Carisma - Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil - OFM

Capítulo Geral da Ordem dos Frades Menores

Apresentação

                                                     Imagens da Cúria Geral dos Frades Capuchinhos

O dom da Fé e da Fraternidade

 

De 3 a 18 de julho deste ano, realizar-se-á em Roma o Capítulo Geral da Ordem dos Frades Menores, com o tema “Renovemos a nossa visão, abracemos o nosso futuro”. Historicamente, o primeiro Capítulo Geral celebrado em Roma foi em 1239 com a eleição de Frei Alberto de Pisa como Ministro Geral, após a deposição do Irmão Elias; o último Capítulo Geral realizado em Roma foi em 1933.

Em 2021, os 118 Capitulares esperados para esta celebração da nossa Fraternidade mundial se encontrarão no Colégio Internacional São Lourenço de Brindisi, dos Frades Menores Capuchinhos, que está localizado aproximadamente a meio caminho entre o aeroporto Leonardo Da Vinci de Fiumicino e o centro histórico de Roma.

Ao chegar à praça de entrada da sede do Capítulo, os capitulares serão saudados por uma escultura de duas cruzes no centro da praça, simbolizando a cruz de Cristo e a cruz de Francisco de Assis. Depois das duas cruzes, surge a entrada principal do Colégio, com um grande salão em forma de anfiteatro à esquerda, e uma grande capela circular com cúpula de madeira à direita.

Os jardins de 18 hectares pertencentes ao Colégio, o grande salão com 243 lugares, a inspiradora capela-mor e as muitas pequenas capelas, os amplos espaços de reuniões, o amplo refeitório, os 234 quartos e os amplos corredores, proporcionam um ambiente sereno e inspirador para este Capítulo Geral, com todas as comodidades simples e necessárias e distanciamento social adequado. Os capitulares que chegam do exterior terão todo o espaço e as comodidades necessárias para cumprir sua quarentena na chegada em um ambiente seguro e agradável que inclui o acesso à natureza.

Além da beleza natural dos vastos terrenos do Colégio, as esculturas externas e arquitetura interna, as obras de arte originais incluem mosaicos da capela realizados pelo artista e teólogo jesuíta Marko Rupnik e pinturas ao longo dos corredores que retratam cenas da vida de São Francisco feitas pelo artista expressionista espanhol Peris Carbonell. Tudo isso fala ao espírito e inspira os sentidos com a beleza da arte.

Na verdade, este próximo e histórico Capítulo Geral de 15 dias em Roma promete ser especial em mais de um aspecto. Nos tempos atuais de incerteza em nosso mundo, os Frades Menores agradecem pelo dom da Fé e da Fraternidade que são uma certeza, pelas experiências de Bondade e Beleza que nos rodeiam e pela Esperança que brota eternamente no coração humano. Rezemos pelos nossos Capitulares e por toda a nossa Ordem, para que respondamos com alegria à exortação da Epístola aos Efésios: “Desperta… e Cristo te iluminará”  (Ef 5,14).


Para todas as informações sobre o Capítulo Geral de 2021: http://ofmcapgen2021.org/

A sede do Capítulo

                                                                                            O Colégio dos Capuchinhos em Roma

É uma instituição de formação e de cultura do mais alto grau na vida da Ordem dos Frades Menores Capuchinhos. Tem por finalidade ajudar a aprofundar e transmitir a cultura franciscano-capuchinha e fomentar da melhor maneira possível a formação das gerações futuras dos capuchinhos. É certamente a fraternidade mais numerosa e mais multicultural de toda a Ordem e acolhe frades de todas as circunscrições para frequentarem as diversas Universidades Pontifícias presentes em Roma. O Colégio é composto pela família estável e pelos estudantes.

O Patrono do Colégio foi canonizado em 1881 e recebeu o título de doutor da Igreja em 1959, outorgado pelo papa João XXIII. A sua festa é celebrada um dia antes do aniversário de sua morte, dia 21 de julho.

São Lourenço morreu aos 60 anos deixando muitos escritos, os quais externam o amor pela Palavra de Deus: “A Palavra de Deus é luz para a inteligência, fogo para a vontade, para que o homem possa conhecer e amar a Deus… É martelo contra a dura obstinação do coração, nos vícios contra a carne, o mundo e o demônio; é espada que mata todo o pecado”.

Colégio Internacional de San Lorenzo de Brindisi
www.collegiosanlorenzo.com


Informações: Site da Cúria Geral dos Frades Capuchinhos

Tema e lema do Capítulo

O tema e o logotipo do Capítulo escolhido pelo Definitório Geral são os seguintes:

Renovemos nossa visão. Abracemos nosso futuro.

“Desperta… e Cristo te iluminará” (Ef 5,14)

Frei Michael: 8 anos no serviço de Ministro Geral

              Imagem de Frei Michael quando foi eleito em 2015

Neste Capítulo Geral, que é eletivo, O norte-americano Michael Anthony Perry se despede de um serviço em que exerceu desde 2013, quando era Vigário Geral e foi eleito para completar o sexênio (até 2015) com a saída de Frei José Rodríguez Carballo, que foi nomeado arcebispo pelo Papa Francisco. Depois o Capítulo Geral de 2015, no dia 21 de maio, em Santa Maria dos Anjos (Assis), os frades o reelegeram como Ministro Geral.

Na Carta escrita por ocasião de Pentecostes, neste ano, Frei Michael fez seu agradecimento por esses anos de serviço: “De modo algum gostaria de perder a oportunidade de dirigir-me a vós, queridos irmãos, nesta solenidade de Pentecostes, para partilhar convosco tudo o que esta celebração litúrgica inspira no meu coração e, ao mesmo tempo, para devolver ao Senhor e a cada um de vós a bondade e a bênção nestes últimos anos no serviço de Ministro Geral dos Frades Menores (cfr. Rnb XVII, 17-18). Esta restituição gostaria de expressar através de uma ação de graças profunda e sentida a toda a Ordem, às Clarissas e às Concepcionistas e a toda a Família Franciscana em geral, por ter me ajudado a ver a força e eficácia do dom da fraternidade enquanto nos comprometemos a ouvir a voz de Deus e a cumprir o que nos pede com fidelidade, perseverança e amor.

Nesta mesma carta, ele lembrou que a tradição diz que o Capítulo Geral da Ordem coincide com a festa de Pentecostes, seguindo o desejo expresso por Francisco em documentos como a Regra Não-Bulada (cf. Rnb XVIII, 2) e que ele reitera na Regra Bulada quando diz: “Quando ele falecer (o Ministro geral), faça-se a eleição do sucessor pelos ministros provinciais e custódios no capítulo de Pentecostes, em que os ministros provinciais tenham sempre que se reunir juntos, onde quer que for estabelecido pelo Ministro Geral” (Rb VIII, 2). “Este ano, por motivos que todos conhecemos bem, fomos obrigados a mudar este importante acontecimento para o mês de julho, esperando que as condições e os regulamentos governamentais o permitissem”, explicou.

Nesses oito anos como Ministro, talvez seu maior desafio foi se recuperar de um acidente de bicicleta que sofreu em 15 de agosto de 2019 e que requereu dele muita paciência para chegar à recuperação. “O forte impacto contra o cimento produziu a fratura do fêmur e do osso pélvico que contém a articulação do fêmur e controla o movimento da perna”, contou então em carta. Como resultado, passou por uma cirurgia para reconstruir as áreas afetadas. No dia 15 de outubro, Frei Michael escreveu nova carta falando de sua reabilitação. “Em 15 de outubro, visitei o cirurgião ortopédico que realizou a operação inicial para reconstruir parte da minha pelve (bacia). De acordo com os raios X, o osso está lentamente se recompondo. Graças às suas orações e apoio, a um programa de repouso para não fazer força ou peso na perna esquerda e, é claro, aos 31 parafusos e 2 placas que ajudam a manter tudo unido. Devo continuar evitando peso na perna esquerda pelo menos até o final de novembro. Se tudo correr bem, devo conseguir aumentar lentamente o peso na perna esquerda até o mês de dezembro. Continuo fazendo fisioterapia três vezes por semana para trabalhar a força muscular e flexibilidade”, dizia. Frei Michel hoje está recuperado e será o presidente deste Capítulo Geral.

Ainda na Carta de Pentecostes, escreveu que nestes anos de serviço como Ministro Geral pode constatar que todos devem continuar trabalhando incansavelmente para combater o que o Papa Francisco chamou em sua encíclica Laudato Si’, a cultura do descarte, “em relação direta com outro tema que ele mesmo chamou de ‘a globalização da indiferença’ (cf. Mensagem do Santo Padre Francisco para a celebração do XLIX Dia Mundial da Paz, 1º de janeiro de 2016) que se expressa através de fenômenos como o ódio racial, a xenofobia, a aparição de personagens populistas que proclamam tempos messiânicos para a construção de uma sociedade como ela ‘deveria ser’. Uma mentalidade desta natureza preocupa-me sinceramente porque aos poucos vai tomando conta, como o joio que cresce entre o trigo (cf. Mt 13,24-52), fragmentando dramaticamente não só o ambiente político dos nossos países, mas também ameaçando a integridade de nossas sociedades, das famílias e até batendo nas portas de algumas de nossas fraternidades locais”, observou.

MISSIONÁRIO NO CONGO POR DEZ ANOS

Nascido em Indianápolis (EUA) no dia 7 de junho de 1954, Frei Michael Perry foi Vigário Geral da Ordem antes de ser eleito Ministro Geral em 2013. Ele foi Ministro Provincial da Província do Sagrado Coração de Jesus (EUA), onde também foi professor de Teologia e trabalhou na Comissão Internacional de JPIC.

Durante dez anos, trabalhou como missionário na República Democrática do Congo, a serviço da Conferência dos Bispos Católicos dos EUA.

Seu currículo acadêmico inclui doutorado em Antropologia Teológica, mestrado em Teologia, mestrado em Formação Sacerdotal e Bacharelado em História e Filosofia.

Frei Michael ingressou na Ordem Franciscana em 25 de junho de 1977 quando fez o noviciado. Em 11 de agosto de 1978 fez a profissão temporária e professou solenemente na Ordem dos Frades Menores no dia 10 de outubro de 1981.

Frei Michael é o terceiro norte-americano a ocupar o posto de São Francisco de Assis. Antes dele, o primeiro a ser eleito foi Frei Valentine Schaff, da Província São João Batista, e o segundo Frei John Vaughn, da Província de Santa Bárbara, para um mandato de 1979-1991.

Frei Michael esteve à frene da Ordem dos Frades Menores, presente em 110 países, organizada em 103 províncias, 8 custódias autônomas, 14 custódias dependentes, 1 Federação e 20 Fundações. As Províncias e Custódias Autônomas são governadas, respectivamente, pelo Ministro Provincial e seu Definitório ou pelo Custódio e seu Conselho, eleitos pelo Capítulo Provincial ou Custodial. As Províncias de uma ou mais áreas geográficas formam uma Conferência. Na Ordem dos Frades Menores as Conferências de Ministro Provinciais somam 14.

A Ordem dos Frades Menores está constituída por cerca de 13 mil frades que, incorporados nas Províncias e nas Custódias, são governados pelo Ministro Geral com seu Definitório (Conselho). A Regra dos Frades Menores, confirmada pelo Papa Honório III (1223), é o fundamento da vida e da legislação da Ordem.

“Como Ministro Geral, quero lavar os pés dos irmãos para que eles lavem os pés dos demais. Creio que é a melhor maneira de viver o discipulado de Cristo. Eu sou um pecador, com tantas limitações, mas é uma graça estar a serviço dos irmãos. Sou humano e por isso me sinto bem entre meus irmãos, porque eles também são humanos”, disse Frei Michael quando foi eleito em entrevista concedida a Riccardo Benotti, no site da Cúria Geral.


Moacir Beggo

O que é o Capítulo?

Começamos nossa reflexão sobre os Capítulos da tradição franciscana com um pequeno esclarecimento sobre a palavra que Francisco de Assis usou: “O que significa capitulum?”

Desde o século VIII os monges se reuniam, após a primeira hora, para ouvir a leitura de um “capítulo” (capitulum) da Regra de São Bento. Aos poucos, o mesmo encontro foi denominado “o capítulo”, e o local onde se encontraram ganhou o nome de “casa capitular”. Nos mosteiros, havia dois tipos de capítulo:

1) O primeiro servia de consulta: o abade pedia conselho à comunidade sobre algum assunto;

2) O segundo servia para a formação: o abade comentava o trecho da Regra que acabou de ler.

O “Capítulo Geral” foi estabelecido pelos monges cistercienses em 1195. Todos os abades cistercienses se reuniam uma vez por ano em Citeaux, França.

Em 1215, o IV Concílio de Latrão, com a presença de Francisco, decidiu que todas as Ordens religiosas deveriam celebrar capítulos periodicamente, como forma de reformar a vida religiosa, a exemplo dos cistercienses:

Em cada província eclesiástica se celebrará, a cada três anos, salvando o direito dos ordinários diocesanos, um capítulo geral de abades e priores que não tenham abadia e que não tenham o costume de celebrar esses capítulos. Este se celebrará num mosteiro que se adapte melhor a este fim e assistirão todos os que não estejam canonicamente impedidos, com esta restrição, no entanto, de que nada leve consigo mais do que seis cavalos e oito pessoas. Ao inaugurar esta nova disposição, convide dois abades vizinhos da Ordem Cisterciense para aconselhamento e assistência oportuna, uma vez que entre eles a celebração de tais capítulos é antiga. Esses dois cistercienses escolherão sem impedimentos entre os presentes dois que considerem mais competentes, e estes quatro presidirão todo o capítulo, para que nenhum deles possa assumir a autoridade da direção; se for conveniente, eles podem ser alterados por deliberação prudente. Este capítulo será celebrado por vários dias consecutivos, de acordo com o costume da Ordem Cisterciense. Durante suas deliberações se prestará cuidadosa atenção à reforma da ordem e à observância regular, e o que foi promulgado com a aprovação dos quatro será observado inviolavelmente por todos, a despeito de desculpas, contradições e apelações em contrário. Em cada um desses capítulos será determinado o local de celebração do próximo. Todos os assistentes, embora por falta de espaço, muitos devam ocupar outras casas, devem viver a vita communis e arcar proporcionalmente com todas as despesas comuns. No mesmo capítulo devem ser nomeadas as pessoas religiosas e prudentes que, em nosso nome, visitem todas as abadias da província, não só de monges, mas também de monjas, segundo a forma que lhes é prescrita, corrigindo e reformando o que precisa de correção e reforma.….
(IV Concílio de Latrão, cânone 12)

Francisco e os seus primeiros companheiros começaram a se reunirem regularmente para se animarem e se apoiarem, para se admoestarem e se corrigirem, desde o início da sua vida em comum. Essas reuniões seriam mais tarde chamadas de capitulum (“capítulo”), seguindo o exemplo dos cistercienses.


Texto do site do Capítulo (http://ofmcapgen2021.org/que-es-el-capitulo)

Origem e desenvolvimento dos Capítulos

A primitiva experiência da forma de vida proposta por Francisco aos seus frades reclamava, espontaneamente, a realização do encontro fraterno, como exigência intrínseca. A reunião que concretiza esse encontro está na origem daquilo que mais tarde haveria de ser denominado de Capítulo.

Tomás de Celano atesta o fato com bastante clareza na Primeira Vida de São Francisco ao se referir às fases das duas originais e famosas reuniões da primitiva fraternidade franciscana.

Assim é descrita a primeira reunião: “Quando a Fraternidade tinha atingido o número de oito frades, “São Francisco chamou-os todos a si e, tendo-lhes falado muitas coisas sobre o Reino de Deus, o desprezo do mundo, a abnegação da própria vontade e a mortificação do corpo, separou-os dois a dois pelas quatro partes do mundo, e lhes disse: ‘Ide, caríssimos, dois a dois, por todas as partes do mundo, anunciando aos homens a paz e a penitência para a remissão dos pecados…’.”

A segunda reunião é descrita nestes termos: “Pouco tempo depois, São Francisco desejou revê-los e orou ao Senhor, que congrega os dispersos de Israel, que se dignasse reuni-los outra vez em pouco tempo. Assim aconteceu que, bem depressa, de acordo com sua vontade e sem que ninguém os chamasse, eles se encontraram dando graças a Deus. Reunidos, manifestaram a sua grande alegria por rever o piedoso pastor e se admiraram de terem tido todos o mesmo desejo ao mesmo tempo. Contaram depois as coisas boas que o misericordioso Senhor lhes tinha feito e pediram correção e castigo ao santo Pai pelas negligências e ingratidões que pudessem ter cometido, cumprindo-os diligentemente”.

Comentando o fato, Celano assim se exprime: “…era isso que costumavam fazer todas as vezes que chegavam a ele… então o bem-aventurado Pai, abraçando seus filhos com muita caridade, começou a manifestar-lhes seu pensamento e o que o Senhor lhe havia revelado”(1Cel 29;30).

Fácil detectar nas duas descrições o significado fundamental do encontro fraterno que caracterizava as respectivas reuniões. Vemos facilmente presentes os temas da formação espiritual, da organização da vida em comum e da vida apostólica. Por tais razões, essas reuniões se tornaram modelo de todas  as subsequentes reuniões fraternas e capitulares.

origem

Imagem do artista Piero Casentini

A reunião comunitária torna-se logo expressão normal do desejo de comunhão que animava os frades que “tendo desprezado todas as coisas terrenas e estando livres do amor-próprio, consagravam todo o seu afeto aos irmãos, oferecendo-se a si mesmos para atender às necessidades fraternas. Reuniam-se com prazer e gostavam de estar juntos”(1Cel 39).

O aguçado senso de fraternidade que se respirava na nova forma de vida religiosa tinha criado estrutura expressiva na reunião fraterna. No início, tendo excluído de sua forma de vida a stabilitas loci, característica das ordens monásticas, os frades viviam, na reunião fraterna, válido instrumento de expressão e consolidação de sua comunhão de vida consagrada ao seguimento de Jesus Cristo.

Origem e Desenvolvimento do Capítulo Geral

Logo depois do nascimento de sua Ordem, os Frades Menores sentiram que se tornava impossível a frequência inicial dos encontros fraternos, surgindo a necessidade de normas organizacionais mais precisas e a fixação de assembleias bem determinadas, mais articuladas e com datas precisas. O encontro fraterno se transformou em verdadeiro e próprio Capítulo da fraternidade. Isto aconteceu por volta de 1212, quando “Francisco determinou que se celebrasse o Capítulo duas vezes por ano: em Pentecostes e na festa de São Miguel, em setembro” (LTC, 57).

O primeiro documento histórico que atesta tal instituição com caráter de Capítulo da fraternidade propriamente dito se encontra na Legenda S. Verecundi militis et martyris. O cronista do mosteiro dedicado ao santo mártir e situado nos arredores de Assis afirma: “Nos arredores deste mesmo mosteiro o bem-aventurado Francisco reunira o Capítulo dos primeiros trezentos frades… Assim nos relatou um sacerdote chamado André que esteve presente” (Paixão SV 6).

No decorrer do Capítulo de Pentecostes de 1217, devido ao crescimento numérico e geográfico da Ordem, impôs-se a necessidade de dividi-la em províncias para facilitar o governo. Como consequência, dada a impossibilidade, reconhecida por todos, de reunir todos os frades em Capítulo, impôs-se também a necessidade de transformar o Capítulo da Fraternidade em Capítulo de todos os ministros.

A deliberação capitular aparecerá codificada na Regra não Bulada 18, prescrevendo um Capítulo dos Ministros das Províncias italianas a ser celebrado uma vez por ano e um Capítulo de todos os ministros da Ordem de três em três anos. No ano de 1223, a Regra Bulada 8 prescreve apenas um Capítulo dos Ministros provinciais a ser celebrado em Pentecostes com frequência trienal, podendo ser antecipado ou retardado de acordo com o parecer do Ministro da fraternidade.

A participação é obrigatória para os Ministros, mas não é vedada a mais alguns frades; a participação dos Custódios é prevista somente quando se deve proceder a eleição de um novo Ministro geral. A partir de 1230 participa do Capítulo Geral somente um Custódio de cada Província por determinação de Gregório IX.

No Capítulo Geral de 1239, que encerrou o generalato de Frei Elias, foram promulgadas as primeiras Constituições da Ordem. Baseando-se nelas houve a determinação de que o Capítulo Geral fosse trienal, irrevogavelmente celebrado de três em três anos. Também a syndicatio a respeito do Ministro foi ligada ao Capítulo trienal, porque nesta época o Ministro era eleito sem ter definido o término de seu mandato.

As Constituições de Narbona em 1260 confirmam a frequência trienal obrigatória do Capítulo Geral, determinando também a syndicatio e a participação de outros frades, ministros e custódios, admitindo também a presença de representantes das Províncias, os chamados “discretos” e eleitos nos capítulos provinciais de suas regiões.

As sucessivas Constituições, substancialmente, confirmaram as mesmas normas, até a divisão da Ordem (1517). Depois da divisão, as Constituições das singulares Famílias Franciscanas, em diversos tempos, introduziram a frequência sexenal do Capítulo Geral; e regulamentaram posteriormente a composição.

Origem e desenvolvimento do Capítulo Provincial

Pode-se determinar com certeza a data do surgimento da instituição do Capítulo Provincial: é consequência da divisão da Ordem em Províncias decretada pelo Capítulo Geral de 1217. Nos primeiros tempos de sua existência, o Capítulo Provincial já se apresenta regulamentado através de normas prescritas na Regra não Bulada 18 e na Regra Bulada 8, no que se refere à sua composição, convocação e frequência.

Segundo a Regra não Bulada, sua composição reflete a mesma dinâmica do Capítulo Geral da fraternidade. Com efeito, trata-se de um Capítulo que reúne, em torno do Ministro, todos os frades da área circunscricional da Província e também toda a fraternidade provincial. Sua convocação anual é deixada a critério da autoridade e do discernimento dos Ministros Provinciais que podem convocá-lo se julgarem conveniente e oportuno. São Francisco, segundo o testemunho de São Boaventura na LM (4,10), atribuía uma tal importância para a vida e o desenvolvimento da Ordem ao Capítulo Provincial, que sua realização anual era um acontecimento sempre muito esperado, ligando-o com a celebração anual da festa de São Miguel, data em que bem primitivamente se celebrava o Capítulo Geral.

A Regra Bulada afirma que o Capítulo Provincial pode ser celebrado no mesmo ano em que se realiza o Capítulo Geral, prescrevendo que, em tal caso, o primeiro seja celebrado depois do segundo. São Boaventura comenta esta prescrição dizendo que tem como objetivo facilitar a promulgação dos Atos do Capítulo Geral e que não veta a celebração de Capítulos provinciais nos outros três anos.

Sua frequência anual é pressuposta tendo por base uma prática já vigente e bem consolidada. Não se fala mais de conexão entre o Capítulo Provincial e a festa de São Miguel. Às prescrições e aos critérios práticos foram surgindo exceções e mudanças que aos poucos se tornaram norma estável.

Somente depois da divisão da Ordem, as Constituições de cada família adotaram a frequência trienal do Capítulo Provincial, instituíram outros organismos subsidiários como as assim chamadas Congregações Intermediárias ou os Definitórios Plenários. Atualmente, as Constituições das Ordens Franciscanas, resultado da adaptação aos decretos do Vaticano II, preveem a possibilidade de Capítulos Provinciais extraordinários em fidelidade às estruturas de governo tradicionais.

“Dicionário Franciscano”, Vozes e Cefepal, 1993, Pg. 77 ss

Os primeiros Capítulos da Ordem: alguns testemunhos

Frei Sandro Roberto da Costa (*)

Desde os inícios da Ordem, os momentos de encontro fraterno mais intensos ocuparam um lugar importante na vida dos irmãos, seja pela necessidade de pensar e organizar juntos os rumos da fraternidade e da missão, seja pelo prazer de se encontrar, conversar, comer, se alegrar juntos. Francisco sempre tomou as decisões mais importantes da fraternidade junto com seus irmãos. Depois de 1209, quando o papa Inocêncio III deu a aprovação oral para a Regra, os irmãos se espalharam por todas as regiões da Itália, e o seu número cresceu rapidamente. Sentiu-se a necessidade de uma reunião mais articulada para avaliar a caminhada e fixar algumas normas mais precisas. Em 1212 Francisco reuniu seus frades nos arredores de Assis, próximo ao mosteiro de São Verecundo. Diz o cronista do mosteiro: “Nos últimos tempos, o bem-aventurado Francisco pobrezinho freqüentes vezes se hospedou no mosteiro de São Verecundo… E nas imediações do mesmo mosteiro, o bem-aventurado Francisco realizou um capítulo dos trezentos primeiros irmãos, e o abade e os monges, generosamente, como puderam, doaram as coisas necessárias. Houve grande abundância de pão de cevada, de sêmola, de trigo, de milho, água potável límpida e vinho de maçã diluído em água para os mais fracos, como atestava o velho senhor André, que esteve presente; e houve grande abundância de favas e legumes” (Legenda da Paixão de São Verecundo, Fontes Franciscanas e Clarianas, 1449).

Entre estes momentos de encontro de todos os frades, destaca-se aquele que aconteceu em Assis, na festa de Pentecostes, no ano de 1217, que passou para a história como o Capítulo das Esteiras. É São Boaventura quem nos dá uma idéia desta grande reunião fraterna: “Também, já multiplicados os irmãos no decorrer do tempo, o solícito pastor começou a convocá-los ao Capítulo geral no eremitério de Santa Maria da Porciúncula, a fim de distribuir a cada um deles a porção da obediência, segundo a medida da distribuição divina na terra da pobreza (cf. Sl 77,54; Gn 41,52). Aí, embora houvesse penúria de todas as coisas necessárias – e uma vez se reunisse uma multidão de mais de cinco mil irmãos -, no entanto, com a ajuda da divina clemência, havia suficiência de alimento, acompanhava uma boa saúde corporal, e fluía a alegria espiritual”. (Legenda Maior IV, 10, 1-2, Fontes Franciscanas e Clarianas 576).

primeiros

Imagem de Josep Benlliure

Imaginemos os frades se preparando para a viagem: hábito surrado, numa das mãos uma sacola com o mínimo necessário, na outra um cajado, sandálias aos pés ou descalços, punham-se a caminho. A festa de Pentecostes ocorre geralmente entre o fim do inverno e o início da primavera na Europa. A neve começa a derreter, aparecem os primeiros brotos nas árvores, as beiras das estradas se enfeitam de flores, os pássaros enchem os ares com seus cantos, festejando a vida que renasce. Os frades viajavam a pé, em grupo ou dois a dois, cruzando vales e montanhas, estradas poeirentas, sujeitos a assaltos, às intempéries. Mas viajavam contentes, pois iriam se encontrar com Francisco, aquele que lhes tinha mostrado o caminho do seguimento de Cristo e do seu Evangelho. Muitos frades iriam encontrá-lo pela primeira vez. Ver Francisco, abraça-lo, ouvi-lo, conversar com ele, saciar-se na fonte de sua santidade e sabedoria, poder partilhar com ele as angústias, dúvidas, incertezas e vitórias, valia qualquer sacrifício.

Calos nos pés, faces cansadas, hábitos empoeirados e suados, tudo o que os frades desejavam quando chegavam a Assis para o Capítulo era um leito macio, um banho quente, um prato de sopa. Como acomodar todos esses homens? Onde alojá-los? Como alimenta-los? Os habitantes de Assis não tiveram dúvida. Organizaram-se e, generosamente, ofereceram aos frades o que tinham de melhor. Como abrigo, esteiras. Daí o título de Capítulo das Esteiras. A mesa era frugal, mas farta. O cronista Jordão de Jano, um dos primeiros frades a ser enviado para a missão na Alemanha, nos dá um relato de um desses Capítulos, realizado em 1221: “… no ano do Senhor de 1221, no dia 23 de maio… no santo dia de Pentecostes, o bem-aventurado Francisco celebrou o Capítulo geral em Santa Maria da Porciúncula. A este Capítulo, conforme o costume então existente na Ordem, compareceram tanto os professos quanto os noviços; e os irmãos que compareceram foram calculados em três mil irmãos. A este capítulo esteve presente o senhor Rainério, cardeal diácono, com muitos outros bispos e religiosos. Por ordem dele, um bispo celebrou a missa. E acredita-se que o bem-aventurado Francisco então tenha lido o Evangelho, e outro irmão a epístola.

No entanto, como os irmãos não tivessem casas para tantos irmãos, acomodavam-se sob esteiras em campo espaçoso e cercado, comiam e dormiam em vinte e três mesas dispostas de maneira ordenada… Neste Capítulo, o povo da terra servia com espírito de prontidão, fornecendo pão e vinho, alegres por uma reunião de tantos irmãos e pelo regresso do bem-aventurado Francisco. Neste Capítulo, o bem-aventurado Francisco, tendo tomado o tema “Bendito o Senhor meu Deus que adestra minhas mãos para o combate” (cf. Sl 18,35), pregou aos irmãos, ensinando as virtudes e admoestando à paciência e aos exemplos a dar ao mundo. De modo semelhante era feito o sermão ao povo: e tanto o povo quanto o clero ficavam edificados. Quem poderia explicar quanta caridade, paciência, humildade, obediência e alegria fraterna existiam naquele tempo entre os irmãos? De fato, não vi na Ordem um Capítulo como este, tanto pela multidão dos irmãos quanto pela solenidade dos que serviam.

E embora fosse tão grande a multidão dos irmãos, no entanto, o povo fornecia tudo tão alegremente que, após sete dias de Capítulo, os irmãos foram obrigados a fechar a porta e a nada receber e a permanecer dois dias a mais para consumirem as coisas oferecidas e recebidas” (Crônica de Jordão de Jano, Fontes Franciscanas e Clarianas, 1270-1271).

Uma vez terminado o Capítulo, os irmãos retornavam para suas casas, levando na mente e no coração as palavras e ensinamentos de Francisco, mas também o carinho e o exemplo de generosidade e doação dos habitantes de Assis, que tanto amavam Francisco e seus frades.

(*) Frei Sandro Roberto da Costa, é professor de História da Igreja e de Patrística no Instituto Teológico Franciscano de Petrópolis (RJ). É doutor em História da Igreja pela Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma.

O Capítulo nas Fontes Franciscanas

Regra Bulada Cap. 8
Em 1209, Francisco escreve breve Regra e vai a Roma com os onze. Obtém a aprovação do Papa Inocêncio III, só oralmente. No dia 29 de novembro de 1223, Honório III aprova, com bula papal, a Regra definitiva, ainda hoje em vigor.

Da eleição do Ministro Geral desta Fraternidade e do Capítulo de Pentecostes

1. Todos os irmãos devem ter sempre um dos irmãos desta Ordem como ministro e servo desta fraternidade. E estão rigorosamente obrigados a obedecer-lhe. 2. Saindo este, faça-se a eleição de seu sucessor pelos ministros provinciais e custódios, no Capítulo de Pentecostes, ao qual deverão sempre comparecer, onde quer que for determinado pelo ministro geral; 3. e isto, de três em três anos ou em prazo maior ou menor, conforme for ordenado pelo referido ministro. 4. Se, em qualquer tempo, parecer à totalidade dos ministros e custódios, que o dito ministro não seja idôneo para o serviço e comum utilidade dos irmãos, têm os dito irmãos, aos quais cabe o direito de eleição, o dever de, em nome do Senhor, eleger um outro como guardião. 5. Depois do capítulo de Pentecostes, podem os ministros e os custódios, se o quiserem e lhes parecer conveniente, convocar uma vez os irmãos para, durante o mesmo ano, celebrarem capítulo em suas custódias.

Regra Não-Bulada Cap. 18
Em 1221, no Capítulo Geral de Pentecostes, Francisco apresenta a segunda Regra (Não Bulada ou não aprovada por bula papal), que Frei Cesário de Espira, versado em Sagrada Escritura, adornou com muitos textos bíblicos.

Como se devem reunir os ministros

1. Todo ano pode cada ministro reunir-se com os seus irmãos, na festa de São Miguel Arcanjo, onde lhes aprouver, para tratar com eles das coisas que se referem a Deus. 2. Todos os ministros, porém, que residirem nos países ultramarinos e ultramontanos, compareçam uma vez em três anos, e os demais ministros uma vez por ano, na festa de Pentecostes, ao capítulo que se reúne junto à igreja de Santa Maria da Porciúncula, 3. a não ser que o ministro e servo de toda a fraternidade o determine de modo diferente.

Legenda Maior, 4,10
No fim do primeiro triênio do generalato de Frei Boaventura, reuniu-se o capítulo geral da Ordem em 1260 e incumbiu o Ministro Geral de escrever nova biografia de São Francisco. A Legenda “Maior” é a biografia longa e “Menor” é a biografia resumida para uso litúrgico.

05Progresso da Ordem 

10. Com o passar dos anos e crescendo o número dos irmãos, o solícito pastor começou a reuni-los no local chamado Santa Maria da Porciúncula para o capítulo geral, a fim de repartir entre eles, por sorte, a terra ou propriedade de sua pobreza e dar a cada qual a porção que a obediência determinasse. Mais de cinco mil irmãos aí se reuniram e faltava tudo nesse lugar. Mas Deus, em sua bondade, veio-lhes em socorro, concedendo-lhes o suficiente para as forças do corpo e a alegria do espírito. Aos capítulos provinciais Francisco não podia assistir pessoalmente, mas a sua presença era marcada por diretivas solícitas,oração contínua e com sua bênção eficaz. E às vezes mesmo, por virtude do poder de Deus, ele aparecia visivelmente. Um dia, por exemplo, quando o glorioso confessor de Cristo, Antônio, estava pregando aos irmãos no Capítulo de Arles acerca do título da cruz: “Jesus Nazareno, Rei dos Judeus”, certo religioso de virtude comprovada, de nome Monaldo, movido por instinto interior e divino, dirigiu os olhos para a porta da sala onde se celebrava o capítulo, e cheio de admiração viu ali, com os olhos corporais, o seráfico Pai, que, elevado no ar e de mãos estendidas em forma de cruz, abençoava seus religiosos. Todos experimentaram naquela ocasião tanta e tão extraordinária consolação de espírito, que em seu interior não lhes foi possível duvidar da real presença do seráfico Pai, confirmando-se depois nesta crença não só pelos sinais evidentes que haviam observado, como também pelo testemunho que verbalmente lhes deu o próprio santo. Devemos admitir que a mesma força onipotente de Deus que permitiu outrora ao santo bispo Ambrósio assistir aos funerais do glorioso Martinho, para que venerasse com piedoso afeto aquele santo pontífice, essa mesma providência quis igualmente que seu servo Francisco estivesse presente à pregação de Santo Antônio, grande arauto do Evangelho, para que aprovasse a verdade daquela doutrina, sobretudo no que se refere à cruz de Cristo, cujo ministro e embaixador fora constituído.

Orações pelo Capítulo

Invocação (Laudes)

Ó Senhor, toca nosso coração e desperta-nos (cfr At 12,7) de todo torpor, renovando em nós novo fervor e dedicação plena à tua vontade: – Queremos amar-te, vivendo o Evangelho com amor sempre mais intenso e operoso, em perfeita alegria (Fioretti de S. Francisco) com todas as tuas criaturas (cfr Cântico das criaturas e Col 1,16-17).

ou:

Tu Te revelaste em amor, ó Senhor, tu que és misericórdia, graça e salvação para nós; desperta todo nosso afeto, adormecido para tua extraordinária graça (2Cor 9,14) – somos chamados a ser luz para todas os homens e mulheres, torna-nos idôneos para a missão que nos confiaste: dar glória e honra ao teu santo nome (cfr Francisco, Primeira Carta aos Custódios, 243) e chegar junto a Ti, na glória para a qual nos chamaste (1Tm 6,12).

Intercessão (Vésperas)

Ó Senhor, não te cansas de iluminar todos os teus filhos (Ef 3,9) a fim de torná-los plenamente bons e com paz: – suscita em nós alegre fervor para que caminhemos como filhos da luz (cfr Jo 12,36) e iluminemos a terra com o revérbero do teu esplendor (Ap 18,1).

ou:

Ó Senhor, fonte luminosa (Mt 17,2-3), luz dos homens, que brilhas nas trevas (cfr Jo 1,5), guia nossos passos no caminho do amor (2Jo 1,6): – fala-nos ao longo do caminho, continua a explicar-nos as Escrituras, inflama sempre nosso coração (cfr Lc 24,13s), torna-nos capazes de pregar tua palavra com o exemplo de nossa vida (Celano: Vita primeira, cap. XV,37).