
*artigo publicado no site da CNBB
Cardeal Jaime Spengler
Arcebispo de Porto Alegre (RS)
As mudanças climáticas apresentam desafios que dizem respeito a toda a sociedade. Já não é possível limitar-se a administrar a crise por meio de medidas paliativas. Não estamos simplesmente diante de uma questão ambiental, frequentemente marcada por disputas políticas e implicações econômicas, mas diante de uma realidade que toca a própria condição de sobrevivência do planeta e, consequentemente, da vida humana que nele se desenvolve. Há quem afirme, com razão, que não há mais tempo a perder.
A degradação ambiental destrói ecossistemas, contamina recursos essenciais, ameaça a biodiversidade e compromete a segurança alimentar. Diante disso, o próprio modelo de desenvolvimento que prevalece em nossa sociedade precisa ser corajosamente revisto. O mito de uma modernidade tecnocrática, que deposita confiança absoluta na lógica, na ciência e na razão e tende a ignorar a dimensão da fé e da transcendência, acaba por fragmentar a realidade e o próprio ser humano. O acelerado desequilíbrio ambiental e climático produz inquietação, sofrimento e insegurança. Não se pode negar que estamos ferindo — e, em muitos casos, destruindo — as próprias condições que sustentam a vida.
No dia 1º de setembro, celebramos o 11º Dia Mundial de Oração pelo Cuidado da Criação. Somos convidados a contemplar o dom da vida e a reconhecer com gratidão o planeta que a sustenta. Trata-se de uma oportunidade para renovar nosso compromisso com a criação e promover uma consciência social cada vez mais atenta à necessidade de cuidar da nossa casa comum.
Diante do uso indevido da liberdade e do poder humano, torna-se urgente um autêntico processo de conversão, tanto pessoal quanto social. A degradação ecológica, cada vez mais evidente, e suas consequências, entre elas as mudanças climáticas, estão profundamente relacionadas àquele “desequilíbrio fundamental que se radica no coração do ser humano” (Gaudium et Spes, 10). Por isso, a transformação das estruturas sociais e dos modos de produção e consumo precisa ser acompanhada pela conversão das mentes e dos corações. Somente assim poderemos alimentar uma atitude de respeito, responsabilidade e gratidão diante do dom da extraordinária beleza e harmonia presentes na obra da criação.
Promover o Dia Mundial de Oração pelo Cuidado da Criação significa cooperar para o despertar de uma consciência mais atenta e responsável diante do planeta que nos permite viver. A criação não é apenas algo que aconteceu em um passado distante; ela é um dom que continua a acontecer e a se renovar no presente, diante de nossos olhos e sob nossa responsabilidade.
A emergência ecológica, cada vez mais grave, já afeta profundamente a vida de milhões de pessoas e coloca em risco o futuro das próximas gerações. Diante de uma realidade tão complexa e urgente, unir as melhores forças da sociedade — ciência, educação, política, economia, comunidades de fé e sociedade civil — para enfrentar essa situação não é apenas uma possibilidade: é um imperativo ético e uma responsabilidade comum.
Cuidar da criação é, portanto, cuidar da vida. É reconhecer que a terra não nos pertence de modo absoluto, mas nos foi confiada. E essa confiança exige de cada um de nós uma resposta concreta de responsabilidade, solidariedade e compromisso com o presente e com o futuro.
*acesse o conteúdo original no site da CNBB
Cardeal Jaime Spengler


