Carisma - Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil - OFM

A paz na mística franciscana

Apresentação

Neste 27 de outubro, a Igreja convida a todos a rezar pela paz. O Dia Mundial de Oração pela Paz  foi criado pelo Papa João Paulo II, quando se reuniu em 1986, em Assis,  com líderes de várias religiões para um encontro de diálogo sobre a paz.

Transcorria o Ano Internacional da Paz, celebrado pela Organização das Nações Unidas (ONU), e João Paulo II queria destacar a dimensão espiritual da paz e refletir, com os representantes das religiões, sobre a responsabilidade comum de orientar as crenças religiosas pessoais e comunitárias para a construção efetiva da paz; o papa lamentava que, infelizmente, a religião era instrumentalizada com frequência para gerar violência e alimentar conflitos.

Sem cair no sincretismo, nem relativizando as crenças de cada religião, o papa João Paulo II quis mostrar que era possível as religiões conviverem em paz e serem instrumentos de edificação da concórdia nas comunidades e entre os povos.

Em 2011, ao celebrar 25 anos desse Espírito de Assis, o papa Bento XVI, falando sobre o tema, convidou os líderes de religiões a prosseguirem nos esforços comuns pela paz. Desde o primeiro encontro, em 1986, muitas iniciativas de reconciliação e de paz já ocorreram. No entanto, também houve muitas ocasiões perdidas e retrocessos! Velhos conflitos, ocultos como brasa debaixo da cinza, explodiram novamente em terríveis atos de violência e pareceram sufocar a possibilidade da paz.

No dia 7 de setembro, quando convocou o mundo inteiro a rezar pela paz, especialmente pelo conflito devastador na Síria, o Papa Francisco pediu: “É possível percorrer o caminho da paz? Podemos sair desta espiral de dor e de morte? Podemos aprender de novo a caminhar e percorrer o caminho da paz? Invocando a ajuda de Deus, sob o olhar materno da Salus Populi romani, Rainha da paz, quero responder: Sim, é possível para todos! Esta noite queria que de todos os cantos da terra gritássemos: Sim, é possível para todos! E mais ainda, queria que cada um de nós, desde o menor até o maior, inclusive aqueles que estão chamados a governar as nações, respondesse: – Sim queremos! A minha fé cristã me leva a olhar para a Cruz. Como eu queria que, por um momento, todos os homens e mulheres de boa vontade olhassem para a Cruz! Na cruz podemos ver a resposta de Deus: ali à violência não se respondeu com violência, à morte não se respondeu com a linguagem da morte. No silêncio da Cruz se cala o fragor das armas e fala a linguagem da reconciliação, do perdão, do diálogo, da paz. Queria pedir ao Senhor, nesta noite, que nós cristãos e os irmãos de outras religiões, todos os homens e mulheres de boa vontade gritassem com força: a violência e a guerra nunca são o caminho da paz! Que cada um olhe dentro da própria consciência e escute a palavra que diz: sai dos teus interesses que atrofiam o teu coração, supera a indiferença para com o outro que torna o teu coração insensível, vence as tuas razões de morte e abre-te ao diálogo, à reconciliação: olha a dor do teu irmão – penso nas crianças: somente nelas… olha a dor do teu irmão, e não acrescentes mais dor, segura a tua mão, reconstrói a harmonia perdida; e isso não com o confronto, mas com o encontro! Que acabe o barulho das armas! A guerra sempre significa o fracasso da paz, é sempre uma derrota para a humanidade. Ressoem mais uma vez as palavras de Paulo VI: «Nunca mais uns contra os outros, não mais, nunca mais… Nunca mais a guerra, nunca mais a guerra! (Discurso às Nações Unidas, 4 de outubro de 1965: ASS 57 [1965], 881). «A paz se afirma somente com a paz; e a paz não separada dos deveres da justiça, mas alimentada pelo próprio sacrifício, pela clemência, pela misericórdia, pela caridade» (Mensagem para o Dia Mundial da Paz, de 1976: ASS 67 [1975], 671).

Segundo o Dicionário Franciscano, dois textos evangélicos, com sentido original provavelmente idêntico, parecem permitir duas visões diferentes de paz. Eles se fundem em Francisco em uma única e idêntica experiência de paz. A paz interior da bem-aventurança e a paz proclamada de maneira plena e a todos dirigida constituem uma única e mesma realidade.

A coerência reside no fato que Francisco não é um pacificador no sentido próprio do termo. Não cabe a ele a obrigação de negociar acordos, equilibrar concessões ou receber juramentos. Por mais nobre que seja esta missão, não é sua incumbência. A ele compete criar condições espirituais que permitam a cada um optar por si mesmo em favor da paz e da concórdia. O Evangelho que alimenta esta meditação espiritual permite também defrontar-se com os acontecimentos.

Francisco sabe muito bem que a paz pode partir do coração de seus frades rumo ao coração de cada homem. O Poverello lhes confere uma missão de paz, quando, à imitação de Cristo, os envia dois a dois a pregar (1Cel 29). Os frades têm um desígnio de paz para o mundo (1Cel 24) e este  empreendimento abre as portas para o Reino dos céus. A saudação da paz dos frades repousa na experiência da bem-aventurança dos pacíficos. Ponto fundamental é que, sem dúvida, esta paz predomina sobre tudo.

Neste Especial, algumas reflexões sobre a paz na mística franciscana.

Visita do Papa Francisco a Assis para a Jornada de Oração pela Paz

Vossas Santidades,
Ilustres Representantes das Igrejas, Comunidades cristãs e Religiões,
Amados irmãos e irmãs!

Com grande respeito e afeto vos saúdo e agradeço a vossa presença. Agradeço à Comunidade de Santo Egídio, à diocese de Assis e às Famílias Franciscanas que prepararam esta jornada de oração. Viemos a Assis como peregrinos à procura de paz. Trazemos connosco e colocamos diante de Deus os anseios e as angústias de muitos povos e pessoas. Temos sede de paz, temos o desejo de testemunhar a paz, temos sobretudo necessidade de rezar pela paz, porque a paz é dom de Deus e cabe a nós invocá-la, acolhê-la e construí-la cada dia com a sua ajuda.

«Felizes os pacificadores» (Mt 5, 9). Muitos de vós percorreram um longo caminho para chegar a este lugar abençoado. Sair, pôr-se a caminho, encontrar-se em conjunto, trabalhar pela paz: não são movimentos apenas físicos, mas sobretudo da alma; são respostas espirituais concretas para superar os fechamentos, abrindo-se a Deus e aos irmãos. É Deus que no-lo pede, exortando-nos a enfrentar a grande doença do nosso tempo: a indiferença. É um vírus que paralisa, torna inertes e insensíveis, um morbo que afeta o próprio centro da religiosidade produzindo um novo e tristíssimo paganismo: o paganismo da indiferença.

Não podemos ficar indiferentes. Hoje o mundo tem uma sede ardente de paz. Em muitos países, sofre-se por guerras, tantas vezes esquecidas, mas sempre causa de sofrimento e pobreza. Em Lesbos, com o querido Patriarca Ecumênico Bartolomeu, vimos nos olhos dos refugiados o sofrimento da guerra, a angústia de povos sedentos de paz. Penso em famílias, cuja vida foi transtornada; nas crianças, que na vida só conheceram violência; nos idosos, forçados a deixar as suas terras: todos eles têm uma grande sede de paz. Não queremos que estas tragédias caiam no esquecimento. Desejamos dar voz em conjunto a quantos sofrem, a quantos se encontram sem voz e sem escuta. Eles sabem bem – muitas vezes melhor do que os poderosos – que não há qualquer amanhã na guerra e que a violência das armas destrói a alegria da vida.

Nós não temos armas; mas acreditamos na força mansa e humilde da oração. Neste dia, a sede de paz fez-se imploração a Deus, para que cessem guerras, terrorismo e violências. A paz que invocamos, a partir de Assis, não é um simples protesto contra a guerra, nem é sequer «o resultado de negociações, de compromissos políticos ou de acordos econômicos, mas o resultado da oração» [João Paulo II, Discurso, Basílica de Santa Maria dos Anjos, 27 de outubro de 1986, 1: Insegnamenti IX/2 (1986), 1252]. Procuramos em Deus, fonte da comunhão, a água cristalina da paz, de que está sedenta a humanidade: essa água não pode brotar dos desertos do orgulho e dos interesses de parte, das terras áridas do lucro a todo o custo e do comércio das armas.

Diversas são as nossas tradições religiosas. Mas, para nós, a diferença não é motivo de conflito, de polêmica ou de frio distanciamento. Hoje não rezamos uns contra os outros, como às vezes infelizmente sucedeu na História. Ao contrário, sem sincretismos nem relativismos, rezamos uns ao lado dos outros, uns pelos outros. São João Paulo II disse neste mesmo lugar: «Talvez nunca antes na história da humanidade, como agora, o laço intrínseco que existe entre uma atitude autenticamente religiosa e o grande bem da paz se tenha tornado evidente a todos» (Discurso, Praça inferior da Basílica de São Francisco, 27 de outubro de 1986, 6: o. c., 1268). Continuando o caminho iniciado há trinta anos em Assis, onde permanece viva a memória daquele homem de Deus e de paz que foi São Francisco, «uma vez mais nós, aqui reunidos, afirmamos que quem recorre à religião para fomentar a violência contradiz a sua inspiração mais autêntica e profunda» [João Paulo II, Discurso aos Representantes das Religiões, Assis, 24 de janeiro de 2002, 4: Insegnamenti XXV/1 (2002), 104], que qualquer forma de violência não representa «a verdadeira natureza da religião. Ao contrário, é a sua deturpação e contribui para a sua destruição» [Bento XVI, Intervenção na jornada de reflexão, diálogo e oração pela paz e a justiça no mundo, Assis, 27 de outubro de 2011: Insegnamenti VII/2 (2011), 512]. Não nos cansamos de repetir que o nome de Deus nunca pode justificar a violência. Só a paz é santa. Só a paz é santa; não a guerra!

Hoje imploramos o santo dom da paz. Rezamos para que as consciências se mobilizem para defender a sacralidade da vida humana, promover a paz entre os povos e salvaguardar a criação, nossa casa comum. A oração e a colaboração concreta ajudam a não ficar bloqueados nas lógicas do conflito e a rejeitar as atitudes rebeldes de quem sabe apenas protestar e irar-se. A oração e a vontade de colaborar comprometem a uma paz verdadeira, não ilusória: não a tranquilidade de quem esquiva as dificuldades e vira a cara para o lado, se os seus interesses não forem afetados; não o cinismo de quem se lava as mãos dos problemas alheios; não a abordagem virtual de quem julga tudo e todos no teclado dum computador, sem abrir os olhos às necessidades dos irmãos nem sujar as mãos em prol de quem passa necessidade. A nossa estrada é mergulhar nas situações e dar o primeiro lugar aos que sofrem; assumir os conflitos e saná-los a partir de dentro; percorrer com coerência caminhos de bem, recusando os atalhos do mal; empreender pacientemente, com a ajuda de Deus e a boa vontade, processos de paz.

Paz, um fio de esperança que liga a terra ao céu, uma palavra tão simples e ao mesmo tempo tão difícil. Paz quer dizer Perdão que, fruto da conversão e da oração, nasce de dentro e, em nome de Deus, torna possível curar as feridas do passado. Paz significa Acolhimento, disponibilidade para o diálogo, superação dos fechamentos, que não são estratégias de segurança, mas pontes sobre o vazio. Paz quer dizer Colaboração, intercâmbio vivo e concreto com o outro, que constitui um dom e não um problema, um irmão com quem tentar construir um mundo melhor. Paz significa Educação: uma chamada a aprender todos os dias a arte difícil da comunhão, a adquirir a cultura do encontro, purificando a consciência de qualquer tentação de violência e rigidez, contrárias ao nome de Deus e à dignidade do ser humano.

Nós aqui, juntos e em paz, cremos e esperamos num mundo fraterno. Desejamos que homens e mulheres de religiões diferentes se reúnam e criem concórdia em todo o lado, especialmente onde há conflitos. O nosso futuro é viver juntos. Por isso, somos chamados a libertar-nos dos fardos pesados da desconfiança, dos fundamentalismos e do ódio. Que os crentes sejam artesãos de paz na invocação a Deus e na ação em prol do ser humano! E nós, como Chefes religiosos, temos a obrigação de ser pontes sólidas de diálogo, mediadores criativos de paz. Dirigimo-nos também àqueles que detêm a responsabilidade mais alta no serviço dos povos, aos líderes das nações, pedindo-lhes que não se cansem de procurar e promover caminhos de paz, olhando para além dos interesses de parte e do momento: não caiam no vazio o apelo de Deus às consciências, o grito de paz dos pobres e os anseios bons das gerações jovens. Aqui, há trinta anos, São João Paulo II disse: «A paz é um canteiro de obras aberto a todos e não só aos especialistas, aos sábios e aos estrategistas. A paz é uma responsabilidade universal» (Discurso, Praça inferior da Basílica de São Francisco, 27 de outubro de 1986, 7: o. c., 1269). Irmãs e irmãos, assumamos esta responsabilidade, reafirmemos hoje o nosso sim a ser, juntos, construtores da paz que Deus quer e de que a humanidade está sedenta.

 

APELO PELA PAZ

Homens e mulheres de diferentes religiões, congregamo-nos, como peregrinos, na cidade de São Francisco. Aqui em 1986, há trinta anos, a convite do Papa João Paulo II, reuniram-se Representantes religiosos de todo o mundo, pela primeira vez de modo tão participado e solene, para afirmar o vínculo indivisível entre o grande bem da paz e uma autêntica atitude religiosa. Daquele evento histórico, teve início uma longa peregrinação que, tocando muitas cidades do mundo, envolveu inúmeros crentes no diálogo e na oração pela paz; uniu sem confundir, gerando amizades inter-religiosas sólidas e contribuindo para extinguir não poucos conflitos. Este é o espírito que nos anima: realizar o encontro no diálogo, opor-se a todas as formas de violência e abuso da religião para justificar a guerra e o terrorismo. E todavia, nos anos intercorridos, ainda muitos povos foram dolorosamente feridos pela guerra. Nem sempre se compreendeu que a guerra piora o mundo, deixando um legado de sofrimentos e ódios. Com a guerra, todos ficam a perder, incluindo os vencedores.

Dirigimos a nossa oração a Deus, para que dê a paz ao mundo. Reconhecemos a necessidade de rezar constantemente pela paz, porque a oração protege o mundo e ilumina-o. A paz é o nome de Deus. Quem invoca o nome de Deus para justificar o terrorismo, a violência e a guerra, não caminha pela estrada d’Ele: a guerra em nome da religião torna-se uma guerra contra a própria religião. Por isso, com firme convicção, reiteramos que a violência e o terrorismo se opõem ao verdadeiro espírito religioso.

Colocamo-nos à escuta da voz dos pobres, das crianças, das gerações jovens, das mulheres e de tantos irmãos e irmãs que sofrem por causa da guerra; com eles, bradamos: Não à guerra! Não caia no vazio o grito de dor de tantos inocentes. Imploramos aos Responsáveis das nações que sejam desativados os moventes das guerras: a ambição de poder e dinheiro, a ganância de quem trafica armas, os interesses de parte, as vinganças pelo passado. Cresça o esforço concreto por remover as causas subjacentes aos conflitos: as situações de pobreza, injustiça e desigualdade, a exploração e o desprezo da vida humana.

Abra-se, finalmente, um tempo novo, em que o mundo globalizado se torne uma família de povos. Implemente-se a responsabilidade de construir uma paz verdadeira, que esteja atenta às necessidades autênticas das pessoas e dos povos, que impeça os conflitos através da colaboração, que vença os ódios e supere as barreiras por meio do encontro e do diálogo. Nada se perde, ao praticar efetivamente o diálogo. Nada é impossível, se nos dirigimos a Deus na oração. Todos podem ser artesãos de paz; a partir de Assis, renovamos com convicção o nosso compromisso de o sermos, com a ajuda de Deus, juntamente com todos os homens e mulheres de boa vontade.

A Mística da Paz em Francisco e Clara

Frei Nestor Inácio Schwerz, Ofm

A Concepção de Paz na Idade Média

Na visão cristã, evitam-se guerras entre cristão, mas ao mesmo tempo faz-se guerra contra os inimigos do cristianismo, os não-crentes e os hereges, que a ameaçam a existência do cristianismo. A paz interior da pessoa adquire-se pela conversão do pecado, penitência e paz com Deus. A meta dos cristãos crentes, através do afastamento do pecado, do mundo, e através das obras de misericórdia, é a paz do paraíso.

A paz nas cidades era entendida como garantia aos cidadãos da inviolabilidade do corpo, da vida e do matrimônio. A cidade garante a segurança dos bens dentro dos muros. A cidade assume o dever de construir e manter relações pacíficas entre seus cidadãos.

1. A Mística da Paz em Francisco e Clara

Francisco faz referência a uma revelação em relação à saudação da paz. “O Senhor me revelou que nós devíamos saudar da seguinte forma: ‘O Senhor te dê a paz’ ” (Test. 23). Várias fontes biográficas confirmam essa expressão e contam como os irmãos desde o início usaram em diferentes modos essa saudação (cf. LTC, 26; LP, 67; LM 3,2; EP,26). A Legenda Perusina e o Espelho da Perfeição relacionam a revelação da saudação da paz com revelação do nome de “menores”. Dizer que algo é revelado por Deus é dizer que vem carregado de força de vida, de verdade, de amor e bondade, de graça e salvação. Torna-se normativo, tem peso de responsabilidade. Tem o caráter de dom, de iniciativa divina e do que não pode ser guardado, mas deve ser comunicado, anunciado, testemunhado. A expressão “saudação” indica busca, abertura, desejo de relação. Saudar alguém é estabelecer relação com alguém. Saudar, desejando a paz do Senhor, é construir relação de paz. Este desejo terá tanto mais credibilidade quanto mais vier do coração, do testemunho de quem vem carregado da vontade divina.

Dois são, portanto, os traços que caracterizam o movimento dos irmãos que se reuniram ao redor de Francisco. Juntando esses dons com a experiência do Evangelho (envio missionário), temos um núcleo certamente bem central no carisma francisclariano. É uma fraternidade enviada em missão para dar testemunho e anunciar o Evangelho, como Irmãos Menores e arautos da paz.

Esta saudação da paz soava estranha para muitos que nunca tinham ouvido algo semelhante de outros religiosos. Alguns ficavam até mal humorados e questionavam os frades, de modo que houve quem sentisse vergonha e pedisse a Francisco a dispensa de tal saudação. Francisco, porém, animou o frade envergonhado e admoestou-o para que não se encolhesse (cf. EP,26). No tempo de Francisco haviam muitos grupos e movimentos que buscavam a pobreza e a pregação. No entanto, a novidade estava nessa saudação da paz. Diante do irmão envergonhado, Francisco esclarece que essa saudação pertence essencialmente à compreensão da nova Fraternidade. Segundo o franciscanólogo João Batista Frayer, são quatro os elementos que impregnaram a compreensão inicial dos irmãos que se juntaram a Francisco: a minoridade, a vida de penitência, a fraternidade enquanto tal e a saudação de paz. O novo estaria na saudação de paz, ao passo que os demais elementos são comuns a outros grupos da época. As fontes testemunham com clareza que se pode falar com a mesma ênfase de um movimento de paz como se costuma falar de um movimento de pobreza e penitência.

Podem-se identificar alguns traços característicos do significado da paz em Francisco: a paz interior como fundamento da paz exterior, atitude de paz como estilo de vida, contemplação, paz a ser construída, teologia e espiritualidade como base para a paz.

2. A paz interior como fundamento da paz exterior

Francisco faz em Poggio Bustone uma profunda experiência de reconciliação. Tomás de Celano conta que permaneceu algum tempo aí e refletia com amargura sobre os anos mal vividos, repetindo frequentemente: “Ó Deus, sê propício a mim, pecador!” (1Cel 26). Teve a experiência de uma indizível alegria e imensa doçura, juntamente com a certeza do perdão de todos os pecados, e sentiu a confiança de que estava em graça. Percebeu-se todo absorto em luz e finalmente todo transformado. Fez a experiência da paz interior que ele recebeu gratuitamente como dom de Deus. “É a experiência do Deus da misericórdia como pura gratuidade que possibilita a paz interior, a alegria e a iluminação em Francisco, e que constitui o fundamento de sua atitude de paz”.

Na 15ª Admoestação, Francisco faz referência à bem-aventurança relativa aos pacíficos, que serão chamados filhos de Deus (cf. Mt 5,9), acrescentando: “São verdadeiramente pacíficos os que, no meio de tudo quanto padecem neste mundo, se conservam em paz, interior e exteriormente, por amor de Nosso Senhor Jesus Cristo”. Certamente São Francisco fala a partir de sua própria experiência, de alguém profundamente reconciliado e em íntima comunhão de amor com o Senhor da Paz, o Filho de Deus, que padeceu muito no caminho da cruz, sendo vítima de extrema violência. No entanto, manteve-se em paz interior e exteriormente, fazendo da sua entrega de amor a fonte de reconciliação e pacificação, pedindo ao Pai perdão pelos que o estavam agredindo e matando e demonstrando solidariedade com todas as vítimas da violência e da injustiça. Rompeu a força da violência, da injustiça e da maldade com a força do amor, do perdão, da misericórdia. No Cântico do Irmão sol, Francisco louva ao Senhor pelos que perdoam por amor a Ele e proclama bem-aventurados os que sustentam enfermidades e tribulações em paz, pois serão coroados pelo Altíssimo.

De maneira que o teste mais exigente de uma pessoa pacífica se dá em meio a adversidades, a ofensas, a conflitos, a sofrimentos de todo tipo. É ali que se prova a capacidade de amor, de perdão, de não-violência ativa, de paciência, de misericórdia, a força da justiça e da bondade.

3. Atitudes e pressupostos para a paz na forma de vida francisclariana

A fraternidade primitiva tinha como estilo de vida certos aspectos que tem relação direta com a temática da paz. A pobreza se torna o pressuposto para a paz. Na Legenda dos Três Companheiros, o bispo de Assis dirige-se a Francisco para comentar que a vida da nova Fraternidade parece muito rigorosa e áspera pelo fato de não dispor de nada deste mundo. Francisco responde: “Senhor, se tivéssemos algumas posses, precisaríamos de armas para defender-nos. E daí nascem as disputas e os litígios, que costumam impedir de múltiplas formas o amor de Deus e do próximo. Por isso, não queremos ter coisa alguma temporal neste mundo” (LTC 35).

A pobreza, enquanto sem nada de próprio, liberta diante dos outros, liberta das posturas de defesa e ataque por causa de propriedades. Liberta do medo de perder algo, pois tudo é dom e tudo deve ser restituído em forma de partilha, de doação, de gratidão. Liberta do apego a cargos, a status, a prestigio e evita a criação de obstáculos, impedindo que os outros possam se aproximar.

A pobreza que Francisco e Clara abraçaram de todo o coração é a pobreza vivida e testemunhada por Jesus Cristo e recomendada por Ele a seus seguidores, a seus enviados e suas enviadas em missão. Jesus envia os doze e os setenta e dois discípulos (cf. Mt 10,1-5 e Lc 10,1-11) como cordeiros no meio de lobos, pede que nada levem consigo e desejem a paz, cuidem dos doentes e anunciem que o Reino de Deus está próximo. Esta pobreza deixa os/as discípulos/as livres para aproximar-se de todos, principalmente dos pobres, e os/as faz colocar toda a confiança no Deus do Reino.

O trabalho introduz os irmãos num mundo fortemente marcado por conflitos, injustiças, opressões. A questão social passa pelo mundo do trabalho. Francisco trabalhou com suas mãos e queria que todos trabalhassem com honestidade e aprendessem algum ofício. Para Francisco, o trabalho é graça e serviço, não é meio de fomentar a cobiça pela paga. É forma de dar bom exemplo evitando a ociosidade, mãe de todos os vícios. Caso falte o necessário, pode-se recorrer à mesa do Senhor: o necessário para viver é também dom do Senhor que passa pela capacidade de partilha e solidariedade na comunidade e na sociedade.

Isso tem seu significado para a paz. Em primeiro lugar, exercita a pessoa para manter a paz interior, vencendo a cobiça diante da retribuição e do fruto do trabalho. O trabalho manual era atividade mal vista e, por isso, aproximava dos mais pobres, leprosos, mendigos, fracos, doentes, dos sem propriedade e dos perdedores dos pactos de paz. Os Irmãos e as Irmãs unem-se aos pobres para recorrer à mesa do Senhor, como direito que Ele mesmo conquistou para os pobres: não como alívio de consciência, mas como expressão de justiça, de amor solidário, misericordioso. A paz na sociedade, a partir do seguimento de Jesus Cristo, passa por esse caminho da justiça e da partilha de bens, da possibilidade de uma mesa ao redor da qual todos possam sentar-se e ter o necessário para comer e viver.

Em Clara e Francisco encontramos uma conexão profunda entre contemplação e paz. No eremitério dos Carceri encontra-se uma inscrição com a frase: “Ubi Deus ibi Pax” (“Onde está Deus, aí está a paz”). O exercício da contemplação quer colocar Deus no centro da vida e dar condições para que ele, com seu Espírito e seu santo modo de operar, possa garantir a história da salvação, iniciada na Criação e que passa pela Encarnação do Filho, sua missão, morte e ressurreição, e continua se realizando pela ação do Espírito na Igreja e culminará na parusia. Contemplar é considerar essa ação divina de salvação, acolhê-la e participar dela. “A expressão central desta consideração da ação divina de salvação é precisamente uma mensagem: que a ação de Deus tem como finalidade a busca da paz e a salvação para todas as pessoas e toda a criatura. A partir daqui se entende a combinação da saudação: Pax et Bonum. A atitude de paz dos irmãos é uma conseqüência da ação histórico-salvífica de Deus que tem como finalidade uma paz que abarque tudo”.

4. Estilo de vida que testemunha e anuncia a paz

Francisco exorta seus irmãos a se guardarem de caluniar, de ocupar-se com discussões vãs, de se irritarem e se irarem contra os irmãos, e a cultivarem o amor mútuo, mostrando-o por obras (cf. Rnb 11). Clara igualmente admoesta e exorta suas irmãs, no Senhor Jesus Cristo, a se guardarem de toda soberba, vanglória, inveja, avareza, da detração e da murmuração, da dissensão e divisão. E ainda exorta a amar os que as perseguem, as repreendem e acusam, lembrando a bem-aventurança dos que sofrem perseguição por causa da justiça.

Francisco aconselha, admoesta e exorta os irmãos no Senhor Jesus Cristo que, ao irem pelo mundo, não litiguem, nem porfiem com palavras, nem façam juízo de outrem, mas sejam mansos, pacíficos, modestos, afáveis… Lembra a passagem evangélica: “Ao entrarem em qualquer casa, digam antes: Paz a esta casa!” (Rb 3,10-14). No cap. 14 da Regra não Bulada, Francisco admoesta os irmãos que vão pelo mundo para que nada levem consigo, que ao entrarem numa casa, digam primeiro: a paz esteja nesta casa, que não resistam ao malvado, mas se alguém lhes der numa face, ofereçam também a outra, se alguém roubar o manto, não lhe negue também a túnica. E no cap. 16 da mesma Regra, Francisco orienta os irmãos que vão entre os sarracenos e outros infiéis a se abster de Rixas e disputas, submetendo-se a todos por causa do Senhor e confessando serem cristãos.

Trata-se, portanto, de um estilo de vida em que se procura viver radicalmente a paz nas relações da fraternidade e na relação com as pessoas que se encontram pelo caminho, seja lá quem for. Para isso se faz necessário cultivar atitudes e virtudes, vida sem propriedade e sem apegos, capacidade de partilha, postura do ser menor e motivação a partir do evangelho, do Reino de Deus, do seguimento de Jesus Cristo, do desejar o Espírito do Senhor e seu santo modo de operar. A mística da paz está enraizada neste processo de acolher e de dar espaço central ao Evangelho, ao Reinado de Deus, ao Espírito do Senhor e seu santo modo de operar.

5. Francisco como construtor da paz

As fontes biográficas e hagiográficas apresentam Francisco como construtor de relações de paz. Em 1 Cel 23, logo após a narração do episódio da escuta do evangelho da missão, Francisco aparece como pregador da penitência e da paz. Diz Celano: “Em todas as pregações, antes de propor aos ouvintes a palavra de Deus, invocava a paz dizendo: ‘O Senhor te dê a paz’. Anunciava-a sempre a homens e mulheres, aos que encontrava e aos que lhe iam ao encontro. Dessa forma, muitos que tinham desprezado a paz, como também a salvação, pela cooperação do Senhor abraçaram a paz de todo o coração, fazendo-se também eles filhos da paz, desejosos da salvação eterna”. Em seguida, Celano fala dos primeiros seguidores, entre eles Frei Bernardo, que “abraçou a missão de paz”.

Um pouco mais adiante, em 1Cel 29, aparece Francisco enviando seus primeiros irmãos, dois a dois pelas quatro partes do mundo, recomendando que anunciassem a paz e a penitência. Diante de eventuais perseguições, injúrias e calúnias, a ordem é responder com humildade, abençoar, agradecer. Está aí a perspectiva de que a paz chegue a todos os cantos do mundo. Em 1 Cel 41, os irmãos são descritos como aqueles que guardam a paz e a mansidão com todas as pessoas, sua reta intenção e seu espírito de paz lhes permitiam evitar todo escândalo. Em 2Cel 108, o biógrafo narra o episódio de Arezzo, em que Francisco soube que a cidade inteira estava afogada numa luta interna, ameaçada de iminente destruição. Mandou Frei Silvestre diante da porta da cidade para que libertasse a cidade dos demônios destruidores. “A cidade voltou à paz pouco depois e tratou de preservar com grande tranqüilidade os direitos dos cidadãos”. Francisco utiliza a fórmula bíblica de benção (Nm 6,23-27) que finaliza com a invocação de que o Senhor conceda a paz à pessoa e ao povo abençoado. Ao confiar na benção de Deus, estamos nos situando na força criadora, renovadora e salvadora dele. Quem acolhe essa força, esse dom, essa graça da paz, poderá experimentá-la em sua vida e se tornará, por sua vez, um instrumento irradiador da mesma.

Na Legenda Perusina 90, encontramos o interessante episódio dos ladrões de Borgo San Sepolcro, que vinham pedir pão no eremitério dos frades. Alguns dos frades começaram a murmurar, pois não queriam ser coniventes com as ações de violência dos ladrões, sustentando-os com esmolas. Outros se comoviam com a humildade e a necessidade dos ladrões. São Francisco dá as orientações com sábia pedagogia: pede para preparar pão, do bom, e vinho, do melhor, ir ao encontro deles onde estão, chamá-los de irmãos ladrões, estender uma toalha no chão e servi-los. Na vez seguinte, Francisco recomenda levar comida mais enriquecida e que os frades lhes falem do Senhor e peçam, pouco a pouco, mudanças em seus atos, por amor de Deus. Revela o quanto Francisco acredita na possibilidade de mudança e conversão do ser irmão e fraterno que mora em cada ser humano. Ao mesmo tempo, é realista e não esconde a dimensão de ladrão, de violência. A pedagogia da paz inclui o ir ao encontro de forma desarmada, com o mesmo amor e a mesma atitude de serviço, testemunhados pelo Mestre Jesus em sua vida e na última ceia. A mudança há de acontecer em processo lento, aos poucos. Alguns, na verdade, se tornaram irmãos menores.

Significativo é o episódio narrado por Celano (cf. 2Cel 89), no qual Francisco encontra um pobre, conhecido desde antes da conversão, e que estava cheio de ódio mortal contra o seu patrão que lhe tirara tudo. Francisco preocupa-se com ele, com sua alma em risco devido a esse ódio mortal. Pede ao pobre que perdoe o patrão por amor de Deus para libertar a alma e para haver a possibilidade de uma restituição. O pobre considera impossível o perdão sem que primeiro seja feita a devolução do que lhe foi tirado pelo patrão. Francisco reparte com ele a capa que tinha consigo e insiste no perdão em nome do Senhor Deus. O pobre, após acalmar-se e movido pelo gesto, acabou perdoando as injúrias. Francisco não exclui e não ignora a necessidade da devolução do que foi tirado. Trata-se de injustiça, de violência por parte do patrão. Francisco, no entanto, convoca o pobre a dar um salto qualitativo: agir pela dinâmica e pela força do amor, do perdão, do desapego. O ódio mortal equivale à mesma lógica da ação do patrão: é a lógica da violência, revestida de força de morte e eventual cobiça. Isso põe em risco o que o pobre tem de mais digno, sagrado, divino: a sua alma. Francisco quer quebrar esse esquema. Ele mesmo já está nesse espírito. O gesto de partilha e da solidariedade dá credibilidade e força de autoridade ao seu pedido feito ao pobre. Este acaba acolhendo a proposta de Francisco.

Outro fato de profunda significação é o encontro de Francisco com o Sultão em Damieta, Egito (cf. 1Cel 57; LP 37). Num contexto de cruzadas dos cristãos contra os sarracenos, chamados de “cães” e “depravados”, que ocupavam a Terra Santa, Francisco assume postura de respeito e procura evitar combates. Acompanhado de um confrade, foi ao encontro do sultão Malik-el-Khamil, de forma desarmada, pacífica, com motivação evangélica, com humildade, como um enviado “do Deus Altíssimo”. Inicialmente os dois sofreram algumas agressões, mas o sultão ficou impressionado e acabou tratando-os com cortesia e afeição, convidando-os a permanecerem no acampamento. Francisco encontrou no Sultão um “crente”, um irmão da fé no Deus único. O Sultão descobriu em Francisco um “homem cortês” e não um inimigo. No mesmo período (1219-1220), alguns seguidores de São Francisco vão ao Marrocos e em Marrakech, empolgados por um entusiasmo imprudente, apresentam-se como enviados dos Romanos (e, portanto, do Papa!), pregam contra Maomé e são mortos pelo próprio Sultão (cf. 1Cel 56; LM 9,6). O grande milagre de Damieta foi o encontro com respeito à diversidade, no diálogo cortês, no amor gratuito. Francisco, sem esconder sua identidade cristã, deixou-se evangelizar e voltou a Assis com profundo respeito pelos muçulmanos, inserindo na primeira regra as orientações de como ir entre os infiéis (Rnb 16). Em Marrakech aconteceu o martírio sem encontro com o outro, o diferente. Em Damieta aconteceu o encontro sem martírio. A presença franciscana na Terra Santa e em terras de muçulmanos, durante séculos até hoje, deve-se, em grande parte, a esse modo de proceder de Francisco.

Na LP 44, conta-se como o bispo de Assis excomungou o podestà. Este, por sua vez, pressionou para que ninguém fizesse comércio com o bispo sem realizasse qualquer trato legal com ele. “Nasceu entre ambos feroz contenda”. Francisco ficou triste e indignado que ninguém se mexesse para restabelecer a paz entre os dois. Envolveu seus irmãos para que convidassem bispo e podestà e muita gente para restabelecer a paz. Compôs mais uma estrofe do Cântico do Irmão Sol: “Louvado sejas tu, meu Senhor, por quem perdoa por teu amor; por quem sofre provações e doença; feliz quem as sustenta em paz, porque será por ti, Altíssimo, coroado!”. No dia da grande assembléia, os frades cantaram tal estrofe, e a paz foi restabelecida. O Cântico do Irmão Sol é a expressão de alguém totalmente reconciliado, em paz com o Criador, com todas as criaturas e com a vida toda. O bispo é símbolo de uma Igreja a caminho da conversão, que conserva marcas de pecado e contradição: “…deveria ser humilde, mas por natureza tenho um coração demasiado pronto para a cólera; tendes que me perdoar”. A Igreja do tempo de Francisco e Clara agiu com demasiada cólera, com poder, com violência em relação aos hereges, aos muçulmanos… O podestà representa o poder do comércio, do dinheiro e da lei: “ninguém podia fazer comércio com o bispo nem ter com ele qualquer trato legal”.

Um texto clássico, que revela a pedagogia da paz de Francisco, é a parábola ou alegoria do Lobo de Gubbio, contada em Fioretti 21. O lobo é o arquétipo dos inimigos do sistema e, por isso, demonizado: é grandíssimo, terrível e feroz, devorador de animais e homens, causando grande medo à população da aldeia de Gubbio. Os citadinos andavam “armados quando saíam da cidade, como se fossem para o combate”. O medo chegou a tal ponto que ninguém mais ousava sair da cidade. Entre a cidade e o lobo não há diálogo, apenas enfrentamento, medo, defesa, ataque, combate. Francisco, juntamente com seus companheiros, fazendo o sinal da cruz e pondo toda a confiança em Deus, sai da cidade e vai ao encontro do lobo. Francisco vai sem armas, sem preconceitos, sem agressividade, inspirado no modo como Jesus Cristo enfrentou os inimigos no conflito da cruz: com amor, perdão, não-violência, pedindo ao Pai que os perdoasse. É pelo amor misericordioso, revelado na Cruz, que Cristo reconcilia o mundo com o Pai, oferecendo a possibilidade da plena pacificação. Fazer o sinal da cruz diante do lobo de boca aberta é confiar na força do amor do Crucificado e assumir o mesmo modo de ser e agir.

Francisco denuncia as maldades e violências do lobo. Reconhece que tal forma de agir tem a ver com a fome. E vê nele também um irmão e a possibilidade de construir novas relações entre ele e a cidade. Consegue pacificá-lo e alcança dele a possibilidade de um pacto de paz. Da mesma forma, Francisco vai ao encontro do povo da aldeia, denunciando-lhe seus pecados e convocando-o à mudança de vida, à penitência. Realiza-se um encontro entre ambas as partes e conclui um pacto de paz, que inclui o compromisso da aldeia em garantir comida para o lobo e deste agir sem maldade e agressividade. Trata-se de um pacto de paz diferente daqueles de Assis ou da “pax romana” ou outros realizados na história em que predomina a vontade do mais forte sobre o mais fraco ou se estabelece apenas um equilíbrio de forças e interesses. Francisco torna-se um intermediário que ajuda a desarmar espíritos, superar preconceitos, construir novas relações, com senso de realismo e com mística, com novos compromissos de ambas as partes, superando a causa do conflito. Entre o lobo e a cidade de Gubbio se dá um processo de conversão, de mudança, de mentalidade, de atitudes, de visão, de coração. Francisco desdemonizou o lobo e a cidade, pois ambos tinham suas razões e seus pecados, e investiu na possibilidade de um verdadeiro encontro entre as partes, de relações fraternas, dialógicas, pacíficas. Com esta mesma lógica de fundo, a Comunidade Santo Egídio de Roma, com sua espiritualidade inspirada em São Francisco de Assis, contribuiu eficazmente na pacificação de Moçambique, de Kosowo e em outros lugares de conflitos.

Igualmente Clara, com suas irmãs, consegue evitar uma invasão dos sarracenos em Assis e conseqüente destruição da cidade. Sem medo, sem agressividade, sem nenhum recurso a estratégia de poder militar, confia no poder da oração e na força do amor de Cristo presente na eucaristia.

6. Significado da Paz no desenvolvimento da História Franciscana

Na primeira fase do movimento francisclariano, a paz é entendida a partir da história da salvação que conduz a uma nova ordem de paz. Os irmãos e as irmãs davam testemunho de penitência, de conversão ao Evangelho, de seguimento de Jesus Cristo, de acolhida e anúncio do Reino de Deus mediante sua vida e sua prática de paz. Trata-se de uma paz em fidelidade ao Evangelho, ao Reino de Deus e em abertura à ação do Espírito. A mediação de paz tem como finalidade a realização do Evangelho e do Reino de Deus e fundamenta-se na misericórdia. A fraternidade francisclariana consegue comunicar uma postura contestatória diante da situação social e política e de resposta profética à busca de paz expressa nos Acordos de Paz. Os irmãos e irmãs entendem a paz como dom de Deus entre eles e os demais seres. O fundamento da paz é Deus mesmo, como o sumo Bem do qual procede todo o bem. No contexto das Cruzadas, o movimento francisclariano investe na possibilidade de uma vida pacífica em meio aos infiéis. Faz-se uma contestação profética no interior da vida eclesial e cristã. É possível dialogar, conviver e testemunhar relações de paz em meio aos assim considerados inimigos, mantendo fidelidade à identidade cristã.

Na segunda fase, o espírito das Cruzadas domina a atitude de paz dos irmãos. Há irmãos que apóiam as Cruzadas, pregando e fazendo coleta em favor delas. Outros contribuem como estrategistas militares. Podem ser citados Guilherme de Cordelle (1235, pregador e estrategista militar), Berthold von Regensburg (1235, pregador), Fidêncio de Pádua (plano de batalha para a recuperação da Terra Santa). Paralelamente, havia irmãos teólogos que rejeitavam as Cruzadas e se comprometiam com missões de paz: Rogério Bacon, Adam Marsch, Salimbene (o qual interpreta o fracasso da última Cruzada como vontade de Deus e propõe a não violência).

Na terceira fase, os irmãos, já com distintas reformas, são valorizados como mediadores de paz entre as cidades, contribuindo para a paz pública e social, inclusive entre os Estados. Adquirem fama na defesa contra o avanço dos turcos (João de Capistrano). Prevalece a concepção de paz como ordenamento cristão da Idade Média. Os irmãos vão se acomodando às concepções sociais da época em relação à paz, o que os torna incapazes de questionar a ordem do mundo.

Quanto à Ordem Terceira, esta destacou-se como movimento pacifista, com proibição de porte de armas. Conduziu à pacificação de muitos conflitos dentro das cidades. Por outro lado, colaborou para criar tropa para o Papa que tinha representação em muitas cidades. Para defender a Igreja havia disposição para pegar em armas.

Em síntese:
1.Todas as fontes até São Boaventura descrevem unanimemente a Fraternidade francisclariana como movimento de Penitência e da Paz.
2. A paz é dom de Deus. Os irmãos compreendem a si mesmos como anunciadores da paz de origem divina. A saudação da paz é considerada de revelação divina, portanto elemento essencial na forma de vida evangélica e na pregação.
3. A paz com Deus em Cristo é a base das relações entre os seres humanos e da respectiva paz no mundo.

7. A construção de relações de Paz em nossa sociedade

Situando-nos em nosso contexto atual, a primeira tarefa a ser feita é acreditar que a paz é possível, é fazer uma leitura dos sinais dos tempos, identificando o desenvolvimento e o crescimento de uma cultura de paz. O segundo trabalho é resgatar, com mais vontade, decisão e coerência, a nossa vocação francisclariana de sermos anunciadores/as e construtores/as de paz, em fidelidade criativa a São Francisco e Santa Clara de Assis. O terceiro grande desafio é discernir e investir em ações, em projetos, em iniciativas, mantendo clara nossa identidade e abrindo-nos para parcerias e colaborações.

a) Nosso estilo de vida
Sempre de novo temos que nos convencer sobre o que está no centro de nossa vida: o seguimento de Jesus Cristo a exemplo de Francisco e Clara. Viver o Evangelho, desejar o Espírito do Senhor e seu santo modo de operar, voltar-nos inteiramente ao Reino de Deus, é beber da fonte de onde emana toda a força e vitalidade para a nossa presença profética no mundo de hoje. Com Francisco e Clara queremos acolher de novo a revelação do Senhor a respeito da saudação de paz, o envio missionário pelo mundo, sendo pessoas de paz, anunciadores e construtores de paz e, com isso, proclamando a proximidade do Reino de Deus.

Para tanto, é necessário recriar sempre de novo os pressupostos de uma vida sem nada de próprio, de pobreza em suas múltiplas facetas, de contemplação, de cultivo das nossas relações internas de fraternidade sem disputas, sem iras, sem cobiça, sem murmurações. Precisamos exercitar a capacidade de partilha, de solidariedade, de perdão e reconciliação, de diálogo com o diferente, de amar aos inimigos.

As nossas motivações terão que ser, a exemplo de Francisco e Clara, claramente evangélicas, espirituais e teologais. Queremos participar da bem-aventurança proclamada em favor dos pacíficos, conservando-nos “em paz interior e exteriormente, por amor de Nosso Senhor Jesus Cristo” (Adm. 15), perdoando por amor a Ele, suportando enfermidades e tribulações e sustentando-as em paz (cf. Cânt. 10-11). É preciso acreditar na força profética que daí decorre. Não se trata de cair em fundamentalismos, em sectarismos, mas de convencer-nos de que o testemunho de vida fala mais que palavras e discursos e dá credibilidade ao anúncio, ao serviço, às propostas. É preciso crer na eficácia histórica e evangelizadora da santidade. Em tempos como o nosso, em que se praticam violências e guerras em nome de Deus, nós queremos deixar o Deus da paz ser Deus em nossas vidas, em nossas Fraternidades, em nossa presença e serviço na Igreja e no mundo. Isto implica em desejar sempre de novo, acima de tudo, o Espírito do Senhor e sua santa operação para que nos torne pessoas e fraternidades pacíficas e nos faça instrumentos, agentes, construtores de paz.

b) A construção da paz em nosso cotidiano
Todos os nossos serviços e nossas presenças podem ser lugares onde podemos e devemos construir relações de paz e educar para a paz. Nossa ação educativa e pedagógica nas escolas, nas diferentes instituições, na pastoral, nos movimentos é desafiada a por em ato um processo eficaz de construção de relações de paz. A paz não cai pronta, precisa ser educada cotidianamente. A enorme Família Franciscana e Clariana certamente têm uma responsabilidade e uma oportunidade preciosa neste tempo no empenho em educar para a não-violência ativa, para os valores do respeito, da tolerância, da solidariedade. Albert Einstein teria dito: “O mundo seria diferente, se finalmente fossem feitos tantos investimento em favor da pedagogia e da busca pela paz e não-violência, quanto foram feitos para preparar e conduzir à guerra”.

O cultivo de atitudes, de comportamentos e posturas de paz é processo lento, demorado, permanente. Podemos ser instrumentos de reconciliação entre as pessoas, na família, na comunidade. Podemos ajudar as pessoas a controlar seus impulsos de agressividade e vingança. Podemos elevar os conflitos sociais ao nível da organização popular, do debate político, da negociação, da luta pelos direitos fundamentais com processos firmes e a não-violência ativa, com formação de consciência crítica, sempre na perspectiva de uma cultura de paz que implique em justiça e solidariedade.

Pastoralmente, precisamos acreditar na força e na eficácia do trabalho religioso, no que se refere a possibilitar a experiência de Deus e a vida comunitária; a oferecer um sentido para a vida e um quadro de valores; a educar para atitudes pessoais e comunitárias de paz e solidariedade; a motivar para engajamentos na sociedade; a realizar sinais significativos da presença do Reino de Deus e da Paz. Somos desafiados a propor a conversão, a mudança de vida, de mentalidade, de atitudes e sermos criativos no propor e oferecer o sacramento da reconciliação como um meio eficaz de reconciliação e perdão.

c) A construção da paz como serviço específico
A construção da paz passa também por exigências específicas. Além de atitudes, de todo um modo de ser e de viver, ela implica em projetos concretos, em ações, em iniciativas, em gestos. É necessário investir em formas organizadas, em capacitação teórica e prática, em pedagogia e metodologia, planejamento, investimento em pessoas e recursos, tempo e subsídios.

A Família Franciscana no Brasil – FFB – conta com o Serviço Interfranciscano de Justiça, Paz e Ecologia (SINFRAJUPE). Cabe apoiar e investir nesse Serviço, que já tem uma boa caminhada, que possui uma rede de articulações, que acumulou experiências e saberes. Mas não se trata de delegar simplesmente a responsabilidade do compromisso com a Justiça, Paz e Ecologia a um certo grupo de irmãos e irmãs. Se quisermos levar a sério nossa vocação e missão em favor da paz, é necessário um envolvimento de fraternidade no discernimento, na opção e realização de engajamentos específicos na construção da paz.

Temos muitos irmãos e irmãs, pelo mundo afora, presentes em situações e realidade de conflito: em contextos de pluralidade étnica e religiosa, em projetos missionários, nas periferias de cidades, em movimentos sociais, em organizações populares, em projetos específicos junto a pessoas e grupos que são vítimas de violência (mulheres, população de rua, crianças e adolescentes pobres, drogados, portadores de HIV, grupos de risco, índios, negros, pessoas com deficiências…). Um dos desafios é a contínua qualificação para uma presença franciscana, evangélica, profética, e que essa presença e esse serviço efetivamente contribuam ao resgate e à promoção da dignidade humana, ao processo de inclusão social, à criação de uma cultura de paz com justiça e solidariedade, diálogo e reconciliação.

Outro desafio é ampliar as possibilidades de parcerias em vista de uma maior eficácia, para somar forças e recursos, para partilhar conhecimentos e experiências. O leque que se abre nesse sentido é enorme: projetos de assistência e promoção humana, empenho no mutirão da superação da fome e da miséria, campanhas contra guerra e armamentos… Temos tanto a aprender e a contribuir com nossa espiritualidade, nossos valores, nossa concepção de pessoa, de vida e de mundo. […]

O ex-Ministro Geral da OFM, Frei Giacomo Bini, em seu relatório ao Capítulo Geral de 2003, declarou: “Cabe-nos em nossa vocação de minoridade fazer sério esforço pela paz fundada na justiça e no perdão: estes valores estão no coração do Evangelho que professamos […] Parece que ainda não conseguimos encontrar o caminho para testemunhar esta reconciliação universal”. E questiona: “O mundo em que vivemos, com suas violências e divisões crescentes, estimula-nos e provoca-nos à ação? O que fazemos pessoalmente e em fraternidade? A vocação e a missão dos franciscanos é estarem ativamente presentes, em fraternidade e minoridade, nos lugares de fronteira, onde há divisões, violência e sofrimentos, para levar um testemunho de amor e uma palavra de reconciliação e de paz”.

Conclusão

Um discernimento que sempre precisamos fazer é sobre a fidelidade criativa ao nosso carisma originário, à nossa vocação e à missão em nosso mundo de hoje. Diante do leque enorme de presenças e serviços que assumimos, podemos perguntar-nos: têm todos os serviços o mesmo valor do ponto de vista da fidelidade ao nosso carisma e do ponto de vista da missão evangelizadora e profética hoje? Onde deveríamos concentrar mais energias, mas pessoas, mais recursos, mais atenção, mais qualificação? O problema não está na diminuição do número de irmãos e irmãs, no aumento da média de idade, na redução de forças ativas para nossas instituições. A questão é estabelecer prioridades a partir da clareza de nossa vocação e missão e da leitura evangélica dos tempos atuais.

Que o Espírito do Senhor nos ajude a desejar sinceramente ser pessoas e Fraternidades de paz, anunciando-a e construindo relações de paz entre nós, na Igreja, na sociedade e no conjunto das criaturas todas.

Texto publicado na “Revista Franciscana”, FFB, 2004, volume IV

Frei Nestor Inácio Schwerz é franciscano da Província São Francisco de Assis, de Porto Alegre (RS)

A “Oração pela Paz” atribuída a São Francisco

Frei Adelino G. Pilonetto, OFM Cap

Quem não conhece a oração que principia com as palavras: Senhor, fazei de mim um instrumento de vossa paz? E quem não a aprecia também? Conhecida como Oração pela Paz, Oração do Amor, Oração simples ou, ainda, Oração de São Francisco, ela tem um sabor todo ecumênico e expressa conteúdos de tanta sinceridade e beleza que encontra ressonância obrigatória no coração das pessoas. “Seus conteúdos correspondem às aspirações íntimas dos melhores cristãos de nosso tempo” (1) . Nós gostamos de rezá-la e, certamente, Francisco aprecia que a rezemos. Entretanto, a mencionada oração não é de São Francisco, é apenas atribuída a ele.

Nem se trata de uma oração tão antiga, embora sejam antigas as suas raízes. Foi certamente atraídos por sua simplicidade, pertinência e beleza que os franciscanos se afeiçoaram a ela e, inadvertidamente, a adotaram como própria. Por razões semelhantes, ela foi atribuída a São Francisco de Assis. Quanto ao modo como isso aconteceu, é o que veremos a seguir, adiantando, porém, que não é grande coisa o que sabemos a respeito desse apócrifo, tão célebre quanto misterioso (2).

1. Como surgiu essa oração
Parece que surgiu pouco antes da Primeira Guerra Mundial. Suas origens são obscuras, seu autor é desconhecido, e parece que poucos lhe deram importância logo ao aparecer. “A Oração da Paz apareceu pela primeira vez em 1913 numa pequena revista local da Normandia, na França. Vinha sem referência de autor, transcrita de uma outra revista tão insignificante, que nem deixou sinal na história, pois não foi encontrada em nenhum arquivo da França” (3).

A Oração pela paz, entretanto, ganhou notoriedade depois que foi publicada no Osservatore Romano, em 20 de janeiro de 1916 e, alguns dias depois, em 28 de janeiro do mesmo ano, no conhecido diário católico francês La Croix. Em 1917, foi divulgada com um título chamativo: “Oração para uso dos que querem colaborar na preparação de um mundo melhor” (4).

Quem a enviou ao Papa Bento XV, juntamente com outras orações pela paz, foi o Marquês de la Rochetulon, fundador do semanário católico Souvenir Normand. Nessa época, em toda parte faziam-se orações instantes pela paz, uma vez que a Europa inteira debatia-se com os fantasmas medonhos da Primeira Guerra Mundial (1914-1918).

Pelos termos de agradecimento que o Cardeal Gasparri enviou, em nome do Papa, ao Marquês de Ia Rochetulon, soube-se que aquelas orações, inclusive a que seria depois atribuída a São Francisco, eram todas dirigidas ao Sagrado Coração de Jesus, uma devoção que vinha se expandindo com muito fervor desde o final do século XIX e com a qual “se pretendia resgatar uma dimensão esquecida no cristianismo tradicional: a riqueza da santa humanidade de Jesus, de seu amor incondicional, de sua misericórdia, de seu enternecimento para com todos, especialmente para com os pobres e os pecadores, as crianças e as mulheres”. (5 )

A partir desse contexto, a Oração pela Paz ganhou asas e correu mundo, recebendo acolhida entusiasta de cristãos e mesmo de seguidores de outras religiões, que nela encontravam a expressão inspirada de ancestrais desejos de união e de paz.

2. Como foi atribuída a São Francisco
Temos algumas pistas que indicam como foi que essa oração anônima chegou a encontrar em São Francisco de Assis um pai adotivo e suposto autor. Não se trata de falsificação fraudulenta e sim de uma casualidade histórica, que, entretanto, contribuiu para tornar manifesta uma notável afinidade existente entre a Oração pela Paz e a espiritualidade franciscana.

Um primeiro passo se deu em torno de 1913, quando a oração foi estampada no verso de um pôster devocional que trazia a figura de São Francisco de Assis. O texto tinha simplesmente como título: “Oração pela Paz”. Tempos depois, por volta de 1936, um pôster semelhante foi publicado em Londres com a mesma oração, traduzida em inglês, no verso. Desta vez, porém, ela foi atribuída diretamente ao santo representado na gravura, e recebeu como título: “Uma Oração de São Francisco”. Com isto firmou ainda mais sua popularidade. Outro passo foi quando o senador americano Tom Connally leu a oração, atribuída a São Francisco, na Conferência da ONU, em 1945. Note-se que em todas as outras edições anteriores, o texto é anônimo, mesmo em revistas franciscanas, inclusive no ano do VII Centenário de São Francisco, em 1926. (6)

Leonardo Boff conta um episódio semelhante, ocorrido pouco depois da publicação da Oração pela Paz em Roma. Um franciscano que visitava a Ordem Terceira Secular de Reims, na França, mandou imprimir um cartão tendo de um lado a figura de São Francisco com a regra da Ordem Franciscana Secular na mão e, do outro, a Oração pela Paz com a indicação da fonte: Souvenir Normand. No final, uma pequena frase dizia: “essa oração resume os ideais franciscanos e, ao mesmo tempo, representa uma resposta às urgências de nosso tempo”. Essa pequena frase, comenta L. Boff, permitiu que a oração deixasse de ser apenas Oração pela Paz para ser também conhecida como Oração de São Francisco, ou Oração da Paz de São Francisco de Assis. “Assim, essa oração passou a ser, simultaneamente, um resumo da devoção ao Sagrado Coração de Jesus e da espiritualidade franciscana” (7).

Pois há um parentesco entre a Oração pela Paz e a espiritualidade franciscana, permitindo que uma se reconheça no espelho da outra. Talvez, L. Boff exagere na fundamentação desse parentesco:

“Existe uma espiritualidade franciscana difusa no espírito de nosso tempo, nascida da experiência de Francisco, de Clara e de seus companheiros [ … ). A Oração pela Paz, também chamada Oração de São Francisco, constitui uma das cristalizações desta espiritualidade difusa. Ela não provém diretamente da pena do Francisco histórico, mas da espiritualidade do São Francisco da fé. Ele é seu pai espiritual e por isso seu autor no sentido mais profundo e abrangente da palavra. Sem ele, com certeza, essa Oração pela Paz jamais teria sido formulada nem divulgada e muito menos teria se imposto como uma das orações mais ecumênicas hoje existentes. Ela é rezada pelos fiéis de todos os credos e por professantes de todos os caminhos espirituais” (8).

3. O conteúdo dessa oração
Além do alto teor evangélico da oração, os estudiosos identificam nela ressonâncias de temas clássicos da espiritualidade medieval, especialmente agostiniana, haja vista, as obras de misericórdia espiritual, o esquema do combate aos vícios e as virtudes. As expressões repetitivas lembram João Fécamp, um autor muito próximo da literatura franciscana dos primórdios. A segunda parte da oração apresenta semelhanças de estilo com os ditos de Frei Egídio, companheiro de São Francisco (9), e com a Admoestação 27 do próprio Santo. Esta começa dizendo: “Onde há amor .. não há temor; onde há paciência e humildade, não há ira e perturbação, etc.”

A semelhança com os Ditos do Beato Egídio é maior:

“Bem-aventurado aquele que ama sem desejar ser amado.
Bem-aventurado aquele que venera sem querer ser venerado.
Bem-aventurado aquele que serve sem querer ser servido.
Bem-aventurado aquele que trata bem os outros sem desejar ser bem tratado” (10)

Conclusão
Ao concluir queremos ressaltar duas constatações. A primeira é que a “Oração pela Paz” não é de São Francisco de Assis e, portanto, não convém que continuemos a designá-la como “Oração de São Francisco”, pelo simples fato de que ela não é. A segunda é que essa oração está impregnada de espírito franciscano, tendo tudo a ver com nossa espiritualidade e carisma. Convém, pois, que a tenhamos em alto apreço, a rezemos e divulguemos, em razão de tudo o que ela é: uma oração simples e inspirada, com sabor ecumênico e de grande beleza, que nasce do coração e fala ao coração, em perfeita consonância com o Evangelho – o qual, por sua vez, “é a nossa regra”. Aliás, é próprio do espírito franciscano alegrar-se reconhecendo e admirando o bem, onde quer que ele se encontre: nos irmãos, nos escritos de um pagão, ou nos costumes dos sarracenos. Aqui nos alegramos com uma oração bonita, nascida fora de nossa família, mas não fora do sopro do Espírito.
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1. K. ESSER. Gli Scritti di S. Francesco d’Assisi: nuova edizione critica. Edizioni Messaggero, Padova, 1982, 72.
2. D.VORREUX apresenta uma nota crítica em: François d’Assise. Écrits (“Sources Chrétiennes”, n° 285). Introdução e notas de Th. DESBONNETS, J. F. GODET, Th. MATURA e D. VORREUX. Paris: Les Éditions du Ccrf, 1981, 403-404.
3. L. BOFF. A Oração de São Francisco: uma mensagem de paz para o mundo atual. Rio de Janeiro: Sextante, 1999, 16. Seguiremos de perto este livro.
4. L. IRIARTE. Vocação Franciscana. Petrópolis: Vozes, 1976, 187-188, nota 31.
5. L. BOFF, Op. cit. 17.
6. D. VORREUX . Op. cit. 403.
7. L. BOFF. 19.
8. L. BOFF, 12-13.
9. D. VORREUX . Op. cit 403.
10. Ditos do Beato Egídio, 1, em: Fontes Franciscanas e Clarianas. Petrópolis: Vozes, 2004, 1635. Cr. L. Boff, op.cit. 20-21.

Texto publicado na “Revista Franciscana”, FFB, Volume 5, 2005

Chamada à Paz

Papa Bento XVI

Oito séculos atrás, à cidade de Assis seria difícil poder imaginar o papel que a Providência lhe designava, um papel que faz dela uma cidade sumamente conhecida no mundo, um autêntico «lugar da alma». Quem lhe deu este caráter foi um acontecimento que sucedeu aqui e que lhe imprimiu um sinal indelével. Refiro-me à conversão do jovem Francisco, que depois de 25 anos de vida medíocre e sonhadora, caracterizada pela busca de alegrias e êxitos mundanos, abriu-se à graça, recolheu-se interiormente e pouco e pouco reconheceu em Cristo o ideal de sua vida. Minha peregrinação de hoje a Assis quer recordar aquele acontecimento para viver seu significado e sua amplitude.

Detive-me com particular emoção na pequena igreja de São Damião, na qual Francisco escutou do Crucifixo a frase programática: «Vai, Francisco, reconstrói a minha casa» (Relato de Celano (2 Cel I, 6, 10). Era uma missão que começava com a plena conversão de seu coração para converter-se depois em fermento evangélico espalhado a mãos cheias na Igreja e na sociedade.

Em Rivotorto vi o lugar no qual, segundo a tradição, eram relegados aqueles leprosos de quem o santo se aproximou com misericórdia, começando assim sua vida de penitente, e visitei ao santuário que recorda a pobre morada de Francisco e de seus primeiros irmãos.

Estive na Basílica de Santa Clara, e na tarde de hoje, depois da visita à catedral de Assis, me deterei na Porciúncula, onde Francisco guiou, à sombra de Maria, os passos de sua fraternidade em expansão, e onde exalou seu último respiro. Ali encontrarei os jovens para que o jovem Francisco, convertido a Cristo, lhes fale ao coração.

Neste momento, desde a Basílica de São Francisco, onde repousam seus restos mortais, desejo sobretudo fazer meu seu louvor: «Altíssimo, onipotente, bom Senhor, teus são os louvores, a glória e a honra e toda benção» («Cântico do Irmão Sol» 1). Francisco de Assis é um grande educador de nossa fé e de nosso louvor. Ao enamorar-se de Jesus Cristo, encontrou o rosto de Deus-Amor, converteu-se em seu cantor apaixonado, autêntico «cantor de Deus». À luz das Bem-aventuranças evangélicas se compreende a mansidão com que soube viver as relações com os demais, apresentando-se a todos com humildade e fazendo-se testemunha e agente de paz.

Desde esta cidade da paz quero enviar uma saudação aos expoentes das demais confissões cristãs e das demais religiões que em 1986 acolheram o convite de meu venerado predecessor a viver, aqui, na pátria de São Francisco, uma Jornada Mundial de Oração pela Paz. Considero que é meu dever lançar desde aqui um importante e sincero chamado para que cessem todos os conflitos armados que sangram a terra. Que se calem as armas e que por toda parte o ódio ceda ao amor, a ofensa ao perdão e a discórdia à união!

Sentimos espiritualmente aqui presentes todos os que choram, sofrem e morrem por causa da guerra e de suas trágicas conseqüências, em qualquer parte do mundo. Nosso pensamento se dirige em particular à Terra Santa, tão querida por São Francisco, ao Iraque, ao Líbano, a todo Oriente Médio.

As populações desses países experimentam, há já muito tempo, os horrores dos combates, do terrorismo, da violência cega, a ilusão de que a força pode resolver os conflitos, a negativa em escutar as razões do outro e fazer-lhes justiça. Só um diálogo responsável e sincero, sustentado pelo generoso apoio da comunidade internacional, poderá acabar com tanta dor e voltar a dar a vida e dignidade a pessoas, instituições e povos.

Que São Francisco, homem de paz, alcance-nos do Senhor a graça da multiplicação do número de quem aceita converter-se «em instrumentos de sua paz» através de milhares de pequenos atos da vida cotidiana. Que quem tem cargos de responsabilidade esteja animado por um amor apaixonado pela paz e por uma vontade firme de alcançá-la, escolhendo os meios adequados por alcançá-la.

Que a Virgem Santa, a quem o «pobrezinho» amou com coração terno e a que cantou com tom inspirado, ajude-nos a descobrir o segredo da paz no milagre de amor que aconteceu em seu seio com a encarnação do Filho de Deus.

Homilia proferida em Assis, no dia 17.06.2007

Como Francisco restabeleceu a paz em Arezzo

Chegando, certa vez, em Arezzo, São Francisco e Frei Silvestre, depararam com um grande escândalo: a cidade estava afogada numa terrível luta interna. Quase toda a cidade estava dividida em duas facções que, há muito tempo, com ódio, se degladiavam dia e noite. Abrigou-se o bem-aventurado Francisco num hospital dos arredores. Ao ouvir o tumulto e gritaria que não paravam, parecia-lhes que os demônios exultavam com aquelas discórdias, e instigavam os habitantes a destruir a cidade pelo fogo e outras calamidades.

Movido de compaixão por aquela cidade, dirigiu-se a Frei Silvestre, homem de Deus, sacerdote de sólida fé, de admirável simplicidade e pureza, nestes termos: “Vai em frente da porta da cidade e, o mais alto que possas, ordena que os demônios saiam dela”.

Dirigiu-se Frei Silvestre à porta da cidade e, a plenos pulmões, gritou: “Bendito e louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo! Da parte de Deus todo poderoso e em virtude da obediência devida a nosso Pai Francisco, imponho a todos os demônios que abandonem a cidade!”

Assim foi que, pouco depois, graças à misericórdia de Deus e à oração do bem-aventurado Francisco, sem mais pregação, a paz e a concórdia voltaram a reinar entre os habitantes. A cidade tratou de preservar com grande tranqüilidade os direitos dos cidadãos (LP 81; 2C 108: LM VI 9)

Francisco, modelo de paz

Por D. Paulo Evaristo Arns

A festa de São Francisco, em 4 de outubro, transformou-se em símbolo do esforço da Igreja pela Paz. Todos nos lembramos com gratidão da viagem de Paulo VI às Nações Unidas e do pedido humilde, mas corajoso, do Pontífice, de se transformarem os canhões de guerra em arados para a construção da paz duradoura.

Nos tempos de São Francisco, não havia homem que não andasse armado, e homens armados podem transformar-se facilmente em homens de guerra. Como nos dizia certa vez um mexicano: “Em minha Juventude, carregava-se sempre o revólver no cinto e morriam muitos homens pela violência. Hoje, andamos desarmados e já são poucos os que assim morrem”.

Para conseguir um movimento de paz, São Francisco fundou sua Ordem Terceira, que obrigava a todos os membros a andarem sempre com a expressão “Paz e Bem” sobre os lábios e com o cinto e o ânimo desarmados.

Esse movimento provocou tamanha simpatia entre os homens, que se alastrou por sobre o mundo inteiro, conquistando adeptos entre todas as classes e transformando-se em autêntico fermento da idéia “PAZ”.

No entanto a educação para a paz tinha que partir do exemplo daqueles que podem fazer guerra, das autoridades. E havia o que mudar.

O próprio Bispo de sua terra e a autoridade civil se guerreavam. São Francisco não se acovardou, e com sua simplicidade costumeira foi pedir a ambos que fizessem as pazes. Conseguiu-o, mais por persuasão pessoal, do que por argumentos históricos.

Quando, já moribundo, é transportado para sua terra, Assis, abençoa-a do alto de uma colina, desejando-lhe a paz e oferecendo sua serenidade diante do maior inimigo – a morte – como exemplo a todas as gerações. A morte assim se transformou em irmã, que conduz ao desabrochar total na paz eterna.

Mas antes de morrer, já enviara seus arautos da paz, os Frades Menores, dois a dois, a todos os pontos cardiais do mundo, com a mensagem evangélica da Paz: contínua conversão interior; vida em favor dos outros; renúncia aos bens que podem provocar a guerra, e carinho em favor daqueles que não vivem em paz porque estão marginalizados.

“Deixo-vos a paz, dou-vos minha paz”, havia dito Jesus.

Paz significa, segundo os textos evangélicos, um incentivo para todos aqueles a quem Deus ama. Ter paz interior é olhar para os outros com o respeito e o amor de quem olha para Jesus. Ter paz interior não é outra coisa senão identificar-se a tal ponto com os sofrimentos dos outros “que não haja quem sofra, sem que eu sofra com ele”. Por que não dizê-lo, paz interior significa também ter liberdade de falar a Deus como a um amigo e fugir a tudo que possa empanar esta amizade.

Neste ponto, São Francisco é o grande mestre da paz. A tal ponto assimilou a mensagem de Jesus, que na hora da morte, ele próprio confessou: “Não existe um termo no Evangelho que eu não tenha decorado – isto é, que eu não tenha posto no coração – com os pontos e virgulas”.

A mensagem de paz de São Francisco foi assunto para pincéis e penas. Artistas e escritores celebraram a cena do lobo de Gubbio, o ladrão que não deixava paz à sua cidade.

O lobo que fazia vítimas contínuas na comunidade. São Francisco dirigiu-se a ele, e firmou o contrato de que ele não sofreria fome, caso não maltratasse mais os outros.

Os historiadores estão todos de acordo em dizer que São Francisco criou uma alegoria, e nós hoje teríamos a grande tentação de aplicá-la ao nosso meio. Mas preferimos confiar esta tarefa ao leitor: Como faremos para que o lobo deixe de devorar-nos? Qual é a comida que lhe oferecemos, para que não tenha mais fome nem maldade?

Quando visitamos as Pirâmides do México, o arqueólogo nos explicava: “Reparem naquelas pessoas que sobem; quanto se identificam com o monumento, na medida em que vão atingindo o alto; e como no final são uma coisa só com o monumento e o céu”.

Agora imaginem-se os antigos sacerdotes, que subiam com suas oferendas, e assim identificavam a terra e o céu, numa só visão para todos os crentes. As pirâmides se casam com a natureza e o homem mexicano.

Quando o peregrino percorrer Assis, sentirá apenas falta do homem Francisco, totalmente identificado com a natureza. Talvez com um cordeirinho nos braços, cordeirinho que recebeu em troca do manto, amando a água “pura e casta”, amando a lua, o fogo e o sol, amando, sobretudo, o homem, pobre e desprezado, chamando a tudo e a todos de Irmão, de Irmã.

Como à paisagem mexicana se devolve a paz completa, ao unir as pirâmides com o sacerdote e o céu, assim a Humanidade inteira se reconcilia em São Francisco, com aquilo que é e deve ser.

A Paz significa, em última análise, reconhecer a Deus como Pai e a toda a natureza como irmã. A evocação de São Francisco exige de cada um de nós um gesto e uma súplica de paz.

Texto do livro “Olhando o Mundo com São Francisco”, de D. Paulo Evaristo Arns, Edições Loyola, 1982.

O Espírito de Assis

O que em Assis era novo residia no fato de a oração não ser a de uns contra os outros, mas a prece fraterna de uns pelos outros

Há 30 anos, em Assis, nasceu o desejo de realizar um encontro das religiões em favor da paz. Não era então uma coisa evidente, nem hoje o é, num mundo persistentemente separado por fundamentalismos, blocos, inimizades e terrorismos de vária espécie. O Papa João Paulo II provocou o degelo, congregando na cidade de São Francisco uma jornada histórica que o mundo não se lembrava de haver visto. A imagem impressionava: juntava-se o cristianismo do Ocidente com o do Oriente e as Igrejas da reforma, partilhando o espaço com a religião hebraica e islâmica, abraçando o budismo e o hinduísmo, saudando cordialmente a polifônica vitalidade de tantas outras tradições espirituais presentes. Wojtyla afirmou então que, talvez em nenhuma época do passado como hoje, se tornara necessário consolidar a percepção de um ligame obrigatório entre religião e paz. Tratava-se de rezar, é verdade, coisa que em si nada tem de extraordinário para qualquer geografia religiosa. Mas o que em Assis era novo residia no facto de a oração não ser a de uns contra os outros, como aconteceu durante séculos. Era, agora, a prece de uns feita ao lado da dos outros; a prece fraterna de uns pelos outros. Os diversos líderes religiosos, com o ineditismo desta abertura e o colorido misturado das suas vestes, ofereciam aos fiéis das suas tradições, como recorda o fundador da comunidade de Santo Egídio, Andrea Riccardi, não apenas uma ética de que o mundo precisa mas também uma estética para o diálogo futuro.

Esta cimeira que se passou a realizar anualmente, percorrendo várias cidades do mundo (lembremos que a XIII aconteceu em Lisboa, no outono de 2000), retornou a Assis no seu 30º aniversário. O Papa Francisco levantou ali a sua voz para, em nome dos presentes, dizer que só a paz é santa e nunca a guerra. E exortou: “Sair, pôr-se a caminho, encontrar-se em conjunto, trabalhar pela paz: são respostas espirituais concretas para superar a grande doença do nosso tempo: a indiferença.”

Coube ao sociólogo Zygmunt Bauman fazer a intervenção inicial, refletindo sobre a história da Humanidade a partir do pronome “nós”. A primeira vez que o termo foi utilizado não incluiria mais de 150 pessoas, na época em que os homens eram caçadores e recoletores. Aos poucos, este número foi aumentando, aplicando-se sucessivamente à tribo, à aldeia, à cidade, ao estado ou aos impérios. Mas em todas essas etapas o uso do pronome “nós” tinha um elemento em comum: formulava-se em contraposição aos “outros”, num regime de inclusão e exclusão. E isto construiu a história do modo que conhecemos. Hoje, porém, vive-se um novo limiar. Num mundo cosmopolita e globalizado, o “outro” tradicional deixou de existir, porque descobrimo-nos todos dependentes uns dos outros. O grande problema qual é? Na opinião de Bauman, é vivermos numa época inédita, mas insistirmos em utilizar as velhas antinomias de sempre. Por isso, segundo ele, faríamos bem em escutar os três conselhos que repetidamente, por palavras e gestos, tem dado o Papa Francisco. 1) Antes de tudo, a necessidade de instaurarmos uma cultura de diálogo para assim reconstruirmos o tecido da sociedade; 2) Depois, fazermos valer a equidade na distribuição dos frutos da terra e do trabalho, deixando para trás esta economia líquida, apostando na criação de postos de trabalho reais; 3) Por fim, compreendermos que temos de confiar mais na educação, nos processos longos que requerem de nós planificação, paciência e coerência.

[José Tolentino Mendonça | A Revista Expresso | Edição 2292 | 01/10/16]

Família Franciscana como um movimento da Paz

Para a família franciscana, o conceito de paz não é simplesmente um valor marginal, mas pertence ao núcleo central da sua missão. Francisco concebeu sua família como um movimento de paz, enviado para proclamar a conversão e trazer a paz.

A verdadeira paz
É preciso afastar-se de uma compreensão superficial de paz. Pois, o que Francisco deseja é “a verdadeira paz do céu e sincera caridade no Senhor” (2CtFi 1). Portanto, para ele, a paz é um dom do céu, ligado essencialmente a Jesus Cristo (cf. Ef 2), “no qual foram pacificadas todas as coisas, assim as da terra como as do céu, e reconciliadas com o Deus onipotente” (cf. Adm 15; Cant 11). A verdadeira paz é experimentada por quem vive para Deus. Por isso, Francisco, muitas vezes, pode também dizer que a paz deve ser “conservada” (Adm; Cant.). Paz é, portanto, de maneira paradoxal, uma coisa já dada e simultaneamente ainda procurada.

A expressão “paz verdadeira”, confrontada com a tradição agostiniana, que Francisco conhecia, recebe nova significação. Na sua obra, “Cidade de Deus” (19, 17), Agostinho distingue duas formas de estado e dois conteúdos de paz.

O estado temporal procura a paz na terra
Procurando a paz na terra, o Estado temporal a encontra na medida em que consegue a maior concordância possível dos cidadãos (“concórdia civium”). Os cidadãos devem unir-se e concordar, por um grande número de decisões concretas, em como satisfazer as suas exig~encias fundamentais (“compósito voluntatum”). O sentido da legislação estatal consiste, portanto, em “regulamentar o que é favorável à conservação da vida mortal” e organizar “o que é necessário para a vida” (res huic vitae necessariae). Neste sentido, a paz significa a satisfação de necessidades fundamentais dentro de uma comunidade estatal. Assim, a política econômica deve ser entendida também como uma política da paz.
A paz, portanto, segundo Agostinho, é um tema não interestatal, mas antes intra-estatal. Hoje em dia, a paz, no sentido da satisfação de necessidades fundamentais de todos, é concebível apenas quando se leva em consideração o conjunto global do nosso mundo. Desta forma, paz e justiça se entrelaçam. Paz verdadeira só pode existir, quando todos os seres humanos julgam satisfeitas as suas exigências fundamentais.

A partir desta noção de paz, franciscanos e franciscanas juntaram-se nos anos 80, para representar a missão franciscana de paz a nível da Organização das Nações Unidas (= ONU). Atualmente, eles possuem o “status” de uma organização não-governamental (= ONG) chamada “Franciscans International” (= Franciscanos na ONU), que define a sua visão nos seguintes termos:

Visão dos Franciscanos nas Nações Unidas
“Nós, Franciscanos, homens e mulheres no seguimento de São Francisco de Assis, acreditamos que a criação inteira, do menor organismo até o ser humano, vive numa interdependência mútua no planeta Terra. Estamos conscientes de que esta relação está ameaçada pela recusa em aceitar a interdependência, optando, ao contrário, pelo uso da exploração e da dominação. Nós nos engajamos a fomentar a nossa mútua dependência, para que toda a criação possa viver em harmonia. Vamos contribuir para o serviço a nossos próprios membros e aos colaboradores das Nações Unidas, assim como a todos os outros, pela formação e promoção dos seguintes temas: ecologia, preservação do meio ambiente, métodos pacificadores e a solução de conflitos.

Procuraremos colaborar, neste sentido, com os membros das Nações Unidas e de outras organizações não-governamentais. Nossos esforços refletirão valores franciscanos, relativos à preservação da natureza, à promoção da paz e à ajuda prestada aos pobres. Estes valores coincidem com aqueles que as Nações Unidas afirmaram na sua Carta fundamental e na sua Declaração dos Direitos Humanos”.

Texto da Lição 23, do Curso Básico sobre o Carismo Missionário Franciscano, da FFB.

Carta do Ministro Geral pelo 20º aniversário do “Espírito de Assis”

Queridos irmãos e irmãs, O Senhor te dê a Paz!

Vinte anos atrás, o servo de Deus João Paulo II tomou a iniciativa de convocar, em Assis, os representantes das várias confissões cristãs e de diversas religiões para implorar ao único Deus de todos o dom da paz, para reafirmar juntos o comum desejo de viver em harmonia, e para compreender, diante do Senhor, como sermos construtores da paz no pensamento, no coração e na ação. Aquele 27 de outubro de 1986 “significou uma vibrante mensagem em favor da paz, e se revelou como um evento destinado a deixar um sinal na história” (Bento XVI, Mensagem por ocasião do 20º aniversário do Encontro Inter-religioso de oração pela paz em Assis, 2 de setembro de 2006).

De modo particular, João Paulo II, sempre que se produziam atos terroristas, guerras, desespero, injustiças, dúvidas e incompreensões, que colocaram seriamente em risco o destino da humanidade, propôs aos que têm fé e aos homens de boa vontade, que peregrinassem a Assis, e os convidava em muitas circunstâncias, a se inspirar, para a construção de um mundo mais justo e solidário, no “espírito de Assis”.

Por que Assis? Na última peregrinação, no dia 24 de janeiro de 2004, e não somente na última, o mesmo João Paulo II respondia: “Nos encontramos em Assis onde tudo fala de um singular profeta da paz, chamado Francisco”. E o testemunho que Francisco “deu em seu tempo – confirma Bento XVI em sua mensagem citada – é um natural ponto de referência para todos os que hoje cultivam o ideal da paz, o respeito à natureza, o diálogo entre as pessoas, entre as religiões e as culturas”. Ponto de referência e de estímulo para todos aqueles que de fato se interessam pelo futuro da família humana e da “causa” do homem, e de maneira particular, para nós, franciscanos, que fomos gerados pelo “espírito de Assis”, e somos seguidores do Poverello, que encarnou “de maneira exemplar as bem-aventuranças proclamadas por Jesus no Evangelho: ‘Felizes os que trabalham pela paz, porque serão chamados de filhos de Deus’.

O que quer dizer para nós, hoje, que Francisco é o ponto de referência, e, sobretudo, como podemos nós, filhos de Francisco, sermos ainda, onde quer que vivamos, autênticos testemunhos de paz? O que tornamos “visível” de sua fascinante aventura humana e evangélica? Providencialmente, a lembrança do 20o aniversário da iniciativa audaz e profética de João Paulo II, coincide, como assinalou Bento XVI, na sua Mensagem pelo 20º aniversário da iniciativa de oração pela paz, com a celebração que se realiza em nossa Fraternidade, do 8º Centenário da conversão de Francisco, provocada pelo diálogo com o Crucifixo de São Damião: “Senhor, que queres que eu faça? e “Vai, Francisco, e repara a minha casa”. Descoberto o sentido das palavras do Crucifixo, o Poverello se transforma em promotor da paz com cartas circulares e particulares, com o anúncio do Reino de Deus, e o dom divino da paz (cf. 1Cel 10), tornando-se assim o “anjo da verdadeira paz” (LM. Prólogo 1)

Para entender o porquê e como nós, franciscanos, devemos ser “sentinelas dóceis e valentes da verdadeira paz, fundada na justiça e no perdão, na verdade e na misericórdia” (João Paulo II, Discurso de Assis, 24 de janeiro de 2002), devemos “fixar o olhar no mistério da cruz, árvore da salvação banhada no sangue redentor de Cristo” (cf. também “Deus caritas est”, 12). Sim, o fascínio de Francisco surge de seu deixar-se transformar pela lógica da cruz, ao ponto de aprender uma nova “linguagem”, aquela do amor, do perdão e do bem.

2006 é para nossa Fraternidade o ano da conversão, provocada pela contemplação do Crucifixo de São Damião. Permito-me, então, sugerir-lhes um itinerário concreto de conversão, para apostar no amor, no valor da fraternidade, “aos quais todas as pessoas são chamadas, e do quais as criaturas inanimadas – do “irmão sol” à “irmã lua” – de alguma maneira participam” (Bento XVI, Mensagem…). Trata-se de viver e promover, dentro de nossas Fraternidades, nas relações com as pessoas que o Senhor coloca em nosso caminho, os valores do Decálogo de Assis, enviado por João Paulo II aos chefes de Estado e de Governo, fruto da excepcional jornada de oração vivida em Assis no dia 24 de janeiro de 2002 (Acta Ordinis, I, 2002, 6-7), tendo sempre ante nossos olhos o testemunho exemplar de Francisco de Assis, que nos exorta a “sermos pacíficos e sóbrios, mansos e humildes”, nos recorda nossa vocação: “curar as feridas, enfaixar as fraturas, buscar os perdidos”, e nos convida a nos dirigirmos ao “Altíssimo, glorioso Deus”, para que nos conceda a capacidade de discernir e de fazer sempre a sua vontade.

Roma, 8 de setembro de 2006, Nascimento da Santa Virgem

Fr. José Rodríguez Carballo, ofmMinistro Geral