Carisma - Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil - OFM

A Cruz na Mística Franciscana

A CRUZ NA MÍSTICA FRANCISCANA

Apresentação

 

Neste dia 14 de setembro, a Igreja celebra a Festa da Exaltação da Santa Cruz.  A data lembra o dia da dedicação das Basílicas sobre o Gólgota e o Sepulcro de Cristo ressuscitado, construídas durante o Império de Constantino e dedicadas no dia 13 de setembro de 335. Neste dia, também faz-se memória da vitória de Heraclio sobre os persas em 630, dos quais foram arrebatadas as relíquias da cruz, solenemente transportadas para Jerusalém.

O mistério celebrado, no entanto, ultrapassa esses fatos históricos. Dentro do plano de Deus, a cruz tomou-se sinal e símbolo do mistério pascal. Depois que o ser humano falhou em sua vocação através do pecado, a vida e a salvação passarão pela morte. Além de ser Senhor do universo na ordem da criação, Jesus, constituído por Deus como Senhor da vida, tomou-se também o primeiro entre os irmãos ressuscitados para todos os que nele creem e procuram realizar o plano de Deus.

A cruz marca toda sua vida de São Francisco de Assis. Está com ele no início de sua conversão e no fim de sua vida, quando o santo experimentou o sofrimento de Jesus através de suas chagas. São Francisco é um santo singular, profunda e misteriosamente marcado pelo sinal-da-cruz. Celano vislumbra este mistério e assim intitula um dos capítulos de sua obra: ‘A devoção à cruz; e um segredo oculto’.

“Finalmente, quem poderia exprimir, quem poderia compreender o quanto estava longe dele gloriar-se, a não ser na cruz do Senhor? Somente foi dado compreender àquele que pôde experimentar. Na verdade, ainda que em certo sentido as experimentássemos entre nós, de maneira alguma nossas palavras, maculadas pelas coisas cotidianas e sem valor, estariam em condições de exprimir tantas maravilhas. E talvez o mistério teve que se manifestar na carne, porque não teria podido ser explicado em palavras. Fale, portanto, o silêncio onde falta a palavra…”(2Cel 203).

Confira neste Especial alguns aspectos importantes da cruz dentro da mística franciscana, como a reflexão sobre a oração de São Francisco de Assis diante do Crucifixo: “Altíssimo e glorioso Deus…”, no artigo de Frei Jack Wintz.

São Pedro de Alcântara, santo franciscano, que leva o título de Patrono do Brasil, em seu “Tratado da Oração e da Meditação”, também nos convida a rezarmos o mistério da cruz. “Considera como o Senhor foi cravado na cruz, e a dor que padeceria ao tempo em que aqueles cravos grossos e esquinados entravam pelas mais sensíveis e mais delicadas partes do mais delicado de todos os corpos”.

Acompanhe!

São Francisco: inspirado pela cruz

Frei Jack Wintz

A oração de Francisco de Assis diante do Crucifixo não começa com “Ai de mim” ou alguma triste miséria do coração. Em vez disso, concentra-se na glória e sublime beleza de Deus.

“Altíssimo e glorioso Deus”: Apenas dizendo as palavras com um espírito de louvor, meu coração se torna mais leve. Sinto como se estivesse envolvido na gloriosa presença de Deus! A oração começa – como toda boa oração deve começar – com palavras de adoração.

A adoração tem um jeito de tirar-me da minha autorreferencialidade e ansiedade. A própria adoração ajuda a iluminar a escuridão do meu coração.

Agrada-me que Francisco use a palavra coração em vez de mente quando ora: “Ilumine as trevas do meu coração”. A palavra mente leva-me muito à minha cabeça. E esse não é o verdadeiro São Francisco. ‘Coração’ é muito São Francisco. O coração sugere as complexidades do amor humano e o mistério do anseio mais íntimo de alguém – com todas as suas alegrias e tristezas.

A visão do amor ardente de Cristo

Francisco, naturalmente, tinha um coração muito sintonizado com o mistério do amor transbordante de Deus. Uma vez, enquanto rezava em um lugar solitário, Francisco teve uma visão de Cristo olhando para ele da cruz com um amor tão intenso e ardente que “sua alma se derreteu”, segundo seu biógrafo, São Boaventura. Só podemos acreditar que, após este evento de derreter a alma, cada vez que Francisco orou diante de um crucifixo, ele experimentou um derramamento similar do incrível amor de Deus.

E quando Francisco pede em sua oração: “Dai-me uma fé reta”, essa fé reta de alguma forma implicaria essa mesma visão transformadora do coração do amor transbordante de Deus, um amor pelo qual Deus nada retém de nós! Esse é o tipo de fé correta que Francisco – assim como você e eu – solicitamos nesta oração. E essa fé reta, que é o cerne glorioso da autorrevelação de Deus, não ilumina a escuridão de nossos corações?

Em seguida, São Francisco pede na oração por “esperança certa” que deriva da “fé reta”. E onde há um lugar melhor para encontrar essa esperança segura do que na ressurreição de Jesus? Os discípulos literalmente testemunharam a esperança certa quando o Cristo Ressuscitado apareceu para eles naquele primeiro domingo de Páscoa. Eu penso especialmente no apóstolo Tomé. O Ressuscitado iluminou de tal maneira o coração obscurecido pela dúvida deste apóstolo que Tomé, em adoração, proclamou sem hesitação: “Meu Senhor e meu Deus!” (cf. Jo 20,28).

Isso possibilita que São Francisco responda ao amor de Deus com o mesmo tipo de generosidade total. Francisco ainda pede a Cristo “sensibilidade e conhecimento, a fim de que eu cumpra o vosso santo e veraz mandamento”. Esse “mandamento” é realmente o plano glorioso de Deus para que todos os filhos de Deus perseverem no amor de Cristo e um dia ressuscite com Cristo no abraço amoroso de Deus.

A cruz de São Damião

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Documentos franciscanos do século XIII indicam que o crucifixo diante do qual São Francisco rezava essa oração não era outro senão o famoso crucifixo na pequena capela de São Damião, perto de Assis. Este amado crucifixo, conhecido pelos seguidores de São Francisco em todo o mundo, é conhecido como a Cruz de São Damião.

O corpo de Cristo, tal como pintado nesta cruz, não é sangrento ou torcido em angústia. Em vez disso, seu corpo é bastante luminoso, como se já estivesse ressuscitado, irradiando a plenitude de Deus. Em vez de uma coroa de espinhos, esta imagem de Cristo tem uma auréola gloriosa. Seu corpo, com os braços estendidos, parece estar subindo para o céu. Em resumo, a imagem sugere claramente o Jesus ressuscitado.

Se, de fato, era essa a imagem de Cristo sobre a qual São Francisco estava olhando quando esta oração surgiu em seu coração, faz sentido que Francisco se dirigisse a Jesus como “Altíssimo e glorioso Deus!”

Ó glorioso Deus do amor transbordante, ilumine as trevas do meu coração!

Oração de Francisco Antes do Crucifixo

Altíssimo, glorioso Deus,
iluminai as trevas do meu coração,
dai-me uma fé reta,
uma esperança certa
e uma caridade perfeita;
sensibilidade e conhecimento, Senhor, a fim de que eu cumpra
o vosso santo e veraz mandamento. Amém.

Via Franciscan Media

Os Franciscanos e a Via-sacra

Frei Celso Márcio Teixeira
Revista Franciscana

A devoção da Via-sacra ou Via crucis tem suas origens bem dentro da espiritualidade franciscana. É de todos conhecida a intensidade com que Francisco meditava sobre a humanidade de Cristo: encarnação, natal, paixão e, dentro do mistério kenótico do Filho de Deus, a Eucaristia, intimamente ligada à encarnação. Tudo isto, evidentemente, sem anular a divindade de Cristo.

Tomás de Celano, ao narrar o encontro de Francisco com o crucifixo de São Damião, exprime-se com uma frase de intenso significado: “Desde então, grava-se na sua santa alma a compaixão do Crucificado … , e no coração dele são impressos mais profundamente os estigmas da venerável paixão, embora ainda não na carne” [1].

É esta compaixão que leva Francisco a chorar constantemente a paixão do Senhor. “A partir daquela hora – continua o biógrafo – a alma dele se derreteu. Desde então, não consegue conter o pranto, chora também em alta voz a paixão de Cristo … Enche de gemidos os caminhos, não admite qualquer consolação, ao recordar-se das chagas de Cristo” [2].

Digno de menção é o episódio narrado pela Legenda dos Três Companheiros: “Uma vez, caminhava solitário perto de Santa Maria da Porciúncula, chorando e lamentando em alta voz. Um homem espiritual, ouvindo-o, julgava que ele sofresse alguma enfermidade ou dor e, movido de compaixão para com ele, interrogou-o por que chorava. E ele disse: ‘Choro a paixão de meu Senhor, pelo qual eu não deveria envergonhar-me de ir chorando em alta voz por todo o mundo’. O outro também começou a chorar com ele em alta voz” [3].

Neste contexto de intensa compaixão se compreende a redação do Oficio da Paixão, meditação que Francisco fazia dos salmos que ele rezava na ótica da Paixão do Senhor. Em outras palavras: Francisco lia certos versículos do saltério sempre ligados ao mistério da paixão de Cristo. E deste conjunto de versículos de diferentes salmos ele compôs o Oficio da Paixão, que ele rezava sempre como oficio votivo. E esta compaixão vai conduzir Francisco a sofrer com o Cristo sofredor, pois que o identificará com Ele na cruz, imprimindo nele os estigmas no Monte Alverne.

O amor de Francisco pela humanidade de Cristo leva-o consequentemente ao amor pela Terra Santa. Os historiadores discutem se Francisco realmente foi ou não à Terra Santa. Mas a presença franciscana na Terra Santa é de antiga data. Quando em 1217 a Ordem foi estruturada em províncias, Francisco mandou frades para a Província da Síria, isto é, com acesso à Terra Santa. Frei Elias foi o primeiro Provincial da Síria.

Depois da morte de Francisco, a presença dos frades menores na Terra Santa foi constante. E a alma dos frades menores ficou marcada também pela compaixão para com os sofrimentos do Senhor, pois esta faz parte de sua espiritualidade.

Deste modo, a difusão da devoção da Via-sacra só podia ter tido a colaboração dos franciscanos. Isto se deu a partir dos séculos XIV e XV. Os frades menores, que desde 1342 tinham a guarda ou custódia da Terra Santa, começaram a percorrer com os peregrinos a via dolorosa de Cristo, que começava diante da casa de Pilatos até à sepultura de Jesus. Os lugares de parada (estações) para meditação sobre um determinado sofrimento de Cristo eram marcados com uma pedra, depois com pequenas cruzes” [4]. Estas estações foram desde cedo visitadas pelos peregrinos [5] Inicialmente, as meditações eram baseadas nos textos do Evangelho. Posteriormente, foram-se acrescentando alguns elementos colhidos da tradição, como, por exemplo, a cena da presença consoladora de Verônica.

Mais tarde, esta devoção foi transplantada pelos franciscanos para a Europa. Assim, os peregrinos que voltavam da Palestina, desejando recordar os lugares santos visitados em Jerusalém, começaram a recorrer a esta devoção. E a devoção foi-se espalhando sempre mais, mesmo para aqueles que nunca tinham visitado a Terra Santa. São Leonardo de Porto Maurício (1676-1751) foi um grande propagador da Via-sacra, difundindo numerosos quadros. Preparou o jubileu de 1750, quando erigiu [6] a Via-sacra do Coliseu, declarando sagrado aquele lugar santificado pelo sangue dos mártires. Mas já a partir de Leão X, com a concessão de indulgências, a Via-sacra encontrou expansão geral.

A Via-sacra convida-nos a percorrer o mesmo caminho de Cristo [7] (seguimento de Cristo mesmo na cruz), mostrando-nos nossa fundamental condição de pessoas ‘in via’ [8]. Isto nos convoca a meditar sobre a nossa condição de peregrinos e forasteiros neste mundo [9]

[1] 2Cel 10, 8.
[2] 2Cel 11, 4.6-7.
[3] LTC 14, 4-7; cf. 2Cel 11,8.
[4] Até os dias de hoje, os quadros da Via-sacra têm uma pequena cruz. Elas constituem o elemento mais importante da Via-sacra, não tanto os quadros. Estes apenas ajudam o fiel na visualização do mistério que ele medita.
[5] As estações no início variavam de 19 a 57. Já no século XVI, começaram a fixar-se em 14 estações. A partir das Advertências de Clemente XII (1731), confirmadas por Bento XIV (1742), o número ficou estabelecido em 14 estações.
[6] Até pouco tempo atrás, os franciscanos tinham o privilégio na ereção das Vias-sacras, isto é, somente os frades menores podiam benzer os quadros e cruzes da Via-sacra.
[7] Cf. Adm 6,2
[8] A expressão ‘in via’ (em caminho) designa a condição atual do homem em marcha para a bem-aventurança. Opõe-se a ‘in patria’ (no céu). O homem que está ‘in via’ é designado como ‘viator’, itinerante, peregrino; cf. O. de la Brosse, A. M. Henry, Ph. Roillard, Diccionario del Cristianismo, Barcelona, Biblioteca Herder, 1986, verbete: Via, p. 792-793.
[9] Cf. RB 6; 3; Test 24.

Encontros significativos com a cruz

São Francisco, já antes da conversão, quando se preparava para a viagem à Apúlia e desejava ser armado cavaleiro, teve um sonho. O Senhor lhe fez ver um palácio cheio de armas. Segundo São Boaventura (LM 1,3) “estavam assinaladas com a cruz de Cristo”, embora tal detalhe não tenha sido mencionado nem por Celano nem pelos Três companheiros. Certo é que, nos primórdios de sua conversão, Francisco teve um dos mais significativos encontros com a cruz, descrito com precisão tanto por São Boaventura (LM 2,1), quanto por Celano (2Cel 10-11) como também pelos Três Companheiros.

São Francisco certa vez, “passando perto de São Damião, o Senhor o Inspirou que visitasse aquela Igreja e orasse. Entrando, pôs-se em fervorosa oração diante da Imagem de um Crucifixo o qual piedosa e benignamente lhe falou: ‘Francisco. não vês que minha casa está em ruínas? Vai e restaura-a para mim’… Desde aquela hora seu coração tornou-se tão vulnerado e comovido, ao recordar a paixão do Senhor, que sempre enquanto viveu trouxe os estigmas do Senhor Jesus em seu coração como depois claramente se patenteou pela renovação dos mesmos estigmas maravilhosamente realizada em seu corpo… ” (cf. também 3Cel 2).

Santa Clara em seu Testamento (3-4) colocou também em grande evidência a importância decisiva do encontro de Francisco com a cruz. De fato, foi na Igreja de São Damião que o santo “foi movido pela graça divina de tal forma que se viu Impelido a abandonar totalmente o mundo”.

Um outro encontro, também dos mais significativos, foi aquele que se deu quando abriu o livro dos Evangelhos para conhecer a vontade de Deus a respeito do modo de vida que devia seguir com seus primeiros companheiros (LTC 27-29; cf. 2Cel 15; LM 3,3). “Transcorridos dois anos de sua conversão, certos homens começaram a se animar por seu exemplo e penitência e, rejeitando todas as coisas. uniram-se a ele. O primeiro foi Bernardo… “ . “Amanhã, bem cedinho, iremos à Igreja, e pelos Evangelhos saberemos o que o Senhor determinou a seus discípulos”. E assim, “no dia seguinte, muito cedo, levantaram-se, e juntos com outro que se chamava Pedro que também desejava ser seu irmão, foram à Igreja de São Nicolau, na praça da cidade de Assis… Terminada a oração, o bem-aventurado Francisco, tomando o livro fechado, e de joelhos diante do altar, ao abrir a primeira vez, encontrou este conselho do Senhor: ‘Se queres ser perfeito, vai, vende tudo o que tens, dá-o aos pobres. (Mt 19, 21).’O bem-aventurado Francisco ficou multo contente e deu graças a Deus. Mas como era verdadeiro adorador da Santíssima Trindade, quis que isso fosse confirmado com um tríplice testemunho. E abriu o livro pela segunda e pela terceira vez. Ao abri-lo a segunda vez encontrou o seguinte: ‘Não leveis nada no caminho…’ (Lc 9, 2); e na terceira , por fim, ‘Quem quiser vir após mim, renuncie-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me’ (Mt 12, 24).

Francisco “…depois de ver manifestada a vontade divina, confirmando seu propósito e desejo anteriormente concebidos, disse aos já mencionados Irmãos Bernardo e Pedro: ‘Irmãos, esta é a nossa vida e a nossa regra e de todos os que quiserem unir-se a nós .. .”

Finalmente encontramos um encontro altamente significativo com a cruz: o Alverne, precedido também por uma tríplice abertura dos Evangelhos. O bem-aventurado Francisco, conforme a narrativa de Celano (1 Cel 91-93), “afastou-se das multidões … e procurou um lugar calmo, secreto, solitário (o Alverne) … Passado algum tempo neste lugar … repleto do Espírito de Deus estava pronto para enfrentar qualquer angústia do espírito, qualquer tormento do corpo, desde que lhe fosse concedido o seu ardente desejo: que se cumprisse nele a misericordiosa vontade do Pai celeste. Dirigiu-se um dia ao altar da entrada e tomando um volume em que estavam escritos os Evangelhos, colocou-o sobre o altar com toda reverência. Depois, prostrou-se em oração a Deus, não menos de coração do que de corpo, e pediu humildemente que o Deus de toda consolação se dignasse mostrar-lhe sua vontade… Levantando-se, depois da oração, com espírito humilde e ânimo contrito, fez o sinal da santa cruz, tomou o livro do altar e o abriu com reverência e temor. A primeira coisa que deparou ao abrir o livro foi a paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo, no ponto que anunciava as tribulações por que deveria passar. Mas para que ninguém pudesse suspeitar que Isso tivesse acontecido por acaso, abriu o livro mais duas vezes, e o resultado foi o mesmo … São Boaventura precisa (LM 13,2): “Com fervorosa oração, pois, se preveniu e depois mandou um de seus companheiros, homem devoto e de grande santidade (Frei Leão) tomar o livro dos Evangelhos e abri-lo três vezes em honra da Santíssima Trindade. E como todas as vezes que se abriu o livro ocorreram as páginas em que se fala da paixão de Cristo, logo compreendeu Francisco que, da mesma forma como havia Imitado a Cristo nos principais atos de sua vida, assim também devia conformar-se com ele nos seus sofrimentos e dores da paixão” (Cf. também Considerações sobre os estigmas, 3).

Fonte de verdadeira e perfeita alegria

A cruz é ainda para Francisco a fonte mais genuína da verdadeira e perfeita alegria. Na cruz ele encontra, de maneira ao mesmo tempo paradoxal e evidente, a expressão da maior das dores e do mais eloquente e sublime. A verdadeira e perfeita alegria brota tão-somente do verdadeiro e perfeito Amor.

Francisco é o santo da alegria na cruz. Basta prestar atenção na conclusão do diálogo com Frei Leão, ovelhinha de Deus, segundo a redação do belíssimo capítulo 8 dos Fioretti, que desenvolve, no estilo próprio deste livro imortal, um texto anterior, mais breve (cf. Ad 5): “…se suportamos todas estas coisas pacientemente e com alegria, pensando nos sofrimentos de Cristo bendito, pelo que devemos suportá-las por seu amor, ó Frei Leão, escreve que aqui e nisto está a perfeita alegria. Ouve, pois, a conclusão, Frei Leão: acima de todas as graças e dons do Espírito Santo, que Cristo concede aos seus amigos. está o vencer-se a si mesmo e de bom grado suportar sofrimentos, injúrias e dificuldades, pois de todos os outros dons de Deus não nos podemos gloriar … Mas na cruz da tribulação e da aflição, nessa sim podemos gloriar-nos; pelo que diz o Apóstolo: “Não quero gloriar-me a não ser na cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo’…”

A cruz como símbolo da evangelização do mundo

A cruz que Frei Silvestre viu sair da boca de Francisco “abraçava admiravelmente com seus braços todo o universo”. Realmente o santo meditava constantemente no fato de Jesus ter sido crucificado por todos os homens e muito lamentava ver que o amor não era conhecido por todos e por todos amado. E com o sinal-da-cruz enviou os seus frades por todas as partes a pregar o Evangelho a todas as nações, nas quatro direções dos braços da cruz!

O mistério da cruz, vivido intensamente por Francisco, se tomou a força da pregação de seus filhos e fonte de renovação para a Igreja. Merece menção o capítulo 16 dos Fioretti que não é apenas uma bela página literária, mas encerra em suas linhas um profundo mistério. Eis a conclusão do texto: “Finalmente, terminada a pregação (aos passarinhos), São Francisco fez sobre eles o sinal-da-cruz e deu-lhes licença de partir; e então todas aquelas aves em bando se levantaram no ar com maravilhosos cantos; e depois, seguindo a cruz que São Francisco fizera, dividiram-se em quatro grupos: um voou para o oriente e outro para o ocidente, o terceiro para o meio-dia, o quarto para o aquilão, e cada bando cantava maravilhosamente; significando que como por São Francisco, arauto da cruz de Cristo, lhes fora pregado e sobre eles feito o sinal-da- cruz, segundo o qual se dividiram, cantando pelas quatro partes do mundo; assim a pregação da cruz de Cristo, renovada por São Francisco, devia ser levada por ele e por seus irmãos a todo o mundo: os frades, como os pássaros, nada de próprio possuindo neste mundo, confiam a vida unicamente à providência de Deus”.

Dicionário Franciscano: Ignacio Omaechevarría

Devoção à cruz, ao sinal do tau e à Paixão de Cristo

Francisco, homem cujo destino providencial foi tão claramente marcado por vários encontros decisivos com a cruz, respondeu ao misterioso chamado com especial devoção a esta cruz e ao sinal do Tau, que é também uma representação dela.

Ele mesmo lembra no Testamento: “E o Senhor me deu tanta fé nas Igrejas que com simplicidade orava e dizia: ‘Nós vos adoramos, Senhor Jesus Cristo, aqui e em todas as vossas Igrejas que estão no mundo Inteiro e vos bendizemos porque por vossa santa cruz remistes o mundo” (Test 4-5).

Mais tarde, quando os primeiros companheiros, “que ainda não conheciam o ofício eclesiástico”, lhe pediram, como conta Celano (1 Cel 45), “que os ensinasse a rezar”, ele respondeu: “Quando orardes dizei: ‘Pai nosso’ e ‘Nós vos adoramos, ó Cristo, em todas as Igrejas,’ etc. E os Três companheiros, por sua vez (LTC 37): “Quando (os primeiros companheiros de Francisco) encontravam alguma Igreja ou cruz, ajoelhavam-se para rezar e devotamente diziam: “Nós te adoramos ó Cristo, e te bendizemos, em todas as tuas Igrejas que estão no mundo inteiro, porque pela tua cruz remiste o mundo’. Pois, qualquer Igreja ou cruz que encontrassem, para eles, era lugar consagrado a Deus”.

Existem muitos testemunhos comoventes a respeito da ternura com que meditava a paixão do Senhor. “Um dia, pouco depois de sua conversão, segundo nos transmite a Legenda perusina (37), ia só pela estrada que passa junto de Santa Maria da Porciúncula e, pelo caminho, lamentava-se e gemia em altas vozes. Encontrou-se com um homem espiritual que nós conhecemos muito bem e nos relatou este fato… Perguntou-lhe: “Que tens, irmão?” Pois julgava que era atormentado com alguma enfermidade. O santo respondeu: ‘Assim devia eu percorrer o mundo inteiro, gemendo e chorando sobre a paixão de meu Senhor’. E este homem pôs-se a chorar com ele, no meio de abundantes lágrimas”.

Não menos notável se manifesta a devoção à cruz na vida e nos escritos de Santa Clara, a maravilhosa “plantinha de São Francisco”. Vamos agora nos deter em alguns trechos das cartas dirigidas a Santa Inês de Praga. Já no primeiro contato com a nobre princesa da Boêmia, na primeira carta à filha distante, a saúda como “irmã caríssima, ou melhor: prezada Senhora, pois tu és esposa, mãe e irmã de meu Senhor Jesus Cristo e distinguida honrosamente com o estandarte da virgindade mais elevada e da santa pobreza”. Convida-a a reanimar-se “por um ardente desejo para com aquele que se tomou pobre e se deixou crucificar. Foi ele que por nós suportou os tormentos da cruz e por isso nos livrou do poder do príncipe das trevas …” (1 CtIn 2). Na segunda carta exorta-a a fazer do Crucificado o ponto principal de seu amor e lhe oferece elementos de um método franciscano de meditação e contemplação: “Contempla, ó nobilíssima rainha, o teu esposo, o mais belo dentre os filhos dos homens, desprezado, perseguido e flagelado em todo o corpo, morrendo na cruz em meio às mais agudas dores. Olha, considera e contempla o Esposo tornando-te semelhante a este neste mundo” (2 CtIn 4).

Santa Clara seguia este método de meditação-contemplação diante da imagem do Crucificado que falara a São Francisco e que com muito carinho se conservava em São Damião.

Mas é especialmente na quarta carta, escrita, ou melhor, ditada (devido aos repetidos inquit) por Santa Clara já perto da morte que se toma sempre mais Insistente o pedido em vista da união íntima e ao amplexo com o Crucificado. A seráfica mãe convida a nobre princesa a contemplar todo dia o espelho cristalino que é Cristo, no qual “resplandecem a santa pobreza, a sagrada humildade e a Inefável caridade … a pobreza daquele que está deitado no presépio, envolto em panos … observa neste mesmo espelho a inefável caridade com que quis sofrer na cruz e nela morrer a morte mais cruel…” (4 CtIn 4). Nesse ponto a santa multiplica citações das Lamentações e do Cântico dos Cânticos …

Também a veneração de São Francisco pelo sinal do Tau é expressão de devoção à cruz. O santo conhecia o Tau pelo uso que, também na Itália, faziam dele os monges antonianos e os institutos dependentes deles. Parece que esta cruz egípcia ou cruz de Santo Antão foi adquirindo especial importância. O Tau era frequentemente encontrado representado nas hospedarias dos monges antonianos ao longo dos caminhos que levaram a São Tiago de Compostela. Posteriormente o Papa Inocêncio III, no Concílio de Latrão em 1215, fez insistente pedido em prol da renovação da Igreja, buscando inspiração no texto do profeta Ezequiel (9,4- 6).

Ao longo do caminho para Santiago de Compostela existe ainda, entre outras, as imponentes ruínas do antigo mosteiro antoniano de Castrogeriz (Burgos), o principal da Ordem na Castilha, com um Tau marcado nas velhas pedras.

Celano, no Tratado dos mllagres (n. 2-3), depois de ter feito uma síntese luminosa a respeito da Vida de Francisco que se tinha decorrido envolta no mistério da cruz assim conclui: “O sinal Tau era-lhe preferido acima de todos os outros: ele o utilizava como única assinatura para suas cartas e pintava-lhe a imagem nas paredes de todas as celas). Ainda se conserva o autógrafo endereçado a Frei Leão no Alverne com o sinal Tau, sinal que também aparece em cópias antigas e outras cartas suas e ainda se pode vê-lo pintado em vermelho nas paredes da Igrejinha de Santa Madalena de Fonte Colombo.

O Tau não foi, no entanto, para Francisco apenas um símbolo de renovação espiritual, mas também instrumento de salvação do corpo. Um dos milagres do santo registrados por Celano foi exatamente realizado por meio do Tau (3CeI 159): “Na cidade de Corí, diocese de Óstia, um homem tinha perdido totalmente o uso de uma perna”. Uma noite foi ter com São Francisco com insistentes rogos. De repente “lhe apareceu o santo acompanhado de um frade e lhe disse que viera trazer remédio para cura e tocou a parte enferma com um pequeno bastão encimado pelo sinal Tau. Subitamente se lhe rompe o abscesso e, recuperada a saúde, até os dias de hoje permanece o sinal Tau Impresso naquela parte”.

Fonte de verdadeira e perfeita alegria

A cruz é ainda para Francisco a fonte mais genuína da verdadeira e perfeita alegria. Na cruz ele encontra, de maneira ao mesmo tempo paradoxal e evidente, a expressão da maior das dores e do mais eloquente e sublime. A verdadeira e perfeita alegria brota tão-somente do verdadeiro e perfeito Amor.

Francisco é o santo da alegria na cruz. Basta prestar atenção na conclusão do diálogo com Frei Leão, ovelhinha de Deus, segundo a redação do belíssimo capítulo 8 dos Fioretti, que desenvolve, no estilo próprio deste livro imortal, um texto anterior, mais breve (cf. Ad 5): “…se suportamos todas estas coisas pacientemente e com alegria, pensando nos sofrimentos de Cristo bendito, pelo que devemos suportá-las por seu amor, ó Frei Leão, escreve que aqui e nisto está a perfeita alegria. Ouve, pois, a conclusão, Frei Leão: acima de todas as graças e dons do Espírito Santo, que Cristo concede aos seus amigos. está o vencer-se a si mesmo e de bom grado suportar sofrimentos, injúrias e dificuldades, pois de todos os outros dons de Deus não nos podemos gloriar … Mas na cruz da tribulação e da aflição, nessa sim podemos gloriar-nos; pelo que diz o Apóstolo: “Não quero gloriar-me a não ser na cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo’…”

Dicionário Franciscano: Ignacio Omaechevarría

Homem especialmente marcado pela cruz

Não é de se admirar que Francisco seja visto e considerado como um homem marcado pela cruz de maneira especial, tanto por seus companheiros como pelos biógrafos, por autores de hinos, sequências e antífonas que se cantam em sua honra, a começar pelo Ofício ritmado de Frei Juliano de Espira.

Assim o descreve Frei Tomás de Celano (3Cel 2): “O homem novo, Francisco, tomou-se famoso por um novo e estupendo milagre: por um singular privilégio jamais concedido nos séculos anteriores, ele foi marcado ou ornado com os sagrados estigmas ‘tornando-se semelhante em seu corpo mortal ao do Crucificado’ … O homem de Deus tinha pela cruz do Senhor um amor apaixonado, quer em público. quer em particular. Apenas começara a servir sob o estandarte do crucificado e já a cruz gravava em sua· vida as marcas de seu mistério…”

Como homem da cruz viam-no também Frei Silvestre e Frei Monaldo (3Cel 3): “De fato, Frei Silvestre, um de seus primeiros irmãos, e homem de grande virtude, viu sair da boca de Francisco uma cruz dourada, que abrangia, na extensão de seus braços, todo o universo” (cf. LTC 31). “Este fato nos é atestado por escrito num relato digno de fé. E tal sucedeu durante um sermão de Santo Antônio que estava pregando sobre o tema da cruz” (cf. 2Cel 109).

Assim o viu Frei Pacífico(3 Cel 3): Frei Pacífico, homem de Deus, agraciado por visões do céu, viu com os olhos de seu corpo um grande Tau, de várias cores, que brilhava com brilho de ouro sobre a fronte de seu bem-aventurado pai” (cf. 2Cel 106).

O hábito também deveria ser conforme sua vocação: “O hábito era para ele uma veste adequada uma vez que ela correspondia à sua sede de pobreza; e o santo nos dá desta forma uma certeza de que o mistério da cruz encontra nele sua plena realização: assim como a sua alma tinha revestido o Senhor Crucificado, da mesma forma seu corpo revestia a cruz…”

A cruz como símbolo da evangelização do mundo

A cruz que Frei Silvestre viu sair da boca de Francisco “abraçava admiravelmente com seus braços todo o universo”. Realmente o santo meditava constantemente no fato de Jesus ter sido crucificado por todos os homens e muito lamentava ver que o amor não era conhecido por todos e por todos amado. E com o sinal-da-cruz enviou os seus frades por todas as partes a pregar o Evangelho a todas as nações, nas quatro direções dos braços da cruz!

O mistério da cruz, vivido intensamente por Francisco, tornou-se a força da pregação de seus filhos e fonte de renovação para a Igreja. Merece menção o capítulo 16 dos Fioretti que não é apenas uma bela página literária, mas encerra em suas linhas um profundo mistério. Eis a conclusão do texto: “Finalmente, terminada a pregação (aos passarinhos), São Francisco fez sobre eles o sinal-da-cruz e deu-lhes licença de partir; e então todas aquelas aves em bando se levantaram no ar com maravilhosos cantos; e depois, seguindo a cruz que São Francisco fizera, dividiram-se em quatro grupos: um voou para o oriente e outro para o ocidente, o terceiro para o meio-dia, o quarto para o aquilão, e cada bando cantava maravilhosamente; significando que como por São Francisco, arauto da cruz de Cristo, lhes fora pregado e sobre eles feito o sinal-da- cruz, segundo o qual se dividiram, cantando pelas quatro partes do mundo; assim a pregação da cruz de Cristo, renovada por São Francisco, devia ser levada por ele e por seus irmãos a todo o mundo: os frades, como os pássaros, nada de próprio possuindo neste mundo, confiam a vida unicamente à providência de Deus”.

Dicionário Franciscano: Ignacio Omaechevarría

Um santo humilhado como Jesus

Frei Daniel P. Horan

A cruz foi fundamental no início da conversão de São Francisco.

No caso de Francisco de Assis, ele realmente tornou-se como Aquele a quem amava. Se a cruz foi fundamental no início de sua conversão, foi também formativa em sua vida diária e representada de maneira única no final de sua jornada terrena. A maioria das pessoas está familiarizada com seus estigmas, a recepção milagrosa das cinco chagas de Jesus, perto do fim da vida do santo.

Teólogos sugeriram que uma das maneiras pelas quais podemos entender as marcas da crucificação no corpo do santo é que ele conforma sua vida à de Jesus, pois ele estava tão comprometido em viver o Evangelho, tão aberto a ser transformado pelo amor de Deus, que o santo tornou-se como Aquele que amava: Jesus.

Esta manifestação, de maneira física, é rara, mas a forma exemplar de seu próprio modo de viver o Evangelho, visto até hoje pelos milhões de mulheres e homens que são inspirados por seu exemplo, demonstra a capacidade transformadora do amor em uma maneira muito poderosa.

Os primeiros biógrafos do santo observam que o dom dos estigmas era de fato bastante doloroso. Em outras palavras, um dos efeitos do poder transformador do amor de Deus visto fisicamente nas feridas em seu corpo, era o sofrimento.

Uma visão particularmente franciscana da cruz de Jesus e da Paixão do Senhor, requer que o amor e o sofrimento não estejam separados, mas, como o próprio significado da palavra  paixão sugere, esses dois lados da moeda permanecem conectados em nossas reflexões.

Em segundo lugar, devemos retornar à Encarnação e ao imenso amor que levou Deus a tornar-se como um de nós. Qualquer reflexão sobre a cruz não deve ser desconectada da Encarnação, ou seja, a Sexta-feira Santa tem tanto a ver com o Natal quanto com a Páscoa. Quando nos apegamos ao sofrimento sem nos lembrarmos do amor que fornecia a condição para a possibilidade da cruz, acabamos distorcendo o sentido de nossa fé.

Finalmente, devemos reconhecer o inseparável poder transformador do amor. Como em todos os relacionamentos, ambas as partes devem estar abertas para amar e serem amadas. Em Jesus, a abertura está sempre presente, é nossa responsabilidade corresponder a esse amor. Em nossa resposta, nossa abertura pode levar à transformação e mudar a maneira como vemos o mundo, a maneira como tratamos uns aos outros, a maneira como nos importamos com criação e a maneira como nos relacionamos com nosso Criador.

Via Franciscan Media

Meditação da Sagrada Paixão segundo São Pedro de Alcântara

São Pedro de Alcântara, grande santo franciscano, no capítulo IV de seu Tratado da Oração e da Meditação, dedica a meditação de sexta-feira para a meditação da Cruz de Cristo.

Acompanhe:

Neste dia se há de contemplar o mistério da cruz e as sete palavras que o Senhor falou.

Desperta, pois, agora, minha alma, e começa a pensar o mistério da santa cruz, por cujo fruto se reparou o dano daquele venenoso fruto da árvore proibida. Olha, primeiramente, como, chegado já o Salvador a este lugar, aqueles perversos inimigos (porque mais vergonhosa lhe fosse a morte) despem-no de todas as suas vestiduras até a túnica interior, que era toda tecida de alto a baixo, sem costura alguma. Olha, pois, aqui, com quanta mansidão se deixa esfolar aquele inocentíssimo Cordeiro sem abrir a boca, nem falar palavra contra os que assim o tratavam. Antes, de mui boa vontade consentia em ser despojado de suas vestes, e ficar, com vergonha, nu, para que com elas, melhor do que com as folhas de figueira, se cobrisse a nudez em que pelo pecado caímos.

Dizem alguns doutores que, para despirem o Senhor dessa túnica, tiraram-lhe com grande crueldade a coroa de espinhos que ele tinha na cabeça, e, depois de já despido, tornaram a pô-Ia, e a fincar-lhe outra vez os espinhos pelo crânio, que seria coisa de grandíssima dor. E é de crer, por certo, que usaram desta crueldade os que de outras muitas e muito estranhas usaram com Ele em todo o processo de sua Paixão, mormente dizendo o evangelista que fizeram com Ele tudo o que quiseram. E como a túnica estava pregada às chagas dos açoites e o sangue já estava gelado e colado com a própria veste, ao tempo em que lha despiram (como eram tão alheios de piedade aqueles malvados!) despegaram-lha de chofre e com tanta força, que lhe esfolaram e renovaram todas as chagas dos açoites, de tal maneira que o santo corpo ficou por todas as partes aberto e como que descascado, e feito todo uma grande chaga, que por todas as partes manava sangue.

Considera, pois, aqui, ó minha alma, a alteza da divina bondade e misericórdia, que neste mistério tão claramente resplandece; olha como Aquele que veste os céus de nuvens e os campos de flores e beleza, é aqui despojado de todas as suas vestes. Considera o frio que padeceria aquele santo corpo, estando, como estava, dilacerado e despido, não só de suas vestiduras, como também dos couros da pele e com tantas portas de chagas por todo ele abertas. E, se estando São Pedro vestido e calçado, na noite anterior padecia frio, quanto maior o padeceria aquele delicadíssimo corpo estando tão chagado e desnudo?

Depois disto considera como o Senhor foi cravado na cruz, e a dor que padeceria ao tempo em que aqueles cravos grossos e esquinados entravam pelas mais sensíveis e mais delicadas partes do mais delicado de todos os corpos. E olha também o que a Virgem sentiria quando visse com seus olhos e ouvisse com seus ouvidos os cruéis e duros golpes que sobre aqueles membros divinais tão a miúdo caíram, porque verdadeiramente aquelas marteladas e cravos passavam as mãos ao Filho, porém à Mãe feriam o coração.

Olha como depois levantaram a cruz ao alto e a foram fincar numa cova que para isto tinham feito, e como (segundo eram cruéis os ministros), ao tempo de assentá-la, a deixaram cair de chofre, e assim se estremeceria no ar todo aquele santo corpo e mais se rasgariam os buracos dos cravos, o que seria coisa de intolerável dor.

Ó Salvador e Redentor meu, que coração haverá tão de pedra que se não parta de dor (pois neste dia se partiram as pedras) considerando o que padeces nessa cruz? Cercaram-te, Senhor, dores de morte, e sobre ti investiram todos os ventos e ondas do mar. Atolaste-te no profundo dos abismos e não achas em que te estribares. O Pai desamparou-te; que esperas, Senhor, dos homens? Os inimigos zombam de ti aos gritos, os amigos quebram-te o coração, tua alma está aflita e por meu amor não admites consolo. Duros foram, por certo, os meus pecados, e tua penitência o declara. Vejo-te, meu Rei, cosido com um madeiro; não há quem sustente o teu corpo senão três ganchos de ferro; deles pende tua sagrada carne, sem ter outro refrigério. Quando firmas o corpo nos pés, rasgam-se as feridas dos pés com os cravos que têm atravessados; quando o firmas nas mãos, rasgam-se as feridas das mãos com o peso do corpo. E a santa cabeça atormentada e enfraquecida com a coroa de espinhos, que travesseiro a sustentaria? Oh! Quão bem empregados seriam ali vossos braços, sereníssima Virgem, para este ofício, mas ali não servirão agora os vossos, senão os da cruz! Sobre eles se reclinará a sagrada cabeça quando quiser descansar, e o refrigério que deles receberá será fincarem-se mais os espinhos pelo crânio.

Cresceram as dores do Filho com a presença da Mãe, com as quais não estava o seu coração menos crucificado por dentro do que o estava o sagrado corpo por fora. Duas cruzes há para ti, ó bom Jesus, neste dia: uma para o corpo e outra para a alma; uma é de paixão, a outra de compaixão; uma traspassa o corpo com cravos de ferro, e a outra traspassa tua alma santíssima com cravos de dor. Quem poderia, ó bom Jesus, declarar o que sentias quando considera-vas as angústias daquela alma santíssima, a qual tão de certo sabias estar contigo crucificada na cruz? Quando vias aquele piedoso coração traspassado e atravessado com gládia de dor, quando alongavas os olhos sangrentos e olhavas aquele divino rosto coberto de palidez de morte? E aquelas angústias de seu ânimo sem morte, já mais que morto? E aqueles rios de lágrimas, que de seus puríssimos olhos saíam e ouvias os gemidos que se arrancavam daquele sagrado peito espremidos com peso de tamanha dor?

Depois disto, podes considerar aquelas sete palavras que o Senhor falou na cruz. Das quais a primeira foi: Pai, perdoai-lhes, porque eles não sabem o que fazem [1]. A segunda ao ladrão. Hoje estarás comigo no paraíso [2]. A terceira a sua Mãe Santíssima: Mulher, eis aí teu filho [3]. A quarta: Tenho sede [4]. A quinta: Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste [5] A sexta: Tudo está consumado [6] A sétima: Pai, em tuas mãos encomendo meu espírito [7].

Olha, pois, ó minha alma, com quanta caridade nestas palavras Ele encomendou ao Pai seus inimigos; com quanta misericórdia recebeu o ladrão que o confessava, com que entranhas encomendou a piedosa Mãe ao discípulo amado; com quanta sede e ardor mostrou que desejava a salvação dos homens; com quão dolorosa voz exalou sua oração e pronunciou sua tribulação ante o acatamento divino; como levou até a cabo tão perfeitamente a obediência ao Pai e como, finalmente, encomendou-lhe seu espírito e se resignou todo em suas benditíssimas mãos. Por onde aparece como em cada uma destas palavras está encerrado um singular documento de virtude. Na primeira recomenda-se-nos a caridade para com os inimigos. Na segunda, a misericórdia para com os pecadores. Na terceira, a piedade para com os pais. Na quarta, o desejo da salvação do próximo. Na quinta, a oração nas tribulações e desamparos de Deus. Na sexta, a virtude da obediência e perseverança. E, na sétima, a perfeita resignação nas mãos de Deus, que é a súmula da nossa perfeição.

Das outras sete meditações da Sagrada Paixão e da maneira que havemos de ter em meditá-la, Capítulo IV Tratado da Oração e da Meditação de São Pedro de Alcântara.

[1] Lc 23, 34.
[2] Lc 23, 43.
[3] Jo 19, 26.
[4] Jo 19, 28.
[5] Mt 27, 46.
[6] Jo 19, 30.
[7] Lc 23, 46.