Vida Cristã - Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil - OFM

A política e a globalidade da vida

20/08/2020

Pe. Ademir Guedes Azevedo, cp.

O Brasil enfrenta uma fase de conflitos e de lutas. O discurso extremista compromete as relações entre os cidadãos. Vale recordar, contudo, que o mundo grego discutia as questões da cidade na ágora. Tudo era feita tendo em vista o “bem comum” da polis. Tantas vezes usamos, infelizmente, o argumento do “bem comum” nas questões de política para afirmar o bem individual, comprometendo a coletividade. Só saberemos se um discurso é genuinamente política se serve para edificar a vida em todas as suas dimensões.

A propósito, o que seria mesmo esse bem comum? No contexto da Sagrada Escritura, encontramos um exemplo típico, aquele da rainha Ester. Ela se apresenta diante do rei e lhe faz um pedido que carrega toda a intenção do que deveria ser a política. Assim, dirige-se a rainha ao rei: “Se ganhei as tuas boas graças, ó rei, e se for de teu agrado, concede-me a vida, eis o meu pedido, e a vida do meu povo, eis o meu desejo!” (Ester 7,3). Vida para o povo é o desejo da ousada rainha. Não deveria também ser esta a preocupação de todo político? Se os projetos e reformas não são para edificar a globalidade da vida, então o ser humano permanece fragmentado. O Papa Paulo VI, em sua Encíclica Populorum Progressio, defendia que o verdadeiro progresso só acontece se ocorrer o desenvolvimento de “todo homem e do homem todo”, ou seja, ninguém pode ficar excluído e deve-se empreender uma formação global do homem.

Neste sentido, o conceito cristão de política sempre considera o cuidado e a promoção da vida em todos os seus aspectos. Devemos ter atenção para não reproduzir a famosa tese de Thomas Hobbes: “O homem é o lobo do próprio homem”. Pelo contrário, apesar de sofrer a influência da corrupção do pecado, o ser humano, através da Graça de Deus, poderá ser elevado em sua dignidade de imagem e semelhança. Assim, entende-se a bondade de sua natureza.

Nicolau Maquiavel pensava a política diferente do modo clássico grego. Em vez de entendê-la a partir do “dever ser” (sentido normativo), ele a interpreta a partir do modo de como ela é, ou seja, sua tese política parte de um pragmatismo, o qual ao olhar ao seu redor constata que as coisas não andam tão bem e que, portanto, é possível criar estratégias para garantir a vitória. O problema que decorre desse modo de pensar é que a ética fica comprometida, porque os meios acabam justificando os fins. Mais uma vez, a teologia cristã em seu ensinamento moral social não compactua com as estratégias humanas que comprometem a vida como fim em si.

Nestes momentos obscuros da história, onde os ânimos se alteram e corremos o risco de esquecer a ética da compaixão e do cuidado, seria bom espelharmo-nos em figuras bíblicas, como a rainha Ester. A boa política não se faz em benefício próprio. Fundamenta-se, sim, em atitudes concretas que fazem crescer o ser humano em sua globalidade, ou seja, em suas dimensões mais profundas. Unamo-nos todos para que isto seja realidade!


Pe. Ademir Guedes Azevedocp, é missionário passionista e mestre em Teologia Fundamental na Pontifícia Universidade Gregoriana. Atualmente reside em Camaragibe – PE, no Seminário para a etapa do Postulantado dos Passionistas.

Download WordPress Themes Free
Download Premium WordPress Themes Free
Download Best WordPress Themes Free Download
Download Best WordPress Themes Free Download
udemy free download
download redmi firmware
Download Premium WordPress Themes Free
free download udemy paid course

Conteúdo Relacionado