Vida Cristã - Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil - OFM

17º Domingo do Tempo Comum

17º Domingo do Tempo Comum

Pão em todas as mesas

 

Frei Gustavo Medella

Será que é sonhar demais?
É pecado, é idealismo, é comunismo imaginar um mundo onde todas as pessoas tenham o direito de se alimentar com decência, fazendo todas as refeições por dia com qualidade e na quantidade necessária?

É justo e normal viver num mundo onde hiperbilionários que não sabem mais onde investir tanto dinheiro comecem a se aventurar em rápidas incursões pelo espaço sideral num passeio cujo bilhete custa milhões, enquanto bilhões de paupérrimos precisam contar as moedas para comprar um punhado de fragmentos de arroz e um pouco de remoído para cães a fim de oferecer aos filhos?

No episódio do Evangelho, será que errado foi o menino que, com coragem, colocou à disposição da multidão os poucos pães e peixes que possuía para seu consumo?

Ou foi Jesus que, ao agir com generosidade e promover o milagre da multiplicação, acabou acostumando mal aquela “tropa” que, “em vez de trabalhar, esperava a comida vir do céu”?

Onde foi que a humanidade errou?

Onde foi que erramos?


FREI GUSTAVO MEDELLA, OFM, é o atual Vigário Provincial e Secretário para a Evangelização da Província Franciscana da Imaculada Conceição. Fez a profissão solene na Ordem dos Frades Menores em 2010 e foi ordenado presbítero em 2 de julho de 2011.


Imagem ilustrativa de Frei Fábio Melo Vasconcelos

Leituras bíblicas deste domingo

Primeira Leitura: 2Rs 4,42-44

Naqueles dias, 42veio também um homem de Baal-Salisa, trazendo em seu alforje para Eliseu, o homem de Deus, pães dos primeiros frutos da terra: eram vinte pães de cevada e trigo novo. E Eliseu disse: “Dá ao povo para que coma”.

43Mas o seu servo respondeu: “Como vou distribuir tão pouco para cem pessoas?” Eliseu disse outra vez: “Dá ao povo para que coma; pois assim diz o Senhor: ‘Comerão e ainda sobrará’”.

44O homem distribuiu e ainda sobrou, conforme a palavra do Senhor.

– Palavra do Senhor.


Responsório: Sl 144

— Saciai os vossos filhos, ó Senhor!

— Saciai os vossos filhos, ó Senhor!

— Que vossas obras, ó Senhor, vos glorifiquem,/ e os vossos santos com louvores vos bendigam!/ Narrem a glória e o esplendor do vosso reino/ e saibam proclamar vosso poder!

— Todos os olhos, ó Senhor, em vós esperam/ e vós lhes dais no tempo certo o alimento;/ vós abris a vossa mão prodigamente/ e saciais todo ser vivo com fartura.

— É justo o Senhor em seus caminhos,/ é santo em toda obra que ele faz./ Ele está perto da pessoa que o invoca,/ de todo aquele que o invoca lealmente.


Segunda Leitura: Ef 4,1-6

Irmãos: 1Eu, prisioneiro no Senhor, vos exorto a caminhardes de acordo com a vocação que recebestes; 2com toda a humildade e mansidão, suportai-vos uns aos outros com paciência, no amor.

3Aplicai-vos a guardar a unidade do Espírito pelo vínculo da paz. 4Há um só Corpo e um só Espírito, como também é uma só a esperança à qual fostes chamados.

5Há um só Senhor, uma só fé, um só batismo, 6um só Deus e Pai de todos, que reina sobre todos, age por meio de todos e permanece em todos.

– Palavra do Senhor.


Jesus sacia a fome do povo
Evangelho: Jo 6,1-15

-* 1 Depois disso, Jesus foi para a outra margem do mar da Galiléia, também chamado Tiberíades. 2 Uma grande multidão seguia Jesus porque as pessoas viram os sinais que ele fazia, curando os doentes. 3 Jesus subiu a montanha e sentou-se aí com seus discípulos. 4 Estava próxima a Páscoa, festa dos judeus. 5 Jesus ergueu os olhos e viu uma grande multidão que vinha ao seu encontro.

Então Jesus disse a Filipe: «Onde vamos comprar pão para eles comerem?» 6 Jesus falou assim para testar Filipe, pois sabia muito bem o que ia fazer. 7 Filipe respondeu: «Nem meio ano de salário bastaria para dar um pedaço para cada um.» 8 Um discípulo de Jesus, André, o irmão de Simão Pedro, disse: 9 «Aqui há um rapaz que tem cinco pães de cevada e dois peixes. Mas, o que é isso para tanta gente?»

10 Então Jesus disse: «Falem para o povo sentar.» Havia muita grama nesse lugar e todos sentaram. Estavam aí cinco mil pessoas, mais ou menos. 11 Jesus pegou os pães, agradeceu a Deus e distribuiu aos que estavam sentados. Fez a mesma coisa com os peixes. E todos comeram o quanto queriam. 12 Quando ficaram satisfeitos, Jesus disse aos discípulos: «Recolham os pedaços que sobraram, para não se desperdiçar nada.» 13 Eles recolheram os pedaços e encheram doze cestos com as sobras dos cinco pães que haviam comido.

14 As pessoas viram o sinal que Jesus tinha realizado e disseram: «Este é mesmo o Profeta que devia vir ao mundo.» 15 Mas Jesus percebeu que iam pegá-lo para fazê-lo rei. Então ele se retirou sozinho, de novo, para a montanha.

* 6,1-15: Jesus propõe a missão da sua comunidade: ser sinal do amor generoso de Deus, assegurando para todos a possibilidade de subsistência e dignidade. A segurança da subsistência não está no muito que poucos possuem e retêm para si, mas no pouco de cada um que é repartido entre todos. A garantia da dignidade não se encontra no poder de um líder que manda, mas no serviço de cada um que organiza a comunidade para o bem de todos.

Bíblia Sagrada – Edição Pastoral

Reflexão do exegeta Frei Ludovico Garmus

17º Domingo do Tempo Comum

Oração: “Ó Deus, sois o amparo dos que em vós esperam e, sem vosso auxílio, ninguém é forte, ninguém é santo; redobrai de amor para conosco, para que, conduzidos por vós, usemos de tal modo os bens que passam, que possamos abraçar os que não passam”.

  1. Primeira leitura: 2Rs 4,42-44

Comerão e ainda sobrará.

O profeta Eliseu era discípulo do grande profeta Elias. Quando Elias, no final de sua missão, foi arrebatado ao céu, Eliseu tornou-se o sucessor e passou a conviver com três grupos de “filhos de profeta”, isto é, seguidores de seu mestre Elias (2Rs 2,1-8). Eram pobres e viviam no meio dos pobres, em tempos de guerra, sofrimento e muita pobreza. Eles ajudavam o povo na luta pela sobrevivência, animando-os a permanecer fiéis ao Deus de Israel e recebiam esmolas para sobreviver. Em tempos de crise e guerras, são sempre os mais pobres que mais sofrem, mas também têm mais facilidade de partilhar os frutos de seu trabalho com seus irmãos do que os ricos. Assim aconteceu com o camponês da primeira leitura deste domingo. Para agradecer a Deus pela boa colheita, ele ofereceu os primeiros pães para a comunidade pobre de Eliseu. Eram vinte pães de cevada (pão dos pobres) e podiam matar a fome dos cinquenta profetas de Eliseu. De repente, vieram mais cinquenta “filhos de profeta” de uma comunidade vizinha, também famintos. E Eliseu mandou servir os pães, primeiro aos visitantes. Um discípulo reclamou com Eliseu e disse: “Como vou distribuir tão pouco para cem pessoas”? Mas Eliseu insistiu: “Dá ao povo que coma; pois assim diz o Senhor: Comerão e ainda sobrará” (Evangelho). – Os pobres têm muita confiança em Deus e nos ensinam a partilhar (cf. Mt 6,25-34; Lc 12,22-34).

Salmo responsorial: Sl 144

Saciai os vossos filhos, ó Senhor!

  1. Segunda leitura: Ef 4,1-6

Há um só corpo, um só Senhor,

uma só fé, um só batismo.

O apóstolo Paulo escreve esta Carta quando está preso por pregar Jesus Cristo. Mesmo assim continua pregando da prisão por meio de cartas. Considera-se chamado por Deus, assim como os efésios, e os exorta a caminharem firmes na fé em Cristo. O que interessa é viver a fé no amor e na paciência, unidos por meio de Cristo como um único corpo, onde cada membro tem a sua função. Unidos como Cristo, com o Espírito Santo e o Pai. Quando estamos nesta união com a Trindade Santíssima, Deus “reina sobre nós, age por meio de nós e permanece em todos”. 

Aclamação ao Evangelho

   Um grande profeta surgiu, surgiu e entre nós se mostrou;

            é que Deus seu povo visita, seu povo meu Deus visitou.

  1. Evangelho: Jo 6,1-15

Distribuiu-o aos que estavam sentados, tanto quanto queriam.

A narrativa de Jo 6,1-58 contém um “sinal” (v. 1-15) – a multiplicação/divisão dos pães – seguido de um discurso que explica o significado deste sinal. João não fala de milagres de Jesus, mas de sinais que apontam para um sentido mais profundo. O evangelho deste domingo nos conta apenas o sinal. Jesus vai para o outro lado do Mar (lago) de Tiberíades e o povo o segue pela margem, por causa das curas que Ele fazia. Jesus está sentado num monte com os discípulos e vê uma grande multidão, vindo ao seu encontro. Era um povo sedento dos ensinamentos de Jesus, mas também, cansado e faminto. Dois discípulos entram em cena. Jesus sabia o que ia e devia fazer, e provoca a Filipe: “Onde vamos comprar pão para que eles possam comer”? – Filipe é o único discípulo que Jesus chamou pessoalmente (Jo 1,43-44) –. Quando Jesus vê a multidão e pergunta como dar de comer a essa gente, está perguntando e provando a mim e a você. Filipe calculou e disse: “Nem duzentas moedas de prata (mais de seis meses do ganho de um diarista!) bastariam para dar um pedaço de pão para cada um”. Nisso, André informou: “Está aqui um menino com cinco pães de cevada e dois peixes. Mas o que é isso para tanta gente?” – Jesus mandou todo mundo sentar-se na grama, pegou os pães e os peixes que o menino oferecia, agradeceu a Deus e começou a distribuir aos que estavam sentados, “tanto quanto queriam”, e fez o mesmo com os peixes. Eram cinco mil homens que comeram, sem contar mulheres e crianças. Vendo isso, o povo dizia que Jesus era o Profeta esperado (primeira leitura) e logo queriam proclamar Jesus com rei; mas ele se retirou.

O que você faria se Jesus lhe perguntasse: “Onde vamos comprar pão para que eles (a multidão) possam comer?” Iria fazer cálculos, como Filipe, para saber quanto dinheiro seria preciso para comprar o pão? Ou, como André, procuraria alguém que tivesse pão? Ou faria como o menino que apresentou a Jesus cinco pães e dois peixes? Jesus não veio para resolver sozinho o problema do pão, como pensava o povo, querendo proclamá-lo como rei. Jesus nos ensina a ver o problema do pão com os olhos de Deus. Provoca-nos a buscar a solução juntos, em comunidade; por isso diz “onde vamos comprar pão”. Filipe colaborou do seu jeito, calculando quando dinheiro seria necessário, mas ninguém tinha esse dinheiro. André procurou pão entre o povo e encontrou o pobre menino com cinco pães e dois peixinhos, mas achava que com isso seria impossível saciar a fome de tanta gente. O menino, na sua inocência, apresentou os pães a Jesus e Jesus os dividiu, todos comeram e ainda sobraram doze cestas cheias dos restos que sobraram. A proposta de Jesus é a partilha do pão. Esse é o milagre que juntos podemos fazer.


FREI LUDOVICO GARMUS, OFMé professor de Exegese Bíblica do Instituto Teológico Franciscano de Petrópolis (RJ). Fez mestrado em Sagrada Escritura, em Roma, e doutorado em Teologia Bíblica pelo Studium Biblicum Franciscanum de Jerusalém, do Pontifício Ateneu Antoniano. É diretor industrial da Editora Vozes e editor da Revista “Estudos Bíblicos”, editada pela Vozes. Entre seus trabalhos está a coordenação geral e tradução da Bíblia Sagrada da Vozes.

Jesus assumiu em si todos os símbolos do pão

Frei Clarêncio Neotti

O sexto símbolo é o próprio pão, elemento encontradiço em quase todos os livros da Bíblia. Era o principal alimento dos israelitas. Os pobres comiam, sobretudo, o pão de cevada (v. 9), os ricos comiam o pão de trigo. Dos quatro Evangelistas, João é o único a dizer que o pão era de cevada, isto é, pão de pobre. Talvez sugerindo uma comparação com a multiplicação dos pães de cevada feita por Eliseu, como encontramos na primeira leitura de hoje (2Rs 4,42-44). O profeta com pães alimentara cem pessoas. Jesus, com cinco, alimenta cinco mil. Logo mais, promete com um só, seu corpo, alimentar a todos, em todos os tempos e lugares.

Misturava-se muita coisa no pão, conforme o gosto e a técnica de cada família. Desde muito cedo a farinha ou o pão eram elementos para o sacrifício. Muitas vezes, no Antigo Testamento, o pão tinha forte carga simbólica, a começar com os pães da proposição: sobre uma mesa preciosa, revestida de ouro, no santuário, permaneciam doze pães (Êx 25,30), considerados sagrados, mudados aos sábados, feitos da flor da farinha e que só os sacerdotes podiam comer (Lv 24,5-9). Sabe-se, pela história, que nos banquetes oferecidos aos visitantes, nos tempos mais antigos do judaísmo, a refeição começava com a bênção do pão, pronunciada pelo dono da casa: “Louvado sejas, Javé, nosso Deus, Rei do mundo, que fazes crescer o pão da terra”. E todos respondiam: ‘Amém’. Então, o dono da casa partia o pão e o distribuía a todos. Era o pão da amizade. Jesus veio repetir esse gesto como dono da casa da nova família. Ele, nosso Deus, Senhor e Rei, vai dar-se como pão. Pão da fraternidade. Pão da salvação. Pão da nova e eterna aliança. Pão da vida sem-fim.


FREI CLARÊNCIO NEOTTI, OFMentrou na Ordem Franciscana no dia 23 de dezembro de 1954. Durante 20 anos, trabalhou na Editora Vozes, em Petrópolis. É membro fundador da União dos Editores Franciscanos e vigário paroquial no Santuário do Divino Espírito Santo (ES). Escritor e jornalista, é autor de vários livros e este comentário é do livro “Ministério da Palavra – Comentários aos Evangelhos dominicais e Festivos”, da Editora Santuário.

Uma vida a ser partilhada, um pão a ser repartido

Frei Almir Guimarães

Neste domingo e nos dois seguintes guardamos o evangelho de Marcos e tomamos o de João. Somos convidados a fazer uma longa meditação sobre o Pão da Vida. Estamos diante de uma peça das mais elaboradas do quarto evangelho. “O episódio da multiplicação dos pães gozou de grande popularidade entre os seguidores de Jesus. Todos os evangelistas o relatam. Certamente comoviam-se ao pensar que aquele homem de Deus se havia preocupado em alimentar uma multidão que estava com fome e não tinham o que comer” (Pagola).

♦ Pão, alimento, fruto da terra, necessário para viver. Pão que é simplesmente símbolo tudo o que nutre. Ao longo da leitura de João seremos levados até Jesus que vai declarar: “Eu sou o pão da vida”. Que força nessas palavras: o Pão da Vida! Há pessoas que passaram a andar no seguimento de Jesus quando ouviram estas palavras no fundo de seu ser no momento em que foram tomadas de uma fome visceral de plenitude.

♦ Pão, realidade cotidiana. Pão francês, pão de forma, bisnaga, pão alemão, pão feito em casa. Longa trajetória até chegar à nossa mesa. Um campo remexido, sementes lançadas, chuva e sol, tempo necessário para a plantinha sair da terra, fase crescimento e da colheita. Semeadura, recolta, moagem, caminhoneiros, entrepostos, cozinha, padaria, padeiro… pão do café da manhã longa historia. Pão, fruto da generosidade da Mãe Terra e do suor dos homens. Pão que a todos se destina. Pão partilhado. Que bonito ver uma cesta de vime cheia de pães coberta com um delicada toalha, cada um tomando sua fatia, ou sua porção. O pão é de todos. Precisa ser partilhado para manifestar todo o seu esplendor. Fruto da terra e do labor de tantos.

♦ Pão, símbolo de tudo o que nos nutre. Mesas fartas, mesas com apenas e tão-somente o necessário para sobreviver ou um pouco mais, mesas sempre limpas sem pratos, talheres e sem pão. Ausência de pão. Pão desperdiçado, jogado no lixo, comido pelos ratos. Sociedade do consumo que joga fora a comida que sobrou. Sociedade indiferente ao outro. Mãos de todas as cores, sujas: “Pelo amor de Deus, um pedaço de pão”. Há os que se alimentam de ilusões, uma ilusão atrás da outra, cuja vida é raquítica. Os mais antigos lembramo-nos do tempo da guerra quando o trigo era racionado e recebia-se tíquetes para receber uma pequena porção de pão. “O pão nosso de cada dia nos dai hoje”.

♦ Há, pois, essa fome do pão que nutre o corpo. Há todo um empenho, também da comunidade eclesial, com pequenas e mais grandiosas iniciativas, de cuidar do que têm fome. No fundo a questão é partilhar o que temos e o que somos. Quando Jesus opera a multiplicação dos pães pensa em Deus. Não é possível crer em Deus como Pai de todos e deixar seus filhos morrer de fome. Imagens de nossos interiores e favelas são terríveis. A atitude de Jesus é a mais simples e humana que podemos imaginar. Quem nos ensinará a compartilhar, se só sabemos acumular? Quem vai libertar-nos de nossa indiferença, diante dos que morrem de fome?

♦ A fome manifesta a necessidade que se tem de alimento. É uma sorte de sinal de alarme indicando que nosso estômago está vazio e que nosso organismo perdeu suas forças. O alimento se torna urgentíssimo.

♦ Há também uma outra fome: fome de Deus. Fome de encontrar de maneira muito concreta um nutrimento que sacie nossos anseios de plenitude: desejo de ter um rosto transparente, de ser profundamente bom a partir de nosso interior. Felizes os que não perderam o desejo de ir adiante na sua busca de Deus. Os homens retos nunca estão satisfeitos com os resultados adquiridos. A samaritana que encontrou Jesus na beira do poço sentiu uma sede de água e de pão diferente. Felizes os santamente inquietos.

♦ O homem não vive só de pão. Jesus disse: “Meu alimento e fazer a vontade daquele que me enviou e consumar sua obra” (Jo 4, 32). Trata-se de vidas de pessoas pobres por dentro, que sabem que tudo nelas é dom. Em toda sua vida buscam o coração de Deus, alimentam-se dele. Jesus deseja que seus discípulos tenham também esse alimento: fazer a vontade do Pai de Jesus e nosso Pai. Podemos dizer com serenidade que nosso alimento é fazer a vontade do Pai?


Para reflexão
Irmãos, não sejamos maus ecônomos dos bens que nos foram confiados se não quisermos ouvir o duro alerta de Pedro: “Deveis vos envergonhar, vós que retendes os bens dos outros”. Não nos matemos em ajuntar dinheiro quando nossos irmãos morrem de fome. Às criaturas que vivem na terra, Deus deu imensos espaços, fontes, rios e floretas. Seus dons não podem ser açambarcados pelos fortes ou pelos Estados. Tudo é comum. Tudo existe em abundância.

Os homens amealharam em seus cofres ouro e prata, roupas suntuosas ou inúteis. Uma doida arrogância endurece seus corações: nada de piedade para com os irmãos precisando de socorro. Segui não a lei dos fortes, mas a do Criador. Socorrei à natureza, respeita as pessoas, ide ao encontro dos doentes, arrancai as pessoas da pobreza. O homem possui a faculdade de fazer o bem em comum com Deus.

Vós que sois servidores de Cristo, seus irmãos e seus coerdeiros, enquanto não for tarde demais socorrei a Cristo, alimentai o Cristo, revesti-vos de Cristo, acolhei o Cristo, honrai o Cristo

São Gregório de Nazianzo (IV sec.)


FREI ALMIR GUIMARÃES, OFMingressou na Ordem Franciscana em 1958. Estudou catequese e pastoral no Institut Catholique de Paris, a partir de 1966, período em que fez licenciatura em Teologia. Em 1974, voltou a Paris para se doutorar em Teologia. Tem diversas obras sobre espiritualidade, sobretudo na área da Pastoral familiar. É o editor da Revista “Grande Sinal”.

Compartilhar o pão

José Antonio Pagola

Nenhum evangelista sublinhou tanto como João o caráter eucarístico da “multiplicação dos pães”. Seu relato evoca claramente a celebração eucarística das primeiras comunidades. Para os primeiros crentes, a Eucaristia não era só a lembrança da morte e ressurreição do Senhor. Era, ao mesmo tempo, uma “vivência antecipada da fraternidade do reino”.

Durante muitos anos insistimos tanto na dimensão sacrificial da Eucaristia que acabamos esquecendo outros aspectos da ceia do Senhor. Talvez hoje tenhamos que recordar com mais força que esta ceia é sinal da comunhão e fraternidade que devemos promover entre nós e que alcançará sua verdadeira plenitude na consumação do reino. A Eucaristia deveria ser para os crentes um convite constante a viver compartilhando o que é nosso com os necessitados, mesmo que sejam apenas “cinco pães e dois peixes”.

A Eucaristia nos obriga a perguntar-nos que relações existem entre aqueles que a celebram, pois sendo “sinal de comunhão fraterna”, converte-se em farsa quando nela participam todos, tanto os que vivem satisfeitos em seu bem-estar como os que passam necessidade, os que se aproveitam dos outros como os marginalizados, sem que a celebração pareça questionar ninguém seriamente.

Às vezes nos preocupa se o celebrante pronunciou as palavras prescritas no ritual. Chegamos ao ponto de criar problema se devemos receber a hóstia sagrada na boca ou na mão. E, ao mesmo tempo, parece que pouco nos preocupa a celebração de uma Eucaristia que não é sinal de verdadeira fraternidade, nem impulso para buscá-la.

E, não obstante, há algo que aparece bem claro na tradição da Igreja: “Quando falta a fraternidade, sobra a Eucaristia” (Luis González-Carvajal). Quando não há justiça, quando não se vive de maneira solidária, quando não se trabalha para mudar as coisas, quando não se vê esforço para compartilhar os problemas dos que sofrem, a celebração eucarística se esvazia de sentido. Com isto não se quer dizer que só quando vivermos entre nós uma fraternidade verdadeira poderemos celebrar a Eucaristia. Não temos que esperar desaparecer a última injustiça para podermos celebrá-la, mas também não podemos continuar a celebrá-la, sem que ela nos impulsione a comprometer-nos por um mundo mais justo.


JOSÉ ANTONIO PAGOLA cursou Teologia e Ciências Bíblicas na Pontifícia Universidade Gregoriana, no Pontifício Instituto Bíblico de Roma e na Escola Bíblica e Arqueológica Francesa de Jerusalém. É autor de diversas obras de teologia, pastoral e cristologia. Atualmente é diretor do Instituto de Teologia e Pastoral de São Sebastião. Este comentário é do livro “O Caminho Aberto por Jesus”, da Editora Vozes.

O pão da multidão e a voz da Igreja

Pe. Johan Konings

Em certa sociedade é comum ouvir-se críticas à ação social da Igreja e, muito mais, às suas declarações sobre a política econômica. Julga-se que a Igreja não deve tocar em assuntos “temporais”, mas ocupar-se com o “espiritual”. Mas a violência, a impunidade, a falta de saúde e educação, a fome de grande parte da população não dizem respeito ao Reino de Deus que Jesus veio anunciar e inaugurar e que a Igreja pretende atualizar?

No domingo passado, Mc descreveu a chegada de Jesus diante da multidão: compadeceu-se deles, porque eram como ovelhas sem pastor. E começou a ensinar, com a consequência de que, no fim do dia, teve de alimentar a multidão. Hoje, para descrever esse gesto, a liturgia prefere dar a palavra ao evangelista João (evangelho), porque nos domingos seguintes vai continuar o “sermão do Pão da Vida”, que não está em Mc.

A maneira em que João apresenta a multiplicação dos pães salienta que Jesus não agiu surpreendido pelas circunstâncias (a hora avançada), mas porque ele quis apresentar pão

ao povo (Jô 6,5-6) – para depois mostrar qual é o verdadeiro “pão”. Se em Mc Jesus manda os discípulos distribuir o pão (exemplo para a Igreja), João diz que Jesus mesmo o distribui, para acentuar que o pão é o dom de Jesus. E, no fim, João menciona que o povo quer proclamar Jesus rei (messias), mas Jesus se retira, sozinho, na região montanhosa (Jô 6,14-15).

Este último traço é muito significativo. Jesus não veio propriamente para distribuir cestas básicas e ser eleito prefeito, para resolver os problemas materiais do povo. Isso é apenas um “sinal” que acompanha sua missão. Para resolver problemas materiais do povo há meios à disposição, desde que as pessoas ajam com responsabilidade e justiça. Mas para que isso aconteça, é preciso algo mais fundamental: que conheçam o Deus de amor e justiça que se revela em Jesus. E é para isso que Jesus vai pronunciar o sermão do Pão da vida, como veremos nos próximos domingos.

A preocupação social da Igreja deve pautar-se por essa linha. Para resolver os problemas econômicos e sociais não é preciso vir o Filho de Deus ao mundo. Os meios estão aí. O Brasil é rico; é só ter pessoas justas, sensíveis às necessidades do povo, para bem gerenciar essa riqueza. Mas a missão da Igreja é em primeiro lugar colocar os responsáveis diante da vontade de Deus, como Jesus fez. E criar uma comunidade em que as pessoas vivam como Jesus ensinou.

Isso não significa pregar ingenuamente a “boa vontade”, sem fazer nada que obrigue as pessoas a pô-la em prática. Somos todos filhos de Adão, portadores de pecado desde a origem. Quem diz que não tem pecado fala mentira (1Jo 1,8-10). A boa vontade de usar bem os meios econômicos segundo a justiça social precisa de leis que funcionem, de mecanismos econômicos e de “estruturas” que os reproduzam, para amarrar essa boa vontade e realizações concretas. Não é o papel da Igreja inventar e implantar tais mecanismos, assim como Jesus não se transformou em fornecedor de pão e de bem-estar. Mas a Igreja tem de mostrar o rosto de Deus, que é Pai de todos e deseja que nos tratemos como irmãos. E para isso ela não pode deixar de apontar quais são as responsabilidades concretas.


PE. JOHAN KONINGS nasceu na Bélgica em 1941, onde se tornou Doutor em Teologia pela Universidade Católica de Lovaina, ligado ao Colégio para a América Latina (Fidei Donum). Veio ao Brasil, como sacerdote diocesano, em 1972. Em 1985 entrou na Companhia de Jesus (Jesuítas) e, desde 1986, atua como professor de exegese bíblica na FAJE, Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia, em Belo Horizonte. Este comentário é do livro “Liturgia Dominical, Editora Vozes.

Reflexão em vídeo de Frei Gustavo Medella