Vida Cristã - Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil - OFM

13º Domingo do Tempo Comum

13º Domingo do Tempo Comum

Uma menina, uma mulher e Jesus

 

Frei Gustavo Medella

Uma menina e uma mulher. A primeira, dada como morta; a segunda, padecendo solitariamente de uma grave hemorragia. A primeira, cuidada pelos seus, teve o pai a interceder por ela; a segunda, sem ninguém a quem recorrer, desvia-se da multidão em busca de tocar no Mestre. São duas histórias cujo o ponto de convergência é Jesus, que cura e atende as duas. O Filho de Deus, que passa fazendo o bem, coloca-se a serviço da humanidade sofredora ao se tornar solidário com aqueles e aquelas que sofrem. Não importa como se chegue ele, por indicação e pedido de alguém ou por conta própria, o Senhor não faz acepção de pessoas e se dispõe a ajudar quem quer que seja.

Uma menina e uma mulher que podem simbolizar milhares de mulheres subjugadas em relacionamentos abusivos, vítimas de maus tratos, humilhações e do feminicídio. Mulheres que ilustram a dor de inúmeros grupos e comunidades que padecem do desprezo e sofrem na pele os efeitos da “globalização da indiferença”. São vítimas da ganância, do preconceito, do egoísmo e outras atitudes que matam, desagregam e destroem, que desfiguram o mundo e o tornam muito distante daquele que Deus propõe para seus filhos e filhas, conforme descreve a leitura do Livro da Sabedoria (Sb 1,13-15;2,23-24).

Uma menina e uma mulher que nos ensinam a trilhar o caminho da esperança, que nos animam a fazer coro com o salmista: “Eu vos exalto, ó Senhor,/ pois me livrastes/ e preservastes minha vida da morte!” (Sl 29). Num contexto de tanta covardia e maldade, motivo não nos faltariam para desanimar. No entanto, graças a figuras como a destas duas mulheres, não temos este direito. No exemplo delas, Deus nos convida à teimosia da esperança e a fazermos nossa parte na construção de um mundo diferente, onde a profecia que São Paulo apresenta aos Coríntios se faça realidade: “Nas atuais circunstâncias, a vossa fartura supra a penúria deles e, por outro lado, o que eles têm em abundância venha suprir a vossa carência. Assim haverá igualdade, como está escrito: ‘Quem recolheu muito não teve de sobra e quem recolheu pouco não teve falta’” (2Cor 8,14-15). Nós cremos!


FREI GUSTAVO MEDELLA, OFM, é o atual Vigário Provincial e Secretário para a Evangelização da Província Franciscana da Imaculada Conceição. Fez a profissão solene na Ordem dos Frades Menores em 2010 e foi ordenado presbítero em 2 de julho de 2011.


Imagem ilustrativa de Frei Fábio Melo Vasconcelos

Leituras bíblicas deste domingo

Primeira Leitura: Sb 1,13-15;2,23-24

Leitura do Livro da Sabedoria:

13Deus não fez a morte, nem tem prazer com a destruição dos vivos. 14Ele criou todas as coisas para existirem, e as criaturas do mundo são saudáveis: nelas não há nenhum veneno de morte, nem é a morte que reina sobre a terra: 15pois a justiça é imortal.

2,23Deus criou o homem para a imortalidade e o fez à imagem de sua própria natureza; 24foi por inveja do diabo que a morte entrou no mundo, e experimentam-na os que a ele pertencem.

– Palavra do Senhor.


Salmo Responsorial: Sl 29

— Eu vos exalto, ó Senhor,/ pois me livrastes/ e preservastes minha vida da morte!

— Eu vos exalto, ó Senhor,/ pois me livrastes/ e preservastes minha vida da morte!

— Eu vos exalto, ó Senhor, pois me livrastes,/ e não deixastes rir de mim meus inimigos!/ Vós tirastes minha alma dos abismos/ e me salvastes,/ quando estava já morrendo!

— Cantai salmos ao Senhor, povo fiel,/ dai-lhe graças e invocai seu santo nome!/ Pois sua ira dura apenas um momento,/ mas sua bondade permanece a vida inteira;/ se à tarde vem o pranto visitar-nos,/ de manhã vem saudar-nos a alegria.

— Escutai-me, Senhor Deus, tende piedade!/ Sede, Senhor, o meu abrigo protetor!/ Transformastes o meu pranto em uma festa,/ Senhor meu Deus, eternamente hei de louvar-vos!


Segunda Leitura: 2Cor 8,7.9.13-15

Leitura da Segunda Carta de São Paulo aos Coríntios:

Irmãos: 7Como tendes tudo em abundância – fé, eloquência, ciência, zelo para tudo, e a caridade de que vos demos o exemplo – assim também procurai ser abundantes nesta obra de generosidade.

9Na verdade, conheceis a generosidade de nosso Senhor Jesus Cristo: de rico que era, tornou-se pobre por causa de vós, para que vos torneis ricos, por sua pobreza. 13Não se trata de vos colocar numa situação aflitiva para aliviar os outros; o que se deseja é que haja igualdade.

14Nas atuais circunstâncias, a vossa fartura supra a penúria deles e, por outro lado, o que eles têm em abundância venha suprir a vossa carência. Assim haverá igualdade, como está escrito: 15“Quem recolheu muito não teve de sobra e quem recolheu pouco não teve falta”.

– Palavra do Senhor.


Evangelho (Forma longa: Mc 5,21-43 — Forma breve: Mc 5,21-24.35b-43)

Naquele tempo, 21Jesus atravessou de novo, numa barca, para a outra margem. Uma numerosa multidão se reuniu junto dele, e Jesus ficou na praia. 22Aproximou-se, então, um dos chefes da sinagoga, chamado Jairo. Quando viu Jesus, caiu a seus pés, 23e pediu com insistência: “Minha filhinha está nas ultimas. Vem e põe as mãos sobre ela, para que ela sare e viva!” 24Jesus então o acompanhou. Uma numerosa multidão o seguia e o comprimia.

25Ora, achava-se ali uma mulher que, há doze anos, estava com uma hemorragia; 26tinha sofrido nas mãos de muitos médicos, gastou tudo o que possuía, e, em vez de melhorar, piorava cada vez mais. 27Tendo ouvido falar de Jesus, aproximou-se dele por detrás, no meio da multidão, e tocou na sua roupa. 28Ela pensava: “Se eu ao menos tocar na roupa dele, ficarei curada”. 29A hemorragia parou imediatamente, e a mulher sentiu dentro de si que estava curada da doença.

30Jesus logo percebeu que uma força tinha saído dele. E, voltando-se no meio da multidão, perguntou: “Quem tocou na minha roupa?”

31Os discípulos disseram: “Estás vendo a multidão que te comprime e ainda perguntas: ‘Quem me tocou?’”

32Ele, porém, olhava ao redor para ver quem havia feito aquilo. 33A mulher, cheia de medo e tremendo, percebendo o que lhe havia acontecido, veio e caiu aos pés de Jesus, e contou-lhe toda a verdade.

34Ele lhe disse: “Filha, a tua fé te curou. Vai em paz e fica curada dessa doença”. 35Ele estava ainda falando, quando chegaram alguns da casa do chefe da sinagoga, e disseram a Jairo: “Tua filha morreu. Por que ainda incomodar o mestre?” 36Jesus ouviu a notícia e disse ao chefe da sinagoga: “Não tenhas medo. Basta ter fé!” 37E não deixou que ninguém o acompanhasse, a não ser Pedro, Tiago e seu irmão João.

38Quando chegaram à casa do chefe da sinagoga, Jesus viu a confusão e como estavam chorando e gritando. 39Então, ele entrou e disse: “Por que essa confusão e esse choro? A criança não morreu, mas está dormindo”. 40Começaram então a caçoar dele. Mas, ele mandou que todos saíssem, menos o pai e a mãe da menina, e os três discípulos que o acompanhavam. Depois entraram no quarto onde estava a criança. 41Jesus pegou na mão da menina e disse: “Talitá cum” – que quer dizer: “Menina, levanta-te!” 42Ela levantou-se imediatamente e começou a andar, pois tinha doze anos. E todos ficaram admirados. 43Ele recomendou com insistência que ninguém ficasse sabendo daquilo. E mandou dar de comer à menina.

— Palavra da Salvação.

Reflexão do exegeta Frei Ludovico Garmus

13º Domingo do Tempo Comum

Oração: “Ó Deus, pela vossa graça, nos fizestes filhos da luz. Concedei que não sejamos envolvidos pelas trevas do erro, mas brilhe em nossas vidas a luz da vossa verdade”.

  1. Primeira leitura: Sb 1,13-15; 2,23-24

Foi por inveja do diabo que a morte entrou no mundo.

O Livro da Sabedoria é o último livro do Antigo Testamento. Não é aceito como livro inspirado pelos judeus e pelos protestantes, mas é considerado livro inspirado pela Igreja Católica e pelas antigas Igrejas cristãs, como a Ortodoxa. O texto hoje lido divide-se em duas partes, tiradas de dois capítulos diferentes, que se complementam. Todo ser humano consciente algum dia se perguntará: Por que tudo que vive, morre? Haverá vida após a morte? Se existe um Criador de “todas as coisas visíveis e invisíveis”, terá ele algum plano após a morte, ao menos para nós? O autor sagrado tenta responder a estas perguntas e outras mais, colocando em xeque a teologia pós-exílica, baseada no Deuteronômio: quem observa a Lei é abençoado por Deus; quem não a observa é punido. Deus e a morte não combinam, Deus e a vida, sim. Já no Antigo Testamento o Deus de Israel é chamado o “Deus vivo” (Sl 42,2; Is 37,4; Jr 10,10). Para Jesus, Deus não é Deus dos mortos, mas dos vivos (cf. Mc 12,27). A resposta do autor é clara: Deus não é o autor da morte, Ele está sempre do lado da vida que cria. Deus cria todas as coisas para que existam e sejam saudáveis. Ao completar a obra da criação, “Deus viu que tudo era muito bom” (Gn 1,31). Suas criaturas não têm veneno de morte, pois “o Senhor fez sair da terra os remédios, e o homem sensato não os rejeita” (cf. Eclo 38,4-8). Mas então, por que as criaturas morrem e o ser humano também?

O autor responde com uma afirmação de fé: “Deus criou o homem para a imortalidade, porque o fez à imagem de sua própria natureza” (cf. Gn 1,26-28). Este é o plano de Deus a nosso respeito. A morte entrou no mundo por inveja do diabo, que seduziu os primeiros pais à desobediência e os fez pecar (cf. Gn 3,1-24). Deus não quer a morte do pecador, mas que ele se converta e viva (cf. Ez 33,11). Segundo o texto, Deus nos fez para a vida não para a morte. Somos todos mortais, mas o “Deus vivo” tem um plano de vida eterna para todos nós. Eis o que esperamos!

Salmo responsorial: Sl 29

 Eu vos exalto, ó Senhor, pois me livrastes

e preservastes minha vida da morte.

 

  1. Segunda leitura: 2Cor 8,7-9.13-15

A vossa fartura supra a penúria dos pobres.

Paulo dedica parte da segunda carta aos cristãos de Corinto para motivar uma coleta em favor da comunidade de Jerusalém, onde os cristãos passavam por necessidades em razão de uma severa seca. A coleta estava sendo promovida em várias comunidades fundadas por Paulo. No trecho hoje lido, o apóstolo elogia os carismas que distinguiam a comunidade de Corinto, como a fé, a eloquência, a dedicação e o amor recíproco que com eles mantinha. Eram boas qualidades para serem também generosos na coleta, como outras comunidades já o foram. Como modelo aponta a generosidade de Jesus Cristo, que, sendo rico se fez pobre para que enriquecer-nos com sua pobreza. Paulo sabia que na comunidade havia pessoas bastante pobres (1Cor 1,26). Por isso diz: Não se trata de empobrecer os coríntios e enriquecer os cristãos de Jerusalém. Mas de suprir a penúria deles com a fartura dos cristãos de Corinto, para que haja mais igualdade entre as comunidades. Generosidade não empobrece, mas gera laços de fraternidade. Vale mais a boa vontade do que a quantidade.

Paulo tem consciência que todos os batizados das diferentes comunidades formam um só corpo em Cristo (1Cor 12,27-31). Se um membro do Corpo de Cristo sofre todo o corpo sofre. Por isso a insistência na partilha entre as comunidades cristãs.

Aclamação ao Evangelho

    Jesus Cristo, Salvador, destruiu o mal e a morte;

            fez brilhar, pelo evangelho, a luz e a vida imperecíveis.

 

  1. Evangelho: Mc 5,21-43

Menina, levanta-te!

Domingo passado, Jesus acalmou a tempestade e repreendeu a falta de fé dos discípulos. Hoje são narrados dois episódios que mostram a importância da fé na experiência do milagre na vida das pessoas. No centro está Jesus que traz de volta à vida uma menina tida como morta, e devolve a saúde a uma mulher sofredora. Jesus atravessa o lago de barco e chegando à margem encontra uma multidão que o esperava. Enquanto a multidão o envolvia, o chefe da sinagoga, chamado Jairo, prostrou-se aos pés de Jesus e suplicava pela sua única filha de doze anos (cf. Lc 8,42), que estava morrendo: “Vem e põe as mãos sobre ela, para que ela sare e viva”. Cercado pela multidão, Jesus imediatamente acompanhou o pai aflito. Uma mulher que sofria de hemorragia há doze anos, conseguiu tocar as vestes de Jesus e ficou curada. Jesus percebeu que uma força saiu dele e pergunta: “Quem me tocou”? Muitos da multidão tocavam em Jesus, mas esta mulher tocou suas vestes com fé e atingiu o coração misericordioso do Filho de Deus. Ela, tremendo de medo, aproximou-se, caiu aos pés de Jesus e contou a verdade. Jesus lhe disse: “Filha, a tua fé te curou”! Já próximos da casa de Jairo, alguém lhe disse: “Não incomode mais o Mestre, tua filha morreu”! Jesus escutou e disse a Jairo: “Não tenhas medo. Basta ter fé”! Ao chegarem à casa de Jairo viram muita gente chorando. Jesus mandou que todos saíssem. Acompanhado dos pais da menina e de Pedro, Tiago e João, Jesus entrou no quarto da menina, pegou sua mão e disse: “Menina, levanta-te”! Ela levantou-se e começou a caminhar, e Jesus mandou que lhe dessem de comer.

Na primeira leitura vimos que Deus está sempre do lado da vida que criou e cria. Quer que todas as suas criaturas sejam saudáveis. Deus nos criou para a imortalidade. Na segunda leitura Paulo nos revela que o cristão está do lado do “Deus vivo” quando se preocupa com o bem-estar e a vida de outros que estão em perigo. No Evangelho Jesus é um exemplo do cuidado pela vida das pessoas. Na pandemia, médicos, enfermeiros e todo o setor responsável pela saúde, foram e são um exemplo de amor e cuidado pela vida dos enfermos. Cuidemos de nossa saúde e da saúde do nosso próximo que passa fome.


FREI LUDOVICO GARMUS, OFMé professor de Exegese Bíblica do Instituto Teológico Franciscano de Petrópolis (RJ). Fez mestrado em Sagrada Escritura, em Roma, e doutorado em Teologia Bíblica pelo Studium Biblicum Franciscanum de Jerusalém, do Pontifício Ateneu Antoniano. É diretor industrial da Editora Vozes e editor da Revista “Estudos Bíblicos”, editada pela Vozes. Entre seus trabalhos está a coordenação geral e tradução da Bíblia Sagrada da Vozes.

O mal não tem explicações

Frei Clarêncio Neotti

O mistério não contraria nossa inteligência, nossa lógica, mas está acima dela. O mistério tem algumas explicações, mas jamais pegaremos seu núcleo. O mal é um mistério, ainda que seja uma realidade. Paulo VI disse textualmente (15.11.1972): “O mal constitui a maior dificuldade para a nossa compreensão religiosa do cosmos”. Santo Agostinho, que passou anos inteiros procurando a explicação do mal, não a achou e disse nas suas Confissões (VII,5): “Procurei de onde vinha o mal e não encontrei explicação”. De fato, para o intelecto humano é fácil acolher a dinâmica do sucesso, da afirmação, da glória, mas lhe custa acolher (nem digo compreender) o sofrimento, a humilhação e a morte. E pior quando a morte vem de modo violento e injusto.

Carlos Mesters, no livro “A missão do povo que sofre”, conta a história verdadeira da Teresinha, que “veio de Minas para a Baixada Fluminense. Veio com o marido e o filho de poucos meses e foi morar com a irmã casada. Certo dia, o filho ficou doente, muito doente. O marido não estava em casa. Ela ficou sem saber o que fazer. Chamou o cunhado e juntos foram ao posto médico mais próximo. Não foram atendidos. Parece que faltavam alguns papéis. Foram ao centro da cidade. Andaram a tarde toda, de hospital em hospital. Na boca da noite, tomaram o ônibus de volta. Por sorte conseguiram um lugar para sentar. O nenê piorando. De vez em quando, a mãe tirava o cobertor e olhava o filho, preocupada. Ele parecia dormir. Quando o ônibus parou debaixo de uma lâmpada, ela olhou de novo e percebeu. Levou um susto. O menino estava morrendo. Ela ficou em pânico … O cunhado falou baixinho: Quieta, mulher, fique firme, não deixe perceber nada. Senão a polícia vem prender a gente! Assim ela ficou até o ponto final. O filho morto nos braços”.

Encurtei a história, que é verdadeira. Haverá muitas outras histórias parecidas. Não sei o que é mais difícil de acolher: a morte de uma criança inocente ou a maldade dos homens em não atender uma criança doente. É o mesmo mistério estúpido do mal.


FREI CLARÊNCIO NEOTTI, OFMentrou na Ordem Franciscana no dia 23 de dezembro de 1954. Durante 20 anos, trabalhou na Editora Vozes, em Petrópolis. É membro fundador da União dos Editores Franciscanos e vigário paroquial no Santuário do Divino Espírito Santo (ES). Escritor e jornalista, é autor de vários livros e este comentário é do livro “Ministério da Palavra – Comentários aos Evangelhos dominicais e Festivos”, da Editora Santuário.

Cuidado pelos pequenos

Frei Almir Guimarães

♦ O autor do Livro da Sabedoria nos fala de um Deus que é amante da vida. Não criou a morte. Foi pela inveja esta entrou no mundo. Marcos, por sua vez, nos apresenta o relato da ressureição da filha de Jairo e da cura a mulher que há anos sofria de uma hemorragia, que os médicos não conseguiam estancar. Estamos novamente no tema da vida. A morte não entra no projeto de Jesus. Vamos nos deter em nossa reflexão mais no momento em que Jesus ressuscita a filha de Jairo.

♦ Estamos no evangelho de Marcos. Tudo nele é vivo. Jairo pede por sua filhinha que está muito doente. Põe-se de joelhos. Diz “filhinha”. Há um alvoroço na casa do chefe da sinagoga. Choro das carpideiras. Jesus quer ver a menina. Não deixa que a multidão assista seu encontro com aquela que morreu. Pai, mãe e os três apóstolos, Simão, João e Tiago entram no local em que está a “filhinha. Eles deviam ou precisavam observar o que ali se passaria. Rapidamente a menina se ergue quando Jesus diz que se levantasse. No dizer de Jesus ela dormia. Marcos tem o cuidado de dizer que ela tinha doze anos e que Jesus se deu conta que a menina estava com fome. Jesus cuida de uma menina. Jesus ressuscita um “pequeno”.

♦ Parece-me que, a partir deste episódio, podemos tentar elencar alguns cuidados que precisamos ter com os “pequenos” e mesmo adolescentes ou os que começam a fase da juventude.

♦ O cuidado pelos pequenos começa antes de seu nascimento. Um casamento sólido. A decisão consciente de marido e mulher de desejarem filhos. Os filhos não são fruto do acaso, ou de uma fatalidade, mas de uma decisão pensada a partir de um superávit de amor dos esposos. Os pais são co-criadores com Deus. Os filhos não são deles, mas proveem do mistério da vida. Meninos e meninas que nascem de famílias abastadas ou de uniões fugazes correm o risco de não serem de fato acolhidos na vida. As constituições precárias em todos os sentidos não reúnem as condições necessárias que fazem com que os meninos não se levantem, mas permaneçam dormindo.

♦ Escutar, escutar, escutar. Pais, professores, educadores, catequistas deverão dar-se o tempo de escutar. As crianças “se levantarão” na medida forem escutadas para delicadamente serem orientadas, quer dizer, terem o rosto voltado para o “oriente”, lá onde nasce o sol. Nossos meninos e meninas devem poder dar sua colaboração especifica para melhorar o mundo. Não podem ir na onda. Repetir as coisas. Guiarem-se pelas argutas solicitações da publicidade das telinhas do computador. A educação em família tem como finalidade ser um vestibular para as escolhas da vida. Insistimos na escuta.

♦ Um aspecto delicado e complexo no cuidado pelos “pequenos” é questão da educação para uma sexualidade humana. Não é aqui o espaço para refletir sobre este tema em toda sua profundidade. Pais e educadores, porém, não se omitirão. O sentido de sexualidade se apoia num belo e denso relacionamento entre duas pessoas, dois mistérios que se encontram e se entregam. Sexualidade caminha com relacionamento. O sexo visa um nós. Não pode ser um passatempo. Nem uma descarga física ou psicológica. Não se brinca de fazer sexo. Preocupações serenas com o tema são importantes, inclusive para detectar delicadas questões ligadas à homoafetividade. As crianças e adolescentes não podem resolver sozinhos questões que secretamente as atormentam. Os pais, educadores equilibrados terão sempre o cuidado de refletir sobre o humano que está por detrás da sexualidade. Nossos “pequenos” vivendo numa sociedade pansexualizada precisam da ajuda de pessoas que os estimem de verdade. Sabemos que a sexualidade é um delicado componente da maturidade da pessoa.

♦ Tudo é rápido, tudo é superficial, as mensagens se acumulam. Crianças, adolescentes e adultos vivem com a telinha iluminada: mensagens, informações, jogos, filmes, aulas digitais, a ágil dança dos dedos no teclado. Seres meio anestesiados, sem uma pausa para a respiração, para tomar fôlego. O interior das pessoas vai se esvaziando e nada sobra. Não são capazes de parar, de olhar para as pessoas e se perguntarem: De onde são? Como vivem? O que fizeram de suas vidas? Precisamos ser capazes de adivinhar aquilo que passa no coração do outro pelas letras estampadas em seu olhar e em suas palavras. Necessário se faz para todos o exercício da visita ao seu interior, de frequentar o que chamamos de coração.

♦ Nossos meninos precisam ter garra para viver e vencer em seus projetos. Importante que eles saibam que as coisas não podem girar em torno de seus interesses. Vivemos uma teia de relacionamentos com pessoas de todos os níveis: pais, vizinhos, adultos de modo geral, professores, educadores. A atenção de nossas crianças se voltará respeitosamente, de modo especial, pelos excluídos: deficientes físicos e psíquicos, idosos e doentes, moradores de rua, pessoas cuja cor da pele não é igual à nossa, os diferentes (estrangeiros, pessoas homoafetivas). A formação de um caráter respeitoso e fundamental. Respeito que inclui também cuidado pela criação e sua preservação. Outros virão depois de nós. Criar uma terra de entendimento e não de violência gratuita.

♦ Nossos “pequenos” precisam aprender a acolher o que vem das gerações anteriores. O mundo não começou com sua chegada. A história carrega em seu bojo sucessos e fracassos. Traz até nos lições de sabedoria. Muitas páginas de erros da humanidade precisam ser mestras dos “pequenos”. Em casa se torna necessário falar das tradições que nos trouxera avós e bisavós: comidas, festas, costumes. Os “pequenos” precisam acolher os avanços humanos. Muitos idosos cheios de sabedoria e de santidade lamentam que ninguém queira receber sua herança. Eles a levarão para a sepultura ou crematório.

♦ Nossos “pequenos” poderão “levantar-se” do sono se lhe for adequadamente apresentado o amoroso Mistério de Deus e a beleza de Cristo e seu programa de vida. Não basta apenas que nossos “pequenos” façam a primeira comunhão, confessem e participem. Temos sempre receio de uma preparação cristã feita de noções. Pais e catequistas, por palavras e testemunho, deverão pode significar que sua vida tem um brilho todo especial porque são de Cristo, não de um Cristo do passado, mas que vive no nosso meio, inclusive na família.


Texto para reflexão

Escutar

Escutar é uma forma de amar. Escutar quem sofre é um gesto de amor ativo e gratuito. Escutar esta pessoa porque sua felicidade e sua dignidade nos interessam. Escutar o outro é amá-lo.
Para escutar, é necessário estar atentos à originalidade da pessoa específica. Não é apenas mais uma. Não é outro caso igual ao anterior. Cada pessoa é diferente, vive e sente seus problemas de forma própria, única e original. Nenhum sofrimento é igual ao outro
Escutar exige criar um clima de confiança, uma atmosfera de proximidade e compreensão que ajude a pessoa a se comunicar profundamente. Temos que merecer a sua confiança. A pessoa em crise tem que sentir que estamos próximos dela que somos compreensivos e vulneráveis como todos, que compartilhamos de seu sofrimento.
Escutar significa dar tempo, respeitar o ritmo da pessoa que está se comunicando, compreender seu pudor e sua dificuldade para descobrir seu mundo íntimo, saber esperar.

Reflexões inspiradas em José Antonio Pagola


Oração

Senhor,
andamos atrás de ti.
Como a mulher do evangelho que sofria de hemorragia,
nós temos nossas dores do corpo e do coração.
Os médicos da terra estão nos ajudando.
Há, no entanto, distância de irmãos que nos fazem mal e
feridas que estão custando a cicatrizar.
Que possamos tocar na fímbria de tuas vestes. Amém.


FREI ALMIR GUIMARÃES, OFMingressou na Ordem Franciscana em 1958. Estudou catequese e pastoral no Institut Catholique de Paris, a partir de 1966, período em que fez licenciatura em Teologia. Em 1974, voltou a Paris para se doutorar em Teologia. Tem diversas obras sobre espiritualidade, sobretudo na área da Pastoral familiar. É o editor da Revista “Grande Sinal”.

Feridas secretas

José Antonio Pagola

Não conhecemos o nome dessa mulher. É uma mulher insignificante, perdida no meio da multidão que segue Jesus. Não se atreve a falar com ele, como fez Iaíro, o chefe da sinagoga, que conseguiu que Jesus se dirigisse à sua casa. Ela não poderá nunca ter essa sorte.

Ninguém sabe que é uma mulher marcada por uma enfermidade secreta. Os mestres da lei lhe ensinaram a olhar-se a si mesma como uma mulher “impura” enquanto tiver perdas de sangue. Passou muitos anos procurando um curador, mas ninguém conseguiu curá-la. Onde poderá encontrar a saúde de que necessita para viver com dignidade?

Muitas pessoas vivem entre nós experiências parecidas. Humilhadas por feridas secretas que ninguém conhece, sem forças para confiar a alguém sua “enfermidade”, buscam ajuda, paz e consolo sem saber onde encontrá-los. Sentem-se culpadas, quando muitas vezes são apenas vítimas.

Pessoas boas que se sentem indignas de aproximar-se para receber Cristo na comunhão; cristãos piedosos que viveram sofrendo de maneira insana porque foram ensinados a ver como sujo, humilhante e pecaminoso tudo aquilo que se relaciona com o sexo; crentes que, no final de sua vida, não sabem como romper a cadeia de confissões e comunhões supostamente sacrílegas … Não poderão nunca conhecer a paz?

De acordo com o relato, a mulher enferma “ouve falar de Jesus” e intui que está diante de alguém que pode arrancar a “impureza” de seu corpo e de sua vida inteira. Jesus não fala de dignidade ou indignidade. Seus olhos olham com amor. Sua pessoa irradia força curadora. A mulher busca seu próprio caminho para encontrar-se com Jesus. Não se sente com forças para olhá-lo nos olhos: aproximar-se-á por trás.

Sente vergonha de falar-lhe de sua enfermidade: agirá silenciosamente. Não pode tocá-lo fisicamente: tocar-lhe-á apenas o manto. Não importa. Não importa nada. Para sentir-se limpa basta essa confiança grande
em Jesus.

Ele mesmo o diz. Esta mulher não precisa envergonhar-se diante de ninguém. O que ela fez não é mau. É um gesto de fé. Jesus tem seus caminhos para curar feridas secretas e dizer aos que o buscam: “Filha, filho, tua fé te curou. Vai em paz e com saúde”.


JOSÉ ANTONIO PAGOLA cursou Teologia e Ciências Bíblicas na Pontifícia Universidade Gregoriana, no Pontifício Instituto Bíblico de Roma e na Escola Bíblica e Arqueológica Francesa de Jerusalém. É autor de diversas obras de teologia, pastoral e cristologia. Atualmente é diretor do Instituto de Teologia e Pastoral de São Sebastião. Este comentário é do livro “O Caminho Aberto por Jesus”, da Editora Vozes.

Jesus é maior que a morte

Pe. Johan Konings

Uma das mais bem contadas histórias, em Mc, é a da filha de Jairo (evangelho). Voltando Jesus do outro lado do lago de Genesaré, o chefe da sinagoga de Cafarnaum, chamado Jairo, implora que vá impor as mãos na filha, que está morrendo. Sempre disposto a servir, Jesus acompanha o pai aflito, mas sofre um atraso. No meio da multidão apinhada em torno dele, uma mulher que está há doze anos com fluxo de sangue toca nele (coisa temerária, pois por causa do fluxo de sangue, ela é considerada impura pela Lei!). Jesus percebe a força que sai dele e procura saber quem o tocou. Os discípulos observam que no meio da multidão isso é impossível. Então Jesus leva a mulher a “confessar” seu ato temerário, para poder dizer-lhe: “Minha filha, tua fé te salvou” (Mc 5,34).

Com isso, Jesus atrasou … Chegam criados de Jairo para comunicar que sua filha já morreu! Mas Jesus vai ver assim mesmo. Censura os amigos e parentes que já estão chorando. “A criança não morreu; está dormindo!” (55,39). Caçoam dele. Mas ele, levando consigo Pedro, Tiago e João, entra no quarto e faz a menina levantar-se e manda que deem algo de comer a ela. A menina tinha doze anos, o tempo do fluxo de sangue da mulher … Doze – o tempo das horas do dia, dos meses do ano, das tribos de Israel.

Deus não quer a morte (1ª leitura). Deseja vida para seus amados. Vida eterna. Ou seja: que a morte física não seja o fim da vida, mas sua transformação em imortalidade, pois viver é estar com Deus. A reanimação da filha de Jairo é um sinal disso. Ela terá de morrer, fisicamente, algum dia. Mas nela, Jesus revelou que ele é maior que a morte. A morte não é a última palavra para quem está nas mãos de Jesus. Ainda que o corpo morra, a vida continua, transformada em presença junto de Deus. A vida é tudo o que vivemos. Nossos atos feitos em comunhão com Deus não são jogados fora para sempre. Eles “têm futuro” nas mãos de Deus. A vida é o amor eterno de Deus que cresce em nós. Por isso é tão importante deixá-lo tomar conta de nós. Se o impedirmos, nossa vida será perdida. Em Cristo realizamos a vida que não morre. O evangelista João dirá que quem crê, já passou para a vida eterna (Jo 5,24; cf. 11,27).

Podemos compreender nesse sentido o sacramento da unção dos enfermos: a Igreja, herdeira da missão de Jesus, aproxima-se de quem está perdendo as forças corporais. Eventualmente pode até reavivar essas forças, certamente significa que a vida está em Cristo, sendo vida para sempre. A comunidade cristã sempre cuidou muito da vida do corpo, especialmente das crianças. Inventou os hospitais, promoveu a saúde infantil, o cuidado dos idosos, dos doentes terminais … Não para abolir a morte corporal, mas para dar à vida o sentido da vida definitiva com Cristo. Não é o sacramento da morte, mas da vida em plenitude.


PE. JOHAN KONINGS nasceu na Bélgica em 1941, onde se tornou Doutor em Teologia pela Universidade Católica de Lovaina, ligado ao Colégio para a América Latina (Fidei Donum). Veio ao Brasil, como sacerdote diocesano, em 1972. Em 1985 entrou na Companhia de Jesus (Jesuítas) e, desde 1986, atua como professor de exegese bíblica na FAJE, Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia, em Belo Horizonte. Este comentário é do livro “Liturgia Dominical, Editora Vozes.

Reflexão em vídeo de Frei Gustavo Medella