Vida Cristã - Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil - OFM

18º Domingo do Tempo Comum

18º Domingo do Tempo Comum

A cura pela partilha e pela compaixão

 

Frei Gustavo Medella

Um coração ferido capaz de curar. Jesus acabara de receber a notícia do assassinato de seu primo, João Batista, ordenado por Herodes. Sua vontade era ficar a sós, rezando e refletindo sobre aquele episódio, buscando a cura do próprio coração na intimidade com o Pai. No entanto, ao perceber o movimento da multidão, o Senhor muda os planos. Enche-se de compaixão e, em vez pensar primeiro na própria cura, passa a curar os que a ele recorrem. Esquece-se de si para acudir a dor do outro.

Da mesma forma em relação ao pão. Ensina seus discípulos a deixarem de lado o medo e o egoísmo para apostarem na força da generosidade e da partilha. Corajosamente colocados à disposição de saciar a quem estivesse faminto, cinco pães e dois peixes foram suficientes para satisfazer uma multidão.

Compaixão e partilha: duas urgências para o mundo desde sempre e especialmente nos tempos atuais. Apesar de fundamental, a descoberta da vacina não será suficiente para curar a humanidade se os corações não se converterem e não se dispuserem à partilha e à compaixão. Olhos fixos em Jesus, em suas palavras e ações.


FREI GUSTAVO MEDELLA, OFM, é o atual Vigário Provincial e Secretário para a Evangelização da Província Franciscana da Imaculada Conceição. Fez a profissão solene na Ordem dos Frades Menores em 2010 e foi ordenado presbítero em 2 de julho de 2011.

Leituras bíblicas para este domingo

Primeira Leitura: Is 55,1-3

Assim diz o Senhor: 1“Ó vós todos que estais com sede, vinde às águas; vós que não tendes dinheiro, apressai-vos, vinde e comei, vinde comprar sem dinheiro, tomar vinho e leite, sem nenhuma paga.

2 Por que gastar dinheiro com outra coisa que não o pão, desperdiçar o salário senão com satisfação completa? Ouvi-me com atenção, e alimentai-vos bem, para deleite e revigoramento do vosso corpo. 3 Inclinai vosso ouvido e vinde a mim, ouvi e tereis vida; farei convosco um pacto eterno, manterei fielmente as graças concedidas a Davi”.


Salmo Responsorial: Sl 144

— Vós abris a vossa mão/ e saciais os vossos filhos.

— Vós abris a vossa mão/ e saciais os vossos filhos!

— Misericórdia e piedade é o Senhor,/ ele é amor, é paciência, é compaixão./ O Senhor é muito bom para com todos,/ sua ternura abraça toda criatura.

— Todos os olhos, ó Senhor, em vós esperam/ e vós lhes dais no tempo certo o alimento;/ vós abris a vossa mão prodigamente/ e saciais todo ser vivo com fartura.

— É justo o Senhor em seus caminhos,/ é santo em toda obra que ele faz./ Ele está perto da pessoa que o invoca,/ de todo aquele que o invoca lealmente.


Segunda Leitura: Rm 8,35.37-39

Irmãos: 35 Quem nos separará do amor de Cristo? Tribulação? Angústia? Perseguição? Fome? Nudez? Perigo? Espada? 37 Em tudo isso, somos mais que vencedores, graças àquele que nos amou! 38 Tenho a certeza de que nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os poderes celestiais, nem o presente, nem o futuro, nem as forças cósmicas, 39 nem a altura, nem a profundeza, nem outra criatura qualquer será capaz de nos separar do amor de Deus por nós, manifestado em Cristo Jesus, nosso Senhor.


Evangelho: Mt 14, 13-21
Multiplicação dos pães

* 13 Quando soube da morte de João Batista, Jesus partiu, e foi de barca para um lugar deserto e afastado. Mas, quando as multidões ficaram sabendo disso, saíram das cidades, e o seguiram a pé. 14 Ao sair da barca, Jesus viu grande multidão. Teve compaixão deles, e curou os que estavam doentes.

15 Ao entardecer, os discípulos chegaram perto de Jesus, e disseram: «Este lugar é deserto, e a hora já vai adiantada. Despede as multidões, para que possam ir aos povoados comprar alguma coisa para comer.» 16 Mas Jesus lhes disse: «Eles não precisam ir embora. Vocês é que têm de lhes dar de comer.» 17 Os discípulos responderam: «Só temos aqui cinco pães e dois peixes.» 18 Jesus disse: «Tragam isso aqui.» 19 Jesus mandou que as multidões se sentassem na grama. Depois pegou os cinco pães e os dois peixes, ergueu os olhos para o céu, pronunciou a bênção, partiu os pães, e os deu aos discípulos; os discípulos distribuíram às multidões. 20 Todos comeram, ficaram satisfeitos, e ainda recolheram doze cestos cheios de pedaços que sobraram. 21 O número dos que comeram era mais ou menos cinco mil homens, sem contar mulheres e crianças.

* 13-21: Cf. nota em Mc 6,31-44. Mateus salienta o comportamento de Jesus: ele não é fanático, querendo enfrentar imediatamente Herodes; mas também não é fatalista, deixando as coisas correr como estão. Ele continua fiel à missão de servir ao seu povo. Reúne e alimenta as multidões sofredoras, realizando os sinais de um novo modo de vida e de anúncio do Reino. A Eucaristia é o sacramento-memória dessa presença de Jesus, lembrando continuamente qual é a missão a que nós, cristãos, fomos chamados.

Bíblia Sagrada – Edição Pastoral

Reflexões do exegeta Frei Ludovico Garmus

18º Domingo do Tempo Comum, ano A

 Oração: “Manifestai, ó Deus, vossa inesgotável bondade para com os filhos e filhas que vos imploram e se gloriam de vos ter como criador e guia, restaurando para elas a vossa criação, e conservando-a renovada”.

  1. Primeira leitura: Is 55,1-3

Apressai-vos e correi!

O texto que ouvimos conclui oráculos dos discípulos do profeta Isaías do século VIII, agora dirigidos aos exilados em Babilônia. Um profeta anônimo, pelos anos 550-540 aC, fala aos netos dos exilados 50 a 60 anos antes. Jeremias tinha escrito uma carta para eles, logo que foram exilados, dizendo que o exílio iria durar bastante tempo (Jr 29,1-14). Agora, porém, as circunstâncias políticas tinham mudado e era hora de voltar. Mas como despertar a atenção e o interesse da nova geração que não tinha conhecido o templo nem a terra de seus antepassados? Como despertar uma fome e sede espirituais de um retorno à aliança com Deus, quando eram tentados a abandonar a sua fé? Por isso, a mensagem de esperança visa animar a fé e a esperança nos desanimados e despertar uma sede e fome de Deus no fundo de seus corações. É a gratuidade e a força da Palavra de Deus que operará este milagre. Era preciso ouvir os profetas, mensageiros de Deus: “Inclinai o vosso ouvido e vinde a mim, ouvi e tereis vida!” Muitos exilados, talvez já tivessem resolvido os problemas básicos materiais: tinham moradia, trabalho e alimentação. Mas somente o Deus vivo poderia lhes saciar a fome e sede espirituais e não os ídolos

Nos tempos difíceis em que estamos vivendo somos convidados a ouvir a palavra de Deus, para revigorar nossa fé e esperança em Cristo Jesus, nossa Vida e Salvação.

Salmo responsorial: Sl 144 (145)

            Vós abris a vossa mão e saciais os vossos filhos.

  1. Segunda leitura: Rm 8,35.37-39

Nenhuma criatura poderá nos separar

do amor de Deus manifestado em Cristo.

Paulo experimentou intensamente o amor de Cristo desde sua conversão. Na Carta aos Gálatas chega a dizer: “Já não sou eu que vivo, é Cristo que vive em mim. Minha vida presente na carne eu a vivo pela fé no Filho de Deus, que me amou e se entregou por mim” (Gl 2,20). Quando escreve aos cristãos de Roma, Paulo sente-se envolvido, junto com todos os cristãos, pelo amor de Deus, manifestado em Jesus Cristo, do qual nenhuma força adversa poderá nos separar. Tribulação, angústia, perseguição, fome, nudez, perigo e espada que ele e os cristãos sofreram, foram momentos que o fizeram crescer na fé e no amor a Cristo Jesus. As situações extremas de sofrimento vividas por Paulo podem atingir a qualquer um de nós. Que tais sofrimentos façam crescer, também em nossa vida, a fé, a esperança e o amor a Cristo Jesus.

Aclamação ao Evangelho

O homem não vive somente de pão,

mas vive de toda palavra que sai da boca de Deus.

  1. Evangelho: Mt 14,13-21

Todos comeram e ficaram satisfeitos.

Após o discurso das parábolas (cap. 13), no evangelho de Mateus, Jesus visita Nazaré, sua cidade de origem, onde é rejeitado pelos conterrâneos. Logo em seguida recebe a notícia do martírio de João Batista, seu precursor. Jesus sentiu a rejeição de seus conterrâneos em Nazaré, sentiu a dor da perda do amigo João Batista e a ameaça que pairava sobre sua pessoa e missão; por isso, retira-se “para um lugar deserto e afastado”. O povo, porém, “sente o cheiro de seu pastor” e o segue a pé (14,13). Jesus, que desejava estar a sós com o Pai, para orar e refletir sobre sua missão, se vê de novo cercado pela multidão. Ao ver a multidão, Jesus “encheu-se de compaixão por eles e curou os que estavam doentes”. Era um povo sedento de sua palavra e faminto de seus gestos de amor (1ª leitura). – É interessante que o evangelho não diz que Jesus aproveitou a ocasião para ensinar ao povo. É que Jesus ensina também pelas atitudes, pelo toque de suas mãos que curam. Jesus conversa com as pessoas, com as famílias que apresentavam seus doentes. Jesus “se compadece”, isto é, coloca-se no lugar das pessoas que sofrem.

Quando chega a tarde os discípulos alertam a Jesus que precisava despedir a multidão, pois era tarde e o povo precisava procurar alimentos. E Jesus lhes responde: “Eles não precisam ir embora. Dai-lhes vós mesmos de comer”. Eles reclamam, dizendo: “Só temos aqui cinco pães e dois peixes”. Nós sempre pensamos que o pouco não dá para dividir porque vai faltar. Na lógica de Jesus é possível dividir o pouco, porque dividindo, se multiplica. Jesus multiplicou os cinco pães e dois peixes, dividindo-os. E se muitos dividirem o pouco que têm, todos serão atendidos e acaba sobrando. Este é o milagre que Jesus quis ensinar ao povo.

A celebração da missa, na qual temos a mesa da Palavra e a Mesa do Pão, é um constante convite para vivermos o milagre da divisão do pão com os necessitados, em nossa vida prática. Certamente, Jesus, atendendo o povo doente e dividindo os pães e peixes, fez, com poucas palavras, um dos discursos que mais mexem com nossa vida de Igreja e provocam a sociedade.


FREI LUDOVICO GARMUS, OFM,é professor de Exegese Bíblica do Instituto Teológico Franciscano de Petrópolis (RJ). Fez mestrado em Sagrada Escritura, em Roma, e doutorado em Teologia Bíblica pelo Studium Biblicum Franciscanum de Jerusalém, do Pontifício Ateneu Antoniano. É diretor industrial da Editora Vozes e editor da Revista “Estudos Bíblicos”, editada pela Vozes. Entre seus trabalhos está a coordenação geral e tradução da Bíblia Sagrada da Vozes.

Pão: símbolo do sustento da vida

Frei Clarêncio Neotti

O pão e a carne eram os alimentos mais comuns no Oriente Médio. Eram o nosso feijão com arroz. Havia muitas espécies de pão: umas misturadas com lentilhas e legumes (Ez 4,9), outras, de massa de trigo não fermentada, que duravam
meses sem estragar. A maioria do povo comia pão feito de cevada. O pão de trigo era luxo. Os pães eram grandes, achatados e quase sempre com um buraco ao centro, que permitia pendurá-los em varas. O profeta Ezequiel, para dizer que haveria uma grande fome, usa a expressão: “Quebrarei a vara do pão” (Ez 4,16). Um dos templos mais antigos da Palestina, anterior à chegada dos hebreus, é dedicado ao Deus Pão, e se localizava nas nascentes do Jordão.

Muito cedo, na Sagrada Escritura, o pão passou a significar qualquer tipo de alimento e quase um sinônimo de vida. Como, aliás, até hoje, porque são comuns expressões como ‘ganhar o pão’, para dizer ‘ganhar o sustento da vida’.
Encontramos na Bíblia inúmeras expressões que ligam o pão a situações concretas da vida. Quem sofre ou se sente abandonado “come o pão das lágrimas” (SI 80,6). Hoje, diríamos: o pão que o diabo amassou. Quem está contente “come o
pão da alegria” (Ecl 9,7). O sábio “come o pão da prudência” (Eclo 15,3). O pecador “come o pão da maldade” (Pr 4,17). O preguiçoso “come o pão da ociosidade” (Pr 31,27), o adúltero “come o pão da sensualidade” (Eclo 23,17), o explorador dos pobres “come o pão de sangue” (Eclo 34,25), o sacerdote mau “oferece no altar do sacrifício pão da impureza” (Ml 1,7).

Há na Sagrada Escritura expressões lindas que mostram o pão como um elo de vida familiar e de amizade. Assim ‘comer o pão com alguém’ é ser seu amigo íntimo (Sl 41,10). Jesus se referiu a esse sentido, quando se queixou, momentos antes
de ser traído por Judas: “Aquele que come o pão comigo se levanta contra mim” (Jo 13,18). A palavra ‘companheiro’ significa ‘aquele que come o pão comigo’.


FREI CLARÊNCIO NEOTTI, OFMentrou na Ordem Franciscana no dia 23 de dezembro de 1954. Durante 20 anos, trabalhou na Editora Vozes, em Petrópolis. É membro fundador da União dos Editores Franciscanos e vigário paroquial no Santuário do Divino Espírito Santo (ES). Escritor e jornalista, é autor de vários livros e este comentário é do livro “Ministério da Palavra – Comentários aos Evangelhos dominicais e Festivos”, da Editora Santuário.

Alimento para tanta gente?

Frei Almir Guimarães

Jesus ergueu os olhos para céu e pronunciou a bênção.

♦ Tema da fome, da multidão faminta, da mesa, da comida. Tantos temas, pão de todo dia, pão da Eucaristia… O evangelista situa a passagem hoje proclamada. Jesus ficou sabendo da morte de João Batista, seu parente, aquele que dele deu testemunho com a palavra e com a vida, que fora o “precursor” de seu caminho. Quando Jesus soube do acontecido foi de barco para um lugar deserto e afastado. A impressão que se tem é que desejava estar sozinho. Ele precisava fazer o luto do Batista. Quando se perde alguém necessitamos de tempo e espaço para nós mesmos, para refletir, pensar e chorar. Ao chegar ao destino, uma multidão o aguardava. Seu programa estava frustrado. Precisava se ocupar daquela gente. Era mais urgente.

♦ “Do seu sofrimento pela morte do Batista, Jesus passa a ver o sofrimento das multidões, sobretudo dos doentes e deficientes. E cuida deles. Tendo experimentado seu sofrimento, Jesus sabe ver o sofrimento das multidões e sua compaixão se torna cuidado, ação terapêutica. Torna-se resposta humilde e concreta ao mal do mundo” (Manicardi). Jesus experimenta compaixão. Compaixão quer dizer “sofrer com”, “sentir a dor do outro”. Por compaixão, ele curava os doentes.

♦ Tema vasto e delicado da fome, da doença, das lágrimas, de seres humanos sem esperança de vida. Durante esse ano todo de 2020 estivemos diante do fantasma da pandemia. As pessoas não estavam às margens do mar da Galileia, mas em UTIs, isolamentos, não podendo respirar, em hospitais improvisados, fechadas sem que ninguém pudesse apertar-lhes as mãos e nem mesmo esboçar com a mão um adeus no momento da partida. Representantes nossos, representantes valentes da raça humana, enfermeiros, médicos cuidaram deles, tiveram compaixão, sofreram com… e quando os infectados venciam o mal e voltavam curados; esses cuidadores da vida cantavam, aplaudiam, choravam, dançavam. “Sofrer com os que sofrem e alegrar-se com os que se alegram”.

♦ Gente sentada na grama. Cinco pães e dois peixes. Nada. Os apóstolos sentiam-se impotentes. Pois é com nossa pobreza que vamos e precisamos cuidar dos outros. Lutar para que todos tenham o necessário para matar a fome. Sério problema da fome no mundo. Jesus olha para o céu rende graças e a mesa é farta. Milagre a insinuar que podemos dividir o pouco que somos e temos. O Senhor pediu que cultivássemos a terra para todos pudessem comer. Sempre de novo o tema da partilha dos bens e da vida. Quanta solidariedade neste tempo da pandemia. Não dá para mencionar tantos gesto. Um ao menos: a mulher que costurava máscaras e as colocava num varal destinadas aos passantes. Queira Deus a pandemia tenha nos ensinado novamente a alegria da partilha.

♦ Milagre dos pães, mesa na relva e nossas refeições: “A refeição tornou-se para muitos em algo puramente funcional que é necessário organizar de maneira rápida e inserida dentro da jornada de trabalho. Cada vez é mais raro esse momento privilegiado de encontro familiar em torno da mesa. Em muitos lares esta mesa era para ser rodeada, já não serve para que pais e filhos se encontrem, compartilhem suas vidas, conversem e descanem juntos” (Pagola, Mateus, p. 180). Conseguimos viver refeições humanas? Diz Xavier Basurko: comer é muito mais do que introduzir determinada ração de calorias no organismo”.

♦ Tempos depois da multiplicação dos pães, ele, Jesus, na refeição de adeus, vai tomar o pão, o vinho, pão que é seu corpo, vinho seu sangue, vida dada, doada, partilhada, eucaristia, mesa da partilha que ensina a partilhar. Os que participamos da eucaristia trazemos para sala da eucaristia nossos questionamentos, interrogações, dramas do mundo e misturamos nossa vida com a vida de Jesus. “Isto é meu corpo que é dado”. Uma vida dada, com Cristo para a vida do mundo. Nossa vida se mistura com a vida de Jesus e passamos a ser vida para o mundo.

♦ “A participação no pão da vida se manifesta traduzindo-se necessariamente na vontade firme de tentar tudo a fim de que os famintos sejam saciados, os que têm sede possam beber, os que estão nus, possam vestir-se … (cf Mt 25). A participação na ceia eucarística se torna, para o cristão, fonte de um esforço de promoção humana no qual todos e cada um sejam reconhecidos em sua dignidade fundamental de pessoas, no sentido de uma só grande família” (Missal Dominical da Paulus, p. 764).


Oração

Pai amado,
realiza por meio de nós a obra da verdade.
Mantém nossas mãos ocupadas a servir a todos.
Faze com que nossa voz anuncie a todos o teu reino.
Faze com que nossos pés avancem sempre
pelos caminhos da justiça.
Guia-nos das trevas para a luz.


FREI ALMIR GUIMARÃES, OFM, ingressou na Ordem Franciscana em 1958. Estudou catequese e pastoral no Institut Catholique de Paris, a partir de 1966, período em que fez licenciatura em Teologia. Em 1974, voltou a Paris para se doutorar em Teologia. Tem diversas obras sobre espiritualidade, sobretudo na área da Pastoral familiar. É o editor da Revista “Grande Sinal”.

Compartilhar o nosso com os necessitados

José Antonio Pagola

Dois eram os problemas mais angustiosos nas aldeias da Galileia: a fome e as dívidas. Era o que mais fazia Jesus sofrer. Quando seus discípulos lhe pediram que os ensinasse a rezar, saíram do mais íntimo de Jesus essas duas petições: “Pai, dá-nos hoje o pão necessário”; “Pai, perdoa-nos as nossas dívidas, pois também nós perdoamos aos que nos devem alguma coisa”.

O que podiam fazer contra a fome que os destruía e contra as dívidas que os levavam a perder suas terras? Jesus via com clareza a vontade de Deus: compartilhar o pouco que tinham e perdoar-se mutuamente as dívidas. Só assim nasceria um mundo novo.

As fontes cristãs conservaram a lembrança de uma refeição memorável com Jesus. Foi num descampado e muita gente tomou parte. É difícil reconstituir o que aconteceu. A lembrança que permaneceu foi esta: entre a multidão só foram recolhidos “cinco pães e dois peixes”, mas compartilharam o pouco que tinham e, com a bênção de Jesus, todos puderam comer.

No começo do relato ocorre um diálogo muito esclarecedor. Ao ver a multidão faminta, os discípulos propõem a solução mais cômoda e menos comprometida: “que possam ir às aldeias e comprar o que comer”; que cada um resolva seus problemas como puder. Jesus lhes responde chamando-os à responsabilidade: “Dai-lhes vós de comer”; não deixeis os famintos abandonados à sua sorte.

Não devemos esquecer que, se vivemos de costas para os famintos do mundo, perdemos a nossa identidade cristã. Não somos fiéis a Jesus. Falta às nossas ceias eucarísticas sua sensibilidade e seu horizonte, falta-lhes compaixão. Como se transforma uma religião como a nossa em um movimento de seguidores mais fiel a Jesus?

Em primeiro lugar, não perder sua perspectiva fundamental: deixar-nos afetar mais e mais pelo sofrimento daqueles que não sabem o que é viver com pão e dignidade. Em segundo lugar, comprometer-nos em pequenas iniciativas, concretas, modestas, parciais, que nos ensinem a compartilhar e nos identifiquem mais com o modo de agir de Jesus.


JOSÉ ANTONIO PAGOLA cursou Teologia e Ciências Bíblicas na Pontifícia Universidade Gregoriana, no Pontifício Instituto Bíblico de Roma e na Escola Bíblica e Arqueológica Francesa de Jerusalém. É autor de diversas obras de teologia, pastoral e cristologia. Atualmente é diretor do Instituto de Teologia e Pastoral de São Sebastião. Este comentário é do livro “O Caminho Aberto por Jesus”, da Editora Vozes.

O Reino de Deus e o pão do povo

Pe. Johan Konings

O evangelho conta que Jesus se retira de sua cidade para outro lugar à beira do lago, e as multidões saem à sua procura. Movido de compaixão, Jesus cura os doentes no meio da multidão. Depois, na hora da janta, não quer que o povo vá embora com fome.

Manda que os discípulos, com sua pequena reserva de cinco pães e dois peixes, alimentem a multidão. E saciam os cinco mil homens, sem contar mulheres e crianças…

Trata-se de um gesto profético de Jesus. O profeta Isaías tinha anunciado pão de graça (1ª leitura): o pão da sabedoria, da palavra, da instrução da Lei. Jesus “põe em prática” essa palavra profética, acrescentando também o pão material. A multiplicação do pão material mostra que Jesus nos alimenta com o pão que vem de Deus, sua palavra, a mensagem do Reino. É um gesto que inaugura o Reino. O pão material é o primeiro fruto do pão da Palavra…

Se a Igreja prega a Palavra, cabe-lhe também realizar gestos proféticos. Existem bastantes famintos para que se justifique um novo “sinal do pão”, que realize, por um exemplo material, algo do Reino anunciado por Jesus. Não podemos falar do amor de Deus, se não realizamos a justiça material (e vital) para a multidão, assim como Jesus dela teve “compaixão”. A fome de Deus será sempre o mais importante, mas fome do pão é o mais urgente. O pão material não é o dom último, mas é um “aperitivo do Reino”. (Por isso devemos cuidar que ela tenha o gostinho do Reino e não do materialismo).

Na multiplicação dos pães, Jesus envolveu os discípulos em sua atuação; são eles que devem dar de comer à multidão. Seu lanche é insuficiente; mas, enquanto o repartem, Jesus faz com que seja até mais do que suficiente. “Vós mesmos, dai-lhes de comer…” Não devemos aguardar até que o pão caia do céu. Devemos começar a repartir o que temos (economia da partilha versus economia de monopólio e de capitalização). Assim falaremos do Reino pelas nossas ações.

No Pai-nosso, rezamos pedindo o “pão de cada dia”. Tudo é dom de Deus, também essa coisa mais elementar. O amor de Deus seria questionável, se Deus não nos desse o necessário para viver. Mas quem deve distribuir é a gente. Nosso empenho pelo pão cotidiano de todos dá credibilidade ao Reino de Deus.


PE. JOHAN KONINGS nasceu na Bélgica em 1941, onde se tornou Doutor em Teologia pela Universidade Católica de Lovaina, ligado ao Colégio para a América Latina (Fidei Donum). Veio ao Brasil, como sacerdote diocesano, em 1972. Em 1985 entrou na Companhia de Jesus (Jesuítas) e, desde 1986, atua como professor de exegese bíblica na FAJE, Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia, em Belo Horizonte. Este comentário é do livro “Liturgia Dominical, Editora Vozes.

Reflexão em vídeo de Frei Gustavo Medella