Vida Cristã - Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil - OFM

Deus, amor e pecado – é tudo diferente do que dizem os conservadores

24/10/2016

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Eduardo Cunha, quando ainda era parlamentar e presidente da Câmara, rezando com outros deputados.

Mauro Lopes (*)

Neste 30º domingo do Tempo Comum (23), cristãos católicos escutam nas missas ou rezam na Liturgia da Palavra do dia mais um trecho do evangelho de Lucas. É um texto conhecido, a parábola do fariseu e do publicano rezando no templo de Jerusalém, contada por Jesus. É bem curta, vale a pena reproduzi-la para ajudar na meditação a seguir. Trata-se de Lucas 18,9-14:

Contou ainda esta parábola para alguns que, convencidos de serem justos, desprezam os outros: “Dois homens subiram ao Templo para rezar: um era fariseu, o outro cobrador de impostos. O fariseu, de pé, rezava assim em seu íntimo: ‘Ó Deus, eu te dou graças porque não sou como os outros homens, ladrões, injustos, adúlteros, nem como este cobrador de impostos. Eu jejuo duas vezes por semana, e dou o dízimo de toda a minha renda’. O cobrador de impostos, porém, ficou à distância, e nem se atrevia a levantar os olhos para o céu; mas batia no peito, dizendo: `Meu Deus, tem piedade de mim que sou pecador!’ Eu vos digo: este último voltou para casa justificado, o outro não. Pois quem se exalta será humilhado, e quem se humilha será exaltado.”

Nesta brevíssima parábola estão apresentados alguns dos temas cruciais do cristianismo e das relações humanas. Começo pelo que me parece o mais central.

O amor. O centro perdido e encontrado do cristianismo.

O que está mais próximo do que poderíamos chamar de uma definição de Deus em todas as Escrituras aparece duas vezes na primeira carta de João: “Deus é amor” (1Jo 4, 8.16). Nada mais. Tudo está aí.

Deus é amor.

O quanto esta ideia, este conceito, este norte esteve perdido –e ainda hoje aparece apenas às margens, no “escondimento”, apesar dos esforços atuais do Papa e de alguns outros líderes religiosos do tempo presente de recolocá-lo sob a luz.

Deus é amor. No entanto, foram séculos sobre séculos de uma “apresentação” de Deus pela hierarquia da Igreja como um o Grande Culpabilizador, o Moralizador, aquele que estabelece sua relação com a humanidade baseada numa dinâmica de castigo-inferno, terror e vigilância. Serviu-se a gerações as projeções dos medos, ressentimentos, raivas, culpas, inseguranças dos próprios líderes religiosos como imagem de Deus. Escrevi que foram séculos e séculos, mas o tema é terrivelmente presente, com o avanço dos neopentecostalistas e seus co-irmãos na Igreja Católica em todo o mundo e no Brasil, opositores mais ou menos declarados de Francisco.

Ainda hoje somos tributários “da versão ingênua, cruel e legalista do pecado original” que busca aprisionar as pessoas à “visão da existência humana concreta como duro castigo por uma falta que ninguém cometeu”.[1]

Isso não significa tapar os olhos a um aspecto nodal da condição humana: a culpa –porque esta é a questão subjacente a toda a discussão sobre o cristianismo e o pecado. Há uma interpretação equivocada trazida ao senso comum, especialmente depois da disseminação das formulações de Freud e Nietzche, segundo a qual a culpa seria uma criação da “civilização judaico-cristã” que nos teria aprisionado em dinâmicas perversas.

Teólogos que se qualificam como pós-freudianos (portanto, pós-nistezchenianos) e que consideram o aporte de ambos como valiosíssimo para a humanidade em geral e para o cristianismo em particular, apontam a culpa como processo constitutivo do ser humano, precedente a qualquer dimensão religiosa:

“Tudo começou onde ninguém se lembra. A culpa constitui uma das experiências humanas mais antigas, arcaicas e primitivas de todas as que possam nos acompanhar. Surge em nós como filha da ambivalência afetiva, isto é, como fruto do binômio amor e ódio que preside nossa existência desde seus primórdios; antes mesmo que aflorasse em nós o mínimo germe de moral ou de religião.

Antes da proibição e da lei, antes de todo o conhecimento do bem e do mal, já existia sentimento de culpa. Uma culpa que não é fruto, portanto, de nenhuma transgressão; uma culpa que carrega o nome da autodestruição e da morte. Conhece-nos desde o dia do nosso nascimento.”[2]

Somos todos assim, seres partidos entre pulsões de vida e de morte. A “libertação de Deus” que o ateu realiza não o faz necessariamente menos mergulhado em suas contradições que o religioso, ou mais “puro” e efetivamente mais livre do que aquele que acredita. Isso não quer dizer contestar Freud quando aponta o papel potencializador dos processos da culpa pela Igreja ao longo de sua história: “a culpa foi, com seu caráter inconsciente, invadindo, colorindo, deformando e muitas vezes pervertendo a experiência cristã.”[3]

Carregamos cada um e cada uma nossas culpas. Tratamo-las na análise, em processos de autoconhecimento, em experiências religiosas carregadas de significado ou apenas as carregamos de maneira mais ou menos inconsciente como angústia, aperto, raivas, ódios, ressentimentos.

E o que é o pecado? Trata-se, numa breve definição de Queiruga de “uma categoria religiosa que não se apoia unicamente em si mesma, visto que constitui um modo de interpretar e viver uma experiência humana radical que diz respeito à pessoa inteira, independentemente de ser ou não crente: a experiência da culpa”.[4]

A questão na parábola proposta pela Igreja hoje é: como esta culpa, tornada pecado pela experiência religiosa, foi trabalhada pelo fariseu e pelo cobrador de impostos?

Ora, sequer foi considerada pelo fariseu, que tratou apenas de vangloriar-se e apontar o dedo para o cobrador de impostos (uma categoria social de fato rejeitada pelos judeus em geral à época de Jesus). O outro, no entanto, “nem se atrevia a levantar os olhos para o céu; mas batia no peito, dizendo: `Meu Deus, tem piedade de mim que sou pecador!’”.

Mas que é o pecado ou o que é o pecador na espiritualidade judaica? A palavra grega que define pecado é harmatia e o “pecador” é harmartôloi (hataîms em hebraico). Refere-se a erro, falta. Os pecadores são os faltosos ou, na concepção tipicamente judaica –sobre a qual Jesus operava– os que “faltam” à vida de acordo com as prescrições da Torá. Portanto, uma concepção muito menos moralizante que aquela desenvolvida posteriormente.

E qual é o núcleo desta “falta”, o pecado? Abraham Heschel (1907-1972), um dos mais importantes teólogos judeus do século 20, ligado às correntes mais humanistas do judaísmo, afirma que “na Bíblia, a insensibilidade é a raiz do pecado.”[5]

É este o tema de Jesus na parábola, mas a história não é apresentada como uma exposição sobre o pecado e sim sobre aqueles “que, convencidos de serem justos, desprezam os outros”. Jesus nos remete exatamente ao tema da insensibilidade, sobre o fechamento.

O fariseu é apresentado como homem fechado, ensimesmado, que jacta-se de si mesmo, numa apreciação narcísica de si próprio –o conceito de narcisismo foi introduzido por Freud na teoria psicanalítica em 1905, mas já havia sido utilizado na psiquiatria por Havelock Ellis quase dez anos antes.

Na parábola, em nenhum momento Jesus aponta o dedo para o cobrador de impostos, não o acusa de nada, não o recrimina. O pecado que nos é apresentado é o do ensimesmamento.

A percepção dessa dimensão do pecado –e não daquela de fundo moralizador divulgada amplamente por segmentos do catolicismo e do protestantismo– foi condensada numa expressão bela do Compêndio da Doutrina Social  da Igreja, de 2004: “A consequência do pecado, enquanto ato de separação de Deus, é precisamente a alienação, isto é, a ruptura do homem não só com Deus, como também consigo mesmo, com os demais homens e com o mundo circunstante”.

O cobrador de impostos foi embora, segundo Jesus, “justificado” (restaurado, salvo). Pois rompeu com seu fechamento: abriu-se. A questão não era a relação de Deus com o homem, pois Ele de nada o acusava; mas a relação do homem com Deus, consigo mesmo, com os demais e com o planeta. O homem foi embora salvo sem que para isso tivesse precisado ouvir o perdão de Deus ou passar por uma cerimônia com o sacerdote: salvou-se porque rompeu o lacre de seu fechamento e, ao assim fazer, reconectou-se com o melhor de sua humanidade.

É o começo do caminho. No próximo domingo, o 31º, ouviremos o passo seguinte à abertura: a conversão (a mudança de caminho). Na história de um baixinho que, ao abrir-se, começa a jornada do despojamento –Zaqueu.

* * *

As narrativas do ódio no Brasil desta segunda década do século 21 caminham lado a lado com o a lógica do fariseu da parábola.

Permito-me uma reflexão a partir de uma experiência bem pessoal. Minha atividade profissional como editor de mídias sociais na CartaCapital obriga-me a ler os comentários sobre as reportagens postadas nas distintas redes. Não consigo acostumar-me, mesmo com a repetição incessante do padrão de agressões. Há dezenas, centenas, milhares de pessoas que escrevem palavras violência desmedida. Nem os filtros que colocamos, para impedir a publicação de palavrões escabrosos conseguem fazer frente à enorme onda raivosa.

É desejo de ferir e massacrar; de maneira recorrente, desejo explícito de morte contra aqueles que essas pessoas consideram seus inimigos. Racismo explícito, misoginia, desprezo pelos pobres; invocações de tortura e morte dirigidas a pessoas que já estão submetidas ao inferno das prisões; sentenças de mutilação e mortes contra crianças pobres de apenas 10 anos de idade.

Vez por outra visito os perfis dessas pessoas, para tentar entender, buscar alguma explicação, lógica, sentido. Na imensa maioria dos casos as pessoas desfilam em seus perfis fotos “doces” com crianças, desfiam um sem-número de frases “edificantes”, e postam uma série de expressões com “Deus” pra lá e “Deus” pra cá. São, na expressão da língua inglesa, common people (gente comum).

A figura do fariseu evoca essas pessoas. Gente comum. Com suas famílias, vida, amigos, empregos, casamentos, enterros e festas. Gente comum que sustentou a ascensão do nazismo na Alemanha, do fascismo na Itália, da ditadura no Brasil –o tema é bastante estudado na história, na sociologia, antropologia e filosofia, e Eichmann em Jerusalém  – Um relato sobre a banalidade do mal, de Hanna Arendt (1963) é definitivo quanto a isso.

Pessoas para que o outro é “um nada”, “um zé ninguém”.  O outro é sempre desprezível, descartável. Vivemos imersos globalmente e de maneira aguda no Brasil, na “cultura do descarte” denunciada pelo Papa Francisco recorrentemente. O outro pode ser um pobre, um negro, um assaltante, uma mulher ou o planeta. Uma cultura que “afeta tanto os seres humanos excluídos como as coisas que se convertem rapidamente em lixo”, como escreveu Francisco no tópico 22 de sua encíclica Laudato Si’ sobre o planeta. Eles e elas apresentam-se como pessoas bondosas, “de bem”, puros, obedientes à lei.

Como o fariseu, escorregam para uma visão judicializada da vida. Procuram o Ministério Público, recorrem ao Judiciário a todo tempo, não porque busquem justiça –mesmo porque o Judiciário não é lugar de justiça- mas porque anseiam ver seus inimigos esmagados. Basta ver o que aconteceu esses dias com a Universidade Federal do ABC (UFABC). A direção da Universidade prestou apoio a uma estudante que ficou cega por causa de uma bomba que lhe foi lançada pela Polícia Militar: enviou um carro para buscar os pais da moça que viajaram de Minas Gerais para São Paulo para visitar a filha; mobilizaram uma psicóloga e uma enfermeira para socorrê-la.

Resultado: um grupo denominado de “UFABC livre” entrou com uma representação no Ministério Público Federal contra auxílios a Universidade sob a alegação uso indevido de recursos públicos. A propósito do nome “UFABC livre”: -os fascistas sempre usam palavras do patrimônio universal da humanidade, como liberdade, democracia e outras para conspurcá-las invertendo seu sentido.

Para essas pessoas, como para o fariseu, o outro, o inimigo (ou os ladrões, injustos, adúlteros, nas palavras exatas do fariseu, e os pobres, aderentes ao Bolsa Família, beneficiados pelos programas de cotas, sem terra e sem teto, nas palavras dos neofascistas)  não merecem compaixão, mas a “a lei”.

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[1] Queiruga, Andrés Torres, Recuperar a Salvação –por uma interpretação libertadora da experiência cristã”, Paulus, São Paulo, 2005, p. 30-31 e “Recuperar a Criação –por uma religião humanizadora”, Paulus, São Paulo, 2003, p. 262-263

[2] Morano, Carlos Dominguez, Crer depois de Freud, Edições Loyola, São Paulo, 2014, p. 144

[3] Morano, idem, p. 151

[4] Queiruga, Recuperar a Criação (…), p. 243.

[5] Herschel, Abraham Josua, Deus em busca do homem, Editora Arx, São Paulo, 2006, p.75

 

(*) Mauro Lopes é jornalista de formação e se destacou durante a cobertura da Assembleia Constituinte (1987/88) pelo jornal “Folha de S. Paulo”, onde trabalhou por sete anos como repórter especial, redator e secretário da Redação em Brasília. Ele também é conhecido pelo seu trabalho de comentarista na TV Gazeta e na Rádio Eldorado. Ele é Ministro da Palavra numa comunidade em Paraisópolis (SP).

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