Vida Cristã - Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil - OFM

“Economia e vida na casa da Bíblia”

07/05/2012

Frei Jacir de Freitas Faria (1)

Falar de economia (2) é falar da casa. Diz o ditado popular: “Quem casa quer casa!”. O substantivo casa vem do grego, oikos, e significa a casa do mundo e de cada ser humano no seu próprio corpo e no lugar onde ele habita. Oikos é a casa natal. Casa é invólucro de cada um de nós, a construção material onde ocorrem relações sociais e econômicas em função de uma família. Quanto melhor estiverem organizadas essas relações, melhor será a vida familiar. Os gregos, ao mencionar a casa, falam das relações econômicas domésticas, caseiras, que gerenciam a casa. E é daí que vem um outro termo grego,oikonomia, que significa a lei (nomos) que rege a casa (oikos), isto é, economia.

A Bíblia, ao falar da “Casa de Israel”, apresenta relações econômicas dentro e fora dela. A sua lógica é a de que Deus pede ao ser humano que administre a casa, o mundo, que Ele lhe ofereceu para dele ser o regente. “Crescei, multiplicai e regei a o mundo” (Gn 1,28). Ademais, Deus viu que tudo que ele fez era bom! (Gn 1,10), isto é, um bem, um valor que deve ser querido por todos, no cuidado, no uso e na sua aquisição. A questão não é considerar os bens negativamente, mas relacionar-se com eles de modo a gerar vida para todos. Falar da vida é falar de economia. Economia e vida na casa da Bíblia de ontem e de hoje, eis o desafio da reflexão que segue.

A casa da Bíblia acolhe a vida do início ao fim

A Bíblia como literatura é uma grande casa que acolhe judeus e cristãos. O seu organizador final, sem a preocupação com a datação dos livros, os dispôs de modo a apresentar a vida de modo inclusivo, a mesma ideia no início e no fim. Assim, a primeira casa do ser humano, segundo o primeiro livro da Bíblia, é o Paraíso Terrestre, com as suas árvores da vida e a do conhecimento do bem e do mal (Gn 2,9). (3) O último livro da Bíblia, o Apocalipse, a fecha, com a narrativa da Jerusalém Celeste, no contexto de um novo céu e de uma nova terra. Assim como no Gênesis, o Apocalipse tem uma árvore da vida no seu centro. Jerusalém, no fim da Bíblia, torna-se o símbolo da esperança perdida com a decisão do ser humano, simbolicamente representada por Adão e Eva, em aceitar a proposta da serpente de comer do fruto da árvore do bem e do mal. A serpente de Gênesis vence Deus na luta do ser humano em ter que optar entre o caminho da vida e o da morte. Sair do paraíso foi o mesmo que optar pelo caminho da morte, que a teologia chamou de pecado, a queda do paraíso. Contraditoriamente, a decisão do ser humano implicou em viver na liberdade de poder decidir. Parece que a vida no paraíso era muito monótona. Adão e Eva, protótipos de seres humanos, mas não reais, acabaram criando problema para Deus e para eles mesmos. Viver fora do paraíso tornou-se difícil. Com o suor do rosto, o ser humano passou a lutar pela sobrevivência. A terra fora do paraíso tem espinhos, precisa ser arada. Como releitura desse episódio da saída do paraíso, o Segundo Testamento (4) (ST), em Lc 22,44, narra que Jesus, antes de morrer, antes de voltar para o paraíso celeste, suou lágrimas de sangue sobre a terra de Jerusalém, no Getsemani, em uma profunda agonia. O sangue de Jesus devolveu a vida, a bênção, para a terra, outrora maldita (5). Adão e Eva, ao deixarem o paraíso das relações corpóreas integradas, tiveram que se dar ao labor de gerar filhos. O órgão genital masculino passou a ser um instrumento – em hebraico, kêli, e é usado para designar os substantivos instrumento e pênis -, que coloca a semente na terra aberta, o órgão genital feminino, para gerar a descendência. E quem não cumprisse esse sagrado mandamento seria maldito uma segunda vez. O homem gera a vida, daí também os substantivos fonte (ad) e pai (ab) terem a mesma raiz. A mulher foi culpada pela perda do paraíso. Para se lembrar disso, ela passou a ter as dores do parto. E toda vez que ela trabalhar para amassar o pão, o seu serviço será a memória da massa de terra, da qual foi feito o homem, que perdeu o paraíso por sua culpa. Esse transferir a culpa para a mulher perpetuou-se no judaísmo, passou para o cristianismo.

No centro da Bíblia estão os livros de Malaquias e Mateus, encerrando o Primeiro Testamento (PT) e iniciando o Segundo. Malaquias termina falando do profeta Elias e seu retorno eminente: “Eis que vos enviarei Elias, o profeta, antes que chegue o Dia de Javé, grande e terrível” (Ml 3,23-24). Elias, o profeta que foi para Deus em um carro de fogo, voltará para o grande julgamento. O Evangelho de Mateus inicia falando de Jesus, chamando-o de Filho de Davi, Abraão, e Messias enviado por Deus. Assim, Elias e Jesus, dois personagens ímpares do judaísmo e cristianismo, estão no centro da Bíblia. Os judeus sempre acreditaram que Elias voltará. Os judeus conterrâneos de Jesus chegaram a dizer que Jesus seria a encarnação de Elias. Para os cristãos, Jesus ressuscitado é o centro da fé. Já dizia São Paulo: “Em vão seria a nossa fé se Cristo não tivesse ressuscitado”. E foi Jesus mesmo que disse; “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida!” (Jo 14,6). Elias e Jesus são símbolos de vida.

Gn 1-11: o mundo é a casa que Deus deu a Israel para cuidar

Uma das páginas mais famosas da Bíblia, Gn 1-11, é o relato mítico da experiência de vida do ser humano em sua primeira casa, o Éden. Nele estamos todos nós. As más relações econômicas levaram o ser humano a viver a sina da saudade do paraíso perdido.

Quem lê as histórias de Adão e Eva se vê qual outro Adão e Eva. A frase: “Com sofrimento te nutrirás do solo todos os dias de tua vida.” (Gn 3,17c) é a explicação dada ao trabalho sofrido de homens e mulheres nos dias em que esse texto foi escrito e para as gerações futuras. É Deus mesmo que interfere no proceder humano, dando uma sentença condenatória. O paraíso, o Éden, sinal de vida integrada do ser humano com a natureza, torna-se distante do ser humano quando ele mesmo rompe as regras estabelecidas com o criador.

Na casa da Babilônia, o contramito

Quando a maioria dos mitos de Gn1-11 foi escrito, o povo de Israel se encontrava na Babilônia, fora de sua casa, sofrendo com as políticas econômicas do opressor. Chamemos a esses mitos de contramitos, pois eles foram escritos para contrapor, resistir aos mitos oficiais da Babilônia que justificavam a opressão.

O primeiro contramito, Gn 1,1-2,4ª, é a manifestação do poder de Deus por meio de sua palavra e de seu gesto gratuito de criar o ser humano. Ele começa narrando o ato criador de Deus e não a luta fratricida dos deuses babilônios do mito babilônico, Enuma Elîsh. A expressão: “E Deus disse” é carro chefe da narração bíblica. Ela aparece 10 vezes e relembra o Decálogo.  A palavra é usada para criar e expressa o poder não-violento do Deus de Israel, diferente dos deuses babilônicos que exigiam a ordem celeste na terrestre. Gênesis afirma que Deus dá aos animais, aves e répteis, as ervas como alimento (Gn 1,30). E ao ser humano, Ele dá as ervas, árvores e frutas que produzem semente, isto é, lhe dá também o encargo de produzir alimentos para o seu sustento (Gn 1,29). Essa afirmação é profundamente revolucionária: Deus cria o universo para a vida dos seres humanos e não para o bel-prazer dos deuses, como emEnûma Elish. O alimento é para o sustento da vida humana e não para dar lucro aos poderosos. Deus não espera em troca o tributo do ser humano, como no mito babilônico. Com isso, fica descartada a opressão do ser humano sobre o seu semelhante. Em nossos dias, a produção de alimentos está monopolizada por grupos detentores do mercado internacional, o que produz a fome mundial. Sabemos que o Brasil é considerado celeiro mundial, mas o nosso povo passa fome. Onde está o erro? Assim como nos tempos do Império Babilônico, a globalização atual quer ter o controle sobre quem produz e consome. Deus tem outros planos. É o que nos mostra o contramito de Gn 1,1-2,4ª.

O contramito de Gn afirma categoricamente: “E Deus disse: “Façamos o homem à nossa imagem e semelhança, que ele reja os peixes do mar, as aves do céu, os animais domésticos, todas as feras e todos os répteis que rastejam sobre a terra”. Rashi, um grande sábio judeu da idade média, ligou o verbo reger à imagem de semelhança e assim os interpretou: “imagem” significa “segundo o nosso (de Deus) modelo”. Já “semelhança” é o que devo adquirir. Imagem (modelo) de Deus todos nascemos, mas a semelhança deve ser conquistada. Alguém pode morrer sem nunca ter chegado a ser semelhante a Deus, isto é, não buscou ser co-criador com Ele. Nesse sentido, entende-se também “que ele domine”. O verbo dominar em hebraico (yrd) significa dominar e descer. Se o ser humano tem consciência de que é imagem de Deus, ele luta para viver em harmonia com as criaturas, caso contrário, elas o dominarão e ele descerá, tornar-se-á como animal, e será destruído pela natureza. O ser humano recebe a bênção divina para cuidar da criação. Deus não lhe concede o direito de dominar outros seres humanos, por isso não lhe dá os animais como sustento.

Em nossos dias, estamos vivendo um processo rápido de destruição da terra e do ser humano. Recente pesquisa descobriu que o ser homem começa a ficar impotente. A cada ano o homem deixa de produzir 2% a menos de espermatozóides. Um homem nascido na década de 50 produz 150 milhões de espermatozóides por mililitro, o da década de 70, 75 mililitro, e o da década de 90, somente 50 milhões. Quando chegarmos a 20 milhões, a fertilidade humana estará comprometida e aí será tarde demais. Pesquisadores chegaram à conclusão de que a causa dessa infertilidade, bem como a de cânceres de mama e de próstata, é a poluição da natureza. As substâncias químicas despejadas nos rios são consumidas pelos peixes, transformando-os em hermafroditas. O ser humano está sendo contaminado por produtos químicos armazenados nos plásticos, que envolvem os alimentos consumidos por ele, causando-lhe infertilidade e feminilização.

Guardar o sábado é ficar na casa da família ou de Deus

Gn 2,3 afirma que Deus abençoou o sétimo dia da criação, o santificou e nele descansou. O ser humano não é o ápice da criação, mas o dia de descanso. Esse sim, recebe uma bênção especial. O sábado, em hebraico shabat, é da mesma raiz do verbo shûba (sentar-se). O povo, na Babilônia, se lembrava daquilo que o Decálogo havia escrito como lei perpétua: “Guardarás o dia de sábado para santificá-lo, conforme ordenou Javé teu Deus” (Dt 5, 12). No decálogo o mandamento do sábado se divide em dois blocos simétricos, delineados por dois imperativos, um positivo e outro negativo: trabalharás e não farás. Positivo: trabalhar seis dias; fazer todo tipo de obra para recordar a escravidão. Negativo: não fazer nada no dia de sábado para recordar a libertação do Egito. A divisão da semana em seis dias mais um é recurso usado para conferir sacralidade ao sétimo. Seguindo o esquema do fazer e não fazer, a ordem é trabalhar seis dias e descansar um. Um ato está relacionado com o outro. O descanso não teria sentido sem o trabalho. Fazer o Sábado é o mesmo que celebrar o tempo, recordar recordação do evento fundador de Israel, a libertação do Egito. É Deus que faz desde sempre e para sempre. O pai de família é o responsável pelo cumprimento do Sábado. Ele deve tirar o jugo e não impô-lo. Sábado é dia de alegria e festa. A observância do Sábado é um ato simbólico. Ela expressa um valor absoluto. Repouso para filhos e servos, estrangeiros e animais, o que significa igualdade econômica.

No imaginário mitológico da comunidade que produziu Gn 1, 1-2,4ª, essa idéia tão revolucionária do sábado não podia ficar de fora. A humanidade, feita à imagem de Deus, é sagrada. Assim como Ele, ela precisa descansar, ficar em casa ou ir para a casa de Deus, a sinagoga, para rezar. Para os dirigentes babilônicos, não era necessário descansar. O povo precisava trabalhar muito para pagar os tributos a Marduk, no seu santuário, de modo que a estabilidade política e social fosse mantida. O ser humano, no mito babilônico, foi criado para servir aos deuses com o seu trabalho, de modo que os deuses se tornassem livres da árdua tarefa de trabalhar. A comunidade de Gn 1, 1,2,4ª sabia disso, e não foi por menos que resistiu diante do opressor: “Temos direito ao sagrado descanso semanal!”.

Dilúvio para reconstruir a casa do mundo

O mito do dilúvio de Gn 6, 5-9,17, colocado no centro de Gn1-11, é a sua mensagem principal. Deus intervém para recriar o mundo e seres humanos. O personagem principal do dilúvio é Noé, nome que significa protelar-se ou aquele que prolongou sua existência. Ele, miticamente, se contrapõe ao comportamento da maioria de seus contemporâneos, os quais supostamente eram injustos e falsos. Deus prometeu que o dilúvio não mais iria acontecer, pendurando no céu seu arco de guerra, o arco-íris, sinal visível da promessa divina de não destruição vindoura de seu povo, desde que o ser humano se re-humanize e re-habite a terra de forma harmônica. A terra maldita (Gn3,17b-19) pela violência humana volta a ser fecunda (Gn8,21; 9,20-211). Gn 6,5—9, 17 é a espiritualidade da reconstrução da casa, do paraíso terrestre. Enquanto isso não acontece, dilúvios, como o Tsunami, na Indonésia, continuarão acontecendo.

Babel é a “Casa-dos-grandes-deuses” da Babilônia

O contramito “Torre de Babel” (Gn 11,1-9) encerra Gn 1-11. A interpretação clássica desse texto fala do surgimento das línguas no mundo. Antes, todos se entendiam, mas quando o ser humano quis chegar ao céu com a sua torre enorme, isto é, quis dar um “golpe de estado” e assumir o poder divino, Deus interveio e confundiu as línguas. A questão principal não é a língua, mas a resistência ao mito da “Casa-dos-grandes-deuses da Babilônia”. O deus Marduk havia construído a sua casa no céu para manter a opressão da casa babilônica na terra. Gn 11,1-9 é o contramito da fundação da Casa de Babilônia. Ele tem como objetivo mostrar como os megas e injustos projetos humanos, presentes e futuros, serão sempre impedidos por Deus. Esse texto está no fim do bloco de Gn 1-11 para nos ensinar que a Babilônia, a poderosa construtora da torre, que exilou o povo de Judá e o dispersou pelo seu império, seria também dispersada por Deus.(5)Ela pagou (miticamente pagará) pelos males feitos contra o povo escolhido. Não foram as línguas dispersas (multiplicadas) em Gn 11, 1-9, mas os opressores babilônicos. Contrapondo à Gn 10, que conta a dispersão organizada, segundo línguas e descendência, dos filhos de Noé, Gn 11, 1-9 é o contramito da dispersão confusa e negativa dos construtores da grande torre. E era Deus mesmo querendo dizer: o mundo precisa se reorganizar segundo a justiça, sem opressão… Mas não estamos falando da queda das “Torres” de Nova York. Ou estamos falando? Curiosidade, a citação bíblica coincide com o dia, mês e ano desse ataque: 11 de setembro de 2001, Gn 11, 1-9.

Patriarcas e Matriarcas: a casa dos pais e mães da fé

Gn 1-11 termina com os mesmos problemas gerados com a perda da casa do paraíso: mal, sofrimento, morte, falta de harmonia entre ser humano e universo. Deus, então, de forma amorosa, envia os patriarcas e matriarcas: Abraão, Sara, Agar, Rebeca, Isaac, Jacó, Lia, Raquel, etc, para iniciar uma nova etapa na história da humanidade. Deus promete uma terra, uma família (casa) e uma bênção para Abraão (Gn 21,1-13).

A economia dos patriarcas e matriarcas se baseava na criação de ovelhas e cabras, carneiros e asnos. Esses animais forneciam os bens substanciais para a vida nômade: ali­mentos à base do leite; vestes de lã; tendas tecidas com o pelo típico das cabras negras do Oriente. Utensílios domésticos como odres, talhas, macas, etc. A terra era vista como propriedade coletiva do clã familiar. Os homens eram pastores, e as mulheres, domésticas. Os clãs chegaram a dominar algumas técnicas como: separar machos e fêmeas no rebanho, perfuração de poços, fabricação de tendas, uso do couro e da cerâmica. O comércio era baseado na troca de mercadorias com outros clãs ou aldeias. Não pagavam impostos. Foi para evitar pagar o tributo aos reis, e não se sujeitar às corveias nas cidades, que eles escolhiam viver nas estepes. Como consequência, tinham que abandonar em parte a agricultura que praticavam ao redor das cidades, buscando pastagens para seus rebanhos. Os patriarcas conseguiram estabelecer uma economia que mantinha o povo unido na fé no Deus dos pais, chamado de El. Assim, a história de Israel caminhou por muitos séculos, até chegar ao inevitável caminho do Egito, pois a fome assolava a região.

Egito: a casa do sofrimento 

Quando o povo de Deus foi para o Egito, tudo parecia muito bom. Jacó e sua família receberam as melhores terras do país. José, o filho ilustre, o Patriarca, salvou o povo de Deus. Sua política econômica fez com que os egípcios suportassem a fome que se abatera sobre o país. Mas não durou muito. José morreu e se instaurou a perseguição sobre os israelitas. Fome, trabalhos forçados e sofrimentos sem fim. Um salvador, um homem “tirado das águas”, como atesta o seu nome, Moisés, tornou-se o novo salvador. Criado no palácio do Faraó, Moisés não aceitou, por inspiração divina, o sofrimento do seu povo. Foragido por causa da morte de um soldado a qual a ele mesmo fora atribuída, Deus o chama, simbolicamente em uma sarça que ardia, mas não se consumia (Ex 3,7‑10; 6,2‑8). Moisés organizou o seu povo rumo à libertação do Egito. Pragas enviadas por Deus e a resistência do Faraó, que não queria perder a mão de obra, marcaram o início de um novo tempo para Israel. A passagem simbólica no mar Vermelho, o mar que se abriu, deixando para trás 430 anos de opressão (Ex 12,40) na mais poderosa economia de então, marcou um novo tempo: “Egito nunca mais!” A lembrança dessa época marcou a história do povo de Deus. Nos quarenta anos vagueando pelo deserto, o povo se reorganizou para retomar a terra da promessa. A saudade do Egito, a fome e a sede levaram o povo a se revoltar, a blasfemar contra Deus, que respondeu distribuindo pão para todos, chamado de maná (Ex 16,4-21), e este se transformou em símbolo da partilha dos bens. O dom do maná era para todos. Ele não podia ser recolhido além do necessário. Ninguém podia acumular, mas comer, partilhar e seguir a caminhada. O maná tornou-se um símbolo da economia que concede direitos iguais a todos. Em nossos dias, assistimos a uma desenfreada situação de consumo exagerado. O meu celular ainda serve, mas já foi ultrapassado por um outro modelo, com novos recursos que nem vou usar. As empresas se encarregam de propor a troca urgente, pois senão o seu cliente estará “fora da linha”, isto é, fora do padrão de consumo.

Outro fator importante no deserto é a parada no monte Sinai, marco do início de uma aliança de Deus, expresso no Decálogo.

Decálogo: para lembrar que “Eu te fiz sair da casa da escravidão”

A relação entre economia e vida aparece fortemente nos textos legislativos da Bíblia, a começar pelo Decálogo (Dt 5,6-21) e com desdobramentos nos códigos da Aliança, Deuteronômico e Levítico.
A introdução do Decálogo fala da relação de justiça entre Israel e Deus: “E sou o Senhor teu Deus, aquele que te fez sair da terra do Egito, da casa da escravidão.” (Dt 5,6). O Decálogo se rege por essa máxima: o Deus que tirou o povo da casa escravidão quer novas relações sociais e econômicas, baseadas na justiça e no reconhecimento desse seu ato libertador.

A primeira parte do decálogo (Dt 5,7-11), realizada na “casa de Deus”, o templo, mostra a relação entre Deus e o próximo. Deus pede para ser invocado como Deus de Israel.

A parte central (vv. 12-16), realizada na “casa da família”, é o centro, a parte mais importante e resumo de todo o Decálogo, estabelece as leis de “guardar o sábado e honrar pai e mãe”. O pai tem a função de fazer valer o sábado, dando possibilidade de descanso para todos. Igualdade econômica em um dia para lembrar a libertação da escravidão no Egito. Honrar pai e mãe, além de prescrever a obediência, estabelece a obrigação do filho de sustentar financeiramente os pais idosos, que voltam a ser filhos indefesos e pobres. Prover o sustento dos pais na velhice significa agir como Deus que sempre tem cuidado para com os pobres e necessitados. Por meio desses gestos, o ser humano se reconhece como objeto de dom: ele recebeu a vida, a liberdade e a palavra e, por outro lado, se afirma como sujeito de dom: ele dá ao outro: pais, aquilo que ele recebeu. A justiça aparece como afirmação e promoção do outro. Esses mandamentos, guardar o sábado e honrar pai e mãe são centrais, pois neles a vida é possível somente se é doada e reconhecida como dom. O simbolismo maior é o dar a vida. Jesus, ao ter como lugar privilegiado de sua ação pastoral a casa, retoma a essência dos mandamentos centrais do Decálogo.

Os mandamentos da terceira parte realizam-se na “porta da cidade”, a entrada da casa-cidade, e estão relacionados com o próximo. Literariamente, eles estão demarcados pelo “e não”. Fica proibido matar, cometer adultério, roubar, dar falso testemunho, desejar a mulher, casa e pertences do próximo. Ninguém pode nem mesmo desejar os bens do próximo. A questão não é ter um boi e desejar outro, mas ter a consciência de que o segundo boi é a vida do próximo.

As leis dos códigos garantem a vida

A defesa da vida expressa no Decálogo ganhou corpo em vários códigos, sendo a ampliação dessas dez leis em centenas de outras. O Código da Aliança (Ex 21,22—23, 19) tem um caráter social. Ele foi renovado e transformou-se no núcleo central do atual Código Deuteronômico (Dt 12-26). Várias passagens dos livros de Êxodo e Deuteronômio exigem a defesa dos mais fracos: órfãos, viúvas, escravos, emigrantes e levitas (Dt 23,25-26; Ex 22,21; Ex 21,1-10.26-27; Ex 23,12; Dt 15,13-15; Dt 23,16-17; Ex 22,20; Dt 24,19-21). Da mesma forma, textos que insistem no exercício da justiça nos tribunais (Ex 23, 1-9; Dt 16,18-20), não cobrança de  juros dos pobres (Ex 22,24; Dt 23,20-21); devolver o manto ao pobre, tomado como penhor, antes do pôr do sol (Ex 22,25); não tomar a roupa da viúva como penhor (Dt 24,17); remissão de dívidas a cada sete anos (Dt 15,1-11). O salário do pobre deverá ser justo (Dt 24,14). O comerciante deverá agir com justeza. Nada de dois pesos e duas medidas (Dt 25,13-15). Assim, a lei quer garantir a vida.

O tempo dos juízes: bonança e partilha dos bens na casa das tribos

A passagem pelo deserto serviu para o povo repensar o seu projeto de vida. Liderados por Josué, pois Moisés havia morrido antes mesmo de chegar, eles tomam Canaã e põem em prática relações sociais e econômicas para garantir a vida e contra o acúmulo de riquezas. Utilizando-se de vários critérios, a terra foi divida para as tribos, os descendentes de Jacó e seus agregados, aqueles outros povos oprimidos que se uniram ao grupo. Foram escolhidos, dentre o povo, juízes para questões internas e externas. Os bens produzidos eram distribuídos para todos, de modo que ninguém passasse necessidades. Faziam até festas para partilhar o excedente. A economia era, de fato, solidária. Não havia propriedade privada, nem comércio, mas trocas internas de produtos. As tribos israelitas produziam cereais e frutas. Criavam animais, como ovelhas, cabras e jumentos. Além disso, praticavam o artesanato, confeccionando utensílios de madeira, vasilhas de barro e tecidos. O livro de Juízes, que trata do período tribal, não nos fornece muitos detalhes sobre essa organização econômica, mas podemos encontrá-la em Js 13-21; Lv 25; Ex 16, 17-20 e Js 7.

O período tribal foi, na verdade, uma fase de buscas e principalmente de construção da identidade do povo de Deus, que acabara de sair da exploração do Egito. Cansados de sofrer e de serem explorados, grupos excluídos se uniram para fundar uma nova sociedade, diferente dos modelos que eles conheciam, baseados na hierarquia de classes, no culto a ídolos distantes e na legitimação da economia injusta. Para garantir a vida e o não retorno ao Egito, lugar da morte, Israel viveu, em torno de duzentos anos, uma vida igualitária. Pena que eles mesmos não conseguiram manter o sonho. Findo esse período, nasce a monarquia. O poder passa a ser centralizado e o povo, explorado. O sonho parece ter acabado. Os profetas e profetisas surgem na história de Israel para alimentar a esperança de novos tempos.

Profetismo: o que roubastes do pobre está em vossas casas 

As relações econômicas na Bíblia aparecem nos tributos cobrados (1Sm8), que poderiam ser substituídos pela corveia (trabalhos forçados) ou serviços prestados ao estado. O rei Salomão cobrava impostos religiosos, chamados de dízimo. Nessa relação econômica, os profetas e profetisas bíblicos(2)(6) são os porta-vozes dos pobres na denúncia contra a economia mal dividida. Os tributos religiosos serão duramente criticados (Am 4,4). “Ai do que constrói sua casa sem justiça e seus aposentos sem direito; que faz trabalhar seu próximo de graça e não lhe paga o salário!”, denunciou Jeremias.
Em ordem decrescente, o que os profetas mais denunciam são: injustiça nos tribunais, comércio, escravidão, latifúndio, salário, tributos e impostos, roubo, assassinatos, garantias e empréstimos, luxo (7). Por mais estranho que pareça, é o poder legislativo que recebe mais denúncias por parte dos profetas. Os acusados alternam entre juízes, legisladores, reis e seus funcionários. Os que sofrem a má administração da justiça fazem parte do tripé, tão caro na defesa profética: pobres, viúvas e órfãos. Os pobres da Casa de Israel não eram respeitados. Isaías dirá: “Fostes vós que devorastes a vinha, o que roubastes do pobre está em vossas casas. Com que direito esmagais o meu povo e calcais aos pés o rosto dos pobres?” (Is 3,14-15). Aos pobres é negado até mesmo o direito de reivindicar a justiça. A lei passa a defender a classe dirigente, a qual garante, com isso, os direitos e bens adquiridos à custa do sofrimento dos pobres. Qualquer semelhança com os nossos dias é mera coincidência. A questão da apropriação indevida das terras, com consequente criação de latifúndios é denunciada por Isaías e Miqueias, sendo que este último chega a propor uma reforma agrária. Na cabeça do profeta está uma ordem: Deus é justo e o povo se afastou Dele. O povo rompeu a Aliança com Deus. Desse modo, a estrutura da sociedade ficou fraca, tornando-se presa fácil para os dominadores. Por isso, o povo de Deus viveu o drama de vários exílios, sendo o maior e mais conhecido o da Babilônia (587 a 538 a. C.). Os reis da monarquia de Israel e de Judá, que deviam zelar pelo povo, não o faziam. Faltou coerência entre a vida e o culto. O culto deixou de ser expressão de honestidade, mas um covil de ladrões (Jr 7,1-15; Mt 21,12-13). Nesse sentido, veja a beleza literária da denúncia feita por Amós 2, 6-16. Uma peregrinação ao santuário é totalmente desvirtuada pelos ricos que vendem o pobre por um par de sandálias… Nesse quadro, o profeta apela para o “dia de Javé”. A pedagogia era aquela de fazer o povo se endireitar através do medo. Não é por menos que outros textos como Is 33, 14-16; Sl 15 e 16, descrevendo uma verdadeira liturgia de acesso ao templo, afirmam que quem poderá aproximar-se de Deus é somente o justo, aquele que fala o que é reto, despreza o ganho explorador, recusa aceitar o suborno. A denúncia profética parte da convicção de que o Deus-Javé, que libertou Israel do Egito, que fez uma aliança no Sinai, que acompanhou o povo pelo deserto, que o fez entrar na terra prometida, é um Deus Justo, que quer uma economia que defenda o pobre, o órfão e a viúva: “Ai daqueles que promulgam leis injustas, que redigem medidas maliciosas, para tapear o fraco na justiça, roubar o direito de meu povo explorado, para fazer viúvas suas vítimas e roubar dos órfãos.” (Is 10,1-2).  Quem age assim nem é preciso dirigir-se a Deus com as suas orações, pois Ele não lhe fará caso (Is 1, 15-18).

Conclusão: Jesus é o profeta que leva a salvação para a casa de Zaqueu

Embora tenha reivindicado para si, só de forma indireta, o título de profeta (Lc 13,13), Jesus foi o profeta por excelência, a síntese de toda ação profética. A sua denúncia à situação de injustiça econômica, buscando uma nova ordem nas relações com os bens, apareceu em várias de suas declarações públicas, como: “Não ajunteis tesouros aqui na terra, onde a traça e a ferrugem destroem e os ladrões assaltam e roubam. Ao contrário, juntai para vós tesouros no céu… (Mt 6,19). “Onde estiver o vosso tesouro, aí estará também o vosso coração” (Mt 6,21). E ainda: “Ninguém pode servir a dois senhores: ou vai odiar o primeiro e amar o outro ou vai aderir ao primeiro e desprezar o outro. Não podeis servir a Deus e ao dinheiro!” (Mt 6,24). Jesus nos chama a colocar o nosso coração, tesouro, os bens, em Deus, que nos ensina a viver a partilha, a solidariedade com os pobres em um outro mundo possível. Foi esse o ensinamento que ele deixou para Zaqueu, o rico cobrador de impostos de Jericó, que primeiro vê Jesus do alto de árvore e depois o convida para ir a sua casa. Zaqueu se converteu e prometeu a Jesus que repartiria metade de seus bens com os pobres e, se tivesse prejudicado alguém, iria lhe restituir em dobro. Os primeiros cristãos, bem cedo, compreenderam essa proposta de economia solidária que gera a vida. Eles procuram demonstrar isso na distribuição dos bens (At 2,44-45). Quando o império romano perseguiu os cristãos, foi essa visão de economia que os sustentou e os manteve unidos na fé em Jesus ressuscitado. Diante das graves epidemias de varíola, no ano 165, e a de sarampo, em 250, que assolou o império, causando mortandade entre crianças e adultos romanos, o número dos cristãos, por outro lado, permaneceu em maior escala devido à solidariedade e assistência fraternal entre eles. Assim, o cristianismo cresceu.

Jesus não teve dúvida de que Zaqueu compreendera a sua proposta de vida, por isso disse categoricamente: “hoje a salvação entrou nessa casa” (Lc 19,1-10). Hoje, salvação e casa, um advérbio e dois substantivos que revelam o sonho acalentado por cristãos, mas também por todos aqueles que acreditam no Deus da vida, numa sociedade igualitária de paz, justiça e fraternidade universal, assim como nos propõe a Campanha da Fraternidade deste ano. Continuemos a acalentar e procurar, com nossas atitudes, a realização dessas eternas promessas do mestre Jesus, da casa de Nazaré.

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(1) Padre franciscano, escritor, mestre em Ciências Bíblicas pelo Pontifício Instituto Bíblico, de Roma, especialista em evangelhos apócrifos, professor de exegese bíblica no Instituto Santo Tomás de Aquino – ISTA, em Belo Horizonte e em cursos de Teologia para leigos. Autor de vários livros e artigos. Diretor Geral e Pedagógico dos Colégios Santo Antônio e Frei Orlando, ambos em Belo Horizonte. www.bibliaeapocrifos.com.br

(2) Artigo publicado na revista Vida Pastoral, 271, São Paulo: Paulus, 2010, p. 3-10.

(3)
 Cf. FARIA, Jacir de Freitas, Apócrifos aberrantes, complementares e cristianismos alternativos – Poder e heresias! Introdução crítica e histórica aos apócrifos do Segundo Testament. Petrópolis: Vozes, 2009, p.12-14.

(4) Usamos as terminologias Primeiro e Segundo Testamentos por razões ecumênicas realtivas aos judeus. 

(5) Cf. FARIA, Jacir de Freitas. A releitura da Torá em Jesus. RIBLA, 40. Petrópolis: Vozes, 2001, p.18.

(6) Cf. CROATTO, José Severino Croatto. Exlio y sobrevivencia.Tradiciones contraculturales en el Pentateuco, Lumen: Buenos Aires, p.353-393, 1997.

(7) Para um estudo dos profetas e profetisas nas história de Israel, veja o nosso livro: Profetas e profetisas na Bíblia: história e teologia profética na denúncia, solução, esperança,perdão e nova aliança. São Paulo: Paulinas, 2006.

(8) Cf. J. L. SICRE, Profetismo em Israel , O profeta. Os profetas. A mensagem, Petrópolis 1996, 367.

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