Vida Cristã - Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil - OFM

Dezembro 2016

DEZEMBRO 2016

Edição especial de Natal

 

Mais uma vez o baú! Esse enorme baú onde guardamos lembranças e recordações de ontem, dos tempos que se foram, onde  desejamos depor esse novo todo: o novo de ideias, novo que o Espírito costuma suscitar em nós. Vamos remexer no baú…

Frei  Almir Ribeiro Guimarães, OFM
fralmir@gmail.com

Estou ouvindo seu passo de ouro na estrada.
Ele vem, ele vem para sempre”

(Tagore)

 

Nossa revista eletrônica  vai para as telas dos computadores e dos celulares antes de chegar o Natal.  Vale apenas começar a leitura aguçando o desejo de que o Senhor venha!
Ele vem sem cessar, nosso Deus encarnado.
Vem de dia, vem de noite.
Esperamo-lo à porta ele, vem pela janela.
Na alegria o aguardamos,
eis que chega pela sua cruz.
Vem na abundância, mais ainda na pobreza.
Vem quando é desejado,
surge mesmo quando  não é esperado.
Vem na Palavra, na Eucaristia e em todos os Mistérios.
Vem no silêncio, na brisa como aconteceu com Elias.
Vem nas multidões e no meio de ruidosos sons.
Vem em rostos que encontramos.
Vem a cada instante.
Nem sempre meus olhos estão preparados
para reconhecê-lo.
Vem com Maria, os anjos e os santos.
Um dia ele haverá de me levar para seu reino.

(Inspirado  de Jean de Saint-Cyr)

I. RESGATE HISTÓRICO

Tão rico e tão pobre

 

 

O texto que abaixo lemos parece ter sido escrito em nossos dias. Mas vem do passado, de um passado longínquo.  Data do século V.  É do bispo Teódoto de Ancira (atualmente Ankara, Turquia). Podia ter saído da pena de São Francisco de Assis.

Veio o Senhor de todos sob a forma de servo, revestido de pobreza, de modo a não afugentar os que buscava. Em terra incerta, escolhendo um lugar desconhecido para nascer, foi dado à luz por uma Virgem pobre, na pobreza total, para que pelo silêncio cativasse os homens que vinha salvar. Pois se tivesse nascido na glória, rodeado de muitas riquezas, diriam, sem dúvida, os  infiéis, que a obra da salvação da terra teria sido obra  do dinheiro.  Se tivesse escolhido Roma, a maior cidade, atribuiriam ao poder de seus cidadãos a mudança do mundo.

Se fosse filho do imperador, atribuiriam ao poder tal beneficio. Se fosse filho de um legislador, atribuiriam-no às leis.  Mas o que ele fez?  Escolheu tudo o que pobre e vil, tudo o que há de mais medíocre e obscuro para sabermos que só a divindade transformou a terra. Por isso, escolheu uma mãe pobre uma pátria ainda mais pobre, fazendo-se pobre de bens terrenos.

Isto te é mostrado pelo presépio, Como não havia  um berço para reclinar o  Senhor, foi colocado numa manjedoura, e sua indigência das coisas mais necessárias tornou-se uma ótima profecia. Foi assim posto na manjedoura para anunciar que se fazia alimento dos irracionais. Pois o Verbo, Filho de Deus,  nascendo pobre e jazendo num presépio, atrai os ricos e os pobres, os eloquentes e os incultos.

Vede, portanto, como a indigência se tornou profecia, e a pobreza  mostrou-se ser acessível a todos aquele que nós se fez pobre. Ninguém se deteve por medo das  esplêndidas riquezas do Cristo, nem a imponência do poder impediu alguém de se aproximar dele; mas apareceu pobre e comum, oferecendo-se a si mesmo para salvar a todos.

No presépio, o Verbo de Deus se manifesta corporalmente, a fim de que tanto os seres racionais como os irracionais possam participar do alimento da salvação. Penso ser isto que o profeta proclamava, quando falava quando falava do mistério do presépio: O boi conhece o seu dono, e o jumento, a manjedoura de seu senhor; mas Israel é incapaz de conhecer, o meu povo não pode entender (Is 1,3). Fez-se pobre por nós aquele que é rico, tornando-se facilmente perceptível a todos a salvação do Verbo de Deus. Também Paulo o indica ao escrever: Por causa de nós se fez pobre, embora fosse rico param vos enriquecer  com sua pobreza (2Co 8,9).

Mas quem era esse que enriquecia?  E de que enriquecia? Como ele se fez pobre por nós? Quem é, dizei-me, que sendo rico, se fez pobre por minha pobreza?  Pensas que foi o homem que apareceu?  Mas este nunca se tornou rico, nascido que foi pobre e de pais pobres. Quem era, pois, e  de que enriquecia esse rico que por causa de nós se fez pobre?  A resposta é:  Deus enriquece a criatura. Foi Deus mesmo  que se fez pobre, fazendo sua a pobreza daquele que se podia ver. Pois ele é rico pela divindade e por causa de nós se fez pobre.

Teódoto de Ancira, bispo, século  V
Lecionário Monástico I,  p.321-322

II. NATAL FRANCISCANO

Quem puder compreender, que compreenda…

Francisco  de Assis compreendeu o mistério do Natal. Talvez um dos poucos que transformou a cena do presépio numa pintura  luminosamente bela e numa melodia cheia de harmonias. Ele soube  festejar o Natal.

Jacques Le Goff escreve sobre o presépio de Greccio (1223):

“Francisco atende ao convite de um daqueles nobres que ficaram impressionados com ele, Giovanni Velita, senhor de Greccio.  Vai celebrar  o nascimento de Cristo em meio a grutas e eremitérios no alto de uma montanha escarpada. Pede a um amigo da montanha para reconstruir a manjedoura de Belém  de acordo com a imaginação de sua inspiração poética. “Quero lembrar a criança  que nasceu em Belém e ver com meus olhos carnais as dificuldades de sua infância pobre, como ele dormiu na manjedoura, e como entre o boi e o burro, deitaram-no sobre o feno”. De todas as partes, na noite de Natal, homens e mulheres das  vizinhanças sobem a montanha de Greccio  com tantas velas e tochas que a noite ficou toda iluminada. Eles cantam, a floresta carrega suas vozes, os rochedos a repercutem. Celebra-se a missa. O santo de Deus está perto da manjedoura, canta o Evangelho, prega “com voz veemente, com sua voz doce, com sua voz clara, com sua voz sonora. Anuncia as recompensas eternas. Um homem entre os assistentes tem uma visão:  subitamente vê o Menino deitado na manjedoura e Francisco se debruçar sobre ele para acordá-lo. Greccio se tornou uma nova Belém.

Jacques Le Goff
São Francisco de Assis
Record,   2001, p. 88-89

O Natal de Greccio na versão de Omer Englebert:

“Aos frades dos eremitérios vizinhos juntaram-se as pessoas do lugar carregando tochas e velas acesas para iluminar a noite, esta noite que brilha qual estrela desde séculos e que brilhará eternamente. Pelo ziguezaguear  da montanha o cortejo caminhava  lentamente na direção do lugar indicado, lá no alto, onde   entre o boi e asno, estava montado o presépio. Sobre as copadas do arvoredo  resplendia uma claridade solar e de rochedo em rochedo ressoavam os ecos da salmodia dos frades, misturada aos cânticos piedosos da multidão. De pé, diante do presépio, tocado de compaixão e inebriado de alegria  inefável, o Pobrezinho aguardava, soltando profundos suspiros.  A missa começou num altar armado  sobre um nicho pendente. O oficiante testemunha que nunca havia experimentado consolação igual ao oferecer o santo sacrifício. Revestido de dalmática, Francisco o assistia como diácono. Chegado o momento próprio, ele cantou o Evangelho com voz sonora e, em seguida, fez o sermão ao povo, para anunciar as alegrias do céu  àquela gente de boa vontade que tinha acorrido ao seu convite.  Ele soube encontrar palavras doces como o mel para falar do pobre Rei que, doze séculos antes, numa noite como aquela, havia nascido  na pequena cidade de Belém, chamando-o ora pelo nome de Jesus, ora pelo nome de Menino de Belém e pronunciando a palavra  Belém  com um balido de ovelha. Cada vez que  repetia,  um desses nomes divinos, lambia os lábios  como para degustar mais profundamente sua doçura”.

Omer Englebert
Vida de São Francisco de Assis
EST Edições
Porto Alegre, 2004, p. 249

Palavras de Éloi Leclerc sobre o Natal de São Francisco:

“No dizer de Tomás de Celano Francisco parou diante do presépio e suspirou, cheio de piedade e alegria, como se estivesse realmente vendo o Menino deitado na manjedoura. Seu espírito e seu coração estavam em Belém. Cantaram as Matinas e logo em seguida começou a Missa. Francisco, diácono que era,  cantou o  Evangelho:  “Sua voz forte e doce, clara e sonora”(1Cel  86) anunciava o acontecimento tão feliz aos presentes, mas também a todos homens do mundo inteiro. Nesta  noite, a Cristandade  ganhou novamente olhos de criança.  Francisco não era teólogo nem filósofo. “Era, no dizer de Chesterton, um poeta cuja vida inteira era um poema”. Foi o poeta da humanidade e da fraternidade humana. Este foi o sentido do Natal que celebrou em Greccio. No rude inverno dos homens e da natureza, comunicando-se ao povo simples e até mesmo com os animais,  “re-inventou”, numa criação poética, a ternura de Deus como nenhum teólogo  tinha ainda feito. Os homens, ouvindo este canto de Natal, descobriram um mundo novo no qual o Deus de majestade se fez nosso irmão e encontravam-se uns com os outros no relacionamento fraterno.

Éloi Leclerc
Francisco de Assis
O Retorno ao Evangelho
Vozes,  1983, p. 105-106

III. POEMAS

O olhar das crianças

 

 

Dois textos que falam do charme e do encanto, da inocência e da espontaneidade, da profundidade e da grandeza da criança.  Natal é festa da Criança que veio das alturas.

  • Cuidado para não ferir as crianças

As pessoas dizem:
Como é cansativo conviver com as crianças!
Acrescentam ainda:
É necessário se colocar a seu nível, abaixar-se,
inclinar-se, curvar-se, fazer-se pequeno…
Nesse ponto  vocês, pessoas grandes, vocês não têm razão.
O que mais cansa é ser capaz
de alçar-se à altura de seus sentimentos,
de esticar-se, de erguer-se na ponta dos pés para não feri-las.

  • Os olhos da criança refletem Deus

Senhor se os olhos da criança
refletem teu semblante,
dá-me um olhar todo embalado de ternura.

Deixa-me com meus sonhos
e como eles serei capaz de
“desatarraxar” a  lua  ou buscar uma estrela
que ajudasse a dizer ao mundo toda a verdade.

Para tanto, Senhor como cada criança
dá-me o tempo para aprender e também para brincar.
Dá-me desejo de amar e o direito de ser amado

Se para cada ação da vida as pessoas pudessem dizer:
“Que meus olhos , como os olhos das crianças  refletem teu rosto,
então como uma criança eu haveria de explodir de alegria.

Joël Cassard
Revista  Prier, jan/fev 1998

IV. CRÔNICA

Essas tantas ceias natalinas

 

 

Nesta época do Natal há muitas confraternizações. Colegas de trabalho, membros dos clubes de serviços, integrantes de equipes de pastoral, gostam de se reunir em torno de uma refeição para exprimir estima mútua. Espera-se que todos esses sempre se lembrem o motivo da confraternização: a misericórdia e o carinho do Senhor manifestado no nascimento do Menino das Palhas.

Em quase todas a casas, cristãos ou não, têm o costume de organizar a ceia. Há aqueles que não conhecem o Mistério da Encarnação e mesmo assim fazem uma a sem a presença do Menino. De qualquer modo é sempre ocasião de se observar uma cena tocante. Uma mesa bem arrumada. Quem tem louça bonita não economiza.  Quem tem louça colorex branca ou azul se serve desse aparelho de jantar dos pobres… Pouco importa.  Casa limpa, talvez uma arranjo natalino,  uma música de fundo, a árvore e o presépio. Sobre um móvel, copos e bebidas e já sobremesas sem falta o panettone.

E as pessoas vão chegando: há os que trazem a carne, outros o arroz incrementado, a farofa… quem sabe frutas cristalizadas,  figos e et cetera e tal. As pessoas se trajam com roupas bonitas.  Quem sabe uma oração ao Deus que se torna criança para que essa noitada não seja banal,  celebração do consumismo, encontro quase constrangedor de pessoas que não estimam de verdade.  Sempre os cânticos… o Noite Feliz e o Jingles bells.

Tenho diante dos olhos uma cena toda particular.  O avô, já meio cansado, falando pouco, mas presente lá, o patriarca.  Está sentado perto da mesa principal. Lembra-se ele da mulher que havia morrido há pouco tempo… A última reunião de todos da família, tinha sido para o enterro e a missa de sétimo dia da avó Bertina. O avô observa tudo. Observa atentamente os que chegam: os filhos, as noras, os genros, os netos, os que se estimam e os que não se falam mais devido a essas briguinhas de família.  Ele conhece as diferenças, os problemas.  Teria vontade de pedir que deixassem essas coisas de lado… mas… afinal era noite de Natal.  O avô descansa o olhar nos netos já crescidos… Há mesmo um bisneto  mamando no peito da mãe. De repente, esse homem cheio de anos, bem vestido, com bela camisa azul de mangas compridas e uma calça  marinho  levanta-se, faz o sinal da cruz, fecha os olhos, pensa em tudo isso. Pede que coloquem sobre a mesa imagem do Menino Jesus do presépio da família que ele havia comprado numa loja de Campos do Jordão. O homem para diante da imagem. Fecha os olhos. Reza em silêncio.  Na sala cria-se um clima de mistério. Deus parece que veio de verdade. O patrimônio da família, esse avô, faz uma breve oração. Todos se cumprimentam, alguns se abraçam com fervor e força. Começa, então, a refeição.  Também nesse dia será preciso comer e beber com moderação para que, terminada a festa, as pessoas não fiquem pesadas.