
Nos Definitórios, nos Encontros de Guardiãs, nos Capítulos Locais e/ou outros momentos, sempre se abre um espaço para a espiritualidade ou, até, de retiro. Podemos afirmar que a dimensão espiritual, tanto pessoal como comunitária, pode e deve ser parte integrante desses encontros e da nossa vida pessoal.
No entanto, ouve-se comentários prós e contra: “Os trabalhos pastorais nos envolvem tanto que não temos tempo para a oração, seja pessoal ou comunitária”. “Em nossas atividades, a oração não é prioridade”. “Sem oração pessoal, a comunitária cai, certamente, num vazio”. “A oração qualifica nossa vida fraterna e nos dá credibilidade na missão evangelizadora”. “Nossa fé vem pelo ouvir, diz a Escritura, e é preciso deixarmo-nos atingir pela Palavra”. “Nossa oração corre o risco de muita fala e, nos falta, o exercício da escuta”.
O Governo Provincial, seguidamente, se defronta com questões de vida fraterna. Num deles, os definidores assim se expressaram: “Muitos problemas de nossas fraternidades deveriam ser resolvidos pela própria fraternidade, a partir do cultivo da espiritualidade”. Os Evangelhos nos apresentam o ensino e a práxis de Jesus. Ele tinha três bons costumes: o de pregar (Mc 10,1), o de participar da comunidade todos os sábados (Lc 4,16) e o de rezar (Lc 22,39). Era seu costume rezar em comunidade, nas sinagogas (Lc 4,16), bem como participar das romarias pascais (Lc 2,41-52) e das Tendas (Jo 5,1-9; 7,1-14).
Por outro lado, não esquecia a oração pessoal/sozinho (Lc 22,39), não só nos momentos decisivos, como a escolha dos apóstolos (Lc 6,12-16), ou na dúvida, quando o povo queria aclamá-lo rei, após a multiplicação dos pães (Jo 6,14-15), ou no Getsêmani (Lc 22,39). Notemos que a oração de Jesus tinha características próprias: de noite, sozinho, na montanha. Mas, se o trabalho é demais e avança noite adentro?! O que fazer?!
O evangelista Marcos nos relata este curioso e ilustrativo fato: após um dia intenso de pregação e curas na sinagoga, Jesus chegou à casa de Pedro ao anoitecer. O povo acorreu de todos os lados à sua procura e Ele atendeu a todos! Será que rezou, conforme seu costume?! Provavelmente não, motivado ou pelo cansaço, pela hora adiantada ou mesmo em atenção à casa que o hospedava. Porém, de “madrugada, ainda escuro, foi a um lugar deserto e aí rezou”. Ao amanhecer, “Pedro e os companheiros O procuram”. Encontrando-O, lhe dizem: “Todos te procuram”. Jesus responde: “Vamos a outros lugares, pois para isso fui enviado” (cf. Mc 1,21-39).
Numa linguagem popular, característica de um pescador, Pedro poderia ter pensado ou falado: “O povo te procura, Jesus! Você caiu na simpatia dele e ele está em teus braços. Aproveite este momento. O comentário é um só: você está bombando”!!! Por sua vez, Jesus reafirma “vamos a outros lugares”. Aqui, pode estar uma das eficácias da oração que “qualifica a missão”. O frade que, realmente, reza, aceita ir a outros lugares mesmo quando o povo o quer reter para si. Quem sabe, nesses outros lugares, o mesmo fato poderá se repetir.
Então, só nos resta agradecer a Deus e à disponibilidade de abrir mão do próprio sucesso. Porém, é preciso estar atento! O costume de rezar, só se consegue pela repetição sistemática, amorosa e consciente, até que esta prática se torne algo inerente à própria pessoa. Este longo e progressivo percurso nos qualificará a sermos um frade “feito oração”, a exemplo de Cristo e Francisco.
Frei Luiz Iakovacz

