Vida Cristã - Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil - OFM

Viagem Apostólica do Papa Francisco à Letônia, Lituânia e Estônia

Papa é esperado como mensageiro de esperança

Cidade do Vaticano – A Lituânia que Papa Francisco encontrará neste sábado, 22 de setembro, é bem diferente daquela encontrada por João Paulo II 25 anos atrás, porém, hoje como antes, a expectativa é grande pela visita papal. São palavras de Dom Gintaras Grušas, arcebispo de Vilnius e presidente da Conferência Episcopal da Lituânia. “Há um grande entusiasmo por parte de todos, e esperamos Papa Francisco – diz Dom Grušas – e tudo o que nos dirá e compartilhará conosco. A sua visita coincide com os 25 anos da visita de João Paulo II. Portanto é com este espírito que recebemos sua mensagem. Na época, São João Paulo II dirigiu-se a nós e nos falou de nossos problemas e da nossa situação de 25 anos atrás: o fim do comunismo”.

Esta é também a 25ª viagem apostólica internacional do Pontificado do Papa Francisco, na qual visitará, de sábado até a próxima terça-feira – de 22 a 25 de setembro –, a Lituânia Letônia e Estônia.

Como faz habitualmente antes e depois de cada viagem apostólica internacional, o Papa Francisco foi até a Basílica de Santa Maria Maior – centro de Roma – e confiou aos cuidados da Virgem Maria esta viagem.

Segundo o presidente do episcopado lituano, “esperamos Papa Francisco, esperamos suas palavras para enfrentarmos a situação atual para que nos traga esperança e capacidade de olhar para dentro de nós mesmos. Espero que nos contagie com a sua alegria e a sua esperança”. Para Dom Grušas, o desejo é que “o Santo Padre nos mostre a direção da esperança e como podemos enfrentar os desafios da sociedade de hoje: os desafios diante dos quais nos encontramos no dia a dia. Isso é o que nós esperamos”.

O bispo de Vilnius está convencido de que o tema da liberdade será o centro desta visita. “Vinte cinco anos atrás – sublinha – vimos a liberdade como algo que tinha chegado e era o oposto da opressão da ditadura externa: liberdade como autodeterminação de um Estado. Hoje, ao invés, enfrentamos o desafio da liberdade de um modo completamente diferente: usar a nossa liberdade corretamente para um bem comum”.

Portanto, evidenciar alguns problemas que a sociedade lituana está enfrentando: “Atualmente nos encontramos diante de desafios como a grande imigração, a alta porcentagem de dependentes do álcool e de suicídios e também de divórcios, problemas que em parte foram influenciados pelas feridas do passado”.

O Papa encontrará uma Igreja que sofreu o martírio

Um outro elemento importante, sublinhou Dom Grušas, é o martírio que viveu a Igreja da Lituânia. “Penso – explica – que o Papa, visitando estes países, visitará os lugares onde as pessoas sofreram, onde a Igreja sofreu. As pessoas aprenderam a lição da importância da oração pelo renascimento: os últimos 25 anos foram anos de renascimento para a nossa Igreja, pelos sofrimentos e feridas que sofreu e que agora estão dando muitos frutos.

Um dos lugares que o Papa visitará na Lituânia – evidencia o bispo – é a prisão do KGB e visitará também o memorial do Holocausto dos judeus no gueto. Esses são sinais das grandes feridas no Corpo de Cristo que sofremos nos últimos cem anos. A oração e a cura das feridas são o modo pelo qual a sociedade pode ir adiante”.

OS PAÍSES BÁLTICOS

Estônia, Letônia e Lituânia formam os Países Bálticos, essas nações estão localizadas na porção nordeste do continente europeu, na costa leste do mar Báltico. Juntos, possuem extensão territorial de 174.800 quilômetros quadrados e população de 6.876.172 habitantes.

Essas três nações integraram a extinta União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), e declararam suas independências em 1991, passando, portanto, a serem Estados autônomos.

Com o fim da URSS em 1991, as ex-repúblicas soviéticas, juntamente com a Rússia, criaram a Comunidade dos Estados Independentes (CEI), que consiste num bloco econômico cujo principal objetivo é estabelecer um sistema econômico e de defesa entre as nações. De todas as ex-repúblicas soviéticas, somente os Países Bálticos (Estônia, Letônia e Lituânia) nunca integraram a CEI, pois essas nações, desde a independência, sempre tentaram diminuir as relações políticas com a Rússia, principal integrante do bloco.

Atualmente, os Países Bálticos são membros da União Europeia (UE) e apresentam elevadas taxas de desenvolvimento econômico: média de 6% ao ano. O desenvolvimento social também tem sido promovido nessas nações, com elevações constantes no Índice de Desenvolvimento Humano (IDH).

No entanto, os Países Bálticos apresentam problemas vinculados ao período de integração na União Soviética. Todas essas nações possuem uma parcela da população de origem russa, na Estônia e na Letônia, por exemplo, 30% da população é de origem russa. Esse fato faz com que a Rússia exerça forte pressão na política interna desses países, tentando exercer influência nos assuntos políticos e econômicos da região.

“Não devemos ter medo de sair e se entregar”

Cidade do Vaticano – Na manhã deste domingo (23/9), o Papa Francisco deixou a Nunciatura Apostólica de Vilnius às 8h15 hora local (2h15 no Brasil), e transferiu-se para Kaunas, a segunda maior cidade da Lituânia e antiga capital temporária do país. Segundo uma das lendas, foi fundada pelos Romanos na Antiguidade, em 1030. Após a II Guerra Mundial, Kaunas tornou-se a principal cidade industrial da Lituânia. A Arquidiocese conta 650 mil habitantes, dos quais 520 mil católicos.

Ao chegar a Kaunas, o Papa passou de papamóvel entre os mais de cem mil fiéis presentes no Parque Sántakos, onde presidiu à celebração da Santa Missa. Em sua homilia, Francisco partiu do Evangelho do dia, onde São Marcos dedica grande parte ao ensinamento de Jesus aos discípulos. É como se, no meio do caminho para Jerusalém, Jesus quisesse que os seus discípulos renovassem a sua opção, sabendo que este seguimento comportaria momentos de provação e sofrimento.

O evangelista lembra que Jesus anunciou a sua Paixão em três ocasiões aos discípulos, e por três vezes expressaram sua perplexidade e resistência a esta notícia. No entanto, o Senhor sempre lhes deixou seu ensinamento, explicou o Papa:

“A vida cristã passa sempre por momentos de cruz, que, às vezes, parecem intermináveis. As gerações passadas sentiram a dureza do tempo da ocupação, a angústia dos que eram deportados, a incerteza da sua volta, a vergonha da delação, da traição”.

Quantas vezes, – disse Francisco – o justo é perseguido, sofre insultos e tormentos pelo fato de ser bom! Kaunas e a Lituânia conhecem bem esta realidade, sobretudo ao recordar dos guetos de Vilnius e de Kaunas.

Mas, voltando ao Evangelho de hoje, Papa disse que “os discípulos não queriam que Jesus falasse sobre sofrimento e cruz”; não queriam saber de provações e angústias, porque, segundo São Marcos, o interesse deles era outro: ao voltar para casa, discutiam sobre quem, entre eles, seria o maior. E Francisco ponderou: “Irmãos, o desejo de poder e de glória é o modo mais comum de se comportar daqueles que não conseguem sanar a memória da sua história e, talvez, nem aceitam compromissos com o momento presente. Discutem sobre quem mais se destacou e foi mais puro no passado, quem possui mais direitos e tem mais privilégios. Assim, negamos a nossa história gloriosa por ser feita de sacrifícios, esperança, luta, serviço e fadiga”.

Trata-se – continuou o Papa – de uma atitude estéril e inútil, que recusa a construção do presente e da dolorosa realidade do povo fiel. Sabendo o que os discípulos pensavam, – destacou o Santo Padre – o Mestre propôs-lhes um antídoto para estas lutas de poder e recusa do sacrifício: sentou-se com eles e colocou uma criança no meio deles; hoje, esta criança poderia ser um pequenino qualquer, um pobre, a minoria étnica, o desempregado, o migrante; talvez um idoso, um jovem, que perderam o sentido da sua existência. E Francisco refletiu:

“Trata-se disso: de uma Igreja ‘em saída’; não devemos ter medo de sair e entregar-se; não devemos ter medo de estar atrás dos pequeninos, dos esquecidos, dos que vivem nas periferias existenciais. Porém, devemos saber que este ‘sair’ implica, às vezes, deter o passo e renunciar aos anseios, sabendo olhar, escutar e acompanhar o excluído da sociedade”.

Eis o motivo pelo qual estamos aqui, hoje, – disse Francisco – ansiosos de receber Jesus e a sua palavra, através da Eucaristia e dos pequeninos. Por isso, o Papa fez os votos para que “o Senhor possa reconciliar a nossa memória, acompanhar-nos no presente, apesar dos desafios e das chagas do passado…; Sigamos o Mestre como verdadeiros discípulos, compartilhando das alegrias e esperanças, das tristezas e angústias dos homens do nosso tempo, sobretudo dos pobres e atribulados”.

ÍNTEGRA DA HOMILIA DO SANTO PADRE

São Marcos dedica uma parte inteira do seu Evangelho ao ensinamento dirigido aos discípulos. É como se, a meio do caminho para Jerusalém, Jesus quisesse que os seus renovassem a sua opção, sabendo que este seguimento comportaria momentos de provação e sofrimento. O evangelista narra aquele período da vida de Jesus, lembrando que Ele anunciou, em três ocasiões, a sua paixão; e eles, por três vezes, expressaram a sua perplexidade e resistência, e o Senhor quis deixar-lhes um ensinamento, em cada uma das três ocasiões. Acabamos de ouvir a segunda destas três sequências (cf. Mc 9, 30-37).

A vida cristã sempre atravessa momentos de cruz e, às vezes, parecem intermináveis. As gerações passadas viram gravar a fogo o tempo da ocupação, a angústia daqueles que eram deportados, a incerteza por aqueles que não voltavam, a vergonha da delação, da traição. O livro da Sabedoria fala-nos do justo perseguido, daquele que sofre insultos e tormentos pelo simples fato de ser bom (cf. 2, 20-20). Quantos de vós poderiam contar em primeira pessoa, ou na história de algum parente, esta mesma passagem que foi lida? Quantos de vós viram também vacilar a sua fé, porque Deus não apareceu para vos defender; porque o fato de permanecer fiéis não foi suficiente para que Ele interviesse na vossa história. Kaunas conhece esta realidade; toda a Lituânia pôde testemunhar sentindo arrepios à simples nomeação da Sibéria, ou dos guetos de Vilna e Kaunas, entre outros; e pode corroborar em uníssono com o apóstolo Tiago, na passagem da sua Carta que escutamos: cobiçam, matam, invejam, lutam e fazem guerra (cf. 4, 2).

Mas, os discípulos não queriam que Jesus lhes falasse de sofrimento e de cruz; não querem saber nada de provações e angústias. E São Marcos lembra que o interesse deles ia para outras coisas: voltavam para casa discutindo sobre qual deles seria o maior. Irmãos, o desejo de poder e glória é o modo mais comum de se comportar daqueles que não conseguem curar a memória da sua história e, talvez por isso mesmo, não aceitam sequer comprometer-se no trabalho do momento presente. E então discute-se sobre quem mais brilhou, quem foi mais puro no passado, quem possui mais direito do que os outros a ter privilégios. E assim negamos a nossa história, «que é gloriosa por ser história de sacrifícios, de esperança, de luta diária, de vida gasta no serviço, de constância no trabalho fadigoso» (Exort. ap. Evangelii gaudium, 96). É uma atitude estéril e vã, que se recusa a envolver-se na construção do presente, perdendo o contato com a dolorosa realidade do nosso povo fiel. Não podemos ser como aqueles «peritos» espirituais que se limitam a julgar de fora e passam o tempo inteiro a falar sobre «o que se deveria fazer» (cf. ibid., 96).

Sabendo Jesus o que pensavam, propõe-lhes um antídoto para estas lutas de poder e a recusa do sacrifício; e, a fim de dar solenidade ao que está para dizer, senta-se como um Mestre, chama-os e faz um gesto: coloca uma criança no centro; um rapazinho que habitualmente ganhava alguns trocados prontificando-se para recados que ninguém queria fazer. Hoje, nesta manhã de domingo, quem colocará aqui no meio? Quem serão os mais pequenos, os mais pobres entre nós, que devemos acolher cem anos depois da nossa independência? Quem não tem nada para nos retribuir, para tornar gratificantes os nossos esforços e as nossas renúncias? Talvez sejam as minorias étnicas da nossa cidade, ou os desempregados que são forçados a emigrar. Talvez sejam os idosos abandonados ou os jovens que não encontram um sentido na vida, porque perderam as suas raízes. «No meio» significa equidistante, de modo que ninguém pode fingir que não vê, ninguém pode afirmar que «é responsabilidade de outros», porque «eu não vi» ou «estou demasiado longe». Sem protagonismos, sem querer ser aplaudidos ou os primeiros. Lá, na cidade de Vilna, tocou ao rio Vilna oferecer as suas águas e perder o nome relativamente ao Neris; aqui, é o próprio Neris que perde o nome oferecendo as suas águas ao Nemunas. É precisamente disto que se trata: ser uma Igreja «em saída», não ter medo de sair e gastar-se mesmo quando parece que nos dissolvemos, não ter medo de nos perdermos atrás dos mais pequenos, dos esquecidos, daqueles que vivem nas periferias existenciais. Mas sabendo que aquele sair implicará também em determinados casos deter o passo, colocar de lado anseios e urgências para saber olhar nos olhos, escutar e acompanhar quem ficou na beira da estrada. Às vezes, será necessário comportar-se como o pai do filho pródigo, que permanece junto da porta à espera do seu regresso, para lhe abrir logo que chegue (cf. ibid., 46); ou como os discípulos que devem aprender que, ao receber um pequenino, é o próprio Jesus que Se recebe.

Eis porque nos encontramos hoje aqui, ansiosos por receber Jesus: na sua palavra, na Eucaristia, nos pequeninos. Recebê-Lo para que Ele reconcilie a nossa memória e nos acompanhe num presente que continue a apaixonar-nos pelos seus desafios, pelos sinais que nos deixa; para que O sigamos como discípulos, porque nada há de verdadeiramente humano que não tenha ressonância no coração dos discípulos de Cristo e, assim, sentimos como nossas as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens do nosso tempo, sobretudo dos pobres e dos atribulados (cf. Conc. Ecum. Vat. II, Const. past. Gaudium et spes, 1). E porque, como comunidade, nos sentimos verdadeira e intimamente solidários com a humanidade – desta cidade e de toda a Lituânia – e com a sua história (cf. ibid., 1), queremos doar a vida no serviço e na alegria e, assim, fazer saber a todos que Jesus Cristo é a nossa única esperança.

Aos consagrados: não esqueçam seus mártires!

Cidade do Vaticano – “Gostaria de dizer um sentimento que tenho. Olhando para vocês, vejo muitos mártires atrás de vocês. Mártires anônimos, no sentido de que nem sabemos onde eles foram enterrados”. A Catedral de S. Pedro e S. Paulo em Kaunas, na Lituânia, foi o local do encontro do Papa com a vida consagrada. Com eles, Francisco compartilhou “alguns traços característicos da esperança à qual sacerdotes, seminaristas, consagrados e consagradas”, são chamados a viver. A Catedral de Kaunas foi a primeira grande construção gótica da Lituânia e remonta ao ano de 1413, segundo algumas fontes escritas.

O Pontífice foi recebido com efusivos aplausos pelos presentes, em meio à cânticos religiosos. Mas antes de pronunciar-se, dirigiu-se a uma capela lateral onde depositou flores aos pés de uma imagem de Nossa Senhora, detendo-se então em oração diante do Tabernáculo. No local estavam presentes algumas religiosas de clausura. Francisco dirigiu a elas algumas palavras em italiano, sendo traduzido em lituano por um sacerdote.

Antes de ler o discurso preparado, Francisco falou de improviso, inspirado na conversa que teve com os bispos com quem almoçou na sede da Cúria em Kaunas, antes do encontro na Catedral. E recordou o tempo das perseguições e os tantos mártires.

“Também alguém de vocês: eu cumprimentei alguém [de vocês], [que] soube o que era a prisão. Vem-me à mente uma palavra para começar: não esqueçam, recordem-se. Vocês são filhos dos mártires. Essa é sua força. E o espírito do mundo não venha para lhes dizer outra coisa diferente daquela que seus antepassados ​​viveram”.

“Recordem dos mártires de vocês, insistiu. Tomem o seu exemplo, não tenham medo. Falando com os bispos, seus bispos hoje, disseram: “Como podemos apresentar a causa da beatificação para muitos dos quais não temos documentos, mas sabemos que eles são mártires?” É um consolo, é bonito ouvir isso: a preocupação por aqueles que nos deram testemunho. São os Santos”.

Ao retomar o discurso escrito, o Papa recordou que Paulo repetiu três vezes a palavra “gemer” – geme-se pela escravidão da corrupção, pelo anseio à plenitude – dizendo aos presentes, “que seria bem perguntar se aquele gemido está presente em nós ou se, pelo contrário, já nada grita na nossa carne, nada anela pelo Deus vivo”:

“O gemido da corça sequiosa por falta de água deveria ser o nosso na busca da profundidade, da verdade, da beleza de Deus. Talvez a «sociedade do bem-estar» nos tenha deixado demasiadamente saciados, cheios de serviços e de bens, e encontramo-nos «pesados» de tudo e cheios de nada; talvez nos tenha deixado aturdidos ou dissipados, mas não cheios. Somos nós, homens e mulheres de especial consagração, aqueles que não podem jamais permitir-se a perda daquele gemido, daquela inquietude do coração que só no Senhor encontra repouso”.

“Nenhuma informação imediata – enfatizou o Papa – nenhuma comunicação virtual instantânea pode privar-nos dos tempos concretos, prolongados, para conquistar – é precisamente disto que se trata: de um esforço constante – um diálogo diário com o Senhor através da oração e da adoração”. Trata-se de cultivar o nosso desejo de Deus, como escrevia São João da Cruz.

Mas “este gemido – continuou – deriva também da contemplação do mundo dos homens, sendo um apelo à plenitude face às necessidades insatisfeitas dos nossos irmãos mais pobres, perante a falta de sentido da vida dos mais novos, a solidão dos idosos, os abusos contra o meio ambiente. É um gemido que procura organizar-se para influenciar os acontecimentos duma nação, duma cidade; não como pressão ou exercício de poder, mas como serviço”.

“O grito do nosso povo deve-nos importunar como a Moisés, a quem Deus revelou o sofrimento do seu povo no encontro junto da sarça ardente”, disse o Pontífice, recordando que “escutar a voz de Deus na oração faz-nos ver, ouvir, conhecer o sofrimento dos outros para os podermos libertar. Mas de igual modo devemos sentir-nos importunados quando o nosso povo deixou de gemer, deixou de procurar a água que mata a sede. É hora também para discernir o que está a anestesiar a voz do nosso povo”:

“O clamor que nos faz procurar a Deus na oração e na adoração é o mesmo que nos faz escutar o lamento dos nossos irmãos. Eles «esperam» em nós e, a partir dum discernimento atento, precisamos de nos organizar, programar e ser ousados e criativos no nosso apostolado. Que a nossa presença não seja deixada à improvisação, mas dê resposta às necessidades do povo de Deus e seja, assim fermento na massa”.

A segunda característica de que fala o Apóstolo, é a “constância”, “constância no sofrimento, constância em perseverar no bem. Isto significa estar centrados em Deus, permanecendo firmemente enraizados n’Ele, ser fiéis ao seu amor”.

O Papa recordou então o testemunho dos mais idosos nesta “constância no sofrimento”:

“A violência usada contra vós por ter defendido a liberdade civil e religiosa, a violência da difamação, o cárcere e a deportação não puderam vencer a vossa fé em Jesus Cristo, Senhor da história. Por isso, tendes tanto a dizer-nos e ensinar-nos, e muito também a propor, sem precisar de julgar a aparente fraqueza dos mais jovens”.

E aos mais jovens recomendou que quando se depararem com “as pequenas frustrações” que tiram o ânimo, levando a um fechamento em si mesmos, levando “a comportamentos e evasões que não são coerentes” com a consagração, procurem suas raízes e busquem olhar “o caminho percorrido pelos idosos”:

“São precisamente as tribulações que delineiam os traços distintivos da esperança cristã, porque, quando é apenas uma esperança humana, podemos sentir-nos frustrados e esmagados com o fracasso; mas não acontece o mesmo com a esperança cristã: esta sai mais límpida, mais experimentada do crisol das tribulações”.

Mesmo que os tempos sejam outros e a vida vivida em outras estruturas, o Papa afirma que “estes conselhos são melhor assimilados quando as pessoas que viveram aquelas duras experiências não se fecham, mas compartilham-nas aproveitando os momentos comuns”.

O identificar-se com Cristo, participar comunitariamente no seu destino, é a terceira característica ressaltada por Paulo, para quem “a salvação esperada não se limita a um aspecto negativo – libertação duma tribulação interna ou externa, temporal ou escatológica –, mas a ênfase está colocada em algo altamente positivo: a participação na vida gloriosa de Cristo, a participação no seu Reino glorioso, a redenção do corpo”.

Trata-se, portanto, de vislumbrar o mistério do projeto único e irrepetível que Deus tem para cada um. Pois não há ninguém que nos conheça e nos tenha conhecido tão profundamente como Deus; por isso Ele nos destinou para algo que parece impossível, aposta sem possibilidade de erro que reproduzamos a imagem de seu Filho. Ele colocou as suas expectativas em nós, e nós esperamos n’Ele. Um «nós» que integra, mas também supera e excede o «eu».

Devemos interrogar-nos novamente, diz Francisco: “Que nos pede o Senhor? Quais são as periferias que mais precisam da nossa presença, para lhes levar a luz do Evangelho?”:
“No barco da Igreja, estamos todos, sempre procurando clamar a Deus, ser constantes no meio das tribulações e ter Cristo Jesus como objeto da nossa esperança. E este barco reconhece no centro da sua missão o anúncio da glória esperada que é a presença de Deus no meio do seu povo, em Cristo ressuscitado, e que um dia, ansiosamente esperado por toda criação, se manifestará nos filhos de Deus. Este é o desafio que nos impele: o mandato de evangelizar. É a razão da nossa esperança e alegria”.


ÍNTEGRA DO DISCURSO

Amados irmãos e irmãs, boa tarde!

Antes de mais nada, gostaria de expressar um sentimento que me vai na alma. Ao contemplar-vos, vejo atrás de vós tantos mártires. Mártires anônimos, não sabendo nós sequer onde foram sepultados. Inclusive alguns de vós: saudei um, que soube o que era a prisão. Para começar, vem-me à mente uma palavra: não vos esqueçais, fazei memória. Sois filhos de mártires: esta é a vossa força. E que o espírito do mundo não vos venha dizer outra coisa diferente da que viveram os vossos antepassados. Recordai os vossos mártires e imitai o seu exemplo: não tinham medo. Hoje, ao falar com os Bispos – os vossos Bispos –, eles diziam: «Como se pode fazer para introduzir a Causa de Beatificação de muitos que nem documentos temos, mas sabemos que são mártires?» É consolador, é bom ouvir isto: a preocupação com aqueles que nos deram testemunho. São santos.

O Bispo [Linas Vodopjanovas OFM, encarregado da vida consagrada] disse sem meias palavras (os franciscanos falam assim): «Muitas vezes hoje, de várias maneiras, é colocada à prova a nossa fé – afirmou ele; e não estava a pensar nas perseguições dos ditadores –. Depois de corresponder à chamada da vocação, muitas vezes já não sentimos alegria na oração nem na vida comunitária».

O espírito da secularização, do tédio por tudo o que diz respeito à comunidade é a tentação da segunda geração. Os nossos pais lutaram, sofreram, estiveram encarcerados… e nós talvez não tenhamos a força de continuar. Tende isto em conta!

A Carta aos Hebreus faz uma exortação: «Não vos esqueçais dos primeiros dias. Não vos esqueçais dos vossos antepassados» (cf. 10, 32-39). Esta é a exortação que vos dirijo ao começar.

Toda a visita ao vosso país decorreu sob este lema: «Jesus Cristo, nossa esperança». Já quase no final deste dia, encontramos um texto do apóstolo Paulo que nos convida a esperar com constância. E faz este convite depois de nos ter anunciado o sonho de Deus para cada ser humano, mais ainda, para toda a criação: «tudo contribui para o bem daqueles que amam a Deus» (Rm 8, 28); a tradução literal seria «endireita» todas as coisas.

Hoje gostaria de partilhar convosco alguns traços caraterísticos desta esperança; traços que nós – sacerdotes, seminaristas, consagrados e consagradas – somos chamados a viver.

Antes de nos convidar à esperança, Paulo repetiu três vezes a palavra «gemer»: geme a criação, gemem os homens, geme o Espírito em nós (cf. Rm 8, 22-23.26). Geme-se pela escravidão da corrupção, pelo anseio à plenitude. Hoje, far-nos-á bem perguntar se aquele gemido está presente em nós ou se, pelo contrário, já nada grita na nossa carne, nada anela pelo Deus vivo. Como dizia o vosso Bispo: «Já não sentimos alegria na oração, na vida comunitária». O gemido da corça sequiosa por falta de água deveria ser o nosso na busca da profundidade, da verdade, da beleza de Deus. Meus amigos, não somos «funcionários de Deus»! Talvez a «sociedade do bem-estar» nos tenha deixado demasiadamente saciados, cheios de serviços e de bens, e encontramo-nos «pesados» de tudo e cheios de nada; talvez nos tenha deixado aturdidos ou dissipados, mas não cheios. Pior ainda, às vezes já nem sentimos fome. Somos nós, homens e mulheres de especial consagração, aqueles que não podem jamais permitir-se a perda daquele gemido, daquela inquietude do coração que só no Senhor encontra repouso (cf. Santo Agostinho, Confissões, I, 1,1). A inquietude do coração. Nenhuma informação imediata, nenhuma comunicação virtual instantânea pode privar-nos dos tempos concretos, prolongados, para conquistar – é precisamente disto que se trata: de um esforço constante – para conquistar um diálogo diário com o Senhor através da oração e da adoração. Trata-se de cultivar o nosso desejo de Deus, como escrevia São João da Cruz. Dizia assim: «Sê assíduo na oração, sem a deixares sequer no meio das ocupações exteriores. Quer comas ou bebas, quer fales ou trates com os seculares quer faças qualquer outra coisa, deseja sempre a Deus mantendo n’Ele o afeto do coração» (Conselhos para alcançar a perfeição, 9).

Este gemido deriva também da contemplação do mundo dos homens, sendo um apelo à plenitude face às necessidades insatisfeitas dos nossos irmãos mais pobres, perante a falta de sentido da vida dos mais novos, a solidão dos idosos, os abusos contra o meio ambiente. É um gemido que procura organizar-se para influenciar os acontecimentos duma nação, duma cidade; não como pressão ou exercício de poder, mas como serviço. O grito do nosso povo deve-nos importunar como a Moisés, a quem Deus revelou o sofrimento do seu povo no encontro junto da sarça ardente (cf. Ex 3, 9). Escutar a voz de Deus na oração faz-nos ver, faz-nos ouvir, conhecer o sofrimento dos outros para os podermos libertar. Mas de igual modo devemos sentir-nos importunados quando o nosso povo deixou de gemer, deixou de procurar a água que mata a sede. É hora também para discernir o que está a anestesiar a voz do nosso povo.

O clamor que nos faz procurar a Deus na oração e na adoração é o mesmo que nos faz escutar o lamento dos nossos irmãos. Eles «esperam» em nós e, a partir dum discernimento atento, precisamos de nos organizar, programar e ser ousados e criativos no nosso apostolado. Que a nossa presença não seja deixada à improvisação, mas dê resposta às necessidades do povo de Deus e seja, assim fermento na massa (cf. Exort. ap. Evangelii gaudium, 33).

Mas o Apóstolo fala também de constância; constância no sofrimento, constância em perseverar no bem. Isto significa estar centrados em Deus, permanecendo firmemente enraizados n’Ele, ser fiéis ao seu amor.

Vós, os mais idosos (como não mencionar Mons. Sigitas Tamkevicius?), sabereis testemunhar esta constância no sofrimento, este «esperar contra toda a esperança» (cf. Rm 4, 18). A violência usada contra vós por ter defendido a liberdade civil e religiosa, a violência da difamação, o cárcere e a deportação não puderam vencer a vossa fé em Jesus Cristo, Senhor da história. Por isso, tendes tanto a dizer-nos e ensinar-nos, e muito também a propor, sem precisar de julgar a aparente fraqueza dos mais jovens. E vós, mais jovens, quando vos vedes confrontados com as pequenas frustrações que vos desanimam e tendeis a fechar-vos em vós mesmos, recorrendo a comportamentos e evasões que não são coerentes com a vossa consagração, procurai as vossas raízes e olhai o caminho percorrido pelos idosos. Vejo que há jovens aqui. Repito, porque há jovens. E vós, mais jovens, quando vos vedes confrontados com as pequenas frustrações que vos desanimam e tendeis a fechar-vos em vós mesmos, recorrendo a comportamentos e evasões que não são coerentes com a vossa consagração, procurai as vossas raízes e olhai o caminho percorrido pelos idosos. É melhor seguirdes outro caminho do que viverdes na mediocridade. Isto para os jovens. Estais ainda a tempo, e a porta está aberta. São precisamente as tribulações que delineiam os traços distintivos da esperança cristã, porque, quando é apenas uma esperança humana, podemos sentir-nos frustrados e esmagados com o fracasso; mas não acontece o mesmo com a esperança cristã: esta sai mais límpida, mais experimentada do crisol das tribulações.

É verdade que estes são outros tempos e vivemos noutras estruturas, mas é verdade também que estes conselhos são melhor assimilados quando as pessoas que viveram aquelas duras experiências não se fecham, mas compartilham-nas aproveitando os momentos comuns. As suas histórias não aparecem cheias de saudade pelos tempos passados apresentados como melhores, nem de acusações dissimuladas contra aqueles que têm estruturas afetivas mais frágeis. A provisão de constância duma comunidade de discípulos é eficaz, quando sabe integrar – como o escriba – o novo e o velho (cf. Mt 13, 52), quando está ciente de que a história vivida é raiz para que a árvore possa florescer.

Por fim, olhar para Cristo Jesus como nossa esperança significa identificar-nos com Ele, participar comunitariamente no seu destino. Para o apóstolo Paulo, a salvação esperada não se limita a um aspeto negativo – libertação duma tribulação interna ou externa, temporal ou escatológica –, mas a ênfase está colocada em algo altamente positivo: a participação na vida gloriosa de Cristo (cf. 1 Ts 5, 9-10), a participação no seu Reino glorioso (cf. 2 Tm 4, 18), a redenção do corpo (cf. Rm 8, 23-24). Trata-se, portanto, de vislumbrar o mistério do projeto único e irrepetível que Deus tem para cada um, para cada um de nós. Pois não há ninguém que nos conheça e nos tenha conhecido tão profundamente como Deus; por isso Ele nos destinou para algo que parece impossível, aposta sem possibilidade de erro que reproduzamos a imagem de seu Filho. Ele colocou as suas expetativas em nós, e nós esperamos n’Ele.

Nós: um «nós» que integra, mas também supera e excede o «eu»; o Senhor chama-nos, justifica-nos e glorifica-nos juntos; e juntos, até ao ponto de incluir a criação inteira. Muitas vezes colocamos tanta ênfase na responsabilidade pessoal que a dimensão comunitária se tornou um pano de fundo, apenas um ornamento. Mas o Espírito Santo reúne-nos, reconcilia as nossas diferenças e gera novos dinamismos para dar impulso à missão da Igreja (cf. Exort. ap. Evangelii gaudium, 131; 235).

Este templo, onde estamos reunidos, é dedicado a São Pedro e São Paulo. Ambos os apóstolos estavam cientes do tesouro que lhes fora dado; e, em momentos e de modos diferentes, ambos foram convidados a «fazer-se ao largo» (cf. Lc 5, 4). No barco da Igreja, estamos todos, sempre procurando clamar a Deus, ser constantes no meio das tribulações e ter Cristo Jesus como objeto da nossa esperança. E este barco reconhece no centro da sua missão o anúncio da glória esperada que é a presença de Deus no meio do seu povo, em Cristo ressuscitado, e que um dia, ansiosamente esperado por toda criação, se manifestará nos filhos de Deus. Este é o desafio que nos impele: o mandato de evangelizar. É a razão da nossa esperança e alegria.

Quantas vezes encontramos sacerdotes, consagrados e consagradas tristes. A tristeza espiritual é uma doença. Tristes, porque não sabem… Tristes, porque não encontram amor, porque não se sentem enamorados: enamorados do Senhor. Deixaram de lado uma vida de matrimónio, de família e quiseram seguir o Senhor. Mas agora parece que se cansaram… E surge a tristeza. Por favor, quando vos encontrardes tristes, parai. E procurai um padre sábio, uma irmã sábia. Não sábios, porque se doutoraram na universidade; não por isso! Sábio ou sábia, porque foram capazes de avançar no amor. Ide pedir-lhe conselho. Quando começa aquela tristeza, podemos profetizar que ela, se não for curada a tempo, fará de vós «solteirões» e «solteironas», homens e mulheres que não são fecundos. E, desta tristeza, tende medo! É o diabo que a semeia.

E hoje aquele mar, onde «fazer-se ao largo», hão de ser «os cenários e os desafios sempre novos» desta Igreja em saída. Devemos interrogar-nos novamente: Que nos pede o Senhor? Quais são as periferias que mais precisam da nossa presença, para lhes levar a luz do Evangelho? (cf. Exort. ap. Evangelii gaudium, 20).

Caso contrário, se não tiverdes a alegria da vocação, quem poderá acreditar que Jesus Cristo é a nossa esperança? Só o nosso exemplo de vida dará razão da nossa esperança n’Ele.

Há outra coisa que está ligada com a tristeza: confundir a vocação com uma empresa, com uma fábrica. «Estou empregado nisto, trabalho nisto, entusiasmo-me com isto…, e sou feliz, porque tenho isto». Mas, amanhã, vem um Bispo (outro ou o mesmo), ou vem outro superior, superiora, e diz-te: «Não, deixa isto e vai para tal lugar». É o momento da derrota. Por quê? Porque naquele momento dar-te-ás conta de que seguiste um caminho equivocado. Descobrirás que o Senhor, que te chamou para amar, está decepcionado contigo, porque preferiste fazer o empresário. No princípio, disse-vos que, a vida de quem segue Jesus, não é a vida de funcionário ou funcionária: é a vida do amor ao Senhor e do zelo apostólico pelas pessoas. Permiti-me uma caricatura! Que faz um padre funcionário? Tem o seu horário, o seu escritório, abre o escritório àquela hora, faz o seu trabalho, fecha o escritório… E as pessoas estão fora. Não se aproxima das pessoas. Queridos irmãos e irmãs, se não quiserdes ser funcionários, digo-vos uma palavra: proximidade! Vizinhança, proximidade. Proximidade do Sacrário, face a face com o Senhor. E proximidade das pessoas. «Mas, padre, as pessoas não vêm». Vai ao encontro delas! «Mas, hoje, os adolescentes não vêm». Inventa qualquer coisa: o oratório, para os acompanhar, para os ajudar. Proximidade com as pessoas. E proximidade com o Senhor no Sacrário. O Senhor quer que sejais pastores de povo, e não clérigos de Estado! Depois direi algo às irmãs, mas depois…

Proximidade quer dizer misericórdia. Nesta terra, onde o Senhor Se revelou como Jesus misericordioso, um sacerdote não pode deixar de ser misericordioso. Sobretudo no confessionário. Pensai como Jesus acolheria esta pessoa [que vem confessar-se]. A este pobrezinho, a vida já o fustigou bastante! Fazei-lhe sentir o abraço do Pai que perdoa. E se, por exemplo, não lhe podes dar a absolvição, dá-lhe a consolação do irmão, do pai. Encoraja-o a prosseguir. Convence-o de que Deus perdoa tudo. Mas isto, com ardor de padre. Nunca afugentar alguém do confessionário! Nunca expulsá-lo. «Sabes? Tu não podes… Agora não posso, mas Deus ama-te; tu reza, volta e falaremos…». Fazer assim. Proximidade. Ser padre é isto. Não te importas daquele pecador, para o expulsares assim? Não estou a falar de vós, porque não vos conheço. Falo doutras realidades. E misericórdia. O confessionário não é o gabinete dum psiquiatra. O confessionário não é para escavar no coração das pessoas.

E por isso, queridos sacerdotes, para vós proximidade significa também ter entranhas de misericórdia. E as entranhas de misericórdia, sabeis onde se ganham? Ali, no Sacrário.

E vós, queridas irmãs! Muitas vezes vêm-se irmãs que são boas – todas as irmãs são boas – mas que murmuram, murmuram, murmuram… Perguntai àquela que está no primeiro lugar do outro lado – a penúltima –, se na prisão tinha tempo de murmurar, enquanto cosia as luvas. Perguntai-lhe. Por favor, sede mães! Sede mães, porque sois ícone da Igreja e de Nossa Senhora. Possa cada pessoa que vos vir, ver a mãe Igreja e a mãe Maria. Não esqueçais isto. E a mãe Igreja não é «solteirona». A mãe Igreja não murmura: ama, serve, faz crescer. A vossa proximidade é ser mãe: ícone da Igreja e ícone de Nossa Senhora.

Proximidade ao Sacrário e à oração: aquela sede da alma de que falei. E, com os outros, serviço sacerdotal e vida consagrada não de funcionários, mas de pais e mães de misericórdia. E, se assim fizerdes, quando fordes idosos tereis um sorriso belíssimo e olhos brilhantes! Porque tereis a alma cheia de ternura, mansidão, misericórdia, amor, paternidade e maternidade.

E rezai por este pobre bispo. Obrigado!

Com os luteranos: “A nossa fé não é para ficar oculta”

Cidade do Vaticano – O segundo compromisso do Papa Francisco na Letônia, nesta segunda-feira (24/09), foi a oração ecumênica na Catedral evangélica luterana de Santa Maria, em Riga, que há mais de 800 anos hospeda a vida cristã dessa cidade. Francisco manifestou alegria de estar “nesta terra que se caracteriza por realizar um caminho de respeito, colaboração e amizade entre as diferentes Igrejas cristãs, que conseguiram gerar unidade mantendo a riqueza e a singularidade próprias de cada uma. Atrevo-me a dizer que é um «ecumenismo vivo», sendo uma das caraterísticas peculiares da Letônia. É, sem dúvida alguma, um motivo de esperança e ação de graças”.

A “casa-catedral”, assim chamada pelo Papa, é uma “testemunha fiel de muitos irmãos nossos que dela se aproximaram para adorar, rezar e sustentar a esperança em tempos de tribulação e encontrar coragem para enfrentar períodos cheios de injustiça e sofrimento”. “Hoje, hospeda-nos para que o Espírito Santo continue tecendo artesanalmente laços de comunhão entre nós e, assim, faça também de nós artesãos de unidade no meio do nosso povo, para que as nossas diferenças não se tornem divisões.”

“Deixemos que o Espírito Santo nos revista com as armas do diálogo, da compreensão, da busca do respeito mútuo e da fraternidade”. O Pontífice enfatizou que “nesta catedral, encontra-se um dos órgãos mais antigos da Europa e que, no momento da sua inauguração, era o maior do mundo. Podemos imaginar como acompanhou a vida, a criatividade, a imaginação e a piedade de todos aqueles que se deixavam envolver por sua melodia”.


ÍNTEGRA DO DISCURSO

Sinto-me feliz por poder encontrar-me convosco nesta terra que se carateriza por realizar um caminho de respeito, colaboração e amizade entre as diferentes Igrejas cristãs, que conseguiram gerar unidade mantendo a riqueza e a singularidade próprias de cada uma. Atrevo-me a dizer que é um «ecumenismo vivo», sendo uma das caraterísticas peculiares da Letônia. É, sem dúvida alguma, um motivo de esperança e ação de graças.

Obrigado ao Arcebispo Jānis Vanags por nos ter aberto a porta desta casa para realizar o nosso encontro de oração: casa-catedral que, há mais de 800 anos, hospeda a vida cristã desta cidade; testemunha fiel de muitos irmãos nossos que dela se abeiraram para adorar, rezar, sustentar a esperança em tempos de tribulação e encontrar coragem para enfrentar períodos cheios de injustiça e sofrimento. Hoje hospeda-nos para que o Espírito Santo continue a tecer artesanalmente laços de comunhão entre nós e, assim, faça também de nós artesãos de unidade no meio do nosso povo, para que as nossas diferenças não se tornem divisões. Deixemos que o Espírito Santo nos revista com as armas do diálogo, da compreensão, da busca do respeito mútuo e da fraternidade (cf. Ef 6, 13-18).

Nesta catedral, encontra-se um dos órgãos mais antigos da Europa e que, no momento da sua inauguração, era o maior do mundo. Podemos imaginar como acompanhou a vida, a criatividade, a imaginação e a piedade de todos aqueles que se deixavam envolver pela sua melodia. Foi instrumento de Deus e dos homens, para elevar o olhar e o coração. Hoje é um emblema desta cidade e desta catedral. Para o «residente» neste lugar, representa mais do que um órgão monumental, faz parte da sua vida, da sua tradição, da sua identidade; ao passo que, para o turista, é naturalmente um objeto artístico a ser conhecido e fotografado. E este é um perigo que se corre sempre: passar de residentes a turistas, fazendo daquilo que nos identifica um objeto do passado, uma atração turística e de museu que recorda os feitos de outrora, de alto valor histórico, mas que deixou de fazer vibrar o coração de quantos o escutam.

Com a fé, pode acontecer exatamente a mesma coisa. Podemos deixar de nos sentir cristãos residentes, para nos tornarmos turistas. Mais, é possível afirmar que toda a nossa tradição cristã pode sofrer a mesma sorte: acabar reduzida a um objeto do passado que, fechado dentro das paredes das nossas igrejas, deixa de produzir uma melodia capaz de mover e inspirar a vida e o coração daqueles que a ouvem. Porém, como afirma o evangelho que escutamos, a nossa fé não é para ficar oculta, mas para se dar a conhecer fazendo-a ressoar nos diferentes setores da sociedade, a fim de que todos possam contemplar a sua beleza e ser iluminados com a sua luz (cf. Lc 11, 33).

Se a música do Evangelho deixar de ser executada na nossa vida e se transformar numa bela partitura do passado, já não conseguirá romper as monotonias asfixiadoras que impedem de animar a esperança, tornando estéreis todos os nossos esforços.

Se a música do Evangelho parar de vibrar nas nossas entranhas, perderemos a alegria que brota da compaixão, a ternura que nasce da confiança, a capacidade da reconciliação que encontra a sua fonte no facto de nos sabermos sempre perdoados-enviados.

Se a música do Evangelho cessar de repercutir nas nossas casas, nas nossas praças, nos postos de trabalho, na política e na economia, teremos extinguido a melodia que nos desafiava a lutar pela dignidade de todo o homem e mulher, independentemente da sua proveniência, encerrando-nos no «meu» e esquecendo-nos do «nosso»: a casa comum que a todos nos diz respeito.

Se a música do Evangelho deixar de soar, teremos perdido os sons que hão de levar a nossa vida ao céu, entrincheirando-nos num dos piores males do nosso tempo: a solidão e o isolamento. A doença que surge em quem não possui qualquer laço, e que se pode encontrar também nos idosos abandonados ao seu destino, bem como nos jovens sem pontos de referência nem oportunidades de futuro (cf. Discurso ao Parlamento Europeu, 25 de novembro de 2014).

As palavras – Pai, «que todos sejam um só, (…) para que o mundo creia» (Jo 17, 21) – continuam a ressoar intensamente no meio de nós, graças a Deus. É Jesus que, antes do seu sacrifício, reza ao Pai. É Jesus, Jesus Cristo que, encarando a sua cruz e a cruz de muitos dos nossos irmãos, não cessa de implorar ao Pai. É o murmúrio constante desta oração, que traça a senda e nos indica o caminho a seguir. Imersos na sua oração, como crentes n’Ele e na sua Igreja, desejando a comunhão de graça que o Pai possui desde toda a eternidade (cf. São João Paulo II, Carta enc. Ut unum sint, 9), encontramos ali a única estrada possível para todo o ecumenismo na cruz do sofrimento de tantos jovens, idosos e crianças, frequentemente expostos à exploração, ao absurdo, à falta de oportunidades e à solidão. Enquanto fixa o olhar no Pai e em nós, seus irmãos, Jesus não cessa de implorar: que todos sejam um só.

Hoje, a missão continua a pedir-nos e a reclamar de nós a unidade; é a missão que nos exige que paremos de olhar as feridas do passado e acabemos com todas as atitudes autorreferenciais para nos centrarmos na oração do Mestre. É a missão que reclama que a música do Evangelho não cesse de soar nas nossas praças.

Alguns podem chegar a dizer: são tempos difíceis e, são tempos complexos, estes que nos cabe viver. Outros podem chegar a pensar que, nas nossas sociedades, os cristãos têm cada vez menor margem de ação e influência devido a inúmeros fatores, como, por exemplo, o secularismo ou as lógicas individualistas. Isto não pode levar a uma atitude de fechamento, de defesa, nem de resignação. Não podemos deixar de reconhecer que certamente os tempos não são fáceis, sobretudo para muitos dos nossos irmãos que hoje vivem na sua carne o exílio e até o martírio por causa da fé. Mas o seu testemunho leva-nos a descobrir que o Senhor nos continua a chamar convidando-nos a viver o Evangelho com alegria, gratidão e radicalidade. Se Cristo nos considerou dignos de viver nestes tempos, nesta hora – a única que temos –, não nos podemos deixar vencer pelo medo nem deixar que ela passe sem a assumir com a alegria da fidelidade. O Senhor dar-nos-á a força para fazer de cada tempo, de cada momento, de cada situação uma oportunidade de comunhão e reconciliação com o Pai e com os irmãos, especialmente com aqueles que hoje são considerados inferiores ou matéria de descarte. Se Cristo nos considerou dignos de fazer ecoar a melodia do Evangelho, deixaremos de o fazer?

A unidade, a que o Senhor nos chama, é uma unidade sempre em chave missionária, que nos pede para sair e alcançar o coração do nosso povo e das culturas, a sociedade pós-moderna em que vivemos «onde são concebidas as novas histórias e paradigmas, alcançar com a Palavra de Jesus os núcleos mais profundos da alma das cidades» (Exort. ap. Evangelii gaudium, 74). Conseguiremos realizar esta missão ecumênica, se nos deixarmos impregnar pelo Espírito de Cristo que é capaz de «romper também os esquemas enfadonhos em que pretendemos aprisioná-Lo, e surpreende-nos com a sua constante criatividade divina. Sempre que procuramos voltar à fonte e recuperar o frescor original do Evangelho, despontam novas estradas, métodos criativos, outras formas de expressão, sinais mais eloquentes, palavras cheias de renovado significado para o mundo atual» (Ibid., 11).

Amados irmãos e irmãs, que a música do Evangelho continue a repercutir entre nós! Não cesse de ressoar aquilo que permite ao nosso coração continuar a sonhar e a tender para a vida plena a que o Senhor nos chama a todos: sermos seus discípulos-missionários no meio deste mundo onde nos toca viver.

Letônia – Catedral Evangélica Luterana de Riga
Segunda-feira, 24 de setembro de 2018

Aos idosos: não percam a doçura e a esperança

Cidade do Vaticano – Depois de algumas palavras do arcebispo de Riga, Dom Zbignesvs Sankevics, o Santo Padre inicia sua saudação citando justamente a Carta de São Tiago, a quem está dedicada a catedral. O Papa recorda que o Apóstolo nos convida à constância dizendo aos presentes que apesar de terem sofrido “o horror da guerra e, depois, a repressão política, a perseguição e o exílio”, se mantiveram constantes e perseverantes na fé.

Mas, advertiu o Papa, “esta paciência vence a prova a que está sujeita a fé, quando gera obras perfeitas. Então a sua atividade foi perfeita, mas terá ainda de tender para a perfeição nas novas circunstâncias” do mundo contemporâneo.

Francisco recorda que muitas vezes os idosos, apesar de tudo o que fizeram são esquecidos pelos mais jovens. “Embora pareça paradoxal, hoje, em nome da liberdade, os homens livres abandonam os idosos à solidão, ao ostracismo, à falta de recursos, à exclusão e até mesmo à miséria”. Os que lutaram pela liberdade, pelo progresso e conquistas de direitos das gerações de hoje terminam como espectadores de uma festa alheia, honrados, mas esquecidos na vida diária.

“O apóstolo Tiago convida-nos a ser constantes, não deixando diminuir a vigilância”. E para seguir este caminho diz o Papa “o progresso do bem, o amadurecimento espiritual e o crescimento do amor são o melhor contrapeso ao mal”.

E faz um apelo aos idosos presentes: “Não cedam ao desânimo, à tristeza, nem percam a doçura e, menos ainda, a esperança”.

Suportar e esperar pacientemente

Voltando a falar na constância da Carta de São Tiago, explica que é empregada “uma palavra que combina dois significados: suportar pacientemente e esperar pacientemente”, encorajando todos à duas atitudes: suportação e esperança, e as duas impregnadas de paciência. Assim continuem a progredir na construção do seu povo”.

Finalizando seu encontro com os idosos o Santo Padre recorda: “vocês que já atravessaram muitas estações, são testemunho vivo não apenas de constância – continua – vocês são raízes de um povo, raízes de rebentos jovens que devem florescer e dar fruto; defendam estas raízes mantendo-as vivas, para que as crianças e os jovens sejam enxertados nelas e compreendam que tudo o que na árvore está florido / vive daquilo que jaz enterrado”.


ÍNTEGRA DO DISCURSO

Amados irmãos e irmãs!

Agradeço ao Arcebispo as suas palavras e a sua solícita análise da realidade. A vossa presença, irmãos idosos, lembra-me duas expressões da Carta do apóstolo Tiago, a quem está dedicada esta catedral. No início e no fim da carta, ele convida-nos à constância, mas usando dois termos diferentes. Estou certo de que podemos ouvir a voz do «irmão do Senhor», que hoje quer dirigir-se a nós.

Vós, que aqui vos encontrais, estivestes sujeitos a toda a espécie de provações: o horror da guerra e, depois, a repressão política, a perseguição e o exílio, como bem descreveu o vosso Arcebispo. E mantivestes-vos constantes, perseverastes na fé. Nem o regime nazista nem o soviético apagaram a fé nos vossos corações e, a alguns de vós, não vos fizeram sequer desistir de vos dedicardes à vida sacerdotal, religiosa, à catequese e a vários outros serviços eclesiais que punham em risco a vida; combatestes o bom combate, estais para terminar a corrida e conservastes a fé (cf. 2 Tm 4, 7).

Mas o apóstolo Tiago insiste no facto de que esta paciência vence a prova a que está sujeita a fé, quando gera obras perfeitas (cf. Tg 1, 2-4). Então a vossa atividade foi perfeita, mas terá ainda de tender para a perfeição nas novas circunstâncias. Vós, que vos devotastes de corpo e alma, que destes a vida buscando a liberdade da vossa pátria, muitas vezes tendes a sensação de ficar esquecidos. Embora pareça paradoxal, hoje, em nome da liberdade, os homens livres abandonam os idosos à solidão, ao ostracismo, à falta de recursos, à exclusão e até mesmo à miséria. Se assim for, o chamado comboio da liberdade e do progresso acaba por ter, naqueles que lutaram para conquistar direitos, a sua carruagem de cauda, os espetadores duma festa alheia, honrados e homenageados, mas esquecidos na vida diária (cf. Exort. ap. Evangelii gaudium, 234).

O apóstolo Tiago convida-nos a ser constantes, não deixando diminuir a vigilância. «Neste caminho, o progresso do bem, o amadurecimento espiritual e o crescimento do amor são o melhor contrapeso ao mal» (Exort. ap. Gaudete et exsultate, 163). Não cedais ao desânimo, à tristeza, nem percais a doçura e, menos ainda, a esperança!

Na conclusão da sua epístola, São Tiago volta a convidar à constância (5, 7), mas emprega uma palavra que combina dois significados: suportar pacientemente e esperar pacientemente. Encorajo-vos a serdes também vós, dentro das vossas famílias e da vossa pátria, exemplo de ambas as atitudes: suportação e esperança, e as duas impregnadas de paciência. Assim continuareis a progredir na construção do vosso povo. Vós, que já atravessastes muitas estações, sede testemunho vivo não apenas de constância nas adversidades, mas também do dom da profecia, que lembra às gerações jovens que o cuidado e a proteção daqueles que nos precederam são agradáveis e prezados por Deus, e que o facto de os negligenciar brada por Ele. Vós, que já atravessastes muitas estações, não vos esqueçais que sois raízes dum povo, raízes de rebentos jovens que devem florescer e dar fruto; defendei estas raízes, mantende-as vivas, para que as crianças e os jovens sejam enxertados nelas e compreendam que «tudo o que na árvore está florido / vive daquilo que jaz enterrado» (F. L. Bernárdez, Soneto «Si para recobrar lo recobrado»).

Como recita a inscrição no púlpito deste templo, «se hoje ouvirdes a voz do Senhor, não endureçais os vossos corações» (Sal 95/94, 7-8). O coração duro é o coração esclerosado, aquele que perde a alegria da novidade de Deus, que renuncia à juventude do espírito, renuncia a saborear e ver que sempre, em todo o tempo e até ao fim, o Senhor é bom (cf. Sal 34/33, 9).

Não tenhamos medo de experimentar a força da ternura

Cidade do Vaticano – A viagem do Papa Francisco pelos países bálticos, iniciada sábado, prossegue nesta segunda-feira (24/09) com uma nova escala na Letônia. Depois de passar a manhã na capital, Riga, o Pontífice foi a Aglona, que dista 190 km e 1 hora e meio de voo. A cidade de pouco menos de 300 mil habitantes, circundada por colinas e lagos, é conhecida pela presença da Basílica da Assunção, a mais importante igreja católica do país, fundada pelos padres dominicanos em 1700.

Ali, no Santuário internacional Mãe de Deus de Aglona, o Papa presidiu uma missa com a celebração eucarística em latim e a litúrgica em letão.

Em sua homilia, o Papa se inspirou no lema da visita, «Mostrai-Vos Mãe!», para chamar a atenção para os dois momentos narrados no Evangelho de João em que a vida de Jesus cruza a de sua Mãe: as bodas de Caná, quando é evidenciada a alegria de um matrimônio, e Maria aos pés da cruz, com o sofrimento da mãe pela morte do filho.

O evangelista ressalta que Maria está firmemente «de pé» junto de seu Filho, junto daqueles que sofrem, daqueles de quem todo o mundo foge, principalmente os que são julgados, condenados por todos, deportados: a Mãe está ali, cravada nesta cruz da incompreensão e do sofrimento. “Desta forma, o Papa explicou que “também nós somos chamados a ‘tocar’ o sofrimento dos outros”.

“Saiamos ao encontro do nosso povo para o consolar e fazer-lhe companhia; não tenhamos medo de experimentar a força da ternura e de nos envolvermos vendo a nossa vida complicada pelos outros. E, como Maria, permaneçamos firmes e de pé: com o coração voltado para Deus e corajosos, levantando os que caíram, erguendo o humilhado, ajudando a pôr fim a toda e qualquer situação de opressão que os faz viver como crucificados”.

O contexto histórico da Letônia e da região

“É verdade que, às vezes, a abertura aos outros nos fez muito mal. E também é verdade que, nas nossas realidades políticas, a história do choque entre os povos permanece ainda dolorosamente viva. Mas Maria crê em Jesus e acolhe o discípulo, porque as relações que nos curam e libertam são aquelas que nos abrem ao encontro e à fraternidade com os outros, porque, no outro, descobrem o próprio Deus”.

No outro episódio citado por João, as bodas de Caná, Ela, discípula obediente, deixa-Se acolher, transfere-Se, adapta-Se ao ritmo do mais novo. Quando ouvimos, com fé, a ordem de acolher e ser acolhidos, é possível construir a unidade na diversidade, porque não nos travam nem dividem as diferenças, mas somos capazes de olhar mais além, ver os outros na sua dignidade mais profunda, como filhos de um e mesmo Pai.

Concluindo, Francisco afirmou: “Maria clama para que todos nos comprometamos a acolher-nos sem discriminações, e todos, na Letônia, saibam que estamos dispostos a privilegiar os mais pobres, a levantar aqueles que caíram e a acolher os outros à medida que chegam e se apresentam diante de nós”.

Após a missa, o Papa retornou a Vilnius, capital da Lituânia, onde está sendo hospedado na Nunciatura nestes dias de viagem.


ÍNTEGRA

Poderíamos justamente dizer que hoje se repete aqui o que São Lucas narra no início do livro dos Atos dos Apóstolos: estamos intimamente unidos, dedicando-nos à oração e na companhia de Maria, nossa Mãe (cf. 1, 14). Hoje fazemos nosso o lema desta visita: «Mostrai-Vos Mãe!», manifestai-nos o lugar onde continuais a cantar o Magnificat, os lugares onde Se encontra o vosso Filho crucificado para, aos seus pés, podermos encontrar a vossa presença firme.

O Evangelho de João refere apenas dois momentos em que a vida de Jesus cruza a de sua Mãe: as bodas de Caná (cf. 2, 1-12) e o texto que acabamos de ler, ou seja, Maria aos pés da cruz (cf. 19, 25-27). Parece que o evangelista tenha interesse em mostrar-nos a Mãe de Jesus nestas situações de vida aparentemente opostas: a alegria de um matrimónio e o sofrimento pela morte dum filho. Enquanto penetramos no mistério da Palavra, Ela mostra-nos qual é a Boa Nova que, hoje, o Senhor quer partilhar connosco.

A primeira coisa que o evangelista ressalta é que Maria está firmemente «de pé» junto de seu Filho. Não se trata dum modo descontraído de estar, nem evasivo e, menos ainda, pusilânime. Está, com firmeza, «cravada» aos pés da cruz, expressando com a posição do seu corpo que nada e ninguém poderia movê-La daquele lugar. É assim que Maria Se mostra em primeiro lugar: junto daqueles que sofrem, daqueles de quem todo o mundo foge, nomeadamente os que são julgados, condenados por todos, deportados. Não se trata apenas de oprimidos ou explorados, mas estão diretamente «fora do sistema», à margem da sociedade (cf. Exort. ap. Evangelii gaudium, 53). Juntamente com eles, está também a Mãe, cravada nesta cruz da incompreensão e do sofrimento.

Maria mostra-nos também o modo como estar junto destas realidades; não é dar um passeio ou fazer uma breve visita, nem se trata sequer de «turismo solidário». É necessário que aqueles que padecem uma realidade dolorosa nos sintam a seu lado e da sua parte, de maneira firme, estável; todos os descartados da sociedade podem experimentar esta Mãe delicadamente próxima, porque, naqueles que sofrem, permanecem as chagas abertas do seu Filho Jesus. Ela aprendeu-o ao pé da cruz. Também nós somos chamados a «tocar» o sofrimento dos outros. Saiamos ao encontro do nosso povo para o consolar e fazer-lhe companhia; não tenhamos medo de experimentar a força da ternura e de nos envolvermos vendo a nossa vida complicada pelos outros (cf. ibid., 270). E, como Maria, permaneçamos firmes e de pé: com o coração voltado para Deus e corajosos, levantando os que caíram, erguendo o humilhado, ajudando a pôr fim a toda e qualquer situação de opressão que os faz viver como crucificados.

Maria é convidada por Jesus a aceitar o discípulo amado como seu filho. O texto refere que estavam juntos, mas Jesus dá-se conta de que isto não é suficiente, porque não se acolheram reciprocamente. De facto, é possível estar junto de muitíssimas pessoas, pode-se até compartilhar a mesma casa, bairro ou trabalho; pode-se compartilhar a fé, contemplar e desfrutar os mesmos mistérios, mas sem acolher, nem praticar uma aceitação amorosa do outro. Quantos esposos poderiam contar a história de estar próximos, mas não juntos! Quantos jovens sentem dolorosamente esta distância dos adultos! Quantos idosos se sentem friamente tratados, mas não carinhosamente cuidados e acolhidos!

É verdade que, às vezes, a abertura aos outros nos fez muito mal. E também é verdade que, nas nossas realidades políticas, a história do choque entre os povos permanece ainda dolorosamente viva. Maria mostra-Se como mulher aberta ao perdão, que põe de lado ressentimentos e difidências; renuncia a lamentar-se como tudo «poderia ter andado» diversamente, se os amigos de seu Filho, os sacerdotes do seu povo ou os governantes se tivessem comportado de outra maneira; não Se deixa vencer pela frustração nem pela impotência. Maria crê em Jesus e acolhe o discípulo, porque as relações que nos curam e libertam são aquelas que nos abrem ao encontro e à fraternidade com os outros, porque, no outro, descobrem o próprio Deus (cf. ibid., 92). Dom Sloskans que repousa aqui, tendo sido preso e enviado para longe, escrevia a seus pais: «Peço-vos do fundo do meu coração que não deixeis que a vingança ou a irritação abram caminho no vosso coração. Se o permitíssemos, não seríamos cristãos verdadeiros, mas fanáticos». Num período em que parecem voltar mentalidades que nos convidam a desconfiar dos outros, que querem demonstrar-nos com estatísticas que estaremos melhor, teremos mais prosperidade, haveria mais segurança se estivéssemos sozinhos, Maria e os discípulos destas terras convidam-nos a acolher, a apostar de novo no irmão, na fraternidade universal.

Mas, Maria mostra-Se também como a mulher que se deixa acolher, que aceita humildemente fazer parte das coisas do discípulo. Naquele matrimónio que ficara sem vinho, com o perigo de acabar cheio de ritos, mas árido de amor e alegria, foi Ela quem ordenou que fizessem o que Ele lhes dissesse (cf. Jo 2, 5). Agora Ela, como discípula obediente, deixa-Se acolher, transfere-Se, adapta-Se ao ritmo do mais novo. A harmonia custa sempre, quando somos diferentes, quando os anos, as histórias e as circunstâncias nos situam em modos de sentir, pensar e fazer que, à primeira vista, parecem opostos. Quando ouvimos, com fé, a ordem de acolher e ser acolhidos, é possível construir a unidade na diversidade, porque não nos travam nem dividem as diferenças, mas somos capazes de olhar mais além, ver os outros na sua dignidade mais profunda, como filhos de um e mesmo Pai (cf. Exort. ap. Evangelii gaudium, 228).

Nesta, como em cada Eucaristia, fazemos memória daquele dia. Aos pés da cruz, Maria lembra-nos a alegria de termos sido reconhecidos como seus filhos, e seu Filho Jesus convida-nos a levá-La para casa, a colocá-La no centro da nossa vida. Ela quer dar-nos a sua coragem para permanecermos firmes de pé; a sua humildade, que Lhe permite adaptar-Se às coordenadas de cada momento da história; e clama neste santuário por que todos nos comprometamos a acolher-nos sem discriminações, e todos, na Letónia, saibam que estamos dispostos a privilegiar os mais pobres, a levantar aqueles que caíram e a acolher os outros à medida que chegam e se apresentam diante de nós.


No final da Santa Missa

Amados irmãos e irmãs!

No final desta celebração, agradeço ao vosso Bispo as palavras que me dirigiu. E, de coração, quero dizer obrigado a todos aqueles que, de várias maneiras, colaboraram para esta visita. Em particular, exprimo sentida gratidão ao Presidente da República e às Autoridades do país pela sua recepção.

Ofereço de presente à Santíssima Mãe de Deus, nesta «Terra Mariana», um terço especial do rosário. Que a Virgem vos proteja e sempre vos acompanhe!

Aos jovens: “O amor não está morto. Ele nos chama”.

Cidade do Vaticano – A Igreja luterana Kaarli, na capital da Estônia, foi a sede do segundo compromisso do Papa Francisco: o encontro ecumênico com os jovens. Antes de proferir seu discurso, o Pontífice ouviu o testemunho de três jovens e saudou os representantes das diversas confissões cristãs presentes no país.

Estes encontros, disse o Papa, tornam realidade o sonho de Jesus na Última Ceia: “Que todos sejam um só (…) para que o mundo creia” (Jo 17, 21).

Francisco dedicou ampla parte do seu pronunciamento para falar da relação dos jovens com os adultos, marcada muitas vezes pela falta de diálogo e de confiança. O Papa citou o Sínodo sobre a juventude, que tem início semana que vem, para mencionar algumas questões que emergiram na consultação preliminar.

Entre elas, os jovens pedem acompanhamento e compreensão, sem julgamentos por parte dos membros das Igrejas. “Aqui, hoje, quero lhes dizer que desejamos chorar com vocês se estiverem chorando, acompanhar com os nossos aplausos e nossos sorrisos as suas alegrias, ajudá-los a viver o seguimento do Senhor”.

Muitos jovens, porém, nada pedem à Igreja, pois não a consideram um interlocutor significativo na sua existência. Outros se indignam diante dos escândalos econômicos e sexuais contra os quais não veem uma clara condenação. “Queremos dar-lhes resposta, queremos ser – como vocês mesmos dizem – uma ‘comunidade transparente, acolhedora, honesta, atraente, comunicativa, acessível, alegre e interativa’”, garantiu o Papa.

Vida com sabor de Espírito Santo

Ao vê-los assim reunidos a cantar, acrescentou Francisco, “uno-me à voz de Jesus, porque vocês, apesar da nossa falta de testemunho, continuam descobrindo Jesus dentro de nossas comunidades. Onde está Jesus, a vida tem sempre sabor de Espírito Santo. Aqui, hoje, vocês são a atualização daquela maravilha de Jesus”.

Jesus continua a ser o motivo para estarmos aqui, recordou o Papa. “Sabemos que não há alívio maior do que deixar Jesus carregar as nossas opressões”. Citando uma cantora famosa da Estônia, que dizia que o “amor está morto”, Francisco afirmou que os cristãos têm uma palavra a dizer, algo para anunciar, com poucas palavras e muitos gestos.

Deus está conosco

“Estamos unidos pela fé em Jesus, e Ele espera que O levemos a todos os jovens que perderam o sentido da sua vida. Acolhamos juntos a novidade de que o próprio Deus traz Deus à nossa vida; uma novidade que incessantemente nos impele a partir, para ir onde se encontra a humanidade mais ferida. Mas nunca iremos sozinhos: Deus vem conosco; Ele não tem medo das periferias.”

“O amor não está morto”, disse por fim o Papa; ele nos chama e nos envia para que a nossa vida cristã não seja um museu de recordações.

Eleitos não significa exclusivos nem sectários

Cidade do Vaticano – O Papa Francisco celebrou a missa, na tarde desta terça-feira (25/09), na Praça da Liberdade, em Tallinn, na Estônia. Em sua homilia, Francisco ressaltou que “pensando na chegada ao Monte Sinai do povo judeu, já livre da escravidão do Egito, é impossível não pensar” na Estônia “como povo; é impossível não pensar na nação inteira da Estônia e todos os países bálticos. Vocês conhecem as lutas pela liberdade, podem se identificar com aquele povo. Nos fará bem escutar aquilo que Deus diz a Moisés, para compreender o que Ele nos diz como povo”, frisou o Pontífice.

Segundo o Papa, “o povo, que chega ao Sinai, é um povo que já viu o amor de seu Deus manifestar-se em milagres e prodígios; é um povo que decide estabelecer um pacto de amor, porque Deus já o amou primeiro e manifestou-lhe este amor. Quando dizemos que somos cristãos, quando abraçamos um estilo de vida, o fazemos sem pressões, sem que isso seja uma troca na qual nós fazemos algo se Deus nos fizer qualquer coisa”.

A proposta de Deus não nos tira nada

“Mas sobretudo sabemos que a proposta de Deus não nos tira nada; pelo contrário, leva à plenitude, potencializa todas as aspirações do ser humano. Alguns consideram-se livres, quando vivem sem Deus ou separados d’Ele. Não se dão conta de que, assim, percorrem esta vida como órfãos, sem um lar para onde voltar. «Deixam de ser peregrinos para se transformarem em errantes, que giram indefinidamente ao redor de si mesmos, sem chegar a lugar nenhum».”

O Papa sublinhou que “cabe a nós, como ao povo que saiu do Egito, ouvir e buscar. Às vezes, alguns pensam que hoje a força dum povo se mede por outros parâmetros. Há quem fale com um tom mais alto e, quando fala, parece mais seguro, sem cedências nem hesitações; há quem junte, aos gritos, ameaças de armas, envio de tropas, estratégias… Esta é a pessoa que parece mais «firme». Mas isto não é «buscar» a vontade de Deus, mas um acumular para se impor com base no ter.”

“Esta atitude esconde em si uma rejeição da ética e, com ela, de Deus; porque a ética nos coloca em relação com Deus que espera de nós uma resposta livre e comprometida com os outros e com o nosso meio ambiente; uma resposta que está fora das categorias do mercado. ”

“Vocês não conquistaram a sua liberdade para terminar escravos do consumo, do individualismo ou da sede de poder e domínio”.

A fé nos leva a ver que Deus “está vivo e nos ama; que não nos abandona e, por isso, é capaz de intervir misteriosamente na nossa história; tira o bem do mal com o seu poder e a sua infinita criatividade”.

Orgulho de ser estoniano

No deserto, o povo de Israel caiu na tentação de buscar outros deuses, adorando o bezerro de ouro e confiando em suas próprias forças. “Mas Deus não cessa de o atrair sempre de novo; e ele se lembrará do que escutou e viu na montanha. Como aquele povo, também nós sabemos que somos um povo eleito, sacerdotal e santo. É o Espírito que nos recorda todas estas coisas.”

O Papa exortou os estonianos a deixarem transparecer na sua história, “o orgulho de ser estoniano. «Sou estoniano, permanecerei estoniano, estoniano é uma realidade bonita, somos estonianos».”

“Como é bom sentir-se parte de um povo! Como é bom ser independentes e livres! Subamos à montanha sagrada e peçamos ao Senhor, como diz o lema desta visita, que desperte os nossos corações e nos conceda o dom do Espírito para discernirmos, em cada momento da história, o modo como ser livres, como abraçar o bem e sentir-se eleitos, como deixar que Deus faça crescer, aqui na Estônia e no mundo inteiro, a sua nação santa, o seu povo sacerdotal”, concluiu Francisco.

ÍNTEGRA DA HOMILIA

Ao escutar, na primeira leitura, a chegada ao Monte Sinai do povo judeu, já livre da escravidão do Egito (cf. Ex 19, 1), é impossível não pensar em vós como povo; é impossível não pensar na nação inteira da Estônia e todos os países bálticos. Como não vos recordar naquela «revolução cantada» ou naquela corrente de dois milhões de pessoas daqui até Vilna? Vós conheceis as lutas pela liberdade, podeis identificar-vos com aquele povo. Por conseguinte, far-nos-á bem escutar aquilo que Deus diz a Moisés, para compreendermos o que nos diz a nós como povo.

O povo, que chega ao Sinai, é um povo que já viu o amor do seu Deus manifestar-se em milagres e prodígios; é um povo que decide estabelecer um pacto de amor, porque Deus já o amou primeiro e manifestou-lhe este amor. Não é obrigado, Deus o quer livre. Quando dizemos que somos cristãos, quando abraçamos um estilo de vida, fazemo-lo sem pressões, sem que isso seja uma troca na qual nós fazemos algo se Deus nos fizer qualquer coisa. Mas sobretudo sabemos que a proposta de Deus não nos tira nada; pelo contrário, leva à plenitude, potencializa todas as aspirações do homem. Alguns consideram-se livres, quando vivem sem Deus ou separados d’Ele. Não se dão conta de que, assim, percorrem esta vida como órfãos, sem um lar para onde voltar. «Deixam de ser peregrinos para se transformarem em errantes, que giram indefinidamente ao redor de si mesmos, sem chegar a lado nenhum» (Exort. ap. Evangelii gaudium, 170).

Cabe a nós, como ao povo que saiu do Egito, ouvir e buscar. Às vezes, alguns pensam que hoje a força de um povo se mede por outros parâmetros. Há quem fale com um tom mais alto e, quando fala, parece mais seguro, sem cedências nem hesitações; há quem junte, aos gritos, ameaças de armas, envio de tropas, estratégias… Esta é a pessoa que parece mais «firme». Mas isto não é «buscar» a vontade de Deus, mas um acumular para se impor com base no ter. Esta atitude esconde em si uma rejeição da ética e, com ela, de Deus; porque a ética coloca-nos em relação com Deus que espera de nós uma resposta livre e comprometida com os outros e com o nosso meio ambiente; uma resposta que está fora das categorias do mercado (cf. ibid., 57). Vós não conquistastes a vossa liberdade para acabar escravos do consumo, do individualismo ou da sede de poder e domínio.

Deus conhece as nossas necessidades, as mesmas que muitas vezes escondemos por detrás do desejo de possuir; e também as nossas inseguranças, superadas por meio do poder. A sede que habita em todo o coração humano, Jesus encoraja-nos – no Evangelho que escutamos – a superá-la no encontro com Ele. É Ele que nos pode saciar, cumular-nos com a plenitude própria da fecundidade da sua água, da sua pureza, da sua força arrebatadora. A fé é também dar-se conta de que Ele está vivo e nos ama; que não nos abandona e, por isso, é capaz de intervir misteriosamente na nossa história; tira o bem do mal com o seu poder e a sua infinita criatividade (cf. ibid., 278).

No deserto, o povo de Israel cairá na tentação de buscar outros deuses, adorar o bezerro de ouro, confiar nas suas próprias forças. Mas Deus não cessa de o atrair sempre de novo; e eles lembrar-se-ão do que escutaram e viram na montanha. Como aquele povo, também nós sabemos que somos um povo eleito, sacerdotal e santo (cf. Ex 19, 6; 1 Ped 2, 9). É o Espírito que nos recorda todas estas coisas (cf. Jo 14, 26).

Eleitos não significa exclusivos nem sectários; somos a pequena porção de fermento que deve levedar toda a massa, que não se esconde nem se separa, que não se considera melhor nem mais pura. A águia põe a seguro os seus filhotes, leva-os para lugares escarpados enquanto não conseguem sobreviver sozinhos, mas depois deve forçá-los a sair daquele lugar tranquilo. Sacode a sua ninhada, deixa os pequeninos suspensos no vazio para testarem as suas asas; mas permanece debaixo deles para os proteger, impedindo que se magoem. De igual modo procede Deus com o seu povo eleito, o quer «em saída», ousado no seu voo e sempre protegido apenas por Ele. Temos de vencer o medo e deixar os espaços blindados, porque hoje a maioria dos estonianos não se reconhece como crentes.

Sair como sacerdotes: somo-lo pelo Batismo. Sair para promover a relação com Deus, facilitá-la, favorecer um encontro amoroso com Aquele que não cessa de bradar: «Vinde a Mim» (Mt 11,28). Precisamos de crescer num olhar de proximidade para contemplar, comover-nos e deter-nos à vista do outro, sempre que for necessário. Esta é a «arte do acompanhamento», que se realiza com o ritmo salutar da «proximidade», com um olhar respeitoso e cheio de compaixão que é capaz de curar, desatar nós e fazer crescer na vida cristã (cf. Exort. ap. Evangelii gaudium, 169).

E dar testemunho de ser um povo santo. Podemos cair na tentação de pensar que a santidade seja apenas para alguns. Mas «não é assim. Todos somos chamados a ser santos, vivendo com amor e oferecendo o próprio testemunho nas ocupações de cada dia, onde cada um se encontra» (Exort. ap. Gaudete et exsultate, 14). Entretanto, como a água no deserto não era um bem privado, mas comunitário, como o maná não podia ser armazenado porque se estragava, assim a santidade vivida expande-se, comunica-se, fecunda tudo o que lhe está próximo. Hoje, escolhamos ser santos, sarando as margens e as periferias da nossa sociedade, onde o nosso irmão jaz e sofre a sua exclusão. Não deixemos, para aquele que vier depois de mim, a iniciativa de o socorrer, nem que seja uma questão a ser resolvida pelas instituições; mas nós próprios detenhamos o nosso olhar naquele irmão e estendamos-lhe a mão para o levantar, porque nele está a imagem de Deus, é um irmão redimido por Jesus Cristo. Isto significa ser cristão e a santidade vivida dia a dia (cf. ibid., 98).

Na vossa história, deixais transparecer o orgulho de ser estonianos; cantai-o dizendo: «Sou estoniano, permanecerei estoniano, estoniano é uma realidade bela, somos estonianos». Como é bom sentir-se parte de um povo! Como é bom ser independentes e livres! Subamos à montanha sagrada (a de Moisés, a de Jesus) e peçamos ao Senhor – como reza o lema desta visita – que desperte os nossos corações e nos conceda o dom do Espírito para discernirmos, em cada momento da história, o modo como ser livres, como abraçar o bem e sentir-se eleitos, como deixar que Deus faça crescer, aqui na Estônia e no mundo inteiro, a sua nação santa, o seu povo sacerdotal.

No final da Santa Missa

Queridos irmãos e irmãs!

Antes da bênção final, e de concluir esta Viagem Apostólica à Lituânia, Letônia e Estônia, quero expressar a minha gratidão a todos vós, a começar pelo Administrador Apostólico da Estônia. Obrigado pela vossa receção, expressão de um pequeno rebanho com um grande coração! Renovo a minha gratidão à Senhora Presidente da República e restantes autoridades do país. Um pensamento particular, reservo a todos os irmãos cristãos, de modo especial aos Luteranos que, tanto aqui na Estônia como na Letônia, hospedaram os encontros ecumênicos. Que o Senhor nos continue a guiar no caminho da comunhão. Obrigado a todos!