
Há 55 anos, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) propõe um livro para ser refletido no mês dedicado à Bíblia, o mês de setembro, escolhido porque no dia 30 desse mês fazemos a memória do tradutor da Bíblia para o latim, São Jerônimo (347-420 E.C.). No corrente ano, o livro escolhido é o de Daniel. Um dos fatores que motivou tal escolha foi a sua relação com o cenário político eleitoral brasileiro de 2026.
Para o livro de Daniel, ainda que reinos e seus governantes sempre exerceram a tirania sobre pessoas e povos, a esperança apocalíptica da ação de Deus na história não pode acabar. Governos humanos sobem e descem do poder, ideologias passam, mas a soberania e o poder de Deus permanecem para sempre. Dn 7,14 afirma que o reino, a soberania de Deus, jamais será destruído. Poderes humanos são relativos. Somente Deus é o Senhor da história.
O que o livro de Daniel tem a nos dizer sobre política? Somos chamados a discernir com sabedoria as propostas de governantes, a não idolatrá-los como salvadores da pátria, tampouco dar o nosso voto para messianismos políticos, que usam a religião para oprimir. Há poderes que querem ocupar o lugar de Deus por dinheiro, fama e poder, como fizeram no passado, no tempo da ambientação e composição do livro de Daniel, o babilônico rei Nabucodonosor, o Grande (562 a.E.C.) e o selêucida Antíoco IV Epífanes (164 a.E.C.).
A política como exercício da busca do bem comum é fundamental. No Brasil, as últimas eleições presidenciais, infelizmente, dividiram as nossas comunidades e famílias. Os discursos sobre o poder e a polarização política, direita e esquerda, causaram ódio, divisões que insistem em permanecer como divisor de águas. O que se fazer diante dessa situação? Ficar sem escolher candidatos não é a solução. Outros escolherão por nós. Por outro lado, não deixe que a política divida sua família, sua comunidade. Faça o exercício do perdão e recomece.
Nessa perspectiva, recorramos aos ensinamentos da comunidade judaica de Mateus, registrados no evangelho de Mateus, escrito 270 anos depois da redação final do livro de Daniel (174 a 164 a.E.C.), ao tratar do perdão no capítulo 18, versículos 21 a 35, e sua relação com o livro de Daniel. No capítulo 9, o tema do perdão foi também abordado, quando o profeta apocalíptico da esperança fez uma oração de confissão dos pecados do seu povo, o qual havia se rebelado contra Deus, desobedecendo as leis divinas dadas pelos profetas. Daniel reconhece que o perdão e a misericórdia pertencem a Deus (Dn 9,9). Surge na narrativa o anjo Gabriel, afirmando que é preciso restaurar a comunhão, o que traria o perdão de Deus e um novo recomeço, e estabelece o tempo de purificação, 70 semanas (Dn 7,27). Na tradição profética, cada dia da semana corresponde a um ano, sete anos, o que equivale dizer que o tempo de provação e arrependimento é de 490 anos. 70 semanas e 7 anos, duas contagens instigantes.
No evangelho de Mateus, Pedro pergunta a Jesus se devemos perdoar o nosso irmão até sete vezes. Jesus responde não, mas setenta vezes sete, o que significa dizer infinitamente. Tudo indica que Jesus conhecia a tradição do livro de Daniel sobre o perdão para restabelecer a soberania de Deus.
Mateus aplica essa máxima na vida comunitária. Perdão em hebraico se diz nassah que significa levar embora, levantar. Disso decorre que perdoar é esquecer. Quem perdoa esquece. Quem não esquece guarda rancor. O rancor adoece quem sofre a injustiça. O livro do Eclesiástico 27,33—28,1-3 diz que o rancor e a raiva são coisas detestáveis, até o pecador procura dominá-las. Se alguém guarda raiva contra o outro, como poderá pedir a Deus a cura?
Para o livro de Daniel, perdoar é agir com justiça nas relações de poder. Quando isso não acontece, o poderoso adoece. Daniel era membro da tribo de Judá, uma família ligada ao serviço do rei. Ainda criança, foi levado da terra de Judá para o país dos caldeus, Babilônia, atual Iraque. Quando o rei Nabucodonosor, por causa de sua obstinação pelo poder, tornara-se animal selvagem, um boi comendo capim, com cabelos e unhas grandes, e pés de leão, Daniel, a pedido do filho do rei, Baltasar, rezou e implorou a Deus pelos seu perdão. Os tiranos, os governos injustos têm esses vícios na sua juventude, e no final tornam-se monstros, sequestrando, destruindo, matando e batendo. Para Daniel, a esperança não pode morrer quando há perdão nas relações.
O livro de Daniel surge num período de crise de fé judaica, liderada pelos Macabeus, os quais resistiam ao domínio grego helenista. O livro convoca seus leitores e ouvintes a resistirem e acreditarem na soberania de Deus sobre os impérios opressores e a não perderem a esperança. Daniel 7,1-8 relata a visão de Daniel referente a quatro bestas (animais) saindo do mar – leão, urso, leopardo, animal feroz –, as quais, respectivamente, representavam os reinos da Babilônia, Medo, Persa e Grécia. Era a última besta a mais feroz e destrutiva, com seus enormes dentes de ferro e dez chifres, dentre os quais estava um pequeno chifre, o qual representava o opressor Antíoco IV Epífanes (175-163 a.E.C.). Seria Antíoco a reencarnação de Nero, a besta do Apocalipse?
Na contrapartida das bestas, Dn 7,13-14 apresenta a imagem da figura messiânica do Filho do Homem, em hebraico ben ‘adam, isto, ser humano. Trata-se de um ser que ultrapassa a condição humana e assume a condição de libertador escatológico, apocalíptico. Os reinos humanos vêm do mar, mas o Filho do Homem vem do alto, do céu, de Deus, para inaugurar um novo tempo divino. Somente Ele é o Senhor do mundo. Os reinos são animais, mas o que vem de Deus tem forma humana e é divino. E foi nessa perspectiva apocalíptica que Jesus atribuiu a si a imagem de Filho do Homem que deveria sofrer, mas que ressuscitaria e voltaria para Deus. Com a morte e ressurreição de Jesus, o sonho da Parusia, da volta de Jesus acalentou o sonho dos cristãos da primeira hora, inspirado em Dn 12, 1-4, quando afirma que, no fim dos tempos, alguns estariam inscritos no livro da Vida: “E muitos dos que dormem no solo poeirento acordarão, uns para a vida eterna e outros para o opróbio, para o horror eterno. Os que são esclarecidos resplandecerão, como o resplendor do firmamento; e os que ensinam a muitos a justiça hão de ser como as estrelas, por toda a eternidade”. Daniel é chamado a guardar esse segredo até o tempo do fim, quando o bem e o mal serão julgados. Essa imagem de mortos como estrela no infinito chegou até nós para explicar a ressurreição.
Por fim, a esperança de Daniel está em Deus, seu reino eterno de paz e justiça que não passa. Para a comunidade de Mateus, a esperança reside na certeza de que Jesus é o enviado de Deus para salvar os judeus da dominação romana. E para você, qual é sua esperança? Pare e reflita!


