Carisma - Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil - OFM

Retiro Mensal

Uma Vida Radicalmente Evangélica - Documento OFM 2012

O QUE FOI PROMETIDO 

Antes de qualquer reflexão sobre a vida evangélica, convém voltar ao momento e às palavras com as quais a assumimos. Para nós, Frades Menores, a vida evangélica professada começa numa frase que nós mesmos pronunciamos, de joelhos, diante de um irmão. 

“Eu, Frei N. N., tendo o Senhor me dado a graça de seguir mais de perto o Evangelho e os passos de nosso Senhor Jesus Cristo, em tuas mãos, Frei N. N., com firme fé e vontade, faço voto a Deus, Pai santo e todo-poderoso, de viver por todo o tempo de minha vida, em obediência, sem nada de próprio e em castidade. Entrego-me, pois, de todo o coração a esta Fraternidade, para que, pela ação eficaz do Espírito Santo, guiado pelo exemplo de Maria Imaculada, por intercessão de nosso Pai São Francisco e de todos os santos, e com a ajuda fraterna de todos, eu possa tender constantemente para a perfeita caridade, no serviço a Deus, à Igreja e aos homens”  (CCGG 5 §2). 

Vale repetir: “(…) eu possa tender constantemente para a perfeita caridade, no serviço a Deus, à Igreja e aos homens” (CCGG 5 §2). “Tender constantemente”. O que se prometeu foi um movimento que não para, e não uma perfeição já alcançada. Mantenha isso em mente; o verbo “tender” ilumina tudo o que vem depois. Busque se recordar do dia de sua Primeira Profissão. Quais memórias e sentimentos isso lhe traz? 

Sobre o que essa promessa nos obriga, o primeiro artigo das Constituições gerais é direto: “os irmãos são obrigados a levar uma vida radicalmente evangélica: viver em espírito de oração e devoção e em comunhão fraterna, dar testemunho de penitência e minoridade, anunciar o Evangelho, pregar por obras a reconciliação, a paz e a justiça, e mostrar respeito pela criação” (cf. CCGG 1 §2). 

A palavra utilizada não é indiferente: somos obrigados, por uma escolha livremente assumida. E o termo “radicalmente” tem sua origem em “raiz”, não tanto um rigor maior que o dos outros cristãos, mas um retorno à raiz do Evangelho. As quatro ideias seguintes desdobram essa raiz. 

OBSERVAR O EVANGELHO 

A Regra identifica-se com a observância do Evangelho. Daí a insistência num hábito bem concreto: dedicar-se à leitura e meditação do Evangelho e das Escrituras, progredindo na compreensão da Palavra (cf. CCGG 22 §1). 

Vale perguntar: quando foi a última vez que você leu o Evangelho sem estar preparando algo? Sem homilia à vista, sem aula, sem algo para ser escrito? 

Dessa escuta é que nasce o envio, nunca o contrário. “Como o Filho foi enviado pelo Pai, assim os irmãos são enviados a proclamar o Evangelho a todas as criaturas” (CCGG 83 §1). E as Constituições acrescentam um critério que desmonta qualquer pregação feita de cima para baixo: “(…) conscientes de que ninguém pode evangelizar se antes não aceitar ser evangelizado” (CCGG 86). 

Em quais situações e lugares você se recorda de ter sido evangelizado neste último ano? Por quem? 

SEGUIR MAIS DE PERTO A CRISTO 

Os votos não são arranjos em nossa convivência, acordos dependentes das intuições e vontades circunstanciais. As Constituições gerais descrevem cada um deles a partir de um gesto de Cristo: obedece-se seguindo Aquele que abandonou sua vontade na vontade do Pai, e o faz para alcançar mais plenamente a maturidade pessoal e a liberdade dos filhos de Deus (cf. CCGG 7 §1); empobrece-se seguindo Aquele que se fez pobre por nós, entregando-se, como servos humildes, à providência do Pai celeste (cf. CCGG 8 §1); vive-se castamente para pensar nas coisas do Senhor com o coração indiviso (cf. CCGG 9 §1).

Cada voto nos examina, nos expõe, nos provoca. A obediência tem produzido em você maturidade e liberdade ou o contrário? E por qual razão? Há coisas, garantias ou reservas na sua vida que existem exatamente para que você não precise se entregar à providência do Pai ou à confiança nos irmãos? E o que, hoje, divide o seu coração? Não precisa ser algo ilícito: pode ser o apego a um serviço, a dependência de algum reconhecimento, um ressentimento antigo, uma amizade ou relação… 

Quanto à vida fraterna, usamos uma medida que desconcerta: que os irmãos se amem e se nutram mutuamente mais do que uma mãe ama e nutre seu filho (CCGG 38). Pense em algum irmão da sua fraternidade, de preferência aquele que lhe exige um pouco mais estar próximo. O que faltaria, da sua parte, para que essa medida deixasse de ser teórica? 

ORAÇÃO E DEVOÇÃO 

O espírito de oração está menos na grade de horários do que no clima em que tudo o mais respira. Sobre Francisco, as Constituições afirmam: “(…) que se transformou não só em orante, mas na própria oração” (CCGG 19 §2), algo mais radical que simplesmente ter sido um homem de oração. 

Esse espírito tem âncoras concretas, e as Constituições as nomeiam: a Eucaristia celebrada em comum, como centro e fonte da comunhão fraterna (cf. CCGG 21 §2); a Liturgia das Horas, que não pertence a um lugar, mas à Fraternidade (cf. CCGG 23 §2); a meditação diária, esperada de todos os irmãos, sem exceção (cf. CCGG 24), sem permitir que a excessiva atividade venha a prejudicar este espírito, e que os meios de comunicação sejam usados com a necessária discrição (cf. CCGG 28). 

Faça as contas de uma semana comum sua: quantas horas de atividade, quantas de tela, quantas de oração pessoal (não a prevista no horário, mas aquela que, de fato, é realizada). O número costuma ser mais eloquente que qualquer reflexão. 

Ainda assim, não se pede apenas fidelidade ao que herdamos. Pede-se também criatividade: que a dimensão contemplativa seja incentivada sob novas formas, que respondam melhor à sensibilidade do mundo atual (cf. CCGG 29). Como têm sido suas orações comunitárias e pessoais, com que criatividade temos animado esses momentos? 

CONVERSÃO PERMANENTE 

Esta é a postura que mantém as outras honestas. Francisco, ao fim da vida, ainda dizia estar apenas começando; as Constituições gerais recolhem isso ao pedir que os irmãos renovem constantemente o espírito de conversão e continuamente comecem a servir o Senhor Deus (cf. CCGG 32 §1; 33 §2). Há também um sinal de verificação, e é bem prático: 

“Assim como São Francisco iniciou a vida de penitência servindo aos leprosos e neles viu a Jesus Cristo, da mesma forma (…) os irmãos procurem servir às pessoas mais humildes, reconhecendo nelas o Filho de Deus” (CCGG 32 §3). A sua penitência o aproxima de alguém que ninguém mais quer servir, ou se resolve toda em exercícios internos? Nomeie, se puder, um rosto concreto. 

E a reconciliação, que as Constituições apresentam em quatro direções, nesta ordem: com Deus, consigo mesmo, com a Fraternidade e com os homens (cf. CCGG 33 §1). Qual delas está pendente na sua vida agora? A segunda costuma ser a mais esquecida. 

Por fim, entre as formas de evangelizar, as Constituições incluem o testemunho da simples presença franciscana (cf. CCGG 84). Lembre-se que há lugares onde não se pede de você atividade nenhuma, mas que apenas esteja ali, desse modo. 

DIANTE DA CULTURA DE HOJE 

Nossa Forma de Vida se depara hoje com uma busca difusa de sentido e de experiências espirituais, e com uma espiritualidade plural que acaba levando cada um a montar para si uma religião sob medida. Não estamos isentos da influência desse anseio que toma a muitos de nosso tempo. Encontra também coisas boas: sensibilidade nova quanto à liberdade religiosa e ao diálogo inter-religioso, mais senso de responsabilidade entre as pessoas de fé, simpatia renovada pela pessoa de Jesus de Nazaré. E convive com a cultura da imagem exterior, do efêmero e da indiferença religiosa, ao lado de formas emotivas e frágeis de religiosidade. 

Apresentamos, então, três perguntas para ajudar na reflexão: 

  1. O que entra de negativo, por essas vias, na minha vida e o que tenho a aprender destas culturas? 
  2. O que esta vida radicalmente evangélica tem a dizer a esse cenário, e qual pode ser a minha contribuição concreta para evangelizar a cultura? 
  3. Onde a cultura da imagem exterior já encontrou morada no meu modo de ser frade, sem que eu percebesse?

A Nossa Identidade Franciscana - Documento OFM 2012: Uma pergunta que já é oração

A proposta deste retiro é refletir sobre quem somos e quem somos chamados a ser como Frades Menores e como Província, a partir dos textos fundantes (Regra e Constituições), em diálogo com a Igreja e com o mundo de hoje? Permita-se pensar um pouco nessa pergunta, sem tentar respondê-la de imediato.

Pensar em nossa identidade franciscana pode nos estimular a:

*retomar as Constituições gerais, qual “lei fundamental” que atualiza a Regra e orienta nossa vocação franciscana e que, sem esse retorno periódico, corre o risco de virar letra morta e esquecida;

*renovar a consciência de que o nosso carisma, como todos os outros, é um dom específico do Espírito para a Igreja e para o bem do mundo, que ultrapassa nossa opinião pessoal sobre como deve ser vivido;

*reforçar o sentido de pertença a Deus como consagrados e à Fraternidade universal e provincial, para evitar a aproximação com os padres diocesanos ou a confusão com outros carismas eclesiais, e recordar que todos nós, irmãos leigos e presbíteros, possuímos a mesma, única e fundamental identidade franciscana.

*recuperar e vivenciar a inspiração franciscana para promover os valores da justiça, da paz e da integridade da Criação.

*dialogar com as outras religiões e com a cultura de hoje, em atitude crítica e de escuta, de forma a não nos deixar condicionar, e nem mesmo nos fechar a elas, renovando nosso estilo franciscano na evangelização.

Qual dessas urgências toca mais de perto sua vida agora? Não se contente com uma reflexão abstrata da situação da vida dos Frades em geral, mas sobre sua vida.

A referência que nos funda

Tudo o que é vivido e discutido sobre nossa identidade converge, em última análise, para esses dois textos iniciais da Regra Bulada e de nossas Constituições Gerais. Leia-os com atenção, relendo-os se sentir necessidade de guardar a riqueza do que ali é afirmado:

Regra bulada 1

“A Regra e a vida dos Frades Menores é esta: observar o santo Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo, vivendo em obediência, sem nada de próprio e em castidade. Frei Francisco promete obediên­cia e reverência ao senhor Papa Honório e a seus sucessores canonicamente eleitos e à Igreja Romana. E os demais irmãos estejam obrigados a obedecer a Frei Francisco e a seus sucessores”.

CCGG ART. 1

§1. A Ordem dos Frades Menores, fundado por São Francisco de Assis, é uma Fraternidade1 na qual, mediante a profissão religiosa, os frades, seguindo mais de perto Cristo, movidos pelo Espírito Santo, se doam totalmente a Deus amado sobre todas as coisas, vivendo o Evangelho na Igreja, segundo a forma observada e proposta por São Francisco.

§2. Quais seguidores de São Francisco, os Frades devem conduzir uma vida radicalmente evangélica: vivendo em espírito de oração e devoção e em comunhão fraterna, dando testemunho de penitência e de minoridade, levando a todo o mundo o anúncio do Evangelho, com caridade para com todos os homens, pregando, com os fatos, reconciliação, paz e justiça, e manifestando sumo respeito pelo criado.

Procure fixar uma frase destes dois textos, identificando qual despertou maior interesse ou curiosidade. Talvez seja mais importante se deter naquela que mais pesou ser recordado. Pense sobre ela por algum tempo e, quando julgar suficiente, devolva-a a Deus como puder: em uma oração de louvor, pedido, ou mesmo repetindo-a silenciosamente.

Pergunte-se: o que você pode fazer concretamente, nos próximos dias, para fazer nascer algo daquilo que verdadeiramente escutou?

Quatro janelas para a mesma identidade

Nossa identidade assume alguns pressupostos que constituem o sustento indispensável para compreender, à luz da fé, o horizonte espiritual de São Francisco de Assis, entre os quais não podem faltar os seguintes: a fé profunda na paternidade de Deus, a sequela radical de Cristo, a obediência ao santo Evangelho e a observância dos conselhos evangélicos, a posse do Espírito do Senhor como primado absoluto da vida, a comunhão com a Igreja, a necessidade indeclinável de manter vivo o espírito de oração e devoção, a expropriação como caminho de liberdade e de libertação, a pureza do coração como forma privilegiada de expropriação, a missão (enviados como Jesus) qual componente essencial da vocação, a busca incessante da paz.

À luz desses pressupostos, leia esses trechos da Regra Bulada, que tocam diferentes dimensões da vida franciscana.

A altíssima pobreza: “Os frades não se apropriem de nada, nem de casa, nem de lugar, nem de coisa alguma. E como peregrinos e forasteiros neste mundo, servindo ao Senhor em pobreza e humildade, peçam esmola com confiança; e não devem envergonhar-se, porque o Senhor se fez pobre por nós neste mundo. Essa é aquela sublimidade da altíssima pobreza que vos constituiu, meus irmãos caríssimos, herdeiros e reis do reino dos céus, vos fez pobres de coisas e ricos de virtude. Seja essa vossa porção de herança que conduz à terra dos vivos. Aderindo totalmente a essa pobreza, irmãos diletíssimos, nenhuma outra coisa jamais queirais ter debaixo do céu em nome de Nosso Senhor Jesus Cristo” (RB 6,1-6).

Onde, em sua vida concreta, a pobreza deixou de ser caminho de liberdade e se tornou apenas ausência de coisas ou, ao contrário, onde as coisas voltaram a se acumular sem que você notasse?

A perseverança e o Espírito do Senhor: “Admoesto, pois, e exorto no Senhor Jesus Cristo a que os irmãos se acautelem de toda soberba, vanglória, inveja, avareza, cuidados ou preocupações deste mundo, detração e murmuração; e os que não sabem ler não se preocupem em aprender; mas atendam a que, acima de tudo, devem desejar possuir o Espírito do Senhor e seu santo modo de operar, rezar sempre a ele com o coração puro e ter humildade e paciência na perseguição e na enfermidade e amar aqueles que nos perseguem, repreendem e censuram, porque diz o Senhor: Amai vossos inimigos e rezai por aqueles que vos perseguem e caluniam. Bem-aventurados os que sofrem perseguição por causa da justiça, porque deles é o reino dos céus. Aquele, porém, que perseverar até ao fim, este será salvo” (RB 10,7-12).

São Francisco nomeia, sem rodeios, o que afasta um frade do Espírito do Senhor: soberba, vanglória, inveja, avareza, as preocupações do mundo, a detração, a murmuração. Releia essa lista devagar e note onde alguma delas encontrou espaço em você nos últimos meses. Depois, note também o outro lado: o que significa, para você, hoje, “desejar possuir o Espírito do Senhor” mais do que qualquer segurança?

A vocação missionária: “Se alguns dos irmãos por divina inspiração quiserem ir para o meio dos sarracenos e outros infiéis, peçam licença a seus Ministros provinciais. Os Ministros, porém, não concedam a ninguém licença de ir, a não ser àqueles que julgarem idôneos para serem enviados” (RB 12,1-3).

A missão nasce da inspiração divina, e se confirma pelo envio da fraternidade, nunca por decisão isolada. Pergunte-se onde, na sua vida, você tem confundido vontade própria com chamado, ou, o inverso, onde tem esperado licença demais para dar um passo que já lhe parecia claro.

A pregação: “Admoesto também e exorto os mesmos irmãos a que, na pregação que fazem, seja sua linguagem examinada e casta, para a utilidade e edificação do povo, anunciando-lhe, com brevidade de palavra, os vícios e as virtudes, o castigo e a glória; porque o Senhor, sobre a terra, usou de palavra breve” (RB 9,4-5).

Jesus, diz São Francisco, usou de palavra breve. Vale perguntar se a sua própria palavra nas homilias, nas conversas, no que escreve, ainda serve à edificação de quem escuta, ou se, em algum ponto, passou a servir mais a si mesmo.

Nenhuma destas dimensões se sustenta isolada das outras e nenhuma se vive fora do tempo em que estamos. A mesma pobreza, a mesma perseverança, a mesma missão, a mesma pregação precisam ser confrontadas com a Igreja e a cultura concretas de hoje, sem se deixar absorver por elas e sem se fechar a elas.

Como pergunta final, vale refletir o que na cultura ao seu redor (na missão que lhe foi confiada, na cidade onde vive, nas conversas que tem dentro e fora da fraternidade) dificulta hoje, de modo particular, viver estas dimensões? E o que, nessa mesma cultura, a Regra teria a acolher, sem trair o que é essencial?