Carisma - Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil - OFM

Presépio: uma tradição franciscana

Presépio: uma tradição franciscana

O mês de dezembro é marcado pela intensa movimentação nas ruas, no comércio popular e nos shoppings. Os prédios, ruas e casas já começam a ser enfeitadas de vermelho e verde, luzes coloridas, bonecos de neve e papais noéis. Cenas inusitadas para o calor do verão brasileiro. Uma das expressões mais significantes do Natal é o presépio. Feito de diversos materiais, a representação da encarnação do Senhor ganha espaço em meio às diversas decorações.

Trata-se de uma das mais fortes tradições franciscanas, surgida em Greccio, na Itália, no ano de 1223. Vejamos o relato segundo Tomás de Celano:

“Havia naquela terra um homem de nome João, de boa fama, mas de vida melhor, a quem o bem-aventurado Francisco amava com especial afeição, porque, como fosse muito nobre e louvável em sua terra, tendo desprezado a nobreza da carne, seguiu a nobreza do espírito. E o bem-aventurado Francisco, como muitas vezes acontecia, quase quinze dias antes do Natal do Senhor, mandou que ele fosse chamado e disse-lhe: ‘Se desejas que celebremos, em Greccio, a presente festividade do Senhor, apressa-te e prepara diligentemente as coisas que te digo. Pois quero celebrar a memória daquele Menino que nasceu em Belém e ver de algum modo, com os olhos corporais, os apuros e necessidades da infância dele, como foi reclinado no presépio e como, estando presentes o boi e o burro, foi colocado sobre o feno’. O bom e fiel homem, ouvindo isto, correu mais apressadamente e preparou no predito lugar tudo o que o santo dissera.

E aproximou-se o dia da alegria, chegou o tempo da exultação. Os irmãos foram chamados de muitos lugares; homens e mulheres daquela terra, com ânimos exultantes, preparam, segundo suas possibilidades, velas e tochas para iluminar a noite que com o astro cintilante iluminou todos os dias e anos. Veio finalmente o santo de Deus e, encontrando tudo preparado, viu e alegrou-se. E, de fato, prepara-se o presépio, traz-se o feno, são conduzidos o boi e o burro. Ali se honra a simplicidade, se exalta a pobreza, se elogia a humildade; e de Greccio se fez com que uma nova Belém. Ilumina-se a noite como o dia e torna-se deliciosa para os homens e animais. As pessoas chegam ao novo mistério e alegram-se com novas alegrias. O bosque faz ressoar as vozes, e as rochas respondem aos que se rejubilam. Os irmãos cantam, rendendo os devidos louvores ao Senhor, e toda a noite dança de júbilo. O santo de Deus está de pé diante do presépio, cheio de suspiros, contrito de piedade e transbordante de admirável alegria.” (Cel 30,4).

No 1º domingo do Advento,o Papa Francisco visitou o Santuário Franciscano do Presépio de Greccio. “Não podemos deixar-nos iludir pela riqueza e por tantas propostas efémeras de felicidade. Jesus nasceu pobre, levou uma vida simples, para nos ensinar a identificar e a viver do essencial”, escreveu o Papa na sua Carta Apostólica sobre o Presépio (veja abaixo).

Confira neste Especial os locais onde haverá a Exposição Franciscana de Presépios no território da Província.

Admirável sinal: Carta Apostólica do Papa sobre o presépio

 

 

Admirável sinal: Carta Apostólica do Papa sobre o presépio

Leia na íntegra a nova Carta Apostólica do Papa Francisco: “Admirabile signum”.

CARTA APOSTÓLICA

ADMIRABILE SIGNUM

DO SANTO PADRE FRANCISCO

SOBRE O SIGNIFICADO E VALOR DO PRESÉPIO

1.        O SINAL ADMIRÁVEL do Presépio, muito amado pelo povo cristão, não cessa de suscitar maravilha e enlevo. Representar o acontecimento da natividade de Jesus equivale a anunciar, com simplicidade e alegria, o mistério da encarnação do Filho de Deus. De facto, o Presépio é como um Evangelho vivo que transvaza das páginas da Sagrada Escritura. Ao mesmo tempo que contemplamos a representação do Natal, somos convidados a colocar-nos espiritualmente a caminho, atraídos pela humildade d’Aquele que Se fez homem a fim de Se encontrar com todo o homem, e a descobrirmos que nos ama tanto, que Se uniu a nós para podermos, também nós, unir-nos a Ele.

Com esta Carta, quero apoiar a tradição bonita das nossas famílias prepararem o Presépio, nos dias que antecedem o Natal, e também o costume de o armarem nos lugares de trabalho, nas escolas, nos hospitais, nos estabelecimentos prisionais, nas praças… Trata-se verdadeiramente dum exercício de imaginação criativa, que recorre aos mais variados materiais para produzir, em miniatura, obras-primas de beleza. Aprende-se em criança, quando o pai e a mãe, juntamente com os avós, transmitem este gracioso costume, que encerra uma rica espiritualidade popular. Almejo que esta prática nunca desapareça; mais, espero que a mesma, onde porventura tenha caído em desuso, se possa redescobrir e revitalizar.

2.        A origem do Presépio fica-se a dever, antes de mais nada, a alguns pormenores do nascimento de Jesus em Belém, referidos no Evangelho. O evangelista Lucas limita-se a dizer que, tendo-se completado os dias de Maria dar à luz, «teve o seu filho primogênito, que envolveu em panos e recostou numa manjedoura, por não haver lugar para eles na hospedaria» (2, 7). Jesus é colocado numa manjedoura, que, em latim, se diz praesepium, donde vem a nossa palavra presépio.

Ao entrar neste mundo, o Filho de Deus encontra lugar onde os animais vão comer. A palha torna-se a primeira enxerga para Aquele que Se há de revelar como «o pão vivo, o que desceu do céu» (Jo 6, 51). Uma simbologia, que já Santo Agostinho, a par doutros Padres da Igreja, tinha entrevisto quando escreveu: «Deitado numa manjedoura, torna-Se nosso alimento».[1] Na realidade, o Presépio inclui vários mistérios da vida de Jesus, fazendo-os aparecer familiares à nossa vida diária.

Passemos agora à origem do Presépio, tal como nós o entendemos. A mente leva-nos a Gréccio, na Valada de Rieti; aqui se deteve São Francisco, provavelmente quando vinha de Roma onde recebera, do Papa Honório III, a aprovação da sua Regra em 29 de novembro de 1223. Aquelas grutas, depois da sua viagem à Terra Santa, faziam-lhe lembrar de modo particular a paisagem de Belém. E é possível que, em Roma, o «Poverello» de Assis tenha ficado encantado com os mosaicos, na Basílica de Santa Maria Maior, que representam a natividade de Jesus e se encontram perto do lugar onde, segundo uma antiga tradição, se conservam precisamente as tábuas da manjedoura.

As Fontes Franciscanas narram, de forma detalhada, o que aconteceu em Gréccio. Quinze dias antes do Natal, Francisco chamou João, um homem daquela terra, para lhe pedir que o ajudasse a concretizar um desejo: «Quero representar o Menino nascido em Belém, para de algum modo ver com os olhos do corpo os incómodos que Ele padeceu pela falta das coisas necessárias a um recém-nascido, tendo sido reclinado na palha duma manjedoura, entre o boi e o burro».[2] Mal acabara de o ouvir, o fiel amigo foi preparar, no lugar designado, tudo o que era necessário segundo o desejo do Santo. No dia 25 de dezembro, chegaram a Greccio muitos frades, vindos de vários lados, e também homens e mulheres das casas da região, trazendo flores e tochas para iluminar aquela noite santa. Francisco, ao chegar, encontrou a manjedoura com palha, o boi e o burro. À vista da representação do Natal, as pessoas lá reunidas manifestaram uma alegria indescritível, como nunca tinham sentido antes. Depois o sacerdote celebrou solenemente a Eucaristia sobre a manjedoura, mostrando também deste modo a ligação que existe entre a Encarnação do Filho de Deus e a Eucaristia. Em Greccio, naquela ocasião, não havia figuras: o Presépio foi formado e vivido pelos que estavam presentes.[3]

Assim nasce a nossa tradição: todos à volta da gruta e repletos de alegria, sem qualquer distância entre o acontecimento que se realiza e as pessoas que participam no mistério.

O primeiro biógrafo de São Francisco, Tomás de Celano, lembra que naquela noite, à simples e comovente representação se veio juntar o dom duma visão maravilhosa: um dos presentes viu que jazia na manjedoura o próprio Menino Jesus. Daquele Presépio do Natal de 1223, «todos voltaram para suas casas cheios de inefável alegria»[4].

3.        Com a simplicidade daquele sinal, São Francisco realizou uma grande obra de evangelização. O seu ensinamento penetrou no coração dos cristãos, permanecendo até aos nossos dias como uma forma genuína de repropor, com simplicidade, a beleza da nossa fé. Aliás, o próprio lugar onde se realizou o primeiro Presépio sugere e suscita estes sentimentos. Greccio torna-se um refúgio para a alma que se esconde na rocha, deixando-se envolver pelo silêncio.

Por que motivo suscita o Presépio tanto enlevo e nos comove? Antes de mais nada, porque manifesta a ternura de Deus. Ele, o Criador do universo, abaixa-Se até à nossa pequenez. O dom da vida, sempre misterioso para nós, fascina-nos ainda mais ao vermos que Aquele que nasceu de Maria é a fonte e o sustento de toda a vida. Em Jesus, o Pai deu-nos um irmão, que vem procurar-nos quando estamos desorientados e perdemos o rumo, e um amigo fiel, que está sempre ao nosso lado; deu-nos o seu Filho, que nos perdoa e levanta do pecado.

Armar o Presépio em nossas casas ajuda-nos a reviver a história sucedida em Belém. Naturalmente os Evangelhos continuam a ser a fonte, que nos permite conhecer e meditar aquele Acontecimento; mas, a sua representação no Presépio ajuda a imaginar as várias cenas, estimula os afetos, convida a sentir-nos envolvidos na história da salvação, contemporâneos daquele evento que se torna vivo e atual nos mais variados contextos históricos e culturais.

De modo particular, desde a sua origem franciscana, o Presépio é um convite a «sentir», a «tocar» a pobreza que escolheu, para Si mesmo, o Filho de Deus na sua encarnação, tornando-se assim, implicitamente, um apelo para O seguirmos pelo caminho da humildade, da pobreza, do despojamento, que parte da manjedoura de Belém e leva até à Cruz, e um apelo ainda a encontrá-Lo e servi-Lo, com misericórdia, nos irmãos e irmãs mais necessitados (cf. Mt 25, 31-46).

4.        Gostava agora de repassar os vários sinais do Presépio para apreendermos o significado que encerram. Em primeiro lugar, representamos o céu estrelado na escuridão e no silêncio da noite. Fazemo-lo não apenas para ser fiéis às narrações do Evangelho, mas também pelo significado que possui. Pensemos nas vezes sem conta que a noite envolve a nossa vida. Pois bem, mesmo em tais momentos, Deus não nos deixa sozinhos, mas faz-Se presente para dar resposta às questões decisivas sobre o sentido da nossa existência: Quem sou eu? Donde venho? Por que nasci neste tempo? Por que amo? Por que sofro? Por que hei de morrer? Foi para dar uma resposta a estas questões que Deus Se fez homem. A sua proximidade traz luz onde há escuridão, e ilumina a quantos atravessam as trevas do sofrimento (cf. Lc 1, 79).

Merecem também uma referência as paisagens que fazem parte do Presépio; muitas vezes aparecem representadas as ruínas de casas e palácios antigos que, nalguns casos, substituem a gruta de Belém tornando-se a habitação da Sagrada Família. Parece que estas ruínas se inspiram na Legenda Áurea, do dominicano Jacopo de Varazze (século XIII), onde se refere a crença pagã segundo a qual o templo da Paz, em Roma, iria desabar quando desse à luz uma Virgem. Aquelas ruínas são sinal visível sobretudo da humanidade decaída, de tudo aquilo que cai em ruína, que se corrompe e definha. Este cenário diz que Jesus é a novidade no meio dum mundo velho, e veio para curar e reconstruir, para reconduzir a nossa vida e o mundo ao seu esplendor originário.

5.        Uma grande emoção se deveria apoderar de nós, ao colocarmos no Presépio as montanhas, os riachos, as ovelhas e os pastores! Pois assim lembramos, como preanunciaram os profetas, que toda a criação participa na festa da vinda do Messias. Os anjos e a estrela-cometa são o sinal de que também nós somos chamados a pôr-nos a caminho para ir até à gruta adorar o Senhor.

«Vamos a Belém ver o que aconteceu e que o Senhor nos deu a conhecer» (Lc 2, 15): assim falam os pastores, depois do anúncio que os anjos lhes fizeram. É um ensinamento muito belo, que nos é dado na simplicidade da descrição. Ao contrário de tanta gente ocupada a fazer muitas outras coisas, os pastores tornam-se as primeiras testemunhas do essencial, isto é, da salvação que nos é oferecida. São os mais humildes e os mais pobres que sabem acolher o acontecimento da Encarnação. A Deus, que vem ao nosso encontro no Menino Jesus, os pastores respondem, pondo-se a caminho rumo a Ele, para um encontro de amor e de grata admiração. É precisamente este encontro entre Deus e os seus filhos, graças a Jesus, que dá vida à nossa religião e constitui a sua beleza singular, que transparece de modo particular no Presépio.

6.        Nos nossos Presépios, costumamos colocar muitas figuras simbólicas. Em primeiro lugar, as de mendigos e pessoas que não conhecem outra abundância a não ser a do coração. Também estas figuras estão próximas do Menino Jesus de pleno direito, sem que ninguém possa expulsá-las ou afastá-las dum berço de tal modo improvisado que os pobres, ao seu redor, não destoam absolutamente. Antes, os pobres são os privilegiados deste mistério e, muitas vezes, aqueles que melhor conseguem reconhecer a presença de Deus no meio de nós.

No Presépio, os pobres e os simples lembram-nos que Deus Se faz homem para aqueles que mais sentem a necessidade do seu amor e pedem a sua proximidade. Jesus, «manso e humilde de coração» (Mt 11, 29), nasceu pobre, levou uma vida simples, para nos ensinar a identificar e a viver do essencial. Do Presépio surge, clara, a mensagem de que não podemos deixar-nos iludir pela riqueza e por tantas propostas efémeras de felicidade. Como pano de fundo, aparece o palácio de Herodes, fechado, surdo ao jubiloso anúncio. Nascendo no Presépio, o próprio Deus dá início à única verdadeira revolução que dá esperança e dignidade aos deserdados, aos marginalizados: a revolução do amor, a revolução da ternura. Do Presépio, com meiga força, Jesus proclama o apelo à partilha com os últimos como estrada para um mundo mais humano e fraterno, onde ninguém seja excluído e marginalizado.

Muitas vezes, as crianças (mas os adultos também!) gostam de acrescentar, no Presépio, outras figuras que parecem não ter qualquer relação com as narrações do Evangelho. Contudo esta imaginação pretende expressar que, neste mundo novo inaugurado por Jesus, há espaço para tudo o que é humano e para toda a criatura. Do pastor ao ferreiro, do padeiro aos músicos, das mulheres com a bilha de água ao ombro às crianças que brincam… tudo isso representa a santidade do dia a dia, a alegria de realizar de modo extraordinário as coisas de todos os dias, quando Jesus partilha connosco a sua vida divina.

7.        A pouco e pouco, o Presépio leva-nos à gruta, onde encontramos as figuras de Maria e de José. Maria é uma mãe que contempla o seu Menino e O mostra a quantos vêm visitá-Lo. A sua figura faz pensar no grande mistério que envolveu esta jovem, quando Deus bateu à porta do seu coração imaculado. Ao anúncio do anjo que Lhe pedia para Se tornar a mãe de Deus, Maria responde com obediência plena e total. As suas palavras – «eis a serva do Senhor, faça-se em Mim segundo a tua palavra» (Lc 1, 38) – são, para todos nós, o testemunho do modo como abandonar-se, na fé, à vontade de Deus. Com aquele «sim», Maria tornava-Se mãe do Filho de Deus, sem perder – antes, graças a Ele, consagrando – a sua virgindade. N’Ela, vemos a Mãe de Deus que não guarda o seu Filho só para Si mesma, mas pede a todos que obedeçam à palavra d’Ele e a ponham em prática (cf. Jo 2, 5).

Ao lado de Maria, em atitude de quem protege o Menino e sua mãe, está São José. Geralmente, é representado com o bordão na mão e, por vezes, também segurando um lampião. São José desempenha um papel muito importante na vida de Jesus e Maria. É o guardião que nunca se cansa de proteger a sua família. Quando Deus o avisar da ameaça de Herodes, não hesitará a pôr-se em viagem emigrando para o Egito (cf. Mt 2, 13-15). E depois, passado o perigo, reconduzirá a família para Nazaré, onde será o primeiro educador de Jesus, na sua infância e adolescência. José trazia no coração o grande mistério que envolvia Maria, sua esposa, e Jesus; homem justo que era, sempre se entregou à vontade de Deus e pô-la em prática.

8.        O coração do Presépio começa a palpitar, quando colocamos lá, no Natal, a figura do Menino Jesus. Assim Se nos apresenta Deus, num menino, para fazer-Se acolher nos nossos braços. Naquela fraqueza e fragilidade, esconde o seu poder que tudo cria e transforma. Parece impossível, mas é assim: em Jesus, Deus foi criança e, nesta condição, quis revelar a grandeza do seu amor, que se manifesta num sorriso e nas suas mãos estendidas para quem quer que seja.

O nascimento duma criança suscita alegria e encanto, porque nos coloca perante o grande mistério da vida. Quando vemos brilhar os olhos dos jovens esposos diante do seu filho recém-nascido, compreendemos os sentimentos de Maria e José que, olhando o Menino Jesus, entreviam a presença de Deus na sua vida.

«De facto, a vida manifestou-se» (1 Jo 1, 2): assim o apóstolo João resume o mistério da Encarnação. O Presépio faz-nos ver, faz-nos tocar este acontecimento único e extraordinário que mudou o curso da história e a partir do qual também se contam os anos, antes e depois do nascimento de Cristo.

O modo de agir de Deus quase cria vertigens, pois parece impossível que Ele renuncie à sua glória para Se fazer homem como nós. Que surpresa ver Deus adotar os nossos próprios comportamentos: dorme, mama ao peito da mãe, chora e brinca, como todas as crianças. Como sempre, Deus gera perplexidade, é imprevisível, aparece continuamente fora dos nossos esquemas. Assim o Presépio, ao mesmo tempo que nos mostra Deus tal como entrou no mundo, desafia-nos a imaginar a nossa vida inserida na de Deus; convida a tornar-nos seus discípulos, se quisermos alcançar o sentido último da vida.

9.        Quando se aproxima a festa da Epifania, colocam-se no Presépio as três figuras dos Reis Magos. Tendo observado a estrela, aqueles sábios e ricos senhores do Oriente puseram-se a caminho rumo a Belém para conhecer Jesus e oferecer-Lhe de presente ouro, incenso e mirra. Estes presentes têm também um significado alegórico: o ouro honra a realeza de Jesus; o incenso, a sua divindade; a mirra, a sua humanidade sagrada que experimentará a morte e a sepultura.

Ao fixarmos esta cena no Presépio, somos chamados a refletir sobre a responsabilidade que cada cristão tem de ser evangelizador. Cada um de nós torna-se portador da Boa-Nova para as pessoas que encontra, testemunhando a alegria de ter conhecido Jesus e o seu amor; e fá-lo com ações concretas de misericórdia.

Os Magos ensinam que se pode partir de muito longe para chegar a Cristo: são homens ricos, estrangeiros sábios, sedentos de infinito, que saem para uma viagem longa e perigosa e que os leva até Belém (cf. Mt 2, 1-12). À vista do Menino Rei, invade-os uma grande alegria. Não se deixam escandalizar pela pobreza do ambiente; não hesitam em pôr-se de joelhos e adorá-Lo. Diante d’Ele compreendem que Deus, tal como regula com soberana sabedoria o curso dos astros, assim também guia o curso da história, derrubando os poderosos e exaltando os humildes. E de certeza, quando regressaram ao seu país, falaram deste encontro surpreendente com o Messias, inaugurando a viagem do Evangelho entre os gentios.

10.      Diante do Presépio, a mente corre de bom grado aos tempos em que se era criança e se esperava, com impaciência, o tempo para começar a construí-lo. Estas recordações induzem-nos a tomar consciência sempre de novo do grande dom que nos foi feito, transmitindo-nos a fé; e ao mesmo tempo, fazem-nos sentir o dever e a alegria de comunicar a mesma experiência aos filhos e netos. Não é importante a forma como se arma o Presépio; pode ser sempre igual ou modificá-la cada ano. O que conta, é que fale à nossa vida. Por todo o lado e na forma que for, o Presépio narra o amor de Deus, o Deus que Se fez menino para nos dizer quão próximo está de cada ser humano, independentemente da condição em que este se encontre.

Queridos irmãos e irmãs, o Presépio faz parte do suave e exigente processo de transmissão da fé. A partir da infância e, depois, em cada idade da vida, educa-nos para contemplar Jesus, sentir o amor de Deus por nós, sentir e acreditar que Deus está connosco e nós estamos com Ele, todos filhos e irmãos graças àquele Menino Filho de Deus e da Virgem Maria. E educa para sentir que nisto está a felicidade. Na escola de São Francisco, abramos o coração a esta graça simples, deixemos que do encanto nasça uma prece humilde: o nosso «obrigado» a Deus, que tudo quis partilhar connosco para nunca nos deixar sozinhos.

Dado em Gréccio, no Santuário do Presépio, a 1 de dezembro de 2019, sétimo do meu pontificado.

[Franciscus]


[1] Santo Agostinho, Sermão 189, 4.
[2] Fontes Franciscanas, 468.
[3] Cf. Tomás de Celano, Vita Prima, 85: Fontes Franciscanas, 469.
[4] Ibid., 86: o. c., 470.

Os encontros de Frei Róger com os presépios

Moacir Beggo

Rio de Janeiro (RJ) – O museólogo e coordenador do Departamento de Bens Patrimoniais da Província da Imaculada Conceição, Frei Róger Brunorio, pensa presépios o ano inteiro e em todo final de ano intensifica esse pensamento, como virou rotina em sua vida há nove anos. Isso porque ele está à frente de duas mostras de presépios como curador: a Exposição de Longa Duração do Seminário Frei Galvão, em Guaratinguetá –SP; e Exposição no Convento Santo Antônio, no Largo da Carioca (RJ). A exposição paulista está na sétima edição e foi renovada no final de outubro e a exposição carioca será aberta na segunda-feira, dia 9 de dezembro.

A Fraternidade Seminário Frei Galvão, dentro do espírito do Sínodo para a Amazônia, que estava no seu encerramento, e da Encíclica Laudato Si’, pediu para Frei Róger criar uma mostra com o tema “Nossa Casa Comum, santuário de Deus e do ser humano”, tendo em vista a grande quantidade de romeiros que passam pelo Centro de Acolhimento Frei Galvão. Para Frei Róger, o resultado foi melhor do que esperava. Criativo e provocador em suas mostras, o Sínodo deu elementos suficientes para colocar nos conjuntos que retratam o nascimento do Menino Deus os apelos do Sínodo e o Papa diante da ameaça da vida na Terra, especialmente na Amazônia.

Frei Róger também não escondia a alegria pela Carta Apostólica sobre o Presépio, “Admirável Sinal”, lançada pelo Papa Francisco no primeiro domingo do Advento. “Essa Carta, para mim, foi uma realização. Os textos que escrevi sobre presépios, durante anos, estão ali dentro. O que ele diz, a gente faz: ele fala dos marginalizados, dos pobres e dos oprimidos. Isso estava naquele presépio que representava excluídos da sociedade”, lembrou, referindo-se às críticas que recebeu de setores da Igreja por essa representação.

Segundo o frade, é importante, sim, trabalhar, atualizar a vinda de Cristo, o nascimento de Jesus, com a reflexão atual. “A partir de 2016, quando fui atacado, as pessoas vinham a mim e diziam: ‘Qual é o presépio polêmico deste ano?’ Eu digo: ‘O nascimento de Jesus é polêmico’. Senão, veja: Jesus nasceu na pobreza, no meio dos pobres, dos marginalizados, porque se Ele estivesse num castelo, talvez a gente dissesse às pessoas mais simples para se achegarem. Também naquela gruta, as pessoas tivessem dificuldades de ir lá pela simplicidade do lugar. Mas a gruta é acessível a todos. O castelo não é acessível a todos. Ele tem uma muralha, proteção. Na gruta, não tem. Está aberta. Todas as pessoas simples conseguem perceber rápido isso”, explicou.

Para ele, o presépio napolitano e o presépio barroco, são lindíssimos enquanto arte, enquanto temática, mas eles não trazem uma reflexão que provoca em nós uma mudança de imediato. “Eles têm muito luxo nas roupas, nas indumentárias colocadas ali. Porque têm a ver com a época. Era a época da contrarreforma, da exploração do ouro, sobretudo na América. O presépio neste estilo é importante enquanto obra religiosa e obra de beleza. Mas ele não é provocativo para se levar a uma mudança. Eu tenho impressão que o presépio barroco, um presépio muito luxuoso, tem mais a ver com o panettone e os presentes. A festa de Natal reúne a família e pronto! Acabou. É lindo isso, mas quando a gente vê um presépio como esse aqui (da mostra de Guará), vestido com os trajes atuais, Deus se encarna na história de cada povo e na atualidade. Isso nos leva a uma provocação e o cenário é justamente para provocar uma situação que nos faça mudar e muda para melhor”, acrescentou.

Sobre esse processo criativo, o frade explica que pode fazer uma cenografia perfeita e não estar em sintonia com a peça. “Quando a gente faz uma exposição, ela tem um tema, que é o fio condutor para a reflexão”. Segundo ele, não se pode perder o foco, todo material usado na cenografia deve estar em harmonia com o presépio e tudo estar carregado de simbologia. “Esses blocos, do presépio boliviano em Guará, passam a ter um significado simbólico. Eles representam as edificações. As pedras representam a violência contra a cultura, os povos que migram de suas terras por causa da violência e sofrem mais violências em alguns países que chegam”, exemplificou mostrando o conjunto boliviano. Segundo ele, pelo menos seis países da região Pan-Amazôna estão representados nessa Mostra.

O Papa Francisco, de certa forma, aborda isso nessa Carta, enfatiza o curador. “Cada personagem tem um significado. O que a ovelha representa? Em qual personagem eu me vejo no presépio? Se a gente pensar, nesses anos todos mostrando exposições, a gente vê a riqueza que são os presépios. Tem presépios que têm ratos. Sim, porque é uma estrebaria. Isso é genial porque a gente não dá conta desse contexto. Veja o presépio barroco, ele é carregado de informações e é fácil não perceber os detalhes da mensagem central. As  indumentárias são riquíssimas, arquitetura monumental. O presépio, ao contrário, é totalmente despojamento. É estrebaria e pobreza. O menino Jesus estava envolto em um pano. Um tecido pobre e áspero”, acrescentou. Frei Roger explica que essa cenografia, feita para despertar em nós a reflexão, é feita nos dias atuais a partir dos Evangelhos de Lucas e Mateus, que narram a cena do nascimento de Jesus.

OS FRUTOS DA EXPOSIÇÃO PAULISTANA

Frei Roger explica que essa representação catequética começou na Mostra Franciscana do Convento São Francisco, em São Paulo, que neste ano completa 30 anos.

“Nessas três décadas, a exposição de São Paulo floresceu. A semente foi plantada, germinada e hoje tem muitos frutos. Uma das primeiras exposições depois de São Paulo foi no Santuário do Valongo, em Santos. Deve estar na 26ª edição. E o Frei Pedro Pinheiro foi o curador em SP por 16 anos. A Mostra dele era maravilhosa, concorrida e dava grande visibilidade. Ele trabalhava o tema durante o ano todo. Além de ser o curador, Frei Pedro é artista da pintura, da escultura, do desenho e da gravura. É um artista completo. Além disso, tinha uma equipe que trabalhava com ele. Quando ele saiu, ficou o Frei Airton, o Soneca, depois veio o Frei Marcos Melo e antes de mim, Frei Donizete, frade da Província de Minas Gerais. Eu cheguei em 2010 e fiquei até 2015. Trouxe minha experiência de frade museólogo e artista visual. Para a museologia, trabalhar muito com menos é mais. A cenografia tem que estar em comunhão com a obra. Tanto o Frei Pedro, como eu, e outros frades, damos um caráter de catequese e evangelização. As nossas exposições diferem das que são feitas às vezes em museus, galerias e shoppings. Nós temos conteúdo, forma e espiritualidade. E por que chama Exposição Franciscana de Presépios? Porque franciscana é a nossa espiritualidade, é o nosso olhar a partir do mistério da Encarnação”, detalhou.

Para o frade, uma pessoa também faz reflexão no museu. “O museu de Arte Sacra, se ele for administrado pela Igreja, tem um compromisso com a catequese e a evangelização. Ele tem um compromisso pastoral. Uma outra instituição que não é ligada à Igreja não tem esse compromisso com a pastoral. Então, nós, franciscanos, temos compromisso com a pastoral. Por isso, ela é franciscana. Claro que a cena da Natividade é a mesma para todos, mas tem um jeito próprio de apresentá-la. Como é que um franciscano aborda esse tema? Coloque o tema da Laudato Si’ para um franciscano, um beneditino e um carmelita. Cada um tem o seu modo de olhar, mas tudo vai para o mesmo encontro. Aqui vai aparecer completamente a espiritualidade franciscana. Essa também não é uma exposição internacional. Ela é internacional porque tem presépios de outros países. Mas não é o mais importante. Para nós, o mais importante da exposição, tanto eu como o Frei Pedro ou outros expositores, o ponto central é o nascimento, o mistério de Deus que se faz homem, que se despoja numa criança na manjedoura”, continuou.

“Em todos os nossos conventos, tudo está apontando para o Menino. O próprio presépio, por si só, exige de nós atenção, com humildade e reflexão. Por que está ali? Por que tem essa pedra? É só para ficar bonitinho? ‘O frei colocou para o anjo ficar no alto’?. Nossa, tem galhos secos. São reflexões a partir da própria encarnação. Posso fazer outras leituras além do tema que foi apresentado. A vinda de Jesus veio para regenerar toda a vida. Inclusive a árvore seca. Ele a renova e faz brotar. As pedras, aquilo que era escuridão, ele veio trazer luz. Isso é espiritualidade, catequese e pastoral. Isso é um compromisso com a evangelização”, ensinou o frade.

TRADIÇÃO AMEAÇADA NAS FAMÍLIAS

Nesses dez anos de exposições, Frei Róger observa que a tradição de montar presépios nas famílias já não é a mesma e fica visível a diminuição desta devoção. Segundo ele, é comum encontrar pessoas nas exposições que comentam: “Ah, frei, eu montava presépios…” Algumas pessoas, lembrou, doaram presépios porque estavam encaixotados há anos. “São vários motivos: as famílias diminuíram, as famílias estão muito nas grandes cidades e elas se diluem devido à escassez de tempo, as casas são menores, os apartamentos menores ainda e não têm espaços para colocar aquele número de peças. Nas exposições, incentivamos essa tradição fazendo o sorteio de um presépio. Todo visitante deixa o nome para o sorteio”, contou. Por outro lado, Frei Roger lembra que as lojas estão vendendo presépios. “Se tem venda, para onde vão esses presépios?”. Penso que pode até diminuído a tradição de se montar presépios nas casas, mas há uma chama acessa dessa linda tradição natalina. E que jamais deveria se apagar. Mesmo que o seu espaço é limitado há presépios de todos os tamanhos, gostos e até preços.

Para ele, fazer uma exposição pode ser esse estímulo às pessoas. Tanto que nas exposições, eu e o Frei Pedro sempre ficamos ali o tempo todo: “Não é porque somos os curadores, mas a gente quer ver o público, como ele se relaciona com cada presépio, para dar uma palavra pastoral e catequética”.

“Nesses anos todos, o meu presente de Natal é a exposição. No ano passado, tinha um presépio russo. Entrou uma moça com os pais. Ela mora no Rio e os pais vieram visitá-la. Quando ela viu esse presépio, começou a gritar. Ela jamais esperava vir ao convento – veio para trazer os pais – e se deparar com um presépio do seu país. Isso é maravilhoso. Por isso, na exposição, a gente procura ter diversidade de obras. E assim muitos encontros acontecem na mostra. Então, presépio é encontro.  Deus que vem se encontrar com a humanidade, que se encontra com o outro, que se encontra com Deus. A partir do presépio, a gente encontra outras pessoas, revê amigos. Toda exposição, mais dia ou menos dia, vai ter uma pessoa que diz: “Olha a fulana!” Pessoas que não se veem há tempos”, ensina.

 

ESPÍRITO ABERTO E HUMILDE

Uma pessoa que quiser conhecer a exposição precisa vir aberta para que possa contemplar e ver o verdadeiro sentido do Natal. “Nas nossas exposições não vai entrar árvore de natal, não vai entrar Papai Noel. Não somos uma vitrine de loja e nem estamos num shopping. Aqui o único patrocinador é o próprio Deus. Aqui, o nosso compromisso é mostrar a verdade, o verdadeiro espírito de Natal. Longe dessa coisa comercial. Todo visitante é bem-vindo. Inclusive, nas nossas exposições há visitantes que não são católicos. Porque vem pela arte e ela é uma expressão do sagrado”, incentivou.

O frade também pede para vir com humildade, porque se vier com arrogância, não vai entender uma cenografia. “Nossa, mas Jesus não usou toca’, podem dizer. A pessoa precisa compreender que aquele presépio é típico de um país, de um povo andino, do Peru ou Bolívia. E ele precisa vir com espírito de reflexão. É um espírito de encontro. Vou me encontrar com Deus, comigo e com os outros”, completou.

VENHA VISITAR

A Exposição de longa duração no Seminário Frei Galvão, com o tema “Nossa Casa Comum, santuário de Deus e dos homens”, fica aberta até 12 de outubro de 2020, na Av. Integração, 151, em Guaratinguetá (SP).

A Exposição do Convento Santo Antônio, que abriu no dia 9 de dezembro, tem como tema “De graça recebestes, de graça dai”. “Com esse tema, a gente quer trabalhar a gratuidade, a graça de Deus, que no seu infinito amor, na sua misericórdia e bondade imensa, vem se fazer presente em nós, vem se doar em nós. Não bastasse Ele nos criar, Ele traz o seu Filho para mostrar a visibilidade desse Deus que é amor. Isso é gratuidade, isso é graça”, explica Frei Róger.

A Mostra no Convento estará na antiga sala do Capítulo, com seu belo forro pintado com estilo rococó e frase em latim em honra a Santa Ana.

Convento Santo Antônio | 5ª Exposição Franciscana de Presépios

Tema: “De graça recebestes, de graça dai”

De 9 a 29 de dezembro
Segunda a sexta: das 9h às 18h
Sábado e domingo: das 9h às 11h

Endereço: Largo da Carioca, s/n
Rio de Janeiro (RJ)
(21) 2262-0129
conventosantoantonio.org.br