Vida Cristã - Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil - OFM

Agosto 2017

AGOSTO 2017

Mês após mês remexemos no baú da vida e tiramos dele coisas novas e velhas. Acolhendo a tradição e abrindo caminhos novos. Tentando reinventar a vida.
Mês de agosto com suas datas marcantes: mês das vocações, dia dos pais, semana da família, dia do pároco, festa de Santa Clara.
A leitura calma e serena destas páginas é convite a que juntos tornemos este mundo mais humano. Por mais paradoxal que possa parecer precisamos “humanizar o homem”.
Boa leitura!

Frei Almir Ribeiro Guimarães, OFM
freialmir@gmail.com

I. PARA COMEÇO DE CONVERSA

“Precisa-se (de) ser humano”

 

Em 2016, a Editora Vozes publicou um texto interessante e  provocador sobre o tema  valores humanos, educação e gestão. Seu autor,   Robson Santarém,  inventou um título sugestivo  para  obra: “Precisa-se de ser humano”. Humano, humanidade, ser humano, descobrir o que há de humano em cada homem.  Nada de robôs, de repetição de mesmices sem pensar, de ideologias da moda, de chavões gastos. Nada de fantoches, de fantasmas, nada de viver e vegetar. Precisamos de pessoas livres que visitem seu interior, que queiram ser seres de pé, feitos de atenção, cortesia, respeito, permeabilidade para com o outro,  abertos para  o bem, o belo e a verdade, seres humanos  abertos à Transcendência. Gente que seja gente.

Poderíamos transcrever páginas e páginas em que Robson  Santarém insiste na ideia de salvar o ser humano e clama pela necessidade de “humanidade”.  O mundo em que vivemos, na verdade, nos dá medo:  insegurança política, violência de toda sorte, gente morrendo de fome, muitos morrendo no mar, balas perdidas, bebês que já são atingidos pela violência ainda no ventre de suas mães.  Um mundo desumano e cruel.

Dois ou três pensamentos: “Com um sistema de ensino mais preocupado com os resultados imediatos e em atender as demandas do mercado, perde-se a possibilidade de formar integralmente a pessoa. O ser humano é visto apenas como  objeto de produção e força de trabalho e tem sua integridade e dignidade violentada. Ignora-se sua identidade espiritual e a vocação de ser gente, isto é, de ser plenamente humano. Uma sociedade baseada na competição torna-se uma sociedade desumana, excludente, visto que em seus fundamentos está a negação do outro, o fechamento para a possibilidade de partilha, de solidariedade e de ascensão de todas as pessoas” (p.31). “Tudo é cada vez mais efêmero e deste modo não se tem tempo para cultivar relacionamentos  saudáveis e investir em afeto e valores para a convivência durável. Como os resultados devem ser imediatos, as relações tornam-se interesseiras e passageiras, quando não mais satisfazem é só descartar e as pessoas  vão se tornando vazias” (p. 32).

E ainda: “Se pretendemos transformar a sociedade e as organizações em vista de um modelo onde prevaleçam relações justas, fraternas e a integração entre  todos, incluindo o meio ambiente, para alcançar o bem comum, é preciso tomarmos consciência de que o único agente capaz de realizar esta transformação não é a tecnologia e tampouco novos métodos de gestão, porém um ser humano que seja  verdadeiramente humano” ( p. 118).

Ser humano… Citamos ainda outra publicação da Editora Vozes!  Recentemente texto de Rafael Luciani, Retornar a Jesus de Nazaré. Conhecer Deus e o ser humano através da vida de Jesus. Com rara habilidade o autor mostra um Jesus humano, salvando o humano, preocupando-se com o humano.  José  Antonio Pagola  prefacia a obra e escreve: “O Reino de Deus não é uma construção religiosa. Não é uma espécie de nova religião. Não se constrói sobre a base de princípios doutrinais nem práticas religiosas. Ninguém entra na dinâmica do Reino  através de uma conduta ajustada e algumas normas ou preceitos. Tampouco através de uma vivência interior de ordem espiritual sem conexão com a história  humana.  Entra-se  na lógica do Reino de Deus quando se aprende a viver ao serviço de vida mais humana e fraterna”  (p. 13).  Destacamos: estar a serviço de uma vida mais humana e fraterna.

Terminemos ainda com Robson Santarém: “Penso ser urgentemente necessário que em todos os espaços de educação os temas da ética, afeto, respeito aos outros, tolerância, humildade, alegria, entusiasmo e gosto pela vida e seus desafios, a cidadania e a solidariedade sejam transmitidos não apenas como conteúdos, mas como experiências vivificantes, aquelas que permitem ao ser humano conhecer mais de si mesmo, superar as contradições, compreender melhor a si e aos outros, conectar-se consigo e com todos e tornar agente de transformação social”  (p. 151).

Estamos realmente precisando de seres verdadeiramente humanos!!!

II. DATA CELEBRATIVA

Neste mês de agosto ocorre a festa de São João Maria Vianney, o Cura d’Ars, padroeiro celeste dos padres. Pensamos em todos os presbíteros. Aqui vai um exame de consciência para todos esses seres generosos e dadivosos que foram chamados a serem pastores no seio da Igreja e focos de luz para a humanidade.

 

Dia do Padre

 

 

1. Experimento uma profunda alegria de ser padre, de ter sido ungido para anunciar a Boa Nova aos pobres? Alegria que se concretiza num gosto de viver o sacerdócio, numa tentativa de ser Cristo no meio do povo, principalmente dos mais simples e esquecidos? Alegria em poder dizer que emprego minha vida, meu corpo, meu afeto para ser instrumento do sonho de Deus que é o Reino?

2. Ao longo dos anos de minha vida posso dizer que não sou eu que atuo, mas Cristo que age em mim? Tenho viva consciência disso? Tudo o que recebi é para os outros. Tenho convicção que Cristo está comigo na celebração da missa e quando anuncio a Boa Nova que enche de alegria meu coração? Somos amigos e parceiros de uma mesma causa. Valeu a pena optar por este caminho? O mundo está se transformando em esboço do Reino pela minha atividade de padre?

3. Sou o homem da missa. Será que ela é o centro da minha vida interior? Preparo-me bem, devotamente, para a celebração? Procuro, na sacristia, criar um clima de recolhimento de sorte que eu mesmo e os ministros que me cercam entramos no presbitério com plena consciência de que vamos viver o ato mais solene da Igreja, ou seja, que Cristo vai realizar incruentamente seu sacrifício de amor? Há ressonâncias interiores em minha vida quando penso na celebração da Eucaristia?

4. Tenho tido o cuidado de fazer diariamente um tempo razoável de meditação? Gosto de sentar-me diante do sacrário ou no meu quarto diante de uma imagem de Cristo e deixar que minha inteligência minha vontade e meu afeto entrem em sintonia com o Senhor? Não quero esquecer que o padre é um confidente do Senhor. Vivo essa delicada intimidade?

5. O padre age in persona Christi. Sou um homem comum, mas ao mesmo tempo quando exerço o ministério ajo in persona Christi. Há uma delicadeza e uma nobreza na maneira como celebro a Eucaristia e administro os outros sacramentos?

6. Tenho procurado acompanhar as pessoas, tenho evitado a todo custo administrar os sacramentos de maneira mecânica e, sobretudo, sem preparação minha e dos fiéis? Faço-me carinhosa e firmemente presente nos encontros preparatórios em vista dos sacramentos? Gasto tempo acompanhando pessoas? Tenho vivido uma mística sacerdotal e pastoral?

7. Tenho me esforçado por compreender cada vez mais a alma humana de tal sorte que, nas orientações, nas homilias, os fiéis sentem que estou dizendo aquilo que as pessoas precisam ouvir ou simplesmente repito verdades dogmáticas jogadas ao leu? Posso dizer que, através de meus lábios, pessoas tiveram vontade de seguir a Cristo e não simplesmente alimentarem a religião?

8. Tenho verdadeira amizade com os sacerdotes, meus colegas de ministério? Converso com eles sobre os desafios que vivo no exercício da pastoral. Luto para que haja uma fraternidade presbiteral ou deixo transparecer uma atitude ou postura individualista? Meus colegas sentem-se à vontade comigo? Juntos não poderíamos ser expressão melhor da unidade?

9. Preocupo-me em chamar a atenção dos fiéis para a vocação à santidade? Ou ando pregando o mínimo? Impregnado do espírito do Sermão da Montanha tenho eu sugerido aos fiéis que sigam generosamente o Senhor e tenham como ideal de vida uma eminente santidade? Seremos e deveremos ser santos como santo é o Senhor!

10. Primo pela simplicidade? Simplicidade bela na casa que vivo, simplicidade na maneira de falar, de orientar, de celebrar, de me vestir? Simplicidade com dignidade, é claro. Simplicidade que me faz levar uma vida pessoal despojada e ser exemplo de pessoa que se satisfaz com a abundância das coisas necessárias?

III. LEITURA ESPIRITUAL

Aprender a viver com simplicidade

 

 

Nossa Leitura Espiritual aborda o tema da simplicidade no viver de todos os dias. Somos membros de uma sociedade de contradições e marcada por sofisticação. Uns vivem na total abundância de bens, outros, na mais radical carência. Há relacionamentos sofisticados e complexos, com marcas de esnobação. Há as leis duras da sociedade de consumo que querem nos obrigar a seguir. Há esse desejo incontrolável de ter, ter e mais ter. Tudo se sofistica e, aos poucos, somos presas de uma sociedade profundamente perversa que inventa o novo para alimentar o consumismo. E consumimos bens e pessoas. De repente, o tema da pobreza evangélica se tornou de urgência urgentíssima. Como vamos nos situando diante dos bens? “Alguma coisa está errada na nossa vida cristã quando somos capazes de viver desfrutando despreocupadamente de nossas coisas, sem jamais sentir-nos interpelados pela mensagem de Jesus e pelas necessidades dos pobres” (José A. Pagola, Mateus, Vozes, p. 89).

Uma certa escala de bens

• Supérfluo – Temos coisas supérfluas, fazemos gastos supérfluos. O supérfluo não é nem conveniente, nem necessário. É excesso, é luxo, é demasiado. Sobra e faz mal. Muitos dos “consumistas” (estamos entre eles?) são pessoas que vivem em função do acumular e o fazem sem medida. A sociedade de consumo dilatou a margem do supérfluo no comer, vestir, distrair-se, descansar, desfrutar. Os desejos foram se transformando em necessidade. Quando uma sociedade facilita e favorece a uma parte de seus membros a satisfazer todos os seus desejos é certo que a outra parte não poderá satisfazer suas necessidades mais básicas. A sociedade atual inventou tantas necessidades que quando não as satisfazemos sentimos excluídos da vida e parece que não contamos. Para se ter muito, adota-se a filosofia do consumismo frenético. Há um supérfluo de coisas materiais e há um supérfluo interior, uma falta de pobreza de coração.

• Conveniente – Existem coisas convenientes. Podem ser bens úteis para nosso trabalho, alimentação, descanso e saúde. O campo do conveniente oscila entre o necessário e o supérfluo. Trata-se daquilo que é adequado. Se vier a faltar não saímos fatalmente prejudicados. Ter um carro ou prosseguirmos estudos, viajar de avião ou de carro? O que sou, minha função, minha formação fazem que sejam conveniente ter algumas coisas. Um critério para possuir bens é a conveniência.

• Necessários – Há bens necessários. São certamente os bens mais convenientes. Morar numa casa decente, ter o que comer não é luxo, mas necessidade. Com o necessário cobrimos as necessidades primárias e mais importantes da pessoa: comida, veste, saúde, teto e educação. O necessário não é contingente. A muitas pessoas falta o necessário para uma vida humana e digna. Haveremos sempre de nos de nos perguntar a respeito do que é verdadeiramente necessário. Os sábios adotam uma postura de discernimento e chegam a uma adorável simplicidade de vida, tudo com bom senso.

• Indispensáveis – São aqueles bens sem os quais não se pode viver: água, comida, ar puro, saúde, companheiros de caminhada.

E qual é a solução? Nesses tempos, os homens sábios, vão se esforçar por adotar um estilo simples de vida.

Uma página instigante

“O consumismo penetra em nós de maneira sutil. Ninguém escolhe esta maneira de viver depois de uma séria reflexão. Vamos submergindo nela, vítimas de uma sedução quase inconsciente. A habilidade da publicidade e o atrativo da moda vão captando suavemente nossa vontade. Afinal parece-nos impossível viver de outra maneira.

Não é preciso pensar muito para saber como viver. Para muitas pessoas o projeto de vida é muito simples: trabalhar para ganhar dinheiro que é necessário para poder desfrutar de uns períodos de tempo (fim de semana, férias) nos quais se gasta o dinheiro ganho e se recuperam as forças para voltar a trabalhar (…).

Não é fácil libertar-se da escravidão do consumismo. Como dizia Erich Fromm: “O homem pode ser um escravo sem grilhões”. O consumismo não faz mais do que deslocar os grilhões do exterior para o interior. Por dentro estamos presos a um sem fim de caprichos e falsas ilusões. Esses grilhões interiores são mais fortes do que os se veem por fora. Como libertar-nos desta escravidão, se vivemos acreditando que somos livres?

Nossa vida é insensata. A obesidade e a anorexia que vemos em não poucas pessoas são imagem gráfica da letargia e da perda de vitalidade de muitos espíritos. Temos tudo e carecemos de paz e de alegria interior. Queremos viver triunfando, mas somos cúmplices da miséria e da fome de muitos” (Pagola, Mateus, Vozes, p.92-93).

Para que servem as coisas?

Com relação às coisas, a simplicidade, a sabedoria da simplicidade, deve nos levar à postura do desprendimento, postura de pessoas sábias e livres. Não somos escravos das coisas, nem servos da carne, da maneira mundana de ver as coisas. Somos mais do que os bens. Os recursos são instrumentos. Quando os bens são procurados por si mesmos levam-nos pelo caminho do materialismo. A opção pela simplicidade nos conduz a respeitar a terra, a recuperar o senso ecológico e a cuidar daquilo que recebemos. Há o grito da terra que exige respeito. Há a urgência de sermos homens e lutam por uma existência humana.

As coisas são úteis e servem para… Como tudo o que útil, bens e coisas serão buscados quando necessários. As coisas podem gerar avareza e por vezes avareza insaciável. Dinheiro chama dinheiro. Sua busca insaciável, como nos casos de corrupção em exame no país, leva ao poder, torna-se elemento de dominação, pisa nos outros. Vem a pergunta: “Onde está teu irmão?” E entre os cristãos ninguém é dono de ninguém. Uns lavam os pés dos outros. Os bens existem para… e desembocam na teia da solidariedade. As pessoas que buscam exclusivamente os bens se tornam escravas. As pessoas sábias adquirem o que precisam no momento exato sem permitir que o apetite pelos bens venha a esterilizar seu interior que deveria sempre ter saudade de Deus e de uma bela vida fraterna. Crescer em simplicidade de vida supõe capacidade de colocar ordem nas coisas, hierarquia em nossas opções, prioridades nas escolhas. Somos administradores dos bens que nos foram dados e não donos. Cuidamos de reparti-los. Simplicidade e verdade haverão de se fazer presente nos momentos das escolhas importantes da vida. “Conversão à simplicidade significa retorno ao Evangelho”.

Interrogações para reflexão

Por que há pessoas que morrem de fome se Deus pôs em nossas mãos uma terra que tem recursos suficientes para todos?
Por que temos que ser competitivos, em vez de sermos humanos?
Por que a competitividade tem que marcar a relação entre as pessoas e entre os povos, e não a solidariedade?
Por que temos que aceitar como algo lógico e inevitável um sistema econômico que, para conseguir o maior bem-estar de alguns, submerge tantas vítimas na pobreza e na marginalização?
Por que temos que continuar alimentando o consumismo como “filosofia de vida”, se ele está provocando em nós uma “espiral insaciável” de necessidades artificiais que vai nos esvaziando de sensibilidade e espírito humanitários?
Por que temos que continuar desenvolvendo o culto ao dinheiro como o único Deus que oferece segurança, poder e felicidade?
Será que é esta, por acaso, a “nova religião” que fará o ser humano de hoje progredir para níveis de maior humanidade?” (Pagola, Mateus, p. 90).

Textos de apoio:

• La sencillez, el mejor servicio, José Maria Aranaiz, SM . Encarte Vida Nueva 2283.
• José A. Pagola, Deus ou Dinheiro, Mateus, Vozes, p. 87-94.

IV. SEMPRE DE NOVO A FAMÍLIA

Uma casa será forte e indestrutível se for sustentada por quatro pilastras: pai valente, mãe prudente, filho obediente e irmão complacente

(Confúcio).

 

Família, comunidade de amor

 

 

• A base da comunidade familiar é um bem-querer profundo, sólido e maduro. O casamento se faz com esse generoso e alegre propósito de criar um espírito de companheirismo, de fazer desse companheiro e desta companheira uma pessoa livre, realizada, respeitada, através da multiplicação de gestos delicados e atenciosos, na constante revisão da rota, no perdão e na acolhida do novo que brota sempre do inesgotável mistério de cada pessoa.

• A fidelidade conjugal e familiar não é estática, mas dinâmica. Somos o que somos até o momento e aquilo que queremos ser no tempo que temos a viver. Os casados sabem disso. Há mudanças e transformações. O amor vai se tornando menos emoção e muito mais dom. Não se pode fracassar na arte de amar. O mistério do outro exige que eu invente novas formas de dom. Uma fidelidade criativa.

A família é comunidade de amor e promotora de vida. O vigor e a vitalidade precisam borbulhar nos relacionamentos conjugais. Todo marasmo e toda mesmice no casamento e na família são sintomas de morte. A família é sempre espaço de vida e vida é força.

• A família é espaço onde as pessoas se sentem à vontade, onde colocam gestos de atenção e de carinho com toda espontaneidade. Em família as pessoas riem juntas durante uma “guerra de travesseiros” e juntas enxugam mutuamente as lágrimas nos momentos de dor e de perda. Juntos os membros de uma família acolhem toda sorte de diferença.

• France Queré, psicanalista francesa, escreveu: “Até hoje ninguém nasceu sozinho”. Temos nossa origem de um homem e de uma mulher. Não bastou que fôssemos colocados no mundo. Fomos tendo necessidade dos pais e de muitos outros: do leite da mãe, do trabalho do pai, da professora do primário, dos cuidados de todos os dias. Recebemos dos pais o corpo e, aos poucos, sua visão da vida, seus costumes, seu jeito de buscar a Deus. Não nascemos sozinhos e não vivemos sozinhos: a tia nos enriquece, os primos têm o mesmo sangue e assim somos gostosamente dependentes uns dos outros.

• Os dois estavam sentados numa poltrona da sala. Ele e ela. Ninguém falava nada. Ele lia e ela pregava botões numa blusa. Nada de extraordinário. Um homem e uma mulher que se estimam. Os dois ali num momento tão comum, tão simples, tão belo em sua beleza simples. Ele e ela, ligados por vínculos fortes. Simplesmente um marido e uma mulher.

V. MINUTO COM DEUS

Oração da Noite de uma senhora idosa

 

 

A noite vai caindo. São sete horas da tarde, apenas sete horas, o tempo se arrasta preguiçosamente  hoje… As horas custam a passar.

Depois que me trouxeram para cá, para este Lar de Idosos, os dias me parecem intermináveis. Sentada nesta poltrona sinto-me sozinha diante de  ti, Senhor, contemplando  o Crucifixo na parede.

É difícil, Senhor, viver aqui e desse modo. Não havia outra saída.  Está sendo melhor para mim. Tive muitos filhos. Não foi fácil superar dificuldades e enfrentar desafios para educá-los. Hoje eles estão bem situados na vida.  Tenho a convicção de ter feito o  melhor possível… tu vês, Senhor, aos anos passam e…

Creio que eles me esqueceram.  Não tenho notícias deles. Quer dizer… meu neto estava precisando de luvas e sua mãe veio me trazer novelos de lã…

Sei, Senhor, que eles são muito ocupados com a família de cada um.  Eu fui me tornando um peso para eles, um problema… por isso a solução foi de me internarem nesse Lar de Idosos.

Hoje, domingo, Senhor, ninguém veio me visitar! Ah! Se eles soubessem quanto os estimo!  A ti posso dizer…

Agora que já não sou mais útil para nada e para ninguém… poderias me buscar?  Tenho medo e pressa ao mesmo tempo. A impressão que tenho é que vida que vivi foi muito insignificante para merecer a alegria perfeita, a felicidade eterna contigo.

Os filhos que me deste são teus também. Por favor,  faze com que eles não se afastem de ti.

Faço a ti o dom total de mim e de cada um dos meus filhos. Quero te confiar o tempo que me resta para viver. Quero vivê-lo somente para ti.

Se decidires me deixares nesta terra ainda alguns anos peço que dês um pouco de atenção e de valor às minhas orações.  É uma das poucas coisas que ainda posso fazer…

Pemita-me convidar a Ti e a tua mãe. Nós poderemos passar juntos esta noite.

Fonte:
Inspirado em  texto da Revista Prier  n. 37,  dez. 1981