Vida Cristã - Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil - OFM

Pentecostes

O Espírito Santo na mística franciscana

Para São Francisco, a Ordem só tinha um Ministro Geral, que é o Espírito Santo, e deveria ser guiada pelo sopro do Espírito do Senhor. «Desejava que se recebessem na Ordem pobres e ignorantes, e não apenas ricos e sábios. ‘Deus -dizia ele- não tem em conta essas diferenças; o Espírito Santo, que é o Ministro Geral da Ordem, repousa tanto sobre os pobres e simples como sobre os outros’. Pretendia até que esta frase fosse incluída no texto da Regra – mas a bula da aprovação já tinha sido publicada (a 29 de novembro de 1223); era portanto tarde demais» (lC 123).

Neste Especial dedicado a Pentecostes, nossa intenção é fazer uma reflexão dentro da mística franciscana, oferecendo alguns textos de grandes mestres da espiritualidade.

O capuchinho Leon Robinot lembra que Francisco caminha para o Pai pelo Filho no Espírito: é a ‘auto-estrada’ que conduz à união com Deus, e que ele aprendeu pela prática da liturgia. “A sua experiência do seguimento de Jesus, aprendida durante uma vintena de anos, desabrocha na grande doxologia da Primeira Regra, capítulo 23. E essa ‘auto-estrada’ dum filho de Deus percorreu-a sob a conduta do Espírito. Tal é a profunda convicção que pretende transmitir aos irmãos ao dizer-lhes que «devem sobretudo desejar ter o Espírito do Senhor e deixar que esse Espírito atue neles» (2R 10,8).”

Frei Sinivaldo Tavares, teólogo, escreve sobre “A ousadia de se deixar conduzir pelo Espírito do Senhor”. E decreta: “Somos convocados a fazer memória do nosso passado, deixando Cristo irromper em nossa vida através do Seu Espírito Vivificante”.

O homem, quando se centra no sofrimento seu e do mundo, nas angústias e traumas de tantas pessoas, nas injustiças de uns e desvalia de outros, nos desvarios, descaminhos, hipocrisias e toda sorte de males, corre o risco de se afundar num desespero sem saída ou de  calejar-se desumanizando-se naquilo que lhe é mais próprio: a dimensão pentecostal do permanente milagre da vida.  Frei Neylor Toninfaz uma reflexão sobre a festa de Pentecostes a partir de dois pontos de vista e afirma que “o homem  pentecostal conhece a alegria do louvor, a força incontida do testemunho, a jovialidade da acolhida e a festa da comunhão”. Nele Cristo já venceu o demônio da tríplice tentação.

O jesuíta Albert Chapelle, num texto da revista “Grande Sinal”, escreve:  “O dom do Espírito nos antecede como uma graça, ele nos precede na história. Vida espiritual não se improvisa, não tem sua origem em si mesma, não pode haurir água viva em sua própria fonte. É recebida do Alto; brota como toda vida das gerações e dos partos da história”.

Outro texto escolhido é de Frei Celso Teixeira, da série “Cadernos Franciscanos”: “O Espírito do Senhor: Ensaio de uma leitura antropológica”. Como anuncia o subtítulo, o artigo é uma tentativa de esclarecimento sobre o modo de agir do Espírito do Senhor na pessoa humana. Sem identificar a expressão “Espírito do Senhor” com a terceira pessoa divina, o autor centraliza-se em descrever o modo de atuação deste espírito, tornando a pessoa “santa” e “espiritual”, à semelhança do próprio Deus, e, em habitando nossos corações, este espírito torna-se presença habitual. O autor também distingue com muita clareza as obras do “espírito da carne” (e “espírito do mundo”) e as obras do espírito do Senhor, fonte e origem de todo o bem.

Trazemos ainda textos do Dicionário Franciscano sobre o Espírito Santo e Pentecostes no Catecismo da Igreja Católica.

Completamos este Especial com as Preces ao Divino Espírito Santo e uma celebração franciscana.

Este sopro que não diz seu nome

Esse sopro, essa brisa que não diz o nome é o Espírito. Nunca conseguiremos compreender plenamente seu papel no mundo, na Igreja e nos mais íntimo de nós mesmos. Temos a mais profunda convicção, no entanto, que ele age e atua. Há, por vezes, uma misteriosa força agindo em nós e que nos surpreende. Deixamos de ter medo. Seria a força do Espirito? É o que tenta responder Françoise Le Corre, filósofa, em um artigo publicado em “Croire  Aujourd’hui”, maio 2008,  p. 12-15. O texto é reflexivo. Por vezes é hermético.  Em outros  momentos, ao lê-lo, tem-se a impressão de que estamos como que a “sentir” essa força em nós.
Frei Almir Guimarães

Por vezes acontece em nossa vida a sensação de sermos alvo de um sopro que mal e mal percebemos. Chega e nos surpreende. Consegue mesmo nos perturbar. Pede que paremos, que deixemos tudo de lado. Esse algo que está acontecendo conosco vem de bem mais longe do que nós. Sentimos um ligeiro tremor. Experimentamos até dificuldade de falar.  E, quando isso acontece, num primeiro momento, renunciamos a falar.  Ficamos paralisados.

Inquietude e expectativa

Agradável? Nem sempre. Até mesmo o contrário: desconfiança de insatisfação, uma pequena rachadura interior, sensação de fadiga, até um pouco de tristeza. A impressão que se tem é que esse estado de ânimo não vai durar, que virão dias melhores.  Seriam apenas e nada mais do que dias em que perdemos um pouco o ânimo. Dura um tempo, não acaba logo. “Isso” que não diz seu nome. “Isso” insiste e se instala em nós com impaciência. Começamos a esperar. Alguma coisa está para acontecer. Mudança? Somos convidados a nos mexer. O que está a nossa volta parece perder firmeza, esse nosso cotidiano.  Será que está se anunciando o novo? Não se trata de nos contentar com o novo prometido pela publicidade, pelo novo que é mais confortável, nem de estar “na onda”.  Não é alguma coisa do campo dos objetos, nada relacionado com o que possuímos, nem com o que se vê.  Não é questão de “look”, nem se refere a uma “vida nova”, igual à vida anterior, apenas  acrescentando  pequenas “atualizações”, pedaços de pano novo em roupa velha.

Nada disso. Trata-se de algo completamente diferente. Tudo se  passa no interior. É da ordem da intimidade. É o novo que se pressente,  que se suspeita, mesmo não sendo ainda completamente claro e que acontece secretamente. Talvez tenhamos tido a chance de encontrar alguém que irradiava esse novo. Luz interior. Reconhecemos esse alguém que difundia uma luz e essa pessoa também nos reconhecia. Um momento excepcional: era como se ele ou ela nos fizesse existir, como se nos apontasse um lugar, como se, finalmente, tudo viesse a se simplificar.  Sentimos a doçura da benevolência.  Coisas da vida.  Depois do encontro cada um tomou o seu caminho.

Seria sinal de alguma coisa, essa mistura de inquietude e espera? Tão pouca coisa? Será que conta mesmo? Frequentemente  decepcionamo-nos com uma amizade,  sentimo-nos dilacerados com uma separação familiar, ou vivemos  divergências com nossos colegas. Não é assim?  Aliás, não é normal sentir-se sozinho, ter a impressão que o amor escapa de nossas mãos como a água entre os dedos, que temos a impressão de fracassar, sempre repetindo que todo mundo tem direito ao fracasso, todo mundo... experimentando decepção? Vemos pessoas aparentemente tão bem-sucedidas e que, no entanto, sentem ainda um gosto de insatisfação. Há um curioso trabalho que se opera no fundo dos corações, como um deslocamento de afirmações, de certezas, e que não conseguimos expulsar pelos meios comuns e ordinários. Um certo mal-estar. Como se nada estivesse mais a funcionar: nem as festas com os companheiros, nem o esporte que acreditávamos ser capaz de colocar as ideias em seus lugares, nem o humor que nos faz rir de nós mesmos, nem as agendas mais leves, nem as próximas férias que pareciam prometedoras. Um mal- estar?  Um convite a buscar o novo?

Um convite “desconcertante”

Tudo isso parece em vão. Perdemos o elã.  As coisas passam a nos oprimir. O problema se situa em outro lugar. Será fundamental avançar, procurar. Será que conseguimos estar de acordo conosco mesmos, de não precisar ficar pulando de uma coisa para outra, de um encontro a outro?  Será que podemos penetrar numa zona de confiança, de não estar sempre na dúvida a respeito de nós mesmos, de nossas “competências”, daquilo que podemos esperar dos outros?  Será possível desfazer do que nos pesa   sem com isso abandonar nossas obrigações como estudos que não terminam, as tarefas familiares, a profissão…?

De repente, tudo pelo avesso: começamos a ver o que antes não víamos, ouvir o que antes não ouvíamos. Desconcertante, tudo vira de pernas para o ar: as pequeninas coisas se tornam grandes e as grandes diminuem de tamanho. Seria como se o mundo tivesse às avessas e ao mesmo tempo tem-se a impressão de que nunca se teve os pés tão firmes sobre a terra. Eis-nos de repente a admirar o que antes nem víamos: a coragem desse colega que luta com uma doença (talvez até teríamos podido saber antes, mas sempre alegávamos falta de tempo), a contemplar as distrações tão serenas de um amigo que, nas férias, caminha sozinho, colega que até então achávamos tão apagado… Eis-nos a nos interessar pelos gostos dos outros: há aquele que gosta de dançar; o outro é hábil em trabalhos manuais e artesanato sem a preocupação de mostrar  o que faz,  hábil simplesmente pelo gosto de fazer,  contente com as cores, a harmonia; outro que gosta de jardinagem e chama sua atenção para uma espécie de jacinto selvagem. Olhos abertos, olhar lavado, limpo.  Completamente relativizados o papel social, o sucesso ou o fracasso, a beleza física ou o corpo que estorva. A vida que acontecia por debaixo, escondidamente, se mostra então infinitamente mais rica. E esse gosto novo  por aquilo que se vê menos  é como um convite secreto e poderoso.

Claro, não se responde imediatamente, luta-se com as armas que se tem e volta-se a mente para as paragens conhecidas, para as coisas que dominamos, paragens familiares. Não nos tinham dado “bons” conselhos: “Mexa-te”. Dito de outro modo: “Volta”, como se esse sopro que não diz seu nome  já nos tivesse colocado à parte.  Que ideia! Não demora muito voltamos a reencontrar os reflexos conhecidos. O velho homem não morre. Lá estamos novamente apreciando aqueles que sobem ao pódio,  os que são admirados por seus chefes, aquela que deixa apaixonados todos os homens (ao menos parece), aquela que tem sucesso tanto em sua vida profissional quanto familiar, aquele ou aquela cujos filhos  constituem sólidos casais, aquele que não tem problema algum em termos de dinheiro… Há um movimento de inveja. Normal. Por que não se poderia aproveitar a vida, ser agraciado com o sucesso? A gente pensa: “Afinal de contas, tem-se direito, necessário lutar… mas falta fôlego e elã”. Não basta apenas o belo espetáculo de quem foi bem-sucedido. Na realidade não se sonha mais com isso. De que serve sentir este apelo?  Teria um sentido? Esse apelo daquele que é sopro e não diz seu nome.

A força do grande desejo

Feliz aquele que nunca está plenamente satisfeito, que não se contenta com aquilo que vê por mais sedutor que possa ser. Feliz    mesmo em situação de desconforto, na dúvida ou perdido, mesmo sentindo-se frágil. Feliz o que se dá conta do que nele está agindo e que mexe, e que o desloca, remexe, inquieta. Mais feliz ainda se sua memória, mesmo nos começos de sua vida de adulto, evoca determinados encontros, certas descobertas, se não é o único a buscar, o único que espera ouvir uma palavra verdadeira, não o único que tem um coração   bem mais amplo do que aquilo que a sociedade de consumo  faz cintilar  diante de seus olhos, nem o único a procurar um lugar, a aguardar um olhar. Feliz deste mergulhar em humanidade, sentir brotar em si esse grande desejo que o orienta  para alguma coisa maior do que ele, e esse desejo que o trabalha, o arrasta, vai lhe valer novos amigos, revelar-lhe novos espaços. Já é habitado por esta força que o leva a modificar seus julgamentos, a escrutar o semblante dos homens, a desejar uma vida mais humana. Os caminhos são numerosos, nem sempre ambiciosos.  Passa por gestos pequenos, pela atenção prestada às coisas de todos os dias. Esta força que trabalha em nós e nos faz perceber que “nada mudou e tudo mudou”.

A bem da verdade desta força toma-se consciência de um modo diferente. Vem do alto? Ou vem do mundo?  Subitamente há um convite por parte do mundo. O mundo não é mais rejeitado. Não está mais “arrepiado” aos nossos olhos com sinais hostis. Ao contrário, vemo-lo habitado por humanos não muito mais gloriosos do que nós, qualquer que seja sua posição social. Experimenta-se menos medo; sobretudo de não ser reconhecido ou aplaudido. Nesse momento há também uma revirada possível, ao menos entrevista, que ganha terreno. Começa-se a se interrogar o que se poderia fazer para que esse mundo pudesse ser um pouco melhor, junto dos  vizinhos, amigos, na cidade, com os mais velhos e os mais novos. Damo-nos conta de estarmos com menos pesos ou pesos mais leves. Menos prostrados. Mais vivos. Não é que o mundo  de repente se tenha transformado em cor-de-rosa. Continuamos realistas, pés no chão.  Continuamos a experimentar cansaço, aborrecimentos, tudo porém se reveste de novo relevo. Passou-se, passa-se em nós coisas surpreendentes. Quem podia explicar? A psicologia por vezes tão eloquente não pode ser interpelada.  Aliás, nem temos vontade  de pedir que ela nos ajude a compreender esse  trabalho misterioso que se opera em nós. Chegamos a experimentar um pudor, uma reserva. Não  gostamos de falar dessas coisas que acontecem em nós, como se quiséssemos preservar um  precioso tesouro.

Original e invencível

De quando em vez a memória nos traz certas palavras que ouvimos quando éramos crianças, que a gente sabe de cor, mas talvez não com o coração, palavras repetidas, mas nem sempre bem compreendidas  “felizes os que têm fome e sede de justiça…”, fome e sede da palavra, fome e sede de Deus? Deus? Ousamos nomear aquele que pressentimos. Sim, Deus, palavra pode ser dita de maneira convencional, ou tão grande ou tão distante; palavra de uma ladainha; nome talvez esvaziado de seu sentido. Claro que sempre o fomos repetindo, escutando, falando. Esse nome, no entanto, tinha pouco a ver com nossa vida. Nesse momento experimentamos vontade de inventar até outros nomes para ele.  Descobrimos que não somos os primeiros a procurar nomes para Deus, agora com a descoberta de sua presença misteriosa. Depois lembramo-nos de palavras e frases que se diz e se ouve na Igreja.

Felizes, então, aquele que pode encontrar na amizade com aqueles que murmuram uns aos outros: “Lembra-te de Jesus Cristo”, segredo que carregam, mas que não lhes pertence. Felizes se vierem a se encontrar, impelidos por esta força que trabalha em cada um de diferentes maneiras, “que abate os poderosos e eleva os pobres”, que nos  torna fortes quando pensamos que somos fracos e fracos ao pensar que somos fortes. Felizes os que contam com ela, com a força do Espírito ao longo dos dias áridos que podem se suceder, por ocasião da travessia através dos desertos, nos momentos em que precisamos tomar decisões. Felizes de se recordarem  de seu batismo, de preparar novas imersões no Povo de Deus, na espera de Deus.

Felizes os que assumem a vida resolutamente. Por que esta força do Espírito é de Deus, mais forte do que todos os movimentos psicológicos. Ela é capaz de desmontar todos os condicionamentos de pensamentos, todosos pensamentos que são “politicamente corretos”. A força do Espírito é mais forte do que nossa covardia e nossa superficialidade.

Assim é essa força em e para nós: misteriosamente diferente do que se esperava, original e invencível. Simplesmente dada.

Arrebatado pelo Espírito

Léon Robinot, ofmcap

A vida de Francisco de Assis apresenta a particularidade muito evidente de nela se poderem discernir certos momentos-chave: um homem sentindo-se num ápice apanhado, arrebatado por outrem, e imediatamente desviado em direção diferente, como que sorvido por um tornado ou abrasado por um incêndio … Observemos estes arrebatamentos ocorridos sempre por ação do Espírito Santo.

Francisco caminha para o Pai pelo Filho no Espírito: é a «auto-estrada» que conduz à união com Deus, e que ele aprendeu pela prática da liturgia. A sua experiência do seguimento de Jesus, aprendida durante uma vintena de anos, desabrocha na grande doxologia da Primeira Regra, capítulo 23. E essa «auto-estrada» dum filho de Deus percorreu-a sob a conduta do Espírito. Tal é a profunda convicção que pretende transmitir aos irmãos ao dizer-lhes que «devem sobretudo desejar ter o Espírito do Senhor e deixar que esse Espírito atue neles» (2R 10,8).

Os seus primeiros biógrafos, e em particular S. Boaventura, gostam de salientar ação do Espírito do Senhor naquele que consideram como «o anjo do sexto selo» de que fala o Apocalipse, “esse selo impresso em sua própria carne não por qualquer força natural nem por processo mecânico, mas pelo poder admirável do Espírito de Deus vivo» (LM, prólogo). Não se esqueça que o século XIII correspondia à «era do Espírito», segundo as especulações milenaristas inspiradas em Joaquim de Flora, e que seduziram boa parte da cristandade.

Vivendo nós hoje também em tempo de renovação no Espírito, renovação que sobretudo a partir do Concílio Vaticano II vem florescendo em várias formas, o exemplo de Francisco poderá mostrar-nos como deixar atuar em nós o Espírito do Senhor. Para isso vamos analisar, embora não exaustivamente, algumas grandes efusões do Espírito em Francisco, que fizeram desse santo da Idade Média um homem espiritual, fiel discípulo de Cristo.

O IRMÃO SEGUNDO O ESPÍRITO

A designação de afetuosa amizade com que mais vulgarmente apelidamos esse homem de outros tempos, mas tão próximo de nós, é a de «Irmão Francisco”. Um qualificativo bem apropriado, pois o Espírito fez dele um irmão de todos os homens
e até de todas as criaturas.

A aventura começou pelo encontro com leprosos, o beijo ao leproso, o serviço dos leprosos, como ele próprio declara no princípio do Testamento: «Foi assim que o Senhor me concedeu, a mim, irmão Francisco, que começasse a fazer penitência: Quando eu ainda vivia em pecados, era para mim insuportável ver leprosos. Mas o próprio Senhor me conduziu ao meio deles e comecei então a exercer misericórdia com eles. E ao afastar-me deles já se transformara para mim em doçura de alma e de corpo aquilo que antes me parecia tão amargo. Depois dessa experiência pouco esperei para dizer adeus ao mundo (T 1.2).

Arrebatado pelo Espírito do Senhor, Francisco faz a experiência da parábola evangélica do bom samaritano (Lc 10,29-36) e ultrapassa assim a barreira que a comuna de Assis levantara para separar as pessoas que gozavam dos direitos e privilégios de cidadania daquelas outras pessoas banidas da sociedade, expulsas para fora das povoações, vítimas da repulsa e quando muito objeto de piedade. Ao decidir-se a assumir a desventura dos leprosos, transformou-se como em irmão deles. E a partir dessa primeira experiência vai-se tomando cada vez mais irmão dos pequeninos, dos humildes, dos abandonados, dos excluídos por motivo de má conduta, de doença, ou até por injustiça social: entre os irmãos há de mostrar sempre uma ternura particular para com os que sofrem no corpo, no espírito ou no coração. Penetra assim nas bem-aventuranças dos pobres, dos que choram, dos mansos, dos misericordiosos: uma obra que só pode ser realizada pelo Espírito do Senhor.

Isso, nem mais nem menos, pretendia ele dizer ao afirmar que aquilo que antes lhe parecia amargo se transformara em doçura de alma e de corpo. Tal doçura recorda sem dúvida aquela unção de que agora se sentia impregnado, como aconteceu com Jesus ao afirmar em Nazaré: «O Espírito do Senhor repousa sobre mim, porque ele me ungiu para anunciar a boa nova aos pobres (Lc 4,1). A partir daí, na esteira de Cristo que se fez nosso irmão, vai Francisco aprender a ser também doce e humilde – ou então cortês, como ele gosta de dizer – para com todos os seres humanos cuja dignidade respeita e defende. Progressivamente e à custa de duras conversões, o Espírito vai nele produzindo os «seus frutos»: «amor, alegria, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão, autodomínio (Gl 5,22).

Transformado assim pelo Espírito, torna-se um irmão tão universal e tão sedutor que chega a conquistar a fraternidade de aves e de peixes, de lobos e cordeiros, do fogo e da água, de todas as criaturas e até mesmo de inimigos como o Sultão do Egito. É como irmão de todos que se atreve a entoar o seu Cântico das Criaturas.

Oxalá a mesma doçura do Espírito do Senhor continue hoje a ajudar os irmãos, as irmãs e os amigos de Francisco de Assis a considerarem-se verdadeiramente irmãos, segundo o Espírito, de todos os excluídos da nossa sociedade no mundo contemporâneo.

PELO FOGO DO ESPÍRITO

«O poder incendiário do Espírito de Cristo abrasava-o por completo”, observa Boaventura (Lm 2,2). Verifica-se isso especialmente em dois acontecimentos que lhe alteraram profundamente a vida: o da Porciúncula e o do Alverne.

O mensageiro da paz

Numa manhã de Fevereiro de 1208 Francisco ouviu na Missa o trecho do Evangelho onde se conta como Jesus enviou os discípulos a pregar e lhes indicou a maneira evangélica de viver. Celano salienta que no fim da Missa ele foi pedir ao sacerdote que lhe explicasse melhor essa passagem. E então, «exultando de alegria no Espírito Santo, exclamou: ‘É exatamente isso o que eu pretendo e procuro, e do fundo do coração anseio por realizar’” (1C 22). Boaventura comenta: «Ao escutar atentamente estas palavras, foi tal a violência com que o Espírito de Cristo o sensibilizou, que mudou de vida por completo … (Lm 2,2) Isso constituiu para Francisco como uma Anunciação ou um Pentecostes. E logo se lançou na aventura da missão que teimará em seguir até à morte juntamente com os companheiros que se lhe vão associar.

Nessa passagem evangélica há uma palavra que especialmente o sensibilizou, segundo ele mesmo confidencia no Testamento: «Revelou-me o Senhor que devíamos saudar-nos dizendo: ‘O Senhor te dê a paz’” (T22). Isso virá a fazer dele, com a força do Espírito, o mensageiro da paz de Deus.

É exatamente sob essa figura de mensageiro da Paz que ele hoje é mais conhecido e invocado, como atestam o sucesso da Oração pela Paz, que lhe é atribu1da, e até o encontro ecumênico dos chefes religiosos em Assis, convocado e presidido pelo papa João Paulo II em Outubro de 1986. Com a veia profética dum João Batista, também ele faz aos quatro ventos um apelo a todos à conversão, à reconciliação com Deus e com os irmãos, e mesmo com os inimigos: expulsa de Arezzo os demônios da violência; leva adversários a assinarem tratados de paz; reconcilia em Assis o bispo com o podestade. E à sua fraternidade ainda embrionária confia a mesma missão: «Ide, caríssimos, e anunciai aos homens a paz e pregai-lhe a conversão que leva ao perdão dos pecados» (1C 24).

O recente e histórico acontecimento de Assis mostra como o Espírito do Senhor continua a pressionar a Família franciscana a que se empenhe com coragem no serviçu da paz, pela oração e pela promoção da justiça e dos direitos do homem.

Francisco sonha mesmo com levar a paz para além das fronteiras da cristandade do seu tempo. Por inspiração divina, ou seja, impelido pelo Espírito, atreve-se a fazer uma tentativa verdadeiramente pasmosa para a época: num gesto de cortesia, vai encontrar-se com o Sultão do Egito, considerado, e não sem motivo, o inimigo número um dos cristãos. Uma pregação deste gênero, bem como outros empreendimentos de paz, acaretam-lhe por vez dissabores e hostilidades: mas ele tudo suporta com alegria para seguir mais de perto os passos do seu amado Senhor, na esperança de poder acompanhá-lo até ao martírio. Na impossibilidade de atingir essa meta, acolhe com alegria as humilhações e um certo desprezo que lhe acarreta até mesmo por parte de alguns irmãos, a sua intransigente fidelidade em viver o Evangelho. A parábola da Perfeita Alegria, relatada na  “I Fioretti” no capitulo VIII, representa a tradução maravilhosa da experiência de quem sabe sofrer perseguição pela justiça por amor de Cristo. Para Francisco, paz e alegria são frutos do Espírito.

A transfiguração em Cristo

Segundo S. Boaventura, Francisco foi um homem «devorado por um incêndio de amor”– expressão que se tomará clássica na linguagem espiritual franciscana. Ele arde em amor «seráfico», ou seja, à semelhança dos Serafins, que são como tochas a arder diante do trono de Deus. O fogo do Espírito irá se transfigurando em Cristo até à total configuração com o Crucificado no Alverne. Esse amor seráfico parece ter nascido quando da oração de Francisco diante do crucifixo de S. Damião: «Desde essa altura enraizou-se-lhe na alma a compaixão pelo Crucificado; e podemos conjeturar que desde então lhe ficaram profundamente gravados na alma os estigmas da Paixão antes de lhe serem impressos na carne (2C 11).

Quanto ao itinerário da transfiguração de Francisco em Cristo, muitos se têm dedicado a descrevê-lo. Vamos apenas indicar a chave de leitura por ele mesmo fornecida na oração que finaliza a Carta a toda a Ordem. Depois de ter implorado o dom de Deus, prossegue dizendo: « … Interiormente purificados, interiormente alumiados e abrasados pelo fogo do Espírito Santo, possamos seguir os passos de teu Filho, nosso Senhor Jesus Cristo … » (CO 51). S. Boaventura chega mesmo a concretizar as etapas e as condições do «Itinerário da alma para Deus»; mas para Francisco o caso parece mais simples: foi o fogo do Espírito que o animou a seguir o caminho de Jesus.

AO SOPRO DO ESPÍRITO

Ao sentir aproximar-se o fim da vida terrena, Frei Francisco afirma com clareza que o movimento evangélico inaugurado em Assis por ele e pelos irmãos e agora confiado à Igreja, só terá futuro pelo sopro do Espírito do Senhor. «Desejava que se recebessem na Ordem pobres e ignorantes, e não apenas ricos e sábios. ‘Deus -dizia ele- não tem em conta essas diferenças; o Espírito Santo, que é o Ministro Geral da Ordem, repousa tanto sobre os pobres e simples como sobre os outros’. Pretendia até que esta frase fosse incluída no texto da Regra – mas a bula da aprovação já tinha sido publicada (a 29 de novembro de 1223); era portanto tarde demais» (lC 123). Sem sombra de dúvida, Francisco toma aqui posição ao lado dos irmãos mais simples, como gostava de lhes chamar, em oposição aos clérigos e a alguns ministros que pretendiam instituir uma Ordem Religiosa capaz de rivalizar com outras de grande renome. E, como de passagem, exprime a convicção profunda e manifesta o desejo ardente de que o Espírito Santo seja de alguma forma o Paráclito, o Advogado, ou, como ele diz, o verdadeiro ministro geral da sua fraternidade (Cf Jo 14, 16-26).

A mesma convição continuará sempre a animar os movimentos franciscanos no decurso da sua longa história. Desde os primórdios, os biógrafos empenham-se em descrever um S. Francisco incessantemente inspirado pelo Espírito, tanto nas iniciativas pessoais como na redação das Regras. Já nessa época os «zelantes» da Regra, numa espécie de namoro com as utopias joaquimistas, acentuarão o aspecto espiritual da vida franciscana, a ponto de serem mesmo chamados «os Espirituais», para se distinguirem dos irmãos simplesmente «observantes» da mesma Regra. Humberto Eco utilizou a seu modo essa controvérsia medieval no célebre romance “O Nome da Rosa”, evocando uma das principais figuras dos «zelantes», Hubertino de Casal, também retratado no filme de Jean-Claude Annaud. A questão centrava-se exatamente sobre a observância da Regra e sobre se o Testamento de Francisco deveria ou não ter valor obrigatório. À medida que ia ganhando terreno uma interpretação cada vez mais jurídica desses textos-base, os Espirituais defendem a intuição – eles chamam-lhe a intenção – de Francisco: a observância espiritual da Regra, interpretada segundo o Testamento e outros escritos e a própria vida do pobrezinho, «por quem o Senhor se dignou falar».

Essa tradição «espiritual», acalmada com o rodar do tempo e desembaraçada de compromissos políticos, vai inspirar numerosas Reformas (diríamos mesmo Rebentos) que aparecem do século XIV ao século XVI. Algumas ainda subsistem e integram a chamada Primeira Ordem Franciscana: observantes, capuchinhos, recoletos … O mesmo dinamismo espiritual suscita de forma idêntica rebentos na Segunda Ordem, a das Clarissas, por exemplo a reforma de Santa Coleta, provoca o pulular de numerosas congregações franciscanas, bem como um reflorescimento da Ordem Terceira e dum laicado evangélico franciscano.

Nos nossos dias, a história espiritual da Família Franciscana procura acompanhar a renovação de toda a Igreja, ao sopro do Espírito.

Do Livro “A Espiritualidade de Francisco de Assis”, Editorial Franciscana – Braga – Portugal

A ousadia de se deixar conduzir pelo Espírito do Senhor

Frei Sinivaldo S. Tavares, OFM

Vivemos numa situação de crise e, entre surpresos e perplexos, constatamos um processo de profundas transformações. Muitas são as indagações que brotam da experiência dos homens e das mulheres do nosso tempo. Inúmeras, as sementes de vida e de esperança entranhadas no nosso cotidiano que, ansiosamente, atendem o momento propício da germinação. Estamos convencidos de que o projeto evangélico de Francisco de Assis goza de uma atualidade surpreendente. Ele tem despertado em todas as culturas e épocas fascínio e acolhida. Seremos capazes, também nós, de encarnar o projeto evangélico de Francisco? Estamos dispostos a oferecer-lhe aquela concreção singular capaz de contagiar alma e corpo, vida e palavra, atitudes pessoais e relacionais?

O Vaticano II convocou-nos à recuperação do nosso carisma inspiracional. Desde então, temos nos empenhado em redescobrir nossa identidade franciscana, mediante o estudo das “Fontes Franciscanas”, e em repropô-la em nossas legislações e documentos recentes. Nossa maior dificuldade, todavia, tem sido encarnar de maneira significativa aqueles valores nos quais cremos e que publicamente professamos. Precisamos estabelecer com a nossa mais genuína tradição uma relação de “fidelidade criativa”. Não basta se debruçar sobre os textos franciscanos. Eles surgiram como fruto da experiência concreta de Francisco e de seus primeiros companheiros. Testemunham o esforço deles em encarnar o evangelho em meio à realidade desafiante dos inícios do século XIII.

Celano escreve que Francisco “fez do seu corpo uma língua” (1Cel 97). Pois compreender é bem mais do que simplesmente explicar. Não que a explicação se oponha à reta compreensão. No entanto, muitas de nossas explicações, ao invés de conduzir-nos à aplicação, nos detêm numa prazerosa “masturbação intelectual”, responsável por situações de perniciosa estagnação. Importa recuperar o princípio evangélico de que é pelo fruto que se conhece a árvore. Não se trata, portanto, de condicionar o ser ao fazer quanto de perceber que o ser se revela e se verifica no fazer.

Não estamos imunes à onda do pragmatismo e do eficientismo. Preocupamo-nos demasiadamente com a visibilidade e, não raras vezes, assumimos atitudes triunfalistas e prepotentes. Francisco recorda que somos chamados a ser irmãos e menores e que nisto consiste propriamente nossa missão evangelizadora. Importa recuperar a gratuidade fundamental da nossa existência, expressão do dom livre e desinteressado de Deus. Discernir em cada situação a presença discreta de Deus que nos desafia e interpela.

Ver as diferenças não como ameaça à unidade, nem como sintoma de uma comunhão perdida. Acolhê-las, ao contrário, como expressão da multiforme e fecunda graça de Deus. Não apenas suportá-las, numa atitude de indiferença, por vezes, reveladora de uma tácita cumplicidade. Mas assumi-las como ocasião propícia para se deixar surpreender pelo Deus de Jesus. Isso só é possível para aqueles que, sabiamente, aprenderam a suspeitar de si mesmos e dos próprios projetos. E perceberam que a diferença do outro, muitas vezes, pode se tornar oportunidade privilegiada de enriquecimento e de amadurecimento.

Para tanto, é necessário que nos proponhamos a reconstruir nossa identidade interior. Resgatar o mistério da própria vocação mediante a escuta silenciosa da Palavra de Deus e a participação devota à Eucaristia. Redescobrir, através da leitura atenta e da meditação da Palavra de Deus, que Ele irrompe na nossa vida cotidiana de formas e modos cada vez novos e que nos interpela a realizar sua vontade.
Celebrar a Eucaristia como memória do Mistério pascal de Cristo que se recria na vida de cada um de nós e das nossas fraternidades. Somente em tal caso a Eucaristia será experimentada como aquele alimento que nos revigora no esforço em “fazer o que sabemos que Ele quer e de querer sempre o que lhe agrada” (Carta a toda a Ordem, 50). Somente enquanto alicerçados sobre uma formação espiritual sólida, seremos capazes de reconciliar as diversidades presentes em nossas fraternidades e províncias.

Somos chamados, hoje mais do que nunca, a recuperar os votos na sua força libertadora. Não são, em primeiro lugar, sinais de uma carência que deve ser abraçada numa atitude de ascetismo heróico. São, na verdade, expressão de um amor maduro, desinteressado, generosamente predisposto a suportar todo e qualquer sacrifício. Não devemos, portanto, nos comportar como pessoas castradas na sua humanidade. Os votos, quando vividos na sua integralidade, deixam transparecer aquela humanidade mais genuína que, como germe, se esconde no âmago de cada um. Eles testemunham uma sadia experiência de êxodo: libertam-nos da idolatria do poder, do ter e do prazer egocêntricos e nos propiciam o encontro com o outro na sua irredutível diferença.

Olhando para a realidade das nossas províncias, surge quase espontaneamente a pergunta: “Será mesmo necessário agir sozinho para poder ser criativo?”. O que fazer para não nos deixarmos sucumbir face à tentação sedutora da estagnação ou da estéril repetição do passado? Somos suficientemente contemplativos a ponto de discernir em cada acontecimento uma senda que conduz a Deus e de acolher com generosidade os inúmeros apelos que Ele nos lança em meio a tantas situações que constituem o nosso cotidiano mais ordinário? O que fizemos daquela ousadia que nos fez abraçar a vida franciscana? Por que nossas fraternidades se deixam contaminar pelo vírus de um uniformismo que amesquinha e asfixia?

Entre tantos desafios que nos são colocados, talvez o maior de todos seja justamente o de restituir credibilidade ao nosso projeto de vida. E isto requer ousadia. Não podemos nos omitir nem mesmo postergar esta incumbência às gerações futuras. É fundamental que assumamos uma atitude de diálogo com nossos reais interlocutores. Que estejamos dispostos a ouvi-los com respeito e caridade, conscientes de que temos tanto a aprender deles. Que saibamos discernir, a exemplo dos nossos pais na fé, “as sementes do Verbo”, a secreta presença de Deus no mundo moderno e nas demais religiões e culturas. Que estejamos abertos a promover, juntamente com todos os seres humanos de boa vontade, relações mais justas e fraternas, no respeito pela liberdade e dignidade de cada pessoa.

Esta atitude dialógica assume feições muito concretas no relacionamento com os jovens que pedem para serem admitidos à nossa experiência de vida. Não há dúvida de que cabe a nós propor-lhes a riqueza da nossa tradição cristã e franciscana. É preciso, todavia, respeitar e valorizar a “recepção criativa” testemunhada por eles ao encarnar o carisma franciscano nas concretas situações em que vivem e segundo desafios e indagações inusitados. Não tem sido esta a dinâmica do processo histórico de constituição da nossa mais genuína tradição franciscana?

Estamos imersos num mundo em constante transformação. Precisamos vencer o medo e a inércia que paralisa nosso caminhar. Para estarmos à altura dos inúmeros desafios do tempo presente é preciso, em primeiro lugar, alargar nossos horizontes para além das preocupações com a própria sobrevivência e com a eficiência antropocêntrica. Necessário se faz, portanto, rever nossos critérios e projetos. Somos convocados a fazer memória do nosso passado, deixando Cristo irromper em nossa vida através do Seu Espírito Vivificante. Francisco dizia que o Ministro Geral da Ordem era o Espírito Santo. A razão de tal escolha não residiria propriamente no fato de ser Ele aquele que “faz novas todas as coisas”?

A vida no Espírito

Albert Chapelle, SJ (*)

Não se pode estritamente falando caracterizar a “espiritualidade” cristã como experiência ou como cultura ou como ideologia. O termo parece hoje um tanto impreciso ou ambíguo, visto sugerir teorias e práticas de tipo religioso sem indicar no entanto a vida na Aliança e no Espírito de Deus.

A vida espiritual do cristão católico recapitula em gestos e  palavras a história da salvação, a dispensação da revelação. Cada  pessoa é chamada a viver singularmente a plenitude da economia divina. A vida no Espírito é comunicação a cada um por todos da totalidade do Mistério.

Na fé se recebe a vida no Espírito Santo, na luz da fé ela se deixa pensar. A experiência individual ou a psicologia religiosa não têm capacidade para aperceber-se da comunhão na vida divina concedida aos fiéis de Nosso Senhor Jesus Cristo. A vida cristã, visto significar participação no mistério divino, é tão misteriosa quanto este. Ela participa amplamente na plenitude de sua graça; mas a consciência que ela tem de si mesma é sempre inadequada diante do mistério que a suscita, a habita e a arrasta em sua órbita. As lembranças e a compreensão de cada pessoa são condicionadas por nossas peculiaridades humanas. Somente a luz da fé na revelação divina coligida na Escritura e a Tradição ensinam ao cristão aquilo que ele vive. Somente a fé lhe abre a porta que dá acesso ao segredo da sua vida no Espírito.

Para meditar teologicamente sobre a “espiritualidade cristã”, nossa vida no Espírito Santo de Jesus Cristo, deixaremos que nosso olhar acompanhe o movimento da revelação divina. Ele é que propriamente caracteriza a vida espiritual do fiel cristão e sua inteligibilidade. Nossa reflexão vai deste modo se articular nos seguintes momentos: 1) a vida espiritual nos foi dada gratuitamente na história da salvação; 2) é recapitulada em Jesus Cristo; 3) oferecida e celebrada na Eucaristia pela Igreja; 4) é comunhão na intimidade trinitária.

O plano acima esboçado permite adivinhar aquilo que nosso discurso não poderá detalhar totalmente: o agir cristão alicerçado nas virtudes e nos dons do Espírito, bem-aventuranças e frutos do Espírito. Por vida no Espírito Santo queremos referir-nos acima de tudo ao ser cristão, a fonte do seu agir. Não iremos evocar tampouco os atos habituais da vida cristã: a oração e os atos de misericórdia espiritual ou corporal. Vamos refletir, nesta meditação teológica, sobre o movimento que anima a vida espiritual de cada pessoa, tal como se desenvolve e se condensa na economia da salvação.

História e Espírito

O dom do Espírito nos antecede como uma graça, ele nos precede na história. Vida espiritual não se improvisa, não tem sua origem em si mesma, não pode haurir água viva em sua própria fonte. É recebida do Alto; brota como toda vida das gerações e dos partos da história.

A história da salvação é o desenrolar do plano previdente divino que se revelou a partir da criação e da eleição de Abraão. Ela se deixa percorrer de novo integralmente por aqueles que Deus chama para acolher o seu dom original e reconhecer a eleição com a qual foram agraciados. Tal como a história da salvação, a vida espiritual é opção de Deus, promessa e cumprimento, queda e arrependimento, ruptura e renovação da Aliança indefectível. Como toda a história da salvação, a nossa vida espiritual deita suas raízes em uma humanidade vulnerada, mas sempre vivaz, que deve ainda e sempre de novo ser educada para a sabedoria. Tal como a história sagrada de Israel, a vida espiritual de cada fiel cristão (ã) se inscreve na carne e dela recebe a graça de comparecer diante do seu Criador. E graças a outrem que a história se constrói, é do outro, daquele que nos precede, que nos instrui e nos ensina, que se edifica toda vida cristã.

Essa docilidade à tradição recebida dos antigos não caracteriza apenas a perpétua “deuterose” (do gregodeuterosis = repetição) que forjou a história do povo de Deus no Primeiro Testamento e no Segundo. A mesma docilidade à voz viva do Evangelho qualifica a humildade constitutiva da vida no perdão e na esperança. É pelo Espírito Santo e seguindo a trajetória de suas operações salutares que a vida cristã se deixa conduzir e iniciar à caridade.
A Sagrada Escritura atesta esta ação do Espírito na história da humanidade como uma revelação do Verbo de Deus na palavra e na ação dos seres humanos. A vida espiritual não pode, portanto, ser um grito primal dado que é uma resposta articulada à Palavra que a precede, a acompanha, a sustenta e alcança. A vida no Espírito é a escuta da primeira palavra sobre o amor: “Ouve, ó Israel, amarás o Senhor teu Deus … “, e a história da salvação não atinge o seu termo sem que a esta palavra venha somar-se este segundo apelo ao amor: “Amarás o teu próximo como a ti mesmo”.

Amarás o Senhor … , amarás o teu próximo …, história impossível, dom do Espírito. Nossa vida espiritual só se realiza quando se retrata na indistinção dos inícios; ela é uma fonte de água viva, impulso e doação até o fim. Não significa recolhimento em uma interioridade vazia, o mutismo que parece indiferença diante das desgraças do mundo e da felicidade do cristão. A vida no Espírito é silêncio da escuta e resposta aplicada de um Fiat: vida espiritual é caridade.

Esta a lição da história, este o fruto do Espírito. “Amai-vos uns aos outros como eu vos amei” (Jo 15,34).

A recapitulação em Jesus Cristo

O mandamento novo trai o Coração daquele que é sua fonte. Dá testemunho do Homem Deus que ama como homem com uma caridade divina [agapé] e convida os irmãos ao mesmo amor. A ordem da caridade caracteriza a vida espiritual e manifesta a grandeza autêntica de Nosso Senhor Jesus Cristo. A vida no Espírito é também vida em Cristo, por Cristo e com Cristo. Ele é o Deus Verdadeiro: a união a Cristo faz a verdade da vida no Espírito. O Senhor – nosso Servo Sofredor – é o Deus que se deve amar de todo o coração, com toda a nossa mente, com toda a nossa alma e com todas as forças. Ele é ao mesmo tempo o mais próximo e o mais distante próximo que temos de amar como a nós mesmos.

Vida espiritual é o amor do Verbo que veio na carne. Cada um se deixa seduzir por um dos inúmeros traços do rosto de Cristo. Ele é o salvador e o esposo, o mestre e o amigo, o irmão e o companheiro de peregrinação terrestre. A vida espiritual de cada pessoa habita como que em seu lugar próprio, e mesmo talvez sem o saber, um dos mistérios da vida de Nosso Senhor, da sua Encarnação e sua Natividade à sua Paixão, Morte e Ressurreição. A mansidão e a humildade de seu coração alimentam a nossa vida no Espírito.

Este esplendor se revela à noite. A nossa vida no Espírito está escondida com Cristo em Deus Pai. Seu Nome talvez esteja em nossos lábios, sem no entanto contemplarmos a sua glória. Nós o amamos, e no entanto não o vimos ainda. Mas esses mistérios do ocultamento do Verbo na infância humana e na paixão de morte atestam a sua proximidade inalienável com a condição humana. Ele não marca nenhuma distância nem ratifica nenhum afastamento.

Todo espaço imaginado vazio fora da presença e da atuação de Jesus Cristo é privação de Deus, extinção do Espírito. Sem Cristo nada podemos fazer nem viver a espiritualidade cristã. Esta perde o vigor e perece quando se separa – por pouco que seja – da sua Fonte, da sua Cabeça, da Vide Verdadeira, ainda que fosse em nome da abstração do sensível, da fascinação do Uno, da infinitude do pensamento ou da imensidão do coração. Fora do olhar de Jesus Cristo, não existe vida espiritual. Sem o brilho da sua face, ficamos sem a luz sobre Deus e o mundo.

A vida espiritual do cristão e da cristã se vive pessoalmente, de coração a coração, de espírito a espírito, no corpo a corpo humano com o Anjo. Todo desconhecimento de Jesus Cristo é obliteração da singularidade pessoal, e a submersão na impessoalidade deixa a criatura sem Deus e sem esperança. A vida espiritual do (a) cristão(ã) é a emergência para fora do cósmico ou do inconsciente, encantamento da pessoa diante do seu ser que é dom. Fora de Jesus Cristo, não há salvação para a pessoa nem para o amor. Fora de Jesus Cristo não se tem acesso a Deus. Ele é o Sumo Sacerdote do nosso único sacrifício.

A Eucaristia

A vida no Espírito é dádiva divina, é crística e eucarística.
A vida na Aliança é concedida na história como a graça e o sacramento da nossa redenção. Ela se realiza no Ato de Cristo e no dom do Espírito Santo. Encontra seu termo e também sua raiz na Obra pela qual se estabelece, se renova e se consuma a união a Deus, na qual consiste a nossa bem-aventurança. Esta obra santa da bondade divina é o sacrifício de Cristo, caso aceitemos a definição de Agostinho (cf. Cidade de Deus, X). Graças a este sacrifício se abre a porta da intimidade divina e a união a Deus nos é oferecida como o dom paterno e fraternal de uma filiação adotiva. A vida no Espírito, deste modo, é sacrifício pascal, alegria do acesso à intimidade divina e ao seu amor mais forte que a morte; prova do desarraigamento do egoísmo assassino, libertação do mal e reconhecimento da graça.

A moral e a ascese cristãs se desenvolvem sob o signo da Cruz gloriosa, que tem na Eucaristia da Igreja seu memorial e seu sacramento cotidiano. A vida no Espírito que nos assimila ao Ato salvador de Jesus Cristo vai levá-lo em nós à sua plenitude. O único sacrifício do Filho Unigênito não se repete, mas abraça e integra no seu ato de oblação todos os irmãos que o Pai lhe confia geração após geração. Elevado acima da terra, na Cruz, Ele atrai a si todos os seres humanos, dá-lhes sua vida, compartilha o amor e de todos faz um só Espírito e um só Corpo. O memorial sacramental do sacrifício redentor, a Eucaristia, faz a Igreja, congrega-a e a une a Deus Pai.

Aquele que se entregou uma vez para sempre se oferece todos os dias à bondade do Pai para nos integrar na mesma oferenda cotidiana. Viver no Espírito de Cristo é estar associado, é associar-se a este gesto de reconciliação. É todo dia, e a cada hora, receber e retribuir esse amor criador, sem medida nem limites.

A vida no Espírito é eucarística. É cooperação voluntária na obra de salvação do mundo. É o impulso de uma vida que se entrega também como a de Cristo, o dom do coração que paga amor com amor. É comunhão eclesial no amor (agapé) derramado em nosso coração pelo Espírito que nos foi dado. Pela graça do Espírito levamos em nossa carne a superabundância do amor prodigalizado na Paixão de Jesus; construímos o seu Corpo. N’Ele congregados, louvamos, bendizemos, adoramos e damos glória Àquele pelo qual, no Espírito Santo, recebemos o querer e o fazer. Nossa comunhão vem a ser o sinal e o instrumento da Aliança com nosso Criador e Redentor. Em ato de união e de oferenda, a Igreja faz a Eucaristia; celebra o sacrifício que a santifica; dá graças pelo Autor da graça que a configura a si e a une a si como Esposa.

A vida no Espírito é dom recebido e a ele responde uma comunidade que não suporta nem confusão nem separação. Essa vida é o inderrogável face a face de uma Aliança; conhece a distinção e o respeito próprios da união conjugal. A vida na Eucaristia discerne no sangue derramado o presente dos esponsais divinos. Exala sempre o violento perfume do sangue derramado, do martírio. A vida espiritual não quer dizer apatheia (a insensibilidade filosófica do estoicismo), ela estremece sempre diante da emoção suplicante, intercede, solicita, procura, pede, mas também sabe dar e abandonar, pois é a vulnerabilidade do amor.

A adoração do Eterno, no templo da Igreja e das almas, é reconhecimento do Amor que move o céu e a terra; é oblação propiciatória e súplica desolada, pois o Amor não é amado. Desolação e trevas de quem se acha, no banquete eucarístico, sentado à mesa dos pecadores. Consolo e universal complacência do Espírito, visto que em cada filho dos homens o Pai dos céus reconhece o seu Filho Bem Amado.

A vida eucarística é renovação incessante e transbordamento de um amor que assume as feições da piedade, da compaixão e da misericórdia sem perder o impulso da dádiva e a alegria da fascinação do Criador diante de sua criatura, do Pai das misericórdias diante dos filhos que gera no Filho Unigênito.

A vida no Espírito é eucarística e eclesial, oblação mortificante e comunhão na paz, ministério de adoração e intercessão, alegria dos esponsais, filial intimidade. A liturgia sacramental pode ser discreta, até secreta, no coração dos fiéis; ela é a fonte e o ápice da vida cristã: abre a porta que dá acesso a Deus. Vida espiritual é a iniciação à vida trinitária.

A vida trinitária

A vida espiritual cristã não é feita à medida humana; não é determinada pela experiência corporal ou psíquica, mas exige, sem dúvida, retidão moral. Não se reduz, no entanto, à moralidade. Mais a suscita do que dela resulta. Não é sabedoria racional, intuição inefável, ciência oculta; nem tampouco é um feitiço do mundo ou magia dos sentimentos. Dócil ao Lógos toû stauroû, à Palavra da Cruz (a pregação de um Messias Crucificado: 1 Cor 1,18), a vida no Espírito é no Filho Bem Amado comunhão na intimidade do Pai. O Verbo de Deus assumiu a carne humana e se fez homem para que o ser humano ganhasse a vida nova e a divinização.

Esta comunicação da vida divina tem o realismo das mais surpreendentes palavras do Evangelho: Felizes os pobres no espírito … amai os vossos inimigos … Ela é participação na vida d’Aquele que está escondido neste mundo, na sua providência constante, na sua sabedoria criadora, no seu amor invencível, inexaurível. As exigências comuns da caridade evangélica dão testemunho dessa participação no amor divino, sobrenatural: amai-vos uns aos outros como eu vos amei, com amor infinitamente santo, indefinidamente vulnerável com que vos amei. Se a paciência nos permite possuir nossas almas, é porque tem no Espírito a eterna garantia do Criador dos céus e da terra, d’Aquele que chama pelo nome as estrelas e os eleitos.

A vida no Espírito nos é dada na história, por Cristo, como também a Eucaristia de sua Igreja; é divinização e participação por graça naquilo que Deus é por sua própria natureza. Deus por participação: eis a meta a que é chamada a criatura humana. Mesmo assim, não somos menos humanos, visto que o Cristo nos revela em sua Pessoa este admirável comércio de aliança e de esponsais que faz do ser humano o parceiro bem amado do seu Deus. Eis o mistério absoluto, e tão simples, de que participamos por graça, convidados à simplicidade do olhar que reconhece em cada dom o bem único e primeiro, em cada presença a mesma Presença do Pai, em cada obra e em toda paixão a paciência do Verbo Encarnado, em toda intimidade um transbordamento da vida do Espírito Criador.

Embora seja ainda humana, a vida espiritual é também santa e divina. É vida. Portanto, gerada. Nasce do Pai de toda luz e toda bênção. Ele nos gera porque é Pai. Gera-nos em seu Filho Unigênito no qual encontra sempre toda a sua complacência. Filhos no Filho, um só e mesmo Filho, esta é por graça adotiva a condição dos filhos dos homens amados pelo Pai n’ Aquele que é por geração eterna o Filho bem Amado.

Se nossa vida é Cristo, é para ser um com Ele e n’Ele no Amor do Pai que o enviou. Como Ele é um com seu Pai e o Pai um com Ele, somos um n’Ele, identificados com Ele pelo Espírito Santo, pelo Amor comum do Pai e do Filho. Não menos amados que Cristo, dado que totalmente amados n’Ele; não menos simples que Ele, dado que estamos n’Ele, o Único, únicos como Ele.

A vida cristã eucarística tem a densidade da perfeita unidade do Pai e do Filho no Espírito de poder e paz. Como jorra do Uno e do Outro, como testemunha e penhor eterno da unidade divina, o Espírito Santo transborda para fora de nós que, amados no Filho, amamos o Pai que nos leva de volta a seu Filho que veio na carne. O Espírito Santo que nos habita procede, jorra do Pai e do Filho; procede e jorra também de nós, dado que somos um só Filho em Jesus Cristo.

Cada um de nós, único, manifesta uma singular tonalidade do amor divino e mostra sob os olhos encantados do Pai e do Filho um rosto original do eterno amor. Dignidade singular da pessoa humana que, pela graça e em Cristo, concede ao Pai amar Aquele que Ele gera e ao Filho amar Aquele para o qual está voltado desde toda a eternidade e por toda a eternidade. Inimaginável responsabilidade concedida a cada pessoa por pura graça, gratuitamente, por acréscimo. Em Cristo cada pessoa concede ao Pai gerar e ao Filho ser Amado na docilidade e no amor. No Espírito Santo, cada pessoa, pela superabundância do Amor, tem o poder de dar ao Pai e ao Filho ser Deus, o nosso Deus.

As palavras são impotentes para dizer a simplicidade deste amor eternamente proveniente, sempre inventivo, jamais cansado de se surpreender e encantar-se, pois é o Amor do Pai. Simplicidade escondida do amor, cuja sabedoria filial não se deixa surpreender sem por sua vez se entregar e se dar sempre de novo, e jorrar sem fim, sempre de novo. Jamais cansado de adivinhar e acorrer, de se abandonar e renovar-se.

Na intimidade da vida trinitária, a vida no Espírito une na mesma dinâmica o Pai e seus filhos, o Criador e todas as criaturas. O amor [ágape] celebrado pelo Apóstolo Paulo (cf. 1 Cor 13) abarca no mesmo amplexo Deus e o próximo. É o amor de Cristo que nos arrasta irresistivelmente. A espiritualidade cristã ignora a indistinção da unidade abstrata do múltiplo pelo eros da razão humana. Vive da unidade simples e viva cuja sabedoria, cujo segredo, somente a ágape (o amor) divina conhece.
O(a) fiel cristão(ã) vive da fé e na fé. Pela fé, na sua obscuridade e em seu pudor, a vida espiritual se deixa iniciar no mistério de Deus e dos seres humanos, no mistério do Emanuel [Deus Conosco].

Cada um de nós se sente mais afetivamente marcado por este ou por aquele traço da inexaurível riqueza que constitui a nossa vida. Ninguém consegue experimentar em um só relance e cada dia todos os tesouros da sabedoria e da ciência revelados no coração de Jesus Cristo. Mas para o louvor da sua glória, sentimo-nos obrigados a dizer a verdade do que cremos, por menos que o sintamos, e alegrar-nos com o tesouro que nos dá vida, para não desperdiçá-lo mais.

Artigo publicado na Revista Grande Sinal, de propriedade da Província Franciscana da Imaculada Conceição, editada pela Editora Vozes.

(*) Pe. Albert Chapelle, jesuíta, que durante muitos anos colaborou na revista Vie Consacrée, com valiosas reflexões sobre a vida consagrada e a espiritualidade cristã, faleceu em janeiro de 2003.

Festa de Pentecostes

Frei Neylor J. Tonin, OFM

1. A festa de Pentecostes, originariamente conhecida como a festa da colheita (cf. Ex 23,16) era, no Antigo Testamento, uma celebração da bondade de Deus que dera a seu povo “uma terra de trigo e cevada, vinhos, figueiras e romãzeiras, uma terra de óleo de olivas e de mel” (cf. Dt 8,8). Como resposta de ação de graças, os israelitas ofereciam-Lhe, entre cantos de alegria, as primícias de suas colheitas.

No Novo Testamento, a festa de Pentecostes também canta as maravilhas e a abundância de Deus, já não nas sementeiras das searas, mas na messe íntima dos corações. Os Apóstolos “estavam reunidos num mesmo lugar” (At 2,1), quando “de repente veio do céu um ruído”(v. 2) e eles “ficaram cheios do Espírito Santo”(v. 4). O fiel, que atualmente levanta seus braços para o céu, agradece não “uma terra de trigo e cevada, vinhas, figueiras e romãzeiras”, não dons materiais e riquezas da terra, mas o maior presente que Deus nos comunicou nesta festa: seu próprio Espírito Santo.

Com a efusão do Espírito Santo, realizou-se a palavra de Jesus, que prometera enviar um Consolador. Derramou-se sobre os apóstolos, em línguas de fogo, a força de Deus. Inaugurou-se o tempo da Igreja, a quem se deu o dom definitivo do Espírito, que faz de todos um só povo, uma só ecclesia, reúne gregos e gentios, escravos e livres, judeus e cristãos numa única, santa e litúrgica kahal, debaixo do sacramento da nova aliança. Com a efusão do Pentecostes, Cristo coroou sua obra e a festa da Páscoa recebeu seu último toque, completando a obra salvífica do Senhor Jesus.

Uma vez mais irrompeu a eternidade para dentro do tempo e o homem experimentou, entre maravilhado, espantado e feliz, os desvelos, as novas manifestações do eterno amor do coração de seu Deus. Na festa de Pentecostes, Deus volta já não mais a sentar-se na mesa dos homens, mas faz a estes prelibar o banquete do Reino dos Céus, onde todos viverão embriagados com o vinho doce que Ele prepara para seus eleitos.

2. A festa de Pentecostes desperta em mim duas idéias principais. A primeira é que Pentecostes não é a resta de um dia, mas que toda a vida é um grande Pentecostes. Continuadamente, sem cessar, Deus derrama seu Espírito na argila informe da existência para teo-morfi-zá-la (diviniza-la). Deus não criou o mundo para o caos, mas os elementos do mundo existem para que o homem em sua necessidade possa servir-se deles “como benefício” (cf. Sb 11,5). Por outro lado, o mundo não foi criado de uma vez por todas, mas Deus continua a recriá-lo constantemente. Sua palavra – Faça-se! – é de valor eterno e ação perene.

3. Mas pensemos esta idéia de forma diferente. Imaginemos a surpresa e o espanto que nos assaltariam se, diante dos nossos olhares atônitos e ouvidos incrédulos, se levantasse, em meio a uma de nossas celebrações litúrgicas,  uma voz louca ou profética que proclamasse: “Tenho o prazer de vos anunciar uma grande alegria: O Reino de Deus está entre vós!” O que, num primeiro momento, poder-nos-ia causar um calafrio e até uma certa alegria, pois estaria respondendo a um desejo que, quem sabe, o temos enfraquecido dentro de nós, mas que nos é conatural e imortal, tal sentimento, sem dúvida, seria suplantado por uma venenosa descrença, tão logo confrontássemos o teor do anúncio com o mundo-cão em que vivemos. Sem muitas dificuldades, concluiríamos que o Reino de Deus não pode conviver com o pecado e as injustiças, com o rancor, o ódio e as mais diversas formas de hipocrisias, com a cizânia da maldade e o demônio das rivalidades que tem como fermento comum um egoísmo mortífero e insensato.

Esta descrença, no entanto, é palpável, e é fruto de um comportamento carnal, como diz São Paulo. Ela é um dos aspectos do pecado contra o Espírito Santo. Tal descrença coloca em xeque a base de relacionamento da criatura com o Criador. E na medida em que tal descrença toma conta do fiel,  faz-se impossível, como diz a Escritura, o perdão para o pecado contra o Espírito Santo. Pois a graça de Deus só pode medrar onde o homem coloca a aceitação da fé.

Nossa insensibilidade espiritual leva-nos a inflacionar ou a dar vulto à ação do Maligno e a menosprezar o eterno e continuado trabalho pentecostal do Espírito de Deus no coração de suas criaturas. Nestas palavras “O Reino de Deus está entre vós” sente-se pulsar, como diz o teólogo  russo Paulo Evdokimov, “o coração do Evangelho”. Vivemos, no entanto e infelizmente, como se isto não fosse verdade. A dificuldade que sentimos em viver o Reino de  Deus deixa-nos insensíveis à sua presença. Nosso debruçar-se sobre as mazelas do mundo anestesia em nós a ação do Espírito Santo. Convivemos com dificuldade com o mundo do mal. Alimentamos ansiosamente uma mentalidade judaica, sempre à cata de milagres. Somos, também, vítimas de uma mentalidade grega que, prometeicamente, se lança na conquista utópica de frutos proibidos e crê apenas na  extensão de seus braços e na argúcia de sua inteligência. O drama da cruz continua a ser um escândalo que nos machuca e que piedosamente confinamos às celebrações da  Semana Santa. Nosso mundo técnico e lógico termina nos limites onde se entrechocam luz e trevas, e nossos passos acompanham Cristo até às ruas de Jerusalém, sentindo-se  fracos para ir com Ele até fora da cidade, ao lugar  do crâneo.

4. E, no entanto, dezenas de anos antes de Cristo, a alma religiosa do Povo Eleito já era bastante espiritual para discernir, por entre as mazelas humanas, a presença do Espírito de Deus, pairando sobre as águas, a trabalhar no barro caótico do gênese. O caos ainda não terminou, inclusive porque esta é a hora das trevas. E é nesta hora que se faz presente a festa de Pentecostes. Deus continua pairando sobre o abismo do pecado e das incertezas, insuflando na fraqueza das decisões humanas o calor de seu coração e sua Palavra criadora. Cinqüenta dias depois da Páscoa, esta presença apenas se adensou para confirmar a fé dos discípulos que, por medo dos judeus, haviam-se retirado para a intimidade do Cenáculo que, se por um lado coloca a pessoa sob a proteção do Deus dos Exércitos, por outro visibiliza e inapelavelmente denuncia a fraqueza do homem.

5. A vida do fiel é uma contínua festa de Pentecostes. O suceder-se dos séculos é o Pentecostes eterno que os homens não devem perder de vista quando colocam, revoltados e escandalizados, seus olhares na cizânia que o inimigo semeia na seara do bom trigo que o Pai de Família fez crescer em seu campo. O esforço e desafio do homem espiritual estarão sempre endereçados na tentativa de vislumbrar e descobrir a ação de Deus na coragem dos jovens que cantam na fornalha ardente da Babilônia  e no arrependimento do Rei Davi. A força do “Totalmente Outro” está irrompendo continuamente na história sagrada dos homens. Ele continua a sentar-se à mesa com Abraão, o armar o braço de uns poucos contra a prepotência dos tiranos, a sacramentar o testemunho de sangue dos irmãos Macabeus, a quebrar o orgulho e a impiedade de todos os Antíocos, a caminhar com os seus mesmo quando eles se afastam, sem esperanças, pelas estradas de Emaús.

6. Antigo Testamento tem uma visão profética da festa de Pentecostes no livro do Profeta Ezequiel. A nação apostara e o Faraó, que era visto como a salvação, se banqueteava iniquamente nas portas da cidade. A esposa do profeta, símbolo daquilo que seria a delícia para os  olhos e imagem da felicidade de uma nação, lhe é roubada. E, no entanto, o Senhor lhe pede para que não a chore,  para que não celebre o luto ritual. “Conserva o teu turbante na cabeça, põe o calçado nos pés, não cubras a tua barba, não comas o pão das gentes’ (Ez .24,17). Porque Israel será restaurado.

A mão do Senhor, então, arrebatou o Profeta e o colocou no meio de uma planície “que estava coberta de ossos”. A continuação da história todos a conhecemos, e o seu simbolismo também. Deus manda que o Profeta fale sobre os ossos “a palavra do Senhor”, aquela mesma palavra que tirou do nada toda a criação. O Profeta obedece E confessa: “Vi que se formavam sobre eles músculos, que nascia neles carne, que uma pele os recobria” (Ez 37,8). Daí a pouco, o “o espírito penetrava neles” (v. 10).

E o Espírito do Senhor abre-lhe os olhos para a verdade “Filho do homem, esses ossos são toda a raça de Israel. Eles  dizem: Nossos ossos estão secos, nossa esperança está morta; estamos perdidos” (v. 11). Mas a mão do Senhor abre os túmulos (v. 12), fá-los ser um só  coração (v. 19) e estabelece no meio dele o seu santuário, pois eles serão o seu povo (vv. 26-27).

No simbolismo de um sonho, eis a prefiguração e realismo de Pentecostes. Deus tirou a vida do caos: Deus  deu vida a um útero estéril; Deus ressuscitou seu Filho das trevas da morte; e Deus fez de um monte de ossos o seu povo. É este o milagre de Pentecostes que se renova de mil formas diversas, em mil situações impossíveis e que só os puros de coração tem olhos para ver, segundo o Sermão das Bem-aventuranças.

7. A segunda idéia que a festa de Pentecostes me sugere é a da comunidade perfeita, daqueles que, segundo a descrição dos Atos, “perseveravam na doutrina dos Apóstolos, nas reuniões em comum, na fração do pão orações” (2,42). Eles viviam “unidos e tinham tudo comum” (v. 44); “tomavam a comida com alegria e singeleza de coração, louvando a Deus e cativando a simpatia de todo o povo” (vv. 45-47). Para melhor apreendermos a dimensão desta comunidade pentecostal, seria útil meditar sobre a  “comunidade infernal”. As cores sombrias de um quadro que nos apresenta o inferno poderão nos ajudar a entender melhor o esplendor da festa de Pentecostes.

8. O inferno é o oposto do Reino dos Céus. Tanto para um quanto para o outro valem as palavras de Isaías e São Paulo: “Olho humano jamais viu, nem ouvido ouviu, nem o coração imaginou o que Deus preparou para aqueles que o amam” (1 Cor 2,9), e para os malditos que não O acolhem. O homem tem dificuldade de compreender um e outro porque ainda não compreendeu o próprio coração.

Qualquer reflexão sobre o inferno e o céu, por isso mesmo, será sempre uma meditação sobre as possibilidades dum inferno e dum céu que carregamos dentro de nós mesmos. Tem toda razão o místico alemão Angelus Silesius quando afirma: “Se o paraíso, ó homem, não estiver, antes de tudo, em você, creia-me que nele, seguramente, você não entrará jamais”. Ou ainda: “O céu encontra-se em você, assim como as torturas do inferno. O que você escolher e quiser, isto você o terá por toda a parte”. A Bíblia é a meditação que agora estamos tentando fazer. Ela olhou para dentro do homem e ali encontrou o céu e o inferno. Viu Deus criando o homem à sua imagem semelhança e o demônio tentando desencaminhá-lo.

O que é o inferno? O inferno é a busca desgraçada de si mesmo. Uma busca sofrida, sem tréguas, insatisfeita, perturbadora; é um girar sem paz, um buscar sem encontrar um torturar-se sem sentido, um morrer angustiante sem fim. Angelus Silesius retrata o maldito muito bem: “Se o diabo – diz ele – pudesse abandonar a busca de si mesmo, tu o verias, de imediato, assentar-se no trono de Deus”. O Professor de Mística, Padre Deblaere, costumava dizer que o demônio é o mais religioso dos seres, com o problema de não querer abandonar o próprio eu. Santo Agostinho, retratando a cidade dos homens, mostrou-lhe o aspecto trágico, que residia exatamente na busca neurótica de si mesmo até o ponto de perder-se. E São Paulo anota, com fineza psicológica, que quando Deus quer perder o homem, entrega-o aos descaminhos dos próprios desejos.

O inferno, por isso, é uma solidão não redemida, um abandono cheio de revolta (o abandono de Cristo foi vencido pela fé!), um deserto sem a presença do Bem-Amado. Os místicos preferiam o inferno com Deus, que o céu sem Ele. Outros queriam ser tão livres, no amor de Deus, que continuariam a amá-lo mesmo que Deus não fosse a recompensa que lhes era prometida.

O inferno nasce de um amor sem forças de expressão, ou cuja expressão é a estéril projeção do próprio eu. Nesta  projeção ansiosa, o homem se martiriza inutilmente e devora o próprio coração, sacia-se não do pão vivo na casa do Pai, mas com a comida que seus cuidados terrenos preparam para os animais que ele alberga no fundo de si mesmo. Esta comida nunca será suficiente. Ele, então, em vez de transformar-se no “templo vivo de Deus”, converte-se numa “babel onde o demônio faz o seu carnaval”. E as características desta babel não a irreconciliação trágica consigo mesmo, mundo interior fracionado e desajustado, insatisfação neurótica, incoerência, pulsão dos desejos, auto-imagem distorcida e não-ok.

Um homem assim não pode cantar e para ele Pentecostes não é uma festa, pois ele está perdido na incomunicação consigo mesmo e com o mundo. Ele não conhece a alegria da adoração, a gratuidade do testemunho, a pureza da acolhida e a festa da comunhão.

9. Mas tudo isto conhece o homem pentecostal. Seu olhar não se perde nas baixas planícies dos dividendos terrenos, mas ele está sempre à espera do Senhor que está para vir. Sua oração não se centra sobre suas necessidades, mas é uma súplica para que venha o Reino Deus, para que volte o Cristo Senhor: Maran-atha! Ele é um adorador do Pai, o homem do “Sanctus”, sempre pronto a descalçar as sandálias e a despojar-se das próprias vaidades, para revestir-se da força da Palavra de Deus. Ele é o “auditorium Spiritus” (auditório do Espírito) e o “vere recipiens Spiritum Dei” (o verdadeiro receptáculo do Espírito de Deus). Nele já foram silenciados os desejos e afeições passageiras e sua vida é o anfiteatro onde Cristo já venceu o demônio da tríplice tentação. Porque morreu para si, de seu túmulo a mão toda-poderosa de Deus ressuscitará sua verdadeira imagem e semelhança. “Todos – dizem os Atos – ficaram cheios do Espírito Santo” (2,4). Assim é o homem pentecostal que se esvaziou de si, fazendo espaço para o Deus de toda consolação.

10. O homem pentecostal fala a língua de seus irmãos. Fala e entende. Não se perde num monólogo estéril, compreende o que lhe dizem e faz-se entender pelos que o escutam. Sua identidade é a pobreza e sua linguagem, o amor. Não usa armas para dominar, apenas vive na admiração das “maravilhas de Deus” (2,11). O ruído do milagre lhe é inteligível, porque já silenciou dentro de si o ruído das paixões. Não fala de si, fala do outro, do grande outro, em nome de quem ele se reúne para rezar e comungar.

Em qualquer lugar onde esteja, o homem pentecostal vive casa do Pai, que criou todas as coisas para que lhe cantassem sua glória. Tudo lhe é irmão e o mais ínfimo ser é digno de seu desvelo. Em todos eles faz-se presente, constantemente, a festa de Pentecostes. Eles são vivificados pelo sopro criador do Espírito de Deus e línguas  de fogo aquecem-lhes o coração para a vida.

Texto publicado na Revista Grande Sinal, de propriedade da Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil, editada pela Vozes.

O Espírito do Senhor – Ensaio de uma leitura antropológica

Celso Márcio Teixeira

Introdução

Bastante comum entre os que estudam São Francisco é a tendência de interpretar o pensamento dele segundo a mais avançada teologia ou segundo as mais recentes conquistas dos estudos exegéticos ou da teologia bíblica. Sem dúvida, Francisco teve intuições profundas na maneira de ler e interpretar a Sagrada Escritura, mas é necessária uma certa cautela nas afirmações sobre a “teologia” dele para não lhe colocar na cabeça o que ele não pensou nem tampouco elaborou. Encontramos em Francisco, fora de dúvida, pistas que coincidem com uma visão atualizada da teologia. Afirmar mais do que isto seria tirar uma conclusão maior do que as premissas nos permitem.

O mesmo vale para uma “leitura antropológica” de Francisco. Talvez nem se possa dizer que Francisco tivesse uma “antropologia”. De fato, ele não elaborou tratados de espécie alguma. Mais conforme com a verdade, no caso, seria dizer: “fragmentos de uma antropologia”. Embo¬ra ele não tenha elaborado uma antropologia, no entanto, em seus escritos transparecem muitos elementos que constituem a sua visão do homem. Nossa tarefa seria, então, ajuntar os fragmentos mais signifi¬cativos que comporiam a linha-mestra de sua “antropologia”.

Ao tentarmos fazer uma leitura antropológica, estamos conscientes de que isto significa uma riqueza e um limite ao mesmo tempo. Riqueza, porque é tentativa de uma visão diferente, de uma interpretação nova do texto de Francisco; limite, porque toda ótica é uma limitação do campo visivo da realidade. Uma leitura antropológica de um texto é sempre um ponto de vista, como também são diferentes pontos de vista a leitura teológica, a sociológica, a histórica, a filosófica, a psicológica, etc. Qualquer tentativa de leitura ou interpretação marca, portanto, um limite de seu campo visivo.

Limitado também será o nosso campo de análise. Fixar-nos-emos na expressão usada por São Francisco: o espírito do Senhor. Não procuraremos aí a “teologia” dele, mas tentaremos colher alguns elementos de sua “antropologia”. Descobriremos, no entanto, que esta é profundamente teológica, ou melhor, se move a partir de uma concepção teológica do homem.

Não pretendemos estender o estudo a toda a visão que Francisco tem do homem. Isto requereria um estudo mais exaustivo que analisasse a compreensão que ele tem de corpo, de mundo, da vida, de espaço, de tempo, etc. E isto foge do escopo singelo do presente estudo que é ater-nos à expressão “espírito do Senhor”.

Colocados estes prolegômenos, resta-nos colocar a pergunta, objeto deste estudo: O que significa para Francisco o espírito do Senhor? Que implicações tem o espírito do Senhor para a sua visão do homem?

1. Análise do termo “espírito”

Este termo, “espírito”, é usado para designar a terceira Pessoa da Santíssima Trindade, no nome Espírito Santo, para designar o espírito que, com o corpo, é elemento constitutivo do homem, e para designar os anjos e até mesmo os demônios. E há ainda a expressão, usada por Francisco, “espírito do Senhor” (1).

Como se pode constatar em um primeiro contato com o termo “espírito”, este não tem um sentido unívoco. Falar simplesmente “espírito” ainda não diz nada. É necessário colhê-lo no seu contexto ou pelo menos junto com o adjetivo que o qualifica.

Em algumas expressões em que é empregado o termo “espírito”, o significado é evidente. Quando Francisco fala de espírito imundo (2), não resta qualquer dúvida de que esteja falando do demônio, ainda mais que ele usa esta expressão, citando literalmente o Evangelho de Mateus (cf. Mt 12,43). Ao falar dos coros dos espíritos beatos (3), refere-se evidentemente aos coros dos anjos, pois o contexto mesmo, enumerando os serafins, os querubins etc., indica o sentido que tem o termo “espíritos”. E o nome “Espírito Santo” tem um sentido e conteúdo claros: trata-se da terceira Pessoa da Santíssima Trindade.

2. O que os autores dizem sobre o espírito do Senhor

Mas a expressão “espírito do Senhor” não tem a mesma clareza. O que significa “espírito do Senhor”? Qual sua importância no conjunto do pensamento de Francisco? Concordamos com K. Esser e E. Grau quando afirmam que a doutrina sobre o espírito do Senhor constitui o núcleo do pensamento de Francisco (4). É importante procurar aprofundar este aspecto, pois estamos diante de um pensamento, se não original, pelo menos muito característico de Francisco.

Quanto ao conteúdo da expressão “espírito do Senhor”, Francisco não é muito explícito; ele não explicou o que queria dizer com tal expressão. Resta, então, aos estudiosos a tarefa de tentar compreender e interpretar, tendo como moldura de fundo o conjunto dos Escritos de Francisco, o sentido desta expressão. E as interpretações dos autores divergem. Alguns, por exemplo, identificam o “espírito do Senhor” simplesmente com o Espírito Santo ou com a sua ação (5). A tendência de muitos autores, de fato, é identificar o “espírito do Senhor” com a terceira Pessoa da Santíssima Trindade. A nosso ver, esta identificação é indevida, não só por se tratar de uma interpretação teologizante, mas porque Francisco, quando quer referir-se à terceira Pessoa da Santíssima Trindade, a nomeia sempre como Espírito Santo. Por exemplo, no texto que segue:

“Santa Virgem Maria, não há mulher nascida no mundo semelhante a vós, filha e serva do altíssimo Rei e Pai celestial, Mãe de nosso santíssimo Senhor Jesus Cristo, esposa do Espírito Santo”(6).

Francisco não chama Maria de esposa do espírito do Senhor. Em nenhum momento dos Escritos de Francisco, o espírito do Senhor vem considerado como pessoa. E todas as vezes em que vem nomeado o Espírito Santo, ele é compreendido como pessoa, mais precisamente, a terceira Pessoa da Trindade.

Há autores que interpretam o “espírito do Senhor” preferivelmente “como o estado da fé e do amor, como o estado de graça que é fruto da salvação”(7).  Há quem o interprete como o espírito de Cristo (8).

O. van Asseldonck, um dos que mais têm escrito sobre o tema, interpreta-o como o próprio espírito de Cristo, tendendo, porém, para uma interpretação mais “antropológica”: “Este espírito do Senhor é o Espírito do mesmo Cristo, Filho de Deus, que se comunica ao homem na medida em que segue as pegadas de Jesus pobre, humilde, crucificado e eucarístico. Refere-se ao mesmo e único Espírito que nós chamamos de espírito de oração e devoção, de pobreza, de penitência, obediência e caridade, em uma palavra: o espírito de toda a vida evangélica dos irmãos menores. Este é o Espírito desejável sobre todas as coisas, sendo como o espírito e a vida dos irmãos” (9).

Diante do que dizem os autores, a pergunta continua: o espírito do senhor é o Espírito Santo? É o espírito de pobreza, de oração, etc.? É o estado de amor e de fé? É o estado de graça?

3. O espírito e a semelhança de Deus

“Considera, ó homem, a que excelência te elevou o Senhor, criando-te e formando-te segundo o corpo à imagem do seu dileto Filho e, segundo o espírito, à sua própria semelhança. Entretanto, as criaturas todas que estão debaixo do céu, a seu modo, servem e conhecem e obedecem ao seu Criador melhor do que tu” (10).

Este texto é de fundamental importância para uma imagem que Francisco tem do homem. O homem foi criado por Deus e colocado em posição de excelência em relação às demais criaturas. A excelência consiste nisso: o homem é constituído de corpo e espírito; quanto à corporalidade, foi criado à imagem do Filho (11), quanto ao espírito, foi criado à semelhança de Deus.

O espírito é, por assim dizer, algo de Deus que há no homem. Quando Deus criou o homem, infundiu nele algo de seu, sua marca, seu selo: o espírito. A Bíblia fala que Deus soprou nas narinas do homem, feito de barro, e o homem se tornou um ser vivente (cf. Gn 2,7). O espírito é esse sopro de Deus que dá vida ao homem. O espírito ou o sopro de Deus torna-se no homem espírito encarnado, realidade humana, elemento constituinte do ser humano, juntamente com o corpo.

Ser espírito é o modo de ser de Deus. Por isso, é no espírito do homem que reside a semelhança de Deus (12). E esta semelhança é algo humano, pois faz parte constituinte do homem. Por assim dizer, o homem tem em si, como elemento constituinte, uma faísca do modo de ser de Deus. Esta figura não dista muito da usada por São Paulo: “O Senhor é espírito, e onde está o espírito do Senhor, aí há liberdade. Todos nós … refletimos como num espelho a glória do Senhor, e nós nos vemos transformados nesta mesma imagem, sempre mais resplandecente pela ação do espírito do Senhor” (2Cor 3,17-18).

As demais criaturas, pelo simples fato de existirem, já prestam seu louvor e glória a Deus: “a seu modo, servem, conhecem e obedecem ao Criador”. Ao homem, porém, não basta existir, não basta que tenha o espírito ou a semelhança de Deus como elemento constituinte de seu ser. O ser do homem, constituído também de espírito, implica uma tarefa: a de viver de acordo com o espírito que há nele, que é a marca e semelhança de Deus imanente nele. O ser do homem, portanto, exatamente por ser espírito, é um devir, um vir-a-ser, uma busca de tornar-se cada vez mais semelhante a Deus. Somente assim, ele estará ocupando seu lugar de excelência entre as demais criaturas. A busca de viver esta semelhança de Deus (o devir) será também o seu modo de render louvor e glória ao Criador.

O viver em vícios e pecados é o contrário da semelhança com Deus. Por isso, Francisco continua o texto da Admoestação da seguinte forma: “Não foram tampouco os espíritos malignos que o crucificaram, mas tu em aliança com eles o crucificaste e o crucificas ainda, quando te deleitas em vícios e pecados”(13).

Deleitar-se em vícios e pecados é ofuscar o brilho da semelhança de Deus, é encobrir a marca de Deus. Contrariamente, para Francisco, o viver em penitência (14) significa deixar brilhar sempre mais o espírito, a semelhança de Deus.

4. O espírito do Senhor e a vida de penitência

“E todos os homens e mulheres que assim agirem e perseverarem até o fim verão ‘repousar sobre si o espírito do Senhor’ (Is 11,2), e ele fará neles sua morada permanente (Jo 14,23), e eles serão filhos do Pai celestial (Mt 5,45), cujas obras fazem. E eles são esposos, irmãos e mães de Nosso Senhor Jesus Cristo (cf. Mt 12,48-50). Somos esposos, quando a alma crente está unida a Jesus Cristo pelo Espírito Santo. Somos seus irmãos, quando fazemos a vontade de seu Pai, que está nos céus (Mt 12,50). Somos suas mães, se com amor e consciência pura e sincera o trazemos em nosso coração e nosso seio e o damos à luz por obras santas que sirvam de luminoso exemplo aos outros (cf. Mt 5,16)” (15).

Observe-se, neste texto, que o espírito do Senhor não é anterior, mas resultado do viver a penitência: à medida que os homens e mulheres vivem a penitência e nela perseveram, pouco a pouco vão ficando plenificados do espírito do Senhor: “verão repousar sobre si o espírito do Senhor”. Isto é, os que vivem segundo o espírito, segundo a semelhança de Deus que é imanente neles, verão desabrochar cada vez mais em si a semelhança de Deus. Surge, então, a pergunta: trata-se de um outro espírito ou é o mesmo espírito que é semelhança de Deus visto na análise do primeiro texto?

A nosso ver, trata-se do mesmo espírito (modo de ser de Deus ou semelhança de Deus presente no homem). Somente que, quando o homem procura viver segundo a semelhança de Deus, o espírito brilha mais intensamente nele, a semelhança de Deus se torna mais reflexo de Deus. O homem que vive segundo este modo de ser de Deus torna-se – o homem é um devir – “homo spiritualis” (16). Mas para que o homem permaneça “homo spiritualis” é necessário que o espírito do Senhor seja nele uma presença habitual. A presença habitual do espírito do Senhor no homem é dita por expressões como “o espírito repousa sobre ele (ou habita nele)”, “possuir o espírito do Senhor” ou “ser possuído pelo espírito do Senhor”.

Embora seja muito comum a interpretação que identifica o espírito do Senhor deste texto com o Espírito Santo, terceira Pessoa da Santíssima Trindade, julgamos que não seria o caso de estabelecer esta identificação. A nosso ver, possuir o espírito do Senhor, ou melhor, ser possuído pelo espírito do Senhor, é ter o mesmo modo de ser, de viver, de ver, de sentir, de querer, de pensar, de agir de Deus, na medida da frágil capacidade humana, certamente inspirada por Deus e sustentada por sua graça. Este modo de ser de Deus (ou o espírito do Senhor) torna-se realidade humana na pessoa. Para utilizar a linguagem da teologia da Idade Média, o espírito do Senhor no homem é uma “res creata”(17) (uma realidade criada).

Portanto, o espírito do Senhor não precisa ser interpretado simplesmente como o Espírito Santo. Além do mais, no texto citado, existe uma distinção entre o espírito do Senhor e o Espírito Santo. Ser possuído ou habitado pelo espírito do Senhor, esse modo de ser de Deus que se torna humano em nós, torna possível e estabelece o nosso relacionamento de filhos com o Pai celestial, de irmãos, esposos e mães de Jesus Cristo, com a ação específica do Espírito Santo. O espírito do Senhor, encarnado humanamente no nosso ser “homo spiritualis”, permite-nos viver como filhos do Pai celestial e familiares de Cristo, na união do Espírito Santo.

Possuir o espírito do Senhor (ou ser possuído ou habitado pelo espírito do Senhor) implica mais ainda: implica em fazer as obras (a vontade) do Pai, dar à luz a Cristo através de santa operação. Todo o viver do “homo spiritualis” é “viver espiritualmente”, e todas as suas atitudes são “espirituais”, porque ele possui habitualmente o “espírito do Senhor”. Portanto, o espírito do Senhor constitui não somente o ser do “homo spiritualis”, mas também o seu agir, o seu viver e o seu comportar-se.

5. O espírito do Senhor e o espírito da carne

“Por isso, vamos nós, irmãos todos, acautelar-nos de toda vanglória e soberba. Guardemo-nos da sabedoria deste mundo e da prudência da carne. Pois o espírito da carne tem grande interesse em fazer muito em palavras e pouco em obras, nem procura a piedade e santidade interior do espírito, mas antes visa e deseja uma piedade e santidade que apareça por fora diante dos homens. E é de tais que diz o Senhor: Em verdade vos digo que estes já receberam sua recompensa” (Mt 6,2). O espírito do Senhor, porém, exige que a nossa carne seja mortificada e desprezada, vil, abjeta e desprezível; e ele procura a humildade e a paciência e a pura, simples e verdadeira paz do espírito; e acima de tudo deseja sempre o temor de Deus, a sabedoria de Deus e o divino amor do Pai, do Filho e do Espírito Santo”(18).

Para Francisco, na linha paulina de Rm 8,5-8, o espírito do Senhor em seu santo modo de operar, isto é, no seu agir, opõe-se ao “espírito da carne”. O presente texto em estudo apresenta esta oposição. Para uma melhor compreensão desta oposição, convém lançar um breve olhar sobre a expressão “espírito da carne”.

Os termos “carne” (“corpo”) e “mundo” (“século”) nos Escritos de São Francisco não indicam sempre a realidade visível e física. Indicam freqüentemente a realidade inimiga de Deus. Também no Evangelho de S. João se encontram os dois sentidos para estes termos. “Carne” e “mundo”, na segunda frase do texto, são empregados para indicar esta realidade contrária aos desígnios de Deus. E em outra passagem, porque são inimigos de Deus, Francisco os considera verdadeiros inimigos do homem:

“Reparai, ó cegos, iludidos por nossos inimigos – isto é, pela carne, pelo mundo e pelo demônio – que é agradável ao corpo praticar o pecado, e amargo servir a Deus”(19).

Embora indiquem a realidade inimiga de Deus e dos homens, “mundo” e “carne” não podem ser tomados como sinônimos. Expressões como “irmão carnal”, “viver carnalmente”, “caminhar carnalmente”(20) (Francisco, de fato, não usa nunca expressões como “irmão mundano” ou “viver, andar mundanamente”) fazem pensar que “carne” pretende sublinhar o aspecto pessoal da realidade inimiga de Deus, enquanto “mundo” significa a estrutura ou conjunto de circunstâncias exteriores que constituem a realidade inimiga de Deus. Esta distinção entre “mundo” e “carne”, por exemplo, se pode entrever no seguinte texto:

“Mas todos aqueles que não vivem em penitência … e servem corporalmente o mundo com desejos carnais … sao cegos…”(21).

A expressão “servir o mundo” sugere que “mundo” seja uma realidade exterior ao homem; “corporalmente” e “com desejos carnais” são expressões que indicam antes a atitude pessoal ou interior com que o homem serve o mundo inimigo de Deus.

Em outro lugar, Francisco considera o corpo (aí sinônimo de “carne”) como o inimigo mais próximo do homem:

“Há muitos que, pecando ou recebendo alguma injúria, costumam lançar a culpa sobre o inimigo ou sobre o próximo. Mas assim não é na realidade, porquanto cada um tem sob seu domínio o inimigo, isto é, o próprio corpo, por meio do qual ele peca”.

Francisco chama o operar o pecado ou o agir da carne (realidade inimiga de Deus) de “espírito da carne”. A partir do conceito de “espírito da carne”, ele concebe o “homo carnalis” (homem carnal). Sinteticamente, ele descreve em que consiste o “homo carnalis”:

“Mas todos aqueles que não vivem em espírito de penitência, nem recebem o corpo e o sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo, e que praticam vícios e cometem pecados, e que vivem segundo suas más concupiscências e desejos perversos, e que não cumprem o que prometeram e com seu corpo servem corporalmente o mundo com desejos carnais, cuidados e solicitudes deste mundo, ludibriados pelo demônio, cujos filhos são e cujas obras praticam: cegos são eles, porque não são capazes de enxergar a verdadeira luz, Nosso Senhor Jesus Cristo” (23).

O “homo carnalis” é aquele que “pratica vícios e comete pecados”; é aquele que “serve o mundo com seus desejos carnais”; este é chamado filho do demônio, porque faz as obras do demônio. O “homo carnalis” age e vive “carnaliter” (24). Ao praticar vícios e cometer pecados, o homem carnal encarna, no seu agir, o modo de agir do “espírito da carne”; assume as características do espírito da carne. O pecado, portanto, vem de dentro dele, não de fora: todos os vícios e pecados procedem do coração do homem (Mt 15,19) (25). É ele próprio o responsável pelo seu pecado e não um inimigo exterior. O “homo carnalis” está, deste modo, em irreconciliável oposição ao “homo spiritualis”.

A oposição entre “homo spiritualis” e “homo carnalis”, no entanto, não pode ser interpretada no sentido maniqueístico. Francisco, quando descreve o “homo spiritualis” e o “homo carnalis”, não tem a pretensão de dividir maniqueisticamente o mundo em homens espirituais de uma parte e homens carnais de outra parte. Para Francisco, cada homem é “homo spiritualis” e “homo carnalis”; é “homo spiritualis”, à medida que age e vive como filho de Deus, realizando as obras e a vontade do Pai; é “homo carnalis”, à medida que age e vive como filho do demônio, praticando vícios e pecados e realizando as obras do demônio.

Portanto, é no próprio homem que se concretiza a oposição “homo spiritualis” – “homo carnalis”; é no próprio interior do homem que se dá a oposição entre o espírito do Senhor e o espírito da carne como dois modos contraditórios de ser (26) (ser filho de Deus ou filho do demônio) e de agir (realizar as obras do Pai ou realizar as obras do demônio).

É digno de nota o fato que Francisco estabeleça uma conexão entre o agir e o ser. Fazer as obras do Pai é a manifestação concreta do ser filho do Pai; fazer as obras do demônio é a manifestação concreta do ser ou tornar-se filho do demônio.

No texto em estudo, ao “espírito da carne”, que opera o pecado, Francisco opõe a operação ou o modo de agir do “espírito do Senhor”. O texto mostra como se processa a operação do “espírito do Senhor”. A primeira operação é a de vencer o “espírito da carne”: “O espírito do Senhor quer que a carne seja mortificada e desprezada, vil e desprezível”. Depois que é vencido o “espírito da carne”, o “espírito do Senhor” torna o homem capaz de desejar as virtudes (humildade, paciência, etc.), que têm como ponto culminante o relacionamento de temor, de sabedoria e de amor para com a Trindade: “e acima de tudo deseja sempre o temor de Deus, a sabedoria de Deus e o divino amor do Pai, do Filho e do Espírito Santo”.

6. O Espírito do Senhor e seu santo modo de operar

“Entretanto, admoesto e exorto em Jesus Cristo, Nosso Senhor, que os irmãos se preservem de toda soberba, vanglória, inveja, avareza, cuidado e solicitude deste  mundo, detração e murmuração; e os que não têm estudos não os procurem adquirir, mas cuidem que, antes de tudo, devem desejar o espírito do Senhor e seu santo modo de operar: rezar sempre a Deus com coração puro; ser humilde e paciente nas perseguições e enfermidades; amar aqueles que nos perseguem, censuram e atacam” (27).

Esta admoestação contém duas partes distintas: a primeira, iniciada por “os irmãos se preservem”, descreve com toda clareza, mesmo se Francisco não o nomeie, o “espírito da carne” com as suas operações: soberba, vanglória, inveja, avareza, etc.; a segunda parte, iniciada por “cuidem que”, descreve o “espírito do Senhor” com as suas operações: rezar ao Senhor, ter humildade, paciência, etc.

Mas o que é importante neste texto não é tanto conhecer a lista das operações do “espírito do Senhor”, mas compreender o que quer significar ou sugerir a expressão “espírito do Senhor e seu santo modo de operar”.

A idéia de “operação” ligada ao “espírito do Senhor” não é casual, mas constitui o sentido mesmo da concepção do modo de agir do “espírito do Senhor”. O homem, possuído pelo espírito do Senhor, age segundo a maneira de agir de Deus. E este agir está sempre orientado para o bem. Trata-se de um agir que é fazer a obra do Pai celestial, conforme o segundo texto analisado neste estudo. É este espírito do Senhor, que se torna humano no homem, que permite a este fazer a obra do Pai.

Este modo de operar do “espírito do Senhor” não é, porém, uma vaga inspiração a alguma obra boa ou a um indefinido sentimento em direção ao bem; não se identifica também com um conceito abstrato de graça. O “espírito do Senhor” é presença habitual no homem do modo de ser, de pensar, de querer e de agir de Deus, presença que o identifica como filho do Pai celeste e como esposo, irmão e mãe de Jesus Cristo na união do Espírito Sant0 (28). Possuindo o “espírito do Senhor”, o homem, identificado como filho do Pai celeste, realiza também as obras do Pai; identificado como irmão de Cristo, como Cristo busca em tudo fazer a vontade do Pai celeste; e com a ação específica do Espírito Santo que une a alma fiel a Jesus Cristo, o homem que possui o “espírito do Senhor” se dispõe à “sancta operatio” (santo modo de operar), isto é, procura, como mãe de Cristo, trazer Cristo em sua vida e dá-lo à luz através de santo modo de operar (29).

Segundo nossa interpretação, encontram plena explicação na operação do “espírito do Senhor” as expressões “frater spiritualis” (irmão espiritual), “spiritualiter conversari” (conviver espiritualmente), “spiritualiter ambulare” (caminhar espiritualmente) e semelhantes (30). Quem possui o “espírito do Senhor” vai vencendo pouco a pouco o “espírito da carne” até tornar-se uma criatura nova, um “homo spiritualis”; quem possui o “espírito do Senhor” sente-se impulsionado a “viver (caminhar) espiritualmente”. Se este homem é um frade menor, o “espírito do Senhor” fará dele um irmão espiritual (“frater spiritualis”) capaz de amar os irmãos com amor maior do que o amor maternp (31) e de viver espiritualmente a vida religiosa (“spiritualiter conversari”) e de tratar os outros espiritualmente (“spiritualiter monere, spiritualiter honorare”, etc.).

Portanto, o agir do homem é santo modo de operar à medida que encarna o modo de agir do espírito do Senhor; assim, o santo modo de operar, que é uma característica do espírito do Senhor, se torna característica habitual do agir do homem espiritual.

7. Como se reconhece o espírito do Senhor

“Eis o meio de reconhecer se o servo de Deus tem o espírito do Senhor. Se Deus por meio dele operar algum bem, e sua carne não se exaltar por causa disso, pois a carne é sempre contrária a todo bem, mas antes considerar como mais insignificante e se julgar menor que todos os outros homens”(32).

Constata-se, no supracitado texto da décima segunda Admoestação, que o “espírito do Senhor” está ligado à idéia de reconhecimento de Deus como aquele que opera o bem. Para Francisco, é fundamental a imagem de Deus como origem e autor de todo bem. A oração e exortação ao louvor ao Deus Sumo Bem, que se encontra na Regra Não-bulada, afirma-o de maneira cristalina:

“Atribuamos ao Senhor Deus altíssimo todos os bens; reconheçamos que todos os bens são dele; demos-lhe graças por tudo, pois dele procedem todos os bens. E ele, o altíssimo e soberano, o único e verdadeiro Deus, os possua. E a ele se dêem, e ele receba toda honra e reverência, todo louvor e exaltação, toda ação de graças e toda a glória, ele de quem é todo o bem, e que só ele é bom”.

Citando o texto de Mt 19,17 (“só Deus é bom”), Francisco atribui a Deus a exclusividade no bem. Todos os bens são de Deus, procedem de Deus, têm Deus como autor. Esta exclusividade no bem se compara à exclusividade no amor que São João atribui a Deus. Para São João, Deus é amor, e onde há amor, Deus aí está. Para Francisco, Deus é o Sumo Bem, e onde há o bem, Deus aí está como origem e como autor.

Num trecho da mesma Regra Não-bulada, Francisco parece, à primeira vista, ter uma visão extremamente negativa do homem e negar-lhe qualquer possibilidade de fazer o bem. Seria esta uma maneira de expressar a exclusividade de Deus como origem e autor de todo bem? É necessária uma análise do texto antes de tirar esta conclusão. O texto é o que segue:

“E odiemos o nosso corpo com os seus vícios e pecados, porque, vivendo carnalmente, quer privar-nos assim do amor de Nosso Senhor Jesus Cristo e da vida eterna e consigo arrastar a todos para o inferno. Pois por nossa culpa somos asquerosos, míseros, e contrários ao bem, mas dispostos e prontos para o mal“(33).

Estaria o homem impedido de fazer o bem? Seria o homem, para Francisco, realmente um ser contrário ao bem?

As expressões “corpo com seus vícios e pecados” e “vivendo carnalmente” mostram, sem qualquer resquício de dúvida, que Francisco está pensando no espírito da carne. E o espírito da carne é esta realidade antagônica no homem que o induz ao pecado, que o conduz na direção oposta ao espírito do Senhor. O homem só é contrário ao bem, quando se deixa arrastar pelo espírito da carne. Não é contrário ao bem por impossibilidade de praticá-lo, mas é por própria culpa que o homem se torna contrário ao bem. Se fosse uma impossibilidade, não teriam qualquer sentido as inúmeras exortações aos frades e aos fiéis para fazerem o bem e para realizarem as obras do Pai celeste.

Voltando ao texto da décima segunda Admoestação, para Francisco, o espírito da carne é cheio de contradições. Este é contrário a todo o bem; e mesmo assim, procura gloriar-se pelo bem que não lhe pertence. Quem vive segundo o espírito da carne faz, desta maneira, uma indébita apropriação do bem que pertence a Deus.

Ao invés, quem possui o espírito do Senhor não se exalta, não atribui a si próprio ou ao seu próprio eu (34) o bem que Deus opera através dele, não se apropria do bem do Senhor, mas é humilde, reconhecendo-se desprezível e o menor dentre todos.

8. O espírito do Senhor e a possibilidade humana de fazer o bem 

“Por isso, é o espírito do Senhor, que habita nos fiéis, que recebe o santíssimo corpo e sangue do Senhor (cf. Jo 6,62). Todos aqueles que não participam do mesmo espírito e ousam recebê-lo, comem e bebem a sua condenação (1Cor 11,29)” (35).

Ao afirmar que é o espírito do Senhor que recebe o corpo e sangue do Cristo na eucaristia, Francisco, muito provavelmente, tem como substrato o texto da Carta de São Paulo aos Romanos: “o espírito intercede por nós com gemidos inefáveis” (8,26). Exatamente no mesmo capítulo, nos versículos 5-8, São Paulo mostra a oposição existente entre viver segundo a carne e viver segundo o espírito (36). Para ele, o viver segundo a carne é espírito de escravidão, enquanto o viver segundo o espírito é espírito de adoção: “Pois não recebestes um espírito de escravidão, para viverdes ainda no temor, mas recebestes o espírito de adoção pelo qual clamamos: Aba, Pai!” (Rm 8,15).

Francisco se move neste mesmo campo de idéias, ou seja, no campo da oposição entre o espírito da carne e o espírito do Senhor. Receber indignamente o corpo e sangue de Cristo significa uma obra do espírito da carne. Recebê-los dignamente significa o espírito do Senhor.

Entender o espírito do Senhor como uma realidade que não seja o próprio homem, por exemplo o Espírito Santo, implicaria num dualismo que não se encontra em Francisco. O dualismo consistiria nisso: não seria o homem a receber a eucaristia, mas o Espírito Santo; o homem receberia a condenação. Segundo este dualismo, o homem estaria impossibilitado de fazer o bem. Mas como Francisco não quer culpar o inimigo externo pelo pecado do homem, igualmente não quererá privar o homem da honra de receber a visita do Senhor na eucaristia. Outras exortações, na verdade, mostram que Francisco quer que os fiéisrecebam o corpo e sangue de Cristo, como se percebe no texto seguinte:

“E recebamos … o corpo e o sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo. Quem não comer a sua carne e não beber o seu sangue (cf. Jo 6,55.57) não pode entrar no reino de Deus (Jo 3,5). No entanto, que se coma e se beba dignamente, pois quem o recebe indignamente, come e bebe sua própria condenação”(37).

Este texto, tendo o homem como sujeito do verbo “receber”, mostra com toda a clareza que é o homem quem recebe o sacramento da eucaristia. Isto nos leva à conclusão de que, para Francisco, quando ele afirma que é o espírito do Senhor que recebe a eucaristia, ele pensa no homem que vive segundo o espírito do Senhor e não segundo o espírito da carne. O espírito do Senhor é a própria possibilidade que o homem tem de praticar o bem.

Conclusão

A leitura dos textos de Francisco que tratam do espírito do Senhor permitem que apontemos algumas breves conclusões. São conclusões simples, nada grandiosas; apenas, de alguma maneira, diferentes, porque consideradas sob uma ótica diferente.

Todos os textos examinados são passíveis de uma interpretação mais antropológica do que teológica. Esta afirmação não pretende jamais desmerecer nem diminuir a interpretação teológica; apenas, ao conceber o espírito do Senhor como uma realidade humana, coloca em relevo a excelência dada a essa realidade humana acima das demais criaturas, pois vê nela a imagem do Filho e a semelhança do próprio Deus.

O espírito do Senhor é compreendido como o modo de ser, de pensar, de querer, de sentir, de agir, de viver de Deus ou segundo Deus. Este modo de ser, de pensar, de agir, etc. torna-se realidade humana, encarnada na pessoa, e deve ser compreendido como um devir ou vir-a-ser, pois inclui uma tarefa, a de tornar-se sempre mais semelhança de Deus, reflexo da glória do Pai.

A vida de penitência tem como finalidade adquirir, ou melhor, ser possuído pelo espírito do Senhor, o que levará as pessoas a terem em mais plenitude a semelhança de Deus, a serem filhos do Pai celeste, irmãos, esposos e mães de Nosso Senhor Jesus Cristo, com a especial ação do Espírito Santo.

Quem é possuído pelo espírito do Senhor torna-se homem espiritual. A presença habitual do espírito do Senhor permite aos fiéis viverem espiritualmente, agirem sempre espiritualmente, conviverem espiritualmente. O homem só pode fazer o bem, possuindo o espírito do Senhor. O espírito do Senhor é concebido, portanto, como a possibilidade humana de alguém praticar o bem.

Ao espírito do Senhor, que visa sempre ao bem, opõe-se o espírito da carne que procura e deseja praticar os vícios e cometer pecados. O homem possuído pelo espírito da carne é o homem carnal, torna-se filho do demônio.

Por isso, nosso Pai São Francisco está constantemente exortando¬nos a “desejar possuir acima de tudo o espírito do Senhor e seu santo modo de operar”.

Bibliografia

1. Não existe nos escritos de Francisco a expressão “espírito do Senhor”que é muito comum nas cartas paulinas.
2. Cf RNB 22,22
3. Cf RNB 23,12
4. Cf. K. ESSER, L’Ordine di S. Francesco, Milão, Ed. Francescane Prov., 1965, p. 33-34; cf.E. GRAU, “Zur Authentizitat der ersten Admonitio des hl. Franziskus”, em Franziskanische Studien 52 (1970) 120-136, 134.
5. Cf. N. NGUYEN VAN KHANH, Le Christ dans ia pensée de S. François d’Assise d’apres ses Écrits, Paris, 1973 (Ms.), p. 153: “O ensinamento de Francisco é que, somente graças ao Espírito Santo, os fiéis podem ver o Senhor na Eucaristia e recebê-lo dignamente”.
6. OfP Ant 1-2.
7. Cf. S. VERHEY, Der Mensch unter der Herrschaft Gottes, Düsseldorf, Patmos, 1960, p. 66.
8. Cf. K. ESSER, L’Ordine di S. Francesco, p. 35: “Em cada seguidor de Cristo, como o entende Francisco, deve reinar um espírito verdadeiramente novo, aquele espírito que o Santo chamava de ‘spiritus Domini’ … Na via do seguimento incondicional de Cristo, na vitória sobre o espírito da carne, através de uma atitude tipicamente evangélica, o cristão chega a ser inteiramente possuído pelo espírito de Cristo.
9. Cf. O. van ASSELDONCK, “La santa operación deI espíritu del Señor”, em Selecciones de Franciscanismo 8 (1974) 212-218, 214.
10. Adm 5,1-2.
11. A Escola Franciscana posterior, na pessoa de João Duns Scotus, vai desenvolver de modo muito feliz a idéia da predestinação de Cristo. Se o Filho é modelo para a criação do homem, Cristo, o Filho encarnado, já devia estar predestinado antes da criação para ser o “primogênito de todas as criaturas” (cf. Cl1,15-16).
12. Santo Antônio, mais específico, vê nas três faculdades da alma a semelhança de Deus:
“Como o Pai é Deus, o Filho é Deus e o Espírito Santo é Deus, e no entanto não são três Deuses, mas um só Deus em três pessoas, do mesmo modo, a inteligência é alma, a vontade é alma e a memória é alma; não são três almas, mas uma só alma com três faculdades. Desta maneira, a alma tem em si, de modo admirável, a imagem de Deus” (23º Domingo de Pentecostes).
13. Adm 5,3.
14. Para Francisco, viver em penitência comporta todo um programa de vida cristã: amar e adorar a Deus sobre todas as coisas, amar o próximo como a si mesmo, participar e receber os sacramentos, abster-se dos vícios e pecados, ser obediente, humilde, etc.
15. 2CtFi 47-53
16. Tem-se no presente estudo, a clara consciência de que Francisco não usa literalmente a expressão “homo spiritualis” (homem espiritual); ele usa a expressão “frater spiritualis”(irmão espiritual); o emprego do conceito mais genérico “homo spiritualis” pretende aplicar-se ao homem possuído pelo “espírito do senhor”, como descrito no texto em estudo; tem-se, igualmente, a consciência de que o uso desta expressão mais genérica não trai o pensamento de Francisco.
17. Recorde-se que a tentativa deste estudo é de fazer uma leitura antropológica daquela realidade que Francisco chama de “espírito do senhor”; com este enfoque, não se nega absolutamente a possibilidade da inabitação do Espírito Santo na alma dos fiéis, segundo o texto de Paulo: “Não sabeis que vosso corpo é templo do Espírito Santo que habita em vós?” (1Cor 6,19). Apenas interpretamos o “espírito do Senhor” como uma realidade diversa do Espírito Santo.
18. RNB 17,10-16.
19. 2CtFi 69.
20. Cf. RNB 10,4; 5,4.5; 22,5; Frag I:3.
21. 2CtFi 63.65.66
22. Adm 10, 1-2
23. 2CtFi 63-66
24. Cf. “carnalis” (RNB 10,4; SdVi 13); “carnaliter vivere (ambulare)” (Frag I:3; RNB 5,4.5; 22,5).
25. 2CtFi 37; cf. 2CtFi 69; RNB 22,7-8.
26. Ser, neste contexto, deve ser entendido preferentemente como um devir, vir-a-ser.
27. RB 10,7-10.
28. Cf. 2CtFi 49-51; cf. 1CtFi 7-8.
29. Cf. 2CtFi 52-53; cf. 1CtFi 1,9-10.
30. Note-se que às expressões “frater carnalis” e “carnaliter ambulare (vivere)” correspondem em oposição as expressões: “frater spiritualis” (cf. RB 6,8), “spiritualiter ambulare” (RNB 5,4.5); “spiritualiter conversari” (RNB 16,5; Frag I: 36; Frag II:25); “spiritualiter se revidere et honorare” (RNB 7,15; Frag I:69; Frag II:15); “spiritualiter adiuvare” (RNB 5,8; Frag II:5); “spiritualiter monere” (RNB 4,2); “spiritualiter vitam (regulam) observare” (RB 10,6; Frag II:8); são expressões que indicam atitudes concretas ou o modo concreto de ser do homem que tem (possui) o espírito do Senhor.
31. Cf. RB 6,8.
32. Adm 12.
33. RNB 22,5-7
34. K. Esser interpreta o espírito da carne como “o próprio eu”; de fato, muitas vezes o termo “carne” nos escritos de Francisco pode ser traduzido por esta expressão da psicologia moderna; cf. K. ESSE R, L’Ordine di San Francesco … , p. 33-34.
35. Adm 1,13-14.
36. Esta é uma idéia que recorre mais vezes nas cartas paulinas; em Gl 5,16-26, ele enumera os frutos da carne e os frutos do espírito; em Ef 4,22-24 e Cl 3,9-10, ele fala em termos de homem velho e homem novo.
37. 2CtFi 22-24

Espírito Santo segundo o Dicionário Franciscano

Sem dúvida alguma espírito é uma das palavras-chaves da espiritualidade franciscana. Sua importância se revela já pelo fato de ocorrer 120 vezes nos escritos do santo. Um aspecto característico do termo – como de toda palavra-chave – é que parece exprimir toda a espiritualidade de Francisco, que se reflete na própria particularidade do termo. A linguagem exprime assim uma profunda intuição do santo a respeito das virtudes: “Quem possui uma não ofende as outras”. (SdVt 6). O motivo profundo de tal unificação interior deverá talvez aparecer claro no final de nosso estudo.

1. Análise textual: a) Deus é Espírito, por isso tudo aquilo que é de Deus (até a eucaristia e as virtudes infusas) só pode ser visto, percebido unicamente por meio do Espírito, como declara Francisco na Adm 1.5; b) como Espírito Santo, terceira pessoa da Santíssima Trindade, aparece mais  vezes em contextos trinitários, no qual a obra da salvação é considerada comum às três Pessoas:- é próprio do Espírito ser autor de todo bem  e virtude; c) é por obra sua que Deus fixa morada na alma fiel; d) visto como E. de Nosso Senhor Jesus Cristo que habita os corações, faz com que se reconheça a proveniência de todo bem de Deus, dispõe a viver as suas santas obras, é desejável acima de qualquer outra coisa.

e) Existem expressões características de Francisco “na caridade do espírito”, “em obediência ao Espírito”, “a pobreza do Espírito”, “a vida do Espírito”, “a sabedoria do Espírito”; nelas a atenção é colocada naquele que é a fonte destas e de todas as virtudes e dons; ressaltando-se, portanto, a natureza da graça nestas atitudes; – outras expressões designam assim o servo de Deus e seguidor de Cristo que é, como ele, transformado pela ação divina e gratuita do Espírito, de posse da verdadeira sabedoria e vencedor da sabedoria da carne.

f) Com relação ao estudo e anúncio da Escritura, Francisco adverte quanto ao perigo da “letra” que mata, e que se busque e se siga “o Espírito da letra divina”, que significa também, neste contexto, deixar-se iluminar somente pelo E., que é o seu autor.
g) Várias vezes Francisco declara que as palavras de Cristo são “espírito e vida”, e, assim, também as “suas” palavras ou as dos teólogos; exprime com isso a sua certeza de que todos aqueles que recebem no Espírito a palavra divina são vivificados por Deus.

h) Muitas vezes Francisco lembra o sentido oposto, o “espírito (sabedoria) da carne” e o “Espírito do Senhor”, que distingue os “penitentes” daqueles que “não fazem penitência”.

i) O fruto do Espírito, que deve ser desejado acima de qualquer outra coisa, é a atitude de “adorar a Deus em espírito e verdade”, “com pureza de coração e de mente”, porque Deus é espírito.

_ A palavra “espírito” qualifica outros tantos aspectos da experiência franciscana: Francisco diz que o homem é criado à semelhança de Deus no Espírito, Deus forma os seus eleitos com o espírito de arrependimento: tanto no trabalho, como na pregação e na contemplação deve-se cuidar para não se  extinguir o espírito da santa oração e devoção; deve-se desejar e buscar acima de qualquer coisa o Espírito do Senhor e o seu santo modo de  operar;  na oração, voz e espírito devem estar em consonância; – Todas estas expressões indicam uma relação sobrenatural com Deus.

j) E assim toda vez que aparece a palavra espiritual: amigos, irmãos e irmãs, amor entre irmãos espirituais, é no seu sentido do Espírito que é criador da fraternidade; – advérbio espiritualmente tem o mesmo significado, com mais evidëncia quando aparece contraposto a “viver carnalmente”, e é assim que a Regra deve ser entendida.

l) Francisco, nas suas orações marianas, coloca Maria num contexto trinitário bem
específico e como “esposa do Espírito Santo” mas também como ponto de partida da Igreja na graça das virtudes e dons que o Espírito Santo infunde nos corações; – ressalta a maternidade espiritual mariana na Igreja e na Ordem em relação a Cristo, que todo “fiel” pode gerar por obra do Esposo, o Espírito Santo; e indica como ministro da Ordem o Espírito Santo e como “paráclita”, advogada, Maria, enquanto esposa do mesmo.

2. Síntese doutrinal – De uma ampla análise emergem estes pontos teológicos: a) Francisco teve uma intuição profunda, mística de Deus Trindade como Espírito que dá vida; – b) a vida de Deus, no seio da Trindade, assim como também no mistério da salvação, é interpessoal; – c) e é uma vida sempre presente; – d) e age sempre em íntima união; – e) por causa desta concepção trinitária ocorre que nem sempre se entende bem a qual pessoa Francisco se refere quando usa as palavras Espírito ou Senhor; – f) mas a missão do Espírito aparece fundamental na atuação da vida cristã em sua íntegra; g) para Francisco a fonte única de todo bem, também no homem é somente Deus que, operando em nós, nos torna filhos, esposos, irmãos e mães; h) uma relevância especial é dada a Maria-Igreja em relação ao Espírito; i) entre as virtudes que Francisco considera infusas sobressaem-se como palavras-chaves: penitencia, pobreza, obediência, caridade, vida evangélica apostólica, seguimento de Cristo.

j) Fica claro que se pode atribuir ao Espírito um valor vital-central e unificante na espiritualidade franciscana: que Francisco parece sintetizar com a expressão possuir o Espírito do Senhor e o seu santo modo de operar”; por isso afirma que quem possui uma virtude possui todas, porque é o Espírito do Senhor o inspirador de toda a virtude.

3) Momento histórico e atual – É freqüente o uso desta palavra e adjetivos derivados na história franciscana, principalmente nos momentos de renovação, e,  também na secular discussão acerca da interpretação da Regra. Para os  “espirituais”, como Clareano, a observância espiritual é exatamente a literal; a história se  desenvolveu em torno de duas interpretações: uma escrita, ligada às declarações pontifícias, e a outra que aceita também as dispensas pontifícias; – entre essas duas interpretações se encaixaram, ao longo dos séculos, os vários movimentos de  reforma, em nome de uma leitura simples da Regra, mais como experiência genuína pessoal do que como mentalidade legalística;
e é o horizonte no qual se situam hoje as várias famílias franciscanas.

4) Momentos do Espírito na experiência das origens – É a ação do Espírito que faz dos frades “irmãos espirituais”, unindo-os num laço de amor mais profundo do que o próprio amor materno, pois é ele o “ministro geral da Ordem” e repousa igualmente sobre ricos e pobres, doutos e simples; e conduz os simples e os pequenos, como foi o caso de Francisco, ao conhecimento dos mistérios de Deus, nisto consiste a verdadeira  sabedoria; – é o princípio dinâmico da vida da fraternidade; ele vivifica aqueles que na Palavra de Deus não buscam a “letra” e a autopromoção, mas uma luz para clarear o seu caminho e o dos outros, isto é, as santas obras; os frades devem deixar-se conduzir pela sua ação; – Francisco presta atenção especial à ação do Espírito, vive-a até o total despojamento de si; – a obediência ao Espírito torna os frades humildes, pacientes, alegres nas tribulações, verdadeiros servos de Deus e de todas as criaturas, e transforma o amor humano em ágape.

– No período da conversão, Francisco se deixa instruir pelo Espírito e opta pelas coisas amargas, que lhe são transformadas em doçura, e também Clara aprende dele esta mesma atitude de penitência; Francisco e Clara atribuem diretamente à inspiração divina a sua vocação ao seguimento de Cristo, segundo a forma do Evangelho; Francisco ressalta que só recebe dignamente a salvação e o corpo e sangue do Senhor aquele que o enxerga com os olhos do Espírito, na fé e no Espírito que habita  nos fiéis; a busca do Espírito do Senhor, que é vontade de conversão, é o fundamento da CtFl, e por isso animação interior do Memoriale propositi, e também da  nova Regra da OFS; aquele que acolheu como graça o seguimento de Cristo, e torna-se totalmente disponível à ação do Espírito; e, se torna espiritual”, pronto para refutar o “espírito da carne” e para conformar-se em tudo ao Senhor; e para tratar a si mesmo e aos outros com “discrição”, que é sabedoria e misericórdia; Francisco destaca a necessidade de “renascer”da água e do Espírito”que é anunciada “aos sarracenos”, quando assim o sugerir o Espírito aos seus frades missionários.

– Francisco chama Maria de “esposa do Espírito”, um título novo na tradição mariana; mas aplica este título também às clarissas e a todos os fiéis; por obra do Espírito, Maria é “consagrada”, é “virgem feita igreja”, tabernáculo e palácio do Senhor; e entra numa relação singular com a Trindade; e por isso Francisco, confiando-se ao patrocínio dela, quer imitar-lhe a vontade de acolhida, para  conceber e gerar Cristo em si e nos homens. Assim, também a alma fiel entre em relação esponsal com o Espírito, que, com a sua presença e ação, lhe confere fecundidade e  maternidade espiritual na Igreja e pela Igreja, participante da maternidade de Maria.; dom do Espírito ao mundo é também Francisco que, investido de sua força, se torna salvação, esperança e norma de vida segundo o Espírito, imagem de Cristo; inserido vitalmente no quadro da história da salvação, como ressaltam os hagiógrafos.

Dicionário Franciscano, Espírito Santo, espírito, espiritual – verbete 204-215

Pentecostes segundo o Catecismo da Igreja Católica

37.1 Pentecostes dia da efusão do Espírito Santo

§696 O fogo. Enquanto a água significa o nascimento e a fecundidade da Vida dada no Espírito Santo o fogo simboliza a energia transformadora dos atos do Espírito Santo O profeta Elias, que “surgiu como um fogo cuja palavra queimava como uma tocha” (Eclo 48,1), por sua oração atrai o fogo do céu sobre o sacrifício do monte Carmelo, figura do fogo do Espírito Santo que transforma o que toca. João Batista, que caminha diante do Senhor com o espírito e o poder de Elias” (Lc 1,17), anuncia o Cristo como aquele que “batizará com o Espírito Santo e com o fogo” (Lc 3,16), esse Espírito do qual Jesus dirá “Vim trazer fogo à terra, e quanto desejaria que já estivesse acesso (Lc 12,49). É sob a forma de línguas “que se diriam de fogo” o Espírito Santo pousa sobre os discípulos na manhã de Pentecostes e os enche de Si. A tradição espiritual manterá este simbolismo do fogo como um dos mais expressivos da ação do Espírito Santo Não extingais o Espírito” (1Ts 5,19).

§731 No dia de Pentecostes (no fim das sete semanas pascais), a Páscoa de Cristo se realiza na efusão do Espírito Santo, que é manifestado, dado e comunicado como Pessoa Divina: de sua plenitude, Cristo, Senhor, derrama em profusão o Espírito.

§1287 Ora, esta plenitude do Espírito não devia ser apenas a do Messias; devia ser comunicada a todo o povo messiânico. Por várias vezes Cristo prometeu esta efusão do Espírito, promessa que realizou primeiramente no dia da Páscoa. e em seguida, de maneira mais marcante, no dia de Pentecostes. Repletos do Espírito Santo, os Apóstolos começam a proclamar “as maravilhas de Deus” (At 2,11), e Pedro começa a declarar que esta efusão do Espírito é o sinal dos tempos messiânicos. Os que então creram na pregação apostólica e que se fizeram batizar também receberam o dom do Espírito Santo

§2623 NO TEMPO DA IGREJA

No dia de Pentecostes, o Espírito da promessa foi derramado sobre os discípulos, “reunidos no mesmo lugar” (At 2,1), esperando-o, “todos unânimes, perseverando na oração” (At 1,14). O Espírito, que ensina a Igreja e lhe recorda tudo o que Jesus disse, vai também formá-la para a vida de oração.

P.37.2 Pentecostes dia da manifestação pública de Jesus

§767 “Terminada a obra que o Pai havia confiado ao Filho para realizará na terra, foi enviado o Espírito Santo no dia de Pentecostes para santificar a Igreja permanentemente.” Foi então que “a Igreja se manifestou publicamente diante da multidão e começou a difusão do Evangelho com a pregação”. Por ser “convocação” de todos os homens para a salvação, a Igreja é, por sua própria natureza, missionária enviada por Cristo a todos os povos para fazer deles discípulos.

§1076 A ECONOMIA SACRAMENTAL No dia de Pentecostes, pela efusão do Espírito Santo, a Igreja é manifestada ao mundo. O dom do Espírito inaugura um tempo novo na “dispensação do mistério”: o tempo da Igreja, durante o qual Cristo manifesta, toma presente e comunica sua obra de salvação pela liturgia de sua Igreja, “até que ele venha” (1 Cor 11,26). Durante este tempo da Igreja, Cristo vive e age em sua Igreja e com ela de forma nova, própria deste tempo novo. Age pelos sacramentos; é isto que a Tradição comum do Oriente e do Ocidente chama de “economia sacramental”; esta consiste na comunicação (ou “dispensação”) dos frutos do Mistério Pascal de Cristo na celebração da liturgia “sacramental” da Igreja. Por isso, importa ilustrar primeiro esta “dispensação sacramental” (Capítulo I). Assim aparecerão com mais clareza a natureza e os aspectos essenciais da celebração litúrgica (Capítulo II.).

P.37.3 Pentecostes dia da plena revelação da Trindade

§732 Nesse dia é revelada plenamente a Santíssima Trindade. A partir desse dia, o Reino anunciado por Cristo está aberto aos que crêem nele; na humildade da carne e na fé, eles participam já da comunhão da Santíssima Trindade. Por sua vinda e ela não cessa, o Espírito Santo faz o mundo entrar nos “últimos tempos”, o tempo da Igreja, o Reino já recebido em herança, mas ainda não consumado:

Vimos a verdadeira Luz, recebemos o Espírito celeste, encontramos a verdadeira fé: adoramos a Trindade indivisível, pois foi ela quem nos salvou.

Preces ao Espírito Santo

DOM DO ESPÍRITO

Pai que dás o Espírito,
jamais recusas o Espírito Santo aos que te pedem;
porque és o primeiro a desejar que o recebamos.

Concede-nos este dom que resume e contém todos os outros,
este dom em que encerras todos os segredos
de teu amor, toda a generosidade de teus benefícios.

Este dom que é o próprio dom
de teu coração paternal, no qual te entregas a nós.

Este dom que nos traz tua vida mais íntima
para nos fazer viver dela,
este dom destinado a ampliar nosso coração
nas dimensões universais do teu,
este dom capaz de nos transformar de ponta a ponta,
de nos curar de nossas fraquezas e de nos divinizar.

Este dom de tua energia onipotente, indispensável
ao cumprimento da missão que nos confias,
este dom de tua felicidade, no fervor de amar,
pois que no Espírito nos vem ao mesmo tempo
o dom da alegria e a alegria da doação.

Senhor, que difundes o Espírito,
de teu seio correm fontes de água viva,
efusão do Espírito.

A glória da tua Ressurreição
é a irradiação do Espírito Santo
que se apoderou de toda a tua natureza humana,
e a glória da tua Ascensão é o poder que tens
de difundir o Espírito Santo no universo
para dele fazer teu Reino.

Todo o fruto de teu sacrifício redentor
consiste no dom do Espírito, que nos traz
o perdão dos pecados e a graça da filiação divina.

Cumula-nos deste Espírito para nos comunicar
toda a força de tua santidade e de teu amor.

Faze-o penetrar no íntimo de nós mesmos,
para que ele possa purificar-nos, espiritualizar-nos
e inflamar-nos.

Por teu Espírito, imprime em nossa alma
tua semelhança e forma-nos em tua mentalidade.

Por teu Espírito, comunica-nos tua doutrina
e faze-nos viver a totalidade do Evangelho.

Difunde teu Espírito com abundância
para que ele possa envolver-nos,
tomar-nos totalmente na sua caridade.

ESPÍRITO SANTO

Contemplar-te, é mergulhar o olhar no invisível,
em pleno mistério de Deus.

Não tens um semblante de Evangelho como o
Cristo, nem uma face de Pai; mesmo renunciando
a te imaginar um rosto, queremos aderir a ti
com todas as nossas forças.

Não tens um semblante porque és o fogo do amor
que reúne os semblantes do Pai e do Filho,
para não formar senão um só numa sublime fusão.
Vives nos semblantes de outrem,
como sua vida mais secreta,
e és tu que nos revelas o autêntico semblante do
Salvador, bem como o do Pai Celeste.
És abismo de profundidade, recôndito inexpugnável
e inexprimível, impossível de se representar
em traços delimitados.

Tu és o sopro que emana do Pai e do Filho
e que vem animar nosso espírito,
formar-nos uma feição espiritual.
Tu és a respiração de nossa alma,
o pensamento de nosso pensamento,
o impulso de nossa vontade, a força de nosso amor.

Tu és a vida divina que vem nos fazer viver o Cristo,
que invade nosso ser para transfigurá-lo.
Tu nos ultrapassas infinitamente e no entanto,
és tão íntimo a nós;
não resides num longínquo abstrato,
mas no concreto palpitante de nossa existência.
Contemplar-te, é deixar-nos tomar pela torrente
de um amor que transborda e se apossa de toda
a nossa pessoa humana.

VIRGEM MARIA, TEMPLO DO ESPÍRITO SANTO

Tu acolheste o Espírito Santo
com a alma plenamente aberta;

tu o acolheste pela fé,
crendo na sua maravilhosa ação em teu seio;

tu o acolheste pelo abandono de teu ser,
entregando-te ao seu poder de amor;

tu o acolheste por uma colaboração ativa com ele
no amor da Encarnação redentora:

tu jamais deixaste de acolhê-lo durante tua vida,
escutando sua voz misteriosa
e seguindo suas sugestões.

Ensina-nos a recebê-lo com a mesma disposição
com que tu o acolheste.

Ajuda-nos a escutá-lo no segredo de nosso coração,
a acolher suas indicações e seus conselhos.

Mostra-nos o caminho da docilidade
a seu ensinamento, da cooperação na sua obra.

Como tu, quereríamos receber a plenitude do
Espírito Santo, nada perder de sua vinda a nós.

Estimula nosso desejo de aceitar tudo o que ele
nos quer dar, e comunica-nos tua alegria
em tudo deixar tomar pelo Espírito Santo,
de tudo deixar invadir pelo seu amor.

ESPÍRITO SANTO, NOSSO GUIA

Guia íntimo, tu não nos indicas somente
o exterior da vontade divina;
tu a traduzes para nós em um esclarecimento interior;
Ajuda-nos a acolher plenamente tuas diretivas.

Guia vigilante, tu nos inspiras a cada instante
o que devemos pensar e fazer: ensina-nos a responder
dócil e alegremente a todas as tuas sugestões.

Guia clarividente, tu nos conduzes segundo
o grandioso desígnio de Deus,
e organizas os detalhes de nossa existência
em função de largos horizontes: faze-nos aceitar
ser ultrapassados por tua sabedoria
e seguir simplesmente o caminho que nos traças.

Guia seguro e infalível, tu não podes errar
e nos engajas sempre numa rota ideal:
estimula nossa confiança em abandonar-nos
serenamente às tuas orientações.

Guia benévolo, consideras nossas fraquezas e
procuras fazer-nos reparar os nossos passos em
falso: faze-nos retomar coragem nos fracassos
apoiando-nos sobre tua solicitude amorosa.

Guia respeitador da nossa pessoa,
queres promover todas as nossas qualidades
pessoais e desabrochá-las:
incessantemente apelas para nossa liberdade
e responsabilidade: torna-nos mais dignos
da confiança que nos testemunhas.

Guia audacioso, desejas para nós uma vida maior
feita à medida de Deus: faze-nos entrar na tua
audácia para um desabrochamento do divino em nós.

ESPÍRITO DE UNIDADE

Tu em quem o Pai e o Filho são um,
faze que sejamos um como eles e neles.
Tu que exprimes a unidade da família divina,
vem assegurar a unidade da comunidade humana.

Desenvolve em todos os homens,
e mais especialmente entre os cristãos,
o desejo da unidade, e torna este desejo mais eficaz.

Reúne cada vez mais a humanidade na unidade
da verdade por uma melhor acolhida da Revelação
e pelo desenvolvimento de uma mesma fé.

Une os homens numa caridade mais sincera,
num respeito mútuo e numa colaboração mais generosa.
Afirma em nós a vontade de superar as desavenças,
e evitar a violência, os conflitos,
a opressão ou a exploração dos fracos.

Multiplica os contatos entre aqueles que
são separados pelo muro do ódio e da
desconfiança, e favorece uma estima recíproca
onde dominam o desacato e o desprezo.

Dispõe-nos a grandes esforços pessoais
em vista da unidade;
arranca-nos a nossos preconceitos malévolos
e abre-nos mais largamente à compreensão do outro.

Faze-nos descobrir mais claramente
as possibilidades e meios de união;
incita-nos a estimular as aproximações e as amizades.

Ajuda-nos a consentir em todos os sacrifícios
para uma unidade mais profunda de pensamentos
e de corações em torno de nós.
Do Livro “Preces ao Espírito Santo”, de J. Galot, S.J., Edições Paulinas/1981

ORAÇÃO À TRINDADE

“Eterno Deus onipotente,
justo e misericordioso,
concedei-nos a nós míseros
praticar por vossa causa
o que reconhecermos ser a vossa vontade
e querer sempre o que vos agrade,
a fim de que,
interiormente purificados, iluminados e abrasados
pelo fogo do Espírito Santo,
possamos seguir as pegadas de vosso Filho,
Nosso Senhor Jesus Cristo,
e por vossa graça unicamente
chegar até vós,
ó Altíssimo,
que em Trindade perfeita e Unidade simples
viveis e reinais na glória
como Deus onipotente
por toda a eternidade”
São Francisco de Assis – Carta a toda Ordem, 50-52

O Espírito, plenitude de todos os seres

Para o Espírito Santo se voltam
Aqueles que têm necessidade de santificação.
Para Ele se eleva o desejo
Dos que vivem procurando o bem
E estão como que refrescados pelo Seu sopro.
Ele é capaz de levar os homens à plenitude,

Pois ele próprio é plenitude.
Ele está em toda a parte,
Ele nos ilumina para descobrirmos a verdade.
Inacessível por natureza,
Ele se deixa compreender pela bondade.
Ele tudo enche,
está totalmente presente em cada ser.
Para Ele se elevam os corações,
os fracos são levados pela mão,
os que caminham ficam repletos.
É Ele que ilumina.
Basílio de Cesaréia, Século V

Celebração Franciscana - “A Trindade, Francisco e a Nova Criação”

1. Preparação do ambiente
(Bíblia, imagem de São Francisco, elemento da natureza, flores e três velas, de preferência. E, se possível, o ícone da SS. Trindade de André  Rublev; este ícone foi pintado no início do século XV, em honra de São Sérgio de Radonesh, outro monge do século XIV, que tinha o seguinte lema, que pode ser colocado em um cartaz para a meditação de todos: “Vamos vencer a crueldade do mundo com a contemplação da SS. Trindade”)

2. Acolhida
(Canto à escolha)
(Dar boas vindas aos irmãos e irmãs)
(Fazer memória dos grandes fatos que fazem parte das comemorações e festividades, em especial da FFB)
Dirigente: Que alegria estarmos juntos como irmãos e irmãs. Estamos vivenciando com grande júbilo e ação de graças esta grande festividade litúrgica. Queremos celebrar a fé no Deus Trindade e comunhão de amor, que em Francisco se revelou sobremaneira e continuamente como Deus que é Pai, Filho e Espírito Santo; Uno e Trino, “o mais desejável que qualquer outro bem”(Ct 50,52).
Todos: “Creiamos verdadeiramente e humildemente…/ enaltecemos e rendamos graças ao Altíssimo e Sumo Deus, Trino e Uno, Pai, Filho e Espírito Santo”(1Rg 23,27-34)

 3 – Momento penitencial
Dirigente: (Deverá motivar um momento de contemplação junto ao ícone da SS. Trindade ou, caso não tenha, junto às três velas; em atitude de entrega e reconciliação por nem sempre sermos fiéis a esta comunhão de doação e amor).
Todos: “Considera, querido irmão e irmã, / a que excelência te elevou o Senhor/ criando-te/ e formando-te segundo o corpo/ à imagem do seu dileto Filho/ e, segundo o Espírito,/ à sua própria semelhança. Entretanto, as criaturas todas estão debaixo do céu,/ a seu modo,/ servem e conhecem ao seu Criador melhor do que tu” (Adm 5,1-2).

4 – Oração de louvor
Canto à escolha ou canta-se o Cântico das Criaturas, podendo-se intercalar com fatos de nossa história pessoal ou de toda a humanidade em que o nosso Deus Trindade se revela. Pode-se usar velas, para que, na medida em que se narra os fatos, cada um receba a sua vela, acesa na vela do altar que esteja junto ao ícone da Trindade, simbolizando o amor trinitário encarnado em nossa história.

5 – A Palavra de Deus Trindade para nossa vida
(Neste momento, cada irmão com sua vela acesa para a escuta da Palavra:
Sugestões: Is 42,1-4.6-7; 61, 1-3; Rm 8, 1-17; Sl 62 (61); 62 (62); Lc 4, 14-21; 3, 15-16.21-22;
Silêncio – Reflexão – Partilha – Canto a escolher)

6 – Proposta
(Propõe-se ao dirigente criar meios que ajudem os participantes a se envolverem na relação do texto. Favorecer a integração entre a proposta evangélica, a pessoa de Francisco e seu relacionamento de amor com a Trindade. Para a reflexão do mistério trinitário, recomendamos o texto de Dom Frei Valfredo Tepe, Nós somos um: retiro trinitário, Petrópolis, Vozes, 1997, p. 147)

7 – Compromisso
O que cada um levará de concreto para viver a partir do tema que refletimos e celebramos?

8 – Oração final
(Canto à escolha)

Pai Nosso….

ORAÇÃO À TRINDADE

“Eterno Deus onipotente,
justo e misericordioso,
concedei-nos a nós míseros
praticar por vossa causa
o que reconhecermos ser a vossa vontade
e querer sempre o que vos agrade,
a fim de que,
interiormente purificados, iluminados e abrasados
pelo fogo do Espírito Santo,
possamos seguir as pegadas de vosso Filho,
Nosso Senhor Jesus Cristo,
e por vossa graça unicamente
chegar até vós,
ó Altíssimo,
que em Trindade perfeita e Unidade simples
viveis e reinais na glória
como Deus onipotente
por toda a eternidade”

São Francisco de Assis – Carta a toda Ordem, 50-52

9 – Bênção de Santa Clara – Canto

Não sabemos bem para onde sopra esse vento impetuoso

Refletindo sobre o tema do Espírito Santo

A abundância de textos escriturísticos propostos mostra que a comunicação do Espírito de Deus aos homens é um dos temas maiores da Palavra de Deus. Ele a percorre do começo ao fim. Começa com o espírito de Deus que pairava sobre o caos inicial (Gn 1,1).  No final do Livro, Jesus, no alto da cruz “entrega o Espírito”. Pentecostes nada mais faz do que explicitar esse dom. Entre o Gênesis e Pentecostes, necessário lembrar a descrição de Babel. Lá vemos a megalomania levar à incompreensão, à divisão, enquanto que o único Espírito de Deus  faz com que possamos nos compreender cada um em sua língua, guardando as diferenças. Acrescentemos a travessia do Mar Vermelho. O Vento de Deus abre as águas da morte em vista de uma passagem para a vida. Deus sopra sobre o homem para que seja um ser vivo. Todas as imagens falam da vitória da vida sobre a morte, quer dizer, da salvação que só se realiza pela reconciliação de uma humanidade dividida.

Vida e movimento estão unidos. Mesmo as plantas provindas do  interior da terra começam a se esticar  (a partir dos ínferos)  até as alturas do céu. Em razão da mobilidade é que o Espírito de Vida aparece como  vento, pássaro ou chama que crepita.  Soberanamente móvel torna móvel tudo o que ele toca. “O vento sopra onde quer, e tu ouves a sua voz (a Palavra), mas não sabes de onde vem e para onde vai. Assim acontece com todo aquele que nasceu do Espírito” (Jo 3,8). Movimento, sempre movimento. Vemos Abraão deixar seu país, os profetas se colocarem a caminho, Maria correr na direção da casa de Isabel, Jesus visitado pelo  Espírito no batismo, partir para o deserto. Após a manhã de Pentecostes,  os apóstolos partem  para anunciar o Evangelho até as extremidades da terra.  Tal mobilidade  se manifesta em nosso relacionamento com  Deus:  colocamo-nos a caminho pelo  Espírito, avançamos sem parar. Mudam nossas maneiras de ver a Deus e a nós mesmos, nossos comportamentos se modificam, caminhos novos se abrem. Deus é inesgotável como nós também. Rumamos para um termo ignorado porque não sabemos para onde vai e onde nos leva esse espírito.  Não há que temer:  Deus nos leva para Deus,  para o grande Amor.

Marcel Domergue, SJ
Cahiers Croire,, n. 281, p. 57