Vida Cristã - Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil - OFM

As eleições e o livro de Daniel: poder, perdão e esperança a propósito de Mt 18, 21-35 no simbolismo do setenta e do sete!

10/09/2026

As eleições e o livro de Daniel: poder, perdão e esperança

Há 55 anos, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) propõe um livro para ser refletido no mês dedicado à Bíblia, o mês de setembro, escolhido porque no dia 30 desse mês fazemos a memória do tradutor da Bíblia para o latim, São Jerônimo (347-420 E.C.). No corrente ano, o livro escolhido é o de Daniel. Um dos fatores que motivou tal escolha foi a sua relação com o cenário político eleitoral brasileiro de 2026. 

Para o livro de Daniel, ainda que reinos e seus governantes sempre exerceram a tirania sobre pessoas e povos, a esperança apocalíptica da ação de Deus na história não pode acabar. Governos humanos sobem e descem do poder, ideologias passam, mas a soberania e o poder de Deus permanecem para sempre. Dn 7,14 afirma que o reino, a soberania de Deus, jamais será destruído. Poderes humanos são relativos. Somente Deus é o Senhor da história. 

O que o livro de Daniel tem a nos dizer sobre política? Somos chamados a discernir com sabedoria as propostas de governantes, a não idolatrá-los como salvadores da pátria, tampouco dar o nosso voto para messianismos políticos, que usam a religião para oprimir. Há poderes que querem ocupar o lugar de Deus por dinheiro, fama e poder, como fizeram no passado, no tempo da ambientação e composição do livro de Daniel, o babilônico rei Nabucodonosor, o Grande (562 a.E.C.) e o selêucida Antíoco IV Epífanes (164 a.E.C.). 

A política como exercício da busca do bem comum é fundamental. No Brasil, as últimas eleições presidenciais, infelizmente, dividiram as nossas comunidades e famílias. Os discursos sobre o poder e a polarização política, direita e esquerda, causaram ódio, divisões que insistem em permanecer como divisor de águas. O que se fazer diante dessa situação? Ficar sem escolher candidatos não é a solução. Outros escolherão por nós. Por outro lado, não deixe que a política divida sua família, sua comunidade. Faça o exercício do perdão e recomece.

Nessa perspectiva, recorramos aos ensinamentos da comunidade judaica de Mateus, registrados no evangelho de Mateus, escrito 270 anos depois da redação final do livro de Daniel (174 a 164 a.E.C.), ao tratar do perdão no capítulo 18, versículos 21 a 35, e sua relação com o livro de Daniel. No capítulo 9, o tema do perdão foi também abordado, quando o profeta apocalíptico da esperança fez uma oração de confissão dos pecados do seu povo, o qual havia se rebelado contra Deus, desobedecendo as leis divinas dadas pelos profetas. Daniel reconhece que o perdão e a misericórdia pertencem a Deus (Dn 9,9). Surge na narrativa o anjo Gabriel, afirmando que é preciso restaurar a comunhão, o que traria o perdão de Deus e um novo recomeço, e estabelece o tempo de purificação, 70 semanas (Dn 7,27). Na tradição profética, cada dia da semana corresponde a um ano, sete anos, o que equivale dizer que o tempo de provação e arrependimento é de 490 anos. 70 semanas e 7 anos, duas contagens instigantes. 

No evangelho de Mateus, Pedro pergunta a Jesus se devemos perdoar o nosso irmão até sete vezes. Jesus responde não, mas setenta vezes sete, o que significa dizer infinitamente. Tudo indica que Jesus conhecia a tradição do livro de Daniel sobre o perdão para restabelecer a soberania de Deus. 

Mateus aplica essa máxima na vida comunitária. Perdão em hebraico se diz nassah que significa levar embora, levantar. Disso decorre que perdoar é esquecer. Quem perdoa esquece. Quem não esquece guarda rancor. O rancor adoece quem sofre a injustiça. O livro do Eclesiástico 27,33—28,1-3 diz que o rancor e a raiva são coisas detestáveis, até o pecador procura dominá-las. Se alguém guarda raiva contra o outro, como poderá pedir a Deus a cura?  

Para o livro de Daniel, perdoar é agir com justiça nas relações de poder. Quando isso não acontece, o poderoso adoece. Daniel era membro da tribo de Judá, uma família ligada ao serviço do rei. Ainda criança, foi levado da terra de Judá para o país dos caldeus, Babilônia, atual Iraque. Quando o rei Nabucodonosor, por causa de sua obstinação pelo poder, tornara-se animal selvagem, um boi comendo capim, com cabelos e unhas grandes, e pés de leão, Daniel, a pedido do filho do rei, Baltasar, rezou e implorou a Deus pelos seu perdão. Os tiranos, os governos injustos têm esses vícios na sua juventude, e no final tornam-se monstros, sequestrando, destruindo, matando e batendo. Para Daniel, a esperança não pode morrer quando há perdão nas relações.

O livro de Daniel surge num período de crise de fé judaica, liderada pelos Macabeus, os quais resistiam ao domínio grego helenista. O livro convoca seus leitores e ouvintes a resistirem e acreditarem na soberania de Deus sobre os impérios opressores e a não perderem a esperança. Daniel 7,1-8 relata a visão de Daniel referente a quatro bestas (animais) saindo do mar – leão, urso, leopardo, animal feroz –, as quais, respectivamente, representavam os reinos da Babilônia, Medo, Persa e Grécia. Era a última besta a mais feroz e destrutiva, com seus enormes dentes de ferro e dez chifres, dentre os quais estava um pequeno chifre, o qual representava o opressor Antíoco IV Epífanes (175-163 a.E.C.). Seria Antíoco a reencarnação de Nero, a besta do Apocalipse?

Na contrapartida das bestas, Dn 7,13-14 apresenta a imagem da figura messiânica do Filho do Homem, em hebraico ben ‘adam, isto, ser humano. Trata-se de um ser que ultrapassa a condição humana e assume a condição de libertador escatológico, apocalíptico. Os reinos humanos vêm do mar, mas o Filho do Homem vem do alto, do céu, de Deus, para inaugurar um novo tempo divino. Somente Ele é o Senhor do mundo. Os reinos são animais, mas o que vem de Deus tem forma humana e é divino. E foi nessa perspectiva apocalíptica que Jesus atribuiu a si a imagem de Filho do Homem que deveria sofrer, mas que ressuscitaria e voltaria para Deus. Com a morte e ressurreição de Jesus, o sonho da Parusia, da volta de Jesus acalentou o sonho dos cristãos da primeira hora, inspirado em Dn 12, 1-4, quando afirma que, no fim dos tempos, alguns estariam inscritos no livro da Vida: “E muitos dos que dormem no solo poeirento acordarão, uns para a vida eterna e outros para o opróbio, para o horror eterno. Os que são esclarecidos resplandecerão, como o resplendor do firmamento; e os que ensinam a muitos a justiça hão de ser como as estrelas, por toda a eternidade”. Daniel é chamado a guardar esse segredo até o tempo do fim, quando o bem e o mal serão julgados. Essa imagem de mortos como estrela no infinito chegou até nós para explicar a ressurreição. 

Por fim, a esperança de Daniel está em Deus, seu reino eterno de paz e justiça que não passa. Para a comunidade de Mateus, a esperança reside na certeza de que Jesus é o enviado de Deus para salvar os judeus da dominação romana. E para você, qual é sua esperança? Pare e reflita! 


Frei Jacir de Freitas Faria é Doutor em Teologia Bíblica pela FAJE (BH). Mestre em Ciências Bíblicas (Exegese) pelo Pontifício Instituto Bíblico de Roma (PIB). Professor de Exegese Bíblica há três décadas. Presidente da Associação Brasileira de Pesquisa Bíblica (ABIB). Sacerdote Franciscano. Professor de exegese bíblica EaD e no Seminário Sagrado Coração de Jesus. Referência no Brasil na pesquisa da literatura apócrifa do Segundo Testamento. Autor de treze livros e coautor de dezessete. Oferece curso on-line sobre a Bíblia Apócrifa. Disponível em: www.bibliaapocrifa.com Última publicação: Bíblia Apócrifa: Segundo Testamento (Vozes, 2025). São 784 páginas com a tradução de 67 apócrifos do Novo Testamento. Canal no Youtube: Frei Jacir Bíblia e Apócrifos. https://www.youtube.com/channel/UCwbSE97jnR6jQwHRigX1KlQ  No Instagram e Tiktok @freijacir.
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