Vida Cristã - Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil - OFM

24º Domingo do Tempo Comum

24º Domingo do Tempo Comum

“E vós, quem dizeis que eu sou?” (Mt 8,29)

 

Frei Gustavo Medella

O que responderia a Cristo um cristão católico que, em nome d’Ele:

♦  Defende o livre acesso às armas de fogo que matam e ferem?
♦  Apregoa que os Direitos Humanos são apenas para os “humanos direitos”?
♦  Acredita que o pobre vive nesta situação por causa da própria preguiça e incompetência?
♦ Diante de uma pandemia mundial adota uma postura de negação da ciência e dos meios disponíveis para a proteção da humanidade (máscara, distanciamento, vacina etc.)?
♦ Nega a obediência ao Papa, acusa-o de forma desrespeitosa e age de forma semelhante em relação aos bispos e à CNBB?
♦ Rejeita a ação gratuita da graça de Deus e imagina a salvação como mérito destinado a poucos privilegiados?
♦ Agride e desrespeita pessoas de outras religiões, acusando-as, inclusive, de ligação com o maligno?
♦ Rotula e exclui as pessoas que não se encaixam no esquema de “mundo perfeito” que cultiva em sua mente?
♦ Preocupa-se apenas com a própria salvação e é incapaz de se compadece com famintos, desempregados, refugiados e com todos os seres humanos que sentem na pele a dor da exclusão?
♦ Em pretensa defesa de valores como “pátria, família e liberdade” promove a discórdia, a violência e a injustiça?
♦ Vibra com um modelo de religião que transmite poder, triunfo e hegemonia e despreza a expressão simples da fé popular?

Dúvidas que o Evangelho deste domingo (Mc 8,27-35) é capaz de despertar…


FREI GUSTAVO MEDELLA, OFM, é o atual Vigário Provincial e Secretário para a Evangelização da Província Franciscana da Imaculada Conceição. Fez a profissão solene na Ordem dos Frades Menores em 2010 e foi ordenado presbítero em 2 de julho de 2011.


Imagem ilustrativa de Frei Fábio Melo Vasconcelos

Leituras bíblicas para este domingo

Primeira Leitura: Isaías 50,5-9
5 O Senhor abriu-me os ouvidos; não lhe resisti nem voltei atrás. 6 Ofereci as costas para me baterem e as faces para me arrancarem a barba; não desviei o rosto de bofetões e cusparadas. 7 Mas o Senhor Deus é meu auxiliador, por isso não me deixei abater o ânimo, conservei o rosto impassível como pedra, porque sei que não sairei humilhado. 8 A meu lado está quem me justifica; alguém me fará objeções? Vejamos. Quem é meu adversário? Aproxime-se. 9 Sim, o Senhor Deus é meu auxiliador; quem é que me vai condenar?
Palavra do Senhor.


Sl 114(115)
Andarei na presença de Deus, / junto a ele na terra dos vivos.
Eu amo o Senhor, porque ouve / o grito da minha oração. / Inclinou para mim seu ouvido, / no dia em que eu o invoquei. – R.
Prendiam-me as cordas da morte, † apertavam-me os laços do abismo; / invadiam-me angústia e tristeza. / Eu então invoquei o Senhor: / “Salvai, ó Senhor, minha vida!” – R.
O Senhor é justiça e bondade, / nosso Deus é amor-compaixão. / É o Senhor quem defende os humildes: / eu estava oprimido, e salvou-me. – R.
Libertou minha vida da morte, † enxugou de meus olhos o pranto / e livrou os meus pés do tropeço. / Andarei na presença de Deus, / junto a ele na terra dos vivos. – R.


Segunda Leitura: Tiago 2,14-18
14 Meus irmãos, que adianta alguém dizer que tem fé quando não a põe em prática? A fé seria então capaz de salvá-lo? 15 Imaginai que um irmão ou uma irmã não têm o que vestir e que lhes falta a comida de cada dia; 16 se então alguém de vós lhes disser: “Ide em paz, aquecei-vos”, e: “Comei à vontade”, sem lhes dar o necessário para o corpo, que adiantará isso? 17 Assim também a fé, se não se traduz em obras, por si só está morta. 18 Em compensação, alguém poderá dizer: “Tu tens a fé e eu tenho a prática! Tu, mostra-me a tua fé sem as obras, que eu te mostrarei a minha fé pelas obras!”
Palavra do Senhor.


Jesus é o Messias
Evangelho: Mc 8,27-35

-* 27 Jesus partiu com seus discípulos para os povoados de Cesareia de Filipe. No caminho, ele perguntou a seus discípulos: «Quem dizem os homens que eu sou?» 28 Eles responderam: «Alguns dizem que tu és João Batista; outros, que és Elias; outros, ainda, que és um dos profetas.» 29 Então Jesus perguntou-lhes: «E vocês, quem dizem que eu sou?» Pedro respondeu: «Tu és o Messias.» 30 Então Jesus proibiu severamente que eles falassem a alguém a respeito dele.

31 Em seguida, Jesus começou a ensinar os discípulos, dizendo: «O Filho do Homem deve sofrer muito, ser rejeitado pelos anciãos, pelos chefes dos sacerdotes e doutores da Lei, deve ser morto, e ressuscitar depois de três dias.» 32 E Jesus dizia isso abertamente. Então Pedro levou Jesus para um lado e começou a repreendê-lo. 33 Jesus virou-se, olhou para os discípulos e repreendeu a Pedro, dizendo: «Fique longe de mim, satanás! Você não pensa as coisas de Deus, mas as coisas dos homens.»

* 34 Então Jesus chamou a multidão e os discípulos. E disse: «Se alguém quer me seguir, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e me siga. 35 Pois, quem quiser salvar a sua vida, vai perdê-la; mas, quem perde a sua vida por causa de mim e da Boa Notícia, vai salvá-la.

* 27-33: A pergunta de Jesus força os discípulos a fazer uma revisão de tudo o que ele realizou no meio do povo. Esse povo não entendeu quem é Jesus. Os discípulos, porém, que acompanham e vêem tudo o que Jesus tem feito, reconhecem agora, através de Pedro, que Jesus é o Messias. A ação messiânica de Jesus consiste em criar um mundo plenamente humano, onde tudo é de todos e repartido entre todos. Esse messianismo destrói a estrutura de uma sociedade injusta, onde há ricos à custa de pobres e poderosos à custa de fracos. Por isso, essa sociedade vai matar Jesus, antes que ele a destrua. Mas os discípulos imaginam um messias glorioso e triunfante.

* 34-38: A morte de cruz era reservada a criminosos e subversivos. Quem quer seguir a Jesus esteja disposto a se tornar marginalizado por uma sociedade injusta (perder a vida) e mais, a sofrer o mesmo destino de Jesus: morrer como subversivo (tomar a cruz).

Bíblia Sagrada – Edição Pastoral

Reflexão do exegeta Frei Ludovico Garmus

24º Domingo do Tempo Comum 

Oração: “Ó Deus, criador de todas as coisas, volvei para nós o vosso olhar e, para sentirmos em nós a ação do vosso amor, fazei que vos sirvamos de todo o coração”.

  1. Primeira leitura: Is 50,5-9a

Ofereci minhas costas aos que me batiam.

A 1ª leitura é o terceiro dos quatro cânticos do Servo do Senhor que foram inseridos na segunda parte do livro de Isaías (Is 40–55). O Servo apresenta-se como discípulo, preparado pelo próprio Deus, para falar palavras de conforto aos judeus desanimados no exílio da Babilônia. Cada manhã Deus abre os ouvidos do Servo para que possa acolher sua mensagem comunicá-la ao povo. O Servo tem os ouvidos abertos para obedecer ao Senhor e acolher sua mensagem. É um discípulo obediente, sempre atento à mensagem divina. Por isso recebeu “uma língua de discípulo” (v. 4), capaz de transmitir palavras de conforto aos exilados. O Servo obediente não faz resistência à mensagem que Deus lhe pede para anunciar. Também não recua diante do desprezo, das humilhações e agressões sofridas por parte dos que se opõem à sua mensagem. Não recua diante dos opositores porque confia em Deus, seu Auxiliador. O profeta percebe Deus como um “auxílio” sempre bem próximo, pronto para socorrê-lo; mais próximo do que Adão e Eva, criados por Deus como “auxílio” necessário um para o outro. A Palavra que ouvimos inspira confiança e uma atitude de discípulo, obediente à vontade do Senhor, frente à violência e ao desprezo sofridos.

Salmo responsorial: Sl 114

Andarei na presença de Deus, junto a ele, na terra dos vivos.

  1. Segunda leitura: Tg 2,14-18

A fé, se não se traduz em obras, por si só está morta.

Paulo, em suas cartas, fala da fé como dom de Deus, condição para nos tornarmos filhos de Deus. Pelas nossas boas obras, diz Paulo, jamais poderemos “comprar” ou merecer este dom. Tiago fala para cristãos que já receberam o dom da fé e são filhos de Deus. Havia nas comunidades cristãs pessoas que interpretavam mal as palavras de Paulo, como se bastasse ter fé em Cristo, sem as boas obras. Para estes, Tiago lembra que não basta ter fé em Deus e em Cristo Jesus para ser salvo. A fé que não se traduz em obras – diz Tiago –, por si só está morta. É preciso que a fé dos que são filhos de Deus brilhe pelas boas obras que praticam. Mateus deixa isso claro: “Vós sois a luz do mundo (…) assim que deve brilhar vossa luz diante das pessoas, para que vejam vossas boas obras e glorifiquem vosso Pai que está nos céus” (Mt 5,14-16).

Aclamação ao Evangelho

            Eu de nada me glorio, a não ser, da cruz de Cristo;

            vejo o mundo em cruz pregado e para o mundo em cruz me avisto.

  1. Evangelho: Mc 8,27-35

Tu és o Messias… O Filho do Homem deve sofrer muito.

Domingo passado vimos como Jesus curou um surdo-mudo, tocando-lhe com saliva os ouvidos e a língua. Tirou o surdo-mudo de seu isolamento. Agora ele podia ouvir e ser ouvido. Apesar da proibição de divulgar o fato, o homem não parou de falar. Jesus curava cegos, surdos, mudos, coxos e leprosos, mas estava preocupado com os discípulos. Ainda antes do evangelho que acabamos de escutar, Jesus curou um cego em Betsaida (Mc 8,22-26). Havia bastante tempo que os discípulos seguiam a Jesus, no entanto continuavam surdos e cegos diante de seus ensinamentos e de sua pessoa. Jesus estava impaciente e queria curar a cegueira e a surdez dos próprios discípulos: “Tendo olhos, não vedes e tendo ouvidos não ouvis” (8,18)? Por isso retirou-se com os discípulos para Cesareia de Filipe, junto às nascentes do rio Jordão. Era hora de esclarecer qual era a sua missão. Queria saber o que pensava o povo a seu respeito. Eles responderam: “Alguns dizem que és João Batista; outros que és Elias, outros ainda, que és um dos profetas”. Então Jesus perguntou: “E vós, quem dizeis que eu sou”? Nesse momento devem ter posto os olhos em Pedro… Ele, então, tomou a palavra e disse: “Tu és o Messias”. Chegamos assim ao núcleo central da fé cristã, isto é, que Jesus é o Messias esperado, o Cristo, o Ungido do Senhor. Jesus, porém, proibiu que falassem disso aos outros. Precisava antes esclarecer que tipo de Messias ele era, para não alimentar, mais ainda, falsas expectativas. Pedro, provavelmente, pensava num Messias “filho de Davi”, guerreiro e libertador da opressão estrangeira. Jesus queria tirar essa imagem de Messias que estava na cabeça de Pedro e seus companheiros. Por isso “começou a ensiná-los” em que sentido ele era o Messias. Jesus nunca disse ser Ele o Messias, mas se identificava como o Filho do Homem. Como tal, devia sofrer e ser rejeitado pelos chefes do povo; devia morrer, mas ressuscitaria após três dias. Pedro, percebendo que seu projeto de fazer de Jesus um “filho de Davi” guerreiro caía por terra, tenta corrigir o Mestre, deixando claro qual era o Messias que eles esperavam. Jesus olhou para os discípulos e chamou Pedro de “satanás”; isto é, adversário, alguém que tenta desviar Jesus do projeto de Deus, e ordenou que se coloque atrás dele. Jesus é o mestre que ensina e mostra o caminho. Como discípulo, Pedro devia seguir o mestre e o caminho do Servo Sofredor (1ª leitura), escolhido por Jesus. Por fim, Jesus convida os discípulos e a multidão (todos) a segui-lo pelo mesmo caminho: Quem quiser tornar-se discípulo de Jesus, deve renunciar-se a si mesmo, tomar a sua cruz e o seguir pelo mesmo caminho. Renunciar-se a si mesmo é saber “perder a sua vida”, por causa de Cristo e do Evangelho, a fim de poder ganhá-la.

Jesus continua sofrendo com os pobres e abandonados. Continua sofrendo com as vítimas da pandemia do Covid-19, com os desempregados e famintos. Alegra-se, porém, quando vê médicos, enfermeiras e tantas pessoas arriscando suas vidas para cuidar e salvar a vida dos outros. Louva o Pai, ao ver tantas pessoas auxiliando a quem passa fome.


FREI LUDOVICO GARMUS, OFMé professor de Exegese Bíblica do Instituto Teológico Franciscano de Petrópolis (RJ). Fez mestrado em Sagrada Escritura, em Roma, e doutorado em Teologia Bíblica pelo Studium Biblicum Franciscanum de Jerusalém, do Pontifício Ateneu Antoniano. É diretor industrial da Editora Vozes e editor da Revista “Estudos Bíblicos”, editada pela Vozes. Entre seus trabalhos está a coordenação geral e tradução da Bíblia Sagrada da Vozes.

Sabedoria divina, sabedoria humana

Frei Clarêncio Neotti

Não dá de seguir Jesus, tendo como critério de orientação a sabedoria humana (que manda satisfazer os instintos, usar de tudo, armazenar, ambicionar, ser autossuficiente, silenciar a oposição, eliminar os contrários, receber o máximo com o mínimo de esforço). Ao mesmo tempo que Jesus começa a viagem decisiva a Jerusalém, começa a revelar aos Apóstolos as qualidades do verdadeiro discípulo, qualidades diferentes das que exigiam de seus seguidores os mestres da lei e da espiritualidade judaica. Inclusive o discípulo deverá morrer com o mestre. Pode não ser uma morte física, mas certamente será uma morte aos próprios interesses, em benefício dos interesses de Deus.

Na primeira parte do Evangelho, Marcos anotou as diferentes reações dos ouvintes de Jesus: admiravam-se (5,20), ficavam estupefatos (1,27), maravilhavam-se (1,22; 6,2; 7,37), impressionavam-se extraordinariamente (2,12; 5,42). Muitos o tinham em conta de profeta, isto é, de alguém que proclamava a presença de Deus e exigia das criaturas um comportamento correspondente a essa presença divina. Imaginavam-no santo. Isso fica claro no trecho que lemos hoje, quando o povo o compara a Elias, considerado o mais santo dos profetas, ou a João Batista, recém-assassinado e de quem todos guardavam santa memória.

Ao longo da viagem a Jerusalém, Jesus procurará mostrar aos Apóstolos que ele é mais que Elias e Moisés. O episódio da Transfiguração ocorre imediatamente após o trecho de hoje, e mostra, sem deixar dúvidas, a superioridade de Jesus
sobre Elias e Moisés. Ao mesmo tempo, Jesus ensinará aos discípulos que não é suficiente impressionar-se com ele e admirar seus milagres. É preciso assumir sua maneira de pensar, de comportar-se, de fazer a vontade do Pai até a morte e morte de Cruz (Fl 2,8).


FREI CLARÊNCIO NEOTTI, OFMentrou na Ordem Franciscana no dia 23 de dezembro de 1954. Durante 20 anos, trabalhou na Editora Vozes, em Petrópolis. É membro fundador da União dos Editores Franciscanos e vigário paroquial no Santuário do Divino Espírito Santo (ES). Escritor e jornalista, é autor de vários livros e este comentário é do livro “Ministério da Palavra – Comentários aos Evangelhos dominicais e Festivos”, da Editora Santuário.

Nosso verdadeiro encontro com Cristo Jesus

Frei Almir Guimarães

Mais um vez, pela leitura do evangelho deste domingo, somos levados a fazer uma viagem a Cesareia de Filipe. Mais uma vez ouvimos aquela pergunta feita lá, mas que parece sempre penetrar nossos ouvidos, esperando uma resposta que parta de nossa verdade mais profunda. “E vós quem dizeis que eu sou?” Sabemos perfeitamente que precisamos dar, em cada estação de nossa vida, uma resposta mais completa e mais satisfatória.

Nosso conhecimento de Jesus pode muito bem ter começado em nossa famílias, nas imagens do Coração de Jesus, no catecismo da primeira comunhão, nos santinhos que distribuímos aos parentes e amigos. Rezávamos o terço com os mistérios de Cristo…nascimento, morte, ressurreição… missa de domingo, comunhão, cuidado para não mastigar a hóstia… Talvez tenhamos nos acostumado. E ressoava aos nossos ouvidos afirmações dogmáticas Jesus é o Filho de Deus, homem e Deus. Noções cerebrais… Fomos vivendo com nossas certezas e nossas dúvidas que fomos abafando… e seguindo, quem sabe, apenas mais uma religião com suas tradições… alguns tivemos ocasião de continuar nossa busca… outros desistiram da religião e ficaram com uma vaga imagem de Cristo. Quem é Cristo para mim?

Estamos no universo da fé. Esse Jesus que percorreu os caminhos da terra, amou, viveu, encontrou pessoas, falou de um mundo novo que vinha propor da parte de um Pai que ele amava e que estava com ele, esse Jesus foi levado à morte e, segundo o relatos de pessoas da época, foi tirado da morte. Ele vive, ele é o ressuscitado, não tem mais esse corpo que temos mas se esconde em sinais: a Palavra que é proclama que encerra inaudito vigor, os mais abandonados da terra que escondem sua presença, o mistério pão e do vinho, a comunidade de dois ou três que se reúne em seu nome na certeza de sua presença…A primeira coisa a fazer é lutar para acreditar e se deixar acompanhar pelo ressuscitado que atravessa portas fechadas e paredes espessas. Era assim a postura das primeiras comunidades.

Os cristãos da primeira e da segunda geração nunca pensaram que com eles estava nascendo uma religião. De fato, não sabiam com que nome designar aquele movimento que ia crescendo de maneira insuspeitável. Viviam sob o impacto da lembrança de Jesus que sentiam vivo entre eles.

Crer em Cristo é ter a certeza de sua presença no meio de nós, como ressuscitado. É ter a sorte de ter se encontrado com ele. Para além dos costumes religiosos, do batismo e matrimônio recebidos como sacramentos há pessoas que, misteriosamente, foram colocadas diante dele e tiveram que responder: “Quem sou eu para você?”

Com claridade incomum ele se apresentou: no rosto de uma criança, numa Palavra do Evangelho que nos atingiu de modo particular, numa reunião de pessoas transparentes e belas que viviam de sua vida, no rosto de um homem não piegas que, ao morrer, levava nos lábios, o nome de Jesus. Certas palavras: Quem tem sede, venha a mim… eu sou o pão da vida… os que me seguem deixam tudo…” Por vezes um retiro, outras vezes uma leitura, ainda em momentos de silêncio, com a graça de Deus, temos vontade de dizer: “É o Senhor!”

Vivemos um tempo em que se tem a impressão que a fé em Cristo não anima a vida. José Antonio Pagola: “Digamos sinceramente, será que essa ausência de dinamismo cristão, está incapacidade de ir crescendo no amor e fraternidade com todos, essa inibição e passividade para lutar arriscadamente pela justiça, essa falta de criatividade evangélica para descobrir as novas exigências do Espírito não estão delatando uma falta de comunicação viva com Cristo ressuscitado?

Como chegar a viver um relacionamento vivo e pessoal com Cristo Jesus?

♦ Verificar se não andamos saciados demais com coisas que alimentam nosso ego e nos satisfazem. Até que ponto somos pessoas que sentimos sede de plenitude? Não se conformar com a mediocridade.

♦ Frequentar pessoal e comunitariamente as páginas dos evangelho mormente o sermão da montanha e as parábolas.

♦ Ter à mão um livro simples e claro e que nos fala da coisas da fé.

♦ Eliminar corajosamente de nossa vida tudo aquilo que nos torna homens carnais.

♦ Exames de consciência regulares para saber se entramos no caminho certo já que Jesus diz ser o caminho.

♦ Fazer de nossa missa dominical um acontecimento espiritual e não apenas um rito cumprido que tranquiliza a consciência.

A quem iremos, Senhor, só tu tens palavras de vida eterna.

Prece

Jesus,
tu me conheces e sabes o que quero.
Conheces meus projetos e minhas fraquezas.
Nada posso ocultar-te, Jesus.
Gostaria de deixar de pensar em mim
e conseguir dedicar mais tempo a ti.
Gostaria mesmo de entregar-me totalmente a ti.
Teria muito gosto de seguir teus passos
onde quer que fores.
Mas nem isso me atrevo a dizer-te porque sou fraco.
Tu o sabes melhor do que eu.
Sabes bem de que barro sou feito,
tão frágil e inconstante.
Por isso mesmo preciso mais de ti,
para que me guies, sejas meu apoio e meu descanso.
Obrigado, Jesus, pela tua amizade. Amém


FREI ALMIR GUIMARÃES, OFMingressou na Ordem Franciscana em 1958. Estudou catequese e pastoral no Institut Catholique de Paris, a partir de 1966, período em que fez licenciatura em Teologia. Em 1974, voltou a Paris para se doutorar em Teologia. Tem diversas obras sobre espiritualidade, sobretudo na área da Pastoral familiar. É o editor da Revista “Grande Sinal”.

O que Jesus nos pode trazer?

José Antonio Pagola

“Quem dizeis que eu sou?” Não sei exatamente como responderão a esta pergunta os cristãos de hoje, mas talvez possamos intuir um pouco o que pode ser para nós nestes momentos se conseguirmos encontrar-nos com ele com mais profundidade e verdade.

Jesus pode nos ajudar, antes de mais nada, a conhecer-nos melhor. Seu evangelho leva a pensar e nos obriga a colocar-nos as perguntas mais importantes e decisivas da vida. Sua maneira de sentir e de viver a existência, seu modo de reagir diante do sofrimento humano, sua confiança indestrutível num Deus amigo da vida é o que a história humana produziu de melhor.

Jesus pode ensinar-nos, sobretudo, um novo estilo de vida. Quem se aproxima dele não se sente tanto atraído por uma nova doutrina quanto convidado a viver de uma maneira diferente, mais arraigado na verdade e com um horizonte mais digno e mais esperançoso.

Jesus pode nos libertar também de formas pouco sadias de viver a religião: fanatismos cegos, desvios legalistas, medos egoístas. Pode, sobretudo, introduzir em nossas vidas algo tão importante como a alegria de viver, o olhar compassivo para as pessoas, a criatividade de quem vive amando.

Jesus pode nos redimir de imagens doentias de Deus que vamos arrastando sem medir os efeitos daninhos que exercem sobre nós. Pode nos ensinar a viver Deus como uma presença próxima e amistosa, fonte inesgotável de vida e ternura. Deixar-nos conduzir por ele nos levará a encontrar-nos com um Deus diferente, maior e mais humano do que todas as nossas teorias.

Isso sim. Para encontrar-nos com Jesus num nível um pouco autêntico precisamos atrever-nos a sair da inércia e do imobilismo, recuperar a liberdade interior e estar dispostos a “nascer de novo”, deixando para trás a observância rotineira e tediosa de uma religião convencional.

Sei que Jesus pode ser o curador e libertador de não poucas pessoas que vivem presas na indiferença, distraídas pela vida moderna, paralisadas por uma religião vazia ou seduzidas pelo bem-estar material, mas sem caminho, sem verdade e sem vida.


JOSÉ ANTONIO PAGOLA cursou Teologia e Ciências Bíblicas na Pontifícia Universidade Gregoriana, no Pontifício Instituto Bíblico de Roma e na Escola Bíblica e Arqueológica Francesa de Jerusalém. É autor de diversas obras de teologia, pastoral e cristologia. Atualmente é diretor do Instituto de Teologia e Pastoral de São Sebastião. Este comentário é do livro “O Caminho Aberto por Jesus”, da Editora Vozes.

Seguir um Messias diferente…

Pe. Johan Konings

Dizem que o povo não gosta de jogar voto fora. Vota em quem pensa que vai ganhar. Assim, quem representa os deserdados não tem ibope, enquanto os políticos corruptos são reeleitos e a situação não muda nunca. Parece que também Simão Pedro não gostava de torcer pelo time perdedor. Queria estar do lado do poder. Tinha chegado à conclusão de que Jesus era o Messias (8,29). Mas quando Jesus começou a explicar que o Messias e Filho do Homem devia sofrer e morrer, Pedro quis fazer-lhe a lição: sofrer, nunca! (8,31-32). Então, Jesus lhe dirige dura advertência: “Vai, satanás, para trás de mim, pois não tens em mente as coisas de Deus e sim as dos homens” (8,33). Pedro é chamado de satanás, não de diabo, porque o satanás é uma figura folclórica na literatura bíblica, exercendo o papel de tentador, de sedutor (cf. Jô 2,1-2). Jesus associa Pedro ao “sedutor”, porque tentou desviá-lo do caminho do sofrimento. Então, Jesus o manda para o lugar do discípulo obediente, atrás do mestre, para segui-lo carregando a cruz (Mc 8,34-35).

Jesus é Messias, mas à maneira do Servo Sofredor de que fala Isaías (1ª leitura). Este oferece as faces a quem lhe arranca a barba, não teme o fracasso, pois Deus está com ele. O Servo Sofredor é como um herói que desce na cova dos leões: desce nas profundezas do ódio para vencê-lo, por dentro, assumindo o sofrimento injustamente infligido. Seu poder não é como os poderes deste mundo; é a força de Deus que vence o poder pelo amor. Mas para isso, ele tem de escutar a voz de Deus: “O Senhor abriu meu ouvido” (Is 50,5).

Acreditar em Jesus é aderir ao Servo, o líder rejeitado e morto, mas que é também ressuscitado por Deus, como está em Mc 8,31 (Pedro parece não ter percebido esse “detalhe”). Ser cristão é seguir Jesus pelo caminho do sofrimento. Não existe fé cristã sem via sacra. E isso não pelo prazer de sofrer, mas porque é preciso enfrentar a injustiça e tudo quanto se opõe a Deus no próprio campo de batalha. Ser cristão não é compatível com sempre ter sucesso no mundo; quem não é perseguido provavelmente não está trilhando os passos de Jesus.

A Igreja não é para torcedores que pagam para ver o time ganhar; é para jogadores dispostos a enfrentar sacrifícios. Mas esta comparação esportiva é perigosa: pode sugerir auto-afirmação, e então estaríamos novamente pensando nas coisas dos homens e não nas de Deus. Não se trata de auto-afirmação, nem de heroísmo para glória própria, mas antes, de ter um ouvido aberto à voz de Deus, que nos mostra um caminho que por nós mesmos não suspeitávamos ser o caminho de Deus. Trata-se de ter um coração de discípulo, que saiba escutar Deus nos seus planos mais misteriosos. Será que Deus não está mostrando um caminho de “mais vida” quando sugere cuidar de uma criança doente, de pessoas excluídas, do silêncio de quem não pode falar, do esquecimento de si?… Tenhamos o ouvido aberto!

Cristo nos deu o exemplo. Nele confiamos. Tendo em vista sua “vitória”, não importa que “perdemos nossa vida” segundo os critérios deste mundo. Ganharemos Deus.


PE. JOHAN KONINGS nasceu na Bélgica em 1941, onde se tornou Doutor em Teologia pela Universidade Católica de Lovaina, ligado ao Colégio para a América Latina (Fidei Donum). Veio ao Brasil, como sacerdote diocesano, em 1972. Em 1985 entrou na Companhia de Jesus (Jesuítas) e, desde 1986, atua como professor de exegese bíblica na FAJE, Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia, em Belo Horizonte. Este comentário é do livro “Liturgia Dominical, Editora Vozes.

Reflexão em vídeo de Frei Gustavo Medella