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COP-25: A nossa guerra contra a natureza deve parar

03/12/2019

“Os sinais de esperança sobre o clima estão se multiplicando. A opinião pública está despertando em todos os lugares. Os jovens estão mostrando uma notável liderança e mobilização. O que ainda falta é vontade política”. A opinião é de António Guterres, secretário-geral das Nações Unidas, durante a coletiva de imprensa antes da COP-25. O texto foi publicado no site da ONU, 01-12-2019. A tradução é de Moisés Sbardelotto (www.ihu.unisinos.br).

Há muitas décadas, a espécie humana tem estado em guerra com o planeta. E o planeta está revidando. A Organização Meteorológica Mundial (OMM) está divulgando seu relatório sobre o Estado do Clima nesta conferência [COP-25]. E suas descobertas são claras.

Os últimos cinco anos foram os mais quentes já registrados. O nível do mar é o mais alto da história humana. As calotas de gelo estão derretendo a uma velocidade sem precedentes, e os oceanos estão ficando mais ácidos com todas as suas consequências. A biodiversidade em terra e no mar está sob um severo ataque.

Desastres naturais relacionados ao clima estão se tornando mais frequentes, mais letais, mais destrutivos, com crescentes custos humanos e financeiros. A seca em algumas partes do mundo está progredindo a taxas alarmantes, destruindo habitats humanos e colocando em risco a segurança alimentar.

Todos os anos, a poluição do ar, associada às mudanças climáticas, mata sete milhões de pessoas. As mudanças climáticas têm se tornado uma reação dramática à saúde humana e à segurança humana. Em resumo, as mudanças climáticas não são mais um problema de longo prazo. Agora estamos diante de uma crise climática global.

O ponto de não retorno não está mais no horizonte. Ele já está à vista e avançando na nossa direção.

No entanto, a minha mensagem aqui hoje é de esperança, não de desespero. A nossa guerra contra a natureza deve parar. E sabemos que isso é possível. A comunidade científica nos forneceu o mapa para alcançar esse objetivo. De acordo com o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas, devemos limitar o aumento da temperatura global a 1,5 graus Celsius, alcançar a neutralidade do carbono até 2050 e reduzir as emissões de gases do efeito estufa em 45% em relação aos níveis de 2010 até 2030.

Mas sejamos claros. Até agora, os nossos esforços para alcançar essas metas têm sido totalmente inadequados. Os compromissos assumidos em Paris ainda levariam a um aumento de temperatura acima de três graus Celsius. Mas muitos países sequer cumprem esses compromissos. As emissões de gases do efeito estufa ainda estão crescendo a um ritmo alarmante.

Hoje, o mundo produz 120% mais combustíveis fósseis do que o valor consistente com um caminho de 1,5 graus. E, em relação ao carvão, esse número é de 280%. Mas a comunidade científica também nos diz que o mapa para ficar abaixo de 1,5 graus ainda está ao alcance. As tecnologias necessárias para tornar isso possível já estão disponíveis.

Os sinais de esperança estão se multiplicando. A opinião pública está despertando em todos os lugares. Os jovens estão mostrando uma notável liderança e mobilização. Cada vez mais cidades, as instituições financeiras e as empresas estão se comprometendo com o caminho de 1,5 graus. Isso ficou recentemente provado claramente durante a Cúpula de Ação Climática em Nova York.

O que ainda falta é vontade política. Vontade política de colocar um preço no carbono. Vontade política de interromper os subsídios aos combustíveis fósseis. Vontade política de parar de construir usinas a carvão a partir de 2020. Vontade política de mudar a tributação da renda para o carbono – tributando a poluição em vez das pessoas.

Nós simplesmente precisamos parar de cavar e perfurar, e aproveitar as vastas possibilidades oferecidas pelas soluções de energia renovável e baseadas na natureza. É por isso que, em setembro, eu convoquei a Cúpula de Ação Climática. A cúpula forneceu um cenário global para ver quem está dando passos à frente.

Setenta países se comprometeram com a neutralidade de carbono até 2050. Isso inclui sete países do G20, assim como muitas nações que contribuíram menos para o problema. Mas também vemos claramente que os maiores emissores do mundo não estão fazendo a sua parte. E, sem eles, o nosso objetivo é inacessível.

É por isso que é tão importante que nos reunamos em Madri para esta COP-25. Eu espero da COP uma demonstração clara de uma maior ambição e comprometimento, mostrando prestação de contas, responsabilidade e liderança. Nos próximos 12 meses cruciais à nossa frente, é essencial que garantamos compromissos nacionais mais ambiciosos – particularmente dos principais emissores – para começar imediatamente a reduzir as emissões de gases do efeito estufa em um ritmo consistente para alcançar a neutralidade de carbono até 2050.

Deveríamos garantir que pelo menos 100 bilhões de dólares por ano estejam disponíveis para os países em desenvolvimento para mitigação e adaptação, e levar em conta as suas expectativas legítimas de dispor dos recursos necessários para aumentar a resiliência e a resposta e recuperação de desastres.

Também devemos progredir nas dimensões sociais das mudanças climáticas e garantir que os compromissos nacionais incluam uma transição justa para pessoas cujos empregos e meios de subsistência são afetados, à medida que passamos da economia cinza para a economia verde.

Essas são as razões pelas quais eu tenho o prazer de anunciar que Mark Carney, que atualmente é o governador do Banco da Inglaterra e um renomado pioneiro em pressionar o setor financeiro a agir pelo clima, aceitou ser meu Enviado Especial para Ação Climática e Financiamento Climático.

Também espero sinceramente que a COP-25 seja capaz de concordar com as diretrizes para a implementação do Artigo 6 do Acordo de Paris. Infelizmente, isso não foi alcançado em Katowice, quando aprovamos o livro de regras para a implementação do Acordo de Paris. Esse acordo estabelecerá uma base sólida para a cooperação internacional para reduzir as emissões e permitir um maior papel do setor privado na ação climática.

Essas são as mensagens que estou trazendo para a conferência. Estamos em um poço profundo e ainda estamos cavando. Em breve, ele será muito profundo para escapar. Saúdo as vozes dos jovens ativistas que tenho encontrado. Eles entendem que estamos colocando em risco o futuro deles. É por isso que continuarei pressionando todos os dias para manter o clima no topo da agenda internacional.

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