Vida Cristã - Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil - OFM

Páscoa da Ressurreição

Páscoa da Ressurreição

Discípulos do Ressuscitado

 

Frei Gustavo Medella

“Tiraram o Senhor do túmulo!” (Jo 20,2b). O susto inicial de Maria Madalena aos poucos vai dando lugar a um sentimento de vitória. Em Jesus, a vida venceu a morte. O Senhor não foi tirado do túmulo. Ele mesmo venceu a morte e moveu a pedra da escuridão, do abandono e da solidão, possibilitando ao ser humano fazer a experiência do amor incondicional que Deus tem para com seus filhos e filhas.

Páscoa é vida nova, é ressurreição! Também é verdade que, por outro lado, temos vivido um período que mais se assemelha ao tempo da escuridão do túmulo. A pandemia, com seus riscos e com os medos e perdas que ela traz, faz-nos pensar que este tempo de sepultura não vai passar.

No entanto, a mensagem do Ressuscitado deve nos tomar a partir de dentro, a fim de que possamos enxergar diante de nós um caminho de esperança, marcado pela vacina, pela responsabilidade social, pela solidariedade fraterna, pelo respeito à nossa Casa Comum e pela adoção de todas as medidas de cuidado recomendada pelas autoridades da saúde e da ciência. Agindo desta forma, seremos verdadeiros promotores da Ressurreição, dando um testemunho de vida, que se transmite pelas nossas palavras e, principalmente, através de nossas atitudes. Afinal, somos discípulos e discípulas do Ressuscitado!

Feliz Páscoa!


FREI GUSTAVO MEDELLA, OFM, é o atual Vigário Provincial e Secretário para a Evangelização da Província Franciscana da Imaculada Conceição. Fez a profissão solene na Ordem dos Frades Menores em 2010 e foi ordenado presbítero em 2 de julho de 2011..


Imagem ilustrativa de Frei Fábio Melo Vasconcelos

Leituras bíblicas para este domingo

Primeira Leitura: At 10,34a.37-43

Naqueles dias, 34aPedro tomou a palavra e disse: 37“Vós sabeis o que aconteceu em toda a Judeia, a começar pela Galileia, depois do batismo pregado por João: 38como Jesus de Nazaré foi ungido por Deus com o Espírito Santo e com poder. Ele andou por toda a parte, fazendo o bem e curando a todos os que estavam dominados pelo demônio; porque Deus estava com ele.

39E nós somos testemunhas de tudo o que Jesus fez na terra dos judeus e em Jerusalém. Eles o mataram, pregando-o numa cruz.

40Mas Deus o ressuscitou no terceiro dia, concedendo-lhe manifestar-se 41não a todo o povo, mas às testemunhas que Deus havia escolhido: a nós, que comemos e bebemos com Jesus, depois que ressuscitou dos mortos.

42E Jesus nos mandou pregar ao povo e testemunhar que Deus o constituiu Juiz dos vivos e dos mortos.

43Todos os profetas dão testemunho dele: “Todo aquele que crê em Jesus recebe, em seu nome, o perdão dos pecados”.

– Palavra do Senhor.


Responsório (Sl 117)

— Este é o dia que o Senhor fez para nós:/ alegremo-nos e nele exultemos!
— Este é o dia que o Senhor fez para nós:/ alegremo-nos e nele exultemos!

— Dai graças ao Senhor, porque ele é bom!/ “Eterna é a sua misericórdia!”/ A casa de Israel agora o diga:/ “Eterna é a sua misericórdia!”

— A mão direita do Senhor fez maravilhas,/ a mão direita do Senhor me levantou./ Não morrerei, mas ao contrário, viverei/ para contar as grandes obras do Senhor!

— A pedra que os pedreiros rejeitaram,/ tornou-se agora a pedra angular;/ pelo Senhor é que foi feito tudo isso!/ Que maravilhas ele fez a nossos olhos!


Segunda Leitura: Cl 3,1-4

Leitura da Carta de São Paulo aos Colossenses:
Irmãos: 1Se ressuscitastes com Cristo, esforçai-vos por alcançar as coisas do alto, 2onde está Cristo, sentado à direita de Deus; aspirai às coisas celestes e não às coisas terrestres. 3Pois vós morrestes, e a vossa vida está escondida, com Cristo, em Deus.
4Quando Cristo, vossa vida, aparecer em seu triunfo, então vós aparecereis também com ele, revestidos de glória.

– Palavra do Senhor.


Jesus não está morto
Evangelho: Jo 20,1-9 (ou na Missa vespertina: Lc 24,13-35)

* 1 No primeiro dia da semana, Maria Madalena foi ao túmulo de Jesus bem de madrugada, quando ainda estava escuro. Ela viu que a pedra tinha sido retirada do túmulo. 2 Então saiu correndo e foi encontrar Simão Pedro e o outro discípulo que Jesus amava. E disse para eles: «Tiraram do túmulo o Senhor, e não sabemos onde o colocaram.» 3 Então Pedro e o outro discípulo saíram e foram ao túmulo. 4 Os dois corriam juntos. Mas o outro discípulo correu mais depressa do que Pedro, e chegou primeiro ao túmulo. 5 Inclinando-se, viu os panos de linho no chão, mas não entrou. 6 Então Pedro, que vinha correndo atrás, chegou também e entrou no túmulo. Viu os panos de linho estendidos no chão 7 e o sudário que tinha sido usado para cobrir a cabeça de Jesus. Mas o sudário não estava com os panos de linho no chão; estava enrolado num lugar à parte. 8 Então o outro discípulo, que tinha chegado primeiro ao túmulo, entrou também. Ele viu e acreditou. 9 De fato, eles ainda não tinham compreendido a Escritura que diz: «Ele deve ressuscitar dos mortos.» 10 Os discípulos, então, voltaram para casa.


* 20,1-10: A fé na ressurreição tem dois aspectos. O primeiro é negativo: Jesus não está morto. Ele não é falecido ilustre, ao qual se deve construir um monumento. O sepulcro vazio mostra que Jesus não ficou prisioneiro da morte. O segundo aspecto da ressurreição é positivo: Jesus está vivo, e o discípulo que o ama intui essa realidade.

Bíblia Sagrada – Edição Pastoral

Reflexão do exegeta Frei Ludovico Garmus

Domingo da Páscoa, ano A, B e C

 Oração: “Ó Deus, por vosso Filho Unigênito, vencedor da morte, abristes hoje para nós as portas da eternidade. Concedei que, celebrando a ressurreição do Senhor, renovados pelo vosso Espírito, ressuscitemos na luz da vida nova”.

  1. Primeira leitura: At 10,34a.37-43

Comemos e bebemos com ele depois que ressuscitou dos mortos.

Lucas traz um exemplo de como poderia ser a pregação inicial dos apóstolos (querigma), testemunhas da ressurreição de Cristo, para os que ouviram falar de Jesus, mas ainda não conheciam a fé cristã. Pedro está na casa de Cornélio, comandante do exército romano, que o convidou para que falasse sobre Jesus de Nazaré algo mais do que ele já conhecia. Por isso, Pedro não perde tempo em falar de coisas já conhecidas: “Vós sabeis o que aconteceu em toda a Judeia, a começar pela Galileia, depois do batismo pregado por João”. Invertendo a frase, temos a estrutura dos evangelhos chamados sinóticos (Mateus, Marcos e Lucas): atividade de João Batista, atividade de Jesus na Galileia, paixão e morte de Jesus na Judeia. Pedro afirma que Jesus andou por toda a parte fazendo o bem, porque “foi ungido por Deus com o Espírito Santo e com poder” (v. 38). Apesar do bem que Jesus fazia na terra dos judeus e em Jerusalém, acabou sendo morto, pregado numa cruz. Mas Deus o ressuscitou ao terceiro dia e Jesus se manifestou a eles. Os apóstolos foram escolhidos como testemunhas qualificadas, porque “comeram e beberam com Jesus depois que ressuscitou dos mortos”. Jesus foi constituído por Deus como Juiz dos vivos e dos mortos. Quem nele crê recebe o perdão dos pecados.

Salmo responsorial

Este é o dia que o Senhor fez para nós:

alegremo-nos e nele exultemos.

  1. Segunda leitura: Cl 3,1-4

Esforçai-vos por alcançar as coisas do alto, onde está Cristo.

O autor do texto que ouvimos convida os cristãos a guiarem sua vida pelos valores celestes e não pelos da terra. O cristão deve morrer para tudo que leva ao pecado, a fim de viver uma vida nova em Cristo. Isso é simbolizado pelo batismo: No símbolo de imersão na água batismal morre o homem velho e, ao emergir, nasce o homem novo, para viver uma vida nova em Cristo. Como Cristo ressuscitou e está com Deus, diz o autor, nossa vida “está escondida, com Cristo, em Deus”. Esta vida se manifestará quando Cristo voltar triunfante em sua glória, no fim dos tempos. É o que diz Paulo ao falar da ressurreição dos mortos: “Cristo ressuscitou dos mortos como o primeiro dos que morreram”. Por isso, “assim, em Cristo todos reviverão. Cada qual, porém, em sua ordem: Cristo como primeiro fruto, em seguida os que forem de Cristo por ocasião de sua vinda” (1Cor 15,20-23). Quando isso acontecer, “o último inimigo a ser vencido será a morte” (1Cor 15,26). Para Marta, que chorava a morte de seu irmão Lázaro, Jesus diz: “Eu sou a ressurreição e a vida. Quem crê em mim, ainda que esteja morto, viverá” (Jo 11,25).

Sequência

Cantai, cristãos, afinal: “Salve, ó vítima pascal”!

Cordeiro inocente, ó Cristo abriu-nos do Pai o aprisco.

Por toda ovelha imolado, do mundo lava o pecado.

Duelam forte e mais forte: é a vida que enfrenta a morte.

O rei da vida, cativo, é morto, mas reina vivo!

Responde, pois, ó Maria: no teu caminho o que havia?

“Vi Cristo ressuscitado, o túmulo abandonado.

Os anjos da cor do sol, dobrado ao chão o lençol…

O Cristo, que leva aos céus, caminha à frente dos seus!”

Ressuscitou de verdade. Ó Rei, ó Cristo, piedade!

Aclamação ao Evangelho: Aleluia, Aleluia, Aleluia.

O nosso cordeiro pascal, Jesus Cristo, já foi imolado.

Celebremos, assim, esta festa, na sinceridade e verdade.

  1. Evangelho: Jo 20,1-9

Ele devia ressuscitar dos mortos.

No primeiro dia da semana, Maria Madalena vai de madrugada ao túmulo e encontra a pedra removida. É uma das mulheres que estavam junto à cruz, com a mãe de Jesus e o discípulo que Jesus amava. Não vai ao túmulo para ungir o corpo de Jesus, como as mulheres em Mc 16,1, pois Nicodemos e José de Arimateia já o tinham feito, usando aromas e trinta quilos de mirra e aloés (Jo 19,39-40). Como a mulher do Cântico dos Cânticos (Ct 3,1), bem de madrugada, ainda “no escuro”, ela sai para visitar o sepulcro e chorar o seu amado. Vendo a pedra removida, sai correndo para avisar a Pedro e ao outro discípulo: “Tiraram o Senhor do sepulcro e não sabemos onde o puseram”. Os dois discípulos também correm para verificar o que aconteceu e buscar uma explicação. Com o Senhor morto e o sepulcro fechado, a vida parecia ter parado para eles. Mas a pedra, que parecia selar para sempre o destino do Mestre, foi removida e o sepulcro estava aberto e vazio. Primeiro entra Pedro e encontra apenas as faixas de linho, que envolviam o corpo, e o sudário, que envolvia a cabeça de Jesus. Depois entra o outro discípulo e encontra as mesmas coisas que Pedro; mas, ele “viu e creu”.

Por que Pedro viu apenas viu um sepulcro vazio e panos espalhados pelo chão? Por que o discípulo amado, a testemunha por excelência, “viu e creu”? Pedro pode ter pensado o que Madalena pensou: alguém roubou o corpo de Jesus, boato mencionado por Mateus. O discípulo amado, fiel a Jesus até aos pés da cruz, acreditou nas Escrituras que anunciam sua ressurreição. Porque amava, viu não apenas um sepulcro vazio, mas também os panos esvaziados, afrouxados, testemunhando a vitória de Jesus sobre a morte, porque tinha o poder de dar sua vida e de retomá-la (Jo 10,17-18).

Por trás do discípulo amado pode estar a figura do Apóstolo João. Representa, também, todo o cristão iniciado na fé, que ama o Senhor, como Maria Madalena; e o discípulo amado, é amado pelo Senhor. O discípulo amado é, por excelência, a testemunha de Cristo Ressuscitado. Ele representa pessoas como você e eu, que não viram Cristo ressuscitado, mas nele creem e o amam. Ele não crê apenas porque “viu” o Cristo Ressuscitado, como Maria Madalena e os Apóstolos. Crê porque compreende a Escritura, como os iniciados, “segundo a qual Cristo devia ressuscitar dos mortos”.


FREI LUDOVICO GARMUS, OFMé professor de Exegese Bíblica do Instituto Teológico Franciscano de Petrópolis (RJ). Fez mestrado em Sagrada Escritura, em Roma, e doutorado em Teologia Bíblica pelo Studium Biblicum Franciscanum de Jerusalém, do Pontifício Ateneu Antoniano. É diretor industrial da Editora Vozes e editor da Revista “Estudos Bíblicos”, editada pela Vozes. Entre seus trabalhos está a coordenação geral e tradução da Bíblia Sagrada da Vozes.

Quando a dúvida ajuda a fé

Frei Clarêncio Neotti

Um dos grandes argumentos usados pelos Evangelhos em favor da ressurreição é o do sepulcro vazio. São muitos os que constataram essa verdade (1 Cor 15,5.7). Anás e Caifás tentaram transtornar o fato, dando dinheiro grosso aos guardas do sepulcro para que espalhassem que os Apóstolos haviam, à noite, roubado o corpo de Jesus (Mt 28,11.15). A própria Maria Madalena, que foi cedo à sepultura, ao encontrá-la aberta e vazia, pensou em roubo do corpo (Jo 20,2.15). Não passava inda pela cabeça de ninguém que Jesus devia ressuscitar (v. 9). Ele predissera várias vezes a ressurreição (Mt 17,22; 20,19; 27,63), mas morte era morte. Um grupo havia enterrado Jesus morto. Nem os ajudou a lembrança da ressurreição do jovem de Naim, a caminho do cemitério (Lc 7,11-17). Nem mesmo a rumorosa ressurreição de Lázaro (Jo 11,43-44) lhes abrira os olhos para a possibilidade de o próprio Jesus ressuscitar.

Para nós hoje é até bom que os Apóstolos e os discípulos tenham sido tão duros de acreditar na ressurreição. Com isso buscaram para nós os argumentos. Afastaram a hipótese da mentira, da impostura, do roubo, da ilusão. Pedro dirá no dia de Pentecostes: “Deus ressuscitou-o e disso todos nós somos testemunhas” (At 2,32). Ainda hoje o cristão pode ser definido como ‘testemunha da Ressurreição do Senhor’. Escrevendo aos cristãos de Corinto, onde havia alguns que duvidavam da ressurreição, Paulo é taxativo: “Se Cristo não ressuscitou, é vã a nossa pregação e é vã a nossa fé” (1 Cor 15,14), e acrescenta: “Se só temos esperança em Cristo para esta vida, somos os mais miseráveis de todos os homens” (15,18).


FREI CLARÊNCIO NEOTTI, OFMentrou na Ordem Franciscana no dia 23 de dezembro de 1954. Durante 20 anos, trabalhou na Editora Vozes, em Petrópolis. É membro fundador da União dos Editores Franciscanos e vigário paroquial no Santuário do Divino Espírito Santo (ES). Escritor e jornalista, é autor de vários livros e este comentário é do livro “Ministério da Palavra – Comentários aos Evangelhos dominicais e Festivos”, da Editora Santuário.

Ele vive e nos dá vida

Frei Almir Guimarães

Ó maravilha de amor pelo homens! Em seus pés e mãos inocentes, Cristo recebeu os cravos e suportou a dor; e eu, sem dor nem esforço, mas apenas pela comunhão em suas dores, recebo gratuitamente a salvação.
Das Catequeses de Jerusalém

♦ Celebrar é tornar atual, conhecida, divulgada alguma coisa, um evento que nos encheu de vida, de alegria, de esperança e de vigor: a chegada de um amigo, a volta de um filho querido depois de gestos de loucura e desvario, a lembrança de um amor que nos foi manifestado no passado. Celebrar a ressurreição de Jesus é fazer de sorte que a vida nova do Mestre seja para nós, hoje, luz para a caminhada, profunda alegria para nossa vida e claridade para o mundo. Importante o “hoje”. Somos chamados a viver a vida nova de Jesus. Páscoa, festa da vida. Convite a que vivamos intensamente, e não de maneira queixosa. Na medida em que os anos passam, mesmo sem nenhuma autorização de nossa parte, sentimos, cristãos que somos, que nossa vida se renova. É proibido envelhecer. Nossa nudez foi coberta com a veste de Cristo. Somos renascidos, “renatos”.

♦ Vida nova, vida no Senhor. Que bom, na manhã de Páscoa, ouvir Paulo a nos dizer: “Vós morrestes, e a vossa vida está escondida, com Cristo em Deus”. Vida, corpo, sonhos, esperas, anelos, casamento, paternidade, maternidade, coração, contradições, rejeições… tudo está escondido em Cristo Jesus. A glória da vida sem fim já habita em cada um de nós. Nada de pensamentos de morte. A vida venceu a morte.

♦ Não nos foi dado de ver o Senhor ressuscitado. Os apóstolos, os discípulos de Emaús, Maria Madalena disseram que o viram. Tomé, por sua vez, lamentou não tê-lo visto quando ele se tinha manifestado a seus companheiros. Precisava tocar com seus dedos suas feridas.

♦ Os apóstolos se tornaram testemunhas da ressurreição. Visão? Visão especial para testemunhar que, por sua pregação e jeito de viver, haveriam de nos dizer que a vida não é banal, que ela não existe para terminar de qualquer jeito. Ele vive, o Senhor vive e nos arrasta num movimento de vida. Temos a graça de crer em sua presença. Os que tiveram a graça de vê-lo ressuscitado no-lo garantem. Não podemos dizer outra coisa: somos profundamente felizes por crer na vida do corpo que veio de Maria, do condenado do Gólgota e que as graças da morte do Senhor redundaram em vida para nós que, apesar de toda fragilidade, renascemos nele. Vida, sempre a vida do Ressuscitado.

♦ Viera da parte do Pai. Tinha querido que os seus desígnios se inscrevessem nos projetos dos homens e das mulheres. Fez com que compreendêssemos que somente morrendo a nós mesmos renasceríamos na sua vida. Ele havia proposto um novo estilo de viver: os últimos seriam os primeiros, os que lavam os pés dos outros seriam príncipes, irmãos cuidam de irmãos e vivem como irmãos. Quis um mundo de transparência, de reza no quarto, de gestos colocados sem alarido. Pessoas simples. Nos que assim agem ele continua vivendo.

♦ Ele andou por toda a terra fazendo o bem, curando os que eram presa do mal. Conheceu a perseguição, a condenação, o sofrimento, a morte. Foi literalmente o grão que morre e que morrendo dá a vida. Quando seu peito estava para estourar inclinou a cabeça e nos deu o seu Espírito.

♦ Nada da reanimação de um cadáver. É ele, mas reconhecido nos gestos de amor sem limites e no despertar da fé nos corações adormecidos. Certeza nossa é que ele vive, transfiguradamente. Madalena, os discípulos de Emaús, os apóstolos viram o Senhor. Com seus olhos do rosto? Ou com a luminosidade do olhar da fé que enxerga além da barba, das pernas e do rosto? Sim, ele está presente. Presente de modo particular na comunidade dos fiéis que aprenderam a conjugar o verbo amar em todos os modos e tempos, nos sacramentos-sinais onde ele se imiscui, no pão branco e no vinho generoso e nos rostos contorcidos do mais humildes homens da face da terra.

♦ Na segunda leitura desta liturgia, Paulo pede que busquemos as coisas do alto. A vida espiritual consiste precisamente em buscar as coisas do alto. Um pensamento para terminar: “ A vida espiritual do batizado se delineia como dinâmica da espera do Senhor e como vida interior, não exibida nem gritada, mas envolta em discrição e pudor como pedem toda as realidades preciosas”.


Texto para meditação e reflexão

Explodindo de alegria

Das homilias de Santo Astério, bispo

rAlegre-se hoje a Igreja herdeira: Cristo, seu Esposo, depois da Paixão, ressuscitou! Ela, que chorou por sua paixão, alegre-se por sua ressurreição!

Alegre-se, Igreja-Esposa! A ressurreição do Esposo te levantou do chão, onde jazias prostrada, e eras pisoteada. Os pés da cortesã não mais dançam por causa da morte de João Batista, mas os da Igreja calcam a morte. A fé não é mais negada, e todos os joelhos se dobram; cessaram os sacrifícios, e os salmos brotam como flores. Não é mais a fumaça dos sacrifícios que se eleva, mas o incenso das orações: Minha oração suba a vós como o incenso (Sl 140,2). As imolações de animais não têm mais valor, depois que foi imolado o Cordeiro que tira o pecado do mundo.

Ó maravilha! A mansão dos mortos devorou o Cristo Senhor e não o digeriu. O leão engoliu o Cordeiro não pôde conserva-lo em seu estômago. A morte sorveu a vida, mas tomada de náuseas, os que anteriormente devorara. O gigante não conseguiu levar Cristo que morria; morto, ele tornou-se terrível para o gigante; lutou com alguém que estava vivo e esse caiu vencido pelo morto.

Um só grão foi semeado e o mundo inteiro alimentado. Imolado como homem, voltou à vida como Deus, dando a vida ao universo. Como ostra foi esmagado e como pérola adornou a Igreja. Como ovelha foi sacrificado, e como um pastor com o cajado, expulsou com a cruz a tropa dos demônios. Como uma lâmpada no candelabro, extinguiu-se na cruz e, como sol, levantou-se do túmulo. Presenciou-se um duplo prodígio: enquanto Cristo estava sendo crucificado, o dia era encoberto pelas trevas; e enquanto ressurgia, a noite brilhava como o dia.

Por que o dia escureceu? Por que acerca desse dia está escrito: Das trevas fez o seu esconderijo (Sl 17,2). E por que a noite brilhou como o dia? Porque o profeta disse: “Mesmo as trevas para vós não serão escuras, a própria noite resplandecerá como o dia”(Sl 138, 12).

Ó noite mais clara que o dia! Ó noite mais fúlgida que o sol! Ó noite mais alva que a neve! Ó noite mais brilhante que os archotes! Ó noite mais deleitável que o paraíso.
Ó noite livre das trevas! Ó noite que repeles o sono! Ó noite que ensinas a vigiar com os anjos! Ó noite terrível para os demônios! Ó noite desejo do ano!
Ó noite que apresentas a Igreja a seu Esposo! Ó noite que geras os recém-nascidos pelo batismo! Ó noite na qual o diabo adormecido foi desarmado! Ó noite na qual o herdeiro introduz a herdeira na herança!
Lecionário Monástico III., p. 21-22


Oração

Oração da Manhã de Páscoa
Dá-nos, Senhor, a coragem dos recomeços. Mesmo nos dias quebrados, faz-nos descobrir limiares límpidos. Não nos deixes acomodar ao saber daquilo que foi: dá-nos largueza de coração para abraçar aquilo que é. Afasta-nos do repetido, do juízo mecânico que banaliza a história, pois a desventra de qualquer surpresa e esperança. Torna-nos atônitos como os seres que florescem. Torna-nos livres, deslumbrantemente insubmissos. Torna-nos inacabados , como quem deseja e de desejo vive… Torna-nos confiantes como os que se atrevem a olhar tudo, e a si mesmos, uma primeira vez.


FREI ALMIR GUIMARÃES, OFMingressou na Ordem Franciscana em 1958. Estudou catequese e pastoral no Institut Catholique de Paris, a partir de 1966, período em que fez licenciatura em Teologia. Em 1974, voltou a Paris para se doutorar em Teologia. Tem diversas obras sobre espiritualidade, sobretudo na área da Pastoral familiar. É o editor da Revista “Grande Sinal”.

O novo rosto de Deus

José Antonio Pagola

Os discípulos de Jesus já não são mais os mesmos. O encontro com Jesus, cheio de vida, depois de sua execução, transformou-os totalmente. Eles começaram a vê-lo de maneira nova. Deus era o ressuscitador de Jesus. De pronto tiraram as consequências.

Deus é amigo da vida. Agora não restava mais nenhuma dúvida. O que Jesus havia dito era verdade: “Deus não é um Deus dos mortos, mas dos vivos”. Os humanos poderão destruir a vida de mil maneiras, mas, se Deus ressuscitou Jesus, isto significa que Ele só quer a vida para seus filhos. Não estamos sós nem perdidos diante da morte. Podemos contar com um Pai que, acima de tudo, inclusive acima da morte, quer ver-nos cheios de vida. Daí em diante só há uma maneira cristã de viver que assim se resume: trazer vida onde outros trazem morte.

Deus é dos pobres. Jesus o havia dito de muitas maneiras, mas não era fácil acreditar nele. Agora é diferente. Se Deus ressuscitou Jesus, quer dizer que é verdade: “Felizes os pobres, porque têm a Deus”. A última palavra não é de Tibério nem de Pilatos, a última decisão não é de Caifás nem de Anás. Deus é o último defensor dos que não interessam a ninguém. Só existe uma maneira de parecer-se com Ele: defender os pequenos e indefesos.

Deus ressuscita os crucificados. Deus reagiu diante da injustiça criminal daqueles que crucificaram Jesus. Se Ele o ressuscitou, é porque quer introduzir justiça diante de tanto abuso e crueldade que se comete no mundo. Deus não está do lado dos que crucificam, está com os crucificados. Só há uma maneira de imitá-lo: estar sempre junto dos que sofrem, lutar sempre contra os que fazem sofrer.

Deus secará nossas lágrimas. Deus ressuscitou Jesus. O rejeitado por todos foi acolhido por Deus. O desprezado foi glorificado. O morto está mais vivo do que nunca. Agora sabemos como é Deus. Um dia Ele “enxugará todas as nossas lágrimas, e não haverá mais morte, não haverá gritos nem fadigas. Tudo isto terá passado”.


JOSÉ ANTONIO PAGOLA cursou Teologia e Ciências Bíblicas na Pontifícia Universidade Gregoriana, no Pontifício Instituto Bíblico de Roma e na Escola Bíblica e Arqueológica Francesa de Jerusalém. É autor de diversas obras de teologia, pastoral e cristologia. Atualmente é diretor do Instituto de Teologia e Pastoral de São Sebastião. Este comentário é do livro “O Caminho Aberto por Jesus”, da Editora Vozes.

Ver Jesus com olhos pascais

Pe. Johan Konings

Todo evangelho de João serve para aprender a ver com olhos novos (veja a história do cego, Jo 9). Não com os olhos da carne (= meramente humanos), mas com olhos iluminados pelo sopro do Espírito Divino que se manifestou na ressurreição de Jesus. Neste dia de Páscoa, a liturgia apresenta o evangelho de Jo 20, 1-9, mas vamos olhar para o conjunto Jo 20, 1-18. Jo 20,1-18 narra uma história em duas cenas. A primeira cena começa com Maria Madalena, que logo no primeiro dia da semana (nosso domingo!), passado o repouso do sábado, vai ao sepulcro para chorar Jesus. Mas que surpresa, quando vê a pedra que fechava o túmulo rolada para o lado! Ela corre para avisar os seguidores de Jesus, Simão Pedro e aquele outro discípulo, o melhor amigo de Jesus (e cujo nome nunca é falado). Eles correm ao túmulo. Pedro chega depois do outro, mas, como é mais digno, entra primeiro e constata: de Jesus nenhum sinal, mas roubado não foi, pois a mortalha e o sudário estão cuidadosamente arranjados! Quem tira a conclusão é o discípulo amigo, que representa aqueles que compreendem Jesus porque o comungam com ele pelo amor. Ele conhece Jesus não só com os olhos, mas com o coração. Ele entra no sepulcro, vê e crê! É o primeiro a crer na ressurreição de Jesus, embora vendo apenas os sinais de sua ausência.

Segunda cena: enquanto Pedro e o outro discípulo voltam para casa, Madalena, que não entrara juntamente com eles, aproxima-se do túmulo, constata a ausência de Jesus e vê dois misteriosos mensageiros – duas testemunhas? – sentados no lugar onde ele ficara. Perguntam por que chora, e ela responde que “levaram meu Senhor” e que não sabe “onde o puseram”. Voltando-se, vê um outro personagem e pensa que é o guarda, que certamente não gostara de encontrar aquele crucificado no túmulo destinado para seu dono, rico proprietário. Madalena declara-se disposta a cuidar do corpo. E então o desconhecido a chama com o nome, no idioma dela: “Mariamne”. E ela o reconhece e responde, na mesma língua: “Rabuni” (= “mestre”).

Então, o evangelista conta um detalhe que é central para entender o sentido da cena. Maria se joga aos pés de Jesus e quer abraçá-los, à maneira oriental, em veneração. Jesus a impede: “Não me segures, pois ainda não subi para junto do Pai”. Ela deve deixar Jesus livre, pois está subindo para a glória do Pai. Não deve segurar Jesus como se aí estivesse simplesmente aquele que ela seguiu desde os dias da Galileia. “É bom que eu me vá”, disse Jesus (Jo 16,7).

A ausência física de Jesus é necessária para que ele esteja conosco de modo glorioso, sem as restrições da existência na carne. É isso que o discípulo-amigo havia compreendido ao ver o túmulo vazio: ele creu. Madalena também crê, e recebe a missão de ser a primeira a anunciar a ressurreição aos irmãos (v. 17-18).

Não nos apeguemos exclusivamente ao Jesus das estradas da Galileia, o Jesus dos milagres e das parábolas. Deixemos que ele se torne ausente, passando pela cruz, assumida por amor fiel aos seus, para se tornar presente, de outro modo, na glória da ressurreição, que significa que sua crucificação foi “endossada” por Deus como expressão de seu amor. O Jesus da Páscoa é incomparavelmente mais presente para nós que o das estradas da Galileia. Este deixou suas pegadas nas narrativas dos apóstolos e dos evangelistas. Mas o Ressuscitado, que só pode ser visto com os olhos da fé, está conosco nas estradas da América Latina, hoje.


PE. JOHAN KONINGS nasceu na Bélgica em 1941, onde se tornou Doutor em Teologia pela Universidade Católica de Lovaina, ligado ao Colégio para a América Latina (Fidei Donum). Veio ao Brasil, como sacerdote diocesano, em 1972. Em 1985 entrou na Companhia de Jesus (Jesuítas) e, desde 1986, atua como professor de exegese bíblica na FAJE, Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia, em Belo Horizonte. Este comentário é do livro “Liturgia Dominical, Editora Vozes.

Reflexão em vídeo de Frei Gustavo Medella