Vida Cristã - Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil - OFM

19º Domingo do Tempo Comum

19º Domingo do Tempo Comum

Rápida e rara segue a vida

Frei Gustavo Medella

Na composição “Paciência”, o cantor e compositor Lenine traz duas afirmações que se completam ao descrever a vida. Diz o artista: “A vida não para” e “A vida é tão rara”. Correria e raridade, cotidiano e beleza, compromisso e dom. Equilibrar estas duas dimensões exige discernimento e flexibilidade.

No Evangelho deste 19º Domingo do Tempo Comum, Jesus adverte seus discípulos para que não vivam displicentemente. Manter os rins cingidos e as lâmpadas acesas significa ter sempre no horizonte a fugacidade e a raridade da vida. Fugaz porque limitada no tempo e no espaço, porque cheia de desafios e surpresas, repleta de exigências. Rara porque plena de oportunidades, porque cheia de possibilidades de encontro, porque criada e desejada amorosamente por Deus, porque, em Jesus, o Pai veio partilhá-la conosco.

Entre correria e contemplação, o dom da fé, definida como “a convicção acerca das realidades que não se veem” (Cf. Hb 11,1), promove a comunhão do efêmero com o eterno, produzindo frutos de solidariedade e serviço. Que a vida, frágil e rara, jamais seja banalizada.


FREI GUSTAVO MEDELLA, OFM, é o atual Vigário Provincial e Secretário para a Evangelização da Província Franciscana da Imaculada Conceição. Fez a profissão solene na Ordem dos Frades Menores em 2010 e foi ordenado presbítero em 2 de julho de 2011.

Leituras bíblicas para este domingo

Primeira Leitura: Sb 18,6-9

6A noite da libertação fora predita a nossos pais, para que, sabendo a que juramento tinham dado crédito, se conservassem intrépidos. 7Ela foi esperada por teu povo, como salvação para os justos e como perdição para os inimigos.

8Com efeito, aquilo com que puniste nossos adversários serviu também para glorificar-nos, chamando-nos a ti.

9Os piedosos filhos dos bons ofereceram sacrifícios secretamente e, de comum acordo, fizeram este pacto divino: que os santos participariam solidariamente dos mesmos bens e dos mesmos perigos. Isso, enquanto entoavam antecipadamente os cânticos de seus pais.


Responsório (Sl 32)

— Feliz o povo que o Senhor escolheu por sua herança!

— Feliz o povo que o Senhor escolheu por sua herança!

— Ó justos, alegrai-vos no Senhor!/ Aos retos fica bem glorificá-lo./ Feliz o povo cujo Deus é o Senhor/ e a nação que escolheu por sua herança!

— Mas o Senhor pousa o olhar sobre os que o temem,/ e que confiam esperando em seu amor,/ para da morte libertar as suas vidas/ e alimentá-los quando é tempo de penúria.

— No Senhor nós esperamos confiantes,/ porque ele é nosso auxílio e proteção!/ Sobre nós venha, Senhor, a vossa graça,/ da mesma forma que em vós nós esperamos!


Segunda Leitura: Hb 11,1-2.8-12

Irmãos: 1A fé é um modo de já possuir o que ainda se espera, a convicção acerca de realidades que não se veem. 2Foi a fé que valeu aos antepassados um bom testemunho. 8Foi pela fé que Abraão obedeceu à ordem de partir para uma terra que devia receber como herança, e partiu, sem saber para onde ia.

9Foi pela fé que ele residiu como estrangeiro na terra prometida, morando em tendas com Isaac e Jacó, os coerdeiros da mesma promessa. 10Pois esperava a cidade alicerçada que tem Deus mesmo por arquiteto e construtor. 11Foi pela fé também que Sara, embora estéril e já de idade avançada, se tornou capaz de ter filhos, porque considerou fidedigno o autor da promessa. 12É por isso também que de um só homem, já marcado pela morte, nasceu a multidão “comparável às estrelas do céu e inumerável como a areia das praias do mar”.


A busca fundamental

Evangelho: Lc 12,32-48

32 Não tenha medo, pequeno rebanho, porque o Pai de vocês tem prazer em dar-lhes o Reino. 33 Vendam os seus bens e deem o dinheiro em esmola. Façam bolsas que não envelhecem, um tesouro que não perde o seu valor no céu: lá o ladrão não chega, nem a traça rói. 34 De fato, onde está o seu tesouro, aí estará também o seu coração.»

* 35 «Estejam com os rins cingidos e com as lâmpadas acesas. 36 Sejam como homens que estão esperando o seu senhor voltar da festa de casamento: tão logo ele chega e bate, eles imediatamente vão abrir a porta. 37 Felizes dos empregados que o senhor encontra acordados quando chega. Eu garanto a vocês: ele mesmo se cingirá, os fará sentar à mesa, e, passando, os servirá. 38 E caso ele chegue à meia-noite ou às três da madrugada, felizes serão se assim os encontra! 39 Mas, fiquem certos: se o dono da casa soubesse a hora em que o ladrão iria chegar, não deixaria que lhe arrombasse a casa. 40 Vocês também estejam preparados! Porque o Filho do Homem vai chegar na hora em que vocês menos esperarem.» 41 Então Pedro disse a Jesus: «Senhor, estás contando essa parábola só para nós, ou para todos?» 42 E o Senhor respondeu: «Quem é o administrador fiel e prudente, que o senhor coloca à frente do pessoal de sua casa, para dar a comida a todos na hora certa? 43 Feliz o empregado que o senhor, ao chegar, encontra fazendo isso! 44 Em verdade, eu digo a vocês: o senhor lhe confiará a administração de todos os seus bens. 45 Mas, se esse empregado pensar: ‘Meu patrão está demorando’, e se puser a surrar os criados e criadas, a comer, beber, e embriagar-se, 46 o senhor desse empregado chegará num dia inesperado e numa hora imprevista. O senhor o expulsará de casa, e o fará tomar parte do destino dos infiéis. 47 Todavia aquele empregado que, mesmo conhecendo a vontade do seu senhor, não ficou preparado, nem agiu conforme a vontade dele será chicoteado muitas vezes. 48 Mas, o empregado que não sabia, e fez coisas que merecem castigo, será chicoteado poucas vezes. A quem muito foi dado, muito será pedido; a quem muito foi confiado, muito mais será exigido.»


* 22-34: A aquisição de bens necessários para viver se torna ansiedade contínua e pesada, se não é precedida pela busca do Reino, isto é, a promoção de relações de partilha e fraternidade.
* 35-48: Esperando continuamente a chegada imprevisível do Senhor que serve, a comunidade cristã permanece atenta, concretizando a busca do Reino através da prontidão para o serviço fraterno. Os vv. 41-46 mostram que isso vale ainda mais para os dirigentes da comunidade, que receberam de Jesus o encargo de servir, provendo às necessidades da comunidade. A responsabilidade é ainda maior, quando se sabe o que deve ser feito (vv. 47-48).

Bíblia Sagrada – Edição Pastoral

Comentários do exegeta Frei Ludovico Garmus

19º Domingo do Tempo Comum, ano C

 Oração: “Deus eterno e todo-poderoso, a quem ousamos chamar de Pai, dai-nos cada vez mais um coração de filhos, para alcançarmos um dia a herança que prometestes”.

  1. Primeira leitura: Sb 18,6-9

Aquilo com que puniste nossos adversários, serviu também para glorificar-nos.

O livro da Sabedoria é o último livro do Antigo Testamento, provavelmente escrito em Alexandria (Egito), entre os anos 30 a.C. e 40 d.C., quando a colônia judaica local sofria severas perseguições. O autor exalta o papel da sabedoria de Deus na criação e na história da salvação, sobretudo ao fazer uma releitura do êxodo do Egito (cf. Sb 16–19). O texto da liturgia de hoje lembra a noite de vigília, na qual os hebreus se preparavam para celebrar a páscoa, antes de atravessar o Mar Vermelho. Era uma noite esperada pelos hebreus “como salvação dos justos e perdição dos inimigos”, que perseguiam o povo de Deus. A punição dos inimigos e a libertação da escravidão do Egito preparam a aliança do Sinai. Ali Deus escolheu os hebreus como seu povo eleito, libertou-o da escravidão do Egito, estabeleceu com ele uma aliança (“pacto divino”) e assim os fez “participar dos mesmos bens e dos mesmos perigos”. Com estas palavras, o autor conforta os judeus perseguidos em Alexandria, lembrando-lhes que ser povo eleito por Deus tem o seu preço. Mas o sofrimento não significa abandono de Deus, porque Ele jamais se esquece da aliança de amor que fez com seu povo. A fé no Deus da aliança, no Libertador da escravidão do Egito, é a âncora mais segura para a comunidade agitada pela perseguição religiosa.

Salmo responsorial: Sl 32

Feliz o povo que o Senhor escolheu por sua herança.

  1. Segunda leitura: Hb 11,1-2.8-19

Esperava a cidade que tem Deus mesmo por arquiteto e construtor.

Hebreus é a última das catorze epístolas atribuídas a Paulo. Seu verdadeiro autor, porém, é um discípulo anônimo de Paulo. Não escreve propriamente uma carta, mas uma homilia ou exortação a uma comunidade que ele conhece e da qual está ausente. A comunidade é formada por cristãos de origem judaica, da segunda geração, que estavam perdendo o fervor original. O texto que ouvimos quer revigorar a fé e a esperança, num ambiente hostil no qual viviam os cristãos. O autor anônimo parte da definição do que é fé: “A fé é um modo de já possuir o que ainda se espera, a convicção acerca de realidades que não se veem”. Ao longo do texto ocorre sete vezes a palavra fé. O autor propõe como testemunho a fé dos patriarcas, Abraão, Isaac e Jacó. O elogio se concentra em Abraão e Sara. Abraão obedeceu à ordem de Deus e partiu para uma terra desconhecida que lhe seria dada em herança. Pela fé Abraão e Sara, embora estéreis, tornaram-se pais de uma multidão de descendentes, comparável às estrelas do céu. Pela fé na promessa que, de Isaac, teria uma grande descendência, Abraão ofereceu seu filho em sacrifício. Crente que Deus poderia “até ressuscitar os mortos”, recuperou assim seu filho vivo. O autor coloca a fé que Abraão tinha no “Deus dos vivos” como um símbolo da fé cristã na ressurreição dos mortos. Em meio à ameaça de morte em que viviam os cristãos o autor planta a fé na ressurreição de Cristo como um estandarte de esperança. A fé na ressurreição de Cristo e nossa ressurreição caminham juntas: “Se Cristo não ressuscitou, a vossa fé é inútil…” (cf. 1Cor 15,17). O Deus de Jesus Cristo “não é Deus dos mortos e sim dos vivos” (Mc 12,27).

Aclamação ao Evangelho

É preciso vigiar e ficar de prontidão;

Em que dia o Senhor há de vir, não sabeis, não!

  1. Evangelho: Lc 12,32-48

Vós também, ficai preparados!

No evangelho do domingo passado, Jesus criticava a cobiça e o acúmulo dos bens passageiros deste mundo e nos exortava a sermos vigilantes e a buscarmos os bens que não passam. Acima de tudo deve estar o amor a Deus e ao próximo. No evangelho de hoje, Lucas retoma e aprofunda os ensinamentos do texto anterior, aplicando-os à comunidade cristã, que ele chama de “pequenino rebanho, a quem foi dado o Reino”. Esse Reino que Jesus anuncia caracteriza-se pela venda e partilha dos bens com os pobres, para investir no tesouro do céu, que jamais acaba. O cristão deve estar focado em Deus e não nas riquezas deste mundo: “Onde está vosso tesouro, ali também estará vosso coração” (v. 34). Deve estar sempre preparado e vigilante, aguardando a vinda do Senhor, que não tem data marcada. Para esclarecer o sentido do estar vigilante Jesus conta a parábola dos empregados que devem estar sempre vigilantes para receber seu patrão, quando ele voltar de uma festa de casamento, a qualquer hora da noite (v. 35-40). No início da segunda parte (v. 41-48), Pedro, em nome dos apóstolos, pergunta a Jesus: “Senhor, tu contas esta parábola para nós ou para todos”? Na resposta Jesus se dirige, sobretudo, aos dirigentes da comunidade cristã, encarregados de vigiar o “pequenino rebanho” e cuidar de seu bem-estar. Jesus é o bom Pastor (cf. Lc 15,1-7; Jo 10,1-18). Encarregou os dirigentes da comunidade (apóstolos e ministros) de cuidar de seu rebanho. Escolhidos pelo Senhor, eles precisam estar mais bem preparados para vigiar pelo “pequenino rebanho” e assim deixá-lo sempre preparado para a segunda vinda do Senhor. Por isso, deles se exigirá mais quando o Senhor vier como juiz dos vivos e dos mortos, no final dos tempos.

O Evangelho de hoje contém como mensagem central a fé e a esperança na segunda vinda do Senhor. Esta fé tem como desdobramentos práticos: 1) a partilha dos bens deste mundo com os mais pobres; 2) a busca do tesouro mais precioso, que é o amor a Deus sobre todas s coisas e o amor ao próximo como a si mesmo; 3) e a atitude de vigilância na expectativa da segunda vinda do Senhor.

Pergunta: Que prioridade eu coloco em minha vida como cristão?


FREI LUDOVICO GARMUS, OFMé professor de Exegese Bíblica do Instituto Teológico Franciscano de Petrópolis (RJ). Fez mestrado em Sagrada Escritura, em Roma, e doutorado em Teologia Bíblica pelo Studium Biblicum Franciscanum de Jerusalém, do Pontifício Ateneu Antoniano. É diretor industrial da Editora Vozes e editor da Revista “Estudos Bíblicos”, editada pela Vozes. Entre seus trabalhos está a coordenação geral e tradução da Bíblia Sagrada da Vozes.

O Senhor vem para cear conosco

Frei Clarêncio Neotti

Jesus exemplifica com três pequenas parábolas: a do porteiro, a do ladrão e a do administrador. As três figuras ocorrem outras vezes no Novo Testamento. O patrão que volta da festa do casamento, lembra a parábola das moças vigilantes (Mt
25,1-13), a do porteiro é parecida com a parábola contada por Marcos (Mc 13,33-37). A do administrador é contada também por Mateus (Mt 24,42-51). A figura do Senhor que chega como um ladrão encontramo-Ia também em 1 Ts 5,2; 2Pd 3,10 e Ap 3,3.

A mãe, que espera acordada o retorno do filho ou da filha de uma festa noturna, lembra bem a primeira parábola, que Jesus exemplifica com o porteiro que deve abrir a porta ao patrão, quando ele chegar de uma festa de bodas. Ele não pode
apagar a lamparina (de azeite), porque demorará em reacendê-la, quando o patrão chegar. Não pode despir-se e deitar-se, porque demorará para vestir-se, para abrir a porta e receber o patrão. Se o empregado demorar, o patrão vai ter o desgosto de ficar esperando ao relento. O patrão é o Senhor. O empregado somos nós. Se estamos vigilantes, quando o Senhor bater à porta, ele nos fará parte de sua família. Isso está contido na expressão: “Fá-lo-á sentar-se à mesa e o servirá” (v. 37).

Essa frase deve ter repercutido muito entre os primeiros cristãos, que esperavam para logo o fim do mundo e esforçavam-se por suportar tribulações na esperança da chegada imediata da segunda vinda de Jesus. A frase tem claro eco
no Apocalipse, quando o Autor põe na boca do Senhor as palavras: “Estou à porta e bato. Se alguém ouvir a minha voz e abrir a porta, entrarei em sua casa e cearemos juntos e lhe concederei sentar-se comigo em meu trono” (Ap 3,20-21).


FREI CLARÊNCIO NEOTTI, OFMentrou na Ordem Franciscana no dia 23 de dezembro de 1954. Durante 20 anos, trabalhou na Editora Vozes, em Petrópolis. É membro fundador da União dos Editores Franciscanos e vigário paroquial no Santuário do Divino Espírito Santo (ES). Escritor e jornalista, é autor de vários livros e este comentário é do livro “Ministério da Palavra – Comentários aos Evangelhos dominicais e Festivos”, da Editora Santuário.

As lâmpadas precisam permanecer acesas

As lâmpadas precisam permanecer acesas

 

Frei Almir Guimarães

Precisamos adquirir o colírio, o próprio Jesus, para recuperar a vista. Mas precisamos “cair em nós” e perceber que a autossuficiência é uma ilusão nossa, que nossa situação é de fraqueza, carência, imperfeição.
José Tolentino Mendonça

Sempre a vida! O que conta é a vida. Somos seres humanos desejosos de viver em plenitude. A sociedade e o mundo nos mostram horizontes fascinantes: sucesso, êxito, beleza, festas, paraísos reais e digitais. Tudo isso pode parecer nos proporcionar satisfações que nem sempre perduram, e que momentaneamente nos encantam. Breve e aparentemente. Somos seres inquietos sempre em busca, sempre olhando para amanhã. Nada de viver por viver. Queremos iluminar a trajetória do que chamamos “nossa vida” com a figura de Jesus, vivo, ressuscitado, presente, próximo. Lucas, no evangelho proclamado, nos oferece direcionamentos a serem assumidos para que nossa vida seja conforme o desejo desse Jesus que amamos e que é nosso companheiro de caminhada. Ao pequeno rebanho são feitas carinhosas admoestações.

♦ Tudo bem. Precisamos de dinheiro. Há pessoas que morrem de fome sem dinheiro. Precisamos agilizar uma política honesta de repartição dos bens. Mas cuidado. Todo acúmulo de bens, de empáfia, de desejo de superioridade pode ferir a fraternidade e nos tornar reféns de nós mesmos. O dinheiro que adquirimos pode nos levar a uma postura de superioridade. Onde anda nosso coração? Quando deitamos para dormir enquanto o sono não chega em que andamos pensando? “Onde está o vosso tesouro, aí está a vosso coração!”. Não podemos nos deixar escravizar pelo desejo de ter sempre mais. Critério seguro: abundância das coisas necessárias. Vida sóbria e, sobretudo, vender no mercado o mais depressa possível nosso “ego” com reclamos tão exigentes.

♦ Sim, nada de viver por viver. Onde encontrar um meio capaz de nos libertar da superficialidade, do aturdimento, no barulho existencial? Vigiar, vigilância, prestar atenção às coisas, ao mundo, a quem está a nosso lado, aos loucos desejos que andam dançando dentro de nós. Fé e vigilância. Aquela fé recebida no catecismo não basta. Jesus está a nos falar de uma fé vigilante.

♦ “É surpreendente como Jesus fala da vigilância. Pode-se dizer que ele entende a fé como atitude vigilante que nos liberta do absurdo que domina muitos homens e mulheres, que andam pela vida se meta e sem objetivo nenhum”. “O apelo de Jesus à vigilância nos chama a despertar da indiferença, da passividade ou do cuidado com que vivemos nossa fé. Para vivê-la de maneira lúcida precisamos conhecê-la mais profundamente, confrontá-la com outras atitudes possíveis perante a vida, agradecê-la e procurar vivê-la com todas as suas consequências” (Pagola, Lucas, p. 213).

♦ Deus não tem residência nas nuvens dos céus. Ele se imiscui em toda a criação e, de modo particular na história. Através de suas visitas chega perto de nós, dos homens e dos povos, da Igreja. Os que vivem da fé andam esperando e perscrutando suas visitas. Será preciso afinar o ouvido. “Senhor, o que andas dizendo? Ajuda-nos a compreender”.

♦  Ele chega quando determina. Chega como um ladrão. As lâmpadas da vida precisarão estar acesas. Despertar do sono. “Para viver despertos é importante viver mais devagar, cultivar melhor o silêncio, estar mais atento aos apelo do coração, Sem dúvida o mais decisivo é viver amando. Só quem ama vive intensamente, com alegria e vitalidade, atento ao essencial. Por outro lado, para despertar uma “religião adormecida”, só há um caminho: buscar para além dos ritos e das crenças, aprofundar-se mais em nossa verdade perante Deus, e abrir-nos confiantes ao seu mistério. “Felizes aqueles que o Senhor ao chegar encontrar vigilantes” (Pagola, idem,p. 215)]

♦  Crer… este o tema do trecho da Carta aos Hebreus proclamado em nossa liturgia de hoje.

>> Crer é lançar confiantemente a vida no Mistério de Deus como Abraão que caminhou sem mapa para uma terra desconhecida. Ele nos acompanhará. Viremos na confiança de filho para com o Pai.
>> Crer é repetir em nossa vida a postura de Samuel: Fala, Senhor que teu servo escuta!
>> Crer é caminhar na presença do Senhor como nosso invisível, mas real companheiro.
>> Crer não é apenas repetir as formulações do Credo, mas prestar adesão viva à pessoa de Cristo ressuscitado que se manifesta no hoje da vida e da Igreja de múltiplas maneiras.
>> Crer é encarar os acontecimentos com o olhar de Cristo que olha com os olhos do Pai.
>> Crer é tornar-se cristão com outros e não na filosofia de uma vida de fé “minha somente minha”. “Religião para mim é apenas comigo mesmo”.

♦  “A quem muito foi dado, muito será pedido; a quem muito confiado, muito será exigido”. Precisamos ter a casa iluminada esperando as visitas do Senhor


Pequena reflexão

DIA DOS PAIS

♦ O pai é, antes de tudo, o companheiro da esposa. Em sua juventude ele encontrou uma mulher com a qual desejou criar uma comunhão de vida e um vida de imensa união. Ela veio quebrar sua solidão. Não é bom que o homem viva só. O marido é companheiro, amigo fiel de todos os momentos, parceiro de destino. Os filhos pequenos e crescidos experimentam segurança e alegria quando se dão conta que seus pais se estimam profundamente. Os pais são bons quando são ternos amigos de suas esposas e dos filhos. Experiência dolorosa para os filhos é ver o pai ou a mãe deixando a casa.

♦ O pai é presença forte, meiga e densa no seio da casa. Não é apenas um provedor. Não basta dizer-se a si e aos outros: “Não deixo faltar nada em casa. Conforto, comida, estudo. O que importa é a qualidade de sua presença. Os seres que enchem a casa são dom de Deus. Pai e mãe administram o tesouro que lhes deu o Altíssimo. Presença de qualidade. Presença, mesmo em eventual separação do casal. Presença que dá segurança.

♦ Os pais não querem que os filhos sejam fotocopias suas e da mulher. Os filhos escondem riquezas. O pai, de modo particular, ajuda-os a discernir. Nada impõem. Alertam para que não sejam ingênuos joguetes e presenças da sociedade de consumo e de exploração dos incautos.

♦ O pai da terra nunca pode esquecer do Pai do céu. Os dois são designados da mesma maneira. O pai é alguém que busca o Senhor, Ele e a mulher criam em casa espaços para que o Senhor possa entrar e sentar-se à mesa da refeição e na sala dos encontros. O pai não pode ser um “beato”, mas alguém que deixa transparecer que está sempre na “busca das estrelas”. Os filhos ficam felizes em saber o pai é amigo do Senhor.


FREI ALMIR GUIMARÃES, OFM, ingressou na Ordem Franciscana em 1958. Estudou catequese e pastoral no Institut Catholique de Paris, a partir de 1966, período em que fez licenciatura em Teologia. Em 1974, voltou a Paris para se doutorar em Teologia. Tem diversas obras sobre espiritualidade, sobretudo na área da Pastoral familiar. É o editor da Revista “Grande Sinal”.

Despertar

José Antonio Pagola

É muito fácil viver dormindo. Basta fazer o que quase todos fazem: imitar, amoldar-nos, ajustar-nos ao que está na moda. Basta viver buscando segurança externa e interna. Basta defender nosso pequeno bem-estar enquanto a vida vai se apagando em nós.

Chega um momento em que já não sabemos reagir. Ao sentir que nossa vida está vazia, vamos enchendo-a de experiências, informação e diversões. Enganamo-nos vivendo agitados pela pressa e pelas ocupações. Podemos gastar a vida inteira “fazendo coisas” sem descobrir nela nada de grande ou nobre.

Às vezes também a religião não consegue despertar-nos. Pode-se praticar uma “religião adormecida” que dá tranquilidade, mas não vida. Estamos tão ocupados com nossas coisas e desgraças que jamais temos um momento livre no qual possamos sentir o que é amar e compartilhar, o que é ser amável e solidário. E sem viver nada disso queremos saber algo de Deus!

Jesus repete sempre de novo um apelo premente: “Despertai, vivei atentos e vigilantes, porque podeis passar a vida sem saber de nada”. Não é fácil ouvir este chamado, porque geralmente não damos ouvidos aos que nos dizem algo contrário ao que pensamos. E nós homens e mulheres de hoje pensamos que somos inteligentes e lúcidos.

Para despertar precisamos tomar consciência da nossa estupidez: começamos a ser mais lúcidos quando observamos a superficialidade de nossa vida; a verdade abre caminho em nós quando reconhecemos nossos enganos; a paz chega ao nosso coração quando percebemos a desordem em que vivemos. Despertar é dar-nos conta de que vivemos dormindo.

Para viver despertos é importante viver mais devagar, cultivar melhor o silêncio e estar mais atentos aos apelos do coração. Sem dúvida, o mais decisivo é viver amando. Só quem ama vive intensamente, com alegria e vitalidade, atento ao essencial. Por outro lado, para despertar de uma “religião adormecida” só há um caminho: buscar para além dos ritos e das crenças, aprofundar-se mais em nossa verdade perante Deus e abrir-nos confiantemente ao seu mistério. “Felizes aqueles que o Senhor, ao chegar, encontrar vigiando”.


JOSÉ ANTONIO PAGOLA cursou Teologia e Ciências Bíblicas na Pontifícia Universidade Gregoriana, no Pontifício Instituto Bíblico de Roma e na Escola Bíblica e Arqueológica Francesa de Jerusalém. É autor de diversas obras de teologia, pastoral e cristologia. Atualmente é diretor do Instituto de Teologia e Pastoral de São Sebastião. Este comentário é do livro “O Caminho Aberto por Jesus”, da Editora Vozes.

Viver para aquilo que é definitivo

Pe. Johan Konings

O fim para o qual vivemos reflete-se em cada uma de nossas ações. A cada momento pode chegar o fim de nossa vida. Seja este fim aquilo que vigilantes esperamos, como a noite da libertação, que encontrou os israelitas preparados para saírem (1ª leitura), e não como uma noite de morte e condenação, como o empregado malandro que é pego de surpresa pela volta inesperada de seu patrão (evangelho).

Devemos preparar-nos para o definitivo de nossa vida, aquilo que permanece, mesmo depois da morte. Mensagem difícil para o nosso tempo de imediatismo. Muitos nem querem pensar no que vem depois; contudo, a perspectiva do fim é inevitável. Já outros veem o sentido da vida na construção de um mundo novo, ainda que não seja para eles mesmos, mas para seus filhos ou para as gerações futuras, se não têm filhos. Assim como os antigos judeus colocavam sua esperança de sobrevivência nos seus filhos, estas pessoas a colocam na sociedade do futuro. É nobre. Mas será suficiente?

Jesus abre outra perspectiva: um tesouro no céu, junto a Deus. Aí a desintegração não chega. Mas, olhar para o céu não desvia nosso olhar da terra? Não leva à negação da realidade histórica, desta terra, da nova sociedade que construímos? Ou será, pelo contrário, uma valorização de tudo isso? Pois, mostrando como é provisória a vida e a história, Jesus nos ensina a usá-las bem, para produzir o que ultrapassa a vida e a história: o amor que nos toma semelhantes a Deus. Este é o tesouro do céu, mas ele precisa ser granjeado aqui na terra.

A visão cristã acompanha os que se empenham pela construção de um mundo novo, solidário e igualitário, para suplantar a atual sociedade baseada no lucro individual. Mas não basta ficar simplesmente neste nível material, por mais que ele dê realismo ao empenho do amor e da justiça. A visão cristã acredita que a solidariedade exercida aqui na História é confirmada para além da História. Ultrapassa nosso alcance humano. É a causa de Deus mesmo, confirmada por quem nos chamou à vida e nos faz existir. À utopia histórica, a visão cristã acrescenta a fé, “prova de realidades que não se veem” (2ª leitura ). A fé, baseada na realidade definitiva que se revelou na ressurreição de Cristo, nos dá a firmeza necessária para abandonar tudo em prol da realização última – a razão de nosso existir.


PE. JOHAN KONINGS nasceu na Bélgica em 1941, onde se tornou Doutor em Teologia pela Universidade Católica de Lovaina, ligado ao Colégio para a América Latina (Fidei Donum). Veio ao Brasil, como sacerdote diocesano, em 1972. Em 1985 entrou na Companhia de Jesus (Jesuítas) e, desde 1986, atua como professor de exegese bíblica na FAJE, Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia, em Belo Horizonte. Este comentário é do livro “Liturgia Dominical, Editora Vozes.

Reflexão em vídeo de Frei Gustavo Medella