Vida Cristã - Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil - OFM

Julho 2019

O que ainda nos falta?

Pequeno credo de coisas novas e velhas

 

Não seriam estas afirmações como que um buquê de convicções para nossos tempos?

♦ Vivemos no meio de turbulências na sociedade, na família, no mundo e no universo da fé. No meio das perplexidades e de tantos desencontros precisamos de pessoas em sério processo de maturação humana. Necessitamos lucidez e capacidade de discernimento. O que faremos de nossa vida? Para a criação de que mundo estamos dispostos a nos gastar? Quem sabe entremos na perspectiva do Reino novo que o Senhor Jesus começou a instaurar! Se não fizermos assim não teremos chances de ser sal da terra e fermento na massa? Maturidade e discernimento.

♦ Falta-nos aproximarmo-nos do ser humano, do humano de cada ser, de observar os quem nos cercam e a vida como tal. Cada ser humano esconde um mistério. Não privilegiaremos verdades abstratas, mas colocaremos o foco em seres humanos de carne e osso com o tumulto de desejos que borbulham em seu interior, com seus sonhos, suas carências e o dilaceramento que existe em seu interior, querendo o bem e fazendo o mal. Fixando o olhar no humano, no mais profundo do humano, não somos partidários da filosofia que as coisas funcionem, que apenas funcionem. Vamos além das aparências e prestamos atenção no mistério de cada ser. Não basta apenas que as coisas funcionem.

♦ Falta-nos coragem para enfrentar os desafios que se erguem diante de nossos olhos. Nada de desistência ou omissão. Coragem, conservar-se de pé, apoiar-nos nas paredes sólidas do edifício de nossa personalidade e na certeza de que nossa vida está escondida em Cristo Jesus, vivo e presente. Temos medo do novo. Do novo de verdade que vem de nossa verdade e da verdade do Evangelho. Deixamos que as coisas sigam seu rumo. No dizer de Tolentino Mendonça “ligamos o piloto automático”. Não dá.

♦ Falta-nos a prática da bondade, simplesmente da bondade. “Em nossos dias a questão não é ser cristão, muçulmano ou budista, progressista ou conservador, agnóstico ou crente, praticante ou não praticante. A questão é ser bom e acreditar na bondade. Acreditar que a bondade seja a essência do ser, da existência e também de uma vida feliz e viver de acordo com ela. Ser felizes sendo bons e ser bom sendo felizes. Somente poderemos ser bons se isto nos faz felizes, mesmo que apareçam as cruzes. A bondade nos criou e é nossa meta e tarefa de cada dia. Deus é bondade incomensurável e simples é feliz somente porque é bom, não por ser onipotente, ou é onipotente porque é bom, sendo vulnerável e frágil como toda bondade” (José Arregui).

♦ Reaprender a ver e a escutar. Dar tempo ao tempo. Deixar o tempo ser tempo e respeitar sua marcha. Para tanto observar: as pessoas, as coisas, as notícias dos jornais, as manifestações, as esperanças e os desesperos. Ver as rugas nos rostos dos velhos, a agitação doentia de alguns e as preocupações dos que estão às portas do desfecho de existir. Escutar: dar tempo para que a voz rouca dos outros atinja nosso interior. Não escutar apenas o som das vozes, mas a fala não dita que clama por ser ouvida.

♦ “O olhar é fundamental para celebrarmos o encontro com nós mesmos e com os outros. Só se olharmos e nos deixarmos impressionar pelo outro que está diante de nós é que amamos as pessoas por si mesmas. De modo semelhante, o olhar é essencial para nos lançarmos na aventura da procura de sentido para a vida” (José Tolentino Mendonça, A Mística do Instante, p. 25).

♦ “Escutamos com os nossos ouvidos os rumores do mundo externo, quer seja o ruído, quer as vozes, quer a música que nos consola. Contudo, quando falamos da escuta desinteressada do outro, sentimos que há um outro nível de audição que precisamos aprender. Não há apenas uma escuta com os ouvidos, mas também um escutar com o coração que mais não é senão um escuta profunda, onde todos os sentidos são úteis para nós” (José Tolentino Mendonça, idem, p. 24).

A luminosa transparência do velho

Francesc Torralba é um pensador basco todo entregue aos temas da análise do ser humano e dos percalços homem da fé. Escreveu um livro cativante sobre a transparência publicado pelas Vozes: Quanta transparência podemos digerir? O subtítulo diz bem o teor de seu escrito: Um olhar honesto sobre si mesmo, os outros e o mundo. Transcrevemos aqui suas reflexões sobre a qualidade da transparência da pessoa idosa.

No transcurso da vida humana, a transparência e a opacidade se alternam dialeticamente. Há períodos de mais revelação e períodos de mais ofuscação, mas os níveis máximos de transparência se dão na infância e na velhice. No início e no final da vida há um ponto de encontro na transparência.

A criança, a primeira figura da transparência, mostra-se assim com é. Desconhece a linguagem da hipocrisia, o baile de máscaras dos adultos. Na velhice diminui a capacidade receptiva dos sentidos, aparecem deficiências orgânicas, declinam a fidelidade e firmeza da percepção, torna-se difícil se acomodar a novas situações e desaparece o impulso de lutar, mas, em compensação, se alcança mais sabedoria humana níveis de transparência.

O velho perde o desejo de obter afeto e simpatia dos outros. Não se preocupa com a impressão que sua própria conduta causará nos outros. Não precisa se comportar bem. Não precisa agradar. Não espera ocupar nenhum cargo. Não espera ganhar nenhuma luta. Distancia-se da vida, das tarefas mundanas e das lutas e misérias da cobiça humana. Esse retirar-se do mundo, sem deixar de estar no mundo, permite ao velho uma maior compreensão dos outros e o valor do reconhecimento do valor que lhes corresponde.

Francesc Torralaba, op.cit., p. 146

Beleza e vigor da oração

Eis alguns pensamentos fortes que podem iluminar nosso empenho de busca de intimidade com o Senhor. Somos eternos noviços na arte da oração.

Francisco de Assis sentia dolorosamente que o seu corpo, apesar de já insensível, por amor de Cristo, às paixões terrenas, o obrigava a ser peregrino do Senhor: esforçava-se então por conservar ao menos o espírito unido a Deus, por meio duma oração constante, para não se sentir privado das consolações daquele que tanto amava. A contemplação constituía para ele um prazer: sentia-se já como sendo um cidadão do céu, companheiro dos anjos, a procurar ardentemente o seu amado, de quem o separava apenas a divisória da carne. (Legenda Maior de São Boaventura X,1).

Há algo pior do que ter uma alma perversa, é ter uma alma rotineira. Tivemos já ocasiões maravilhosas de ver a graça penetrar numa alma marcadamente má, já vimos salvar-se o que parecia perdido. Nunca, porém, se pode molhar aquilo que se reveste de verniz, nem atravessar aquilo que é impermeável, nem encher-se de água o que já saturado (Charles Péguy).

A oração cristã não é uma viagem ao fundo de si mesmo. Não é um movimento introspectivo. Não é uma diagnose dos nossos pensamentos e moções externas ou íntimas. A oração cristã é ser e estar diante de Deus, colocar-se por inteiro e continuamente diante de sua presença, com uma atenção vigilante àquele que nos convida a uma diálogo sem cesuras. Não é oferecer a Deus alguns pensamentos, mas entregar-lhe todos os pensamentos, tudo que somos e experimentamos. A oração é uma conversão de atitude porque a verdadeira oração cristã descentra-nos de nós mesmos – das nossas preocupações e afanos, dos nossos desejos egóticos e pouco purificados – e orienta-nos para Deus, de modo que tudo o que passamos a desejar é a vontade de Deus, o dom de seu olhar que, como dizia Santo Agostinho, é “mais íntimo a nós que nós mesmos” (José Tolentino Mendonça, O tesouro escondido, Paulinas, p. 72).


A conhecida e profunda Oração do Abandono de Charles de Foucault nos leva ao cerne de nosso tema:

Meu Pai,
eu me abandono a ti,
faze de mim o que quiseres.
O que fizeres de mim
eu te agradeço.
Estou pronto para tudo e aceito tudo.
Desde que tua vontade se faça em mim
e em tudo o que criaste,
nada mais quero, meu Deus.
Nas tuas mãos entrego a minha vida.
Eu te a dou meu Deus,
com todo o amor de meu coração,
porque te amo.
E é para mim uma necessidade dar-me,
entregar-me em tuas mãos sem medida,
com uma confiança infinita
porque tu és meu Pai.

Casa que não faz fumaça...

Casa que não faz fumaça, ninguém acha graça. Não sei onde encontrei este ditado. O que ele pode bem querer dizer?

Imagino que a explicação seja na linha, por exemplo, de pessoas que vierem a se encontrar em torno do fogão. Antigamente nossas casas tinham fogão com chamas alimentadas por lenha. E as casas tinham suas chaminés lançando fumaça clara ou mesmo escura. Havia a chaminé do fogão e também, nos lugares frios, a da lareira. Lembro-me de ter visto sair das chaminés não somente fumaça, mas labaredas. Por vezes, a fuligem entupia o cano de metal ou de tijolos e as chamas atingiam os céus. Na chapa de ferro do fogão sempre panelas, chaleiras e bules. O bule de café estava sempre aquecido, conservado em banho maria, a fogo brando.

Casa com fumaça é casa em que as pessoas, para as refeições de todos os dias, se reúnem na cozinha , ou bem perto dela. Sem cerimônias, sem requinte. Casa que faz fumaça é onde sempre se toma um café fresco, cheiroso. Lugar onde não faltam carne quentinha, caldo verde, canjica, arroz doce com leite condensado e canela.

Casa que não faz fumaça é casa em que a cozinha está sempre arrumada, arrumada demais, casa em que não há nenhuma louça na pia, nem mesmo um xícara usada, em que tudo está embrulhado em papel laminado. Cada um come quando quer ou quando pode. Pega o que quiser nos potes plástico que estão na geladeira e esquentam durante três e meio minutos no microondas. Casa em que o fogão funciona pouco ou quase nunca. Os tempos mudaram. Ninguém tem tempo a perder. Todo mundo trabalha fora e os fogões são a gás de botijão ou de gás encanado que pode até vir da Bolívia.

Os tempos são outros. Tudo bem! Nada a dizer. Fica, no entanto, valendo o espírito do ditado: “Casa que não faz fumaça, ninguém acha graça”.

Oração

PRECE A SANTO ANTONIO,
SANTO DO MUNDO INTEIRO

Teu rosto, Santo Antônio,
nos é muito familiar,
tua estátua enfeita muitas de nossas igrejas.
Mas o que, na realidade, sabemos de ti?

Tu és o “santo do mundo inteiro”
que não deixas de atender a quem quer que seja.
Se te buscamos para encontrar um objeto perdido,
muito mais consegues para nós.
Segurando Jesus em teus braços,
mostra-nos um Deus de ternura
do qual nos aproximamos sem temor.

Seguindo São Francisco
que chorava a paixão do Senhor,
viveste na penitência
e procuraste a solidão
para encontrar teu Bem Amado.
Desperta em nossos corações adormecidos
o fervor da caridade
afim de Amor seja amado.

Quando tuas palavras de fogo,
hauridas nas fontes do Espírito
atraiam multidões em teu seguimento
mostrava-lhes o caminho que deviam seguir.

Vem em socorro de nossa fé
e concede a nossos tempos,
sacudidos pelos ventos de tantas doutrinas
o Evangelho que tanto eles precisam.

Quando jovem tu buscaste o martírio,
mas Deus a quem te entregaste
decidiu de outra forma.
Ele te encaminhou para os homens
para os quais anunciaste tua paz e teu perdão.
Concede aos que se dirigem a ti,
buscando misericórdia,
a alegria de um coração reconciliado.

Amigo dos pequenos e dos humildes
confiamos em tua bondade.
Dize a Jesus e sua mãe
que foram sustentáculos em tua vida,
que nos guardem em seu amor.
Amém

Revista Prier ,
maio de 1995, p. 4-5

Revista Eletrônica

TIRANDO DO BAÚ COISAS NOVAS E VELHAS
Reinventando a vida a cada dia

Amigos, já estamos no meio do ano de 2019. Diante de seus olhos a edição da revista eletrônica que tira do baú da vida coisas novas e velhas. Anos a fio estamos juntos. Quem redige estas páginas acha, sem prosa, que tem alguma a dizer aos outros. Tomara que os leitores possam crescer como seres humanos e cristãos.
Tudo de bom!
Frei Almir Ribeiro Guimarães, OFM
freialmir@gmail.com