Vida Cristã - Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil - OFM

Quando um rico adere a Jesus – os cristãos, os pobres e os ricos

31/10/2016

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Mauro Lopes (*) 

Cristãos católicos aproximam-se do final de seu Ano Litúrgico neste 31° domingo do Tempo Comum –logo mais virá o Advento, tempo de espera da celebração do nascimento do Senhor. A Igreja nos propõe hoje à reflexão a história da relação de Jesus com um dos mais emblemáticos personagens dos evangelhos: Zaqueu (Lc 19, 1-10)

E tendo entrado em Jericó, ele atravessava a cidade. Havia ali um homem chamado Zaqueu, que era chefe dos cobradores de impostos e muito rico. Zaqueu procurava ver quem era Jesus, mas não conseguia, por causa da multidão, pois era muito baixo. Então ele correu à frente e subiu numa figueira para ver Jesus, que devia passar por ali. Quando Jesus chegou ao lugar, olhou para cima e disse: “Zaqueu, desce depressa! Hoje eu devo ficar na tua casa.” Ele desceu depressa, e recebeu Jesus com alegria. Ao ver isso, todos começaram a murmurar, dizendo: “Ele foi hospedar-se na casa de um pecador!” Zaqueu ficou de pé, e disse ao Senhor: “Senhor, eu dou a metade dos meus bens aos pobres, e se defraudei alguém, vou devolver quatro vezes mais.” Jesus lhe disse: “Hoje a salvação entrou nesta casa, porque também este homem é um filho de Abraão. Com efeito, o Filho do Homem veio procurar e salvar o que estava perdido.”

Para entender o percurso de Zaqueu, a proposta de Jesus e meditar um pouco sobre a Igreja e o tema da pobreza e da concentração de riqueza, escrevi esta semana um pouco mais longamente e dividindo o assunto em quatros breves “capítulos”.

1. A caminhada do empobrecimento; estar pobre com os pobres – servir a Deus

A Igreja apresenta-nos o relato sobre a conversão de Zaqueu neste 31º domingo num contexto de intensa reflexão sobre os ensinamentos de Jesus a respeito da relação das pessoas com o dinheiro: renúncia dos bens (23º domingo), fraternidade e partilha (24º), a escolha entre Deus e o dinheiro (25º), o rico e o pobre Lázaro (26º), a viúva e o juiz (29º), o fariseu e o cobrador de impostos (30º). Este era um tema central na sociedade judaica, como de resto em todas as sociedades (mais adiante discutirei isso), na vida das pessoas e na espiritualidade ao longo da história do judaísmo e do cristianismo. Toda e qualquer ideia de que esta relação não seria crucial, com um discurso sobre o caráter “espiritual” da religião é mistificadora. A insistência de Jesus em sua pregação e da Igreja em nos apresentar o tema à reflexão-oração de maneira recorrente patenteiam a relevância do assunto -e, no tópico 4 deste artigo restarão evidente as razões de tantas reticências ao redor da conversa aberta sobre dinheiro.

A história de Zaqueu é maravilhosa e plena de complexidades – ao mesmo tempo, direta.

Ele era um cobrador de impostos, rico. Provavelmente tinha ouvido falar daquele profeta famoso no seu tempo e corre a vê-lo quando passa em sua cidade, Jericó. Quando o olhar do cobrador de impostos e o do profeta cruzam-se, numa cena divertida –Zaqueu trepado sobre uma árvore–, a empatia é imediata. Jesus diz-lhe para fazer o que toda pessoa precisa na vida: descer. E convida-se para entrar no coração do pequeno homem, que se converte, na presença do Manso e Humilde num gesto carregado de simbolismo: ergue-se sobre suas contradições. O discurso de conversão (mudança de rumo) e adesão a Jesus não fala de “pecados” de fundo pretensamente moralista nem de “encontros espirituais”.

Não: a conversão, a adesão a Jesus é a decisão de radical empobrecimento e seguimento.

O empobrecimento de Zaqueu é o centro da história e é crucial. Setores conservadores da Igreja, seduzidos ao dinheiro (será o tema da quarta parte deste texto) afirmam que Zaqueu não teria empobrecido, porque teria doado aos pobres “apenas” metade de sua fortuna –como se encontrássemos ricos às pencas dispostos a abrir mão de metade de seus bens e renda. Mas ele foi muito mais adiante: “e se defraudei alguém, vou devolver quatro vezes mais” (v.8). Ele lança mão de uma prescrição do livro do Êxodo: “Se alguém roubar um boi ou uma ovelha e o abater ou vender, restituirá cinco bois por um boi e quatro ovelhas por uma ovelha.” (Ex 21,37) Era uma pena duríssima a quem não apenas roubasse mas se desfizesse do bem roubado de tal forma a não poder restituí-lo à vítima: quem roubou, por exemplo, 100 reais, deveria devolver 400. Ora, o cobrador de impostos era tido como um ladrão na sociedade judaica, especialmente entre os pobres. Arrancava-lhes o pouco que tinham para sustentar o sistema jurídico-político de Israel e os invasores romanos. Portanto, toda atividade de Zaqueu era um roubo. Se ele devolveu quatro vezes mais o que roubou, e toda sua fortuna, como de resto, todas as fortunas, era fruto de roubo, a conclusão é obrigatória: ele tornou-se um pobre com os pobres. Jesus acolheu com entusiasmo o gesto raro de um rico: “Hoje a salvação entrou nesta casa, porque também este homem é um filho de Abraão. Com efeito, o Filho do Homem veio procurar e salvar o que estava perdido.” (v. 10).

Uma compreensão plena da história de conversão de Zaqueu só é possível quando colocada diante de outra história, que lhe antecede no capítulo anterior de Lucas. É o encontro de Jesus com outro rico. É breve, vale a pena retê-la. Lc 18,18-25:

Certo homem de posição lhe perguntou: “Bom Mestre, que devo fazer para herdar a vida eterna?” Jesus respondeu: “Por que me chamas bom? Ninguém é bom, senão só Deus! Conheces os mandamentos: não cometerás adultério; não matarás; não furtarás; não dirás falso testemunho; honrarás pai e mãe. Disse ele: “Tudo isso tenho guardado desde a minha mocidade.” Ouvindo, Jesus falou-lhe: “Ainda te falta uma coisa: vende tudo o que tens, dá-o aos pobres e terás um tesouro no céu; depois, vem e segue-me.” Ele, porém, ouvindo isso, ficou cheio de tristeza, pois era muito rico. Vendo-o assim, disse Jesus: “Como é difícil aos ricos entrar no Reino de Deus”! É mais fácil passar o camelo pelo fundo duma agulha do que um rico entrar no Reino de Deus.”

A história é uma contra face exata à de Zaqueu:

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A decisão de Zaqueu salvou-o de sua desumanização, e ele, encontrado por Jesus, encontrou-se. A conversão de Zaqueu é de fato a celebração de um encontro amoroso de um homem com Jesus, consigo próprio e com seus iguais –os homens e mulheres todos. A história chega a ser espantosa para quem se acostumou à lógica da culpa: Jesus não o repreendeu, não exigiu um pedido de perdão, não acusou. Apenas acolheu aquele que o procurava. Bastou para que Zaqueu adquirisse consciência de seu pecado, pois este é um passo que jamais poderá ser imposto por outrem ou tomado com base no medo: será verdadeiro apenas se for consciência plena que, sem isentar de dor pelo sofrimento causado a outrem, move-se pelo desejo de uma vida renovada e plenificada. Os “gestores da religião” da época escandalizaram-se: Jesus fugiu ao esquema confissão-humilhação-punição-perdão.

Estamos perdoados desde sempre, o que não significa que Deus concilie com nossos pecados, com a opressão do próximo, com as pulsões de morte, fortuna e dominação. Mas o Deus da vida quer isso mesmo, vida plena, e não homens e mulheres acovardados, ajoelhados diante de ídolos ou de vida dupla.

Outro paralelo que ajuda a entender o pequenino Zaqueu: a história do também pequenino, Francisco, em Assis, dez séculos depois. O que fez Francisco, em 1206? Filho de um rico comerciante, ao converter-se abriu mão de todos os seus bens e seguiu pobre com os pobres. São Francisco, o novo Zaqueu, denunciou, com seu gesto, a impossibilidade de humanização e seguimento a Jesus aos ricos. No século 20, outros “Zaqueus” são, por exemplo, Mahatma Gandhi, advogado de sucesso, rico, que de tudo abriu mão para seguir com os pobres na Índia; Nelson Mandela, membro da nobreza Tembu, despojou-se de tudo, até a prisão por 27 anos na Ilha Robben; e dom Oscar Romero, o sacerdote membro das elites de El Salvador, que se converte ao caminho pobre com os pobres logo depois da nomeação como arcebispo da capital San Salvador, até o assassinato pelos militares em 1980.

2. A denúncia da pobreza e dos ricos

A Bíblia é perpassada por duas grandes correntes teológicas. Uma conhecida como Teologia da Retribuição: prevê que se sou fiel a Deus, ele me recompensará com riqueza, descendência, fama e longevidade. No livro dos Provérbios há máximas nesta linha: “Quem confia em Deus prospera” (Pr 28,25) ou “Na casa do justo há abundância” (Pr 15,6). Por esta concepção, se sou fiel sou premiado; lido de trás para frente: se sou rico é porque fui e sou fiel. Uma corruptela desta visão sustenta a Teologia da Prosperidade de muitas igrejas neopentecostais e de segmentos conservadores do catolicismo. A vida passa a ser perseguir a riqueza, pois ela seria “sinal” de minha fidelidade e de uma suposta “bênção” de Deus sobre mim. Na sociedade de consumo, capitalista, uma visão similar dá base à “meritocracia”.

Esta visão foi superada pelos profetas que, a partir do século 8 antes de Cristo, reagiram às condições de vida cada vez mais degradadas do povo, depois da instalação da monarquia, um século antes. Amós, Oseias, Isaías, Jeremias, Miquéias e Ezequiel são todos representantes desta verdadeira Teologia da Libertação, na qual iria inserir-se Jesus e que identifica pobreza e riqueza como dimensões das estruturas econômicas, sociais e políticas e não a pretensos méritos pessoais –a espiritualidade baseia-se numa visão realista e mística das relações das pessoas consigo próprias, com os outros e com Deus.[1]

O que são pobreza e riqueza, quem são os pobres e os ricos para a Bíblia?

O teólogo Gustavo Gutierrez, um dos pais da Teologia da Libertação na América Latina, tem uma definição breve e precisa sobre a pobreza na Bíblia: trata-se de “um estado escandaloso atentatório da dignidade humana e, por conseguinte, contrário à vontade de Deus.”[2] Leonardo Boff, um dos principais teólogos contemporâneos, consultado com frequência pelo Papa e caluniado diariamente pelos católicos integristas, escreveu que a pobreza é “a carência de meios para produzir e reproduzir a vida com um mínimo de dignidade humana e é a chaga mais dolorosa e sangrenta da história da humanidade.”[3]

Durante séculos houve uma concepção segundo a qual pobreza e riqueza seriam dados inerentes à condição humana, que mundo teria sido “criado” assim por Deus e que cumpriria aos ricos serem generosos e piedosos e aos pobres pacientes, à espera da redenção. Esta interpretação não está autorizada por uma leitura honesta da Bíblia, como se verá a seguir, e foi desconstruída pela evolução do pensamento e das ciências humanas ao longo da história –o oque não impede que os neopentecostais, integristas católicos e a direita em geral esforcem-se por restaurá-la atualmente.

Mas “a pobreza não é fatal, não é uma exigência da natureza, nem é vontade de Deus que haja ricos e pobres.”[4] Na Conferência Episcopal de Puebla (1979), os bispos da América Latina anotaram com clareza que a pobreza “é produzida por determinadas situações e estruturas econômicas, sociais e políticas” (nº 30).

Não é possível ler a Bíblia com um mínimo de fidelidade sem acolher o fato de que a denúncia da pobreza e dos ricos como seus causadores ocupa um papel central no caminho de Deus com os homens a partir dos profetas e, a rigor, desde a “descida” de Deus para libertar o povo de Israel do cativeiro. O relato da sarça ardente no livro do Êxodo, no encontro de Moisés com Deus é eloquente:

O Senhor disse: “Eu vi, eu vi a miséria do meu povo que está no Egito, e ouvi os seus gritos por causa de seus opressores. Sim, eu conheço seus sofrimentos. E desci para livrá-lo da mão dos egípcios e para fazê-lo subir do Egito para uma terra fértil e vasta, uma terra que mana leite e mel, lá onde habitam os cananeus, os heteus, os amorreus, os ferezeus, os heveus e os jebuseus. Agora, eis que os clamores dos israelitas chegaram até mim, e vi a opressão que lhes fazem os egípcios.(Ex3,7-9)

Os profetas, nos dois Testamentos, denunciam a situação do povo e acusam com veemência os ricos; o profeta bíblico não é aquele que faz previsões sobre o futuro como um adivinho, mas o que, com coragem e destemor, fala a verdade –e, em geral paga por isso, pois os ricos/poderosos não os perdoam. O exemplo maior é exatamente Jesus, o preso político por excelência da Bíblia.

Por isso Oscar Romero afirmou numa homilia em 29 de julho de 1979, acerca de suas homilias proféticas: “Estas homilias querem ser a voz deste povo. Querem ser a voz dos que não tem voz. Por isso, sem dúvida cai mal àqueles que têm voz demais”[5] (entende-se porque o processo de beatificação de Romero ficou travado quase 20 anos pela hierarquia católica. Agora, sob Francisco, o próprio Vaticano reconheceu que houve uma campanha de difamação contra o mártir dentro da cúpula da Igreja).

Esta é uma questão chave. Aos pobres, no mundo dominado pelos ricos poderosos, é negado tudo: até a palavra. Há “liberdade de expressão”, mas que a pobreza não diga sua palavra.[6]

No livro de Isaías, aponta-se que a riqueza da elite judaica é resultante do roubo dos mais pobres, fruto de uma situação de injustiça:
“Como se prostituiu a cidade fiel, Sião, cheia de retidão? A justiça habitava nela, e agora são os assassinos. Tua prata converteu-se em escória, teu vinho misturou-se com água. Teus príncipes são rebeldes, cúmplices de ladrões. Todos eles amam os subornos e andam atrás do proveito próprio; não fazem justiça ao órfão e a causa da viúva não os atinge.” (Is 1,21-23)

Se você quiser, ouça um eco distante desta denúncia na boca-música de um profeta contemporâneo, o brasileiro Cazuza, em O Tempo não Para.
Ainda Isaías, mais adiante, acusando os ricos de esmagar os pobres:

“O Senhor se levanta para acusar, e se ergue para julgar seu povo. O Senhor entra em juízo contra os anciãos e os magistrados de seu povo. Fostes vós que devorastes a vinha, o espólio do pobre está em vossas casas. Por que razão calcais aos pés o meu povo, e maltratais a face dos pobres?, declara o Senhor Deus dos exércitos.” (Is 3,13-15)

A agressividade de Amós e Miqueias na denúncia da riqueza e da injustiça contra os pobres ecoam até hoje:

Ouvi isto, vós que esmagais o indigente, e quereis eliminar o pobre da terra, vós que dizeis: “Quando passará a lua nova, para vendermos o nosso trigo, e o sábado, para abrirmos os nossos celeiros, diminuindo a medida e aumentando o preço, e falseando a balança para defraudar? Para comprarmos o fraco com dinheiro e o pobres por um par de sandálias e para vendermos até o refugo do trigo.” O Senhor jurou pelo orgulho de Jacó: não esquecerei jamais nenhum de seus atos. (Am 8,4-7)

Ai dos maquinadores de iniquidade, dos que tramam o mal nos seus leitos, e o executam logo ao amanhecer do dia, porque têm o poder na mão! Cobiçam as terras e apoderam-se delas, cobiçam as casas e roubam-nas; oprimem o varão e sua casa, o homem e sua herança. (Mq 2,1-2)
No livro de Jó, a associação entre a pobreza-miséria e o sistema econômico, social, político e religioso iníquo é claro:

Os maus mudam as divisas das terras, e roubam o rebanho e o pastor. Carregam o jumento do órfão e tomam em penhor o boi da viúva. Afastam os pobres do caminho, todos os miseráveis da região precisam esconder-se. Como os asnos no deserto, saem para o trabalho, à procura do que comer, à procura do pão para seus filhos. Ceifam a forragem num campo, vindimam a vinha do malvado. Passam a noite nus, sem roupa, sem cobertor contra o frio. São banhados pelas chuvas da montanha; sem abrigo, abraçam-se com as rochas. Arrancam o órfão do seio materno, tomam em penhor as crianças do pobre. Andam nus, despidos, esfomeados, carregam feixes. Espremem o óleo nos celeiros, pisam os lagares, morrendo de sede. Sobe da cidade o estertor dos moribundos, a alma dos feridos grita. O assassino levanta-se quando cai o dia, para matar o pobre e o indigente; o ladrão vagueia durante a noite. (Jó 2,2-12.14).

A pobreza, na tradição profética, não era vista meramente como uma questão econômica; era um tema teológico. Porque ela se contrapunha (e se contrapõe ainda hoje) ao projeto de Deus para seu povo, de paz, justiça, amor e fartura. Era (e é) fonte de poder, violência e opressão contra os mais fracos, a viúva (a mulher), o órfão (as crianças), o estrangeiro (os refugiados), a prostituta (os que possuem caminhos de sexualidade fora do “padrão” heterossexual dominante), o doente, o pobre. Por isso, o grito profético:

Goteja, ó céus, lá do alto, derramem as nuvens a justiça; abra-se a terra e produza a salvação, ao mesmo tempo faça germinar a justiça! Eu, o Senhor, criei isto. (Is 45,8)

Esta visão é a que permeia os ensinamentos de Jesus, especialmente no terceiro evangelho, o de Lucas –não é à toa que o Papa Francisco indicou este evangelho como centro da meditação dos católicos ao decretar o Ano Santo da Misericórdia (entre 8 de dezembro de 2015 e 20 de novembro de 2016).

O profetismo foi assumido como centro da vida das comunidades cristãs depois da crucifixão de Cristo e a denúncia dos ricos prossegue com vigor em textos como os de Tiago e na primeira carta de São Paulo a Timóteo:

Vós, ricos, chorai e gemei por causa das desgraças que sobre vós virão. Vossas riquezas apodreceram e vossas roupas foram comidas pela traça. Vosso ouro e vossa prata enferrujaram-se e a sua ferrugem dará testemunho contra vós e devorará vossas carnes como fogo. Entesourastes nos últimos dias! Eis que o salário, do qual privastes aos trabalhadores que ceifavam os vossos campos, clama, e seus gritos de ceifadores chegaram aos ouvidos do Senhor dos exércitos. (Ti 5,1-4)

Aqueles que ambicionam tornar-se ricos caem nas armadilhas do demônio e em muitos desejos insensatos e nocivos, que precipitam os homens no abismo da ruína e da perdição. Porque a raiz de todos os males é o amor ao dinheiro. Acossados pela cobiça, alguns se desviaram da fé e se enredaram em muitas aflições. (1Tm 6,9-10)

Tal radicalidade foi herdada por alguns dos teólogos que, nos primeiros séculos da construção do cristianismo (entre os séculos 2 e 8), foram identificados como centrais na formulação da Igreja e por isso chamados de Padres ou Pais da Igreja. Os recorrentes processos de adesão da hierarquia aos ricos fez com que estes textos fossem deixados à margem por séculos, mas Francisco tem lançado novas luzes sobre eles.

São Basílio, de Cesária (329 –379) escreveu três homilias contra os ricos e a acumulação de riquezas: Sobre os tempos de fome (Amós 3,8), Sobre os ricos (Mt 19,16-26) e Sobre Lucas ou Sobre a Avareza (Lc 12,16-21). Tinha uma aguda percepção sobre o processo de desumanização provocado pelo dinheiro e sua busca desenfreada, com refinado conhecimento de seus mecanismos psicológicos:

A bela cor do ouro te alegra extremamente, mas não pensas quantos e quais gemidos do indigente te acompanham. (…) O que não fazes pelo ouro? Para ti o trigo se torna ouro, o vinho se solidifica em ouro, a lã se transforma em ouro; todas as mercadorias, em suma, e todos os projetos te levam ao ouro. O ouro se reproduz por si mesmo, multiplicando-se com os lucros. E não estás jamais saciado e tuas ambições não têm limites. (na Homilia Sobre Lucas ou Sobre a Avareza)

Aos dez talentos que já possuis, procuras acrescentar outros dez; quando tens vinte, desejas ter outro tanto, e os teus sucessivos ganhos, longe de abrandarem o teu ímpeto, antes inflamam a tua ambição. (…) Assim, a alma está devorada de cuidados, enquanto tentam encher-se ainda mais. Em vez de se alegrarem e agradecerem a Deus por terem mais que muitos outros, pelo contrário, irritam-se e sentem-se vexados porque uma ou talvez duas pessoas os ultrapassam. Quando as alcançam, logo se esforçam por igualar a fortuna doutra ainda mais rica que as primeiras e, quando o conseguiram, dirigem a sua fúria para uma terceira.[7]

São João Crisóstomo (347-407) antecipou em séculos uma percepção sobre a origem das riquezas e seus protagonistas. Muito antes de iniciarem-se as primeiras formulações de fundo socialista e de Marx, ele ensinou que enquanto a riqueza é construída pelos trabalhadores, os ricos usurpam-nas e as transformam em suas propriedades:

(…) nunca consideramos ilustre aquele que tem magníficos palácios (…); a glória que nisso existe é para os operários que fizeram tais coisas materiais, e não para aqueles que as adquiriu; é, pelo contrário, prova de perversidade[8].

A inspiração de Crisóstomo no profetismo bíblico é evidente, ao denunciar os ricos:

Quando põe um freio de ouro a um cavalo, (…) então roubas os órfãos, despojas as viúvas e tornas-te o comum inimigo de todos. (…) Na verdade, para qualquer lado que [os ricos] voltem os olhos, veem brilhar o dinheiro e seu coração doente engendra pensamentos de roubo.[9]
Santo Ambrósio de Milão (337-397) captura com dureza a repugnância do rico ao pobre e a ignomínia de gastarem fortunas com seus animais e objetos enquanto desprezam os que sofrem (outro tema recorrentes desde os profetas):

Até quando, ó rico, estendereis a vossa avidez mortífera? (…) Vós não quereis só possuir o que vos é útil, mas excluir os outros. (…) Porque dizes ao pobre: não me toques? Não és como ele concebido e nascido de um seio materno, nascido pobre como ele? Porque te glorias da antiguidade de tua nobreza? (…) Proclamais a nobreza dos vossos cavalos como a dos cônsules (…) vestis pedras e despojais homens (…) um homem pede-te pão e o teu cavalo mastiga ouro entre os dentes. [10]

A pobreza e a concentração de riqueza são dois processos umbilicalmente ligados na correta percepção bíblica e dos Padres da Igreja. Ela desumaniza tanto os pobres como os ricos.

Os pobres porque “traz toda sorte de carências, desestrutura a vida emotiva, as relações com os outros, impede continuamente a vocação essencial do ser humano a desenvolver-se e a expandir suas capacidades para além do instinto de sobrevivência, leva-os à inveja, ao ódio, à violência contra os que os mantêm na miséria e, muitas vezes, a desesperar de Deus e a levantar o punho contra o céu”.[11]

Quanto aos ricos, como os identificaram Jesus, os profetas e os padres da Igreja séculos atrás, desumanizam-se porque trocam o universo da relação com o outro pelo culto a uma coisa (o dinheiro), porque menosprezam os pobres, a ponto de considerar legítima a escravidão. As classes dominantes, sucessoras dos donos dos escravos em boa parte da humanidade, consideram os pobres desqualificados, desprezíveis, “evitam-lhes o contato físico, passam ao largo, insensíveis às suas misérias”.[12]

Tempos atrás, estive num encontro no qual estavam cerca de uma dezena de empresários e altos executivos, moradores da região do Morumbi, em São Paulo, de alta concentração de riqueza, enquanto favelas proliferam na mesma região, a mais conhecida delas a de Paraisópolis, com mais de 100 mil habitantes. Na conversa, estes homens jactavam-se, assim como algumas mulheres, de só passarem nas ruas próximas à favela em carros blindados: “Quando nosso carro blindado não está em casa, a ordem é que ninguém saia”, explicava um deles.
Essa desumanização tem origem no duplo aspecto da pobreza: como um absoluto (ela em si mesma cria obstáculos brutais às pessoas em seu desenvolvimento) e, sobretudo, por seu caráter relacional.

O sentido relacional da pobreza, segundo Jon Sobrino é a condição do pobre vis-à-vis a o rico, bloqueia o olhar para o outro e constrói-se sobre uma base de opressão de uns poucos sobre a imensa maioria. A relação pobreza/riqueza e pobre/rico denuncia a injustiça do mundo –e deveria ser causa de profunda indignação de homens e mulheres, mas tornou-se “naturalizada”, aceita como parte da indústria do entretenimento.
Dias atrás se tornou público que um jogador de futebol brasileiro, Neymar Júnior, acabara de firmar um novo contrato com o Barcelona, por cinco anos. Em cada ano, ele receberá R$ 75 milhões, soma que alcançará facilmente os R$ 100 milhões anuais, considerando-se contratos de imagem e publicidade! Qual a reação da sociedade? Nenhuma. É “normal”, ou ainda, objeto de admiração por seus “méritos” ou então de “saudável inveja”, como se escreve aqui e ali.

A renda de Neymar equivale à de quase 10 mil pessoas que recebem salário mínimo (R$ 880,00); seria suficiente para pagar o benefício do Bolsa Família a quase 100 mil pessoas (R$ 85 reais mensais por pessoa). Uma única pessoa.

Assim como ele, outras “estrelas” têm renda da ordem de dezenas de milhões de reais. O apresentador Fausto Silva recebe em torno de R$ 80 milhões anuais; e os donos da Rede Globo? Um recorte realista: a renda anual de dez desses super milionários brasileiros (jogadores de futebol, artistas, banqueiros e empresários) equivale à de 80 mil pessoas que vivem de salário mínimo ou ao benefício da Bolsa Família para algo como 800 mil pessoas.

É razoável? É aceitável pela sociedade? Há tanto “mérito” assim dessas pessoas que autorize elas reterem para si renda equivalente à de 80 mil pessoas ou em casos mais dramáticos de 800 mil pessoas?

Se ampliarmos o olhar para o planeta, o cenário é igualmente desolador: 62 multimilionários detêm riqueza equivalente à metade da população do globo.

Sim, os neoliberais, banqueiros, grandes empresários, rentistas, seus ideólogos e propagandistas, as igrejas neopentecostais e católicos reacionários afirmam que esta é uma condição aceitável, porque esses agrupamentos de pessoas acumularam tal riqueza por conta de suas qualidades: a meritocracia. Eles vendem para os pobres a ilusão de que “você também pode chegar lá”, com a mobilização de máquinas de propaganda maciça (o Brasil é um caso exemplar, com a Rede Globo na liderança desta operação).

A lógica é implacável: aos ricos sobram méritos; aos pobres falta. Em verdade, o pensamento deste bloco de formidável poder e riqueza constela uma sentença sobre os pobres que está assentada na mesma visão da teologia dos ricos de Israel: o pobre é pobre porque é um pecador. A palavra para pecadores tanto em hebraico ( hataîms) como em grego (hamartôloï) remete à ideia de faltoso[13], aquele ou aquela que não segue a Lei, gente com a qual as pessoas “de bem” (ricos e aspirantes à riqueza) não se mistura. São pecadores, enquanto os ricos seriam virtuosos.
Os pobres são, para os ricos, bucha de canhão. Mas, ao mesmo tempo, são um perigo. Podem contaminar com seus cheiros, irritar com suas risadas barulhentas, incomodar com suas conversas sobre alegrias e sofrimentos, ameaçar quando vislumbram seus direitos. Convém mantê-los à distância. Jesus virou do avesso essa maneira de enxergar a vida: misturou-se, afirmou que são eles os sujeitos privilegiados da relação e do amor de Deus, proclamou que o Reino de Deus a eles pertence se forem pobres também de coração (Mt 5,3).

Há pobres porque há ricos. E eles estão campos opostos quanto ao seu projeto para a humanidade, as relações entre as pessoas e Mistério. “Na realidade, a humanidade está dividida entre opressores e oprimidos”, escreveu o teólogo José Comblin, um teólogo belga que se abrasileirou no amor pelo povo da terra, que o exílio imposto pelos militares nos anos 70 não conseguiu sufocar –morreu no interior da Bahia, em 2011.
Esta separação que sangra o planeta e a humanidade se expressa num fenômeno definido como “luta de classes”, que foi claramente identificado pelos profetas e Padres da Igreja. A direita balança o espantalho do marxismo e do comunismo para impedir o debate, criando um ambiente de violência e condenação –no qual os integristas cristãos têm tido um papel cada dia mais relevante no Brasil. Mas é um fenômeno que a Igreja já identificou com serenidade; documento da comissão do mundo operário do episcopado francês, em 1968, explicitou: “A luta de classes é um fato que ninguém pode negar. Se nos situamos no nível dos responsáveis pela luta de classes, os primeiros responsáveis são aqueles que mantêm voluntariamente a classe operária em uma situação injusta, que se opõem à sua promoção coletiva e que combatem os esforços que ela faz para se libertar”.[14]

Um Papa que não pode ser acusado de simpatia pelos socialistas, Pio XI, escreveu –sem usar o termo- sobre a luta de classes que conduz a economia mundial. Foi em sua encíclica, Quadragesimo anno, de 1931: “No nosso tempo, tornou-se claro que o imenso poder e riqueza estavam concentrados nas mãos de apenas alguns homens. Este poder torna-se particularmente irresistível quando exercido por aqueles, controlando e comandando o dinheiro (…) Eles têm poder supremo do sistema de produção, de modo que ninguém possa ousar a respirar contra a vontade deles.” (106) Na mesma encíclica, três tópicos adiante, ele denunciou o sistema financeiro, numa antecipação de 85 ao processo de financeirização do planeta que assistimos hoje: “à hegemonia econômica, ao internacionalismo bancário, ao imperialismo internacional do dinheiro, para o qual a pátria é onde se está bem” (No. 109).

Esta luta é desde sempre movida pelos ricos para submeter e massacrar os pobres. Diante desta realidade inelutável, a Igreja, em que pesem suas profundas contradições, buscou, às vezes com seus líderes institucionais e, na maior parte do tempo, com seus profetas, manter-se de um lado: o dos pobres.

É este o espírito do papado de Francisco. Por sua iniciativa, aconteceu por duas vezes (a terceira ocorre agora, no início de novembro de 2016), o Encontro Mundial dos Movimentos Populares. No segundo deles, na Bolívia, quando o Papa afirma os movimentos sociais e os pobres como os únicos protagonistas possíveis de mudança no ritmo da humanidade e do planeta: “Atrevo-me a dizer que o futuro da humanidade está, em grande medida, nas vossas mãos, na vossa capacidade de vos organizar e promover alternativas criativas na busca diária dos “3 T” (trabalho, teto, terra), e também na vossa participação como protagonistas nos grandes processos de mudança nacionais, regionais e mundiais. Não se acanhem!”

Esta visão implica uma confrontação da Igreja com o sistema. Jesus trombou com o sistema do Templo na sociedade judaica (que concentrava o poder religioso, econômico, político e social à época); agora, a Igreja liderada por Francisco enfrenta o capitalismo, que o Papa qualificou como “sistema insuportável” no encontro na Bolívia.

Um dos líderes da frágil e bela primavera do Vaticano, o cardeal de Tegucigalpa, Óscar Andrés Rodriguez Maradiaga é um dos principais interlocutores de Francisco. Ele está indicado para assumir o novo dicastério (algo como um ministério) de Justiça e Caridade da Igreja, em processo de criação. Em 10 de abril de 2015, no Fórum da Nova Economia, em Madri, Maradiaga foi taxativo: o capitalismo é “um sistema econômico que mata”. Mais ainda: “o capitalismo liberal não cumpre as regras, sequer as suas”. O capitalismo é essencialmente anti-humano, na visão do cardeal: “Os entes econômicos mundiais manejam cifras e se despreocupam com a dignidade de cada ser humano, e se referem a este como um meio para se chegar a um fim; como um recurso renovável, não como pessoa.” Para o cardeal, o capitalismo é insuportável e não tem reforma possível: “Quando critico o modelo atual, estou convencido que uma simples reforma não é suficiente”. Há um novo projeto em gestação na cúpula da Igreja, de matiz anticapitalista, como Maradiaga apontou: “Este discurso otimista e positivo, teoricamente puro, de uma economia de mercado neoliberal, é como uma terra mítica, onde poderia nascer o ‘Homo Economicus’. Existe outro cenário, com um ambiente humanizado fundado sobre a ética, que promova o desenvolvimento integral dos povos e das pessoas, baseado sobre o humanismo econômico, onde possa crescer um herói vitorioso: o ‘Homo Recíproca’. É um cenário ideal, mas é uma meta alcançável”. Se quiser, leia a íntegra da reportagem sobre o discurso aqui.

A Igreja não tem um sistema econômico ou político a oferecer ao mundo. Sua referência e a dos cristãos deve ser sempre o Reino de Deus, reino da justiça, do amor, da compaixão. Tudo o que, de alguma maneira, contribui para uma aproximação com este reino deve ter apoio da Igreja –mesmo com a consciência de que sua realização integral na Terra é uma utopia irrealizável. Tudo o que se opõe à ideia do Reino deve ser denunciado e sofrer cerrada oposição da Igreja.

E, como escreveu o teólogo espanhol José Antonio Pagola, “(…) o império do capitalismo neoliberal é hoje o poder que mais radicalmente se enfrenta com o Reino de Deus”[15]

3. Compaixão, partilha e um desenho renovado da sociedade

Compaixão é palavra composta a partir do latim, contração de passiones, sofrimento, e cum (com). Significa “sofrer com”. É amor em movimento. A palavra hebraica para compaixão/misericórdia é ra-hhamim, literalmente ”útero contraído” ou “entranhas contraídas”
É esta a ação de Deus na sua relação com o homem: “O que define Deus não é o poder, mas suas entranhas maternais de Pai. A compaixão é o modo de ser de Deus, sua maneira de olhar o mundo”.[16]

Quando Jesus vem ao mundo, colocou-se homem entre homens e mulheres para estar com ele em seus sofrimentos e com eles sofrer, a partir de suas entranhas, a partir do útero de Deus.

“Ao ver as multidões, teve compaixão delas, porque estavam aflitas e desamparadas, como ovelhas sem pastor” (Mt 9,36). A cena retém o significado exato de cumpassiones, ra-hhamin. Jesus sofreu com os pobres, sentiu suas dores e, com isso, suas entranhas, seu “útero divino” revolveram-se, num movimento de contração (dor comum) e expansão (amor-acolhimento).

O amor de um Deus simultaneamente Pai e Mãe que contorce seu útero (suas entranhas) com o sofrimento de seus filhos está presente num longo e tocante poema em Isaías no qual o autor enceta um diálogo com Iahweh, o Deus de Israel, e o questiona, clamando por seu amor derramado: “Olha desde o céu e vê, desde a tua morada santa e gloriosa. Onde estão teu zelo e teu valor? O frêmito das tuas entranhas e a tua compaixão para comigo se recolheram?” (Is 63,15)

A explicitação de um amor terno, de fundo claramente maternal, está presente com delicadeza noutro diálogo do profeta com Deus, em Jeremias –mas agora quem toma a palavra é Iahweh: “Será Efraim para mim filho tão querido, criança de tal forma preferida, que cada vez que falo nele quero ainda lembrar-me dele? É por isso que minhas entranhas se comovem por ele, que por ele transborda minha ternura.” (Jer 31,20)

A dimensão propriamente feminina do uso da palavra ra-hhamim fica explícita na famosa história da decisão do rei Salomão de cortar um bebê ao meio diante da disputa de duas mulheres por sua maternidade, depois que o filho de uma delas (não se sabe qual) amanhecera morto: “Então a mulher, de quem era o filho vivo, suplicou ao rei, pois suas entranhas se comoveram por causa do filho dizendo: ‘Ó meu senhor! Que lhe seja dado então o menino vivo, que não o matem de modo nenhum’” (1Rs 3,26) Preferindo ficar sem o filho a vê-lo morto, a verdadeira mãe revelou-se, pois seu útero comoveu-se, revirou-se.

É este o desejo de Deus e pelo qual ele revira suas entranhas, seu útero, sofre com sua criação. Que haja vida! Que a vida seja a vitoriosa na batalha com a morte. Que o pobre não seja mais estraçalhado pelo poder e o dinheiro do rico, que o injustiçado não seja mais morto nas mãos da polícia, torturado pelos capitães do mato dos senhores dos escravos de todos os tempos.

Esse é o sentido preciso da feliz expressão de Oscar Romero que Sobrino definiu como uma “fórmula breve” do cristianismo; disse o cardeal assassinado em 1980: “a glória de Deus é que o pobre viva”. Esta é a causa de seu constante processo de contração-expansão de seu útero, de seu amor mobilizado em misericórdia-compaixão.

Este “ser de Deus” fez com que Jesus revirasse do avesso um princípio do judaísmo tradicional:

“A partir de sua experiência radical da compaixão de Deus, Jesus introduziu na história um princípio decisivo de ação: ‘Sede compassivos como vosso Pais é compassivo’’ [a tradução mais corrente usa a palavra misericórdia em vez de compaixão]. É uma frase que muda radicalmente o preceito do judaísmo, assentado no princípio da santidade: “Sede santos porque eu, o Senhor, vosso Deus, sou santo”. (Lv19,2)

O princípio da compaixão como base do seguimento de Deus arrebenta completamente os conceitos de “santidade” assentados em bases moralizadoras e de seguimento de regras (a versão cristã das Leis do judaísmo, nítidas na história da oração do fariseu e do cobrador de impostos que meditamos no 30º domingo do Tempo Comum).

Esta doutrina, conhecida também como “doutrina da redenção” é par da Teologia da Prosperidade, diferentemente da “doutrina da compaixão”, par da Teologia da Libertação. Ela cuida de apontar o pecado do outro, de maneira insistente, como se a solução do mundo, a salvação das pessoas e o caminho da fé fosse um processo crescente de judicialização da consciência. J.B. Metz diagnosticou com precisão: “a doutrina cristã da redenção dramatizou excessivamente a questão da culpa e relativizou a questão do sofrimento. (…) De ser uma religião sensível ao sofrimento, passou a ser uma religião sensível ao pecado. O primeiro olhar deixou de dirigir-se para o sofrimento e centrou-se na culpa”.[17]
Jesus, ao contrário dos rigoristas, não olha para o pecado, mas para o sofrimento das pessoas. É sobre esta “autoridade dos que sofrem”[18] que Jesus colocou toda a humanidade, que ele subordinou toda a história e as relações[19] –é a ela que resistem os ricos, mas que se apresenta como única possibilidade de salvação do planeta em acelerado processo de destruição pelo capitalismo.

Os cristãos precisam abandonar o grande “e daí?”: o sofrimento do pobre não nos toca, não nos cabe; a raiz da injustiça não é problema nosso, cumpre-nos rezar o terço, fazer quermesses, reformar os prédios das Igrejas e levar um quilo de alimento não perecível numa missa por mês ou alguma ação “de caridade”. “Não sou responsável!” –é o grito dos que se desincumbem e até dos ricos. É o império do “salve-se quem puder”.
Isto não serve aos cristãos. É preciso recuperar a compaixão como princípio de atuação, “libertando-a de uma concepção sentimental e moralizante que a fez quase desaparecer da práxis política. De ordinário, a compaixão que reclama justiça para erradicar as causas que geram sofrimento é exatamente o que não é permitido pelos centros do poder. Tudo funciona como se não houvesse dores nem prantos de nenhum tipo. A partir do poder, tudo se leva em contra, menos o sofrimento das vítimas. Só se tolera compaixão quando ela se reduz a ‘obras de misericórdia’ ou assistência caritativa, não quando ela é elevada a princípio de atuação política para erradicar o sofrimento”.[20]

A tolerância à ação “caritativa” da Igreja e depois tornada regra com as “obras de benemerência” dos ricos e suas empresas (travestidas de “responsabilidade social”, “sustentabilidade” e outros nomes nos últimos anos) foi flagrada por dom Hélder Câmara, agora em processo de beatificação, depois de perseguido pelo poder político e eclesial no Brasil: “Quando dou comida aos pobres, me chamam de santo. Quando pergunto por que eles são pobres, chamam-me de comunista”.

Nas primeiras comunidades cristãs, a compaixão e a misericórdia eram os fios condutores das relações sociais entre seus integrantes, como um projeto de sociedade. O livro dos Atos dos Apóstolos, registro dessas primeiras comunidades, assim como Paulo, dão indicações precisas sobre isso.

Nos Atos, conhecemos comunidades de vida partilhada, inspiradas na perspectiva bíblica, com referência evidente ao livro do Deuteronômio: “É verdade que em teu meio não haverá nenhum pobre” (Dt 15,4). Em duas passagens paralelas descreve-se nos Atos esta vida comum, de caráter socializante das comunidades cristãs originais:

Perseveravam eles na doutrina dos apóstolos, na reunião em comum, na fração do pão e nas orações. De todos eles se apoderou o temor, pois pelos apóstolos foram feitos também muitos prodígios e milagres em Jerusalém e o temor estava em todos os corações. Todos os fiéis viviam unidos e tinham tudo em comum. Vendiam as suas propriedades e os seus bens, e dividiam-nos por todos, segundo a necessidade de cada um. (At 2,42-45)

A multidão dos fiéis era um só coração e uma só alma. Ninguém dizia que eram suas as coisas que possuía, mas tudo entre eles era comum. Com grande coragem os apóstolos davam testemunho da ressurreição do Senhor Jesus. Em todos eles era grande a graça. Nem havia entre eles nenhum necessitado, porque todos os que possuíam terras e casas vendiam-nas, e traziam o preço do que tinham vendido e depositavam-no aos pés dos apóstolos. Repartia-se então a cada um deles conforme a sua necessidade. (At 4,32-35)

Este desejo de comunhão, presente nas primeiras comunidades cristãs, marcaria fundamente o pensamento de todos quantos encetaram projetos de koinonia (igualdade) entre os seres humanos.

É evidente a correlação entre a frase repetida nos Atos, “Repartia-se então a cada um deles conforme a sua necessidade”, com a de Marx, em seu Crítica ao Programa de Gotha (1875): “De cada qual, segundo sua capacidade; a cada qual, segundo suas necessidades” –uma orientação para a utopia das sociedades comunistas.

O século 19 foi pródigo de formulações assemelhadas, na busca do ideal bíblico.

“De cada um conforme seus meios, a cada um conforme suas necessidades” –a expressão foi utilizada pela primeira vez por Louis Blanc no texto Organização do Trabalho (1839).

Étienne Cabet, um teórico do comunismo cristão, usou a seguinte fórmula, no livro Viagem à Icária (1840), um texto sobre uma cidade utópica: “A cada um segundo suas necessidades. De cada um segundo suas forças”.

E em 1880, no artigo Anarquia e Comunismo, o anarquista Carlo Cafiero escreveu: “O comunismo será o gozo de toda riqueza existente por todos os homens e segundo o princípio: de cada um segundo suas faculdades, para cada um segundo suas necessidades, quer dizer: de cada um e para cada um de acordo com sua vontade.”

Mas foi um século igualmente trágico na incompreensão e hostilidade que marcou as relações entre a Igreja e os socialistas, comunistas e anarquistas, num quadro que se agravou –com pequenos intervalos- ao longo do século 20, até que tempos de diálogo voltassem a se estabelecer depois do Vaticano II, da Teologia da Libertação e, agora, com o Papa Francisco –sincronicamente à amenização e, em muitos casos, ao arquivamento do radicalismo da militância ateia.

Compaixão em vez de rigorismo, partilha e vez de retenção –a proposta de Jesus a toda a humanidade.

4. Servir o dinheiro: armadilhas e justificativas

Para esta seção do artigo, estou fiando-me sobretudo em Crer depois de Freud, do teólogo espanhol Carlos Dominguez Morano, em especial do capítulo Ninguém pode servir a dois senhores.

Este é não apenas um tema central na história de Zaqueu, mas ocupa o centro da vida humana, como percebeu Jesus ao colocar diante dos homens a opção: ou Deus ou o dinheiro. Algumas correntes de espiritualidade, entre elas a direita católica, acusam os cristãos vinculados ao mais original projeto de Jesus de “materialistas” ou mesmo de marxistas-comunistas ou então de “obcecados pelo dinheiro” -o que é um recurso recorrente dos moralizadores, o de lançar sobre o outro os “pecados” nos quais incorrem quotidianamente. Com isso, pretendem construir um caminho de espiritualidade desvinculado da humanidade vivida-concreta, como se fosse possível varrer para debaixo do tapete a maior sujeira da história –o que é evidentemente impossível e leva a distorções e patologias sem fim.

Morano aponta que, na verdade, o tema nunca é “só dinheiro”. As relações entre os homens/mulheres com o dinheiro comportam dimensões nem sempre lógicas, que extrapolam o discurso racional, mais ou menos organizado –é sempre “algo mais” que dinheiro.[21]

Na relação das pessoas com o dinheiro, revelou-nos a psicanálise, “está também implicada uma ‘questão de amor’; dito em termos mais freudianos, uma questão de ordem libidinal, inconsciente e com raízes na infância. Isso nos permite compreender, entre outras coisas, porque, assim como ocorre com a sexualidade, o dinheiro provoca tantas reações de dissimulação, falso pudor e hipocrisia.”[22]

Há uma questão oculta que Freud trouxe à tona –e causou enorme mal-estar: a intimidade entre nossa relação o dinheiro e a fase da libido anal, relacionando-o com os excrementos.

O valor nodal do dinheiro para os adultos é, descobriu Freud, análogo ao altíssimo valor que os excrementos possuem para as crianças. Outro psicanalista, Sandor Ferenczi, do grupo de Freud, demonstrou “os diversos passos pelos quais a criança vai efetuando a sublimação do conteúdo anal até alcançar sua transmutação simbólica em dinheiro. A matéria fecal vai passando por uma série de substituições, nas quais vai progressivamente distorcendo a o primitiva satisfação auto erótica relacionada com a defecação: o barro, a areia, a pedra, o jogo com bolinhas de gude e botões todos objetos que proporcionam tanta satisfação à criança que facilitam a substituição do fétido, duro, mole pelo inodoro, seco duro.”[23] O dinheiro ingressa nessa cadeia de sublimações por um caminho complexo até desvincular-se de toda a aparência com sua “fonte original” e permitir o surgimento da máxima de que “o dinheiro não fede” (pecunia non olet).

São abundantes e recorrentes as imagens e símbolos que sempre desnudaram a relação que os homens estabelecem entre as fezes e o ouro ou o dinheiro. Uma delas é a figura do “cagador de ducados” que está representada nos portais de bancos alemães. As expressões populares consagram esta associação sem que, na quase totalidade das vezes nos demos conta disso. Quando uma pessoa tem muito dinheiro dizemos que está “podre de rica”; se o dinheiro tem origem suspeita, falamos em “dinheiro sujo” e, ao contrário, se a pessoa está sem dinheiro, dizemos que está “limpa”; ou que está “apertada”.

Esta relação foi capturada por Basílio de Cesareia em meados do século 4, numa expressão que estava esquecida pelos cristãos desde o século 12, quando São Francisco mencionou Basílio e foi novamente posta á luz pelo Papa Francisco em fevereiro de 2015 (sendo rapidamente deixada de lado): para o Padre da Igreja, dinheiro é o cocô do diabo. Se quiser, veja o vídeo (o Papa fala do assunto entre 1min50 e 2min30).

A psicanálise explorou as relações entre as dinâmicas de possessão, características da fase anal, e de propriedade, absolutamente fundante da civilização ocidental.

Quando uma criança perde suas fezes –para ela, algo de muito precioso, parte de seu corpo–sente a dor de ter deixado escapar algo que lhe era tão essencial que estava dentro de si, mas que não mais consegue pô-la de volta; isto é a possessão. A propriedade são coisas externas mas que deveriam me pertencer, “coisas que de fato estão fora, mas simbolicamente estão dentro”. São objetos revestidos de “qualidade do eu”. Para muitas pessoas, o dinheiro reveste-se desta qualidade do eu. Isso origina processos intensos de defesa e projeção. Perder dinheiro para estas pessoas é muito mais que perda de algo externo, exterior, “mas sim de algo que foi previamente ‘in-corporado’”, ou seja, algo que se tornou parte de mim. A posse e controle do dinheiro têm o mesmo papel que o controle da atividade defecatória para a criança diante do mundo exterior. Uma “relação regressiva com o dinheiro ou com a propriedade de objetos” fica impregnada pela dimensão possessiva (retentiva) da fase anal.[24]

O resultado é impactante: “o amor ao dinheiro, portanto, quando se impõe para além de suas funções de adaptação à realidade, expressa uma dimensão infantil da afetividade”, o que implica uma dominância do narcisismo, um desenvolvimento truncado da afetividade (da relação com o outro, da capacidade de amar e/ou odiar) e do autorrespeito e respeito pelo outro.[25] Esta infantilização narcísica dos ricos ou, dos “novos ricos”, numa expressão recorrentes de Basílio, é facilmente verificável na convivência com eles e espalha-se em ondas pela indústria do entretenimento.

Ter e reter dinheiro é uma tentativa continuada de encobrir as carências internas e conquistar segurança. Lembro-me de uma conversa com um consultor de investimentos sobre um casal, cliente do banco em que trabalhava. Eles haviam feito uma série de contas em planilhas (como se a vida pudesse ser contida em planilhas Excel) e concluído que quando tivessem R$ 20 milhões em aplicações financeiras (excluídos bens como casa e carros) poderiam finalmente “desestressar” e olhar com tranquilidade para a vida. É uma posição que os remetia a frequentes crises de insegurança, pois “como afirma Erich Fromm em suas análises sobre o ter, ‘ se sou o que tenho e o que tenho se perde, então quem sou?’”[26] Ou, de maneira complementar: se sou o que tenho e nunca tenho o que considero suficiente, sempre haverá uma “insuficiência de mim” que precisa ser coberta e recoberta com exposições de “segurança” (arrogância), enquanto o fosso da insegurança aprofunda-se na medida em que a perda real do dinheiro está sempre presentificada pelo temor da possibilidade de ele acontecer no futuro. Uma vida em estado de guerra permanente.

Esta “mobilização para a guerra” estimulada pelo afã de possuir que é o mantra do capitalismo “mobiliza a hostilidade como tendência a despojar o outro, de modo a fazer com que o desejo de fraudar, explorar e frustrar os outros acabe se convertendo numa autêntica norma cultural.”[27] Esta hostilidade torna-se a “base relacional” que se reproduz em todas as relações, mesmo as mais íntimas: assim, por exemplo, o encontro com o outro ou a outra para a vida amorosa e o casamento converte-se numa série de cálculos e contratos e precauções para a possibilidade futura de separação e rompimento.

Esta breve exposição explica a “incompatibilidade radical entre a paixão pelo dinheiro e o amor a Deus”[28] proclamada por Jesus (Mt 6,24; Lc 16;13) e que os católicos rezaram no 25º domingo do Tempo Comum.

Trata-se de uma incompatibilidade radical, apesar de todos os esforços dos rigoristas e integristas católicos, dos neopentecostais e outros cristãos para amenizar as palavras de Jesus e relativizá-las. “Não é possível amar a Deus, isto é, amar a generosidade, a entrega, a solidariedade, a compaixão e a misericórdia e ao mesmo tempo amar o dinheiro, isto é, amar o tomar tudo para si, a acumulação que é a base de toda a injustiça e de todo o desamor: fome, guerra, exploração, morte etc.”[29]

E, se para os cristãos, o amor não é apenas um preceito, mas é o conteúdo sobre o qual o cristianismo está edificado, se é a “pedra angular”, o apego ao dinheiro, fonte de desamor, não se restringe a um problema ético, mas é um ataque direto à fé. A fidelidade a Deus fica interditada para aquele que não realiza a escolha por Ele e, por caminhos explícitos ou cheio de sombras e ilusões e autoengano, opta pela adoração à coisa: o dinheiro. Isso não quer dizer ignorar ou encobrir as ambiguidades e ambivalências num tema tão crucial e que mobiliza zonas tão vastas da formação, psicologia e história emocional de cada pessoa; e nem deixar-se tomar por totalidades maniqueístas. A questão, para uma abordagem madura do tema, é o esforço para tornar tais ambiguidades e ambivalências conscientes, reconhecidas e enfrentadas.[30]
Por isso, a história de Zaqueu é tão central para os cristãos. Sem a renúncia ao amor ao dinheiro, não haverá caminho com Jesus –é o que demonstra com eloquência o homem rico que foi embora entristecido ao constatar que o seguimento com o Mestre apresentava-se com uma exigência impossível de atender.

Os evangelhos revelam –e os católicos rezaram este tema intensamente nos últimos domingos- que o dinheiro é uma tentação das mais poderosos para os seguidores de Jesus. Como ela aparece? Sob a capa de um discurso segundo o qual “o dinheiro não é mal, o problema é o uso que fazemos dele” e outras justificativas; abre-se um enorme terreno de ilusões (quando não de pequenos e grandes golpes) sobre a possibilidade de o dinheiro “ser um meio excepcional para a ampliação do Reino.” Aos poucos, vamos nos enredando “em dinâmicas afetivo-econômicas sem que percebamos claramente para onde acabariam nos conduzindo.”

Nesta etapa do capitalismo neoliberal, a insegurança a que me referi pouco acima se tornou uma epidemia em larga escala e intensidade. Todos querem um “porto seguro” enquanto tudo parece derreter-se ao redor. “O dinheiro, os bens, as posses apresentam-se como solo firme sob nossos pés.” Mas ele é mais que isso, é a carapaça protetora e, ainda mais, “um objeto interno, (…) coisa com ‘a qualidade de eu’. A dinâmica centrípeta, acumulativa, retentiva, própria da analidade e da posse do dinheiro, possui toda a força do narcisismo e da autoafirmação infantil.”
A primeira bem-aventurança (os pobres são os bem-aventurados) desfaz o engano, ao desvelar o pânico da insegurança. O texto lucano afirma que não é feliz (macarioi, na versão grega das bem-aventuranças) ou, numa tradução mais colada ao texto e seu espírito, não caminha com Jesus (ashréi, substrato hebraico que conota o sentido de marcha por uma estrada a caminho a caminho do encontro com o Divino[31]) o que se agarra ao dinheiro pensando que assim fortalece-se. É feliz ou marcha com o Mestre o que escolhe ser pobre, “porque dessa maneira experimenta e expressa que sua segurança está em Deus. (…) É uma aposta que se propõe a todo seguidor de Jesus. E somente pela experiência é que se pode verifica-la”[32].

A escolha por uma vida em pobreza e com os pobres expressa assim a liberdade de colocar-se a serviço do Reino. O enriquecimento, pelo contrário, acarreta o enorme risco de se ficar cego e surdo ao chamado de Jesus. Por isso é tão grande a dificuldade dos que possuem dinheiro de entrar no Reino, como explicitou Jesus no diálogo com o homem rico que não conseguiu abrir mão de sua fortuna e que foi objeto do paralelo à história de Zaqueu neste artigo (Lc 18, 18-25). As seguranças do rico, “seus objetos de amor, sua dinâmica libidinal apontam numa direção muito diferente. Seu amor está posto nessa reificação de si mesmo que é a riqueza. Dessa posição é muito difícil ouvir o chamado.”[33]
Isto não quer dizer que todo pobre ou mesmo todo aquele que afirma a si próprio ter empobrecido para seguir Jesus esteja de fato disponível a isso. Há pobres “com espírito de rico” e aqueles que se tornaram mesquinhos e ressentidos com seu processo de empobrecimento. “O pobre que não possui a capacidade psicológica de ser rico não é o pobre das bem-aventuranças (…). Será antes de tudo um sujeito com um caráter mais ou menos obsessivo que, diante de seus desejos recalcados de posse, desenvolveu como mecanismos de defesa e controle uma ‘formação reativa’ contrária a esse desejo.”[34]

Apesar de uma abordagem de acento muito individual e mesmo intimista neste breve capítulo, é importante ter em mente que estes processos acontecem em sociedades determinadas com estruturas econômicas, sociais e culturais determinadas, com uma Igreja determinada e, portanto, alcançam dimensões que, levando em conta as escolhas e histórias individuais, situam-nas num contexto geográfico-temporal preciso.
A escolha do caminho da pobreza para o cristão não é uma escolha de vida ascética, mas “uma questão de coerência com uma mensagem que proclama a igualdade radical entre os homens e, portanto, com a necessidade de transformação das estruturas que semeiam a injustiça.” É tema para a Igreja local no Brasil e toda a Igreja universal. “O exercício da misericórdia deve situar a Igreja na pobreza e, assim, também contra a riqueza.”[35]

(…) “Não e possível pregar o Deus vivo e uno e ao mesmo tempo –como infelizmente acontece com nossa Igreja– manter claras conivências e cumplicidades com Mamon-dinheiro, que é, sem sombra de dúvida, o grande ídolo que move os fios mais importantes de nossas sociedades e que, como todo ídolo, provoca o fascínio, a adoração e as identificações mais perniciosas. Não é possível proclamar –em nome dos evangelhos– uma ‘doutrina social’ exigente e, ao mesmo tempo, realizar pactos ocultos com um deus gerador da exploração e da morte”[36]

Este é o conteúdo simbólico profundamente questionador à Igreja no Brasil que, na figura dos cardeais das duas maiores cidades do país, foram ao encontro do líder de um golpe de Estado contra os pobres e, ainda mais, no dia mesmo da votação de uma medida constitucional que congela os gastos sociais (com os pobres) por 20 anos[37]. Um encontro e uma imagem que inevitavelmente provocam uma pergunta dos cristãos católicos e dos pobres do país: esta é a Igreja pobre no seguimento de Jesus pobre com os pobres?

5. Uma nota sobre os diferentes tipos de pobreza

Creio que vale a pena encerrar este artigo com um esclarecimento sobre a questão da pobreza e dos pobres, o seguimento de Cristo e a Igreja , pois há alguns temas correlatos que podem causar alguma confusão para os que não estão acostumados/acostumadas com os debates teológicos: como condenar a pobreza e ao mesmo tempo dizer que é preciso ser pobre? A defesa dos pobres não implica em alguma medida numa idealização da pobreza? Parecem-me questões pertinentes e razoáveis, ainda mais no ambiente tumultuado e confuso em que vive a Igreja no país e no mundo hoje, apesar da liderança profética de Francisco.

Para os cristãos, a pobreza é um tema teológico, ou seja, abordado a partir da relação com Deus, consigo próprio, com os demais seres humanos e o planeta –e, por isso, incorpora as dimensões econômica, social, cultural, ambiental e outras.

No capítulo XIV das “Conclusões da II Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano”, realizada em 1968 em Medellín, Colômbia, tratou-se do o tema “Pobreza da Igreja”. Nele, definiram-se três tipos diferentes de pobreza. A citação é esclarecedora:

“Devemos distinguir:

i. A pobreza como carência dos bens deste mundo, necessários para uma vida humana digna é um mal em si. Os profetas a denunciam como contrária à vontade do Senhor e, muitas vezes, como fruto da injustiça e do pecado dos homens.

ii. A pobreza espiritual, que é o tema dos pobres de Javé (cf. Sf 2,3; Magnificat). A pobreza espiritual é a atitude de abertura para Deus, a disponibilidade de quem tudo espera do Senhor (cf. Ml 5). Embora valorize os bens deste mundo, não se apega a eles e reconhece o valor superior dos bens do Reino (cf. Am 2,6-7; 4,1; 5,7; Jer 5,28; Miq 6,12-13; Is 10,2 etc).

iii. A pobreza como compromisso, assumida voluntariamente e por amor à condição dos necessitados deste mundo, para testemunhar o mal que ela representa e a liberdade espiritual frente aos bens do Reino. Continua, nisto, o exemplo de Cristo, que fez suas todas as consequências da condição pecadora dos homens (cf. Fl 2) e que sendo «rico se fez pobre» (2 Cor 8,9) para salvar-nos.
Neste contexto, uma Igreja pobre:
– Denuncia a carência injusta dos bens deste mundo e o pecado que a engendra.
– Prega e vive a pobreza espiritual como atitude de infância espiritual e abertura para o Senhor.
– Compromete-se ela mesma com a pobreza material. A pobreza da Igreja é, com efeito, uma constante na história da salvação.”
A Igreja não idealiza a pobreza. O que se trata é “de assumi-la como é, como um mal, para protestar contra ela e esforçar-se por aboli-la. Como diz Paul Ricoeur, não se está realmente com os pobres senão lutando contra a pobreza. (…) A pobreza cristã, expressão de amor, é solidária com os pobres e um protesto contra a pobreza. Este é o sentido concreto e atual que deverá revestir o testemunho de pobreza vivida não por si mesma, mas como autêntica imitação de Cristo que assume a condição pecadora do ser humano para libertá-lo do pecado e de todas as suas consequências .”[38]

O cristão não ama a pobreza, o que seria na prática igualá-lo aos ricos –que amam a pobreza de todos que não sejam eles próprios. O cristão ama as pessoas, ama o pobre, ama seu Mestre que o amou primeiro. Enquanto houve um único pobre no mundo, o cristão deverá recusar-se a ser rico. Estará com ele, ao lado dele, em amor e partilha. Igualmente, o cristão não ama a doença. Mas enquanto houver um doente, os cristãos irão visita-los nos hospitais, abrigos e nas ruas. Foi o que fez Francisco, em Assis: abraçou e beijou os leprosos, e com eles foi morar.

Jon Sobrino, um teólogo refinado e comprometido com os pobres e o Manso e Humilde, perseguido pela hierarquia do Vaticano[39] tem uma apresentação que resume o “lugar teológico” do pobre com beleza e precisão: “Historicamente, neles ‘irrompeu a realidade’. Teologicamente, neles ‘irrompeu Deus’. Irrompeu, portanto, o mistério”.[40]

É o desejo de tornar-se “lugar” desta irrupção que fez Zaqueu tornar-se pobre, “descendo” de sua riqueza para alegrar-se com a recuperação de sua humanidade e amizade com seus iguais.

(*) Mauro Lopes é jornalista de formação e se destacou durante a cobertura da Assembleia Constituinte (1987/88) pelo jornal “Folha de S. Paulo”, onde trabalhou por sete anos como repórter especial, redator e secretário da Redação em Brasília. Ele também é conhecido pelo seu trabalho de comentarista na TV Gazeta e na Rádio Eldorado. Ele é Ministro da Palavra numa comunidade em Paraisópolis (SP).


[1] Rossé, Gérard, Não mais pobres entre vós, Editora Cidade Nova, São Paulo, 1995.
[2] Gutierrez, Gustavo, Teologia da Libertação – perspectivas, Edições Loyola, São Paulo, 2000, p. 350
[3] Boff, Leonardo, São Francisco de Assis – ternura e vigor, Editora Vozes, Petrópolis, 2002, p. 67
[4] Boff, op. cit., p. 68
[5] Sobrino, Jon, Fora dos pobres não há salvação, Paulinas, São Paulo, 2008, a citação foi recolhida por Sobrino, p. 55
[6] A expressão é de Jon Sobrino, o.cit. p. 54
[7] Cesareia, Basílio de, Homilia contra os Ricos, in A Pobreza na Igreja, Livraria Duas Cidades, São Paulo, 1968, p. 15-16
[8] Crisóstomo, João, Sobre as palavras do profeta Davi, in A Pobreza na Igreja, Livraria Duas Cidades, São Paulo, 1968, p.19-30
[9] Idem, p. 32
[10] Ambrósio, Aurélio, De Nabuthae historia, in A Igreja e a opção pelos pobres, Gráfica de Coimbra, Coimbra, 1988, p. 60
[11] Boff, op. cit., p. 69
[12] Idem, p. 69
[13] Chouraqui, André, A Bíblia – Lucas, Imago Editora, Rio de Janeiro, 1996, p. 109
[14] Gutierrez, op. cit., p. 337
[15] Pagola, José Antonio, Jesus e o dinheiro, Editora Vozes, Petrópolis, 2014, p. 41
[16] Pagola, op. cit., p. 44
[17] Metz, Johann Baptist, Memoria Passionis, Sal Terrae, Bilbao, 2007, p. 165-166
[18] Metz, op. cit., p. 164
[19] Pagola, op. cit., p. 50-51
[20] Pagola, idem, p. 47-48
[21] Morano, Carlos Dominguez, Crer depois de Freud, Edições Loyola, São Paulo, 2003, p.233
[22] Idem, p.234
[23] Idem, p.236
[24] Idem, p. 239
[25] Idem, p. 240
[26] Idem, p.240
[27] Idem, p. 243
[28] Idem, p. 245
[29] Idem, p. 246
[30] Idem, ver nota 34 p. 245
[31] Chouraqui, o.cit. p. 117
[32] Morano, op. cit, p. 246-247
[33] Idem, p. 248
[34] Idem, 250
[35] Idem, 252-253
[36] Idem, p. 253
[37] A visita a Michel Temer, em 10 de outubro de 2016, foi liderada pelos cardeais arcebispos do Rio, dom Orani Tempesta, e de São Paulo, dom Odilo Pedro Scherer
[38] Gutierrez, op. cit., p. 363
[39] Sobrino sofreu uma agressiva “notificação” pela Congregação para a Doutrina da Fé, em 2006, no papado de Bento XVI. Leia o artigo sobre o assunto escrito à época pelo teólogo brasileiro Faustino Teixeira clicando aqui.
[40] Sobrino, op. cit., p. 45

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