Carisma - Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil - OFM

Perdão de Assis: 2 de agosto

Apresentação

No calendário litúrgico franciscano, o dia 2 de agosto é dedicado à celebração da Festa de Nossa Senhora dos Anjos, popularmente conhecida como “Porciúncula”. Na introdução do texto litúrgico do missal e da liturgia das horas, se diz o seguinte:

“O Seráfico Pai Francisco, por singular devoção à Santíssima Virgem, consagrou especial afeição à capela de Nossa Senhora dos Anjos ou da Porciúncula. Aí deu início à Ordem dos Frades Menores e preparou a fundação das Clarissas; e aí completou felizmente o curso de seus dias sobre a terra. Foi aí também que o Santo Pai alcançou a célebre Indulgência , que os Sumos Pontífices confirmaram e estenderam a outras muitas igrejas. Para celebrar tantos e tão grandes favores ali recebidos de Deus, instituiu-se também esta Festa Litúrgica, como aniversário da consagração da pequenina ermida”.

 

A propósito da Porciúncula, o Santo Padre se expressou recentemente nos seguintes termos: “O caminho espiritual de São Francisco teve início em São Damião, mas o verdadeiro lugar amado, o coração pulsante da Ordem, onde a fundou e onde, por fim, entregou sua vida a Deus, foi a Porciúncula, a ‘pequena porção’, o cantinho junto à Mãe da Igreja; junto a Maria que, por sua fé tão firme e por seu viver tão inteiramente do amor e no amor com o Senhor, todas as gerações a chamarão bem-aventurada.”

Por Frei Régis Daher, OFM

O testemunho das Fontes Franciscanas

Diversos textos, das assim chamadas “Fontes Franciscanas”, falam do sentido e do valor que este lugar passou a ter na vida de São Francisco, e posteriormente considerado “cabeça e mãe dos Frades Menores”.

Legenda Perusina, cap. 8
• “Vendo o bem-aventurado Francisco que o Senhor queria aumentar o número de seus frades, disse-lhes um dia: ‘Caríssimos irmãos e meus filhinhos, vejo que o Senhor quer fazer crescer a nossa família. Parece-me que seria prudente e próprio de religiosos irmos pedir ao Senhor Bispo ou aos cônegos de S. Rufino ou ao abade do mosteiro de São Bento uma igreja pequena e pobre onde os frades posssam recitar as horas e, ao lado, uma casa pequena e pobre, de barro e de vimes, onde os frades possam descansar e fazer o que lhes for necessário.O lugar que agora habitamos já não é conveniente e a casa é exígua demais para nos abrigar, visto que aprouve ao Senhor multiplicar-nos. Foi então apresentar ao bispo o seu pedido, que lhe respondeu assim: “Irmão, não tenho igreja para vos dar”. Dirigiu-se em seguida aos cônegos de S. Rufino. Estes deram-lhe a mesma resposta. Foi dali ao mosteiro de São Bento do Monte Subásio. Falou ao abade como fizera ao bispo e aos cônegos, relatando-lhe a resposta que deles obtivera. O abade compadecido, depois de se aconselhar com os seus monges, resolveu com eles, como foi da vontade de Deus, entregar ao bem-aventurado Francisco e seus frades a igreja de Santa Maria da Porciúncula, a mais pobre que eles possuiam. Para o bem-aventurado Francisco era tudo quanto de há muito desejava. …

Não cabia em si de contente, com o benefício recebido: porque a igreja era dedicada à Mãe de Cristo; porque era muito pobre; e também pelo nome que era conhecida. Era com efeito chamada de Porciúncula, presságio seguro de que viria a ser cabeça e mãe dos pobres frades menores. O nome de Porciúncula tinha sido dado a esta igreja por ter sido construída numa porção acanhada de terreno que de há muito assim era chamada”

T.Celano, Vida I, cap. 9,21
• “Depois que o santo de Deus trocou de hábito e acabou de reparar a Igreja de São Damião, mudou-se para outro lugar próximo da cidade de Assis, … chamado Porciúncula, onde havia uma antiga igreja de Nossa Senhora Mãe de Deus, mas estava abandonada e nesse tempo não era cuidada por ninguém. Quando o santo de Deus a viu tão arruinada, entristeceu-se porque tinha grande devoção para com a Mãe de toda bondade, e passou a morar ali habitualmente. No tempo em que a reformou, estava no terceiro ano de sua conversão”

Espelho da Perfeição, cap. 83
• “Embora o Seráfico Pai soubesse que o reino dos céus é estabelecido em todos os lugares da terra… sabia, no entanto, por experiência, que Santa Maria dos Anjos havia sido contemplada com bençãos especiais… Por isso recomendava sempre os frades: ‘Meus filhos, tende cuidado de jamais abandonar este lugar. Se vos expulsarem por uma porta, entrai pela outra. Este lugar é sagrado, morada de Cristo e da Virgem Maria, sua bendita Mãe. Aqui, quando éramos apenas um pequeno número, o bom Deus nos multiplicou. Aqui ele iluminou a alma destes pequeninos com a luz de sua sabedoria, abrasou a nossa alma com o fogo de seu amor”

Espelho da Perfeição, cap. 84
• “Neste tempo nasceu a Ordem dos Frades Menores, multidão de homens que, então, começou a seguir o exemplo do Seráfico Pai. Clara, esposa de Cristo, recebeu nesta igreja a tonsura, despojando-se das pompas do mundo para seguir a Cristo. Aqui, para Cristo, a Santa Virgem Maria gerou os frades e as Pobres Damas, e, por meio deles, deu Cristo ao mundo. Aqui, estrada larga do mundo antigo tornou-se estreita e a coragem dos que foram chamados tornou-se maior. Aqui foi composta a Regra, a santa pobreza foi reabilitada, a vaidade humilhada e a cruz alçada às alturas. Se algumas vezes o Seráfico Pai sentiu-se conturbado e aflito, neste lugar reanimou-se, o seu espírito recuperou a paz interior. Aqui desaparece toda a dúvida. Por fim, aqui se concede aos homens tudo que o pai pediu por eles”.

Como São Francisco pediu e obteve a indulgência do perdão

Segundo o testemunho de Bartolomeu de Pisa, a origem da Indulgência da Porciúncula se deu assim:

Uma noite, do ano do Senhor de 1216, Francisco estava compenetrado na oração e na contemplação na igrejinha da Porciúncula, perto de Assis, quando, repentinamente, a igrejinha ficou repleta de uma vivíssima luz e Francisco viu sobre o altar o Cristo e à sua direita a sua Mãe Santíssima, circundados de uma multidão de anjos. Francisco, em silêncio e com a face por terra, adorou a seu Senhor.

Perguntaram-lhe, então, o que ele desejava para a salvação das almas. A resposta de Francisco foi imediata: “Santíssimo Pai, mesmo que eu seja um mísero pecador, te peço, que, a todos quantos arrependidos e confessados, virão a visitar esta igreja, lhes conceda amplo e generoso perdão, com uma completa remissão de todas as culpas”.

O Senhor lhe disse: “Ó Irmão Francisco, aquilo que pedes é grande, de coisas maiores és digno e coisas maiores tereis: acolho portanto o teu pedido, mas com a condição de que tu peças esta indulgência, da parte minha, ao meu Vigário na terra (Papa)”.

E imediatamente, Francisco se apresentou ao Pontífice Honório III que, naqueles dias encontrava-se em Perusia e com candura lhe narrou a visão que teve. O Papa o escutou com atenção e, depois de alguns esclarecimentos, deu a sua aprovação e disse: “Por quanto anos queres esta indulgência”? Francisco, destacadamente respondeu-lhe: “Pai santo, não peço por anos, mas por almas”.

E feliz, se dirigiu à porta, mas o Pontífice o reconvocou: “Como, não queres nenhum documento”? E Francisco respondeu-lhe: “Santo Pai, de Deus, Ele cuidará de manifestar a obra sua; eu não tenho necessidade de algum documento. Esta carta deve ser a Santíssima Virgem Maria, Cristo o Escrivão e os Anjos as testemunhas”.

E poucos dias mais tarde, junto aos Bispos da Úmbria, ao povo reunido na Porciúncula, Francisco anunciou a indulgência plenária e disse entre lágrimas:”Irmãos meus, quero mandar-vos todos ao paraíso!”

As condições para se receber a indulgência plenária

No dia 2 de agosto de cada ano (das 12 horas do dia 1º de agosto até as 24 horas do dia 2), pode se adquirir a Indulgência Plenária, com as seguintes condições:

• Visitando uma igreja paroquial, onde se reza o Credo, para afirmar a própria identidade cristã; e o Pai Nosso, para afirmar a própria dignidade de filhos de Deus recebida no Batismo;

• Confissão sacramental para estar em graça de Deus (oito dias antes ou depois);

• Participar da Eucaristia;

• Uma oração nas intenções do Papa.

A indulgência só pode ser lucrada uma vez.

Novena a Nossa Senhora dos Anjos

INTRODUÇÃO

“Embora o Seráfico Pai soubesse que o reino dos céus é estabelecido em todos os lugares da terra… sabia, no entanto, por experiência, que Santa Maria dos Anjos havia sido contemplada com bênçãos especiais… Por isso recomendava sempre os frades: ‘Meus filhos, tende cuidado de jamais abandonar este lugar. Se vos expulsarem por uma porta, entrai pela outra. Este lugar é sagrado, morada de Cristo e da Virgem Maria, sua bendita Mãe. Aqui, quando éramos apenas um pequeno número, o bom Deus nos multiplicou. Aqui ele iluminou a alma destes pequeninos com a luz de sua sabedoria, abrasou a nossa alma com o fogo de seu amor” (Espelho da Perfeição, cap. 83).

 “Neste tempo nasceu a Ordem dos Frades Menores, multidão de homens que, então, começou a seguir o exemplo do Seráfico Pai. Clara, esposa de Cristo, recebeu nesta igreja a tonsura, despojando-se das pompas do mundo para seguir a Cristo. Aqui, para Cristo, a Santa Virgem Maria gerou os frades e as Pobres Damas, e, por meio deles, deu Cristo ao mundo” (Espelho da Perfeição, cap. 84).

Ao iniciar a cada dia:

Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Amém.

* 1º DIA *

Ó Nossa Senhora dos Anjos, nós recorremos a vossa materna proteção, vós que sois a Mãe de Deus e a Mãe da Igreja. Diante de vosso Filho Salvador, intercedei por nós neste mundo. Aos pés da Cruz, vós recebestes a missão de ser a Mãe de todo gênero humano. Ensinai-nos a realizar a vontade do Pai, e defendei-nos de todos os males.

Por isso, com todos os Anjos do céu, vos saudamos: AVE-MARIA…


* 2º DIA *

Ó Virgem Maria, professamos com a nossa fé, vossa santa e Imaculada Conceição. O Todo Poderoso vos preservou do pecado, desde o vosso nascimento, em previsão dos méritos de Jesus Cristo. Sabemos que o pecado destrói a comunidade humana e é a causa de todos os males: guerras, divisões, injustiças. Ó Virgem pura, dai-nos a pureza de coração, e a retidão em nossas intenções, a fim de que sejamos mais felizes aqui na terra e no céu.

Por isso, com todos os anjos do céu vos saudamos; AVE-MARIA…


* 3º DIA *

Santa Maria, nós confessamos que vós sois a Mãe de Deus, a Mãe de Jesus, a Esposa predileta do Espírito Santo. Cremos na vossa maternidade Divina. Com toda generosidade, vós nos oferecestes o Salvador do mundo. Nos vossos braços Jesus é oferenda pura. Fazei ó Virgem Mãe, que jamais nos afastemos de vosso amado Filho, por mais difícil que seja a caminhada, mas estejamos prontos a levar a chama viva da fé e da felicidade em direção à Pátria definitiva, o céu.

Por isso, com todos os anjos do céu, vos saudamos: AVE- MARIA…


* 4º DIA *

“Eis aqui a serva do Senhor, faça-se em mim segundo a vossa Palavra”. Toda a vossa vida, Maria, foi constituída em realizar a vontade de Deus, a responder a em chamado tão sublime, não somente com palavra, pois a vida inteira tornou-se uma só resposta de obediência. Em vós a fidelidade aos planos de do Pai chegou à perfeição. A Palavra de Deus contida na Bíblia, é luz, é vida, é salvação. Hoje, ó Virgem, Rainha dos Anjos, ensinai-nos a acolher com generosidade, a Palavra de vosso Filho em nossos corações, como vós a acolhestes no dia da Anunciação. Queremos também ser fiéis discípulos de Jesus Cristo.

Por isso, com todos os Anjos do céu, vos saudamos: AVE-MARIA…


* 5º DIA *

Com toda a confiança, nós vos suplicamos, ó Virgem Mãe, amparai de uma maneira especial as nossas famílias. Fazei que elas tenham por modelo a Família de Nazaré, que apesar de conhecer as dificuldades, o trabalho de cada dia, a pobreza, permanecia unida no amor, na compreensão e na fé. Não deixais a divisão abalar os alicerces de nossos lares. Que em nossas mesas jamais falte o pão necessário, fruto do trabalho e do dom da Providência. Conduzi os esposos na unidade, as crianças e os jovens através de uma educação sólida e cristã.

Por isso, com todos os Anjos do céu, vos saudamos: AVE-MARIA…


* 6º DIA *

Salve, ó Rainha dos Anjos! Salve, ó Rainha do Céu e da terra! Salve, ó Rainha nossa! Somos felizes por termos recebido do Pai uma Mãe cheia de graça, cheia de amor e disponibilidade, para nos dirigir e nos orientar. Toda a vossa vida se resumiu em servir, em acolher, em confortar aqueles que sofrem; enfim, em amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo. Dai-nos a perseverança no caminho do bem e ensinai-nos a ser verdadeiros seguidores de Jesus Cristo, agora e na hora da nossa morte.

Por isso, com todos os Anjos do céu, vos saudamos: AVE-MARIA…


* 7º DIA *

Intercedei por nós, Santíssima Virgem. A Igreja inteira se prostra aos vossos pés, esperando o vosso auxílio. Defendei-a de todos os perigos e das forças malignas. Fortalecei o nosso Papa, o Vigário de Cristo, para conduzir na unidade o seu rebanho. Sede a nossa Rainha, o Auxílio dos Cristãos, a Consoladora do s Aflitos. Vós sois a nossa segurança, o nosso estímulo e o nosso exemplo. Fazei que o Evangelho seja anunciado até os confins da terra e que todos se disponham a aceitar a salvação trazida por vosso Filho.

Por isso, com todos os Anjos do céu, vos saudamos: AVE-MARIA…


* 8º DIA *

Glória ao Pai, a Jesus Cristo e ao Espírito Santificador, que realizaram grandes maravilhas em Maria. Não houve nem haverá criatura tão santa, tão sublime e tão radiante como ela. Os Anjos e os Santos vos louvam, ó Maria, Mãe Amável. E nós também elevamos os nossos olhos para vós com profunda confiança filial. Sede para vossos filhos refúgio e amparo, a fim de que cumpramos a nossa missão, e um dia possamos chegar os céu.

Por isso, com todos os Anjos do céu, vos saudamos: AVE-MARIA…


* 9º DIA *

Ó Nossa Senhora dos Anjos, na pequena Igreja da Porciúncula São Francisco recebeu as vossas bênçãos generosas, juntamente com sua Ordem. Ele, que depositava na vossa presença materna uma grande confiança e devoção, sendo atendido em seus pedidos. Continuai a dispensar os vossos favores sobre nós e sobre nossas necessidades particulares. Nós vos suplicamos, dai-nos a graça da penitência dos nossos pecados, a correção de nossas más inclinações e fortalecimento nos momentos de fraqueza. Quantos recusam a salvação e preferem caminhar nas trevas do erro. Tudo é possível para aquele que crê para aquele que se arrepende. Vós, ó Mãe, manifestastes a São Francisco o grande desejo de reconciliar os pecadores com Jesus, que se entregou em uma Cruz para nos salvar. Rogai por nós agora e na hora da nossa morte.

Por isso, com todos os Anjos do céu, vos saudamos: AVE-MARIA…

ORAÇÃO FINAL

– Para todos os dias –

Lembrai-Vos, ó piíssima Virgem Maria, que nunca se ouviu dizer que algum daqueles que recorreram à vossa proteção, implorado a vossa assistência e reclamaram o vosso socorro, fosse por vós desamparado. Animada, eu, pois, com igual confiança, a vós, Virgem entre todas singular, como a minha Mãe recorro, de vós me valho, e gemendo sob o peso, dos meus pecados, me prostro aos vossos pés. Não rejeiteis as minhas súplicas, ó Mãe do Filho de Deus humanado, mas dignai-vos de as ouvir e de me alcançar o que vos rogo. Amém.

Em louvor de Cristo e de Sua Mãe, a Senhora dos Anjos!

Amém.

Textos litúrgicos para a festa

O Seráfico Pai Francisco, por singular devoção à Santíssima Virgem, consagrou especial afeição à capela de Nossa Senhora dos Anjos ou da Porciúncula. Aí deu início à Ordem dos Frades Menores e preparou a fundação das Clarissas: e aí completou felizmente o curso de seus dias sobre a terra. Foi também aí que o Santo Pai alcançou a célebre Indulgência, que os Sumos Pontífices confirmaram e estenderam a outras muitas igrejas. Para celebrar tantos e tão grandes favores ali recebidos de Deus, instituiu-se também esta Festa litúrgica, como aniversário da consagração da pequenina ermida.

São propostas três leituras para onde é celebrada como Solenidade; celebrada como Festa, escolhe-se a primeira ou a segunda leitura.

PRIMEIRA LEITURA

Eclo 24,1-4.16-22.31

“Quem obedece à Sabedoria não terá de que se envergonhar”.

Leitura do Livro do Eclesiástico.

A sabedoria faz seu próprio elogio e se ufana no meio de seu povo; abre a boca na assembleia do Altíssimo e se ufana diante de seu poder; é exaltada no meio do seu povo, e admirada na assembleia santa; entre a multidão dos eleitos, recebe louvores, e bênçãos entre os abençoados de Deus.

Estendi os ramos como terebinto, e meus ramos são ramos majestosos e belos. Como videira, brotei sarmentos encantados e minhas flores deram frutos de glória e riqueza.

Sou a mãe do belo amor e do temor, do conhecimento e da santa esperança. Em mim se acha toda a graça do caminho e da verdade, em mim toda a esperança de vida e da força.

Vinde até mim, vós que me desejais e saciai-vos com meus frutos! Pensar em mim é mais doce que o mel, e possuir-me é mais do que favo de mel. A memória do meu nome durará por toda a série dos séculos. Quem come de mim, terá ainda fome e quem bebe de mim, terá ainda sede. Quem me obedece não terá de que se envergonhar, e os que trabalham comigo não pecarão. Aqueles que me tornam conhecida terão a vida eterna.

– Palavra do Senhor.

SALMO DE MEDITAÇÃO

Sl 33,1.5-7.9-10.18-19

Bendirei o Senhor Deus em todo o tempo.

– Todas as vezes que o busquei, ele me ouviu *
e de todos os temores me livrou.

– Este infeliz gritou a Deus e foi ouvido *
e o Senhor o libertou de toda angústia.

– Provai e vede quão suave é o Senhor! *
Feliz o homem que tem nele o seu refúgio.

– Respeitai o Senhor Deus, seus santos todos, *
porque nada faltará aos que o temem.

– Clamam os justos e o Senhor bondoso escuta *
e de todas as angústias os liberta.

– Do coração atribulado ele está perto *
e conforta os de espírito abatido.

SEGUNDA LEITURA

Gl 4,3-7

“Deus enviou seu Filho, que nasceu de uma mulher”.

Leitura da carta de São Paulo Apóstolo aos Gálatas.

Irmãos, assim também nós, quando menores, estávamos escravizados na servidão dos elementos do mundo. Mas quando chegou a plenitude dos tempos, Deus enviou seu Filho, que nasceu de uma mulher e submetido a uma Lei, para resgatar os que estavam sob a Lei, a fim de que recebêssemos a adoção. E, como prova de serdes filhos, Deus enviou a nossos corações o Espírito de seu Filho, que clama: “Abba, Pai!” De maneira que já não és escravo mas Filho, e, se filho, herdeiro por Deus.

– Palavra do Senhor.

ACLAMAÇÃO AO EVANGELHO

Aleluia . ..,. Ave, Maria, cheia de graça, o Senhor está contigo, e bendito o fruto de teu ventre.  Aleluia.

EVANGELHO

Lc 1,26-33

“Eis que conceberás em teu seio e darás à luz um filho”.

Evangelho de Jesus Cristo Segundo Lucas.

No sexto mês, o anjo Gabriel foi enviado da parte de Deus para uma cidade da Galileia, chamada Nazaré, a uma virgem, prometida em casamento a um homem chamado José, da casa de Davi. O nome da virgem era Maria. E entrando, disse-lhe o anjo: “Alegra-te, cheia de graça, o Senhor está contigo!” Ao ouvir as palavras, ela se perturbou e refletia no que poderia significar a saudação. Mas o anjo lhe falou: “Não tenhas medo, Maria, porque encontraste graça diante de Deus. Eis que conceberás em teu seio e darás à luz um filho e lhe darás o nome de Jesus. Ele será grande e será chamado Filho do Altíssimo. O Senhor Deus lhe dará o trono de Davi, seu Pai, e Ele reinará na casa de Jacó pelos séculos e seu reino não terá fim”.

– Palavra da Salvação.

Porciúncula: berço da fraternidade

Lugar fontal para a nossa mística. Santa Maria dos Anjos: berço da fraternidade! Aqui começou a vida e o amor mútuo. Um santuário mariano-franciscano, lugar – santo, dos mais freqüentado em todo o mundo. É um espaço para rezar, refletir, purificar, encher-se de graça e iniciar novamente o caminho.

Se Assis é a “capital do espírito”, Porciúncula é um lugar necessário a toda humana criatura de nosso tempo: uma etapa, uma luz sobre o caminho. Ali emana um único fascínio: a mensagem pulsante do Evangelho, alegria, serenidade, simplicidade, fidelidade, pobreza…Foi edificada no século X, no ano de 1045. Pertencia aos monges beneditinos do monte Subásio que ali alimentavam uma “pequena porção” de santuário. O que é o santuário? É um lugar sagrado onde a presença de Deus se manifesta. O mistério presente da divindade é que determina o lugar do culto.

Santuário é lugar e não museu arqueológico a mostrar e conservar memórias e glórias mumificadas do passado. Ali os acontecimentos passados são vivos e presentes: ali viveu Francisco, ali passou Clara, ali morreu o Poverello. Francisco e Clara continuam a ser mais vivos que nunca e a sua escolha de Amor é que marca definitivamente o lugar. Ali a Fraternidade se faz encontro,cresce,contagia e se comunica. (Cfr 1 Cel 106)

Em 1210 Francisco pede ao bispo de Assis e depois aos Cônegos de São Rufino alguma igrejinha para cuidar. A resposta é negativa. Vai então ao abade do mosteiro de São Bento, Dom Teobaldo. Este, com o consenso da comunidade monacal, concede a Francisco e a seu primeiros companheiros a Porciúncula para o simples uso e moradia. Só pedem uma condição: se a religião constituída por Francisco crescer, a Porciúncula seja a casa-mãe.

Dom recebido Dom dividido. A casa fundada sobre o sólido alicerce da Pobreza ganha um sinal: por graça e gratidão ao bem feito pelos beneditinos, há o gesto da retribuição: cada ano os frades mandavam aos monges um cesto cheio de peixes. Os monges agradeciam com um vaso cheio de óleo. LTC 56; LP 8.

Porciúncula:
• experiência primitiva de Fraternidade
• lugar reconstituído com o trabalho manual
• próximo aos bosques
• próximo aos leprosários
• pequenas celas para a moradia
• primeiro encontro com o Evangelho (Mt 10,5-15)
• ali o encontro do rumo definitivo na vida (1 Cel 21;LM 2,8;Lm 1,9;1 Cel 44)
• os primeiros companheiros Bernardo e Pedro vêm morar ali
• Bernardo, Pedro, Egídio e Francisco partem dali para a primeira missão
• a fraternidade cresce e encontra seu espaço
• é o santuário da missão ( 1 Cel 22;LM 3,1: LTC 25: Lm3,7;Fior13)
• No dia 19 de março de 1211/1112, chega a Porciúncula, a nobre jovem Clara de Faverone.
• Em julho de 1216, Francisco consegue do Papa Honório III a Indulgência ou o Perdão da Porciúncula.
• É um lugar muito elogiado. (1 Cel 106; LP 8-12:LM 2,8)
• Lugar dos Capítulos. Ali se realizou o famoso Capitulo das Esteiras – 1221. (LTC 57-59; AP 18,37-39; LP 114, Fior 18)
• Clara vai à Porciúncula visitar Francisco. Comem juntos num luminoso banquete espiritual. (Fior 15)• A irmã Jacoba de Settesoli, amiga de Francisco, chega pouco antes de sua morte, trazendo doce conforto.
(EP112;LP101;Cel 37-39)
• A irmã morte visita Francisco ( 2 Cel 214-217; LM 14,3-6;LTC 68;LP 64)

Ensinamentos da Porciúncula
• momento culminante da mudança radical de Francisco
• não teve dúvidas que o Senhor tinha suas exigências
• acolher o Evangelho, escutar o outro (a),percorrer o caminho proposto
• lugar de penitência e serviço
• ensina que todos devemos ser criativos (as) para fazer renascer a simplicidade primitiva.
• santuário da missão: enviar, regressar, fortalecer e orar.
• capítulo: momento privilegiado de encontro.

Frei Vitório Mazzuco

Documento que comprova a veracidade da Indulgência da Porciúncula

Carta do Bispo Teobaldo de Assis

Aqui se propõe o texto completo do documento traduzido a partir da recente edição paleográfica feita sob os cuidados de Stefano Brufani a partir do original, onde ainda se conserva pendente o selo de cera; documento esse conservado no arquivo público do Estado de Perugia, Corporações religiosas supressas, São Francisco ao Prado, pergaminho 56 (1310, agosto, 10), descoberto em 1964 por Roberto Abbondanza. Segue o documento:

“Irmão Teobaldo, por graça de Deus, Bispo de Assis, aos fiéis cristãos que lerem esta carta, saúde no Salvador de todos.

Por causa de alguns faladores que, impelidos pela inveja, ou talvez pela ignorância, impugnam desaforadamente a indulgência de Santa Maria dos Anjos, situada perto de Assis, somos obrigados a fazer esta comunicação a todos os fiéis cristãos. Através da presente carta, queremos comunicar o modo e a forma desse benefício e como o bem-aventurado Francisco, enquanto estava vivo, o impetrou ao senhor papa Honório.

Morando, o bem-aventurado Francisco, junto à Santa Maria dos Anjos da Porciúncula, o Senhor, durante a noite, lhe revelou que se dirigisse ao sumo Pontífice, o senhor Honório, que temporariamente se encontrava em Perugia. A finalidade era impetrar-lhe a indulgência para a mesma igreja de Santa Maria da Porciúncula, há pouco restaurada por ele mesmo. Francisco, levantando-se, de manhã, chamou frei Masseo de Marignano, companheiro seu, com o qual morava, e se apresentou diante do mencionado senhor Honório, e disse:

– Santo Padre, há pouco acabei de restaurar para o senhor uma igreja dedicada à Virgem Mãe de Cristo. Suplico à vossa Santidade que a enriqueçais com uma indulgência, mas, sem a necessidade de nenhuma oferta em dinheiro.

O Papa respondeu-lhe:

– Não convém fazer uma coisa dessas. Pois, quem pede uma indulgência precisa que a mereça dando uma mão. Mas, diz-me para quantos anos você a quer, e quanta indulgência lhe deva conceder.

São Francisco replicou-lhe:

– Santo Padre, sua santidade queira-me dar não anos, mas, almas.

E o senhor Papa respondeu:

– De que modo quer almas?

E o bem-aventurado Francisco declarou:

– Santo Padre, se aprouver à sua santidade, quero que todos quantos se achegarem a essa igreja, confessados e arrependidos e, como convém, absolvidos pelo sacerdote, se tornem libertados da pena e da culpa, no céu e na terra, desde o dia do Batismo até o dia e a hora de sua entrada na mencionada igreja.

O santo Padre acrescentou:

– Isso que pede, Francisco, é muito. E não é costume da Cúria romana conceder semelhante indulgência.

Então, o bem-aventurado Francisco respondeu:

– Senhor, não estou pedindo isto a partir de mim, mas, a partir daquele que me mandou, o Senhor Jesus Cristo.

Diante desse argumento, o senhor Papa concluiu imediatamente, dizendo por três vezes:

– Agrada-me que tenhas essa indulgência.

Os senhores Cardeais presentes, porém, intervieram:

– Vê, se o senhor der essa indulgência, estará destruindo a indulgência do além mar, bem como, virá destruída e considerada nula aquela dos Apóstolos Pedro e Paulo.

O senhor Papa respondeu:

– Agora já a damos e a concedemos; não podemos e nem convém que se destrua o que foi feito. Mas, a modificaremos, de modo que fique limitada apenas para um dia.

Então, chamou São Francisco e disse-lhe:

– Portanto, de hoje em diante, concedemos que, qualquer um que for e entrar na mencionada igreja, bem confessado e contrito, será absolvido da pena e da culpa; e queremos que isso valha todos os anos por somente um dia, das primeiras vésperas até o dia seguinte.

O bem-aventurado Francisco, de cabeça inclinada, começou a retirar-se do palácio. O senhor Papa, então, como o visse saindo, chamou-o dizendo-lhe:

– Ó, simplesinho, aonde vai? Que documento leva desta indulgência?

Respondeu Francisco:

– A mim basta sua palavra. Se for obra de Deus, Deus mesmo deverá manifestá-la. Não quero nenhum outro documento desse privilégio senão este: que a carta seja a bem-aventurada Virgem Maria, o notário Jesus Cristo e os anjos as testemunhas.

Depois disso, Francisco, deixando Perugia, retornou a Assis. No caminho repousou um pouco, juntamente com seu companheiro, num lugar chamado Colle, onde havia um hospital de leprosos, e lá passou a noite. De manhã, acordado e feita a oração, chamou o companheiro e disse-lhe:

– Frei Masseo, digo-lhe, da parte de Deus, que a indulgência a mim concedida através do sumo pontífice está confirmada pelo céu.

Tudo isso foi contado por frei Marino, sobrinho do mencionado frei Masseo, que frequentemente o ouviu da boca do tio. Esse frei Marino, ultimamente, perto do ano de 1307, repleto de dias e de santidade, repousou no Senhor.

Depois da morte do bem-aventurado Francisco, frei Leão, um dos seus companheiros, homem de vida integralíssima, passou adiante esse fato, assim como o havia recebido da boca de São Francisco; e assim, também, frei Benedito de Arezzo, um dos companheiros de São Francisco, e frei Rainério de Arezzo contaram, tanto para os frades como para os seculares, muitas coisas referentes a essa indulgência, como as tinham ouvido do mencionado frei Masseo. Muitos desses ainda estão vivos e confirmam todas essas notícias.

Não pretendemos, pois, escrever com que solenidade essa indulgência foi tornada pública, durante a consagração da mesma igreja efetuada por sete Bispos. Vamos tão somente referir aquilo que Pedro Zalfani, presente à cerimônia, falou diante do Ministro frei Ângelo, diante de frei Bonifácio, frei Guido, frei Bartolo de Perugia, e outros frades do lugar da Porciúncula. Contou ele que esteve presente à consagração da mencionada igreja no dia 2 de Agosto, e ouviu o bem-aventurado Francisco que pregava diante daqueles Bispos segurando na mão um documento, e dizia:

– Quero mandar-vos todos para o céu. Anuncio-vos a indulgência que recebi da boca do sumo pontífice: todos vós que hoje vindes e todos aqueles que virão cada ano, neste dia, com um coração bom e contrito, obterão a indulgência de todos os seus pecados.

Fizemos essas considerações acerca da indulgência por causa daqueles que a ignoram. Assim não podem mais usar como desculpa a ignorância. E, acima de tudo, o fazemos por causa dos invejosos e faladores. Estes, em alguns lugares, procuram destruir, suprimir e condenar aquilo que, toda a Itália, a França, a Espanha e outras províncias, tanto de cá como de lá dos montes, ou melhor, o próprio Deus, em reverência à sua santíssima Mãe (pois, como se sabe, a indulgência é dela), quase todos os dias, vem revelando, engrandecendo, glorificando e espalhando com frequentes e manifestos milagres.

Como ousarão invalidar, com suas funestas persuasões, aquilo que já há tanto tempo, diante da Cúria romana, permaneceu com toda sua validade? Pois, também em nosso tempo, o próprio senhor Papa Bonifácio VIII enviou para essa igrejinha seus magníficos embaixadores para que, por sua vez, no dia da indulgência, nos pregassem com toda a solenidade. Às vezes, enviou até Cardeais. Vindos pessoalmente para celebrar a indulgência e, na esperança de receber o perdão, a aprovaram como verdadeira e certa com sua própria presença.

Diante do testemunho de todas essas coisas, e na fé mais certa, assinalamos a presente carta com nosso selo.

Dada em Assis, na festa de São Lourenço, no ano do Senhor de 1310”.

A virgem Maria na contemplação de Francisco e Clara

INTRODUÇÃO

• Toda pessoa tem uma dimensão contemplativa: aceitação da vida, ação que nos transforma para a vida. Deus é o agente de nossa dimensão contemplativa.

• Nascemos humanos: “humano” é ser que desperta para a presença de Deus; sintonia para enxergar a razão de todas as coisas e sentir a relação com os seres.

• “Acender a luz dos olhos e do coração”; o despertar, dentro e ao redor de cada um, para o tempo, o meio, a vida, as pessoas que cada dia nos encontram e nos transformam.

• Essa transformação vai nos unindo a Deus que, respeitando nossa individualidade, vai nos transformando em Cristo.

• O último passo da contemplação: Deus nos torna colaboradores seus no anúncio desta transformação e realização, comunicando à cada pessoa esta nova vida recebida.

• Todos esses passos aconteceram na vida de Maria, “a Virgem feita Igreja”.

• Francisco e Clara, pela contemplação de Maria, refizeram este caminho em suas vidas.

PEQUENOS E FRACOS COMO MARIA

• Deus resolveu começar tudo com uma mulher, jovem, solteira, pobre, noiva de um carpinteiro, moradora de um vilarejo tão miserável que nem constava dos mapas de Israel. Uma criatura para a qual nenhum poderoso iria olhar.

• O Deus da Bíblia trabalha, com predileção, justamente com o pobre, o pequeno, o fraco, o desprezado. Seu Filho seria o filho desta mulher, uma mulher pobre numa aldeia no fim do mundo. Os auxiliares imediatos de seu filho seriam pescadores por quem ninguém daria nada.

• É fundamental entendermos esse sentido de ser virgem: não pertencer a ninguém, não contar nada como elemento constituinte do povo, não ser nada. É disso que Deus precisa para começar a fazer um contemplativo, porque é dessa massa que Ele faz um Cristo.

• Essa pobreza, esse “nada” da Mãe de Jesus é importante na contemplação de Francisco e Clara, que exatamente aí fundamentaram toda sua vida de recolhimento e ação. Ser pobre de tudo para ser rico de Deus, como Maria, era o grande sonho de Francisco e Clara e a realização de sua alegria.

UNIDOS AO ESPÍRITO COMO MARIA

• Essa virgem de Nazaré era mais uma figura do Povo, paralela daquela menina enjeitada, símbolo de Jerusalém, que alguém tinha jogado no lixo da cidade e estava para ser devorada pelos corvos se Deus não a recolhesse, como disse o profeta Ezequiel (Ez 16, 1-15). É Maria, símbolo da Esposa bíblica que é o miserável povo de Israel, que Deus convidou para ser Mãe unindo-se ao seu próprio Espírito.

• A história dessa enjeitada que virou rainha é a história de cada um dos contemplativos: o Espírito de Deus age como um vento irresistível, construindo Maria dentro de cada um. Maria do silêncio, que sabia “conferir as coisas em seu coração” (Lc 2,52): é a visão contemplativa que abrange o mundo.

• Francisco e Clara contemplam Maria em integração perfeita com a Santíssima Trindade: filha, mãe e esposa. Antífona do Ofício da paixão: “Santa Virgem Maria, não há mulher nascida no mundo semelhante a vós, filha e serva do altíssimo Rei e Pai celestial, Mãe de nosso santíssimo Senhor Jesus Cristo, esposa do Espírito Santo”.

• Contemplação toda pelos olhos e extremamente concreta, objetiva. A Maria que Francisco e Clara conhecem não tem nada de teorias e não se perde no mundo dos conceitos: é um espelho prático em que enxergam a atuação do Espírito de Deus. Assumem as atitudes de Maria frente a Deus, e como ela, concebe, gera e dá a luz à Palavra de Deus, dando-lhe vida e forma.

• Porque a devoção de Francisco e Clara para com Maria foi justamente essa: aprender a acolher o Cristo para dá-lo à luz do mundo, com eles e em sua casa, Maria se tornou Mãe de toda a família franciscana.

MÃE DA HUMANIDADE COMO MARIA

• Maria gerou o corpo de Jesus de Nazaré e gera o espírito de cada um dos filhos de Deus até ficarem parecidos com o Primogênito de Deus. É através dela que cada um e todos juntos consituem o Cristo Místico, em seu Corpo, a Igreja.

• Maria mostra como se humaniza Deus e se diviniza o homem. Nela, a humanidade acolheu Deus e nela Deus é humanidade. Aquele pequenino envolto em fraldas, aquela criança com as feições de Maria, que com ela aprendeu a falar e a andar é Deus feito homem, transformação da história dos homens.

• Francisco e Clara contemplavam em Maria o mistério da encarnação, sem separar Jesus de sua Mãe. Porque, sem essa mulher, o Cristo seria um maravilhoso salvador sem bases históricas (humanidade), pois é nela que se encontram a divindade e a humanidade.

• Clara se comove porque “tão grande e glorioso Senhor quis descer ao seio da Virgem” (1Ct IP, 19). Francisco transborda de reconhecimento pela mulher que tornou possível a descida de Deus e da qual “recebeu verdadeiramente, em seu seio, o corpo da nossa frágil humanidade” (C.Fiéis 1,4).

NA MISSÃO DE DEUS COM MARIA

• A contemplação da vida de Maria parece ter alimentado toda a vida evangélica de Francisco e Clara: ela foi a primeira criatura humana a acolher o Reino de Deus. Essa é a base de toda a missão, pois Maria ensina tanto a acolher o Reino de Jesus como a fazê-lo nascer no coração de cada um.

• Francisco recordava Nossa Senhora como uma missionária percorrendo estradas com Jesus e os apóstolos. Ele a via pobre como Jesus, mas também como senhora e rainha como seu Filho sera rei e senhor. Maria, nossa irmã, representou toda a humanidade acolhendo a Redenção.

• Francisco e Clara plantaram entre seus filhos e filhas a convicção do Reino no coração dos desprotegidos, justamente por serem tão unidos à Mãe do Povo de Deus. Foi Maria quem os ensinou a partir do vazio da pobreza, unir-se a Deus no mais perfeito amor e ser “mães” de cada um dos pequenos seguidores de Jesus, ricos do seu sonho do Reino da Boa Nova. Esse sonho é possível a todos, porque na verdade o Reino de Deus começa no coração de cada um.

CONCLUSÃO – PARA REFLETIR E MEDITAR

• Da contemplação de Maria, Francisco e Clara descobriram um caminho, um modo de ser e de viver. Minha vida de oração/contemplação está me conduzindo por um caminho de comunhão mais verdadeira com Deus, com as pessoas e com as criaturas?

• A oração/contemplação conduz necessariamente à conversão, ao seguimento e à configuração com Cristo. Ele está vivendo em mim? Sou capaz de descobrí-lo, serví-lo e amá-lo nas pessoas e situações todas da vida.

• Minha vida é um “espelho” que reflete a vida e a presença do amor de Deus? Como está meu testemunho de Cristo?

Frei Regis Daher, ofm

Mensagem do 8º centenário do Perdão de Assis

Em 2016, coincidem duas datas: o aniversário da data tradicional da concessão da indulgência da Porciúncula, desejada por Francisco para “mandar todos ao paraíso”, e o jubileu da misericórdia, desejado por um Papa que leva o nome de Francisco. Deixando aos historiadores o aprofundamento do debate sobre a indulgência da Porciúncula, queremos nós aproveitar a ocasião desta coincidência de datas, que nos convida a aprofundar o grande tema da misericórdia e do perdão em relação à nossa tradição espiritual franciscana.

Misericórdia é palavra cara a São Francisco, que seguidamente a usa nos seus Escritos e a utiliza igualmente em duas direções, que remetem ao agir de Deus misericordioso e ao nosso agir com misericórdia para com os irmãos. Isto evoca a frase do evangelho que o Papa propôs como “lema” deste ano jubilar: “Sejam misericordiosos como é misericordioso vosso Pai” (Lc 6,36). A misericórdia, que podemos ter nas nossas relações com os outros, está estreitamente ligada à misericórdia que Deus tem para conosco: o amor de Deus é o reservatório inexaurível do qual podemos tirar a misericórdia a ser usada para com o próximo. Todos nós sabemos que conseguimos amar na medida em que descobrimos de sermos amados por Aquele que é a fonte de todo bem. Aquilo que geralmente dizemos do amor é da mesma forma verdadeiro para aquela forma especial de misericórdia que é o perdão. A parábola que Jesus narra para responder à pergunta de Pedro “quantas vezes devemos perdoar?” condena o comportamento do servo que não perdoa a pequena dívida ao seu companheiro, depois que o patrão lhe perdoara um grande débito.

Também neste caso, a razão para perdoar os outros é que nós mesmos fomos perdoados por Deus, como dizemos no Pai nosso, no qual rezamos “perdoa as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos têm ofendido”. Aquele “como”, mais que indicar igualdade, indica a motivação profunda pela qual perdoar aos outros: a partir da certeza de que Deus me perdoa, nasce a exigência de perdoar “como” Ele. É uma outra maneira de dizer que devemos ser misericordiosos “como” o Pai celeste. Se tudo isto for verdadeiro, descobrimos que nos é indicada uma estrada para nos tornarmos mais capazes de misericórdia: crescer na nossa consciência de sermos nós mesmos amados por Deus. Trata-se daquela relação entre o dom recebido de Deus e o dom oferecido aos irmãos, que é tão característico da experiência espiritual franciscana. Na medida em que nós, como Francisco, descobrimos que Deus “é o bem, todo bem, o sumo bem e que somente ele é bom”, torna-se forte em nós a exigência de corresponder a este bem que recebemos, doando o bem que somos capazes. E, para tornar-me mais consciente do amor que Deus tem por mim, devo parar algum momento para refletir, e nos darmos conta que, ainda uma vez mais, somos convidados a cultivar o espírito de oração e devoção, a unir contemplação e ação, se quisermos reencontrar a verdadeira fonte do nosso compromisso e do amor para com o próximo, para reencontrar a força e a energia para gastar toda a vida no serviço aos irmãos e para gerar em torno a nós paz e reconciliação, que são os frutos do amor contemplado.

Com o seu pedido ao Papa de uma indulgência extraordinária para a pequena igreja da Porciúncula, Francisco inventou uma nova maneira para celebrar a superabundância do perdão e da misericórdia de Deus para conosco. Podemos retomar e aprofundar a bela definição de indulgência que Papa Francisco nos oferece na Misericordiae vultus, definindo-a “indulgência do Pai que por meio da Esposa de Cristo alcança o pecador perdoado e o liberta de todo resíduo da conseqüência do pecado, habilitando-o a agir com caridade, a crescer no amor, muito mais do que recair no pecado” (MV 22). Toda vez que recebemos esta extraordinária indulgência do Pai, por meio da Igreja, também nós experimentamos a abundância de misericórdia sobre nós, para nos tornarmos capazes de misericórdia e de reconciliação para com os outros, nas situações concretas da vida. Francisco nos mostra exemplos esplêndidos desta capacidade criativa de promover paz e reconciliação.

Pensemos simplesmente naquele episódio no fim de sua vida, no qual ele reconcilia o Prefeito e o Bispo de Assis, fazendo cantar o seu Cântico do Irmão Sol, com o acréscimo da estrofe do perdão. O antigo biógrafo, ao início desta história, nos diz que Francisco disse aos seus companheiros: «Grande vergonha é para nós, servos de Deus, que o Bispo e o Prefeito se odeiem de tal forma um ao outro, e ninguém tenha o cuidado de colocá-los em paz e concórdia» (Compilação de Assis 84). Francisco não pensa que se trate de uma questão que não lhe diga respeito e sente vergonha pelo fato de que ninguém faça alguma coisa para levá-los à paz. Pergunto-me: quanta vergonha sentimos nós, por que ninguém intervém para sanar os conflitos do nosso tempo? Quanto nos sentimos responsáveis, como Francisco, de levar paz e reconciliação, antes de tudo nas nossas próprias Fraternidades, quando existem divisões, assim como nas lutas políticas, religiosas, econômicas, sociais do nosso tempo? Um tal empenho, tão ativo e militante, nasce da profundidade da contemplação do amor de Deus por mim. Exatamente porque me sinto atingido pessoalmente pela indulgência do Pai, nasce em mim a força, a coragem, a esplendida “loucura” de intervir, como pode fazer um pobre enamorado por Deus: com o canto, não com um solene discurso e muito menos com a força. Francisco, com a sua inteligente simplicidade, não convoca o Bispo e o Prefeito para buscar resolver as suas contendas. Francisco sabe bem que esta não é a sua via: ele, em vez disso, os convoca para escutar um canto, porque somente elevando o olhar mais ao alto, em direção à beleza de Deus, sob as asas da música, os dois contendores poderão reencontrar as razões mais elevadas para a paz.

Nós franciscanos, no mundo de hoje, provavelmente não somos chamados muitas vezes para enfrentar e resolver os complexos problemas do mundo, oferecendo soluções técnicas ou entrando no mérito das difíceis questões, na maioria das vezes maiores do que nós: somos, porém, chamados a encontrar caminhos para animar os homens à reconciliação e à paz, tocando seus corações com o testemunho da minoridade, da simplicidade, da beleza e do canto, da verdade de relações fraternas e imediatas que remetem àquilo que é essencial, que fazem aos homens de hoje entender, como ao Prefeito e ao Bispo de Assis, que vale à pena viver na paz, relativizando os problemas concretos e escolhendo a via do perdão. Falando de indulgência e misericórdia, partimos de um olhar à indulgência do Pai e à sua misericórdia para conosco e chegamos a falar de intervenção na realidade conflitante do mundo de hoje. Poder-se-ia também fazer o percurso inverso: iniciar falando do perdão e reconciliação com os irmãos para chegar a falar da misericórdia de Deus, como faz Francisco no Testamento. Aquilo que importa é que não separemos jamais os dois elementos, porque Jesus no Evangelho ensina que o primeiro mandamento fala ao mesmo tempo do amor a Deus e ao próximo, que não podem ser separados. Este centenário nos ajude a experimentar uma salutar vergonha porque parece que ninguém quer tomar o cuidado de promover paz e concórdia na realidade conflitante na qual vivemos e nos faça crescer na criativa capacidade de encontrar maneiras novas para cantar um canto compreensível aos homens e às mulheres do nosso tempo. Seja nossa vida este canto que, na medida em que é louvor vivente àquele Deus de quem provém todo amor, torne-se provocação eficaz para construir paz e reconciliação.

 

Roma, 23 de julho de 2016, festa de Santa Brígida, Patrona da Europa.

 

Fr. Michael Anthony Perry, OFM, Ministro Geral

Irmã Deborah Lockwood, OSF, Ministra Geral

Fr. Mauro Jöhri, OFMCap, Ministro Geral

Fr. Nicholas Polichnowski, TOR, Ministro Geral e Presidente da CFF

Fr. Marco Tasca, OFMConv, Ministro Geral

Tibor Kauser, OFS, Ministro Geral

[1] Tradução livre do italiano feita por frei João Carlos Karling, ofm, para uso interno e em retiros. (fonte: http://www.festivalfrancescano.it/lettera-dei-ministri-generali-francescani-lviii-centenario-del-perdono-dassisi/).

João Paulo II escreve sobre a Porciúncula

1. A reabertura da Basílica e da Capela da Porciúncula, após os restauros realizados em conseqüência do terremoto de 1997, oferece-me a agradável oportunidade de dirigir uma afetuosa saudação a você, Irmão amado, e à Comunidade franciscana que, em Assis, desempenha um precioso serviço eclesial e zela pelo decoro dos lugares caros à memória do Poverello de Assis e pelos fiéis e peregrinos que chegam à terra de Francisco e Clara para uma experiência espiritual intensa. Os pés dos fiéis se detêm às portas de Assis, que, por tantas maravilhas de misericórdia ali realizadas, com razão é definida como “cidade predileta do Senhor (LegSC 21).

Hoje, a Capela da Porciúncula e a Patriarcal Basílica que a guarda reabrem suas portas para receber as multidões de pessoas atraídas pela saudade e pelo fascínio da santidade de Deus, copiosamente manifestada no seu servo Francisco. O Poverello acreditava que “a graça divina podia ser concedida aos eleitos em todos os lugares; mas sabia, por experiência, que o lugar de Santa Maria da Porciúncula estava repleto de uma graça mais fecunda […] e, por isso, muitas vezes dizia aos frades: […]Este lugar é verdadeiramente santo, morada de Cristo e da Virgem, sua Mãe” (EspPf 83). Para Francisco, a humilde e pobre igrejinha tornou-se a imagem de Maria Santíssima, a “Virgem feita Igreja” (SaudVM 1), uma humilde e “pequena porção do mundo” (2Cel 18), mas indispensável para que o Filho de Deus se fizesse homem. Por isso o Santo invocava Maria como tabernáculo, casa, manto, serva e Mãe de Deus (cf. SaudVM 4-5).

Exatamente na Capela da Porciúncula, que ele havia restaurado com as próprias mãos, Francisco, iluminado pelas palavras do capítulo 10 do Evangelho de Mateus, decidiu abandonar a precedente breve experiência eremítica, para dedicar-se à pregação entre o povo, “com a simplicidade de sua palavra e a generosidade de seu coração”, como atesta o primeiro biógrafo, Tomás de Celano (1Cel 23). Assim, deu início a seu típico ministério itinerante. Mais tarde, é na Porciúncula que se dá a vestição de Santa Clara e se funda a Ordem das “Pobres Damas de São Damião”. Aqui também, Francisco impetrou de Cristo, mediante a intercessão da Rainha dos Anjos, o grande perdão ou “indulgência da Porciúncula”, confirmada por meu venerável Predecessor, o Papa Honório III, a partir de 2 de agosto de 1216. A partir de então teve início a atividade missionária, que levou Francisco e seus frades a alguns países muçulmanos e a várias nações da Europa. Aqui, enfim, cantando, o Santo recebeu “nossa irmã a Morte corporal” (CantS 12).

2. A igrejinha da Porciúncula conserva e difunde uma mensagem e uma graça muito especiais da experiência do Poverello de Assis; mensagem e graça que perduram até hoje e que constituem uma fonte de apelo espiritual para os que se deixam fascinar por seu exemplo. Nesse sentido, é importante o testemunho de Simone Weil, a filha de Israel fascinada por Cristo: “Enquanto estava sozinha na pequena capela românica de Santa Maria dos Anjos, incomparável milagre de pureza e onde Francisco rezou tantas vezes, pela primeira em minha vida, alguma coisa mais forte do que eu me obrigou a ajoelhar-me” (Autobiografia espiritual).

A Porciúncula é um dos lugares mais veneráveis do franciscanismo, caro não só à Ordem dos Menores, mas também a todos os cristãos que aqui, como que esmagados pela intensidade das memórias históricas, recebem luz e estímulo para uma renovação de vida, sob o sinal de uma fé mais enraizada e de um amor mais genuíno. Por isso, para mim é muito caro destacar a mensagem especial que brota da Porciúncula e da indulgência a ela ligada. É uma mensagem de perdão e de reconciliação, isto é, de graça, que, se estivermos bem dispostos, a bondade divina derrama sobre nós, porque Deus é verdadeiramente “rico em misericórdia” (Ef 2,4). Como não reavivar diariamente em nós a humilde e confiante invocação da redentora graça de Deus? Como não reconhecer a grandeza desse dom que ele nos ofereceu em Cristo “uma vez para sempre” (Hb 9,12) e nos repropõe continuamente com imutável bondade? É o dom do perdão gratuito, que nos dispõe à paz com Ele e com nós mesmos, infundindo-nos renovada esperança e alegria de vida. Considerando tudo isso, é fácil compreender a austera vida de penitência de Francisco e por que somos convidados a ouvir o apelo a uma constante conversão, que nos separe de uma conduta egoísta e, com decisão, oriente nosso espírito para Deus, ponto focal de nossa existência.

3. Tenda do encontro de Deus com os homens, o Santuário da Porciúncula é casa de oração. “Quem rezar com devoção neste lugar conseguirá o que pedir” (1Cel 106), gostava de repetir Francisco, depois que pessoalmente havia feito experiência disso. Dentro dos velhos muros da pequena igreja, todos podem saborear a doçura da oração em companhia de Maria, a mãe de Jesus (cf. At 1,14), e experimentar sua poderosa intercessão. Naquele edifício restaurado com suas mãos, o homem novo Francisco ouviu o convite de Jesus que o chamava a modelar a própria vida “segundo a forma do santo Evangelho” (Test 14) e a percorrer as estradas dos homens, anunciando o Reino de Deus e a conversão, em pobreza e alegria. Dessa forma, aquele lugar santo se tornara, para Francisco, “a tenda do encontro” com o próprio Cristo, Palavra viva de salvação. A Porciúncula é, particularmente, “terra do encontro” com a graça do perdão, que amadureceu numa íntima experiência de Francisco que, como escreve São Boaventura, “um dia, quando, […] a chorar, deplorava amargamente os anos passados, sentiu-se invadido pela alegria do Espírito Santo e teve a certeza de que seus pecados tinham sido plenamente perdoados” (LegM III,6). Querendo que todos participassem de sua pessoal experiência da misericórdia de Deus pediu e obteve a indulgência plenária para aqueles que, arrependidos e confessados, peregrinassem à igrejinha para receber a remissão dos pecados e a superabundância da graça divina (cf. Rm 5,20).

4. A todos que, em autêntica atitude de penitência e reconciliação, seguem as pegadas do Poverello de Assis e recebem a indulgência da Porciúncula com as requeridas disposições interiores, desejo que experimentem a alegria do encontro com Deus e a ternura do seu amor misericordioso. Este é o “espírito de Assis”, espírito de reconciliação, de oração, de respeito mútuo que, de coração, espero que seja para todos um estímulo à comunhão com Deus e com os irmãos. É o mesmo espírito que marcou o encontro de oração pela paz com os representantes das religiões do mundo, que acolhi na Basílica de Santa Maria dos Anjos, a 27 de outubro de 1986; um acontecimento do qual guardo uma viva e grata recordação.Com estes sentimentos, também eu me dirijo em peregrinação espiritual para esta celebração da indulgência da Porciúncula na restaurada Basílica da Bem-aventurada Virgem, Rainha dos Céus, na iminência do Grande Jubileu da encarnação de Cristo. A Nossa Senhora, filha eleita do Pai, confio aqueles que em Assis e em todas as partes do mundo querem receber hoje o “Perdão de Assis”, para fazer do próprio coração uma morada e uma tenda para o Senhor que vem.

A todos a minha bênção, Castel Gandolfo, 1° de agosto de 1999, vigésimo primeiro de Pontificado.

O que escreve Paulo VI sobre a Porciúncula

Ao Revmo. Padre Constantino Koser, Vigário Geral da Ordem dos Frades Menores, na passagem do 750º ano da “Indulgência da Porciúncula”, concedida pelo Papa Honório III a São Francisco.

Ao dileto filho, saudação e bênção apostólica. A sacrossanta igreja da Porciúncula, que São Francisco “amou acima de qualquer outro lugar no mundo” , tornou-se dia após dia mais célebre no mundo católico, porque ali o seráfico Pai maravilhosamente disse e fez muitas coisas, mas sobretudo porque foi enriquecida com especial indulgência, que por isso é chamada de “Indulgência da Porciúncula”, e que há muitos séculos é lucrada por aqueles que piedosamente visitam aquela igreja.

Nestes dias em que se celebra o 750º ano desta indulgência, segundo a tradição concedida a São Francisco por Honório III e muitas vezes confirmada, no decorrer dos séculos, por nossos Predecessores, é para Nós um prazer dirigir-nos aos fiéis cristãos que, continuando o costume e o uso dos antepassados, dirigem-se à Porciúncula, que refulge por insigne antigüidade, para ali procurarem uma mais perfeita e pronta reconciliação com Deus, onde “quem orar com devoção alcançará o que pedir” .

Para repetirmos as palavras que recentemente escrevemos movidos por solicitude pastoral, “somente podemos achegar-nos ao Reino de Cristo pela ‘metanoia’, isto é, mediante a íntima transformação de todo o homem, pela qual ele começa a pensar, a julgar e a regular sua vida sob o impulso da santidade e caridade de Deus, ultimamente manifestadas no Filho e plenamente comunicadas a nós” .
Ora, é exatamente aos fiéis, que levados pela penitência se esforçam por chegar a esta ‘metanoia’, para que, após o pecado, alcancem a santidade com a qual foram vestidos em Cristo pelo batismo, que a Igreja vai ao encontro também com a distribuição das indulgências, como que para sustentar com o materno abraço de sua ajuda a fragilidade de seus filhos enfermos.

Portanto, a indulgência não é o caminho mais fácil pelo qual possamos evitar a necessária penitência dos pecados; mas é antes um apoio que os todos os fiéis, humildemente conscientes de sua fraqueza, encontram no corpo místico de Cristo, que “colabora para a sua conversão com caridade, exemplo e orações” .

Um ensinamento claríssimo de tal vontade de penitência, unida à consciência da própria enfermidade nos foi deixado pelo próprio São Francisco, aquele que se apresenta a nós tão perfeitamente expresso como “o novo homem que foi criado por Deus em justiça e verdadeira santidade” . Com efeito, ele não só nos dá um exemplo de sua radical conversão a Deus e de uma vida verdadeiramente penitente, mas em sua Regra também manda que se admoestem os homens “a perseverarem todos na verdadeira fé e penitência, porque de outra forma ninguém poderá salvar-se” ; igualmente, na explicação da oração do Senhor, assim implora ao Pai que está nos céus: “perdoai-nos as nossas ofensas: por vossa inefável misericórdia e o inaudito sofrimento de vosso dileto Filho, nosso Senhor Jesus Cristo, e pela poderosa intercessão da beatíssima Virgem Maria, bem como pelos méritos e súplicas de todos os vossos eleitos”.

Com razão, cremos que estas exortações de São Francisco, como também a admirável caridade que o levou a pedir para todos os fiéis a indulgência da Porciúncula tenham nascido do desejo de comunicar aos outros a doçura de espírito que ele mesmo experimentou após pedir a Deus o perdão dos pecados. É o que Frei Tomás de Celano, o principal escritor da vida deste homem seráfico, nos narra com delicadíssimas palavras: “Admirando a misericórdia do Senhor nos muitos benefícios que executava por seu intermédio, e desejando que o Senhor se dignasse mostrar-lhe o progresso que ele e os seus fariam na perfeição, foi para um lugar de oração, como fazia com freqüência. Lá ficou bastante tempo rezando com temor e tremor, diante do Senhor de toda a terra. Relembrando com amargura os anos que aproveitara mal, repetia sem cessar: ‘Deus, tende piedade de mim que sou pecador’. O íntimo de seu coração começou a extravasar sensivelmente uma alegria incontável e uma suavidade sem tamanho. Sentiu-se desfalecer, dissipando-se os temores e as trevas que se tinham juntado em seu coração por medo do pecado, e lhe foi infundida uma certeza da remissão de todos os pecados e uma confiança de que viveria da graça” .

Ora, o primeiro fruto da penitência é a consciência dos nossos pecados: “Se queres que Deus te perdoe, reconhece-te pecador. Sê juiz de teu pecado, não advogado” .

Por isso, fazendo-nos acusadores de nós mesmos diante da Igreja, à qual Jesus Cristo entregou as chaves do reino dos céus , receberemos a remissão da culpa e da pena; todavia, isso não deve retardar o caminho de nosso retorno a Deus. Devemos assumir o jugo de Cristo, sua cruz que encontramos ou que abraçamos voluntariamente pela mortificação; pelas boas obras e sobretudo pelos frutos da caridade fraterna, é preciso que demonstremos a sinceridade de nosso retorno à casa do Pai e nossa mais plena e nova inserção no corpo de Cristo, que é a Igreja.

O fiel penitente que faz essa renovação do espírito, como dissemos acima, não está só, pois “de certo modo é purificado pelas obras de todo o povo e é lavado e limpo interiormente pelas lágrimas de todo aquele que é redimido do pecado pelas orações e lágrimas do povo. Porque Cristo deu à sua Igreja o poder de redimir um fiel por meio de todos, o deu a ela, que mereceu a vinda do Senhor para que todos fossem redimidos por meio de um” .

A indulgência que a Igreja concede aos penitentes é manifestação da admirável comunhão dos Santos, que une misticamente no vínculo da caridade de Cristo a Beatíssima Virgem Maria e o conjunto dos cristãos triunfantes no céu ou que permanecem no purgatório ou que peregrinam na terra. Com efeito, a indulgência que é concedida por ação da Igreja diminui ou abole totalmente a pena que, de algum modo, impede o homem de conseguir uma mais estreita união com Deus; por isso, nesta especial forma da caridade eclesial, o fiel penitente encontra um válido auxílio para despir-se do velho homem e revestir-se do novo, “que vai se renovando para o conhecimento segundo a imagem de quem o criou”.

Em base a estas reflexões, desejamos que o 750º aniversário da concessão desta indulgência seja de tal modo celebrado que a Porciúncula seja realmente o santuário do pleno perdão e da garantida paz com Deus.

Bem sabemos que no decorrer de tantos séculos grande número de peregrinos acorreram à igreja da Porciúncula, através de longas e difíceis viagens, para encontrarem nos braços da Rainha dos Anjos, a quem a capela e a basílica da Porciúncula é dedicada, a serenidade de espírito pelo perdão dos pecados e pela renovação da graça divina. Sabemos também que ainda hoje, mas especialmente na festa da dedicação da mesma capela, dia em que a indulgência da Porciúncula é estendida a todas as igrejas da Ordem Franciscana, muitos peregrinos chegam à Porciúncula, não levados pela curiosidade ou pelo prazer, mas somente para pedir a Deus o perdão dos pecados, para depois sentir-se mais na intimidade do Pai celeste. Realmente, são estes os peregrinos que verdadeiramente nos mostram o significado da grande peregrinação da vida do homem: uma longa e árdua caminhada que nos conduz a Deus.

Realmente, seria de desejar que as peregrinações, individuais ou de grupos, tornadas mais freqüentes pela facilidade dos meios de transporte, não perdessem o caráter de piedade e de penitência, mas conservassem este sentido de um esforço profundamente religioso.

Queira Deus que não seja interrompida a secular tradição da peregrinação à igreja da Porciúncula, devotamente empreendida por nosso imediato Predecessor João XXIII, mas antes cresça o número dos fiéis que, neste santuário vão ao encontro de Cristo, Senhor misericordioso, e de sua Mãe, que é poderosa intercessora junto a Ele.

Esperando que tudo aconteça conforme o nosso desejo, a ti, dileto filho, a toda a família franciscana e a todos que se reunirão no santuário da Porciúncula para celebrar solenemente este aniversário, com prazer concedemos no Senhor a bênção apostólica.

Dada em Roma, junto a São Pedro, no dia 14 do mês de julho, de 1966, quarto ano de nosso Pontificado.

PAPA PAULO VI

S. BOAVENTURA, Legenda Maior, II,8.
TOMÁS DE CELANO, Vida primeira, 106.
Const. Apost. Paenitemini, AAS LVIII (1966), p. 179.
Const. Lumen Gentium, c. 2, n. 11.
Ef 4,24.
RegNB, 23, 22.
Paráfrase da Oração do Senhor, 9.
1 Cel, 26.
S. AGOSTINHO, Sermão 20, 2; PL 38, 130.
Cf. Mt 16,19.
SANTO AMBRÓSIO, De paenitentia, I. 15, 80; PL 16, 469.
Cl 3,10.

Orações

CREDO
Creio em um só Deus, Pai todo-poderoso, Criador do céu e da terra, e de todas as coisas visíveis e invisíveis.Creio em um só Senhor: Jesus Cristo, Filho unigênito de Deus, gerado do Pai antes de todos os séculos: Deus de Deus, Luz de Luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro; gerado, não feito; consubstancial com o Pai, por quem todas as coisas foram feitas;que, por nós e por nossa salvação, desceu dos céus, e se encarnou, por obra do Espírito Santo, da virgem Maria, e se fez homem. Foi também crucificado, sob o poder de Pôncio Pilatos, padeceu e foi sepultado. Ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras, e subiu aos céus, e está sentado à direita do Pai. Virá outra vez com glória para julgar os vivos e os mortos, e o seu Reino não terá fim.Creio no Espírito Santo, o Senhor que dá vida, e procede do Pai e do Filho; que, com o Pai e o Filho, é juntamente adorado e glorificado; Ele, que falou pelos profetas.
Creio na Igreja una, santa, universal e apostólica. Confesso que há um só Batismo para remissão dos pecados.
E espero a ressurreição dos mortos e a vida do mundo que há de vir. Amém.

PAI NOSSO
Pai Nosso que estais no céu,
santificado seja o vosso nome,
vem a nós o vosso reino,
seja feita a vossa vontade
assim na terra como no céu.
O pão nosso de cada dia nos dai hoje,
perdoai-nos as nossas ofensas,
assim como nós perdoamos
a quem nos tem ofendido,
não nos deixei cair em tentação
mas livrai-nos do mal.
Amém

UMA ORAÇÃO NAS INTENÇÕES DO PAPA

No mês de agosto, o Papa pede:
Intenção Geral: Para que todos os que atravessam momentos de dificuldade interior e de provação, encontrem em Cristo a luz e o sustento que os levem a descobrir a felicidade autêntica.
Intenção Missionária: a fim de que a Igreja na China dê testemunho de uma coesão interna cada vez maior e possa manifestar a comunhão concreta e visível com o Sucessor de Pedro.

ORAÇÃO A NOSSA SENHORA DOS ANJOS
Ó Nossa Senhora dos Anjos, na pequena Igreja da Porciúncula,
São Francisco recebeu as vossas bênçãos generosas juntamente com sua Ordem.
Ele depositara na vossa presença materna uma grande confiança e devoção, sendo atendido em seus pedidos. Continuai a dispensar os vossos favores sobre nós e sobre nossas necessidades particulares.
Nós vos suplicamos, dai-nos a graça da penitência dos pecados, a correção de nossas más inclinações e fortalecimento nos momentos de fraqueza. Quantos recusam a salvação e preferem caminhar nas trevas do erro! Tudo é possível para aquele que crer, para aquele que se arrepender!
Vós, ó Mãe, manifestastes a São Francisco o grande desejo de reconciliar os pecadores com Jesus, que se entregou em uma cruz para nos salvar. Rogai por nós, agora e na hora de nossa morte. Por isso, com todos os anjos do céu, vos saudamos: Ave Maria …

ORAÇÃO A VIRGEM MARIA
Santa Virgem Maria,
entre as mulheres do mundo, não nasceu nenhuma semelhante a ti,
ó filha e serva do altíssimo e sumo Rei e Pai celeste,
mãe de nosso santíssimo Senhor Jesus Cristo,
esposa do Espírito Santo:
roga por nós, com São Miguel Arcanjo
e com todas as virtudes dos céus e com todos os santos,
junto a teu santíssimo e dileto Filho, Senhor e Mestre.
Bendigamos o Senhor Deus vivo e verdadeiro (Ts 1,9);
Rendamos-lhe sempre louvor, glória, honra e bênção (Ap 4,9) e todos os bens.
Amém. Amém. Assim seja. Assim seja.

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