Vida Cristã - Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil - OFM

25º Domingo do Tempo Comum

25º Domingo do Tempo Comum

Humildade: caminho de libertação e amadurecimento

 

Frei Gustavo Medella

A Liturgia da Palavra deste final de semana apresenta a humildade como grande caminho de libertação e amadurecimento para o ser humano. É quando a pessoa consegue se livrar de uma série de ambições e expectativas em torno de si própria: de ser a melhor, a mais rica, a mais especial, a mais importante, sempre em comparação ao outro. Quem se liberta deste fardo consegue caminhar mais aliviado, toma consciência de que o amor de Deus por seus filhos e filhas é gratuito e incondicional. E, nesta certeza de ter encontrado um tesouro, trabalha firme para anunciar tal amor, a fim de que ninguém se sinta menos ou menor.

Cultivar e propagar o tesouro da humildade não é fácil, especialmente numa sociedade que aprendeu a reverenciar a acepção de pessoas, a plantar na mente e no coração dos seus que a grande meta de vida é tornar-se premium, VIP, top, excelence, cinco estrelas, o máximo, o melhor; é consumir marcas caríssimas de roupas, relógios, carros e bebidas cujo o preço de um único exemplar pode custar o que nem uma vida inteira de trabalho de quem está na base da pirâmide conseguiria comprar.

Fundamentar a vida nestes valores perecíveis e ilusórios produz um progresso destrutivo incapaz de se autossustentar. Viver nestes moldes produz um cenário de tristeza e dor, conforme alerta São Tiago: “De onde vêm as guerras? De onde vêm as brigas entre vós? Não vêm, justamente, das paixões que estão em conflito dentro de vós?” (Tg 4,1).

Dos cristãos, ao contrário, espera-se uma outra atitude, mais livre e madura. Muito iluminadora é a afirmação de São Máximo de Turim: “Esta é realmente a quintessência do cristianismo: devolver amor por amor e responder com paciência a quem nos ofende”. É o caminho da porta estreita, mas por ele vale a pena seguir.


FREI GUSTAVO MEDELLA, OFM, é o atual Vigário Provincial e Secretário para a Evangelização da Província Franciscana da Imaculada Conceição. Fez a profissão solene na Ordem dos Frades Menores em 2010 e foi ordenado presbítero em 2 de julho de 2011.


Imagem ilustrativa de Frei Fábio Melo Vasconcelos

Leituras bíblicas deste domingo

Primeira Leitura: Sabedoria 2,12.17-20

Os ímpios dizem: 12 “Armemos ciladas ao justo, porque sua presença nos incomoda: ele se opõe ao nosso modo de agir, repreende em nós as transgressões da lei e nos reprova as faltas contra a nossa disciplina. 17 Vejamos, pois, se é verdade o que ele diz e comprovemos o que vai acontecer com ele. 18 Se, de fato, o justo é ‘filho de Deus’, Deus o defenderá e o livrará das mãos dos seus inimigos. 19 Vamos pô-lo à prova com ofensas e torturas, para ver a sua serenidade e provar a sua paciência; 20 vamos condená-lo a morte vergonhosa, porque, de acordo com suas palavras, virá alguém em seu socorro”.
Palavra do Senhor.


Sl 53(54)

É o Senhor quem sustenta minha vida!
Por vosso nome, salvai-me, Senhor; / e dai-me a vossa justiça! / Ó meu Deus, atendei minha prece / e escutai as palavras que eu digo! – R.
Pois contra mim orgulhosos se insurgem, † e violentos perseguem-me a vida: / não há lugar para Deus aos seus olhos. / Quem me protege e me ampara é meu Deus; / é o Senhor quem sustenta minha vida! ­– R.
Quero ofertar-vos o meu sacrifício / de coração e com muita alegria; / quero louvar, ó Senhor, vosso nome, / quero cantar vosso nome, que é bom! – R.


Segunda Leitura: Tiago 3,16-4,3

Caríssimos, 16 onde há inveja e rivalidade, aí estão as desordens e toda espécie de obras más. 17 Por outra parte, a sabedoria que vem do alto é, antes de tudo, pura, depois pacífica, modesta, conciliadora, cheia de misericórdia e de bons frutos, sem parcialidade e sem fingimento. 18 O fruto da justiça é semeado na paz, para aqueles que promovem a paz. 4,1 De onde vêm as guerras? De onde vêm as brigas entre vós? Não vêm, justamente, das paixões que estão em conflito dentro de vós? 2 Cobiçais, mas não conseguis ter. Matais e cultivais inveja, mas não conseguis êxito. Brigais e fazeis guerra, mas não conseguis possuir. E a razão está em que não pedis. 3 Pedis, sim, mas não recebeis, porque pedis mal. Pois só quereis esbanjar o pedido nos vossos prazeres.
Palavra do Senhor.


Quem é o maior?
Evangelho: Mc 9,30-37

-* 30 Partindo daí Jesus e seus discípulos atravessavam a Galiléia. Jesus não queria que ninguém soubesse onde ele estava, 31 porque estava ensinando seus discípulos. E dizia-lhes: «O Filho do Homem vai ser entregue na mão dos homens, e eles o matarão. Mas, quando estiver morto, depois de três dias ele ressuscitará.» 32 Mas os discípulos não compreendiam o que Jesus estava dizendo, e tinham medo de fazer perguntas.

33 Quando chegaram à cidade de Cafarnaum e estavam em casa, Jesus perguntou aos discípulos: «Sobre o que vocês estavam discutindo no caminho?» 34 Os discípulos ficaram calados, pois no caminho tinham discutido sobre qual deles era o maior. 35 Então Jesus se sentou, chamou os Doze e disse: «Se alguém quer ser o primeiro, deverá ser o último, e ser aquele que serve a todos.» 36 Depois Jesus pegou uma criança e colocou-a no meio deles. Abraçou a criança e disse: 37 «Quem receber em meu nome uma destas crianças, estará recebendo a mim. E quem me receber, não estará recebendo a mim, mas àquele que me enviou.»

* 30-37: Os discípulos não compreendem as conseqüências que a ação de Jesus vai provocar, pois ainda concebem uma sociedade onde existem diferenças de grandeza. Quem é o maior? Jesus mostra que a grandeza da nova sociedade não se baseia na riqueza e no poder, mas no serviço sem pretensões e interesses.

Bíblia Sagrada – Edição Pastoral

Reflexão do exegeta Frei Ludovico Garmus

25º Domingo do Tempo Comum

Oração: “Ó Pai, que resumistes toda a lei no amor a Deus e ao próximo, fazei que, observando o vosso mandamento, consigamos chegar um dia à vida eterna”.

  1. Primeira leitura: Sb 2,12.17-20

Vamos condená-lo à morte vergonhosa.

O livro da Sabedoria é contemporâneo a Jesus Cristo e foi escrito na diáspora dos judeus de Alexandria. É um verdadeiro tratado de “teologia política”, uma crítica sapiencial aos governantes. A comunidade judaica sofria perseguições, opressão e discriminação por parte das autoridades gregas e romanas, apoiadas por judeus que abandonaram a fé. O texto que ouvimos descreve o conflito entre os ímpios – judeus que renegaram sua fé – e os justos, isto é, judeus piedosos, observantes da Lei. Este conflito está também presente no livro dos Salmos (cf. Sl 1). Mais do que as palavras, a própria vida dos justos condena as ações destes judeus ímpios, que imitavam o comportamento dos pagãos. Os ímpios sentem-se incomodados pela fé e pelas práticas dos justos e ficam indignados que se considerem “filhos de Deus”. Por isso, tramam todo tipo de ofensas e torturas, atentam contra a própria vida dos justos, para ver se Deus virá para socorrê-los e libertá-los de suas mãos. As injúrias dos ímpios contra os justos lembram as que Jesus sofreu na cruz (ver o Evangelho e Mt 20,18-19; 27,38-44).

Salmo responsorial: Sl 53

  É o Senhor quem sustenta minha vida!

  1. Segunda leitura: Tg 3,16–4,3

O fruto da justiça é semeado na paz,

para aqueles que promovem a paz.

Tiago critica a falta de coerência dos cristãos de seu tempo. Eram comunidades divididas por rixas, inveja, rivalidades e injustiças; comunidades carentes de paz e necessitadas de amor. Faltava-lhes a “sabedoria que vem do alto”, a sabedoria do Evangelho. Tiago faz o elogia desta sabedoria: Ela é pura, pacífica, modesta e conciliadora; é misericordiosa, imparcial e sincera. Era, exatamente, esta sabedoria do Evangelho que faltava a estes cristãos. O apóstolo Paulo resumia a sabedoria do Evangelho nos dons do Espírito Santo, entre os quais sobressaem a fé, a esperança e a caridade/amor (cf. 1Cor 13). Alguns cristãos perdiam o foco de sua vida, que é a pessoa de Jesus Cristo e sua mensagem (Evangelho). Até nas orações pediam coisas supérfluas, menos a “sabedoria que vem do alto”.

Aclamação ao Evangelho

Pelo Evangelho o Pai nos chamou,

a fim de alcançarmos a glória de Nosso Senhor Jesus Cristo.

  1. Evangelho: Mc 9,30-37

O Filho do Homem vai ser entregue…

Se alguém quiser ser o primeiro,

que seja aquele que serve a todos.

Estamos no bloco central do Evangelho de Marcos (8,27–10,52). Nesta parte, Pedro confessa que Jesus é o Messias, o Ungido do Senhor. Jesus, por sua vez, ensina e explica em que sentido ele é o Cristo/Messias. Ele não é o filho de Davi que vai tomar conta do poder político e religioso em Jerusalém, mas o Servo Sofredor. Ensina também que o discípulo deve seguir o caminho do Mestre, como já vimos no domingo passado. Também no evangelho de hoje Jesus continua ensinando, a caminho de Jerusalém. Mais uma vez anuncia aos discípulos que Ele, o Filho do Homem, será entregue nas mãos dos homens e será morto, mas após três dias ressuscitará. Os discípulos, porém, tinham medo de pedir ao Mestre que lhes explicasse as dúvidas. Para Jesus, foi mais fácil curar o surdo-mudo (7,31-37) e o cego, mesmo em dois tempos (8,22-26), do que curar a cegueira e a surdez dos discípulos. Eles pressentiam o perigo nas palavras do Mestre e tinham medo sobre a verdade de suas palavras; faziam como o avestruz, que enterra a cabeça na areia para fugir do perigo. Na realidade, não queriam desistir do projeto de fazer de Jesus um Messias-Rei. Por isso, já estavam distribuindo os cargos neste novo reino e discutiam entre si quem deles seria o maior (9,33-37). Nas discussões acaloradas deve ter crescido o ciúme e a rivalidade entre eles. Ao chegarem a Cafarnaum, Jesus perguntou o que estavam discutindo no caminho. Eles ficaram calados. Jesus senta-se, então, como Mestre, para lhes ensinar o caminho do discípulo: “Quem quiser ser o primeiro, que seja o último de todos e aquele que serve a todos”.

Essa é a postura do Mestre na última ceia: “Se eu, Mestre e Senhor, vos lavei os pés, também vós deveis lavar os pés uns dos outros” (Jo 13,14). Os discípulos queriam ser os primeiros, os maiores, e disputavam entre si um lugar de honra no imaginado reinado de Jesus em Jerusalém. Para estes “maiores” Jesus, sentado, continua ensinando. Pegou uma criança, colocou-a no meio, junto de si, abraçou-a e disse: “Quem acolher em meu nome uma destas crianças, é a mim que está acolhendo”. Jesus se faz pequeno para abraçar todos os pequenos, os pobres e os sofredores e nos convida a fazermos o mesmo. Fazendo assim, acolhemos o próprio Deus, que se identifica com os pobres, os pequenos e famintos, nus e presos injustamente (Mt 25,31-46). Eis o “caminho” do discípulo neste mundo repleto de sofredores em que estamos vivendo.


FREI LUDOVICO GARMUS, OFMé professor de Exegese Bíblica do Instituto Teológico Franciscano de Petrópolis (RJ). Fez mestrado em Sagrada Escritura, em Roma, e doutorado em Teologia Bíblica pelo Studium Biblicum Franciscanum de Jerusalém, do Pontifício Ateneu Antoniano. É diretor industrial da Editora Vozes e editor da Revista “Estudos Bíblicos”, editada pela Vozes. Entre seus trabalhos está a coordenação geral e tradução da Bíblia Sagrada da Vozes.

Os discípulos de Jesus

Frei Clarêncio Neotti

Talvez fosse bom explicar a palavra ‘discípulo’, tão usada nos Evangelhos. Mateus a usa 68 vezes; Marcos apenas 24; Lucas também 24 vezes, e João 58. A palavra designa alguém que recebe a instrução de um mestre; ou que adere a uma doutrina, pautando seu comportamento em conformidade com ela. Os fariseus tiveram discípulos (Mc 2,18). João Batista teve discípulos (Mt 9,14).

No livro dos Atos, discípulo é todo aquele que abraça a fé cristã (At 6,1; 9,19). Às vezes faz-se diferença entre discípulo e apóstolo. Lucas fala em 72 discípulos (Lc 10,1-17). Os 12 Apóstolos eram discípulos que seguiam Jesus dia e noite. Tornaram-se como que a família de Jesus, tanto que foi com eles que quis comer a Ceia Pascal, que era um ritual familiar (Lc 22,8.15).

Nos Evangelhos, ‘discípulo’ chega a tomar um novo sentido: aquele que testemunha a pessoa e a verdade do Mestre, já que é chamado a também levar a cruz (Mc 8,34), a beber seu cálice (Mc 10,38). Aprendiz, seguidor, testemunha, aquele que vive como o Mestre Jesus: eis o retrato do cristão, que pode com ele subir a Jerusalém, padecer e ressuscitar; aquele em cujas mãos Jesus poderá entregar a continuidade de sua missão na terra.


FREI CLARÊNCIO NEOTTI, OFMentrou na Ordem Franciscana no dia 23 de dezembro de 1954. Durante 20 anos, trabalhou na Editora Vozes, em Petrópolis. É membro fundador da União dos Editores Franciscanos e vigário paroquial no Santuário do Divino Espírito Santo (ES). Escritor e jornalista, é autor de vários livros e este comentário é do livro “Ministério da Palavra – Comentários aos Evangelhos dominicais e Festivos”, da Editora Santuário.

Grandes são aqueles que servem

Frei Almir Guimarães

Mais uma semana de nossa vida. O tempo passa e na sucessão desses momentos vamos modelando nosso rosto espiritual vivendo as coisas de todos os dias. Domingo após domingo somos confrontados com uma Palavra da Escritura que, saindo das letras impressas no papel, atinge nosso interior, lá onde somos nós mesmos. O nosso interior é o ninho da Palavra. Tantos ângulos, tantos aspectos: o tema do justo que sofre, o justo que não vê reconhecimento, os que buscam os primeiros lugares. Temas para nossa reflexão.

Houve uma discussão entre os discípulos durante o caminho para Cafarnaum. Queriam saber quem era o maior. Compreendemos, estes moços estavam numa aventura com Cristo e queriam saber quem era o maior. Afinal de contas tinham embarcado numa aventura prestigiosa. Sempre ressoa fortemente aos nossos ouvidos as palavras que Jesus dirigiu aos doze: “Se alguém quiser ser o primeiro, que seja o último de todos e aquele que serve a todos”. Será que o evangelho está nos convidando para sermos inoperantes, sem garra, sem brio?

Não pedimos para nascer. Viemos ao mundo pelo desejo de nossos pais e sustentados pela mãe terra, por pessoas que nos precederam e vivemos carregando aspirações, sonhos e projetos. Somos homem ou mulher, sentimos que há em nós um chamado para o casamento e a família. Há também o convite a que tornemos o mundo habitável com nosso trabalho, cultivando a terra, inventando meios de transporte, curando as enfermidades, descobrindo novidades eletrônicas. Somos chamados a trabalhar.

Pode acontecer que cada um se acantone no seu mundo e viva a tudo isso de um jeito pouco generoso, meio egoísta, muito egoísta. Pode ser que na realização desses projetos todos insira-se um desejo de ganhar, de superioridade, de competição, de eliminação mais ou menos sumária de concorrentes. Melhores e pior. Chefes e subalternos. Os que mandam e os que obedecem. Os filhos de Zebedeu queriam saber quem seria o maior nesse Reino de que Jesus falava.

Jesus então a aproveita o ensejo para que todos entendam que há uma lei mais importante, a do mútuo e atencioso serviço. “Se alguém quiser ser o primeiro que seja o último de todos e aquele que serve a todos”.

Jesus, com efeito, veio para servir e não para ser servido. Com seu jeito de viver e conviver, com suas palavras e gestos, com sua paixão e morte mostrou carinho no servir.

Nunca sai de nossas vistas interiores a cena do lava-pés. Antes de terminar seus dias lava os pés dos seus como um empregado e diz que só terão parte no seu mundo os que servem. Os príncipes, os que buscam os primeiros lugares, os que respiram o ar da competição estão fora do mundo novo. Quando Jesus chama atenção para o humilde serviço não está querendo insinuar que as pessoas se acomodem, deixem de estudar, não busquem melhorar, mas que saibam que a grandeza está no existir para, no serviço, no cuidado pelo outro. Maior será o que melhor servir. Serviço e fraternismo estão intimamente ligados.

Alguns exemplos:

♦ Homem e mulher, pai e mãe, filhos e pais vivem servindo uns aos outros: o cuidado da casa, a saúde de todos, a ajuda mútua, a educação para os valores, a dissolução de rixas, o incentivo para que nunca se acomodem à mediocridade, o perdão quando necessário, a atenção dos filhos para com os pais, a acolhida dos hóspedes, o cuidado daqueles que foram atingidos pelo Mal de Alzheimer. Sempre o serviço.

♦ Médicos, dentistas, motoristas, padeiros, garis, pintores de parede, pedreiros, advogados têm direito ao justo salário. Haverão de ser profissionais de qualidade. Por detrás de seu trabalho estão seres humanos aos quais servem: curar as doenças do corpo e do espírito, levar as pessoas nos coletivos de um lado para o outro com delicadeza, deixar a cidade limpa para que não haja doenças e as pessoas gostem de caminhar pelas e sentar-se nas praças. O maior no Reino é aquele que serve.

♦ Governadores, deputados, prefeitos existem para servir. Foram eleitos para tanto. Recebem bons salários. Não têm o direito de usufruir do cargo para proveito próprio. Os políticos deveriam receber no dia da posse uma bacia e um avental. Com sua ação, batalhando para o justo emprego dos dinheiros públicos servem à senhora idosa atendida num hospital público, aos meninos sem pais que vão às escolas, aos cidadãos que precisam viajar em coletivos limpos, confortáveis e não em carroças. Os homens públicos existem para servir.

♦ A paróquia não é, em primeiro lugar, uma central burocrática, mas lugar onde as pessoas servem. O padre serve a Palavra, encontra-se com as pessoas quando elas precisam, inventam meios e modos de lavar os pés dos que a ele são confiados. A pessoa recebe na secretária paroquial não é mera marcadora de missas ou de recepção do dízimo, mas alguém que está ali para servir. Paróquia, central de todos serviços: serviço da fé na preparação para os sacramentos, serviço aos pais para que sejam melhores pais, serviço aos desamparados, serviço da profecia da denúncia da corrupção, competição e falcatruas que destroem o ser humano. Efetivamente viemos para servir e os serviços cria laços fraternos.

♦ Gostaria de concluir com poucas linhas da Regra de São Francisco: “E ninguém se denomine prior, mas todos, sem exceção, sejam chamados de irmãos menores. E um lave os pés do outro”.


FREI ALMIR GUIMARÃES, OFMingressou na Ordem Franciscana em 1958. Estudou catequese e pastoral no Institut Catholique de Paris, a partir de 1966, período em que fez licenciatura em Teologia. Em 1974, voltou a Paris para se doutorar em Teologia. Tem diversas obras sobre espiritualidade, sobretudo na área da Pastoral familiar. É o editor da Revista “Grande Sinal”.

Duas atitudes muito típicas de Jesus

José Antonio Pagola

O grupo de Jesus atravessa a Galileia a caminho de Jerusalém. Fazem-no de maneira discreta, sem ninguém tomar conhecimento. Jesus quer dedicar-se inteiramente a instruir seus discípulos. É muito importante o que ele quer gravar em seus corações: seu caminho não é um caminho de glória, êxito e poder. É o contrário: leva à crucificação e à rejeição, embora termine em ressurreição.

Não entra na cabeça dos discípulos o que Jesus lhes diz. Eles não querem pensar na crucificação. Esta não entra em seus planos nem em suas expectativas. Enquanto Jesus lhes fala de entrega e de cruz, eles falam de suas ambições: Quem será o mais importante no grupo? Quem ocupará o posto mais elevado? Quem receberá mais honras? Jesus “se senta”. Quer ensinar-lhes algo que eles nunca deverão esquecer. Chama os Doze, os que estão mais estreitamente associados à sua missão, e os convida a se aproximarem, porque os vê muito distanciados. Para seguir seus passos e parecer-se com ele precisarão aprender duas atitudes fundamentais.

Primeira atitude: “Quem quiser ser o primeiro, seja o último de todos e o servo de todos”. O discípulo de Jesus deve renunciar a ambições, dignidades, honras e vaidades. Em seu grupo ninguém deve pretender estar acima dos demais. Pelo contrário, deverá ocupar o último lugar, pôr-se no nível dos que não têm poder nem ostentam dignidade alguma. E, a partir dali, ser como Jesus: “servo de todos”.

A segunda atitude é tão importante que Jesus a ilustra com um gesto simbólico afetuoso. Coloca uma criança no meio dos Doze, no centro do grupo, para que aqueles homens ambiciosos se esqueçam de honras e grandezas e fixem seus olhos nos pequenos, nos fracos, nos mais necessitados de defesa e cuidado.

Depois abraça a criança e lhes diz: “Quem acolhe uma criança como esta em meu nome, é a mim que acolhe”. Quem acolhe um “pequeno” está acolhendo o “grande”, o maior, Jesus. E quem acolhe Jesus está acolhendo o Pai que o enviou. Uma Igreja que acolhe os pequenos e indefesos está ensinando a acolher a Deus. Uma Igreja que olha para os grandes e se associa aos poderosos da terra está pervertendo a Boa Notícia de Deus anunciada por Jesus.


JOSÉ ANTONIO PAGOLA cursou Teologia e Ciências Bíblicas na Pontifícia Universidade Gregoriana, no Pontifício Instituto Bíblico de Roma e na Escola Bíblica e Arqueológica Francesa de Jerusalém. É autor de diversas obras de teologia, pastoral e cristologia. Atualmente é diretor do Instituto de Teologia e Pastoral de São Sebastião. Este comentário é do livro “O Caminho Aberto por Jesus”, da Editora Vozes.

Seguir Jesus: ambição ou humildade?

Pe. Johan Konings

Políticos em campanha eleitoral levantam crianças diante das câmeras da televisão… Mas qual deles se importa realmente com o futuro das crianças abandonadas, com os meninos de rua, com a educação popular? O que conta não é a criança, e sim, o voto.

Jesus faz da pouca importância das crianças uma lição para seus seguidores. Os discípulos não compreendiam quando Jesus falava de seu sofrimento; pelo contrário, ficavam discutindo quem era o maior dentre eles. Por causa disso, Jesus chamou uma criança, colocou-a no meio deles e disse que a criança estava aí como se fosse ele mesmo – e até mais do que isso: “Quem acolher em meu nome uma destas crianças estará acolhendo a mim mesmo. E quem me acolher, estará acolhendo não a mim, mas Àquele que me enviou” (evangelho).

A liturgia de hoje nos ajuda a cavoucar mais a fundo o mistério que está por trás dessas palavras. Enquanto os discípulos não levaram muito a sério as crianças, Jesus se identifica com uma criança, porque tem uma profunda consciência do amor paterno de Deus. Na 1ª leitura, o justo que chama Deus de pai é considerado insuportável pelos poderosos, que só dão importância à força e à arrogância. E a 2ª leitura nos mostra quanto mal faz a ambição dentro da comunidade cristã. Na lógica o mundo, o que importa é a prepotência, a ambição. Mas Deus é o pai do justo, sobretudo do justo oprimido. Na criança desprotegida, ele mesmo se torna presente.

O justo humilde, perseguido pelos prepotentes, e que chama Deus de pai, é a prefiguração do próprio Jesus. A grandeza mundana não importa. Uma criança sem importância pode ser representante de Jesus e, portanto, de seu Pai, Deus mesmo. E se não for uma criança, pode ser um mendigo, um desempregado, um aidético…. No aspecto de não terem poder, esses sem-poder parecem-se com Jesus. Nossa “ambição”deve ser: servir Jesus neles. Então, seremos grandes.

Alguém talvez chame isso de falsa modéstia: dizer-se humilde julgando-se superior aos outros. Já os empresários o chamarão de desperdício, pois quem se refugia na humildade nunca vai realizar as grandes coisas de que nossa sociedade tanto precisa… O raciocínio de Jesus vai no sentido oposto: as ambições deste mundo facilmente encontram satisfação, se há quem delas pode tirar proveito. Todo mundo colabora. Mas quem não tem poder só pode contar com Deus e com os “filhos de Deus”, os que querem ser semelhantes a ele. Então, de repente, não é a ambição que move o mundo, mas a força do amor que Deus implantou em nós. Não o orgulhoso ou o ambicioso, mas o humilde consegue despertar a força do amor que dorme no coração do ser humano. A criança desperta em nós o que nos torna semelhantes a Deus, nosso Pai.


PE. JOHAN KONINGS nasceu na Bélgica em 1941, onde se tornou Doutor em Teologia pela Universidade Católica de Lovaina, ligado ao Colégio para a América Latina (Fidei Donum). Veio ao Brasil, como sacerdote diocesano, em 1972. Em 1985 entrou na Companhia de Jesus (Jesuítas) e, desde 1986, atua como professor de exegese bíblica na FAJE, Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia, em Belo Horizonte. Este comentário é do livro “Liturgia Dominical, Editora Vozes.

Reflexão em vídeo de Frei Gustavo Medella