Quem somos - Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil - OFM

Palestra do Ministro Geral no Capítulo das Esteiras Under Ten

10/07/2019

A vocação para a Fraternidade: o diálogo na vida de um frade menor

“A existência humana se baseia em três relações fundamentais intimamente ligadas: a relação com Deus, com o próximo e com a terra”. (Papa Francisco, Laudato Si’ nº 66).

Queridos irmãos, é maravilhoso estarmos aqui reunidos em fraternidade, em um lugar onde jovens e velhos, cristãos, seguidores de outras tradições religiosas e não crentes se reúnem para experimentar a fraternidade e a solidariedade humanas, e para escutar o grande relato do inesgotável amor de Deus por toda humanidade e por toda a criação. Os que vêm a Taizé não são simplesmente consumidores passivos de uma espiritualidade de hospitalidade e de aceitação da diferença. Quem vem a Taizé, como cada um de nós, faze-o para compartilhar seu próprio caminho de vida, fé, decepções, perdão, esperança e transformação. Vem em busca de algo, ainda quando este “algo” não é suficientemente claro no momento da chegada, e provavelmente não seja claro no momento da partida. Vir a Taizé significa empreender uma viagem que pode fazer toda a diferença, que pode dar o valor de sair de si mesmo, da zona de conforto, e entrar num espaço sobre o qual teremos pouco poder de controle. Isso não quer dizer que Taizé seja um lugar para um encontro que se torne incontrolável. Digo isso com todo o respeito que merece o irmão Alois, prior, e os irmãos da Comunidade. De qualquer forma, o que a Comunidade Taizé oferece a todos os que vêm, e particularmente a este grupo de frades que compõem a peregrinação Under Ten OFM, e alguns de nós com mais de dez anos de vida religiosa, é uma oportunidade para experimentar o abundante e ilimitado amor misericordioso de Deus.

Por esta razão, desejo expressar publicamente minha gratidão ao irmão Alois e a todos os irmãos da Comunidade pela hospitalidade fraterna que nos oferecem nestes dias. Nossos caminhos, da Comunidade Taizé e da Ordem dos Frades Menores, providencialmente coincidiram em mais de uma ocasião, talvez porque cada um de nós está buscando seguir o chamado de estar abertos ao Espírito de Deus que se comunica com nós de diversos modos, através de diferentes vozes, convidando-nos a compartilhar o sonho de Deus por um mundo que pode ser novo. Talvez isso seja o que viemos fazer aqui, meus queridos frades Under Ten, e os que temos pouco mais de dez anos: permitir que a visão de Deus de um mundo novo se revele através de um sonho. Entretanto, como acontece com todos os sonhos, eles se constroem através do diálogo contínuo com Deus, e entre aqueles que estão dispostos a abrir suas mentes e corações à obra prodigiosa de Deus, que não pode ser contida e restrita em caixas bem organizadas, em nível doutrinal, litúrgico, ou em outras formas. Este encontro de frades Under Ten nos oferece uma nova oportunidade para nos encontrarmos com Deus como Ele desejaria, ou seja, no mistério do encontro com Ele, com os que estão estes dias em Taizé, com os irmãos que fazem parte desta Comunidade e, naturalmente, com os próprios frades da Ordem, que são um presente de Deus para nós.

Quero retomar as palavras do Papa Francisco em sua primeira encíclica, Laudato Sí’: “A existência humana se baseia em três relações fundamentais intimamente ligadas: a relação com Deus, com o próximo e com a terra” (66). O ponto de partida, o método e o objetivo em todos os processos de diálogo é o cultivo de um conjunto de relações interconectadas que, segundo nossa Teologia católica sobre a Trindade, conduzem-nos ao reconhecimento de que somos parte de um vasto tecido de intersecções e fios entrelaçados. Cada fio tem sua particularidade que o faz único; cada um existe separado do outro. E, entretanto, cada um foi criado precisamente para interconectar-se com o outro. Cada um depende do outro, compartilhando uma interdependência comum que, se é tecida com cuidado, permite que cada um retenha sua singularidade, uma singularidade que só pode ser revelada e compreendida completamente quando se conecta com os outros fios. Esta interdependência não anula nem nega a beleza e a individualidade específicas de cada fibra do fio, mas permite que cada um se relacione com o outro de modo que nem o indivíduo nem o todo possam existir sem um e sem o outro. Então, algo que se aproxime à verdade, à harmonia, à solidariedade (nós, franciscanos, falamos de fraternidade), e à comunhão pode chegar a ser percebido, recebido e compartilhado somente através desta interação dinâmica. Duns Scotus chama de hecceidade, ou o que eu chamaria de “singularidade racional”. Deus criou as pessoas livres por amor, desejando receber seu amor em troca. Deus também colocou dentro de cada pessoa a possibilidade ou, melhor ainda, o desejo de reciprocidade, a liberdade de entrar em relação com Deus e os demais. O desejo de Deus é que cada criatura humana ame a Deus o mais completamente possível, e este processo não se detém com a Encarnação. Continuando com o pensamento de Duns Scotus, Deus quis que todos fôssemos co-amados (condilecti) e co-amantes (condiligentes) com Cristo. Aqui podemos falar do diálogo como um processo de conversão; este tipo de conversão está relacionada com a transformação e não se deve ser igualada ao proselitismo, de converter o outro à minha posição. Ao contrário, é uma conversão à convergência, ao autodescobrimento mútuo e à abertura de si mesmo.

Toda existência está relacionada (relacionalidade)

Um dos capítulos mais esclarecedores da Encíclica Laudato Si’ é o quarto, onde nos traça um caminho para ajudar aos seres humanos a redescobrir a interconexão de todos os seres vivos, de toda a criação. Baseando-se na sabedoria da fé apresentada no Catecismo da Igreja Católica, o Papa Francisco nos recorda:

“A interdependência das criaturas é querida por Deus. O sol e a lua, o cedro e a florzinha, a águia e o pardal: o espetáculo das suas incontáveis diversidades e desigualdades significa que nenhuma criatura se basta a si mesma. Elas só existem na dependência umas das outras, para se completarem mutuamente no serviço umas das outras.” (Catecismo da Igreja Católica 340; Laudato Si’ 86).

“As criaturas só existem na dependência umas das outras, para se completarem mutuamente no serviço umas das outras”. Irmãos, minha intenção é falar da interconexão, que creio fazer parte do DNA da existência humana, está presente no DNA de todos os seres vivos em qualquer forma que existam, não é dar asas à minha imaginação. O que pretendo é viajar com vocês até o centro, o lugar onde tudo está conectado em íntima relação. Creio que isto é o que o Papa Francisco está falando para nós na Laudato Si’, uma mensagem que não difere do que São Francisco de Assis recebeu de Deus e transmitiu a seus irmãos e ao mundo através do Cântico das Criaturas. Ao chamar de irmão e irmã o sol e a lua, São Francisco reconhece a dignidade de cada criatura, um reflexo de amor e da beleza que Deus coloca em todos os seres vivos; todos estão chamados a compartilhar a fraternidade que Deus propõe.

Dirijamos agora nossa atenção a uma breve análise sobre a compreensão do diálogo entre São João Paulo II e o Papa Francisco, seu papel na construção de pontes entre povos e com o universo criado, e a centralidade do diálogo como seres humanos, como discípulos de Cristo e como frades menores.

Vivemos numa época de fluxo constante de informação, que conecta nossas realidades pessoais e locais à rede global, através do Facebook, Google, Amazon, WhatsApp, WeChat, Instagram e uma ampla gama de instrumentos presentes no mundo virtual. Todas estas ferramentas promovem possibilidades aparentemente ilimitadas para unir as pessoas e proporcionar oásis virtuais ou eletrônicos para o diálogo. Algumas pessoas estão convencidas de que estes avanços tecnológicos estão ajudando a melhorar a comunicação entre as pessoas, abrindo-nos a novas vias para o diálogo, ultrapassando qualquer forma de fronteiras internacionais, interculturais, subculturais, inter-religiosas e outros limites que nem sequer conhecemos. Alguns, inclusive, sugerem que estas ferramentas tecnológicas, se bem entendidas e empregadas adequadamente, poderiam ajudar a criar uma progressiva interdependência e a possibilidade de que os seres humanos tenham uma visão compartilhada do “bem comum” e a “solidariedade” como um modo de propor uma ideia expandida da identidade humana e social.

Esta ideia de um bem comum e um compromisso com uma nova solidariedade entre os povos e as nações tem raízes profundas na Doutrina Social da Igreja (DSI) (http://www.usccb.org/beliefs-and-teachings/what-we-believe/catholic-social-teaching/solidarity.cfm) . O bem comum também implica necessariamente uma convicção compartilhada em nossa origem e destino comuns; tal convicção nos proporciona um instrumento para superar as desigualdades sociais e estabelecer as condições para um tipo de diálogo que ajude a gerar as condições necessárias para o desenvolvimento humano autêntico e de paz duradoura. São João Paulo II acreditava que, na medida em que recuperemos nossa verdadeira identidade como seres sociais conectados por uma vasta rede de interdependência, sustentada e aprofundada através da prática da justiça e da caridade, baseada na solidariedade, a humanidade poderá combater o egoísmo e o pecado, que desviaram e orientaram os sistemas sociais, econômicos e políticos da sociedade, da economia, da política e a cultura até o escandaloso aumento da exclusão e desigualdade. (Sollicitudo Rei Socialis, 30 de dezembro de 1987).

O diálogo exerce um papel essencial na promoção de uma espiritualidade de interconexão e solidariedade. Mas o diálogo é mais do que um simples intercâmbio de ideias e preocupações, mais que a expressão de preocupação e simpatia pelo outro. Em seu discurso dirigido ao Conselho Pontifício para o Diálogo Inter-Religioso em 1995, São João Paulo II convidava-nos a exercitar um “diálogo de espiritualidade”, uma “vocação universal” que conduza à santidade, que seja um componente vital para ajudar a comunidade de nações a enfrentar cara a cara os desafios mais árduos de nosso tempo. O futuro da vida humana e do planeta está em jogo! A promoção da interdependência e da solidariedade possui a capacidade de promover a transformação social (e espiritual). Interdependência, solidariedade, transformação social: estes são os objetivos do diálogo e para onde todo esforço de diálogo deve dirigir-se (cf. Sollicitud rei socialis, 1986, 17- 38). Talvez foi com este espírito, e em busca da paz para toda a humanidade, que São João Paulo II convidou doze líderes religiosos a reunirem-se em Assis em 27 de outubro de 1986, com a esperança de que estes mesmos líderes religiosos pudessem converter-se em valentes promotores da paz mundial. (cf. https://w2.vatican.va/content/john-paul-ii/it/speeches/1986/october/documents/hf_jp-ii_spe_19861027_prayer-peace-assisi.html). O diálogo também foi visto por João Paulo II como um instrumento para a proclamação do Evangelho.

Quando o Papa Francisco fala de interdependência, solidariedade e transformação social, une-os sob a bandeira da “fraternidade”, um tema central em seus ensinamentos. Francisco chega ao extremo de falar sobre a “vocação da fraternidade” humana e cristã. Por nossa própria natureza, somos seres sociais que desenvolvem nossas identidades e capacidades não de maneira isolada, mas através da interação, que inclui o transcendental/ espiritual e interpessoal/ relacional. Mas o diálogo não é só sobre o crescimento interior da pessoa; o diálogo implica necessariamente colocar-se a serviço da humanidade e do entorno natural, nossa Casa comum. O diálogo cria condições potenciais para experimentar a fraternidade. A fraternidade cria condições para a promoção da paz, o cuidado dos pobres e excluídos e o cuidado com o meio ambiente. Deste modo, o objetivo do diálogo é a promoção de uma fraternidade baseada em uma ecologia integral e integradora.

Em sua mensagem durante a Jornada Mundial da Paz de 2014, o Papa Francisco chama a atenção sobre o “número cada vez maior de interconexões e comunicações no mundo de hoje”. Isto poderia parecer muito óbvio, a crescente proximidade de todos os lugares do mundo e a crescente interdependência entre povos e nações. Esta crescente interdependência oferece aos seres humanos a possibilidade de descobrir e promover uma visão de bem comum, uma sensação de que todos somos responsáveis de todos os demais. Claramente, isto está no coração dos escritos do Papa Francisco, mas também está no coração de suas viagens e reuniões com líderes de outras comunidades eclesiais cristãs, com judeus, muçulmanos, com outros líderes religiosos e também com os não-crentes. Diante do que o Papa Francisco chama de “globalização da indiferença”, propõe uma alternativa poderosa: a “vocação à fraternidade”.

O Papa Francisco, baseando-se nas ideias teológicas de nosso próprio São Boaventura, nos recorda que Deus vive na “comunhão trinitária” e comunica esta comunhão em todas as criaturas viventes, especialmente nos seres humanos. Isto significa que somos criados à “imagem” desta comunhão. Nossas vidas estão orientadas para a participação no dinamismo trinitário da “relacionalidade”, que se define pela fraternidade e comunhão. Chegamos a ser completamente humanos, completamente vivos, somente quando saímos de nós mesmos para viver em comunhão com Deus, com os demais e com as criaturas. Mas não é isto o que nós, os franciscanos, acreditamos, cremos e compartilhamos com uma mente e coração abertos?

Se o Papa Francisco não faz referência explícita ao Evangelho de João como fonte de inspiração para esta “vocação à fraternidade”, baseada numa relação trinitária, não posso deixar de pensar no “discurso de despedida” do evangelho de João (13, 17), onde Jesus está em constante diálogo com o Pai sobre a natureza de sua vocação, o significado da encarnação, a visão de um final cruel em sua vida e sua missão, e o convite aos discípulos a formar parte deste diálogo, desta dinâmica. Relação que dá fruto, o dom da paz e da salvação do mundo.

Nossa “vocação à fraternidade” requer que aprofundemos nossa capacidade e compromisso em dialogar em todas suas formas possíveis. Para o Papa Francisco, o diálogo é a chave para a conversão moral e espiritual. O diálogo é a chave para reorientar a intenção e a ação humana, e assim unir as pessoas onde possam encontrar o outro, escutar e compartilhar, com muito esforço e graça de Deus, permitir que suas vidas se transformem. O diálogo não é uma questão somente de se reunir e falar. Seu objetivo ou intenção final é a transformação espiritual e humana. Esta transformação toma a forma do que o Papa Francisco chama de “conversão ecológica” (cf. Laudato Si’). O caminho e o instrumento para esta conversão ecológica é feito através de um diálogo baseado na humildade, na mansidão e em “converter-se em tudo para todos” (cf. Evangelii gaudium). Estas palavras fazem eco na prática do diálogo na vida de São Francisco, algo que Frei Cesare Vaiani nos explicou em sua apresentação.

O diálogo também tem lugar fundamental na compreensão da evangelização de Francisco (cf. homilia, 8 de maio de 2014). Na Exortação Evangelii gaudium, o Papa Francisco afirma que nossa vocação é a fraternidade e assegura que esta qualidade fundamental nos ajuda a lutar contra o individualismo egoísta que atualmente domina grande parte da interação social. Abraçar nossa vocação à fraternidade é abraçar a convicção de que cada pessoa, cada criatura, tem uma dignidade e um valor inerentes, que estamos interconectados e somos interdependentes; e que cada pessoa, cada ser vivo, tem algo que dizer, compartilhar, contribuir. O diálogo é o lugar onde se celebra a dignidade e a diversidade e onde se aprofunda nossa própria identidade através de uma exploração da dignidade e da diversidade do “outro”. Entrar em um diálogo com um muçulmano, um judeu, um budista, um hindu, inclusive um não-crente é, em si, um esforço nobre, porque neste caso nos é apresentada a oportunidade de perceber e compartilhar o mundo do outro. Ao mesmo tempo, o encontro nos brinda a oportunidade de abrirmo-nos a um aprofundamento de nossa própria compreensão da vida, da fé e de nosso lugar no universo criado. É nossa experiência de fé que nos leva a perceber a presença de Deus em todas as coisas, uma presença que provoca o compromisso, intercâmbio, ação.

Além das oportunidades que o diálogo nos oferece para obter uma visão do mundo do outro e de nosso próprio mundo, o Papa Francisco sustenta que há outra razão convincente para comprometer-se com uma vocação não somente em vista da fraternidade, mas também do diálogo. A menos que saíamos de nós mesmos ao encontro do outro, o paradigma tecnocrático atual continuará sem cessar, conduzindo a aniquilação da criação e da sociedade humana. Se desejamos ver como seria um mundo assim, um mundo dominado pela tecnologia, onde toda referência ao transcendental, a Deus, e a interação e interdependência humanas, torna-se completamente irrelevante, onde todos se reduzem a algoritmos, convido-os a desfrutar as noites de insônia lendo o livro “Homo Deus”, de Yuval Harari (2016). Isto, claramente, não é o que o Papa Francisco prevê na Laudato Si’. Ele segue sendo otimista de que a humanidade encontrará seu caminho de volta à sua própria vocação de fraternidade; mas isso não virá facilmente, nem sem resistência e sofrimento.

Outra dimensão do diálogo que aparece repetidamente nos escritos do Papa Francisco é a de uma compreensão e apreciação saudável da diversidade. Nenhuma visão única do mundo (religiosa, política, econômica, cultural, etc) oferece todas as respostas a todas as perguntas específicas, concretas e emergentes. O encontro, o diálogo, o discernimento, o debate honesto e a capacidade de aprender uns com os outros são condições prévias para empreender o caminho do diálogo. Foi isso, talvez, que aconteceu na vida de São Francisco em seu encontro com o leproso que, aparentemente, ajudou-o a chegar a um entendimento mais amplo de Deus, da dignidade da pessoa humana e da vocação? Da fraternidade? Ou quando São Francisco se encontrou com a amabilidade, a hospitalidade e o reconhecimento de um ser humano na pessoa do Sultão em Damieta? Ou na vida cotidiana da fraternidade de São Francisco e seus primeiros companheiros, aprendendo uns com os outros, desafiando-se, abraçando a diferença, perdoando-se mutuamente? O Papa Francisco insiste que, respeitando estas vozes alternativas, às vezes contraditórias, inclusive dentro da Igreja e da Ordem, na realidade estamos construindo as bases para cumprir nossa vocação de fraternidade. Mas para cumprir com esta grande vocação, será exigida de nós demonstrações de paciência, autodisciplina e generosidade (cf. Laudato Si’).

Mas como poderíamos cumprir tal atitude proposta pelo Papa Francisco, mais que atitude, uma espiritualidade de diálogo, fraternidade, compromisso com a busca de condições para o bem-estar de cada pessoa humana e para toda a criação, bem-comum? Voltando ao exemplo de São Francisco de Assis, o Papa Francisco percebe que o caminho para a autêntica fraternidade somente pode acontecer se estivermos dispostos a converter-nos em místicos. O tipo de mística proposta pelo Papa Francisco não é a promoção de algum tipo de fugit mundi ou a fuga para algum mundo espiritualizado sem humanidade nem criação. Existem muitas vozes na Igreja e no mundo – e poderia agregar na Ordem – que buscam promover este tipo de espiritualidade, negando-se a olhar profundamente o abismo da exclusão e da destruição que afligem a humanidade e o planeta. A vocação ao diálogo e à fraternidade, segundo o Papa Francisco, somente pode ser verdadeiramente aceita através da adoção de uma atitude contemplativa para a realidade humana e todo o universo criado.

“Falamos aqui duma atitude do coração, que vive tudo com serena atenção, que sabe manter-se plenamente presente diante duma pessoa sem estar a pensar no que virá depois, que se entrega a cada momento como um dom divino que se deve viver em plenitude. Jesus ensinou- -nos esta atitude, quando nos convidava a olhar os lírios do campo e as aves do céu, ou quando, na presença dum homem inquieto, ‘fitando nele o olhar, sentiu afeição por ele’. (cf. Laudato Sí, 226).

No entanto, para adotar o itinerário do místico, a pessoa deve estar disposta a abraçar a todos os que Deus abraça, especialmente aos pobres, excluídos, aqueles a que são negados os direitos, aqueles que buscam um lugar onde possam viver em paz, livres do medo, da violência, um lugar onde possam dar sua contribuição para o desenvolvimento de suas próprias vidas e a vida dos demais, um lugar onde possam encontrar-se frente a frente com o autor da vida, Deus. A mística entendida a partir desta perspectiva abre caminhos para uma fraternidade autêntica, libertadora e geradora da vida.

Meus queridos confrades, o Papa Francisco nos convida a abrir os olhos de nossos corações e mentes para a grande vocação do diálogo e da fraternidade. Esta vocação não se limita aos cristãos, está aberta à humanidade. Ao mesmo tempo, os crentes têm a responsabilidade especial de abraçar esta vocação. Isto se torna mais evidente no documento histórico de 4 de fevereiro de 2019, “Fraternidade Humana para a Paz Mundial e a Convivência Comum”, assinado conjuntamente pelo Papa Francisco e o imã Ahmed el Tayeb em Abu Dhabi. “O diálogo entre crentes consiste em se encontrar no vasto espaço dos valores espirituais, humanos e sociais comuns, e investir isto na propagação das mais altas virtudes morais que as religiões solicitam”.

Recordemos mutualmente que o diálogo não se trata de convencer ou estrategicamente “ganhar” alguém com minhas ideias, inclusive sob minha perspectiva religiosa. O diálogo não exclui a possibilidade de compartilhar as convicções sobre a fé. O diálogo pode incluir a proclamação, mas só de acordo com nossas Regras e Vida Franciscana (RNB, RB), se reflete uma profunda humildade e um profundo respeito pelas crenças religiosas e as perspectivas mundiais dos demais. O diálogo consiste em descobrir a verdade mais profunda de quem somos, individual e coletivamente, aprendendo de quem viemos e para onde vamos: tudo está conectado com o Criador, com Deus que é uma relação (Trindade). O diálogo consiste em chegar a esta consciência da verdade de que todas as coisas estão interconectadas, todas estão relacionadas, todas estão destinadas a colaborar com o plano de Deus para a paz e a harmonia universal. Por esta razão, o diálogo é vital para a missão evangelizadora da Igreja.

Recordo a todos que Frei Cesare Vaiani compartilhou conosco no início desta semana a natureza e a forma de diálogo que surgem da vida e os escritos de São Francisco de Assis. Deus fala, molda para nós a natureza da identidade social humana e o caminho até o pleno crescimento como seres humanos e espirituais, criados e destinados a participar na “fraternidade de Deus”, a Trindade. Este diálogo é de amor, um amor que se origina em Deus, na Trindade, e se manifesta também em toda criação. Deus põe o mundo em movimento, Deus inicia o diálogo com os seres humanos e com o universo criado, um ato de amor puro. Este diálogo continua através do envio de seu Filho Amado, Jesus, através da Encarnação. E continua também agora, através da ação do Espírito Santo, algo que se reflete na prática da vida, na pregação e nos escritos de São Francisco de Assis, e na prática da vida, na pregação e nos escritos do Papa Francisco.

Irmãos, comecemos…

Capítulo das Esteiras Under Ten
Taizé, França, 14 de julho de 2019.
Frei Michael A. Perry, OFM

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