
Antes de apresentar a tese desta seção, é necessário esclarecer um ponto crítico do artigo anterior. Um amigo me escreveu afirmando que não pode existir vida consagrada sem o seguimento de Jesus. Concordo plenamente: a vida religiosa consagrada só tem sentido se for cristocêntrica, isto é, se estiver enraizada no seguimento radical de Cristo. Minha intenção, no entanto, foi outra: provocar reflexão sobre a teologia da sequela pós-Concílio Vaticano II, que, em sua aplicação prática, acabou deslizando para uma compreensão demasiadamente sociológica da noção de «inserção».
Feito este esclarecimento, avancemos para o tema central: quais foram as causas que levaram o «Ser» a uma transformação radical? Aqui, «Ser» refere-se ao sujeito humano, aquele que vive no mundo e busca sentido para sua existência. Não se trata do ser transcendente, mas do ser que procura o transcendente. Heidegger, por exemplo, descreve o homem como um ser lançado no mundo (Dasein), que, diante da angústia, constrói seu projeto de vida em busca de sentido.
Com a chegada da pós-modernidade, o «Ser» deixou de encontrar realização nas antigas metanarrativas que explicavam o universo humano. Houve uma despedida progressiva das estruturas sólidas que sustentavam a existência. O Ocidente tornou-se, assim, a «terra do poente» do Ser.
Segundo Gianni Vattimo, o Ser começou a se transformar quando a velha metafísica perdeu hegemonia como discurso de sentido. A ideia de uma história única, escrita pelo protótipo europeu de civilização, enfraqueceu à medida que culturas locais, sobretudo do chamado «terceiro mundo», ganharam voz por meio dos meios de comunicação de massa, expondo uma nova visão plural da realidade. Nesse contexto, todo ponto de vista é apenas «a vista de um ponto». Não há mais espaço para homogeneidade ou totalitarismos.
Vattimo chamará essa transformação de «Pensiero Debole» (pensamento fraco) e encontrará na mensagem cristã da encarnação do Verbo Divino a sua transcrição. Ele entende que a Kénosis de Jesus é a perda do poder metafísico e uma inserção na realidade a partir de uma forma frágil de vida. Para o filósofo italiano, a kénosis vence a metafísica, pois se distancia constantemente das estruturas fortes seja da religião que do poder. Esta é a nova forma de vida que o ser assume: a fragilidade.
Esse estilo frágil do Ser hoje se reflete no perfil dos consagrados. O discurso clássico sobre o Transcendente, sustentado por uma linguagem erudita e abstrata, já não encontra espaço entre eles. Prefere-se falar de leveza e de menos estruturas burocráticas. O estilo de vida se afasta das regras, constituições e regulamentos, linguagens objetivas que não correspondem à subjetividade da nova forma de ser. O consagrado contemporâneo busca informações rápidas nas redes sociais e na inteligência artificial. O tempo de permanecer longamente em bibliotecas, meditando sobre uma ideia ou argumento, parece ter ficado para trás. Agora, a nova face do Ser procura curtidas (likes) e a adrenalina da dopamina, o que rouba a antiga capacidade espiritual de contemplação e meditação, tão própria das origens da vida consagrada.
O consagrado atual ama o universo digital: navega por horas na rede enquanto almoça, janta, conversa com o irmão de comunidade e até mesmo enquanto reza na capela, respondendo mensagens instantâneas. Faz tudo ao mesmo tempo, mas sua percepção é dispersa. O olhar já não contempla nem medita, pois a «atenção ao momento presente» exige tempo, esforço, renúncia, solidão e empenho pessoal.
Esse novo fenômeno desafia a Vida Religiosa Consagrada a tomar decisões sérias sobre seu futuro. Ela se encontra diante de uma encruzilhada: como seguir Jesus com radicalidade, palavra pesada para o pensamento frágil, neste cenário atual? A questão é decisiva e exige que a própria linguagem humana se reinvente. Antes, quando a metafísica dominava, a linguagem era abstrata e erudita; agora, precisa ser concreta, acessível e persuasiva, pois o consagrado de hoje se cansa facilmente e deseja resultados imediatos, sem grande interesse em processos longos.
Outro exemplo: muitos consagrados sentem desconforto diante da «lógica do dom», pois a gratuidade implica entregar a própria vida sem esperar nada em troca. Na cultura atual, tudo se orienta para ganhar, construir, conquistar. Não é isso que revelam as instituições e obras religiosas que se adaptam às exigências do mercado? Fala-se em acompanhar a lógica e o marketing, sob pena de ver projetos fracassarem. Antes, a vida consagrada caminhava na contramão; hoje, parece obrigada a alinhar-se às demandas do mercado.
Essa reviravolta é, ao mesmo tempo, ontológica, transformou radicalmente o modo de pensar e agir do sujeito; e sociológica, o mundo já não é o mesmo em que nasceram as ordens e congregações. O desafio é repensar a Vida Religiosa Consagrada a partir de um novo caminho. Será possível vivê-la dentro dessa encruzilhada da pós-modernidade? Que transformação ela deve sofrer para testemunhar Jesus neste contexto? E qual deve ser esse testemunho?
Essas perguntas serão aprofundadas no próximo capítulo.
Padre Ademir Guedes Azevedo

