Carisma - Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil - OFM

Retiro Mensal – A Nossa Identidade Franciscana

Uma pergunta que já é oração

A proposta deste retiro é refletir sobre quem somos e quem somos chamados a ser como Frades Menores e como Província, a partir dos textos fundantes (Regra e Constituições), em diálogo com a Igreja e com o mundo de hoje? Permita-se pensar um pouco nessa pergunta, sem tentar respondê-la de imediato.

Pensar em nossa identidade franciscana pode nos estimular a:

*retomar as Constituições gerais, qual “lei fundamental” que atualiza a Regra e orienta nossa vocação franciscana e que, sem esse retorno periódico, corre o risco de virar letra morta e esquecida;

*renovar a consciência de que o nosso carisma, como todos os outros, é um dom específico do Espírito para a Igreja e para o bem do mundo, que ultrapassa nossa opinião pessoal sobre como deve ser vivido;

*reforçar o sentido de pertença a Deus como consagrados e à Fraternidade universal e provincial, para evitar a aproximação com os padres diocesanos ou a confusão com outros carismas eclesiais, e recordar que todos nós, irmãos leigos e presbíteros, possuímos a mesma, única e fundamental identidade franciscana.

*recuperar e vivenciar a inspiração franciscana para promover os valores da justiça, da paz e da integridade da Criação.

*dialogar com as outras religiões e com a cultura de hoje, em atitude crítica e de escuta, de forma a não nos deixar condicionar, e nem mesmo nos fechar a elas, renovando nosso estilo franciscano na evangelização.

Qual dessas urgências toca mais de perto sua vida agora? Não se contente com uma reflexão abstrata da situação da vida dos Frades em geral, mas sobre sua vida.

A referência que nos funda

Tudo o que é vivido e discutido sobre nossa identidade converge, em última análise, para esses dois textos iniciais da Regra Bulada e de nossas Constituições Gerais. Leia-os com atenção, relendo-os se sentir necessidade de guardar a riqueza do que ali é afirmado:

Regra bulada 1

“A Regra e a vida dos Frades Menores é esta: observar o santo Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo, vivendo em obediência, sem nada de próprio e em castidade. Frei Francisco promete obediên­cia e reverência ao senhor Papa Honório e a seus sucessores canonicamente eleitos e à Igreja Romana. E os demais irmãos estejam obrigados a obedecer a Frei Francisco e a seus sucessores”.

CCGG ART. 1

§1. A Ordem dos Frades Menores, fundado por São Francisco de Assis, é uma Fraternidade1 na qual, mediante a profissão religiosa, os frades, seguindo mais de perto Cristo, movidos pelo Espírito Santo, se doam totalmente a Deus amado sobre todas as coisas, vivendo o Evangelho na Igreja, segundo a forma observada e proposta por São Francisco.

§2. Quais seguidores de São Francisco, os Frades devem conduzir uma vida radicalmente evangélica: vivendo em espírito de oração e devoção e em comunhão fraterna, dando testemunho de penitência e de minoridade, levando a todo o mundo o anúncio do Evangelho, com caridade para com todos os homens, pregando, com os fatos, reconciliação, paz e justiça, e manifestando sumo respeito pelo criado.

Procure fixar uma frase destes dois textos, identificando qual despertou maior interesse ou curiosidade. Talvez seja mais importante se deter naquela que mais pesou ser recordado. Pense sobre ela por algum tempo e, quando julgar suficiente, devolva-a a Deus como puder: em uma oração de louvor, pedido, ou mesmo repetindo-a silenciosamente.

Pergunte-se: o que você pode fazer concretamente, nos próximos dias, para fazer nascer algo daquilo que verdadeiramente escutou?

Quatro janelas para a mesma identidade

Nossa identidade assume alguns pressupostos que constituem o sustento indispensável para compreender, à luz da fé, o horizonte espiritual de São Francisco de Assis, entre os quais não podem faltar os seguintes: a fé profunda na paternidade de Deus, a sequela radical de Cristo, a obediência ao santo Evangelho e a observância dos conselhos evangélicos, a posse do Espírito do Senhor como primado absoluto da vida, a comunhão com a Igreja, a necessidade indeclinável de manter vivo o espírito de oração e devoção, a expropriação como caminho de liberdade e de libertação, a pureza do coração como forma privilegiada de expropriação, a missão (enviados como Jesus) qual componente essencial da vocação, a busca incessante da paz.

À luz desses pressupostos, leia esses trechos da Regra Bulada, que tocam diferentes dimensões da vida franciscana.

A altíssima pobreza: “Os frades não se apropriem de nada, nem de casa, nem de lugar, nem de coisa alguma. E como peregrinos e forasteiros neste mundo, servindo ao Senhor em pobreza e humildade, peçam esmola com confiança; e não devem envergonhar-se, porque o Senhor se fez pobre por nós neste mundo. Essa é aquela sublimidade da altíssima pobreza que vos constituiu, meus irmãos caríssimos, herdeiros e reis do reino dos céus, vos fez pobres de coisas e ricos de virtude. Seja essa vossa porção de herança que conduz à terra dos vivos. Aderindo totalmente a essa pobreza, irmãos diletíssimos, nenhuma outra coisa jamais queirais ter debaixo do céu em nome de Nosso Senhor Jesus Cristo” (RB 6,1-6).

Onde, em sua vida concreta, a pobreza deixou de ser caminho de liberdade e se tornou apenas ausência de coisas ou, ao contrário, onde as coisas voltaram a se acumular sem que você notasse?

A perseverança e o Espírito do Senhor: Admoesto, pois, e exorto no Senhor Jesus Cristo a que os irmãos se acautelem de toda soberba, vanglória, inveja, avareza, cuidados ou preocupações deste mundo, detração e murmuração; e os que não sabem ler não se preocupem em aprender; mas atendam a que, acima de tudo, devem desejar possuir o Espírito do Senhor e seu santo modo de operar, rezar sempre a ele com o coração puro e ter humildade e paciência na perseguição e na enfermidade e amar aqueles que nos perseguem, repreendem e censuram, porque diz o Senhor: Amai vossos inimigos e rezai por aqueles que vos perseguem e caluniam. Bem-aventurados os que sofrem perseguição por causa da justiça, porque deles é o reino dos céus. Aquele, porém, que perseverar até ao fim, este será salvo” (RB 10,7-12).

São Francisco nomeia, sem rodeios, o que afasta um frade do Espírito do Senhor: soberba, vanglória, inveja, avareza, as preocupações do mundo, a detração, a murmuração. Releia essa lista devagar e note onde alguma delas encontrou espaço em você nos últimos meses. Depois, note também o outro lado: o que significa, para você, hoje, “desejar possuir o Espírito do Senhor” mais do que qualquer segurança?

A vocação missionária: “Se alguns dos irmãos por divina inspiração quiserem ir para o meio dos sarracenos e outros infiéis, peçam licença a seus Ministros provinciais. Os Ministros, porém, não concedam a ninguém licença de ir, a não ser àqueles que julgarem idôneos para serem enviados” (RB 12,1-3).

A missão nasce da inspiração divina, e se confirma pelo envio da fraternidade, nunca por decisão isolada. Pergunte-se onde, na sua vida, você tem confundido vontade própria com chamado, ou, o inverso, onde tem esperado licença demais para dar um passo que já lhe parecia claro.

A pregação: “Admoesto também e exorto os mesmos irmãos a que, na pregação que fazem, seja sua linguagem examinada e casta, para a utilidade e edificação do povo, anunciando-lhe, com brevidade de palavra, os vícios e as virtudes, o castigo e a glória; porque o Senhor, sobre a terra, usou de palavra breve” (RB 9,4-5).

Jesus, diz São Francisco, usou de palavra breve. Vale perguntar se a sua própria palavra nas homilias, nas conversas, no que escreve, ainda serve à edificação de quem escuta, ou se, em algum ponto, passou a servir mais a si mesmo.

Nenhuma destas dimensões se sustenta isolada das outras e nenhuma se vive fora do tempo em que estamos. A mesma pobreza, a mesma perseverança, a mesma missão, a mesma pregação precisam ser confrontadas com a Igreja e a cultura concretas de hoje, sem se deixar absorver por elas e sem se fechar a elas.

Como pergunta final, vale refletir o que na cultura ao seu redor (na missão que lhe foi confiada, na cidade onde vive, nas conversas que tem dentro e fora da fraternidade) dificulta hoje, de modo particular, viver estas dimensões? E o que, nessa mesma cultura, a Regra teria a acolher, sem trair o que é essencial?