremos que nossas casas sejam mais do que abrigo contra a chuva e as intempéries, mas espaços de encontro, de perdão, de ajuda mútua. Não somos cristãos só de missa e orações.

⇒ Queremos saber que dons recebemos do Altíssimo para o bem do mundo. Não desejamos enterrá-los.


 Textos para reflexão

♦ Quem segue a Jesus começa uma vida diferente

É difícil aproximar-se desse Jesus narrado nos evangelhos, sem sentir-nos atraídos por sua pessoa. Jesus abre um novo horizonte à nossa vida. Ensina a viver a partir de um Deus que quer para nós o melhor. Pouco a pouco ela vai nos libertando de enganos, medos e egoísmos que estão nos bloqueando. Quem se põe a caminho de Jesus começa a recuperar a alegria e a sensibilidade com os que sofrem. Começa a viver com mais verdade e generosidade, com mais sentido e esperança. Quando a pessoa se encontra com Jesus tem a sensação de que começa finalmente a viver a vida a partir de um Deus bom, mais humano, mais amigo e salvador que todas as nossas teorias. Tudo começa a ser diferente.

Pagola, João, p. 45

♦ Vocação

Todo homem, pelo simples fato de estar no mundo, está em estado de “vocação”. Através dos caminhos misteriosos dos acontecimentos humanos mais ordinários e obscuros, Deus o chama à existência por um particular plano de amor. De fato, a vocação, como a existência, é sempre um chamado pessoal. Deus não constrói homens em série, por uma cadeia de montagem comum a todos; não usa a mesma forma para duas pessoas; fala pessoalmente a cada uma.

Missal Dominical da Paulus, p.873

♦ Uma prece

Tudo o que fizeste, Jesus,
é bom;
tudo o que queres
é perfeito.
Minha alma cansada gostaria,
no entanto, de te ver,
de te sentir.
Ela, no entanto, se contenta de crer
que não estás longe,
e que tu sabes tudo.

Paul Ginhac


FREI ALMIR GUIMARÃES, OFMingressou na Ordem Franciscana em 1958. Estudou catequese e pastoral no Institut Catholique de Paris, a partir de 1966, período em que fez licenciatura em Teologia. Em 1974, voltou a Paris para se doutorar em Teologia. Tem diversas obras sobre espiritualidade, sobretudo na área da Pastoral familiar. É o editor da Revista “Grande Sinal”.

O que buscamos em Jesus?

José Antonio Pagola

O evangelista João narra os humildes começos do pequeno grupo de seguidores de Jesus. Seu relato começa de maneira misteriosa. Ele nos diz que Jesus “passava”. Não sabemos de onde Ele vem nem para onde se dirige. Mas não se detém junto ao Batista. Vai mais longe que seu mundo religioso do deserto. Por isso João indica a seus discípulos que se fixem nele: “Este é o Cordeiro de Deus”.

Jesus vem de Deus, não com poder e glória, mas como um cordeiro indefeso e inerme. Nunca se imporá pela força, nem forçará ninguém a crer nele. Um dia será sacrificado numa cruz. Os que querem segui-lo deverão acolhê-lo livremente.

Os dois discípulos que ouviram o Batista começam a seguir a Jesus sem dizer nenhuma palavra. Há algo nele que os atrai, embora ainda não saibam quem Ele é nem para onde os leva. No entanto, para seguir a Jesus não basta escutar o que outros dizem dele. É necessária uma experiência pessoal.

Por isso, Jesus se vira e lhes faz uma pergunta muito importante: “O que buscais?” Estas são as primeiras palavras de Jesus aos que o seguem. Não se pode caminhar seguindo seus passos de qualquer maneira. O que esperamos dele? Por que o seguimos? O que buscamos?

Aqueles homens não sabem aonde pode levá-los a aventura de seguir a Jesus, mas intuem que Ele pode ensinar-lhes algo que ainda não conhecem: “Mestre, onde moras?” Não buscam nele grandes doutrinas. Querem que lhes ensine onde vive, como vive e para quê. Desejam que lhes ensine a viver. Jesus lhes diz: “Vinde e vede”.

Na Igreja e fora dela são muitos os que vivem hoje perdidos no labirinto da vida, sem caminho e sem orientação. Alguns começam a sentir fortemente a necessidade de aprender a viver de maneira diferente, mais humana, mas sadia e mais digna. Encontrar-se com Jesus pode ser para eles a grande notícia.

É difícil aproximar-nos desse Jesus narrado nos evangelhos sem sentir-nos atraídos por sua pessoa. Jesus abre um novo horizonte à nossa vida. Ensina a viver a partir de um Deus que quer para nós o melhor.  Pouco a pouco Ele vai nos libertando de enganos, medos e egoísmos que estão nos bloqueando.

Quem se põe a caminho seguindo a Jesus começa a recuperar a alegria e a sensibilidade para com os que sofrem. Começa a viver com mais verdade e generosidade, com mais sentido e esperança. Quando a pessoa se encontra com Jesus tem a sensação de que começa finalmente a viver a vida a partir de sua raiz, pois começa a viver a partir de um Deus bom, mais humano, mais amigo e salvador que todas as nossas teorias. Tudo começa a ser diferente.


JOSÉ ANTONIO PAGOLA cursou Teologia e Ciências Bíblicas na Pontifícia Universidade Gregoriana, no Pontifício Instituto Bíblico de Roma e na Escola Bíblica e Arqueológica Francesa de Jerusalém. É autor de diversas obras de teologia, pastoral e cristologia. Atualmente é diretor do Instituto de Teologia e Pastoral de São Sebastião. Este comentário é do livro “O Caminho Aberto por Jesus”, da Editora Vozes.

Escutar Deus e seguir Jesus

Pe. Johan Konings

Depois da festa do Batismo do Senhor, que no Brasil substitui o 1º domingo do tempo comum, a liturgia dominical continua logo com o 2º. Mesmo sem querer, essa continuação é muito adequada: Jesus, logo depois de ser batizado por João Batista e tentado no deserto, chamou os primeiros discípulos. Segundo Jo, do qual se extrai o evangelho de hoje, foi dentre os discípulos do Batista que surgiram os primeiros seguidores de Jesus. O próprio Batista incentivou dois de seus discípulos a seguir Jesus, “o Cordeiro que tira o pecado do mundo”. Enquanto se põem a segui-lo, procurando seu paradeiro, Jesus mesmo lhes dirige a palavra: “Que procurais?” – “Mestre, onde moras”, respondeu. E Jesus convida: “Vinde e vede”. Descobrir o Mestre e poder ficar com ele tanto os empolga que um dos dois, André, logo vai chamar seu irmão Pedro para entrar nessa companhia também. E no dia seguinte, Filipe (o outro dos dois?) chama Nataniel a integrar o grupo.

A 1ª leitura aproxima disso o que ocorreu, mil anos antes, ao jovem Samuel, “coroinha” do sacerdote Eli no templo de Silo. Deus o estava chamando, mas ele pensava que fosse o sacerdote. Só na terceira vez, o sacerdote lhe ensinou que quem chamava era Deus mesmo. Então respondeu: “Fala, Senhor, teu servo escuta”.

“Vocação” e um diálogo entre Deus e a gente – geralmente por meio de algum intermediário humano. A pessoa não decide por si mesma como vai servir a Deus. Tem de ouvir, escutar, meditar.Que vocação? Para que serviço Deus ou Jesus nos chamam? Logo se pensa em vocação específica para padre ou para a vida religiosa. Mas antes disso existe a vocação cristã geral, a vocação para os diversos caminhos da vida, conduzida pelo Espírito de Deus, e da qual o Cristo é o portador e dispensador. Essa vocação cristã se realiza no casamento, na vida profissional, na política, na cultura etc. Seja qual for o caminho, importa ver se nele seguimos o chamado de Deus e não algum projeto concebido em função de nossos interesses próprios, às vezes contrários aos de Deus.

O convite de Deus pode ser muito discreto. Talvez esteja escondido em algum fato da vida, na palavra de um amigo… ou de um inimigo! Ou simplesmente nos talentos que Deus nos deu. De nossa parte, haja disposição positiva. Importa estar atento. Os discípulos estavam à procura. Quem não procura pode não perceber o discreto chamamento de Deus. A disponibilidade para a vocação mostra-se na atenção e na concentração. Numa vida dispersiva, a vocação não se percebe. E importa também expressar nossa disponibilidade na oração.: “Senhor, onde moras? Fala, Senhor, teu servo escuta”. Sem a vocação não tem vez.

Finalmente, para que a vocação seja “cristã”, é preciso que Cristo esteja no meio. Há os que confundem vocação com dar satisfação aos pais ou alcançar um posto na poderosa e supostamente segura instituição que é a Igreja. Isso não é vocação de Cristo. Para saber se é realmente Cristo que está chamando, precisamos de muito discernimento, para saber distinguir sua voz nas pessoas e nos fatos através dos quais ele fala.


PE. JOHAN KONINGS nasceu na Bélgica em 1941, onde se tornou Doutor em Teologia pela Universidade Católica de Lovaina, ligado ao Colégio para a América Latina (Fidei Donum). Veio ao Brasil, como sacerdote diocesano, em 1972. Em 1985 entrou na Companhia de Jesus (Jesuítas) e, desde 1986, atua como professor de exegese bíblica na FAJE, Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia, em Belo Horizonte. Este comentário é do livro “Liturgia Dominical, Editora Vozes.

Reflexão em vídeo de Frei Gustavo Medella