Vida Cristã - Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil - OFM

14º Domingo do Tempo Comum

14º Domingo do Tempo Comum

A simplicidade é a arte do discípulo para celebrar pequenas vitórias

 

Frei Gustavo Medella

Mt 11, 25-30. Apenas seis versículos que apresentam uma só fala de Jesus. No entanto, neste curto trecho o Mestre apresenta uma conclusão central de seu próprio discernimento orante (vv. 25-26), revela aos discípulos sua proximidade total com o Pai (v. 27), oferece a seus seguidores a força e o descanso de que necessitam (v. 28) e os convida a carregar com Ele o fardo do amor serviço, jugo suave que deve ser suportado com humildade e mansidão (v. 29).

A conclusão do discernimento orante de Jesus

No decorrer de sua missão, Jesus venceu diversas tentações que, no texto bíblico, vêm condensadas no conhecido episódio dos quarenta dias que passou no deserto em oração e jejum (Mt 4,1-11Mc 1,12-13 e Lc 4,1-13). Esta luta interior serviu para que o Pai confirmasse no coração do Filho que o caminho da Salvação passa pela simplicidade. Depor o fardo do egoísmo, dos sonhos de grandeza e autossuficiência, do acúmulo ilimitado de bens e da busca do sucesso a qualquer custo é libertar o próprio coração para que seja tomado pelo encanto do Senhor. A simplicidade é a arte que permite ao discípulo celebrar as pequenas vitórias, vibrar com as sutilezas da missão e adquirir as forças necessárias para carregar o fardo da existência que, suportado com amor, torna-se leve e suave.

A revelação da intimidade com o Pai

Ao encarnar a simplicidade como meta e método, Jesus descobre-se íntimo com o Pai. O despojamento corajoso do Mestre permitiu a Ele não reservar nada para si, abrindo em seu interior o espaço necessário para que Ele fosse todo do Pai e o Pai, por sua vez, lhe entregasse tudo. – “Mas tudo não seria coisa demais?”, poderia um desaviado se perguntar. Certamente, Jesus não se refere a “coisas”, nem a títulos de propriedade, nem a poderio militar, mas a uma herança de simplicidade total em vista da missão: “curar doentes, reerguer caídos, libertar cativos, instaurar a justiça”. Jesus é o Rei Justo que vem ao encontro de seu povo sem nenhuma pompa, conforme descrito pelo Profeta Zacarias (Zc 9,9).

A oferta de alento e descanso

Livre de qualquer ambição, Jesus se torna capaz de oferecer tudo que tem, e mais, oferece a si mesmo. No abraço acolhedor da simplicidade absoluta cabem as lutas e os cansaços de todo mundo, sem exceção. Basta à pessoa o desejo sincero de aninhar no coração do Mestre suas dores e medos mais íntimos para receber a cura de que tanto necessita.

O convite à missão

O alento e a força que Jesus oferece aos seus são totalmente gratuitos e incondicionais. No entanto, à medida que o discípulo se sente forte e curado em Cristo, percebe também que sua força e cura se efetivam à medida que ele, em seu discipulado, busque exercitar a mesma ousadia generosa do Mestre. Por isso, partir em missão para amar e servir não é um preço ou uma retribuição que Deus cobre daqueles de quem cuida, mas fruto da tomada de consciência daquele que se percebe cuidado e, justamente por isso, também enviado a ser testemunha do Reino – aquele mesmo, do Rei simples, despojado, justo e salvador, nosso Senhor Jesus Cristo.


FREI GUSTAVO MEDELLA, OFM, é o atual Vigário Provincial e Secretário para a Evangelização da Província Franciscana da Imaculada Conceição. Fez a profissão solene na Ordem dos Frades Menores em 2010 e foi ordenado presbítero em 2 de julho de 2011.

Textos bíblicos deste domingo

Primeira Leitura: Zc 9,9-10

Assim diz o Senhor: 9“Exulta, cidade de Sião! Rejubila, cidade de Jerusalém. Eis que vem teu rei ao teu encontro; ele é justo, ele salva; é humilde e vem montado num jumento, um potro, cria da jumenta. 10Eliminará os carros de Efraim, os cavalos de Jerusalém; ele quebrará o arco de guerreiro, anunciará a paz às nações. Seu domínio se estenderá de um mar a outro mar, e desde o rio até aos confins da terra”.


Salmo Responsorial: Sl 144

— Bendirei, eternamente, vosso nome, ó Senhor!

— Bendirei, eternamente, vosso nome, ó Senhor!

— Ó meu Deus, quero exaltar-vos, ó meu Rei,/ e bendizer o vosso nome pelos séculos./ Todos os dias haverei de bendizer-vos,/ hei de louvar o vosso nome para sempre.

— Misericórdia e piedade é o Senhor,/ ele é amor, é paciência, é compaixão./ O Senhor é muito bom para com todos,/ sua ternura abraça toda criatura.

— Que vossas obras, ó Senhor, vos glorifiquem,/ e os vossos santos com louvores vos bendigam!/ Narrem a glória e o esplendor do vosso reino/ e saibam proclamar vosso poder!

— O Senhor é amor fiel em sua palavra,/ é santidade em toda obra que ele faz./ Ele sustenta todo aquele que vacila/ e levanta todo aquele que tombou.


Segunda Leitura: Rm 8,9.11-13

Irmãos: 9Vós não viveis segundo a carne, mas segundo o espírito, se realmente o Espírito de Deus mora em vós. Se alguém não tem o Espírito de Cristo, não pertence a Cristo.

11E, se o Espírito daquele que ressuscitou Jesus dentre os mortos mora em vós, então aquele que ressuscitou Jesus Cristo dentre os mortos vivificará também vossos corpos mortais por meio do seu Espírito que mora em vós. 12Portanto, irmãos, temos uma dívida, mas não para com a carne, para vivermos segundo a carne. 13Pois, se viverdes segundo a carne, morrereis, mas se, pelo Espírito, matardes o procedimento carnal, então vivereis.


Evangelho: Mt 11,25-30

* 25 Naquele tempo, Jesus disse: «Eu te louvo, Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste essas coisas aos sábios e inteligentes, e as revelaste aos pequeninos. 26 Sim, Pai, porque assim foi do teu agrado. 27 Meu Pai entregou tudo a mim. Ninguém conhece o Filho, a não ser o Pai, e ninguém conhece o Pai, a não ser o Filho e aquele a quem o Filho quiser revelar.

28 Venham para mim todos vocês que estão cansados de carregar o peso do seu fardo, e eu lhes darei descanso. 29 Carreguem a minha carga e aprendam de mim, porque sou manso e humilde de coração, e vocês encontrarão descanso para suas vidas. 30 Porque a minha carga é suave e o meu fardo é leve.»

* 25-30: Com sua palavra e ação, Jesus revela a vontade do Pai, que é instaurar o Reino. Contudo, os sábios e inteligentes não são capazes de perceber a presença do Reino e sua justiça através de Jesus. Ao contrário, os desfavorecidos e os pobres é que conseguem penetrar o sentido dessa atividade de Jesus e continuá-la. Jesus veio tirar a carga pesada que os sábios e inteligentes haviam criado para o povo. Em troca, ele traz novo modo de viver na justiça e na misericórdia: doravante, os pobres serão evangelizados e partirão para evangelizar.

Bíblia Sagrada – Edição Pastoral

Reflexões do exegeta Frei Ludovico Garmus

Oração: “Ó Deus, que pela humilhação do vosso Filho reerguestes o mundo decaído, enchei os vossos filhos e filhas de santa alegria, e dai aos que libertastes da escravidão do pecado o gozo das alegrias eternas”.

  1. Primeira leitura: Zc 9,9-10

Eis que teu rei, humilde, vem ao teu encontro.

O texto da primeira leitura é do IV século a.C. A pequena comunidade judaica não tinha mais rei nem autonomia política, mas estava sob o domínio dos governantes da Pérsia. A esperança messiânica de um novo descendente de Davi tinha que ser repensada e reavivada. É o que o profeta Zacarias procura fazer, conclamando o povo de Jerusalém a acolher o seu rei com alegria. Ele já está vindo ao encontro de Jerusalém. O Messias esperado não será como os reis de Israel e de Judá. Será um rei justo, que realmente salvará o seu povo; será um rei humilde e virá montado sobre um jumento, sem a pompa e o aparato militar de um dominador. Ao contrário, o Messias eliminará de Jerusalém cavalos e arcos de guerreiros, símbolo das guerras dos impérios dominadores de então. Mesmo assim estabelecerá a paz universal, tão desejada. Mateus, ao descrever a entrada triunfal de Jesus em Jerusalém, montado num jumento, cita esta profecia de Zacarias (Mt 21,1-11). Jesus veio implantar o Reino de Deus neste mundo, sem aparato bélico, porque seu reino não é deste mundo (Jo 18,36). Como Servo Sofredor, Jesus deu sua vida por este Reino, a fim de estabelecer a paz e a fraternidade entre os povos. “Felizes os que promovem a paz, porque serão chamados filhos de Deus” (Mt 5,9). No mundo injusto e violento em que vivemos Jesus propõe a todos os povos a vida segundo os valores do Reino de Deus.

Salmo responsorial: Sl 144 (145)

Bendirei, eternamente, vosso nome, ó Senhor!

  1. Leitura: Rm 8,9.11-13

Se, pelo Espírito, fizerdes as obras do corpo morrer, vivereis.

Viver segundo a “carne” é viver na autossuficiência, fechado em si mesmo, como os ouvintes que rejeitaram a mensagem de Jesus (evangelho). Paulo fala da oposição entre vida segundo o Espírito e a vida segundo a carne. Vive segundo a carne quem se deixa dominar pelos critérios humanos do consumismo, da dominação sobre o próximo e do ódio, sem o menor senso de solidariedade humana. Vive segundo o espírito quem pertence a Cristo, porque crê no Espírito que mora em cada pessoa. Mas, viver segundo o Espírito, que ressuscitou Jesus dentre os mortos, é uma “dívida”, diz Paulo; isto é, um desafio permanente na vida cristã. O caminho mais seguro para viver segundo o Espírito é “pertencer” a Cristo e aprender dele, que é “manso e humilde de coração” (evangelho).

Aclamação ao Evangelho

Eu te louvo, ó Pai Santo, Deus do céu, Senhor da terra;

os mistérios do teu reino aos pequenos, Pai, revelas!

  1. Evangelho: Mt 11,25-30

Eu sou manso e humilde de coração.

Antes do evangelho que ouvimos, Jesus critica as cidades da Galileia, Corozaim, Betsaida e Cafarnaum, que o rejeitam por causa de seu orgulho e autossuficiência (11,20-24). Estas cidades não se converteram porque o modo de ser e de agir de Jesus incomodava. Jesus não veio conquistar adeptos pela violência, mas veio com humildade e mansidão. Veio, “pedindo licença para bater na porta do coração das pessoas” (Papa Francisco na JMJ). Os pequenos, pobres, pecadoras e pecadores, desprezados pelos orgulhosos, o acolheram e continuam acolhendo. Por isso, Jesus louva o Pai que se revela aos pequeninos, isto é, aos profetas cristãos, e se oculta aos grandes.

O evangelho de hoje nos convida a contemplar a imagem do Pai, revelada pelas palavras e gestos de Jesus. Convida-nos a louvar este Deus, que assim se revela. Propõe-nos a agir, com humildade e mansidão, como Jesus agiu com os pequeninos.


FREI LUDOVICO GARMUS, OFMé professor de Exegese Bíblica do Instituto Teológico Franciscano de Petrópolis (RJ). Fez mestrado em Sagrada Escritura, em Roma, e doutorado em Teologia Bíblica pelo Studium Biblicum Franciscanum de Jerusalém, do Pontifício Ateneu Antoniano. É diretor industrial da Editora Vozes e editor da Revista “Estudos Bíblicos”, editada pela Vozes. Entre seus trabalhos está a coordenação geral e tradução da Bíblia Sagrada da Vozes.

Rezar pressupõe aceitar o plano de Deus

Frei Clarêncio Neotti

Toda a tentativa de descobrir a maneira íntima de um santo rezar é frustrante, porque o jeito de um santo rezar é inacessível a explicações, ainda que ele tenha deixado orações por escrito; porque sua oração se confunde com sua experiência de Deus. E a experiência de Deus é totalmente pessoal.

Se assim é com a oração de um santo, o que não há de ser com a oração de Jesus, santíssimo, que tinha uma experiência do Pai não apenas a partir de seu coração humano, mas também, e em primeiro lugar, de seu coração divino, todo amor? Jesus agradece ao Pai. Mas não é um agradecimento, apenas. Ele acaba de ser rejeitado pelos fariseus e doutores da lei, que querem alcançar Deus pela sabedoria humana, por sua cabeça cheia de conhecimentos armazenados, por ritos executados. Mas têm um coração pesado de orgulho, de autossuficiência e não podem entender as propostas novas que Jesus lhes faz. O orgulhoso tende sempre a condenar e reduzir à humilhação (quando não à morte) os que pensam diferentemente.

No agradecimento de Jesus, está a aceitação do plano de Deus. Esse passo da inteligência e do coração só consegue dar quem se considera pequenino, vazio de preconceitos, transparente como uma gota de orvalho. Jesus ensina que,
para rezar verdadeiramente ao Pai, devemos ter o coração desamarrado de interesses egoístas e pronto a aceitar o plano de Deus, ainda que difícil de entender.


FREI CLARÊNCIO NEOTTI, OFMentrou na Ordem Franciscana no dia 23 de dezembro de 1954. Durante 20 anos, trabalhou na Editora Vozes, em Petrópolis. É membro fundador da União dos Editores Franciscanos e vigário paroquial no Santuário do Divino Espírito Santo (ES). Escritor e jornalista, é autor de vários livros e este comentário é do livro “Ministério da Palavra – Comentários aos Evangelhos dominicais e Festivos”, da Editora Santuário.

“Vinde a mim...”

Frei Almir Guimarães

Em nossas celebrações sempre ouvimos a Palavra. Palavra com P maiúsculo, uma Palavra que é uma pessoa. As leituras feitas nos chegam da noite dos tempos e, no entanto, parecem atuais e, mais do que isso, tocam-nos lá por dentro. Deitam em nós sementes de esperança. Alguma coisa pode acontecer, ou deve acontecer após sua acolhida. A Palavra clareia o horizonte e revigora os laços de que nos unem. As palavras pronunciadas chegam ao interior de cada um e de nós todos. Elas nos unem. Importante que sejam bem ditas, articuladas e, sobretudo, acolhidas no interior de cada um, audição precedida e acompanhada de delicado silêncio. Para tanto será importante querer ouvir, ter uma vontade intermitente que os sons penetrem em nosso projeto de vida e nos ajudem a viver. É a escuta que nos dá o sabor da Presença. A fé nasce da escuta.

♦ Uma palavra do profeta, daquele que fala em nome de Deus. Desta vez Zacarias. Texto muito antigo. Texto esperançoso e cheio de júbilo. Jerusalém pode exultar de alegria. Vem um rei. Vem alguém que vai anunciar a paz às nações. Mas prestem atenção: “Eis que vem o teu rei ao teu encontro, ele é justo e ele salva; é humilde e vem montado num jumento, um potro, cria da jumenta”. Somos levados ao Domingo de Ramos em que Jesus entrou na sua cidade, montado numa cria da jumenta, num animalzinho que lhe fora emprestado. O rei que chega não desembarca de um carro triunfal. Somos convidados a olhar com carinho e estima as coisas simples, um adorável personagem que chega sem elevar voz e, segundo Zacarias, para quebrar o arco do guerreiro. Ele que veio montado num burrico.

♦ Na Epístola aos Romanos somos convidados a pensar em nosso jeito de viver. Como discípulos do Senhor somos trabalhados pelo Sopro, pelo Espírito. Paulo lembra que Espírito mora em nós. Não podemos nos esquecer. O mesmo Espírito que pairara sobre o caos, guiara os profetas, preparara caminhos do Povo, fora enviado a uma moça de Nazaré, ungira Jesus no Jordão, esse Espírito foi derramado em nossos corações. Água, vento, sopro.

♦ Uma oração… Jesus fala ao Pai com toda intimidade. Ele, esse Filho amado, gosta de estar com o Pai. Talvez um lamento. Jesus falara a todos, mas muitos não o ouviram. Jesus agradece a boa acolhida que lhe fora dada pelos simples, pelos pobres, por aqueles que se maravilham com o amor de Deus. Estamos diante do tema da revelação aos pequenos. “Eu te louvo, Pai, porque revelaste estas coisas aos pequeninos…”.

♦ Humildes, pobres de coração… Não se trata de alimentar uma humildade neurótica. Os pobres são aqueles que não donos de projetos ou desejos. Sabem que precisam dos outros. Nos tempos da pandemia sentimos na pele como não somos os donos de nosso destino. Pobres são aqueles que desatravancam seu interior de falsas seguranças e se tornam alegremente dependentes dos irmãos e Senhor, o grande Doador. Esses escutam o Evangelho. Deixam-se levar por Jesus. Gostam de conjugar o verbo agradecer em todos os tempos e modos. O Pai tem um agrado todo especial para com esses pobres felizes. “Bendirei o Senhor, bendirei em todo o tempo…”

♦ Jesus é o “primeiro dos pobres, dos simples, dos mansos. Carrega na frente a cruz sobre seus ombros; é sua proximidade que torna suportável e leve a cruz de quem o segue. A lei do Reino é a lei dos mais pequeninos e do mas pobre Deus escolhe os humildes, os simples os ignorantes… É a lei do grão de mostarda, dos inícios humildes e ocultos” (Missal Dominical da Paulus. p.737)

♦ “Jesus promete descanso a quem assume o seu jugo (cf Mt 11, 29). Uma existência de crente que esteja permanentemente estressada pelos empenhamentos pastorais e se configure como atividade frenética que não conhece pausa nem descanso, esquece aquela confiança em Cristo que é a fonte do descanso na fadiga e de consolação nas contrariedades. E que dá forma a rosto do crente, não à imagem de gerentes hiperativos, mas do Cristo manso e humilde, paciente e benévolo” (Manicardi, p. 120).


A arte de descansar

Acontece que mesmo nas férias podemos cair na tirania da agitação. Antes de mais nada, precisamos reencontrar-nos profundamente conosco mesmos e buscar o silêncio, a calma, a serenidade que tantas vezes nos faltam durante o ano, para escutar o melhor que há dentro de nós e ao nosso redor.
Precisamos lembrar que uma vida intensa não é uma vida agitada. Queremos ter tudo, açambarcar tudo e desfrutar de tudo. E nos fazemos rodear de mil coisas supérfluas e inúteis que afogam nossa liberdade e espontaneidade.
Precisamos redescobrir a natureza, contemplar a vida que brota perto de nós. Deter-nos diante das coisas pequenas e das pessoas simples e boas. Experimentar que a felicidade tem pouco a ver com as riquezas, os êxitos e o prazer fácil.
Precisamos lembrar que o sentido último da vida não se esgota no esforço, no trabalho e na luta. Pelo contrário, ele se revela a nós com mais claridade na festa, na alegria compartilhada, na amizade e na convivência fraterna.
(…)
Há um descanso que só se pode encontrar no mistério de Deus acolhido em nosso coração, seguindo os passos de Jesus.

(Pagola, Mateus, p. 147-149)


Oração

Hoje queremos expressar-te, ó Pai, nossa satisfação e alegria,
porque teu alento nos anima e guia,
tuas mãos nos levantam e sustentam,
e em teu regaço encontramos ternura e descanso.
Com o coração acanhado por tantos dons recebidos
e tantos horizontes abertos,
brota em nós com facilidade o louvor.
Inundados por teu amor e cheios de alegria te exaltamos.
Leva a bom termo o que começaste.
(F. Ulíbarri)


FREI ALMIR GUIMARÃES, OFMingressou na Ordem Franciscana em 1958. Estudou catequese e pastoral no Institut Catholique de Paris, a partir de 1966, período em que fez licenciatura em Teologia. Em 1974, voltou a Paris para se doutorar em Teologia. Tem diversas obras sobre espiritualidade, sobretudo na área da Pastoral familiar. É o editor da Revista “Grande Sinal”.

Deus é para gente simples

José Antonio Pagola

Há muitos anos, na Escola Bíblica de Jerusalém, um mestre em exegese nos iniciava na difícil arte de desentranhar o Evangelho de Mateus. Tudo parecia pouco para captar o sentido último do texto: crítica textual, análise literária, estrutura da passagem. Um dia chegamos a esses versículos nos quais Jesus exclama: “Eu te louvo, Pai, Senhor dos céus e da terra, porque escondeste estas coisas dos sábios e entendidos e as revelaste aos pequeninos”. O professor fez um longo silêncio. Depois disse bem devagar: “Não esqueçam nunca essas palavras. Todo o mais vocês podem esquecer”. Esta foi provavelmente a melhor lição de exegese que recebi. Depois, ao longo dos anos, pude ver que é exatamente assim.

Sempre que tive a impressão de estar junto a uma pessoa próxima de Deus, tratava-se de alguém de coração simples. Às vezes uma pessoa sem grandes conhecimentos, outras vezes alguém de notável cultura, mas sempre um homem ou mulher de alma humilde e limpa, pura.

Em mais de uma ocasião pude comprovar que não basta falar de Deus para despertar a fé. Para muita gente, certos conceitos religiosos estão muito gastos e, ainda que se trate de tirar-lhes todo o vigor e sabor que tiveram em sua origem, Deus continua como que “fossilizado” em suas consciências. No entanto, encontrei-me com pessoas simples que parecem não necessitar de grandes ideias nem de raciocínios. Intuem logo depois que Deus é “um Deus oculto”, e de seu coração nasce espontânea uma invocação: “Senhor, mostra-me teu rosto”.

Encontrei-me também com pessoas que se movem sempre no terreno do útil. Algumas abandonam a Deus porque Ele lhes é inteiramente inútil; outras o retêm e lhe prestam culto porque lhes é útil. Mas também pude conhecer pessoas simples que vivem dando graças a Deus. Desfrutam do bom da vida, suportam com paciência os males; sabem viver e fazer viver. Não sei como o conseguem, mas de seu coração parece estar sempre brotando o louvor ao Criador. Sua vida é um acerto.

Expus muitas vezes temas religiosos e falei de Deus diante de pessoas as mais diversas. Em certas ocasiões encontrei-me com pessoas que faziam perguntas e mais perguntas sobre todo tipo de questões teológicas, sem mostrar o menor interesse em querer encontrar-se com Deus. Mas também vi gente simples cujos olhos brilhavam de forma especial quando eu lia textos como este do Profeta Isaías: “Eu sou o Senhor, teu Deus … Já que contas muito para mim, me és caro e eu te amo … Não tenhas medo, pois estou contigo!” (Is 43,4); ou quando pronunciava o SlI 103: “Como um pai ama seus filhos com ternura, assim o Senhor se enternece por aqueles que o temem, pois Ele sabe de que somos feitos, lembra-se de que somos pó (Sl 103,l3-14). Sim, Deus se revela às pessoas simples.


JOSÉ ANTONIO PAGOLA cursou Teologia e Ciências Bíblicas na Pontifícia Universidade Gregoriana, no Pontifício Instituto Bíblico de Roma e na Escola Bíblica e Arqueológica Francesa de Jerusalém. É autor de diversas obras de teologia, pastoral e cristologia. Atualmente é diretor do Instituto de Teologia e Pastoral de São Sebastião. Este comentário é do livro “O Caminho Aberto por Jesus”, da Editora Vozes.

Jesus, a violência e a mansidão

Pe. Johan Konings

Percebe-se a violência crescente no mundo. O terrorismo acorda nas pessoas a vontade de responder com violência. Está certo usar de violência para enfrentar a violência? Conforme o plano de Deus, não. Seu enviado é o mestre “manso” e humilde, cujo “jugo” é suave. O evangelho ensina a revelação da mansidão de Jesus aos pequeninos e mansos, os não-violentos. A pregação de Jesus provoca opção a favor ou contra. Contra ele optam as ambiciosas cidades da Galileia (cf. Mt 11,20-24). A favor, os humildes que escutam sua palavra e a põem em prática (Mt 11,25-30). Os que recebem sua revelação, não os que estão cheios de si, vão conhecer o interior de Jesus. Jesus é o mestre dos humildes, porque ele é, no sentido bíblico, manso, não opressor. E assim é também sua doutrina.

O profeta Zacarias já sabia que o Messias não poderia ser um rei violento e opressor (1ª leitura). Essa expectativa, Jesus a realizou de modo surpreendente. A missão do Messias não se realiza pela violência e pela opressão, mas pela mansidão de um pedagogo, que deixa penetrar, nos humildes, gota por gota, o espírito de amor e solidariedade, que faz crescer o verdadeiro Reino de Deus. Por isso, o mistério de Deus e de seu Filho se manifesta no coração dos humildes, enquanto os poderosos o rejeitam.

Jesus convida os “cansados”. Eles são muitos entre nós hoje. Os que já não aguentam o arrocho salarial, a subnutrição, a degradação da vida social e pública, a violência econômica, a exclusão em todas as suas formas. Será que Jesus tem uma solução para esses “cansados”? Contrariamente à pretensa “lei natural” do poder do mais forte, a comunidade de amor e solidariedade lhes oferece, mais e melhor do que o consumismo da tevê e dos shopping-centers, aquilo que os torna realmente felizes: valorização fraterna, sustento mútuo e, sobretudo, a certeza de “estar na linha de Deus”.

Aos cristãos cabe conscientizar o povo – pobres e ricos – de que a mera força e opressão não resolvem nada, mas afastam as pessoas do espírito de Cristo. E perguntemos: em nossas comunidades, existe verdadeira “mansidão”ou, pelo contrário, reinam práticas opressoras? Aplicarmos uma “pedagogia da mansidão”, deixando a grama crescer no chão em vez de puxá-la para fazer crescê-la mais rápido?

Jesus veio como libertador manso e humilde, não como revolucionário armado, porque o reino do amor fraterno não pode ser implantado pela violência, mas somente pela convicção interior. Essa é sua resposta ao poder da força, contra o qual o pequeno não pode resistir quando se quer medir com ele no mesmo nível.


PE. JOHAN KONINGS nasceu na Bélgica em 1941, onde se tornou Doutor em Teologia pela Universidade Católica de Lovaina, ligado ao Colégio para a América Latina (Fidei Donum). Veio ao Brasil, como sacerdote diocesano, em 1972. Em 1985 entrou na Companhia de Jesus (Jesuítas) e, desde 1986, atua como professor de exegese bíblica na FAJE, Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia, em Belo Horizonte. Este comentário é do livro “Liturgia Dominical, Editora Vozes.

Reflexão em vídeo de Frei Gustavo Medella